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Rádio apadrinhada pelo mestre RODRIGO

Rádio apadrinhada pelo mestre RODRIGO
CANAL DE JOSÉ FERNANDES CASTRO EM PARCERIA COM A RÁDIO MIRA

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* As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: nem sempre são mencionados os legítimos criadores *

<> 6.410 LETRAS <> 2.500.700 VISITAS <> JUNHO 2022 <>

* ATINGIDO ESTE VALOR /*/ QUE ME FAZ SENTIR HONRADO /*/ CONTINUO, COM AMOR /*/ A SER SERVIDOR DO FADO *

* POIS MESMO DESAGRADANDO /*/ A *TROIANOS* MALDIZENTES /*/ OS "GREGOS VÃO APOIANDO /*/ E VÃO FICANDO CONTENTES *

* NÃO ENCONTRA O FADO PREFERIDO? /*/ ENVIE, POR FAVOR, O SEU PEDIDO * fadopoesia@gmail.com

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* NASCEU ASSIM... CRESCEU ASSIM... CHAMA-SE FADO // Vasco Graça Moura // Porto 03.01.1942 // Lisboa 27.04.2014 *

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Velha Ribeira

Coelho Junior / Rezende Dias
Repertório de Adelina Silva


Velho de tantos janeiros
Foi berço de alguns heróis
Nasceu o Porto, primeiro
Nasceu a pátria depois

Suas pontes, velha Sé
Suas torres e pinhais
Viram nascer o Garrett
O Garrett e muitos mais

Velha Ribeira
Velho cais do Porto antigo
O rio mora contigo
Leva recados à Foz
Velha Ribeira
Teu arco não tem idade
Pois viu nascer a cidade
E viu-nos nascer a nós


Do velho cais ribeirinho
As naus, de velas abertas
Assim abriram caminho
Ao mundo das descobertas

Mais tarde triunfante
Desse ousado desafio
De barço erguido, o Infante
Aponta às águas do rio

Fado das caravelas

Arnaldo Leite / Campos Monteiro / Fernando Carvalho
Repertório de Anita Guerreiro

Neste meu Porto tripeiro
Berço de tantos heróis
Nasceu a pátria primeiro
Nasceu o mundo depois

Foi daqui, deste cantinho
Que o sonho das caravelas
Abriu no mar o caminho
À luz das nossas estrelas

Lá vão elas
Naus do Infante a navegar
Brilha a cruz das caravelas
Por sobre as águass do mar
Lá vão elas
Naus de Ceuta a navegar
E as estrelas
Brilham mais para as guiar


Desse balcão tão sombrio
Foi que o grande marinheiro
Vendo uma nesga de rio
Sonhou o mar todo inteiro

E a nossa barra d’escolhos
Ao ver passar o Infante
Encheu de mar os seus olhos
E pôs-lhe o mundo diante

Primavera perdida

António Calém / Alfredo Correeiro
Repertório de José Pracana


Se eu pudesse ser quem era
Quando o sol da Primavera
Brilhava entre os pinhais
Passar a tudo indiferente
Ser igual a toda a gente
Ser mais um entre os demais

E não te ter conhecido
Nesse domingo perdido
Em que eu mesmo me perdi
Ter-te visto sem te olhar
Ter-te olhado sem ficar
Cego por te ver a ti

Hoje morri para sempre
Como o chão em que a semente
Não mais dará qualquer flor
Nem de lágrimas regada
A terra dará mais nada
Se não espinhos e dor

Sombras do passado

Alberto Franco / Armando machado *fadio licas*
Repertório de Carina Mateus


Estava escrito no livro do passado
Não se apaga sequer com um grande amor
Podem vir as estações, que o nosso fado
Se é negro não terá nunca outra cor

Minhas mãos eram limpas como as tuas
O tempo não tinha antes, só depois
Lisboa era nossa e as suas ruas
O mundo que bastava para nós dois

Mas há vozes antigas que murmuram
Há quem se encontre para se perder
As sombras do passado ao mundo juram
Que o sangue não permite o nosso querer

Quando te perdi, perdi o jeito
De amar, que é na vida o dom maior
Por mais que o coração bata no peito
A vida não é vida sem amor

Corvos

António Calém / José Marques do Amaral
Repertório de João Braga


Passaram com o vento sul
Os corvos que o trouxeram
Só o mar ficou azul
Pois foi a cor que lhe deram

Mas tudo o resto mudou / O céu cobriu-se de luto
E um vento seco secou / Toda a flor e todo o fruto

Os pinhais choravam tanto / Que até da praia se ouvia
E a rama verde no pranto / Era negra ao meio-dia

Vi-os passar com o vento / Os corvos em procissão
Em busca do meu tormento / Na terra da promissão

Pranto de Leonor

Alberto Franco / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Raquel Maria


Ventos irados fustigam,
Arrancam velas, castigam
A grande nau S. João
O mar engole indiferente
As finas joias do Oriente
Que enchiam o porão

Alguns enganam a morte
Mas para sua má-sorte / A terra estranha vão ter
Escravos, marujos e nobres
Homens ricos, homens pobres / São iguais no padecer

Com eles está Leonor
Que acompanha por amor / O capitão, seu marido.
Da pobre gente vencida
Poucos verão a saída / Daquele mundo perdido

A morte levou Leonor
No seu pranto sofredor / Vive um fado português
E a sua triste história
É o reverso da glória / Dum povo que ao mar se fez

Poentes feitos de nada

António Calém / José Carlos Gomes *fado magala*
Repertório de João Braga

Poentes feitos de nada
Num sol ao longe a nascer
É o que resta duma estrada
Que me custa a percorrer

Todo o mundo é um deserto / E a sede da tua imagem
Traz-me o teu corpo tão perto / Que o perco por ser miragem

E mais do que isto a loucura / De viver longe de ti
Saber que a tua lonjura / Faz-me cantar, mesmo assim

Mas numa noite perdida / Teremos a mesma sorte
Será minha a tua vida / Será tua a minha morte

Converso à noite com o vento

Alberto Franco / Frederico de Brito *fado azenha*
Repertório de Raquel Maria

Converso à noite com o vento
Dou às sombras o lamento
Do amor que não tivemos
Nosso destino é igual
Ao de um barco no canal
Que não tem velas nem remos

Olhos de azul e lonjura
Fiz da lava sepultura / Das ilusões que perdi
Sou anel deitado ao mar
Açor que não quis voar / Para chegar junto a ti

Mistério que a ilha invade
Teia que prende a vontade / E nos leva de vencida
Eu amei e fui amada
Por que me fiz condenada / Ao desencanto da vida?

Quando a morte traiçoeira
Rondar pela minha beira / E disparar o arpão
Hei de voltar numa onda
Dançar na festa redonda / Da nossa libertação

Sobem pelo azul do ar

António Calém / José Marques do Amaral
Repertório de João Braga


Sobem pelo azul do ar
Canções tristes como luas
É uma noite de luar
Com nuvens negras na rua

Há cinco sonhos abertos / A sonhar cinco sentidos
Há mistérios descobertos / Em cinco corpos vendidos

Num deles sonho depois / O sonho de toda a gente
Sou eu e tu, somos dois / Amor dum amor ausente

Sobem pelo azul do ar / Canções tristes como luas
É uma noite de luar / Com nuvens negras na rua

Inês à espera

Alberto Franco / Fernando Freitas *fado pena*
Repertório de Ana Pacheco

Dizem-me que é tarde e não te espere
Que nunca mais render-me amor virás
Pois o amor que a fria razão fere
É certo que com ferros morrerá

Não quis as leis austeras afrontar
Apenas o amor guiou meus passos
E se por Pedro à morte me entregar
Que a minha vida acabe nos seus braços

Como esquecer as brancas madrugadas
O seu encanto brando e amoroso
As horas por nós dois tão celebradas
Nas margens do Mondego rumoroso

Não sei, meu rei, se voltarás ou não
Nem quando a minha espera findará
Mas disse-me baixinho o coração
Que o nosso amor a morte vencerá

Sonho por sonhar

António Calém / Popular c/arranjos de Jorge Fontes
Repertório de Ondina Sotto Mayor


Quem me dera a solidão
Ser eu sozinho a chorar
Sem te ter no coração
Sem te ver no meu olhar

Sem te ver no meu olhar / Sem te ler no pensamento
Semente feita luar / Levada a sabor do vento

Levada a sabor do vento / Levada a sabor da vida
Quem dera que o pensamento / Fosse a semente perdida

Fosse a semente perdida / Que não voltasse a encontrar
Quem dera que a minha vida / Fosse um sonho por sonhar

De manhã

Alberto Franco / Santos Moreira *fado moreninha”
Repertório de Carina Mateus


Manhã de Verão, domingo luminoso
Lisboa, sonolenta, ainda preguiça
Pelo bairro burguês silencioso
Passam damas beatas para a missa

Ela acordou há pouco ansiosa
Só de pensar no dia que aí vem
Estreará o vestido cor-de-rosa
Ou o azul que nela cai tão bem?

Um domingo no campo, que alegria
Ar livre e os encantos mais diversos
E para o piquenique a companhia
Dum certo moço triste que faz versos

Ela colheu um ramo de papoulas
Vermelhas, cor do poente que arde
Pô-lo no peito sem vaidades tolas
E foi a mais bonita dessa tarde

Serenata

António Calém / Alfredo Fuarte *fado bailarico*
Repertório de João Braga


A lua faz o cenário
Num palco que julgo ver
Telhados dum campanário
E ao fundo um rio a correr

Ondeiam gestos usados / Nascidos só de fadiga
E há só murmúrios velados / A sonhar uma cantiga

Pedaços de guitarradas / Fazem vibrar as vidraças
Onde acordam estremunhadas / Figuras gastas e baças

E uma que só retrata / O sonho e o coração
Julga ouvir a serenata / Que nunca mais lhe farão

Três nomes

Alberto Franco / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Raquel Maria


As nossas vidas negaram
Cegaram os horizontes
Os sonhos amortalharam
E em choro transformaram
O canto alegre das fontes

Tanto ódio semeado / Com punhos de renda fina
Em quanto salão dourado / Do luxo mais requintado
Pairam aves de rapina

O amor não teve lugar / Foi das trevas a vitória
Um lenço branco a acenar / Um navio em alto mar
Ficaram da nossa história

Mas nas páginas dum livro / Persiste a recordação
Por muito amar estamos vivos / Três nomes do amor cativos
Mariana, Teresa e Simão
        

Sim ou não

António Calém / José António Sabrosa *fado saudade das saudades*
Repertório de António de Noronha

Que triste é passar a vida
Entre um sim e entre um não
Viver da hora perdida
Do bater dum coração

Ficar à espera dum nada / Dum silêncio que ainda dura
Ser-se noite em madrugada / Ou manhã em noite escura

E o coração a bater / Ora diz sim ou diz não
A vida que vai nascer / Ou a morte e a solidão

Mas não me digas que não / Sem saber para onde vais
Diz-me que sim, coração / Deixa o não para nunca mais

Dona Genciana

Alberto Franco / Pedro Rodrigues
Repertório de Ana Pacheco


Depois que o canhão soou
E Lisboa vitoriou
A República tão bela
Numa avenida catita
Uma crioula bonita
Passava o tempo à janela

Genciana tropical / Do Brasil p’ra Portugal
Com o seu nome de flor
Da janela em que reinava / A todos enamorava
Desde o operário ao doutor

Mas a janela ansiada / Um dia apareceu fechada
Genciana não estava lá
Dizem que fugiu do frio / Que voltou para o seu Rio
Por feitiço de Orixá


Há gente que nesta hora / Sente saudades e chora
Junto àquela persiana
Um velhote que a amou / Ainda há pouco me falou
Nos encantos de Genciana

Passam os dias, os anos

António Calém / Joaquim Campos *fado Rosita*
Repertório de Miguel Sanches


Passam os dias, os anos
E és tu que hás-de ficar
A viver do desengano
De só te saber sonhar

É que eles passam sem fim / E contigo permanecem
É que há mundos que esqueci / Mas contigo não se esquecem

É que tu trazes aos dias / O que aos dias me faltava
O riso, as alegrias / Que o mundo já não me dava

Mas ninguém mais, somos nós / A sulcar o mar profundo
É que o mundo somos nós / E o resto nem sei se é mundo

Canção da costureirinha

Arnaldo Leite / Campos Monteiro / Fernando Carvalho
Repertório de Maria de átima Bravo

Esta vida minha toda amor e fé
Lembra a d'aquela andorinha
Que voa sempre à tardinha
Sobre os telhados da Sé

Corro o Porto a eito / De ruas em flor
Xaile atado em cruz no peito
Porque o meu amor / Vive satisfeito
No seu bendito calor

Ó linda costureirinha
Teus sonhos e teus segredos
São um novelo de linha
Entre os fusos dos teus dedos
E os teus olhos tão escravos
D'um trabalho sem igual
Tens o cordão d'alinhavos
E por anel um dedal


Sou a costureira
E à noite em casa
Trabalho de tal maneira
Que os meus olhos de canseira
Ardem mais do que uma brasa

Já não vejo a rua / Vejo agulha e linha
Vai-se o sol, desmaia a lua
E tu ali sozinha / Triste vida a tua
Ó linda costureirinha

Ó linda costureirinha
Teu andar tão leve, leve
Lembra o de uma princesinha
Sobre um caminho de neve
E o teu riso cristalino
Fonte d’ amor e beleza
É a letra do novo hino
Onde não reina a tristeza

Sonho desfeito

Lera e música de Frei Hermano da Câmara
Repertório do autor


Esta paixão que nasceu na primavera
Já deixou de ser o que era
Meu coração, ao ver-me assim satisfeito
Punha-se aos saltos no peito
Num turbilhão

E agora já nada resta
Que uma tristeza funesta, pelo chão
Vejo a sombra da alegria
Na minh`alma morre o dia
Cai a noite e a escuridão

E quando canto ao som triste da guitarra
Fico preso pela amarra dum profundo sentimento
E canto tanto que o meu coração amigo
Quer também cantar comigo e aumenta o meu sofrimento


Uma ilusão que eu pensei que estava morta
Veio bater à minha porta, por compaixão
Quis-se sentar a meu lado
Cantou comigo este fado
Com emoção

Mas finalmente ao saber
Que eu já não quero viver
Meu coraçãovai batendo devagar
E até que eu queira parar
Vou rezando esta oração

Quando esta dor vir meus dias apagados
E estes meus olhos fechados
Braços em cruz sobre o peito
Ó meu amor, nesse dia tão medonho
Pede a Deus um outro sonho
Porque este já está desfeito

Lisboa cidade sol

Arlindo de Carvalho / Eduardo Olímpio
Repertório de Lenita Gentil


Nos braços da madrugada
Lisboa vejo acordar
Seus olhos de água salgada
Saudades têm do mar

A voz fresca dum ardina
Ajuda o sol a nascer
E o bailar duma varina
Ao descer uma colina
Sabe a gosto de viver

Onde é que o sol tem mais bela a claridade?
É em Lisboa, é em Lisboa
Onde é que a noite canta a palavra saudade?
É em Lisboa, é em Lisboa
Onde é que o fado tem mais alma e mais verdade?
É em Lisboa, é em Lisboa
Não há no mundo cidade
Como Lisboa, como Lisboa


Canoas dormem pousando
Os remos à beira cais
E há moços que andam pescando
Cachopas, nos arraiais

Lisboa, velha Lisboa
Ó musa d´inspiração
Do Cesário e do Pessoa
Em tuas asas já voa
O azul duma canção

Sonho perdido

António Calém / Joaquim Campos *fado amora*
Repertório de João Braga

Noite branca de luar
Nesse teu corpo presente
Onde apenas sei sonhar
O sonho de toda a gente

O sonho de toda a gente / Que paga para o sonhar
Um sonho que nem é sonho / Que é apenas despertar

Se ao menos em ti quisesse / Sonhar que o sonho era meu
Mas a vida em ti esquece / O sonho que se perdeu

O sonho que jaz perdido / No fim do teu coração
E que se abre num sorriso / Quase a pedir-me perdão

Não te conheço sequer

António Calém / Fernando Freitas *fado das sardinheiras*
Repertório de Joana Possollo Cruz


Não te conheço sequer
Nem sei que cantas para mim
Mas sei que te vi passar
À noite no meu jardim

E sei que tu me cantaste / Um fado que eu já sentira
E sei que a letra era minha / Num menor que nunca ouvira

Nem mesmo sei se era fado / Se era o luar que descia
Mas vi-te de braço dado / Com a noite que sorria

Não te conheço, bem sei / Sonhei antes de te ver
Mas de tudo o que sonhei / Ficou este amanhecer

Morrer por ti

José Pereira da Conceição / Popular “fado das horas
Repertório de Manuel Barbosa


Que importa o mundo saber
Que é por ti amor, que eu canto
Pois é fácil perceber
Porque é que te quero tanto

Que importa o mundo saber / Que os versos que te dedico
Escrevo-os com tal prazer / Que por ti, feliz eu fico

Que importa o mundo saber / Que a gente pouco se rala
Se não sabem entender / Que é de amor que o amor fala

Quero lá saber do mundo / Se o mundo não quer saber
Que por este amor profundo / Um dia eu hei-de morrer

Saudade espuma do mar

José Aucher / João Blak *fado menor do porto*
Repertório de Teresa Siqueira


Saudade, espuma do mar
E a onda baixou na areia
Para marcar o lugar
Onde esteve em maré cheia

Saudade, espuma perdida
Que o vento espalhou no ar
Foste por ele vencida
Cedeste-lhe o teu lugar

E se o tempon na verdade
A espuma do mar levou
Porque não leva a saudade
Que o teu amor me deixou

Fado menor

António Calém / Popular
Repertório de Teresa Tarouca


No meu peito vive um mundo
Contrário ao que me dizias
Dias negros como as noites
Noites brancas como os dias

Dias negros de saudade / Saudade de outros dias
Como tudo é tão diferente / Daquilo que me dizias

Noites brancas em que ouço / A voz cansada do mar
Guitarra que acompanha / O meu destino a cantar

Prometeste-me a ventura / Sorrisos e alegrias
Mas só as noites são brancas / E são mais negros os dias

Para quê versos?

António Calém / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Zé Caravela

Para quê versos, meu amor?
Versos são aonde eu for
O teu nome e nada mais
Porquê dizer tudo ao vento
Mesmo que esse meu lamento
Seja o eco dos meus ais?

Para quê versos, meu amor?
Eu já cantei toda a dor
Já chorei e fiz chorar
Não sei mais o que te diga
Não sei trova mais antiga
Que ainda te saiba cantar

Para quê versos, meu amor?
Se tu és aquela flor
Que eu vi pela vez primeira?
Depois do tempo vivido
Foste esse lírio florido
Que eu sonhei a vida inteira

História do Chico do Cachené

Este magnífico trabalho foi-me cedido pelo mestre DANIEL GOUVEIA
- - - 
Em 1945, Linhares Barbosa escreveu um «auto poético fadista» 
intitulado: O Julgamento do Chico do Cachené. 

Tudo começou quando um grupo de amigos, dos quais faziam parte o artista
plástico e boémio D. Tomás José de Melo (Tom) Linhares Barbosa, saiu 
da Adega Machado após um animado almoço. 

Um ferro-velho ambulante expunha num carrinho várias bugigangas onde 
Tom divisou um boneco de madeira, nu com meio metro de altura. 

Comprou-o, sob as piadas dos amigos, e levou-o consigo. 

Dias depois apareceu no Machado com o boneco vestido à «faia» de jaqueta, 
calça de boca-de-sino, bota «afiambrada», chapéu à banda 
cache-nez de seda ao pescoço. 

Armando Machado pô-lo numa peanha, em local bem visível da casa
e mestre Linhares baptizou-o de «Chico do Cachené».

Mais uns tempos passados e o mesmo grupo divertia-se em fazer comentários 
ao «Chico», uns acusando-o de ser um estroina, bêbado, sem ocupação
senão a de estar na sua peanha a ouvir fados, vivendo à custa de uma
mulher (a Micas).

Outros defendendo-o, alegando que tinha sido um desgosto de amor
ele nem era mau rapaz, e por aí fora...

Então, Linhares Barbosa propôs fazer-lhe um julgamento em forma, para
o que escreveria os depoimentos da acusação, da defesa, a sentença
tudo em letras de fado, a fim de ser cantado ali mesmo. 

Estreou-se este auto poético fadista em 28 de Julho de 1945
às 15h00, na Adega Machado. 

Foram intervenientes:
Maria de Lurdes Machado, Fernando Farinha, Natália dos Anjos
Maria de Castro, Jacinto Pereira e Gabino Ferreira
Acompanhados, à guitarra e à viola por 
António Henriques e Flávio Teixeira. 
O próprio Linhares desempenhou o papel de Juiz

Em 25 de Maio de 1948 foi de novo levado à cena, no Café Luso.

Depois, caiu no esquecimento, as letras perderam-se, havendo apenas excertos
publicados na Guitarra de Portugal, n.º 5, de 15 de Agosto e 1945.

Encontradas, na íntegra, nos arquivos de Francisco Mendes, foi o auto encenado 
por José Manuel Osório em 1999, sendo representado na mesma Adega Machado 
onde fora estreado, na Adega Mesquita, A Severa, Café Luso, Clube de Fado, 
O Faia, O Timpanas, Restaurante Senhor Vinho, Sociedade A Voz do Operário 
e Taverna do Embuçado. 

No ano seguinte, subiu à cena no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. 
Foram intérpretes Alice Pimenta, Maria Amélia Proença, Julieta Estrela
António Rocha, Daniel Gouveia, Filipe Duarte e Hélder Moutinho
com acompanhamento de Carlos Fontes e João Chitas (guitarras)
Luís Costa (viola) e Pedro Morato (viola-baixo).

- - - 
Eis as letras, na sequência com que foram cantadas em 1999 e 2000
- - - 

QUEM É O CHICO DO CACHENÉ

O "Chico do Cachené"
Tem sempre um grãozinho n’asa
É o Faia mais fadista
Que "habita" na minha casa


Com ele nunca houve tricas / Nem intrigas, nem sarilhos
Gostam dele, e os meus dois filhos / Tanto o Licas como o Tricas
Dizem que amou certa Micas / Que poucos sabem quem é 
E que ela passou o pé / Deixando quase no esquife
Num quarto do "Bairro Bife"
O "Chico do Cachené"


Sempre mãos nas algibeiras / Sorriso sempre na "lata"
Na boca sempre a beata / P'ra lhe dar "tic" às maneiras
Atira-se às cantadeiras / E já marcou entrevista
A certa mulher bairrista / Que a altas horas lá cai
Quem for com ele mal não vai
É o Faia mais Fadista

Dizem que aquele chapéu / Que o cachené e a tralha
E que também a medalha / Foi a Micas que lhe deu
Dês' que ela desapareceu / P'ra se atolar mais na vasa
No peito dele, uma brasa / Abrasa-lhe o coração
Pobre Faia. Desde então
Tem sempre um grãozinho n’asa

Outro dia, um badameco / Armou por lá uma cena
Lá porque a sua pequena / Estava a olhar p'ra o boneco"
Ele olhou o "Papo Seco" / E nisto, o "pipi" foi d'asa
Com ele ninguém faz vasa / E ainda mais o admiro
Porque é o tipo mais "giro"
Que "habita" na minha casa


O CHICO DO CACHENÉ


Certa vez, foi à noitinha / 
O Chico do Cachené
Chamou-me e disse: «Farinha
Vou contar-te a vida minha / 
Para saberes como é

Bem criado e mal fadado / Os meus pais tinham de seu
Por eles era adorado 
Instruído e educado / Cheguei a andar no liceu

Ao estudo tomei horror / Era p’ra mim um suplício
Deixei aula e professor: / Fui p’ra aprendiz de impressor
Para uma casa do ofício

Eu era menino e moço / Simples como uma donzela
’Té que um dia – que alvoroço / Fui à Travessa do Poço
Vi a Micas, gostei dela

A casa não voltei mais / Meus pais tiveram desgosto
Calcula: deixei meus pais 
Preso nos olhos fatais / Que a Micas tinha no rosto

Com ela aprendi o Fado / O Fado a que te dedicas
Mas sempre, sempre empregado
Que, p’ra mim, era um pecado / iver à custa da Micas

Vivi assim alguns anos / Quatro vezes lhe pus casa
Mas o seus olhos tiranos
Vadios como dois ciganos / Fugiam, batiam asa

Muita vez a fui buscar / Às ruas do outro «fado»
Um dia, p’ra não voltar
Fugiu... É que o seu olhar / Tinha que ser desgraçado

Hoje não tenho um afago / Um carinho, uma afeição
Sou um esquecido, mal pago
É no vinho que eu apago / O fogo desta paixão

Depois de contar-me a vida / O Chico pôs-se de pé
Pediu mais uma bebida
E uma lágrima atrevida / Caiu-lhe no cachené


A MICAS ERA UMA JÓIA

Todos cantam a odisseia / Do Chico, com simpatia
Mas ninguém diz que, ao velhaco
Quando estava na cadeia / Era a Micas quem lá ia
levar onças de tabaco

Não vivia à custa dela / Não fazia dela escrava
Louvo-lhe esses sentimentos
Mas muita, muita farpela / Era a Micas que a comprava
Numa loja, a pagamentos

A Micas era uma jóia / Leviana, sim, talvez
No fundo, uma desgraçada
Certa vez, numa rambóia / Por nada que ela lhe fez
Ele moeu-a à pancada

Resultou, dessa tareia /  da forma de a agredir
O ser preso... e até se diz:
Só esteve um mês na cadeia / Porque a Micas foi pedir
por ele, ao Doutor Juiz

Também se deu um sarilho / uito grande, entre ela e ele:
A mãe dela mo contou 
A Micas tivera um filho / Um filhinho que era dele
E que ele não perfilhou

Não vim para a defender / Nem levantar-lhe degrau
No trono das desgraçadas
Mas costuma-se dizer / Que quando cachorro é mau
Todos lhe atiram pedradas


BÊBADO, BATOTEIRO E DESORDEIRO


Ele ganhava um quartinho
Era sempre o que ganhava
Mas gastava tudo em vinho!
E às vezes não lhe chegava


Conheci-o, meus senhores / De "setenta", de "ginjeira"
Numa banca pataqueira / Ali p'ra os Restauradores
Como tod'os jogadores / Andava sempre a caminho
Da tavolagem, p'ro "pinho" / Sempre a pedir emprestado
Mas não era precisado
Ele ganhava um quartinho

Entrou na Dança da Bica / Lembro-me, era eu criança
Fez com que acabasse a dança / E foi parar à Botica
Uma outra vez, em Benfica / Em que o Brito improvisava
Ameaçou quem lá estava / E desafiou uns poucos
Por fim, apanhou dois socos
Era sempre o que ganhava

A Micas gostava dele / Chamava-lhe o "seu menino"
Sei que lhe deu um varino / Com uma gola de pele
Deu-lhe um relógio, um anel / 'Té o próprio "pianinho"
Em que tocava o fadinho / Ela lho dera também
O Chico ganhava bem
Mas gastava tudo em vinho

O "Chico do Cachené" / É tatuado no peito
Prestou-se a isso o sujeito / Quando esteve em S. José
Se isto é verdade, ou não é / Não sei: era o que constava
A "massa" que lhe emprestava / O Samuel agiota
Era toda pr'à batota
E às vezes, não lhe chegava


AS MÁS COMPANHIAS


O Chico fez tropelias
E deu aborrecimentos
Só devido às companhias
E não aos seus sentimentos


Cantava o Fado, era faia / Bebia, jogava à chapa
Mas sempre vestia capa / Pelo círio da Atalaia
A Micas era da laia / Das que fazem judiarias
Duma vez andou dez dias / Afastada do cortiço
Como não gostava disso
O Chico fez tropelias

Certa vez que o Chico foi / Às toirinhas em Palmela
Era ouvir o grito dela / O meu Chico hoje é um boi
Sou mulher, Deus me perdoe / Que este e outros argumentos
Venham a ser elementos / P’ra quem o Chico processa
A Micas era má peça
E deu aborrecimentos

Numa certa terça-feira / Foram ambos para a esquadra
Porque na Feira da Ladra / Ela armou em desordeira
Fora que a Júlia Cesteira / Adela nas Olarias
E dava ali os «bons-dias» / Pisou a saia da Micas
O Chico meteu-se em tricas
Só devido às companhias

Outra vez, p’lo Carnaval / Foram ao baile à Trindade
Pois diga-se à puridade / Que ambos não dançavam mal
Um guarda municipal / Disse dois atrevimentos
O Chico deu-lhe dois «tentos» / E tudo isto presume
Que levou tudo ao ciúme
E não aos seus sentimentos


BOÉMIO, VALENTE E ARTISTA

Vingava a honra ofendida
Tinha uma alma altruísta
Antes do Fado ser Arte
Já a Chico era um Artista


Certo "Amigo de Peniche” / Que ele julgava uma jóia
Viu-o ele de tipóia / Com a Micas, em Carriche
Viu-os, aguentou-se fixe / Mas não gostou da partida
Depois, 'spancou a atrevida / E o amigo de má-fé
Era assim o «Cachené»
Vingava a honra ofendida

Teve amigos verdadeiros / Escritores e doutores
Tu cá, tu lá, com actores / Tu lá, tu cá, com toureiros
Deu-se até com Conselheiros / E com muito Jornalista
Foi o melhor "Cancanista" / Do Baile dos Quintalinhos
E, entre vários pergaminhos
Tinha uma alma altruísta

Em noites de S. João / Passava noites inteiras
Dançando valsas rasteiras / Mazurcas, Polca a Tacão
Palhinhas e jaquetão / Calça branca, ou de zuarte
Nas feiras, por toda a parte / Com titulares, com ciganos
Passou-se isto há trinta anos
Antes do Fado ser Arte

Jogava o Pau e à Espada / Em qualquer jogo, era rijo
Uma tarde, no Montijo / Varreu a Vila à paulada
Em muita espera e toirada / Deixou a perder de vista
Muito forcado burlista / E, nos sectores da "Canção"
'Inda não davam cartão
Já o Chico era um Artista


SENTENÇA

O Chico do Cachené / Já todos sabem quem é
É um boneco inocente
Sem gestos, sem atitudes / Sem defeitos, sem virtudes
Um boneco, simplesmente

Concebido e modelado / P’la nossa imaginação
Com barro de fantasia
É um sopro do passado / Um pouco de tradição
De sonho e de poesia

Criámo-lo à nossa imagem / Com mais ou menos verdade
Somos os seus criadores
Rendemos-lhe vassalagem / Porque fala de saudade
E até dos nossos amores

Pretendemo-lo julgar / Vimos que ele era, porém
Filho do meio ambiente
E que era um caso vulgar / Era um tudo de ninguém
Um nada de toda a gente

Ninguém com certeza ignora / Que estivemos evocando
A tradição, o passado
Bendita esta «Boa-Hora» / Onde estivemos brincando
Com as guitarras e o Fado

Não se provou a má fé / Nos pecados do arguido
Que as paixões não nos iludam
O Chico do Cachené / Está, portanto, absolvido
«Leis do Fado não se mudam»


Linhares Barbosa ainda escreveu mais uma letra sobre o «Chico do Cachené»
para o cartaz que anunciava a representação de 1948 no Café Luso, intitulada 
"Alguns Comentários" onde fazia a apresentação do elenco e onde se vê
que alguns dos fadistas e instrumentistas da primeira representação 
foram substituídos:


LEIS DO FADO NÃO SE MUDAM
(Bocage)

O Chico, mais uma vez
Foi preso e vai ser julgado
«Leis do Fado não se mudam»
Reza um antigo ditado


Cumprindo das leis o uso / O Chico vai a Juízo
Porque o juízo é preciso / E o Chico ao juízo é escuso
Vai ser julgado no «Luso» / Lá para o fim deste mês
Será punido?... Talvez! / Esperemos que a Justiça fale
Enfim, vai a tribunal
O Chico, mais uma vez

Já anda metendo cunhas / Para não ser condenado
Mas não leva um advogado / Um daqueles que tem «unhas»
Conhecem-se a testemunhas / É tudo gente do Fado
Vai a Lourdes do Machado / O Farinha, o Gabino
Pobre faia!... É o destino!
Foi preso e vai ser julgado

Vai o Jacinto Pereira / Que o deseja ver na montra
E também vai depor contra / A Natália, a galinheira
A Márcia, outra cantadeira / Vai pedir que ao Chico acudam
Mas estas coisas não grudam / Nem convencem os jurados
O Chico tem seus pecados.
«Leis do Fado não se mudam»

Sempre metido na «Adega / Do Machado», o infeliz
Comia e bebia a «giz» / E apanhava a sua cega
O Flávio, este não sossega / O Amando anda enervado
O Nery, vai estar ao lado / Do Chico do Cachené
O que nos salva é a Fé
Reza um antigo ditado

Jardim perdido

António Calém / José António Sabrosa
Repertório de Miguel Sanches


Nunca mais será assim
Foi fechado o meu jardim
Aos teus olhos que o abriram
Rosas morreram em mim
Cravos, lírios e um jasmim
Que por tuas mãos floriram

Tudo morreu ao sol pôr
O fruto do teu amor / Nas minhas mãos desunidas
Afastou-se o arvoredo
E descobriu-se o enredo / Enredando as nossas vidas

Fechado o jardim da infância
Em que agora é já distância / O calor dos teus abraços
Agora não sou ninguém
Talvez a sombra de quem / Deixou luz entre os teus passos

Já sem voz

António Calém / Pedro Rodrigues
Repertório de Carlos Barra


Já sem voz p’ra te cantar
Lágrimas p’ra te chorar
Como é triste a realidade
E lembrar-me a primavera
O sonho da tua espera
E a negrura da saudade

Hoje és minha e eu sou teu
Mas quanto em nós se perdeu / Quando então éramos dois
Quanto mais longe mais perto
E o nosso amor encoberto / Deixou-nos assim depois

Não me peças mais canções
É que os nossos corações / Deixaram já de bater
Todo o amor é amizade
E o sonho apenas saudade / Saudade doutro viver

Ouvir gaivotas

António Calém / Alvaro Duarte Simões *meia noite e uma guitarra*
Repertório de João Braga


Que triste é ouvir gaivotas
No longe dos oceanos
Que triste é perder as rotas
Neste mar de desenganos

Ai que dor é ser o mar / Este mar que não tem fim
E que dor é naufragar / Sozinho, dentro de mim

Ser eu só além da bruma / Todo o frio que me invade
E morrer em branca espuma / No mar largo da saudade

Ai que triste é ouvir gaivotas / No longe dos oceanos
Que triste é perder as rotas / Neste mar de desenganos

Saudade de ninguém

António Calém / Helena Maria Viana *fado lenitivo*
Repertório de João Braga


O voar duma gaivota
Traçou pelo ar a rota
Que o mar teve ao te deixar
Ficaram rochas perdidas
Algas na praia esquecidas
E ondas p’ra te cantar

Duas asas e um adeus
Longe da terra ou dos céus / São sinais de despedida
Eu sonhei ser mais além
Sonhei azul, não sei bem / Se era sonho ou era vida

Mas a gaivota partiu
E o meu olhar que a seguiu / Partiu com ela também
Ficou esta praia nua
A noite negra sem lua / E a saudade de ninguém

Voltei a teu lado

António Campos / Armandinho *fado manganine*
Repertório de Alice Maria


P’ra quê falar do passado
Que ficou lá na distãncia
Voltei, estou a teu lado
Só isso tem importãncia

Não perguntes onde andei
Nem o que fiz por aí
Não perguntes que eu não sei
Onde andei longe de ti

Andei na noite vagando
Em labirintos medonhos
Andei por aí, tentando
Acordar-me dos meus sonhos

Andei por aí sem norte
Andei por aí vencida
Andei tão perto da morte
Que esqueci a própria vida

A tua sina

António Calém / Popular *fado corrido*
Repertório de João Braga

Para quê sonhar futuros
Na sina que não leremos?
Sonhar são os quatro muros
Desta casa onde vivemos

Para quê montes distantes / Pedaços da cor do céu
Viver são estes instantes / Do meu corpo ao pé do teu

A palma da tua mão / Depois das linhas que li
Trago-a eu no coração / Desde a hora em que te vi

A sina da tua mão / Aquela que Deus te deu
Por mais que digas que não / A tua sina sou eu

Porque choraste por mim

António Calém / António Barbeirinho *fado porto*
Repertório de José Pracana


Porque choras por me ver?
Não sabes que o amanhecer
Traz a esperança doutro dia?
Porque choraste por mim
Se ainda há flores neste jardim
E amor noutra poesia?

Cantaste o fado e choraste
Porque a letra que cantaste / Era minha por ser tua
Falava em tempos passados 
Em dois corpos abraçados / Falava da nossa rua

E foi por falar assim 
Que tu choraste por mim / Quando era já madrugada
Não cantes mais este fado
Lembra-te de que o passado / É só passado e mais nada

Porque me visto de fado

Alexandrina Pereira / Popular *fado menor*
Repertório de Deolinda de Jesus


Ao respirar madrugadas
Atiro ao chão meus cansaços
E as minhas mãos agitadas
Sentem a fome de abraços

Sinto na alma o vazio / Como barco naufragado
Sinto o gelo, sinto o frio / Por não me vestir de fado

Na ausência vi nascer / Uns estranhos sentimentos
Mas não me deixei perder / No eco dos meus lamentos

Mas a tormenta passou / E o sol voltou a raiar
O vendaval amainou / E eu voltei a cantar

Quase morte

António Calém / Popular *fado corrido*
Repertório de João Braga


Horas e horas que passam
Que passam sem te passar
Horas e horas que matam
O sonho de te sonhar

Como se fora um punhal / O luar fere o jardim
É noite morta lá fora / Quase morte dentro em mim

Passo assim horas inteiras / A sonhar os teus abraços
Vão-se as horas ficam penas / Entre ilusões e cansaços

Primavera… Primavera / E há só frio no meu ser
Quem me dera ser quem era / Antes de te conhecer

Nada me fala de ti

António Calém / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Fernando Marques de Oliveira


Nada me fala de ti
Nem este fado que ouvi
Trouxe a tua mocidade
Nem o eco que eras dantes
Seres tu em mim por instantes
Ser eu em ti em saudade

Que doce era o anoitecer / E o sol ao longe a morrer
Quando teus olhos se abriam
E que doce era fechá-los / Mais doce ainda beijá-los
Quando de mim se esqueciam

Como era azul do luar / O teu corpo junto ao mar
Que em certa noite eu vi
Como o relembro hora a hora / Se não sei de ti agora
Se ninguém fala de ti

Para quê?

António Calém / Armando Machado *fado licas*
Repertório de João Braga


Sinal de ti em cada esquina nua
Do vento que hoje passa sem te ver
Talvez saudade de ainda ouvir: sou tua
Talvez a voz do vento a responder

Talvez que a noite morta vá fugindo
Fugindo ao lado de mim ou de ninguém
Para quê eu dizer sim, se é só mentindo
Para quê eu dizer não, se morre alguém?

Deixa passar a noite ao nosso lado
Sonhar outro luar, outro jardim
Porquê seres tu amor e o pecado
Se a vida já morreu dentro de mim

A força com que me dei

Alexandrina Pereira / Pedro Rodrigues
Repertório de Deolinda de Jesus


Barco à deriva no rio
Deixa na alma este frio
E um desespero profundo
Num risco de raiva e medo
Cantei amor em segredo
Na demência deste mundo

Dissimulada loucura
Que no meu olhar procura / A força com que me dei
Aos meus dias mais tristonhos
Guardando todos os sonhos / Nos poemas que inventei

E os meus sentidos imersos
Foram rasgando os meus versos / Nas margens da minha vida
E em cada hora de engano
De um rio fiz oceano / Com ondas em fim de vida

Esta dor que me inquieta
Vem da alma de um poeta / Que dá vida a qualquer tema
Eu sou grito que desperta
Sou quem deixa a porta aberta / Para entrar qualquer poema

Último adeus

António Calém / Armando Goes *fado da saudade*
Repertório de João Braga


Queria tanto que este adeus
Não fosse de despedida
Mas tenho medo do mundo
Mais que do mundo, da vida

Nada mudou entre nós / Nem o abraço da partida
Mudou só a tua voz / Nesse adeus de despedida

E hoje vivo a sonhar / O mundo que nos perdeu
Vivo da luz do luar / Já que o sol se me escondeu

Nem mesmo sei se é viver / Já que perdi o meu norte
Penso em ti e é morrer / Penso em mim e vejo a morte

Passado

António Calém / Armando Machado *fado cigana*
Repertório de Humberto Sotto Mayor

Ter-te em mim mas sem perfume
Queimado, queimado lume
Fogueira agora apagada
Cinza que foi chama ardente
Cinza dum amor ausente
Cinza apenas e mais nada

O calor que outrora deste
A chama que me acendeste
Para te cantar este fado
É hoje cinza apagada
Cinza, terra, pó e nada
E um sabor triste a pecado

E esse fim que julgo ter
Neste triste anoitecer
Sem luar e sem estrelas
São auroras doutros dias
Ainda mais tristes e frias
Porque já não posso vê-las

Sempre será a vida

Alexandrina Pereira / Alberto Correia *fado solene*
Repertório de Deolinda de Jesus


As palavras que chegaram
Ao livro por escrever
Todas elas me chamaram
Ao sonho do meu viver

Nas páginas onde deixei / As promessas por cumprir
E nas frases que inventei / Um mundo por descobrir

E assim fui inventando / Os meus sonhos e os meus dias
Nessas folhas fui deixando / Tristezas e alegrias

Sempre assim será a vida / Como um livro inacabado
E em cada hora vivida / É escrever o nosso fado

Para um fado de Coimbra

António Calém / Alvaro Duarte Simões *meia noite e uma guitarra*
Repertório de Fernando Gomes


Se choras de pura mágoa
Junto à linha do horizonte
Chora como as gotas de água
Que vão caindo da fonte

Com elas dá vida à terra
Dá frescura a toda a gente
Sê como o gesto que encerra
O lançar duma semente

Que a semente há-de dar sombra
No andar de mil estradas
Mas que não saibam que a sombra
Vem de lágrimas choradas

Encara a vida de frente

Alexandrina Pereira / Jaime Santos *fado alvito*
Repertório de Deolinda de Jesus


Em noites de Lua cheia
Fui escrever na fina areia
Os meus sonhos de menina
Veio uma onda mais forte
Que ditou a minha sorte
Que escreveu a minha sina

As nuvens vinham chegando
E o vento assobiando / Uma estranha melodia
Dizia-me docemente:
Encara a vida de frente / E da noite faz teu dia

Abre portas e janelas
Depois vê através delas / Tudo o que a vida te deu
E deixa o tempo passar
Guarda sempre no olhar / Esse mundo que é só teu

Agarra o sol e a lua
Depois desenha na rua / O destino que escolheste
E verás que a vida é
Muito mais que amor e fé / É o que dela fizeste

Sonho dourado

Fernando Teles / Popular *fado mouraria*
Repertório de Alfredo Marceneiro


Eu tenho um sonho doirado
Sonho que minha alma quer
Que é morrer cantando o fado
Nos braços de uma mulher


Que importa que digam mal / Do meu lirismo romântico
E que censurem o meu pecado / Amoroso sensual
Eu só desejo afinal / Uma boca rosicler
Ou então ouvir gemer / Uma guitarra em doce anel
É este um sonho tão belo
Sonho que a minha alma quer

As mais rudes penitências / Que a sorte me pode dar
É não poder alcançar / Do amor puras essências
Assim sofrendo inclemências / Ao ver-se repudiado
Meu coração magoado / Um só desejo inspira
É chorar ao som da lira
É morrer cantando o fado

Morrer dizendo os meus versos / É isto que peço a Deus
Envolvendo os olhos meus / Nuns olhos lindos, perversos
Beijos doirados, diversos / Meu ser lascivo requer
E quando a morte vier / Gelar enfim o meu sangue
Eu quero expirar exangue
Nos braços de uma mulher

Ser outono em primavera

António Calém / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de João Braga


Secura de te não ver como te via
Com esses olhos teus da cor do mar
Silêncio de não te ouvir como te ouvia
Cantando aberta à noite e ao luar

Loucura, de não seres o que eu sonhei
Cansaço duma vida que vivi
É este o novo mundo a que me dei
Depois desse teu mundo que perdi

É tarde para sonhar uma outra espera
E cedo para sonhar o entardecer
É triste ser Outono em Primavera
Florir aberto em lume e não arder

À tua porta

António Calém / Carlos da Maia
Repertório de Teresa Siqueira


Se o bater da tua porta
Fechou a vida de alguém
Porque voltas, se é já morta
A saudade de ninguém?

Na rua ouço os teus passos / Talvez que o teu coração
Mas fecharam-se os meus braços / Dentro desta solidão

E agora nem sei se vivo / Já que a esperança em mim morreu
Tu foste o sonho perdido / Em que a perdida fui eu

Mais tarde, tempos passados / Repara, repara bem
Se eu trago os olhos pisados / Pela saudade de alguém

Morte ou vida, que me importa / Depois da tua partida
Se o bater da tua porta / Me pôs entre a morte e a vida

Não olhes outra vida

António Calém / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de Fernando Marques de Oliveira


Se queres morrer em mim de madrugada
Não olhes outra vida sem saber
Que o teu morrer em mim é alvorada
E noite, se viveres noutro qualquer

Há luz por entre a treva mais escura
E sombra entre o sol num claro dia
Há sede nesta fonte de água pura
E água nesta sede de poesia

Por isso eu hoje sei que a tua vida
Será enquanto eu for todo o teu fim
Fugir será o ponto de partida
Chegar será morrer dentro de mim

Encontro e solidão

António Calém / José Marques *fado triplicado*
Repertório de João Braga


Dão-me tudo o que me negas
E nestas tuas entregas
Só encontro solidão
Todo o mundo se abre em flor
Mas em mim floresce a dor
Da tua separação

Todos me dão um abraço
Mas sinto apenas o espaço / Em que tu foges de mim
Todo este Verão é de frio
P’ra lá da dor corre um rio / Sem ter princípio ou ter fim

Salvam-se os sonhos vividos
Em que os meus cinco sentidos / Viviam junto de ti
Hoje só resta o luar
Uma onda azul no mar / E esta praia que perdi

Memória de Francisco Stoffel

António Calém / Popular *fado menor*
Repertório de Ondina Sotto Mayor


Chorei por ti neste dia
Neste dia ou noite em mim
Chorar assim noutro dia
Só quando chorei por mim

Agora soube-te morto / Fechaste os olhos à luz
E cravaram-se ao meu corpo / Os cravos da tua cruz

E que triste é este Outono / Sem a voz da Primavera
Mais triste é sonhar um sonho / Sem promessas duma espera

Que outros cantem este fado / A dizer que te perdi
E que chorem ao cantá-lo / Como hoje chorei por ti

Chorei por ti neste dia / Neste dia ou noite em mim
Chorar assim noutro dia / Só quando chorei por mim

Rosa agreste

António Calém / Raúl Pinto
Repertório de João Braga


Foi a rosa que me deste
Uma rosa, rosa agreste
Uma rosa perfumada
Depois perdi-a de mim
Deixei-a entregue ao seu fim
E dela não sei mais nada

Só o teu gesto ainda dura
Na tua mão a ternura / Mais que a ternura o amor
Passaram as manhãs d’outrora
E ficou de ti agora / O teres-me dado essa flor

Foi o teu gesto inspirado
Que trouxe a mim este fado / E aquela rosa perdida
Hoje só resta o jardim
E uma saudade sem fim / De que é feita a minha vida

Num sonho que passa

Alexandrina Pereira / Carlos Heitor da Fonseca
Repertório de Deolinda de Jesus


Quando o amor chegou serenamente
Abri as portas do meu coração
No céu dormia uma estrela indiferente
No meu tempo de sonho e ilusão

Foi hora de crescer com a certeza
Que o amor é sede num jardim
Momento p’ra sentir toda a beleza
De um fado que em segredo diz assim

Sou gota de água num jardim sem mágoa
De um dia a nascer
Sou cardo sou rosa, poesia e prosa
Amor por viver
Sou o sol poente na fonte nascente
Ave que esvoaça
Sou breve momento ao sabor do vento
Num sonho que passa


Quando a luz ilumina o pensamento
De quem só tem amor como ideal
Deixa subir o sonho com o vento
Num regaço-aconchego maternal

Palavras que dão cor ao meu sentido
Rio de amor com margem sem ter fim
Como um segredo dito ao meu ouvido
Como a voz do coração que diz assim

Partiu um dia

António Calém / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de João Braga


Partiu um dia sozinho
O sonho de te sonhar
E o sonho voltou comigo
Só depois de te encontrar

Sonhámos os dois então / No laço das nossas vidas
Eu e tu éramos um / Ou duas folhas perdidas

E sonhámos tanto, tanto / Que os sonhos deram a mão
Eram o riso e eram o pranto / Eram o corpo e o coração

Corremos p’la vida à sorte / E a sorte foi-nos perdendo
O destino disse morte / E nós morremos vivendo

Minha mãe

Fernando Farinha / Armandinho *Fado Alice*
Repertório de Fernando Farinha


Minha mãe, quando te vejo
Sinto a vida que me déste
Renascer num terno beijo
Teus cabelos tão branquinhos
Ficam ainda mais belos
Ao sabor dos meus carinhos

Nos olhos teus
Que me falam de distância
Vejo as duas sentinelas
Que guardaram minha infância
E nos teus lábios
Sinto o calor que existia
Nos beijos que tu me davas
Quando em teu colo dormia


Minha mãe, o teu leve andar
Continua a ser a força
Que me obriga a caminhar
O teu rosto d´oiro fino
É qual espelho em que me vejo
E onde sou sempre menino

Darei amor
A quem meu amor merece
E desse amor eu farei
Uma chama que me aquece
Mas minha vida
Minha vida é bem diferente
Não a dou a mais ninguém
Será tua eternamente

Contraste

Carlos Conde / Joaquim Campos da Silva *fado estela*
Repertório de Frutuoso França


É longo e triste o calvário
De quem com arte e preceito
Gasta a vida a trabalhar
Olha p`raquele operário
Que tantas casas tem feito
E sem ter onde morar

E tantos no ano inteiro / Muitas vezes sem ter pão
Nem o calor de uma brasa
Repara nesse mineiro / Que enche o mundo de carvão
E mal tem carvão em casa

Esta sonha a paz fagueira / Numa vida calma e leda
Por ser pobre e ser bonita
Eis aqui a costureira / Que faz vestidos de seda
E veste saia de chita

Ele há quem ande engatado / Entre varais, feito lixo
Lamentando a sorte sua
Ele há tanto desgraçado / A morder o pó do lixo
Que os outros lançam à rua

Neste contraste profundo / Que se vê a cada passo
Onde a crença anda perdida
É que as riquezas do mundo / Caminham de par e passo
Com as misérias da vida

A voz do meu silêncio

António Calém / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de João Braga


E um dia a tua ausência há-de ficar
Mistério do que te amei ou não amei
Será apenas réstia dum luar
Na noite que jamais esquecerei

Talvez que seja o nada já distante
O prémio desses dias que perdi
Talvez que eu viva ainda nesse instante
Do dia em que me viste e eu te vi

E dessa hora é todo o mundo feito
Do nada que era apenas um olhar
O resto é tudo sombra no meu peito
Silêncio desta voz p’ra te cantar

E os sonhos são todos meus

Alexandrina Pereira / Joaquim Campos *fado rosita*
Repertório de Deolinda de Jesus


Faço da palavra, prece
Que beija os mares e os céus
Vou em busca dos meus sonhos
E os sonhos são todos meus


Em cada esquina da vida / A minha alma se oferece
E se me sentir perdida / Faço da palavra, prece

Nos meus dedos o alento / Que sinto virem dos teus
Sou companheira do vento / Que beija os mares e os céus

Os meus sentidos sozinhos / Fazem meus dias tristonhos
Olho além outros caminhos / Vou em busca dos meus sonhos

Se a nossa força se inventa / Temos que ter fé em Deus
Enfrento qualquer tormenta / E os sonhos são todos meus

Minutos contados

António Calém / Francisco José Marques *fado zé negro*
Repertório de Miguel Sanches


Gostava tanto de ser
A flor que ao amanhecer
Cantou entre os meus sentidos
Saber que se abriu para mim
Ser ela só no jardim
Jardim dos passos perdidos

Trouxe-me um novo perfume
Outra cor e outro lume / Que eu já pensara apagado
Sentir que sorriu ainda
E que disse que era minha / Nos seus minutos contados

Flor tão breve, tão sozinha
Foi tu quereres ‘inda ser minha / Que me trouxe a Primavera
De resto, o sol neste dia
Céu azul ou meio-dia / Era só a tua espera

Trago o sol no meu peito

Alexandrina Pereira / Joaquim Campos *fado alexandrino*
Repertório de Deolinda de Jesus


Trago o sol no meu peito, foste tu que mo deste
Que nas margens do meu ser, logo se iluminou
Tenho um livro por ler, que tu me ofereceste
E em cada folha lida te vejo no que sou

Abro o meu coração, deixo a vida passar
Descubro em cada letra, tudo o que tu me dizes
Vamos escrever junto aquele verbo amar
Sem ter pontos finais e assim somos felizes

Com o passar do tempo, tanta coisa venci
Trago a fé no olhar, porque tu me ensinaste
E assim lado a lado confiante aprendi
A saber caminhar por onde tu andaste

Mas porque a vida tem, várias caligrafias
E porque os Oceanos parecem não ter fim
A paz que vem de ti dá sentido aos meus dias
Fazendo renascer o amor que há em mim

Os corvos

António Calém / José Marques do Amaral
Repertório de João Braga


Passaram com o vento sul
Os corvos que o trouxeram
Só o mar ficou azul
Pois foi a cor que lhe deram

Mas tudo o resto mudou / O céu cobriu-se de luto
E um vento seco secou / Toda a flor e todo o fruto

Os pinhais choravam tanto / Que até da praia se ouvia
E a rama verde no pranto / Era negra ao meio-dia

Vi-os passar com o vento / Os corvos em procissão
Em busca do meu tormento / Na terra da promissão

E decididamente

Mário Raínho / Angelo Freire
Repertório de Tiago Correia


E decididamente eu não pertenço aqui
Não sou dos dias d’hoje e d’ontem também não
Nem sou um grão de gente, que ainda não nasci
Só que o futuro foge de mim, como um ladrão

E decididamente o amanhã me tarda
Enquanto aqui, desalma o fantasma que sou
Tão assombrosamente, sem ter anjo-da-guarda
Nem um corpo com alma que por aí errou

Um projecto de mim, talvez seja inventado
Mas, enquanto demora a hora de ser gente
Ao nada ponho um fim, ao tudo peço o fado
De poder ir embora… e decididamente

Poentes feitos de nada

António Calém / José Carlos Gomes *fado magala*
Repertório de João Braga


Poentes feitos de nada
Num sol ao longe a nascer
É o que resta duma estrada
Que me custa a percorrer

Todo o mundo é um deserto
E a sede da tua imagem
Traz-me o teu corpo tão perto
Que o perco por ser miragem

E mais do que isto a loucura
De viver longe de ti
Saber que a tua lonjura
Faz-me cantar, mesmo assim

Mas numa noite perdida
Teremos a mesma sorte
Será minha a tua vida
Será tua a minha morte

Encara a vida de frente

Alexandrina Pereira / Jaime Santos *fado alvito*
Repertório de Deolinda de Jesus

Em noites de Lua cheia
Fui escrever na fina areia
Os meus sonhos de menina
Veio uma onda mais forte
Que ditou a minha sorte
Que escreveu a minha sina

As nuvens vinham chegando
E o vento assobiando / Uma estranha melodia
Dizia-me docemente:
Encara a vida de frente / E da noite faz teu dia

Abre portas e janelas
Depois vê através delas / Tudo o que a vida te deu
E deixa o tempo passar
Guarda sempre no olhar / Esse mundo que é só teu

Agarra o sol e a lua
Depois desenha na rua / O destino que escolheste
E verás que a vida é
Muito mais que amor e fé / É o que dela fizeste

A tua sina

António Calém / Popular *fado corrido*
Repertório deJoão Braga


Para quê sonhar futuros
Na sina que não leremos?
Sonhar são os quatro muros
Desta casa onde vivemos

Para quê montes distantes
Pedaços da cor do céu
Viver são estes instantes
Do meu corpo ao pé do teu

A palma da tua mão
Depois das linhas que li
Trago-a eu no coração
Desde a hora em que te vi

A sina da tua mão
Aquela que Deus te deu
Por mais que digas que não
A tua sina sou eu

Nada me fala de ti

António Calém / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Fernando Marques de Oliveira


Nada me fala de ti
Nem este fado que ouvi
Trouxe a tua mocidade
Nem o eco que eras dantes
Seres tu em mim por instantes
Ser eu em ti em saudade

Que doce era o anoitecer / E o sol ao longe a morrer
Quando teus olhos se abriam
E que doce era fechá-los / Mais doce ainda beijá-los
Quando de mim se esqueciam

Como era azul do luar / O teu corpo junto ao mar
Que em certa noite eu vi
Como o relembro hora a hora / Se não sei de ti agora
Se ninguém fala de ti

Num sonho que passa

Alexandrina Pereira / Carlos Heitor da Fonseca
Repertório de Deolinda de Jesus


Quando o amor chegou serenamente
Abri as portas do meu coração
No céu dormia uma estrela indiferente
No meu tempo de sonho e ilusão

Foi hora de crescer com a certeza
Que o amor é sede num jardim
Momento p’ra sentir toda a beleza
De um fado que em segredo diz assim

Sou gota de água 
Num jardim sem mágoa de um dia a nascer
Sou cardo sou rosa
Poesia e prosa, amor por viver
Sou o sol poente 
Na fonte nascente, ave que esvoaça
Sou breve momento ao sabor do vento
Num sonho que passa


Quando a luz ilumina o pensamento
De quem só tem amor como ideal
Deixa subir o sonho com o vento
Num regaço-aconchego maternal

Palavras que dão cor ao meu sentido
Rio de amor com margem sem ter fim
Como um segredo dito ao meu ouvido
Como a voz do coração que diz assim

Passam os dias, os anos

António Calém / Joaquim Campos *fado Rosita*
Repertório de Miguel Sanches


Passam os dias, os anos
E és tu que hás-de ficar
A viver do desengano
De só te saber sonhar

É que eles passam sem fim
E contigo permanecem
É que há mundos que esqueci
Mas contigo não se esquecem

É que tu trazes aos dias
O que aos dias me faltava
O riso, as alegrias
Que o mundo já não me dava

Mas ninguém mais, somos nós
A sulcar o mar profundo
É que o mundo somos nós
E o resto nem sei se é mundo

Tudo ou nada

António Calém / Miguel Ramos *fado freira e/ou oliveira
Repertório de João Braga


Tudo ou nada neste dia
Que é feito dessa alegria
Que outro dia me roubaste
Que é dos sonhos que sonhei
Do mundo que eu encontrei
Depois que tu me encontraste?

Diz-me o fim a que me levas
Se ainda há Primaveras / E se as há, em que país?
Diz-me o longe prometido
Diz-me tu que eu não consigo / Saber onde sou feliz

Traz o sol à minha vida
Diz-me essa tarde perdida / Perdida por te encontrar
Dá-me tudo o que quiseres
Dá-me manhã, se puderes / Ou noite p'ra te sonhar

Cantem um fado comigo

Alexandrina Pereira / Carlos Heitor Fonseca
Repertório de Deolinda de Jesus


Retardo no meu olhar
A correria da vida
E se a minh’alma vibrar
Retardo no meu olhar
A estrada já percorrida

É no silêncio das ruas
Que deixo os meus dialetos
Em noites de tantas luas
É no silêncio das ruas
Que visto a alma de afetos

Se um coração está triste / Canta-se um fado
E se em nós a mágoa existe / Canta-se um fado
Só tristeza não conforta / É bom abrirmos a porta
Deixar entrar um amigo
Porque ser feliz mereço / Com que emoção eu vos peço
Cantem um fado comigo


Vou e caminho sozinha
Escrevo no vento o meu fado
Desenho a vida que é minha
Vou e caminho sozinha
O meu poema inventado

No meu sentir tão profundo
Seguro os sonhos na mão
Na minha voz há um mundo
No meu sentir tão profundo
Dou asas ao coração

Manhã do desejado

António Calém / Popular *fado menor*
Repertório de João Braga


Morrer sim mas devagar
Palavras vivas de morte
Pátria perdida além-mar
Fado nosso ou nossa sorte

E num deserto de areia / Chamado Alcácer-Quibir
Morreu a pátria primeira / P'ra noutra Pátria florir

Ali morremos deixando / Sessenta anos de vida
Caravela recordando / A velha História perdida

E em manhã de nevoeiro / Essa manhã prometida
Viva ele de corpo inteiro / Nas manhãs da minha vida

Aos poetas

Alexandrina Pereira / Armando Augusto Freire *alexandrino*
Repertório de Deolinda de Jesus


Sou a voz dos poetas, porque eles me escolheram
Ponho na minha voz os versos que escreveram
Coloco em cada letra toda a minha emoção
Pois sinto que o poeta é alma e coração

Que seria do fado sem as palavras certas?
Que seria do mundo sem sonhos dos poetas?
Meu fado é vida inteira e traz-me a alegria
De ser a mensageira da vossa poesia

Quem canta seu mal espanta

António Calém / Alfredo Duarte *fado bailarico*
Repertório de Zé Caravela


Quem canta seu mal espanta
Mas há males dentro de nós
Que as cordas duma garganta
Não chegam para dar-lhes voz


Quem esconde uma saudade / Do olhar que a desencanta
É quem mais fala verdade / Quem canta seu mal espanta

E um sentimento profundo / Aumenta ao estarmos sós
Há outros bens neste mundo / Mas há males dentro de nós

Porque as palavras reais / Não bastam a quem as canta
E o silêncio vale mais / Que as cordas duma garganta

Por isso os bens que perdemos / Vivem só junto de nós
E as saudades que temos / Não chegam para dar-lhes voz

Tenho o mundo à minha espera

Alexandrina Pereira / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de Deolinda de Jesus


Minha vida é vida inteira
E não encontro a maneira
Mais certa de a repartir
Reparto as horas do dia
Em tristeza e alegria
Entre o chegar e partir

Tenho o mundo à minha espera
Nas mãos tenho a primavera / No olhar folhas de Outono
Abro as portas, vou sonhar
Deixo o meu corpo ficar / Num doce e terno abandono

Deixo que o vento me leve
Onde o meu coração esteve / E por lá ficou guardado
Beijando as horas do dia
Traz nas mãos a poesia / E a melodia de um fado

Na incerteza do querer
Fica a certeza de ser / Alguém que dá o que tem
Parte da vida é só minha
E assim ninguém adivinha / Se eu sou a vida de alguém

Ressurreição

António Calém / Miguel Ramos *fado alberto*
Repertório de Ondina Sotto Mayor


É estranha e bela a vida que me deste
E mais do que ela o mundo que me abriste
Depois de ter morrido, tu trouxeste
A alma a este corpo que ainda existe

Criaste um novo ser disperso ao vento
Para te escrever por fim esta poesia
Luar azul, estrela dum momento
Estrela em todo o céu que me alumia

Tenho medo que volte a madrugada
Tenho medo do sol, do claro dia
Que tudo o que és para mim não seja nada
E esta seja a última poesia

Reino perdido

António Calém / Franklim Godinho
Repertório de António de Noronha


Durmo contigo e sem ti
Nesta noite de luar
Viver só do que perdi
Nem é viver, é sonhar

Vivo sem saber que vivo
Espero sem olhar a espera
Sonhar, sim, talvez contigo
Verde, esperança ou Primavera

Mas não sei se vou além
Deste sonho que sonhei
Quem dá tudo o que não tem
Dá um mundo em que foi rei

E desse reino profundo
Só me ficou o sonhar
É que eu fui rei doutro mundo
Que existe para lá do mar

És tu

Zeca Maneca / Pedro Rodrigues *fado primavera
Repertório de Luís de Matos


O meu despertar risonho
Teve aleluia de cores
Quando vi os olhos teus
Sentiu a magia do sonho
No arco-íris de amores
Que os teus beijos dão aos meus

És tu que neste momento
Quebra a voz da solidão
Do amor que existe em mim
Corrente de sentimento
De dois corpos que se dão
Num fogo ardente sem fim

És verão que quer ficar
No meu inverno descrente
Batido p’la neve fria
És tu quem quero amar
Sendo a raíz a semente
No raiar dum novo dia

O Fado

Tino Ferreira / Casimiro Ramos *fado fé*
Repertório de Júlia Lopes


O Fado nasceu dia
Vestindo nobre samarra
Cantado p’rá fidalguia
Na famosa Mouraria
Ao som da velha guitarra

Breve correu toda Alfama
Bairro Alto e Madragoa
Nas caravelas do Gama
Combateu e ganhou fama
O fado desta Lisboa

Cantou-se nas desgarradas
Ao desafio lá nas hortas
Patuscos e guitarradas
Alegravam as toiradas
Corridas fora de portas

Deu-lhe certa bizarria
Essa mulher doutra era
Foi deusa da Mouraria
Raínha da fidalguia
Que foi Maria Severa

Tu sabes, Maria

Letra e música de Diogo Lucena e Quadros
Repertório de António Pinto Basto


Nasceste co’as rosas bravias
Do chão do teu Ribatejo
Mas sabes bem que devias
Vir ver onde acaba o Tejo
Com teu vestido de chita
Nessa lezíria dourada
Quis Deus que fosses Maria
Maria só e mais nada

Tu sabes, Maria
Que é triste o olhar
D’alguém que queria
Outros braços para abraçar
Tu sabes, Maria
Que esse sentimento
Sai do meu peito de dia
E volta à noite com o vento


Teu cabelo esvoaçando
Quando agitado p’lo vento
São acenos provocando
A todos, o pensamento;
Essa beleza estremece
As ruas da tua terra
És a rainha que volta
Depois de ganhar a guerra

Um grande amor

Fernanda de Castro / Miguel Ramos *fado margaridas*
Repertório de Teresa Silva de Carvalho


Um grande amor não cabe em nenhum verso
Como a vida não cabe num jardim
Como não cabe Deus no universo
Nem o meu coração dentro de mim

A noite é mais pequena do que o luar
E é mais vasto o perfume do que a flor
É a onda mais alta do que o mar
Não cabe em nenhum verso um grande amor

Dizer em verso aquilo que se pensa
Ideia de poeta, ideia louca
Não é bastante a frase mais extensa
Diz mais o beijo do que diz a boca

E quando sobre nós desce a tristeza
Como desce a penumbra sobre o dia
Uma lágrima triste e sem beleza
Diz mais do que a palavra nua e fria

Redondilha de amor... para fazê-la
Desse-me Deus a tinta do luar
A candeia suspensa duma estrela
E o tinteiro vastíssimo do mar

Caminho de rimas

Mário Raínho / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de Paulo Filipe

De tão longe aqui cheguei
E se estranho me encontrei
Nesta morada vazia
P’ra que palmilhei a vida
Numa busca desmedida
Entre o sonho e a poesia?

Estado de alma, solidão
Prenhe, o ventre-coração
De tudo um pouco e um nada
Quem me mandou percorrer
Alvoradas, p’ra gemer
Silêncios na madrugada?

De dentro me fui embora
E chegado aqui, agora
À torre da minha dor
Rimo as saudades que trago
Dum tempo que quis ser mago
D’alquimias do amor

Quadras soltas

Silva Tavares / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Ando triste sem razão
Detesto quem me conforta
E só sinto o coração
Quando passo à tua porta

Amar é sofrer gozando
Gozando sem perceber
Que os dias se vão passando
E se envelhece a sofrer

Da certeza prometida
Duvido, como da sorte
Porque de certo na vida
Conheço apenas a morte

Creio em ti, toda a verdade
Dos outros não vale um zero
Podes mentir á vontade
Creio em ti porque te quero

Desde o dia que te foste
Toda a ventura perdi
Antes a tua mentira
Do que a verdade sem ti

Último adeus

João Mário Veiga / Frederico de Brito *fado britinho*
Repertório de António Pinto Basto


Tudo acabou nesse adeus
Em que vi os olhos teus
Partirem p’ra outro lado
Sonhamos tanto, e depois
O que resta de nós dois
É um pouco do passado

Quantos fados te cantei
Quantos poemas rasguei / Por serem feitos de ti
Esqueci-me de tantos dias
Nas promessas que fazias / Outro fado descobri

Já é tarde, meu amor
O poente perde a cor / E não te vejo voltar
Com a noite vem a saudade
Mesmo longe és a verdade / Que ponho no meu cantar

Eu vi minha mãe rezando

Mote de Barreto Coutinho  / Glosa de José Mariano / Joaquim Campos *fado amora*
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Eu vi minha mãe rezando
Aos pés da Virgem Maria
Era uma santa escutando
O que outra santa dizia


No dia em que abandonei / Meu lar, fortuna buscando
Nunca mais o esquecerei / Eu vi minha mãe rezando

Eu não sei o que rezava / Eu não sei o que pedia
Sei apenas que chorava / Aos pés da Virgem Maria

A linda imagem sorria / Num sorriso meigo e brando
Aquele rosto vivia / Era uma santa escutando

E se minha mãe tornou / A ver-me e voltei um dia
Foi porque a santa escutou / O que outra santa dizia

Morena gaiata

António Rocha / Joaquim Neves 
Repertório de Artur Batalha

Mora no Bairro de Alfama
Na rua mais concorrida
Uma garota atrevida
Que põe corações em chama

Trago sempre no ouvido
Esta cantiga brejeira
Que a Tia Rosa peixeira
Lhe canta, em tom atrevido

Morena gaiata que a todos namoras
Não há quem te bata na rua onde moras
Mas se algum rapaz te apanha, pequena
Nunca mais serás gaiata morena


Ela segue e sem parrar
Sempre alegre e atrevida
Diz que ‘inda tem muita vida
Para na vida pensar

E o povo, na rua inteira
Canta com grande alarido
O mote já conhecido
Da Tia Rosa peixeira

Sou pobre e sou rico

Bruno Bobone / António Pinto Basto *fado sodré*
Repertório de António Pinto Basto


Sou pobre e sou rico, na vida do mundo
Não quero ser mais, quero só ser profundo
Não sonho de noite nem durmo de dia
Não faço acordado, nem muito nem pouco;
Não sofro nem amo como Deus sofria
Sou esperto e sou burro, eu sei que sou louco

Sonhar é um prémio, sonhar é castigo
E eu sonho contigo e sonho comigo
Não sei se acordo quando nasce o dia
Só sei que me sinto a mim, num sonho;
Eu sei que não minto, senão eu sofria
Só eu sou culpado, a culpa em mim ponho

É bom ser feliz, mesmo que por um dia
Bate o coração em nome d’alegria
Só penso calado que pode acabar
E fico parado nem me posso mexer;
E depois eu grito “eu quero acordar”
E hei-de ser feliz com o que a vida me der

No fim, lá acordo pensativo e cansado
Porque a alegria que sentia há bocado
Não se deixou ficar, não se comprometeu
Deixou-me partir, partiu-me o coração;
Mas nada existe que me faça mais eu
Que ter sido feliz um momento, uma paixão

Angústia de viver

Lima Brumon / Helena Moreira Viana (ou) Luís Alexandre
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt
Em dois trabalhos discográficos aparece uma autoria diferente

Tenho a vida a chorar-me nas mãos
Arrancada às algemas da saudade
E aceito esta angústia de viver
P’la mais pura e simples humildade

Nas asas do vento não visito já o prazer
Nem creio na cor translúcida
Da luz que cerca as flores
E é só a tua imagem
Meu amor que me embriaga
Nesta abóboda de lírios
Toda feita dum sonho que se amarga

Nas asas do vento não visito já o assombro
E o riso de criança
É o que me enfeita esta tristeza
Cantigas são promessas
Do que me desencantou
E os lírios olhos mansos
Encharcados da luz que os rejeitou

O choro da guitarra

Mário Raínho / Alfredo Duarte *fado cuf*
Repertório de Fernando Jorge


Guitarra, não derrames mais tristeza
Que ao ouvir-ter chorar, mais acentuas
Enquanto vou cantando esta incerteza
Se choras minhas mágoas ou as tuas

Se a minha voz te canta tão serena
Como louca desatas o teu pranto
E eu fico sem jeito, faz-me pena
Então quase emudeço e já não canto

Guitarra, sei que a minha dor entendes
E que tens muito mais que seis sentidos
Porque sõa doze, as cordas com que prendes
A minha alma fadista aos teus gemidos

Quem te deu à nascença essse destino?
Quem te moldou em forma coração
Se te escuto a gemer desde menino
Porque andas a chorar de mão em mão?

Com três letrinhas apenas

Mote popular / Glosa de José Mariano / Popular *fado menor*
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Com três letrinhas apenas
Se escreve a palavra mãe
Que é das palavras pequenas
A maior que o mundo tem


Amor palavra tão grande / Brilha sempre entre centenas
E afinal também se escreve / Com três letrinhas apenas

Quem amor queira escrever / Amor escreve também
E só amor pode ler / Se escreve a palavra mãe

Amor é tudo e na escrita / Em quatro letras apenas
E mãe, ternura infinita / É das palavras pequenas

Por uma graça divina / Diz tudo quem diga mãe
Palavra tão pequenina / A maior que o mundo tem

Laço de amor

Mário Raínho / Raúl Pinto
Repertório de Paulo Filipe


Os nossos corpos unidos
De preconceitos despidos
A que o amor deu um laço
No dorso da nossa cama
Ninguém apaga essa chama
Ninguém desata esse abraço

São murmúrios suspirados
Dois gritos quase abafados
Nas rosas, os nossos beijos
Assim, de mãos enleadas
Nas nossas veias coladas
Sentimos pulsar desejos

Mesmo que lá fora a lua
P’las clareiras da rua
Sua beleza derrame
Vendo o amor que fazemos
Devagar, vai-se escondendo
Porque não tem quem a ame

Amor, primeiro amor

Lima Brunmon / Luís Alexandre
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Amor primeiro amor, não consumado
Minha memória acesa agreste e doce
Passaste tão fugaz, irrealizado
Mas não tive outro amor que maior fosse

Abre-se em mim a voz duma harmonia
Sempre que queres morrer no pensamento
E vais entre a verdade e a fantasia
Amor primeiro amor, vencendo o tempo

És tão perfeito como é a ilusão
Não houve… possa queimar-te a ansiedade
Nem foi tua essa estranha condição
Do amor que se desfaz na realidade

Rua da Conceição

José Luís Gordo / Diogo Lucena e Quadros
Repertório de António Pinto Basto


Na Rua da Conceição
Onde o passado demora
Vai de botão em botão
Nas casas aonde mora
Tem lembranças do passado
Das costureiras de outrora
Até do velho Chiado
Que Lisboa ainda chora

Dedais, dedais e botões para todos os vestidos
Agulhas de corações em corações de veludo
Na Rua da Conceição, morada de retroseiros
Vai de botão em botão, em beijos casamenteiros


Na Rua da Conceição
Onde as noivas se entretinham
Em dedais de emoções
E linhas para as baínhas
A Rua da Conceição
Morada de retroseiros
Cem anos de tradição
Bailado de costureiros

Elétrico vinte e oito
Teu companheiro de sempre
Nas linhas da tua rua
Onde o passado é presente
E tu, Lisboa, bem sabes
Do tudo de antigamente
Teu coração ‘inda guarda
A Conceição de ser gente