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Tenho vindo a publicar letras (de autores que já partiram) sem indicação de intérpretes ou compositores na esperança de obter informações detalhadas sobre os temas.
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As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: por falta de informação nem sempre são mencionados os criadores dos temas aqui apresentados.
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Esquina de rua

João Fezas Vital / Pedro Rodrigues
Repertório de Carlos Macedo
Versão original do livro do autor

Tinhas o corpo cansado
E a cidade era tão fria
Ninguém dormia a teu lado
Ninguém sabia que amado
O teu corpo se acendia

Andavas devagarinho 
Pelas ruas de Lisboa
Em busca de algum carinho
Que te fosse pão e vinho 
E te desse noite boa

Eras mansa se sorrias 
E mais nova se choravas
As palavras que dizias
Tinham dores e alegrias 
Mas só ternura deixavas

Por ti, não houve ninguém 
Para quem te desses nua
Podias ter sido mãe!
Podias ter sido mãe 
E foste esquina de rua

Cavalo ruço

Paulo José Carvalho Vidal / Frederico Valério
Repertório de Nuno Câmara Pereira

Eu tive um cavalo ruço

Que se chamava gingão
De uma capona bravia

Que eu queria e sentia
Como a um bom irmão

Era o cavalo mais lindo 
Que nasceu no Ribatejo
Eu nunca tive outro assim

Tão manso que enfim 
Ainda o desejo

Saltava que era um primor
 
Tudo fazia com graça
Era bom a tourear

A derribar sem vacilar 
No campo ou na praça

Corria lebres com gosto 
E nenhum galgo o passava
E quando o viam a correr

Com prazer, sem sofrer 
A todos pasmava

A brincar lá na lezíria
 
O iam admirar
Ainda parece que o vejo

Á beira do Tejo 
A correr e a saltar

Foi um toiro que o matou 
Num dia de infelicidade
Eu nunca mais montei

Nem sei se o farei 
Tal é a saudade

Não acordes minha dor

António Campos / Jaime Santos
Repertório de Fernanda Maria
Este poema também foi gravado por Cidália Moreira
na música do Fado Porto de Cavalheiro Júnior

Quando voltares, tem cautela
Pisa bem devagarinho
Não acordes minha dor
Transforma-te numa estrela
Vem com nuvens de carinho
E traz-me um pouco de amor

Abre a porta levemente
Sobe a escada passo a passo 
Lembra-te do tempo antigo
Dá-me um beijo docemente
Acorda-me num abraço 
Estarei sonhando contigo

Depois, mente-me em segredo
Diz que tiveste saudade 
Deves mentir, meu amor
É que eu tenho muito medo
Que a amargura da verdade 
Venha acordar minha dor

Não volto a fazer as pazes

Joaquim Pimentel / Jorge Barradas
Repertório de Manuel Fernandes


Já tantas vezes disseste 
Vou deixar-te, vou partir
Já tantas vezes disseste 
Que se quiseres podes ir

Podes ir porque eu não vou 
Atrás de ti, como outrora
Já tantas vezes disseste 
Que se quiseres, vai agora

Tudo o que é demais enjoa
Sempre a mesma coisa cansa
E tu já não és criança 

P'ra não saberes o que fazes
Se queres ir embora vai 

Que eu juro por minha fé
Daqui não arredo pé

Nem volto a fazer as pazes

Pareces um catavento 
Na maneira de pensar
De manhã, queres ir embora 
À noite, já queres ficar

Vê se mudas de feitio 
E ouve um conselho meu
Se continuas assim 
Quem vai embora sou eu

Maria Madalena

Mote de Augusto Gil / Glosa de Gabriel de Oliveira
Popular *fado das horas*
Repertório de Lucília do Carmo

Quem por amor se perdeu
Não chore, não tenha pena
Uma das santas do céu
Foi Maria Madalena


Desse amor que nos encanta 
Até Cristo padeceu
Para poder tornar santa 
Quem por amor se perdeu

Jesus só nos quis mostrar 
Que o amor não se condena
Por isso, quem sabe amar 
Não chore, não tenha pena

A Virgem Nossa Senhora 
Quando o amor conheceu
Fez da maior pecadora 
Uma das santas do céu

E de tanta que pecou 
Da maior à mais pequena
Aquela que mais amou 
Foi Maria Madalena
- - -
Quadra original in' livro *Luar de Janeiro* de Augusto Gil
Quem por amor se perdeu
Não chore, não tenha pena
Uma das santas do céu
É Maria Madalena

Confesso

Frederico Valério / José Galhardo
Repertório de Amália

Confesso que te amei, confesso
Não coro de o dizer, não coro
Pareço um outro ser, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro

Fugir do amor tem seu preço
E as noites em claro atravesso
Junto do meu travesseiro;
Começo a ver se te esqueço
Mas lá perdão, não te peço
Sem que me peças primeiro


De rastos a teus pés
Perdida te adorei
Até que me encontrei perdida
Agora já não és

Na vida o meu senhor
Mas foste o grande amor da minha vida


Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem p'ra te ouvir por carta
Convences as mulheres, convences
Estou farta de o saber, estou farta

Não me escrevas mais
Nem me incenses
Quero que tu me diferences
Dessas que a vida te deu;
A mim já não me pertences
Mas lá vencer-me, não vences
Porque vencida estou eu

Castigo de Deus

Letra e música de Frederico de Brito
Repertório de Alice Maria

Pecados, pecados e os dias passados
De tantos pecados d’amor 
O que é que nos resta?
Se a vida é o fruto de tantos pecados
Sem termos pecados 
A vida não presta

Eu sei que pequei, eu sei
Mas ninguém me diga
Que a vida nos vem por bem
Que Deus não castiga

Castigo de Deus p’los pecados meus
Pedi-te uma esmola, Deus deu-me um castigo
Porque me disseste que fosse com Deus
Que fosse com Deus
E ao fim combinamos que eu fosse contigo
E ao fim combinamos que eu fosse contigo

Pecados, pecados dos dias passados
Sem ter uma esperança sequer
Sem ter um carinho
Já não me entendia com tantos pecados
E um dia esqueci-me 
D'alguns p’lo caminho

Não sei se os remi, não sei
A paixão cegou-me
Pagar o que fiz não quis 
E Deus castigou-me

Um Porto amigo

José Fernandes Castro / Jorge Fontes *alma do Ribatejo*
Repertório de Manuel Barbosa

Cidade velha cascata
Com ar de senhora fina
Tens no teu rio de prata
A água mais cristalina

Nos teus braços de menina 
Embalo a minha cantiga
Teu encanto me fascina 
Meu Porto cidade amiga

No meu Porto
Capital das tradições
Já não existem pregões 
Com o sabor da saudade
No meu Porto 
Não há barreiras ao tempo
Porque nos sopros do vento 
Há vozes em liberdade

Porto amigo 
Não envelheças depressa
Porque tens uma promessa 
Que decerto cumprirás
Tens contigo
a obrigação moral
De transformar Portugal 
Num paraíso de paz

Tão singela tão formosa 
Tão airosa tão verdade
Tens perfil de linda rosa 
Com aromas sem idade
Tens força de tempestade 
Num poema sempre novo
Tens luar de mocidade 
Na tua alma de povo

Dá tempo ao tempo

António Campos / Joaquim Pimentel
Repertório de António Mourão

Nunca pensei 
Depois de tanta amizade
Ficasse tanta maldade
Escondida no teu peito
Nunca pensei 
Mas teu dia há-de chegar
E por certo hás-de pagar
Por tanto mal que tens feito

Dá tempo ao tempo
Ri, enquanto tens vontade
Talvez um dia, a saudade

Não te deixe rir assim
Dá tempo ao tempo

Que o tempo corre e não cansa
E eu não perdi a esperança

De te ver chorar por mim

Pouco me importa 
O que dizes e o que pensas
Nem faço caso ás ofensas 
Que vives fazendo à toa
Tenho a certeza 
Que esse teu riso atrevido
Há-de um dia ser vencido 
Porque o tempo não perdoa

Saudades do Brasil em Portugal

Vinícius de Moraes / Homem Cristo
Repertório de João Braga

O sal das minhas lágrimas de amor 
Criou o mar
Que existe entre nós dois
P'ra nos unir e separar

Pudesse eu te dizer 
Da dor que dói dentro de mim
Que mói meu coração
Nesta paixão que não tem fim

Ausência tão cruel
Saudade tão fatal
Saudades do Brasil 
Em Portugal

Meu bem
Sempre que ouvires um lamento
Crescer desolador na voz do vento
Sou eu em solidão pensando em ti
Chorando todo o tempo que perdi

Olhos castanhos

Letra e música de: Alves Coelho Filho
Repertório de Francisco José

Teus olhos castanhos 
De encantos tamanhos
São pecados meus
São estrelas fulgentes
Brilhantes, luzentes
Caídas dos céus

Teus olhos risonhos
São mundos, são sonhos
São a minha cruz
Teus olhos castanhos 
De encantos tamanhos
São raios de luz

Olhos azuis são ciúme
E nada valem para mim
Olhos negros são queixume
De uma tristeza sem fim

Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais

Eu cheguei muito depois

Nelson de Barros / Fernando Santos / Frederico Valério
Repertório de Helena Tavares

Não tenho culpa de teres gostado
Nem culpa de nós gostarmos os dois
Desculpa, não soube que eras casado
Tinhas já outra a teu lado
E eu cheguei muito depois

Felizes... sei que p'ra serem felizes
Lhe dizes que houve entre nós um adeus
É triste saber que dormes com ela
E que o ciúme provoca o pranto nos olhos teus
Traíste o meu amor e o dela
Trouxeste beijos, por troca
Levaste alguns que eram meus

Pensava ter-te p'ra sempre a meu lado
Foi sonho que bem depressa morreu
Suponho tudo entre nós acabado
Tu no teu lar sossegado
Pois p'ra sofrer basto eu

Embora, leva o amor, vai-te embora
Agora que a flor secou fez-se em pó

Já cansa uma ilusão trazer morta
Já a vergonha se esconde
Na minha dôr que faz dó
A esperança ao bater á minha porta
Ninguém, ninguém lhe responde
Pois lá dentro estou eu só

Duas glórias

João da Mata / Popular *fado menor* 
Repertório de Ercília Costa

De tão sagradas memórias 
Ambas de iguais sentimentos 
Duas mulheres, duas glórias 
Dois nomes, dois sofrimentos 

Uma andou p'la Mouraria 
E p'lo Campo de Santana 
Conduzindo a nostalgia
Nos seus olhos de cigana 

A outra, em salões doirados 
Da triste sorte irmã gémea
Trazia os dias contados
Nos seus olhos de boémia

Souberam ambas cantar 
O fado que as embalava
Se uma cantava a chorar 
A outra, a chorar cantava

Cada qual em sua era 
Dois nomes cheios de glória
Um... a Maria Severa 
Outro... a Maria Vitória

A primeira mal passando 
E as segunda mal vivendo
Severa morreu cantando 
Vitória cantou morrendo

O amor e a guitarra portuguesa

José Fernandes Castro / Fontes Rocha
Repertório de Joaquim Macedo

Eu vi o teu olhar de pomba mansa
No brilho duma estrela apaixonada
Então senti o sol da esperança
Queimar a minha alma enfeitiçada

Eu vi o teu sorriso deslumbrante
Nos versos dum poema de tristeza
Então senti na alma soluçante
Gemer uma guitarra portuguesa

O céu que me cobriu com o seu manto
Marcou de solidão a minha dôr
Meu peito recolheu o sol do pranto
Que choro, por não ter o teu amor

Agora, quando sofro a tua ausência
Sou alma repleta de incerteza
Então, vou rebuscar tua presença
Na voz duma guitarra portuguesa

Não me importa a cor da pele

Silva Ferreira / Adriano Batista *fado macau*
Repertório de Rodrigo

Não me importa a cor da pele
Nem a cor duma bandeira
Homem p'ra mim é aquele
Que diz a verdade inteira

Homem é quem põe a cara 
Junto ao sol que vai nascer
E tem a virtude rara 
De mais ser, do que parecer

Homem, é quem não se vende
 
Quem não é capacho ao trono
É quem sofre mas não mente
 
Quem não ser voz do dono

Pouco conta o que parece 
Conta mais o que o guia
Porque o sol quando amanhece 
Mesmo com nuvens faz dia

Por isso eu canto àquele
 
Que diz a verdade inteira
Não me importa a cor da pele
Nem a cor duma bandeira

Fado Malhoa

José Galhardo / Frederico Valério 
Repertório de Amália 
Criação de Amália Rodrigues, constituindo a curta-metragem Fado Malhoa
realizada por Augusto Fraga em 1947, encenando filmicamente o famoso 
quadro de José Malhoa.
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia 
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção* 
Alguém que Deus já lá tem
Pintor consagrado 
Que foi bem grande e nos dói 
Já ser do passado
Pintou numa tela
Com arte e com vida 
A trova mais bela 
Da terra mais querida 

Subiu a um quarto que viu 
À luz do petróleo 
E fez o mais português 
Dos quadros a óleo
Um Zé de samarra 
Co'amante a seu lado
Com os dedos agarra
Percorre a guitarra 
E ali vê-se o fado

Faz rir a ideia de ouvir 
Com os olhos, senhores 
Fará, mas não p'ra já 
O viu... mas em cores 
Há vozes de Alfama 
Naquela pintura 
E a banza derrama 
Canções de amargura 

Dali vos digo que ouvi 
A voz que se esmera 
Boçal dum faia banal
Cantando a Severa 
Aquilo é bairrista
Aquilo é Lisboa
Boémia e fadista
Aquilo é da artista
Aquilo é Malhoa

O silêncio das palavras

Letra e música de Nel Garcia
Repertório de Leonor Santos


Não fales, olha-me nos olhos
Não digas, p'ró mundo não saber
Que o nosso querer
É mais forte que a palavra amor
Olha-me nos olhos p'ra só eu entender

O verde é tão verde, luz do teu olhar
Ribeira, com sede, doçura do mar
Oh mundo louco
Tão longe e tão perto um do outro
Havemos de nos encontrar


Não fales, olha-me nos olhos
Não digas, pró mundo não saber
Que o nosso querer
É mais forte que a palavra amor
Olha-me nos olhos p'ra só eu entender

Silêncio ilusão, gelado é calor
O inverno é verão, o negro tem cor
Bastam teus modos
Para enfrentar tudo e todos
E deixar vencer o amor

Dei-te um nome em minha cama

Vasco de Lima Couto / José António Sabrosa
Repertório de Beatriz da Conceição

Dei-te um nome em minha cama 
Aberta no meu outono
Depois amei-te em silêncio
 
Que é uma forma de abandono;
Dei-te um nome em minha cama
Rasgada em lençóis de sono

Tentei ser tudo o que era 
Nas horas da mão parada
Corpo e campo aberto ao vento
Que encaminha a madrugada;
Tentei ser a primavera

E cantei meu triste nada

Vi-te ao canto da memória
 
Por te viver e sonhar
Amor d'amor sem glória
 
Como um rio ao começar;
Que te vai contando a história

Onde eu não posso morar

Dei-te um nome em minha cama 
Aberta no meu outono
Depois, amei-te em silêncio 
Que é uma forma de abandono;
Dei-te um nome em minha cama

Rasgada em lençóis de sono

Bendito amor

José Fernandes Castro / Custódio Castelo *um grande amor*
Repertório de Mariana Correia
Repertório de Rute Rita / Fado Latino de Alfredo Mendes
Repertório de Fernanda Moreira / Fado Súplica de Armando Machado

Bendita seja a luz desta cegueira
Que não me deixa ver-te tão distante
Bendito seja o sol desta canseira
Que faz desta saudade uma constante


Bendita seja a dor que me consome
E dá voz ao meu verso magoado
Bendita seja a graça do teu nome
Que dá novos motivos ao meu fado


Bendita seja a cor da solidão
Que tenho, muito embora não a queira
Bendito seja o fogo da paixão
Que arde, até à chama derradeira


Bendita sejas tu... porque te quero
Bendito seja eu... porque me dou
Meu fado, é um poema que venero
Teu fado, é uma luz que me cegou

Fado das trincheiras

Félix Bernardes / João Bastos / António Melo 
Versão do repertório de Fernando Farinha 
Este fado foi cantado por Óscar de Lemos no filme João Ratão
realizado por Jorge Brum do Canto Cinema São Luiz, 1940
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*

-
O soldado na trincheira 
Não passa duma toupeira 
Vive debaixo do chão 
Só pode ter a alegria 
De espreitar a luz do dia 
Pela boca dum canhão 

Mas quando chegar a hora 
Dele arrancar por aí fora 
Ao som da marcha de guerra 
Seus olhos, são duas brasas 
E as toupeiras ganham asas 
Como as águias lá da serra 

Rastejamos como sapos 
Com as fardas em farrapos 
Pela terra de ninguém 
Mas cá dentro o pensamento 
Corre mais alto que o vento 
Voando p'ra nossa mãe 

E se eu morrer na batalha 
Só quero ter por mortalha 
A bandeira nacional 
E na campa de soldado
Só quero um nome gravado 
O nome de Portugal 

Soldados da nossa terra 
São voluntários da guerra 
Que vêm bater-se por brio 
Raça de fogo e de glória 
Que escreveu na nossa história 
Nos mundos que descobriu 

Por isso, a Pátria distante 
Reza em nós a cada instante 
Como a luz duma candeia 
Que arde de noite e de dia 
No altar da Virgem Maria 
Na igreja da nossa aldeia

O Chico da Mouraria

*Fado da rainha*
Tomaz Colaço / Frederico Freitas e António Melo *fado rainha*
Versão do repertório de Argentina Santos
Criação de Maria Albertina com o título *Fado da rainha*
Teatro Avenida na Revista *Água Vai* em 1937


O Chico da Mouraria
Cantava tão bem o fado 
Com tanta sabedoria
Que era o homem mais falado
De quantos homens havia

Uma guitarra de pinho 
Com cinco cordas de arame
Tocava-as com tal jeitinho
Que era sempre um enxame 
De moças, no seu caminho

Mas certo dia, à tardinha 
Um grande de Portugal
Deu-lhe o recado que tinha
Vai ao palácio real 
Cantar o fado à rainha

A rainha era novita 
Uma princesa estrangeira
Usava laços e fita 
Na doirada cabeleira
Que a tornavam tão bonita

Eu não sei aqui contar 
O que depois aconteceu
Talvez o conte o luar
O fado logo aprendeu 
E anda sempre a cantar

E então, desde esse dia 
Desde aquela serenata
Sem saber quem lha daria
Usa guitarra de prata 
O Chico da Mouraria        

Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção
*

Esta letra aparece muitas vezes atribuída a Américo Marques dos Santos. 
Este letrista limitou-se a adaptar a letra original de Tomás Colaço a sextilhas 
acrescentando-lhes versos cheios de erros de métrica, num atropelo aos direitos 
do autor verdadeiro, pois registou essa péssima adaptação como original seu 
na SECTP, em 23/10/67, com o título «A Princesa e o Fado»; e uma segunda vez 
em 22/9/1976, com o título «O Chico da Mouraria»*

Argentina Santos (CD Argentina Santos, Discossete, Lda., Lisboa, 1995) e Manuel 
Cardoso de Meneses (CD O Fado – Manuel Cardoso de Meneses "Hoje" 
Companhia Nacional da Música, S. A., Lisboa, 2010) gravaram, em excelentes
interpretações as quintilhas originais de Tomás Colaço, na música de 
Frederico de Freitas António Melo mas com o título «O Chico da Mouraria
 quando deveria ter sido o título original *Fado da Rainha*.
Infelizmente também, ambas as editoras atribuíram a letra a Américo dos Santos 
perpetuando o erro e encaminhando os direitos de autor para que não deveria 
recebê-los. Para se poder comparar com o original, as sextilhas de 
Marques dos Santos são:

O Chico da Mouraria / Cantava tão bem o fado
Com tanta sabedoria / Que era o fadista mais disputado
P’la nobreza e fidalguia/ Que havia naquele reinado

Uma guitarra de pinho / Com cinco cordas de arame
Tocava-as com tal jeitinho / E tal mestria que era um enxame
De moças no seu caminho / Ouvindo o lindo certame

Mas certo dia à tardinha / Um grande de Portugal
Deu-lhe um recado que tinha
Para que fosse ao Paço Real / Cantar o Fado à Rainha
Com sua voz de cristal

A rainha era novita / Uma princesa estrangeira
Usava laços de fita / Que lhe cingiam a cabeleira
Era a c’roa mais bonita / Num rosto de feiticeira

Porém eu não sei contar / O que então aconteceu
Talvez o saiba o luar / Como a rainha logo aprendeu
O lindo fado a cantar / E nunca mais se esqueceu

A partir daquela data / Do Socorro até à Guia
Desde aquela serenata / Quem vê o Chico da Mouraria
Usa guitarra de prata / Sem saber quem lha daria


Criação de Maria Albertina com o título *Fado da rainha* Teatro Avenida na Revista 
*Água Vai* em 1937
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*
(Do jornal A Voz de Portugal, Ano II, n.º 6, de 15 de maio de 1955)

Amar não é pecado

Moita Girão / Pedro Rodrigues
Repertório de Mariana Silva
Letra publicada no livro *Poetas Populares do Fado-Tradicional*
com o título *Vidas sem Amor*


Há quem recorde o passado
Com um desgosto profundo
De ter amado, porém;
Amar não é um pecado
Pecado é andar no mundo
Sem ter amor a ninguém

O coração que namora
Tem o perfume da flor
E o doce encanto do ninho
Ai do coração que chora
Por uma gota d'amor
E morre sem um carinho

Pedi a Deus que fizesse
Da minha cruz em pedaços
E do meu viver, jardim
Deus ouviu a minha prece
Deu-me por cruz os teus braços
E este amor que não tem fim

P'lo muito que tenho amado
Não estou arrependida
Meu amor, porque sei bem
Amar não é um pecado
Pecado é andar no mundo
Sem ter amor a ninguém

Balada para ti

José Fernandes Castro / Nel Garcia
Repertório de Joaquim Carneiro

Por ti... 
toda a hora sou poeta
E sofro este silêncio a que me dou
Por ti...
 
A minha alma se liberta
Da raiva dum amor que não vingou

Por ti... 
Invento beijos e abraços
No reencontro feliz da madrugada
Por ti... 
Meus passos seguem os teus passos
E em cada passo teu, sou tudo e nada

Por ti...
 
Serei o espelho do horizonte
Aonde se retracta a fé no amor
Por ti...
 
Faço dos olhos uma fonte
Vertendo sal de dor e de fulgor

Canto o amor que é feito dia a dia
Desde a hora marcante em que te vi
Misturo realidade e fantasia
Na loucura de ser louco por ti

Tempo passado

Avelino Cruz / Amândio Pires
Repertório de Fernando João

Andas de mão em mão
Andas de boca em boca
Porque a tu´alma de pedra 
Não sabe sentir
Vives enganada 
Com falsas promessas
Pensas que são loucos 
Os homens por ti

Todos os meus amigos 
Me dizem que andas
Pela madrugada
Buscando calor
E onde tu pisas 
Já não cresce nada
Porque nada vales 
Se não tens amor

E tu... que desfolhaste como o vento
A juventude, a fé, a minha inspiração
Não sentes o menor remorso
Por teres sacrificado o meu coração

Segue o teu caminho p
ara que eu te esqueça
Roda pelo mundo como um vendaval
Se não estás comigo a culpa foi tua
Não te quero mal porque posso amar

O ardinita

Mote popular / Glosa de Linhares Barbosa / Popular *fado corrido*
Repertório de Fernando Maurício


Ó minha mãe, minha mãe
Ó minha mãe minha amada
Quem tem uma mãe tem tudo
Quem não tem mãe, não tem nada

O ardinita, o João 
Levantou-se muito ledo
Porque tinha que estar cedo 
À porta da redação
Trincou um naco de pão 
Que lhe soube muito bem
Antes de partir, porém
Beija a mãe adormecida
E disse: cá vou à vida
Ó minha mãe, minha mãe

A mãe com todo o carinho 
Deitou-lhe a benção, beijou-o
E depois aconselhou 
Sempre muito juizinho
Toma conta no caminho 
Não fumes, não jogues nada
Pode ficar descansada 
Diz ele, prá iludir
E tornou-se a despedir
Ó minha mãe, minha amada

Cruzou toda a Madragoa 
Satisfeito a assobiar
Uma marcha popular 
Do Santo João em Lisboa
Nisto pensou; é tão boa 
A minha mãe... e contudo
Como a engano, a iludo 
E lhe minto, coitadinha
Gramo tanto essa velhinha
Quem tem uma mãe tem tudo

Neste calão repelente 
Da gíria da malandragem
Existe um quê de homenagem 
Nessa boquita inocente
Marcha pró jornal, contente 
Sempre d’alma levantada
E como o calão lhe agrada 
Repete, como eu a gramo
Tanto lhe quero, tanto a amo
Quem não tem mãe não não nada

Saudades de mim

João Gomes / Armando Machado *fado licas*
Repertório de Fernando Maurício 

Quem me dera voltar aos verdes anos
Ser como o malmequer, simples criança
Não ter do teu amor, os desenganos
Nem sofrer dos teus beijos, a lembrança

Haver sempre em meu peito, a primavera
Dum garoto estouvado e libertino
Não conhecer saudades, quem me dera
Pois já tive um calvário em pequenino

Calvário muito meu onde brinquei
E construí castelos de desejo
Calvário onde te vi, onde te amei
Á sombra do calvário dos teus beijos

Se o meu cantar é triste, são só lamentos
Anseios dum sonho vivo de menino
Os anos, são lembranças, são tormentos
Desfeitos no calvário do destino

Um copo mais um copo

Letra e música de Fernando Farinha
Repertório de Fernando Maurício

Desde que tu partiste 
Perdi a felicidade
E p'ra que ninguém veja 
Sinais do meu tormento
Sózinho vou matando 
Toda a minha saudade
Entre as quatro paredes 
Do nosso apartamento

Um copo, mais um copo
Um cinzeiro já cheio 
De pontas de cigarro
Uma velha moldura
Lembrando a tua imagem 
E a dor a que me agarro
Um copo mais um copo
Uma canção de amor 
E fumaças sem fim
É tudo o que me resta
É tudo que ficou
De ti... de nós... de mim

Errante p'la cidade
Alheio à multidão
Fugindo dos amigos 
Vou caminhando a esmo
Os dias são iguais
As horas iguais são
E quando a noite chega
O fim é sempre o mesmo

Testamento fadista

Mário Rainho / Henrique Lourenço *fado cigano*
Repertório de Fernando Maurício

Meus amigos, meus irmãos
Companheiros da aventura
Das minhas noites fadistas
Já não tenho em minhas mãos
Essa lúcida loucura
De lutas, e de conquistas

A vida passa a correr
Os anos vão-se somando 
E nós seguimos sorrindo
Fingindo não estar a ver
O cabelo branqueando 
E a mocidade fugindo

Mas no dia em que partir
Não levo nenhum tormento 
Porque não vos deixo sós
Parto com a alma a sorrir
Deixando por testamento 
Minha voz, p'ra todos vós

Sinal da cruz

Linhares Barbosa / Maximiano de Sousa e Ferrer Trindade
Repertório de Max
Este foi um dos primeiros sucessos de Max que, além de o cantar
foi também co-autor da música, juntamente com Ferrer Trindade.
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*

Na pequena capelinha
Da aldeia velha e branquinha
Dei à Maria da Luz
Uma cruz de pôr ao peito
E um juramento foi feito
Pelos dois, sobre essa cruz

Juro ser tua: disse-me ela
Eu disse: juro ser teu
Pelos vitrais da capela
Entrava a bênção do céu

Passavam-se os meses
O tempo corria
E todas as vezes 
Que eu via a Maria 
Sózinha e menina
Dizia-lhe assim: Maria da Luz
Tu és para mim, o sinal da cruz
Da cruz pequenina

Mas um dia, há sempre um dia
Que nos rouba a fantasia
Maria entrou na capela
Esquiva, pé ante pé
E o meu símbolo de fé
Não brilhava ao peito dela

Quis perguntar-lhe p’la jura
Porém, de fé já perdida
Vi que não vinha segura
Tinha outra cruz na vida

Passaram-se os meses
O tempo corria
E todas as vezes, 
Que eu via a Maria
Com más companhias
Dizia-lhe assim: Maria da luz
Tu és para mim, o sinal da cruz
Da cruz dos meus dias

Porto cidade

José Guimarães / Resende Dias
Repertório de Anita Guerreiro

Meu Porto cidade
Rasga as veias da tua memória
E vem, vem falar
Do teu passado, da tua história
Meu Porto, Vandoma
És cascata de pedras antigas
Há sal e aroma 
Nos teus pregões feitos cantigas

O Porto é povo, o Porto é rua
Barro vermelho no painel do casario
Réstia de sol, pingo de lua
É uma gaivota namorando mar e rio
O Porto é povo, o Porto é rua
É uma gaivota namorando mar e rio

Meu Porto poema
Nas ameias, cabelos cinzentos
És rota de heróis
Do caminheiro, rosa dos ventos
Meu Porto azulejo
Aguarela no tempo guardada
Meu gesto, meu beijo
Vitral de orvalho e madrugada

Lado a lado

Nóbrega e Sousa / Jerónimo Bragança
Repertório de Tony de Matos

Somos dois caminhos paralelos
Vamos pela vida, lado a lado
Doidos que nós somos
Loucos que nós fomos
Nem sei qual é de nós mais desgraçado

Lado a lado
Meu amor, mas tão longe
Como é grande a distância entre nós
O que foi que se passou 
Entre nós os dois, que nos separou?
Porque foi que os meus ideais 
Morreram assim, dentro de mim?

Ombro a ombro 
Tanta vez, mas tão longe
Indiferença entre nós, quem diria?
Custa a crer que tanto amor
Tão profundo amor, tenha acabado
E nós ambos sem amor... lado a lado

Fomos no passado, um só destino
Somos um amor desencontrado
Doidos que nós fomos
Loucos que nós somos
Nem sei qual é de nós mais desgraçado

Os poetas

José Fernandes Castro / Armando Augusto Freire *alexandrino antigo* 
Repertório de Artur Lobo 

A brincar com palavras vão nascendo poetas 
Sonhando primaveras, chorando tempestades 
A brincar com palavras ou ideias discretas 
Transformando quimeras em doces realidades 

Fazem do coração o porta-voz do verso 
Cobrindo com saudade as rugas do tormento 
Fazem da solidão o sonho mais disperso 
Levando liberdade á voz do pensamento 

Ser poeta é ser fome na fraqueza dum beijo 
É ter a alma cheia de tudo que é magia 
Ser poeta é ser nome marcado p'lo desejo 
Quando a cor da ideia é cor de poesia