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Canal de J.F.Castro em parceria com a Rádio Mira

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As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: nem sempre são mencionados os legítimos criadores.

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Existem (pelo menos) 80 letras publicadas que não constam do índice. Caso encontre alguma avise-me, por favor.

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6.270 LETRAS PUBLICADAS /*/ 2.078.500 VISITAS /*/ MARÇO 2021

ATINGIDO ESTE VALOR /*/ QUE ME FAZ SENTIR HONRADO /*/ CONTINUO, COM AMOR /*/ A SER SERVIDOR DO FADO.

Pois mesmo desagradando // A "Troianos" maldizentes / Os "Gregos" vão apoiando // E vão ficando contentes

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Se não encontra a fado preferido // Envie, por favor, o seu pedido.

fadopoesia@gmail.com

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Pesquisa.

Fado do ganga

Ernesto Rodrigues, João Basto e Félix Bermudes / Venceslau Pinto
Versão do repertório de Carlos Ramos

Criação de Estevão Amarante na revista *Novo Mundo*
Éden Teatro em 1916
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*
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Meus amigos, esta vida, p’ra quem lida

A mourejar cá na roça
É uma grande subida / Que se leva de vencida
Como quem puxa a carroça

Quando a gente desanima / E a coisa vai a parar
Aí, ó tás c’a mosca?
Então, adeus ó vindima / Se não vai chicote acima
Semos uns homens ao mar

Chego-me à besta e zás
A traulitada inté fumega
À companheira e pás
Vão três borrachos p’rá sossega

Por isso eu digo, ó meu amigo
Que esta assistema é inficaz
É preparar p’ra la pregar
C’a mão no ar e o pé atrás


Até mesmo c’as subsistências a vossências
Um inzemplo vou dar já
Quer a gente açúcar, pão / Bacalhau, arroz e grão
Dizem eles que não há

Esta coisa d’intiquetas / Já não dá nem p’ró pitrólio
Aí, ó cheira-te a palha
Deixa-se a gente de tretas / É sopapos e galhetas
E acabou-se o manipólio

Vai-se ao padeiro e zás
Logo do pão vem um cabaz
Ao merceeiro e pás
E logo a gente sastifaz
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Versão Original

Meus amigos, esta vida, p’ra quem lida
A mourejar cá na roça
É uma grande subida / Que se leva de vencida
Como quem puxa a carroça

Quando a gente desanima E a coisa vai a parar
Aí, ó!...
Então, adeus ó vindima
Se não vai chicote a cima / Semos uns homens ao mar

Chego-me à besta e zás / A traulitada inté fumega
À companheira e trás / Vão três borrachos p’rá sossega

Por isso eu digo / Ó meu amigo
Este assistema é inficaz
É preparar p’ra lha pregar
A mão no ar / O pé atrás
Pás!


Mesmo co’as subsistências
A vosselências, um inzimplo vou dar já
Quer a gente açúcar, pão, bacalhau, arroz e grão
Dizem eles que não há

Esta léria de intiquetas / Já não dá nem p’ró pitrólio
Aí, ó!...
Deixa-se a gente de tretas / E a sopapos e galhetas
Acabou-se o manipólio!

Vai ao padeiro e zás / 
Logo do pão vem um cabaz
Ao merceeiro e trás / E logo a gente satisfaz

Por isso eu digo / Ó meu amigo
Este assistema é inficaz
É preparar p’ra lha pregar
A mão no ar / O pé atrás
Pás!

Até mesmo no Senado, é usado / O sistema cá do Zé
Pois em pondo um Almeidista / Ao lado dum Camachista
É sabido que há banzé

Quando reúne o Congresso / Dão murros, partem cadeiras
Aí, ó!...
Em eles estando co’a mosca
Mas eu, cá por mim, confessom / Gosto mais deste processo
Do que ouvir dizer asneiras

Fala o mestre Camacho / António Zé dá-lhe p’ra baixo
E faz melhor discurso / O que der mais comida de urso

Por isso eu digo / Ó meu amigo
Este assistema é inficaz
É preparar p’ra lha pregar
A mão no ar / O pé atrás
Pás!

Na guerra dos alimões, co’as nações
Tem um exemplo de estalo
Pois, no fim desta embrulhada / O que der mais traulitada
É que há-de cantar de galo

E quando chegar o dia / Em que a gente for p’ra guerra
Aí, ó!... 
(Sempre estás com uma pressa)
Então, adeus ó Turquia / A Alimanha, mais a Austria
Lá vão de ventas à terra

Vai-se a Verdun e pum / Arma-se um grande trinta e um
Vai-se a Berlim e pim / Há banzanada até ao fim

Por isso eu digo / Ó meu amigo
Este assistema é inficaz
É preparar p’ra lha pregar
A mão no ar / O pé atrás
Pás!
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De novo o «31» a aparecer (Arma-se um grande trinta e um), agora mais diluído na
sua metáfora, ou talvez não. De resto, a política atravessaria o teatro de revista ao
longo dos tempos, como ingrediente indispensável à obtenção do efeito cómico.

Nele se dizia nas entrelinhas o que não se podia dizer de viva voz, sobretudo quando
a censura «apertou» após 1926. Há até quem diga que a revista perdeu uma parte 
do atractivo com o desaparecimento da censura, em 1974. O fruto proibido deixou 
de sê-lo, logo, deixou de ser apetecido.

Nesta letra, as alusões a políticos são várias, sendo a personagem que a canta
um carroceiro (Estêvão Amarante), tirando-se partido do seu mau português.

Fado do Ganga, por Ganga ser o nome da personagem. «Ganga», no Dicionário 
de Calão de Albino Lapa (1.ª ed., Lisboa, 1959), significa vinho.

No Novo Dicionário de Calão, de Afonso Praça (Editorial Notícias, 1.ª ed., 2001) tão
recente que incorpora o «Fado da Internet» como anexo, regista-se apenas Ganga 
(na)», como «Com muita velocidade». 
Ora, ganga é um tecido grosseiro usado pelos operários e outras profissões, o que 
pode justificar um uso alegórico.

O nosso carroceiro cita as «subsistências», forma por que eram designados os
abastecimentos à população, chegando a haver um Ministério das Subsistências
e Transportes, entre 1918 1 1932

A mensagem de que, apesar dos racionamentos provocados pela I Guerra Mundial 
(1914-1918), tudo se conseguia à bruta deveria fazer exultar o público, embora 
não fosse lá muito ético o procedimento. Mas… vindo de um carroceiro
desculpava-se, dava para rir.

Segue-se a transposição, para o Parlamento, da preconizada rudeza de maneiras.

Citam-se os «Almeidistas», simpatizantes de António José de Almeida, um político
republicano que seria Presidente da República três anos após a estreia deste fado.

O jogo de palavras com «almeidas», calão lisboeta para os varredores de ruas
é patente.

Depois, a letra cita os «Camachistas», adeptos de Brito Camacho, outro líder 
partidário daqueles conturbados tempos
(Quando reúne o Congresso / Dão murros, partem cadeiras)
Ministro do Fomento em 1910-1911, fundador do Partido Unionista.
O assunto do momento era a guerra com os alimões (alemães).

Embora iniciada em 1914, Portugal só entraria nela em 1917, ou seja, no ano seguinte 
ao da estreia da revista Novo Mundo, cujo título já é revelador da sensação de que o
mundo não voltaria a ser como era.

Mas alguns versos de Rodrigues, Bastos e Bermudes eram premonitórios:
E quando chegar o dia / Em que a gente for p’ra guerra…

Como premonitória e patriótica foi a descrição da queda da Turquia, Alimanha e Austria
(sem acento, para rimar com Turquia), já com Portugal empenhado no conflito.
Enfim, a exaltação da traulitada à portuguesa.

Ainda a respeito deste fado, há um episódio curioso, mas pouco conhecido: a certa 
altura, por desinteligências com a empresa, Estevão Amarante abandonou a revista.
e foi a actriz Ema de Oliveira que, em travesti, continuou a interpretar a personagem 
do Ganga, durante o tempo em que a revista esteve em cartaz.