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Tenho vindo a publicar letras (de autores que já partiram) sem indicação de intérpretes ou compositores na esperança de obter informações detalhadas sobre os temas.
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As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: por falta de informação nem sempre são mencionados os criadores dos temas aqui apresentados.
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É por isso que eu vivo

Ary dos Santos / Paco Bandeira
Repertório de Paco Bandeira
Festival RTP 1972


Eu sou a palavra 
Lavrada e aberta
Eu sou a raiz
Eu sou a garganta 
Dum homem que fala 
E sabe o que diz

Eu sou o silêncio
Das trevas que penso
Das coisas que digo
Sou filho do tempo
Sou fúria do vento
Sou força do trigo

Ai eu sou terra sou mágoa
Sou vento sou água
Sou princípio e fim
Ai não me falem em pranto
Não me rasguem o canto
Não me arranquem de mim;
Ah se eu pudesse ser tudo
Ser morto ser vivo
Ser fogo e ser linho
Ah se eu pudesse ser corpo
Ser alma, ser fruto
Ser pão e ser vinho


Eu sou a semente 
Que morre e se queima 
E nem chega a nascer
Eu sou o poeta 
Que nasce da terra
Com tudo a dizer

Se digo se canto 
Se falo se mordo
Se tardo, é por mim
Eu sou a demora 
Do tempo que chora 
Por dentro do fim

Ai a distância que vai
Do celeiro ao tear
Do cantor ao ceifeiro
Ai a diferença que tem
O luar quando vem
Sob o céu de janeiro;
Ah como sinto a vontade
Em lavrar o meu corpo
Em secar meu pranto
Ah como sinto a verdade
Ceifando o meu trigo
Mondando o meu espanto


E é por isso que eu digo
Que sou forte e estou vivo
E é por isso que eu sigo
E é por isso que eu canto

Eu sou terra sou mágoa
Sou vento sou água
Sou princípio e fim