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5. 925 LETRAS // 1.500.000 VISITAS // DEZEMBRO 2019

Eu tenho tanta saudade

Natália dos Anjos / Domingos Camarinha
Repertório de Natália dos Anjos

Eu tenho tanta saudade / Dos meus tempos de criança
Em que vivia na ‘sperança / De risonha mocidade

Nem sempre a felicidade / Bate à porta das pessoas
Das horas más e horas boas / Eu tenho tanta saudade

Eu tenho tanta saudade
Quando ouvia a minha mãe
Cantar o fado também
Com tanta suavidade;
E ao ouvi-la, na verdade
Eu ficava extasiada
Da minha mãe adorada
Eu tenho tanta saudade

Eu tenho tanta saudade / Dos fadistas que morreram
Que comigo conviveram / Em grande fraternidade

Neles só via verdade / Eram leais companheiros
Dos amigos verdadeiros / Eu tenho tanta saudade

Eu tenho tanta saudade
Da saudade que senti
Ao recordar-me de ti
Da tua deslealdade;
Quem há-de esquecer, quem há-de
A saudade que não finda
Que Deus me não leve ainda
P’ra eu sentir mais saudade

Vento

Frederico de Brito / Acácio Gomes *fado bizarro*
Repertório de Celeste Rodrigues

Ouvi bater de leve à minha porta
Pensei de mim p’ra mim, nesse momento
Foi ele que bateu, pouco me importa
Mas fui abrir a porta… e era o vento

Mandou-me um encontrão, sem mais cautela
Naquela dura fúria com que entrou
Quebrou-me os quatro vidros da janela
E até o candeeiro se apagou

Até uma guitarra já velhinha
Caíu, quebrando as cordas num queixume
O vento nessa fúria que mantinha
Lembrava o meu rapaz com o ciúme

Deixando-me a um canto, muda, absorta
Naquele pobre quarto de devassado
Saíu a assobiar batendo a porta
Assim como ele faz se está zangado

Sentimento fadista

João Mário Grave / João do Carmo Noronha *fado pechincha*
Repertório de Mónica de Jesus

Dizem que o fado é saudade
Miséria sofrer e dor
Mas o fado é na verdade
O sentir do cantador

Em cada palavra sua / Em cada verso cantado
O cantador insinua / A tristeza do seu fado

Não canta por simpatia / Nem canta para viver
É que cantando alivia  / Um pouco do seu sofrer

Tornando tão magoado / O timbre da sua voz
Que o fado fica gravado / Na
alma de todos nós


Bucólica

Miguel Torga / Hermano da Camara
Repertório de Carlos Barra

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento
De searas onduladas pelo vento

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais

De poeira, de sombra duma figueira
De ver esta maravilha;
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha


No dia em que tu partiste

Ricardo Maria Louro / Carlos da Maia *fado perseguição*
Repertório de Mónica de Jesus
                                                                                              
No dia em que tu partiste
O meu corpo só e triste
Adormeceu na cama fria
No silêncio em solidão
Afoguei meu coração
Naquela casa vazia

No dia em que tu partiste
Dos meus olhos me fugiste
Vesti noites e cansaços
Fiz dos cravos o teu leito
Plantei rosas no meu peito
E adormeci no teu regaço

No dia em que tu partiste
Foste embora nem sentiste
Quanta dor ficou em mim
Quis a morte por caminho
Tive o fado por destino
Não te esqueço mesmo assim

Quem canta seu mal espanta

Augusto Leão / Alfredo Duarte *menor-versículo*
Repertório de Nano Vieira

Quem canta seu mal espanta / alegremente
Diz o povo e com razão / este ditado
Quando vibra na garganta / de quem sente
E transmite ao coração / um terno fado

Não me canso de dizer / nem cansarei
Tanta vez, eu sei lá quanta / estou ciente
Mas cá no meu entender / sempre direi
Quem canta seu mal espanta / alegremente

Em criança ouvi alguém / a murmurar
Com uma certa emoção / estou lembrado
Quanta vez canta uma mãe / p’ra não chorar
Diz o povo e com razão / este ditado

Também se canta ao luar / lendas tão belas
Poemas que nos encantam / simplesmente
Aos mistérios que há no mar / e às estrelas
Quando vibra na garganta / de quem sente

Todos cantam, bem ou mal / isso q’importa
Se em tudo isto há paixão / não é pecado
É um prazer sentimental / que nos conforta
E transmite ao coração / um terno fado

Escrevem os fados que canto

Varela Silva / Popular *fado menor*
Repertório de Celeste Rodrigues

Escrevem os fados que eu canto
Eu canto fados que são
D’outros, mas que no entanto
Saiem do meu coração

E se um dia eu falasse
Do meu fado mesmo assim
Talvez que eu nunca eu contasse
O fado que existe em mim

Quem me ouve tem um fado
Diferente ou igual ao meu
Que ainda não foi cantado
Que ainda ninguém escreveu

O que era teu

Tiago Torres da Silva / Alfredo Duarte *menor-versículo*
Repertório de Mónica de Jesus
                                                                                               
Quem me dera ter pecado / nos teus braços
Se eu te tenho mais paixão / que outra qualquer
E depois de o ter quebrado / em mil pedaços
Já não tenho coração / p’ra te acolher

O meu corpo… dar-to-ia / sem pudor
Mas a ânsia de te amar / não me valeu
Pois se não me pertencia / o teu amor
Também não te pude dar / o que era teu

Guardo agora cada beijo / num sacrário
Beijos feitos de poeira / beijos de ar
E transformo o meu desejo / num calvário
Que eu percorro a vida inteira / sem parar

Mas são tantos os cansaços / tanto o Fado
Tanto mal que ele me fez / e no entanto
Quem me dera nos teus braços / ter pecado
P’ra pecar mais uma vez / sempre que o canto

Deixei-a

Neca Rafael / Miguel Ramos
Repertório de Nano Vieira

Coisas há que a gente deixa
Deixa com tanta saudade
Deixa sem razão de queixa
P’ra manter uma vontade
Vontade que não existe
Mas que eu fiz vigorar
Oh… como a vida foi triste
Quando eu a deixei ficar

Deixei-a fazer tudo o que ela quis
Deixei-a p’ra ser feliz
Deixei-a à sua vontade
Nem amor podia dar-lhe
Mas não podia roubar-lhe
A sua felicidade

Eu teria de a deixar
Que a deixar, mas não por mal
E Deus a deixe arranjar
Companheiro ideal
Que não seja como eu
Eu, que ela só soube amar
Todo o seu ser era meu
E eu deixei-a ficar

Finalmente

Rui Eduardo Rocha / Miguel Ramos *fado alberto*
Repertório de Mónica de Jesus

E tu que me fizeste tanto bem
Galgaste o nosso amor que desmaiava
Sabias, foi ardente, mas porem
Já lentamente a chama se apagava

Trocavas as palavras hora a hora
Desculpas inventadas sem pensar
Voltavas e partias sem demora
Dizias: “hoje não posso ficar”

Se a noite cada vez mais nos fugia
A madrugada era solidão
Esperando via então nascer o dia
E o Sol não me aquecia o coração

Enchi o peito de ar e de coragem
Soprei e apaguei o que restava
Do amor o que ficou, foi a imagem
E final
mente a chama se apagava


Chapéu preto

Letra e música de Arlindo de Carvalho
Repertório de Celeste Rodrigues

A azeitona já está preta
Já se pode armar aos tordos
Diz-me lá, ó cara linda
Como vais de amores novos;
Já se pode armar aos tordos

É mentira, é mentira
É mentira sim senhor
Eu nunca roubei um beijo
Quem mo deu foi meu amor

Quem me dera ser colete
Quem me dera ser botão
Para andar agrarradinha
Juntinha ao teu coração;
Quem me dera ser botão

Ai que lindo chapéu preto
Naquela cabeça vai
Ai que lindo rapazinho
Para genro do meu pai;
Naquela cabeça vai

Covers

Duarte / João do Carmo Noronha *fado pechincha*
Repertório de Duarte

Toda a saudade é fingida
A tristeza disfarçada
Parecem já não ter vida
De Fado não têem nada

Já não são fados são covers / Imitações desalmadas
Reproduções do destino / Tantas vezes tão cantadas

Esses que tentam viver / Aquilo que outros viveram
Acabam por se perder / No tanto que não fizeram

Vampiragem pós-moderna / Da Lisboa dos turistas
Falam da velha taberna / Mas querem ser futuristas

Noite de inverno

Frederico de Brito / Alfredo Duarte Marceneiro
Repertório de Celeste Rodrigues
  
Olhou p’ra mim e sorriu
Mas o sorriso indicava
O desprezo mais atroz
Pôs o chapéu e saíu
Foi só quando eu vi que estava
Tudo acabado entre nós

Fui ‘inda a correr à escada
Perguntei-lhe a que horas vinha / Falei-lhe dum modo terno
Depois da porta fechada
Fiquei para ali sozinha / Naquela noite de inverno

Senti a casa mais fria
Pois no meu quarto faltava / Amor, carinho e abrigo
Lá fora, a chuva caía
E até parecia que ‘stava / O céu a chorar comigo

P’lo amor com que m’iludo
Pelo mal que ele me fez / Pelo seu desprezo eterno
Era capaz de dar tudo
Só p’ra viver outra vez / Aquela noite de inverno

Quadras soltas

Letra e música de Pedro Fernandes Martins *Fado cego*
Repertório do autor

É loucura desabrida
Viver preso à solidão
E viver sem ter guarida
Mesmo se nos dão a mão

As saudades são velinhas / Que eu acendo à Virgem Mãe
Se tiveres saudades minhas / Pede a Deus por mim também

A dor tem os pés no chão / Sabe bem o que é sofrer
O amor tem a ilusão / De que nunca vai morrer

Ficar - é dor que não morre / Partir - é fé que não há
Ficar - é tempo que corre / Partir - é ver no que dá

Sonhei que a vida sorria / Ao ver a morte chegar
Porque a vida não sabia / Que a morte a ia levar

Resto de Mouraria

Carlos Conde / Martinho d'Assunção
Repertório de Celeste Rodrigues

Daquela viela antiga / Dum bairro mal afamado
Vinha um resto de cantiga / Nos versoso dum triste fado

Maia além junto à esquina / Uma imagem de Jesus
E a luz de lamparina / E uma sombra aos pés da cruz

O fado era a saudade, era uma reza
E a voz o precipício da tristeza
Era a saudade a cantar
Era a voz da nostalgia
A chorar p'la Mouraria

Banco de pinho a um lado / Onde o fado se sentava
E um Cristo crucificado / Que uma fé ilminava

Por isso, agota canto / Tudo quanto ali havia
Naquele velho recanto / Dum beco da Mouraria

De saudades vou morrendo

António Botto / António Palma
Repertório de António Palma

De saudades vou morrendo
E na morte vou pensando
Meu amor, por que partiste
Sem me dizer até quando?

Na minha boca tão triste
Ó alegrias… cantai
Mas, quem se lembra de um louco?
Enchei-vos de água, meus olhos
Enchei-vos de água, chorai

Olha a mala

Letra e música de Manuel Casimiro de Almeida
Repertório de Celeste Rodrigues

Caíu um hidrovião / Eu não sei donde é que ele é
Não trazia ninguém dentro / Foi parar à Nazaré

Olha a mala… olha a mala
Olha a malinha de mão
Não é tua… nem é minha
E do nosso hidrovião

O nosso hidrovião / É de madeira mais fina
Foi caír à Nazaré / Por falta de gasolina

Eu um dia fui à praia / De manhã, de manhãzinha
Não vi pescadores nem pEixe  / Eu só vi uma malinha

De quem é esta malinha / Que um dia deu à costa
Que ela veio aqui parar / Se cá vem é porque gosta

Fala do homem nascido

Letra: António Gedeão / José Niza
Repertório de António Palma

Venho da terra assombrada / Do ventre de minha mãe
Não pretendo roubar nada / Nem fazer mal a ninguém

Só quero o que me é devido / Por me trazerem aqui
Que eu nem sequer fui ouvido / No acto de que nasci

Trago boca p’ra comer / E olhos pra desejar
Tenho pressa de viver / Que a vida é água a correr

Venho do fundo do tempo
Não tenho tempo a perder
Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada


Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham
Nem forças que me molestem
Correntes que me detenham

Quero eu e a natureza / Que a natureza sou eu
E as forças da natureza / unca ninguém as venceu

Com licença com licença
Que a barca se fez ao mar
Não há poder que me vença
Mesmo morto hei-de passar
Com licença com licença
Com rumo à estrela polar

Meu amor

Letra e música de Pedro Fernandes Martins
Repertório do autor

Meu amor é peregrino
É romeiro sem guarida
Vai andando sem destino
A ver no que dá a vida

Meu amor é onda breve
Desfeita na praia triste
Onde o vento, ao de leve
De cantar nunca desiste

Meu amor, perdoa esta distância
Esta sede de quem não tem mais nada
A memória da nossa inconstância
A tristeza da estrada terminada

Oh meu amor, não deixes de guardar
Os recantos de todas as lembranças
Meu amor, por amor, não vou deixar
De lembrar as nossas mortas esperanças

Sol de pouca dura

Américo Patela / Rocha de Oliveira
Repertório de Celeste Rodrigues

Se o seu viver não tem graça
Venha para a minha beira
Verá que tudo se passa
No tempo da brincadeira

Venha daí, dê-me o braço
E vamos cantar prá rua
Fazendo o mesmo que eu faço
A minha alegria é sua

Quem quiser da vida tirar bom proveito
Não sinta no peito
Qualquer amargura
Faça como eu e não se apoquente
Porque o sol da gente
É de pouca dura

Quem vive do meu pensar
Vive num mar de alegria
Vive a rir e a cantar
Em maré de romaria

Que a tristeza não merece
Mais de quanto lhe nasceu
E quem a tristeza esquece
Faz tal e qual como eu

À porta desta casa

Letra e música de Pedro Fernandes Martins *Fado Quim João*
Repertório do autor

À porta desta casa já fechada
Aqui onde o amor aconteceu
Deixei a minha vida destroçada
À espera dum destino que morreu

À porta desta casa onde morámos
Ficou um triste cheiro a solidão
Ficaram os tormentos que passámos
Cravados como espinhos de aflição

Voltei a abrir a porta desta casa
Deserta e tão fria a encontrei
Senti dentro de mim minh'alma rasa
Despida das saudades que abracei

À porta desta casa já não estava
A vida destroçada que vivi
Senti, então, que a vida que eu levava
Morreu como eu morri dentro de ti

Praia de outono

David Mourão Ferreira / Nóbrega e Sousa
Repertório de Celeste Rodrigues

Praia de outono desfigurada
Pela mordaça das marés vivas
Praia de outono transfigurada
Pela ameaça de alguém que partiu

Aquele amor sob o furor do mar
Já começou a declinar
Tenho medo
Nem eu sei de quê
A noite vem tão cedo
Praia de outono ninguém nos vê

Em ti a bruma, em mim ciúme
Vão-nos levando a nós como as marés
Não se vislumbra esperança nenhuma
De alguém saber quem sou nem quem tu és

Ouve, meu anjo

António Botto / António Palma
Repertório de António Palma

Ouve, meu anjo;
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é um mel?

Quis afastar-se, mostrando
Um sorriso desdenhoso
Mas ai!... a carne do assassino
É como a do virtuoso

Numa attitude elegante
Misteriosa, gentil
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febríl

Ele apertou-me, cerrando
Os olhos para sonhar
E eu, lentamente, morria
Como um perfume no ar

Agora tenho saudade

Letra e música de Pedro Fernandes Martins *Corrido do Alcaide*
Repertório do autor

À varanda do meu peito
Num vaso de liberdade
Já tive um amor-perfeito
Agora tenho saudade


No meu peito dei guarida / À mais bela flor que tive
A memória sobrevive / Mas a flor já não tem vida
Minha vida foi florida / Por um belo amor-perfeito
Que no tempo foi desfeito / E que não mais vai voltar
A sorrir a quem passar 

À varanda do meu peito

Essa flor, qual aguarela / Tinha o sol todo pra si
Como ela nunca vi / Colorida e singela
Ficava ainda mais bela / Ao raiar da claridade
Da janela da verdade / Via sempre a sua cor
Brotando em raios de amor 

Num vaso de liberdade

Mas a vida foi severa / E o tempo foi tão fatal
Foi um forte vendaval / Que matou a Primavera
Que levou tudo o que eu era / E deixou tudo desfeito
Na varanda do meu peito / Já não tenho mais carinho
Onde agora estou sozinho 

Já tive um amor-perfeito

Não sei se a esperança morreu / Ou se o vento a levou
Já nem sei se sei quem sou / Quem é quem e quem sou eu
O que é que, por fim, é meu / Para além desta ansiedade
O que resta na verdade / É um travo de amargura
E, onde já tive ternura 

Agora tenho saudade

Fonte verde

Silva Ferreira / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Marina Mota

Quis beber um beijo verde
Nos olhos de minha mãe
E bebi só por ter sede
O vinagre que se bebe
Quando nada sabe bem

Quis infinitos de nada / Onde tudo era finito
Quando rasguei a alvorada / Em navalhadas de grito
Da minha raiva afiada

Quis afogar uma estrela / Nos rios que vou criando
Se a tive, sei lá dela
No céu há sempre uma estrela / Nos olhos de mãe chorando

Quis brindar à vida nova / Que meus sonhos prometiam
Fiz contas, tirei a prova
E vi aos pés uma cova / Que meus próprios pés abriam

Fonte verde, fonte verde / Ó minha mãe de ninguém
Quem te teve, quem te perde
Quem te beija, quem te bebe / Quando nada sabe bem

Fiz quase nada

Letra e música de Pedro Fernandes Martins *Fado Baltar*
Repertório do autor

Dum cravo fiz uma rosa
Dum beijo fiz um desgosto
Dum verso fiz uma prosa
E duma noite invernosa
Fiz o sol do mês de Agosto

Do silêncio fiz um grito / Dum soldado fiz a guerra
De poeira fiz granito
E do Espaço infinito / Fiz um pouco mais de terra

De Deus fiz um peregrino / Da terra firme fiz mar
Da morte fiz um destino
E dum canto pequenino / Fiz uma forma de amar

Dum rio fiz uma estrada / Da foz fiz uma nascente
De tudo fiz quase nada
E duma porta fechada / Fiz a força de ir em frente

Canto do mar

Letra e música de Elsa Laboreiro
Repertório da autora

Aqui onde o mar
É só o mar a perder de vista
É que os meus olhos bebem outras margens
Que fazem viagens de conquista

Aqui onde o mar é só o mar
A perder de vista
É que os meus dedos tecem fantasias
Que fazem magias inebriantes de azuis marinhos

E a lua, dos amantes feiticeira
Envolve num olhar a terra inteira
E a terra gira, gira, sem parar
Começa e recomeça neste recanto do mar

Aqui onde o céu é mais o céu
Abraçado ao mar
É que o azul de veste de outras cores
E pinta amores em qualquer lugar

Aqui onde o céu é mais o céu
Pátria de gaivotas
A linha do horizonte é o teu sorriso
E o que eu preciso p’ra navegar em todas as rotas

Sete despedidas

Letra e música de Pedro Fernandes Martins 
Repertório do autor

Sete setas disparadas contra sete despedidas
Sete lágrimas choradas, sete sopros, sete vidas

Sete cravos, sete rosas, sete ramos de alecrim
Sete vozes, sete prosas, sete começos sem fim

Sete poemas rimados, com sete versos de amor
Sete poemas armados, com sete lanças de dor

Sete floretes em punho mais sete palmos de estrada
Sete papéis de rascunho, sete receitas de nada

Sete tragos de bom vinho, sete passos inseguros
Sete léguas de caminho, sete fossos, sete muros

Sete sinos a rebate, sete dias sem dormir
Sete guerras sem combate, sete povos por cumprir

Sete corpos feitos lume, sete rugas de expressão
Sete navalhas sem gume, sete culpas sem perdão

Sete danças no terreiro das sete casas que ergui
Mais sete flores sem canteiro, sete amoras que comi

Sete monges sem mosteiros, sete deuses sem altar
Sete mares sem marinheiros, sete ventos já sem ar

Sete lágrimas choradas, sete sopros, sete vidas
Sete setas disparadas, contra sete despedidas

Fumar é matar saudades

Ary dos Santos / Popular *fado menor*
Repertório de Esmeralda Amoedo

Fumando, a gente se encontra
Connosco, mesmo outra vez
Ninguém sabe quando conta
Um cigarro português

Quem nunca foi emigrante / Sofrendo por seu país
Mal sabe quanto é bastante / O que um cigarro nos diz

É no filtro da lembrança / Lume aceso da saudade
Que um homem feito criança / Fuma a própria mocidade

E fumando é que se encontra / Consigo próprio, outra
Ninguém sabe quando conta / Um cigarro português