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Rádio apadrinhada pelo mestre RODRIGO

Rádio apadrinhada pelo mestre RODRIGO
CANAL DE JOSÉ FERNANDES CASTRO EM PARCERIA COM A RÁDIO MIRA

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* As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: nem sempre são mencionados os legítimos criadores *

<> 6.305 LETRAS <> 2.180.000 VISITAS <> JUNHO DE 2021 <>

* ATINGIDO ESTE VALOR /*/ QUE ME FAZ SENTIR HONRADO /*/ CONTINUO, COM AMOR /*/ A SER SERVIDOR DO FADO *

* POIS MESMO DESAGRADANDO /*/ A *TROIANOS* MALDIZENTES /*/ OS "GREGOS VÃO APOIANDO /*/ E VÃO FICANDO CONTENTES *

* NÃO ENCONTRA O FADO PREFERIDO? /*/ ENVIE, POR FAVOR, O SEU PEDIDO * fadopoesia@gmail.com

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* NASCEU ASSIM... CRESCEU ASSIM... CHAMA-SE FADO // Vasco Graça Moura // Porto 03.01.1942 // Lisboa 27.04.2014 *

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Minha amada Lisboa

Marco Oliveira / Tiago Derriça
Repertório de Marco Oliveira


A minha amada Lisboa
Tem o azul do tejo no olhar
Toda a cidade se ilumina
Quando penteia o seu cabelo ao luar
Conto as estrelas no seu rosto de menina

A minha amada Lisboa
Perfuma cada rua de saudade
E nas vitrinas da avenida
O seu vestido vais espelhando a claridade
Quando ela passa nos meus dias distraída

Que será das vielas e da ponte sobre o rio
Quando encontrar outro lugar nos sonhos dela
Se ela partir sem um adeus no seu navio
Não há-de haver outra cidade como ela


A minha amada Lisboa
Quer ver nascer o sol no meu inverno
Quer ver a chuva em pleno agosto
E andar molhada no Rossio um dia eterno
Quando ela dança o meu sorriso é fogo posto

Que será das vielas que deixou no meu olhar
Quando o luar vier espreitá-la na janela
Daquela casa que deixou sem avisar
Sei que Lisboa vai sentir a falta dela

Nas águas do meu navio

Afonso Duarte / Borges de Sousa
Repertório de Célia Barroca


Nas águas vai meu navio
Leva amor que se carrega
É na graça e no feitio
O meu olhar que navega

O mar bate-se na praia
E as águas curvam-se em ondas
É o meu olhar que desmaia
Nas suas formas redondas

Uma se quebra atrás duma
Meus olhos perderam olhos
Querira Deus que a sua espuma
Não traga um feixe de escolhos

São duas ondas de mar
Que se saúdam no rosto
Sendo ambas do meu olhar
Só uma travo com gosto

Fado amargura

Ana Sofia Paiva / Marco Oliveira *fado amargura*
Repertório de Marco Oliveira


Contemplo da janela a madrugada
Os carros vão varrendo as avenidas
Perfume de miséria adocicada
Que aos poucos embriaga as nossas vidas

Contemplo esta saudade rotineira
Manchando de vergonha toda a rua
A minha própria dor à cabeceira
Do tédio a que meu corpo se habitua

E as pombas, guardiãs do cemitério
Em que a velha cidade se transforma
Com asas de mortalha e de mistério
Cinzeiro que do céu todo se entorna

Contemplo este compasso de quebranto
Entre a vida que passa e a que ficou
Contemplo esta amargura que hoje canto
Contemplo e jã não sei dizer quem sou

Um dia atrás do outro

Tiago Torres da Silva / Pilar Homem de Melo
Repertório de Célia Barroca

Não olhes p’ra mim dessa maneira
Como se eu fosse jardim e tu roseira

Manhãs luminosas estão à espera
Então porque não dás rosas… é primavera

O amor é uma andorinha, quando sente frio
Enfrenta sózinha um céu vazio

O ninho do meu peito, o beiral de um telhado
Pelas tuas mãos desfeito, pelas minhas moldado

Não esperes do meu corpo uma rotina
Um dia atrás do outro não é sina

O sol atrás da lua e das marés
É assim que eu sou tua e tu não vês

Que é feito da Mariquinhas?

Marco Oliveira e Ana Sofia Paiva / Marco Oliveira
Repertório de Marco Oliveira

Que é feito da Mariquinhas?
Há muito que ninguém a vê passar
Foi nas suas tamanquinhas
A casa já está pronta pr’alugar
Quem é que se lembrou de a pôr a andar?
Não se riam as vizinhas
Que dizem que foi desta p’ra pior
Só não sabem, coitadinhas
Quem ri por último é quem ri melhor

Vendeu o espelho e a colcha com barra
Ao preço dumas uvas miudinhas
Mas se ela deixou lá uma guitarra
Um dia há-de voltar, a Mariquinhas

Que é feito da Mariquinhas?
Ninguém sabe onde param as amigas
Correrem as capelinhas
Não há sinal daquelas raparigas
E vai um bairro inteiro p’rás urtigas
E a saga continua
Ainda vai no adro a procissão
Quem lá vai não se habitua
A falta que ela faz não tem perdão

Rifou as bambinelas mais a jarra
Os móveis e as cortinas às pintinhas
Mas se ela deixou lá uma guitarra
Um dia há-de voltar, a Mariquinhas

A rua está cada vez mais bizarra
Cutam couro e cabelo umas ginginhas
O fado que gostva de algazarra
Perdeu a Rosa, o Chico e a Mariquinhas

Lisboa já não é como a cigarra
Espantaram os boémios alfacinhas
Mas se deixaste lá uma guitarra
Adeus, até à volta, Mariquinhas

Pena *Rua Martin Vaz n°2*

Ana Sofia Paiva / Armandinho (alexandrino do estoril)
Repertório de Marco Oliveira


Lisboa é uma criança perdida ao pé do mar
Sem casa onde dormir, trapeira onde morar
Brincando alheia à dor, ao vento que assobia
Por entre o doce véu de alguma gelosia

Lisboa é uma criança de crua pele morena
No p´tio escuro e pobre da vila mais pequena
Lá vai descendo a rua, velhinha e descalçada
Vender laranja nova por pouco ou quase nada

Nocturno passarinho, cativo de orfandade
Correr da doce mágoa ao colo da cidade
Deixando duras penas a quem quiser cantar
Lisboa é uma criança perdida ao pé do mar

Lágrima tola

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório da autora


Que lágrima tola percorre este fado
Sal derramado sem cor nem sentido
Mágoa tão amarga, não sei donde vem
De um sonho de alguém que o terá perdido

Mágoa tão antiga
Que já não me ocorre
Se é viva ou se morre


Que lágrima tola percorre este fado
Sal derramado p’la vida fugida
Que sal tão salgado, ai que água tão fria
Que lágrima tola percorre este dia

Fado sem ti

Manuela de Freitas / João Black *fado menor do porto*
Repertório de Marco Oliveira


Sempre quis cantar um fado
Que não falasse de ti
E de tanto ter tentado
Finalmente consegui

Que só tu é que me inspiras / Que só de ti é que eu falo
Mentiras, tudo mentiras / Este fado vai prová-lo

Será um fado diferente / De todos que já cantei
Falarei de toda a gente / Mas de ti não falarei

Nem falo, não há razão / Disto que sinto por ti
De seres a maior paixão / De todas que eu já vivi

E como vês meu amor / Eu não cedo à tentação
Falo seja do que fôr / Falar de ti é que não

E assim fica provado / Que tentei e consegui
Cantei finalmente um fado / Sem nunca falar de ti

Meu canto de viela

Artur Ribeiro / Amadeu Ramim *fado zeca*
Repertório de Fernando Maurício


Há neste meu cantar feito viela
Qualquer coisa sequer que não entendo
Que tanto podem ser saudades dela
Como queixas de mim que vou fazendo

Há neste meu cantar das madrugadas
Um anseio de ser o que não sou
Que tanto podem ser pequenos nadas
Como versos que mais ninguém cantou

Há neste meu cantar feito amargura
Coisas que nem sequer devo lembrar
E que me fazem ir p’la noite escura
À procura de quem não devo amar

A fadista

Manuela de Freitas / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Ana Moura


Vestido negro cingido 
Cabelo negro comprido
E negro xaile bordado
Subindo à noite a avenida 
Quem passa julga-a perdida
Mulher de vício e pecado;
E vai sendo confundida
Insultada e perseguida
Pelo convite costumado

Entra no café cantante 
Seguida em tom provocante / Pelos que querem comprá-la
Uma guitarra a trinar 
Uma sombra devagar / Avança p'ró meio da sala
Ela começa a cantar 
E os que a queriam comprar / Sentam-se à mesa a olhá-la

Canto antigo e tão profundo 
Que vindo do fim do mundo / É prece perante o pregão
E todos os que a ouviam 
À luz das velas, pareciam / Devotos em oração
E os que há pouco a ofendiam 
De olhos fechados ouviam / Como a pedir-lhe perdão

Vestido negro cingido 
Cabelo negro comprido / E negro xaile traçado
Cantando p'rá aquela mesa
Ela dá-lhes a certeza / De já lhes ter perdoado
E em frente dela na mesa
Como em prece a uma deusa / Em silêncio ouve-se o fado

Rua da saudade

Ana Sofia Paiva e Marco Oliveira / Marco Oliveira
Repertório de Marco Oliveira


Aquela rua 
Junto ao largo da infãncia
Onde a vida continua 
A marcar uma distãncia
Quem nela mora 
Vê o espelho doutra idade
Quando a tarde se demora 
Nos olhos duma saudade

Na Rua da Saudade 
Não há cravos nas janelas
As portas ‘stão fechadas
Não há luz por dentro delas
Poeira do passado
Silêncio de oração
Molduras desmaiadas
Retratos de ilusão;
Na Rua da Saudade
Algo fica de quem parte
Um beijo, uma promessa
De amanhã reencontrar-te
Quem dera ver-te ainda 
À espera de voltar
À Rua da Saudade
Que foi sempre o teu lugar


Naquela rua 
Ao largo de São Martinho
Vi brinquedos de madeira
Um cavalo, um passarinho
Calçada escura 
Que Santo António abençoa
Ao relento da ternura
Coração de outra Lisboa

Na Rua da Saudade
Ninguém passa sem chorar
O tempo de mansinho
Adormece a ver passar
Tão belas são as sombras 
Dos pátios ao luar
Saudades e encantos
De quem nos quer lembrar;
Na Rua da Saudade 
Algo fica de quem parte
Um beijo, etc.etc

Fado das docas

Letra e música de Célia Barroca
Repertório da autora


Corri Lisboa, becos escadinhas 
Do Bairro Alto à Madragoa
Segui-te o rastro
Neste meu passo que apresso e troco
Procurei-te o rosto
No fundo baço de mais um copo

Mas foi nas docas
Mas foi nas docas
Que o teu olhar me encheu a noite 
De rosas rubras

Deste-me a mão
Sorriu-me o Tejo e não vi mais nada
Pediste-me um beijo
Disse que sim dum’assentada

Cumpriu-se o amor já prometido
Num beijo aceso, num beijo aceso
Num vão de escada p’la madrugada

Fado inventado

Tiago Torres da Silva / Joaquim Campos
Repertório de Célia Barroca

Inventei uma palavra
P’ra te dizer ao ouvido
De cada vez que acordava
Do teu beijo adormecido

Inventei um sentimento / P’ra trazer a eternidade
À doçura do momento / Em que se inventa a saudade

Inda inventei uma cor / Que da chama duma vela
Fizesse abrir uma flor / Mas não murchasse com ela

Depois, deixei-me dormir / Ao sentir adormecer
O que não pode fugir / De quem se inventa ao nascer

Inventei uma quimera / Que no escuro nos guiasse
E deixei-me estar à espera / Que o teu amor me inventasse

Eterna namorada

Ana Sofia Paiva / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de Marco Oliveira


Lisboa, minha eterna namorada
Acordo quase sempre p’ra te ver
Tu és manhã tardia e sossegada
Dum tempo que eu não tenho p’ra perder

Mas quando eu dou por mim preso à janela
Poisado como as pombas e os pardais
Contemplo esta cidade em aguarela
Reparo que ela e eu somos iguais

O sono entristecido das cortinas
Ao vento côr-de-rosa, desmaiado
Estendendo a vida inteira p’las colinas
Na corda dum relógio já cansado

Ao longe, a voz antiga das canções
Magoa as margaridas dos quintais
Lisboa que envelhece os corações
No fundo eu e tu somos iguais

À hora da partida

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório da autora


À hora da partida, em cada voz
Um fado triste das vielas
À hora da partida
Minha alma é noite e ansiedade

No cais das descobertas, o meu navio
No meu navio flutua um sonho
Acendem-se as estrelas por meus guias

No cais das descobertas calou-se o fado
Lisboa não vive nem morre, Lisboa dorme
No coração um resto de saudade

Não cabem nesta hora despedidas
Chama por mim um mar de esquecimento
Cidade de chegadas, cidade de partidas
Não coube em ti meu sonho e meu tormento

De cada noite perdida

Marco Oliveira / João David Rosa *fado rosa*
Repertório de Marco Oliveira


Trago ruas e memórias
De cada noite perdida
São retratos das histórias
Do fado da própria vida

A vida que vai passando / Lembra mais um sonho ausente
As saudades vão ficando / No olhar de toda a gente

Quando a noite nos abraça / Nas ruas onde passamos
Há sempre alguém que lembramos / Num passado que não passa

A luz do céu da cidade / Vem beijar a nossa calma
Como o tempo traz saudade / Às ruas da nossa da nossa alma

São retratos das histórias / Do fado da própria vida
Trago ruas e memórias / De cada noite perdida

Bebido o luar

Sophia Melo Breyner / Helena Maria Viana
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt

Bebido o luar e ébrios de horizontes
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar

Mas solitários somos e passamos
Não são nossos os frutos nem as flores
O céu e o mar apagam-se em exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos

Porquê jardins que nós não colheremos
Límpidos nas auroras a nascer
Porquê o céu e o mar se não seremos
Nunca, os deuses capazes de os viver

Sombra

Hélia Correia / João Blak *fado menor do porto*
Repertório de Carlos do Carmo

No mais profundo da gente
Onde nem a vista alcança
Uma outra vida balança
Entre o passado e o presente

No mais profundo de nós / Onde ninguém se aventura
Anda a canção à procura / Da voz que lhe dá-de dar voz

P’ra lá do muro assombrado / Onde nem luz se adivinha
Esvoaça aquela andorinha / Que vem morrer no meu fado

E dizem que a voz não vem / De particular garganta
Que não sabemos quem canta / Sempre que em nós canta alguém

Não somos mais que centelha / Que a própria sombra acendeu
Mas basta um poema e o céu / Que está tão longe e ajoelha

Conheces-me

José Fernandes Castro / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Carlos Coelho

Tu sabes bem quem eu sou 
Onde estou e onde vou
De mim sabes quase tudo
Sabes até que o meu fado
Marcado p'lo teu passado
É um grito quase mudo

Tu conheces bem a cor / 
E o valor que tem a dor
Quando a despedida vem
Conheces a realidade / Da saudade que m'invade
Pela saudade de alguém

A saudade é mais veloz / Do que a voz, sempre que nós
Sentimos a alma fria
Para matar a frieza / E a tristeza tão acesa
Canto por ti noite e dia

Cantando estou bem melhor / Tenho o vigor e o fulgor
Que só o fado contém
Amor que não esqueci / Canto por ti e p'ra ti
Porque me conheces bem

Minha alma, meu fado

José Fernandes Castro / João Blak *fado menor do porto*
Repertório de Eugénia Maria

Dei a alma toda ao fado
Fui fadista a vida inteira
Neste jeito dedicado
De honrar a minha Madeira

Nasci fadista por sina
Sou fadista por condão
Mulher que já foi menina
Outono que foi Verão

Ainda tenho vontade
De mostrar com grande empenho
Esta alma que mantenho
Que a alma não tem idade

Vivo feliz, na certeza
De ter dado por inteiro
Este jeito verdadeiro
De ser mulher portuguesa

O lençol desta paixão

Bernardo Sá Nogueira / Carlos da Maia *fado perseguição
Repertório do autor


Gosto tanto de te ouvir
De olhar tua boca a abrir
A soltares teu coração
Que qualquer dia, p’ra ver
A teus pés irei estender
O lençol desta paixão

Vou falar que a alma aqueces
Que me abrasas e entonteces / Com teu canto cristalino
Que ao escutar-te, já esquecido
Me sinto às vezes perdido / Nas malhas do meu destino

Vou gritar: quero-te agora
Que me não basta uma hora / Nem carinhos de ternura
Saberás, assim o espero
A razão por que te quero / Sem mágoas, nem amargura

Mas se efeito não fizer
Tudo o que então te disser / Por agora eu fico assim
O meu desejo é imenso
Não raciocino, não penso / Quando estás ao pé de mim

Amar de madressilva

Cália Barroca / Popular / Luís Petista
Repertório da autora


Eu trago o beijo das rosas
O cheiro das madressilvas
Nos meus olhos, brilhos mansos
Nos lábios, doces cantigas

Trago ribeiras que riem
Por entre as pedras doiradas
Trago campos de papoilas
Em serenas madrugadas

Vai p’rá torre São João, vai p’rá torre
Vai p’rá torre São João de Barra
Vai p’rá torre, vai p’rá torre
Vai p’rá torre tocar guitarra


Trago o mistério da vida
No rio do meu desejo
Trago o amor a bailar
Nos olhos com que te vejo

Vida curta anda depressa

Bernardo Sá Nogueira / Joaquim Campos *fado puxavante*
Repertório do autor


Num instante, num segundo
Vida curta anda depressa
Toda a beleza do mundo
Coração jamais apressa


Vivemos como imortai / Mas sabendo, lá no fundo
Que as horas passam, fatais / Num instante, num segundo

Nossa existência se faz / Numa flecha e atravessa
O tempo, de trás a trás / Vida curta anda depressa

Sem parar por um só dia / De meu fado a terra inundo
Devorando co’ alegria / Toda a beleza do mundo

Nun galope, num rompante / Sem que mar ou rio o impeça
Tua estrela rutilante / Coração jamais apressa

Ai o fado

Cália Barroca / Luís Petisca
Repertório da autora

Ai o fado, o que é o fado
É a lágrima teimosa
Que teima sempre e que cai
O meu fado é mais um ai
A rimar com o passado

É este cantar chorado
Como uma prece de santa
E eu sou mais uma que canta
O amor que passa ao lado
Que passa por este fado

Ai o fado, o que é o fado
É o verso e o reverso que atravesso
Nestas horas a cismar
É a saudade a bailar
É a sombra do passado
É o amor que passa ao lado
E eu sou mais uma a cantar

Procurei e encontrei

José Fernandes Castro /Alfredo Marceneiro *menor-versículo*
Repertório de Carlos Coelho


Procurei-te num poema / genial
Encontrei-te felizmente / meu amor
Tinhas a força suprema / divinal
Duma rima diferente / por compor

Rimavas com madrugada / por nascer
Rimavas com tempestade / sonhadora
Tinhas na pele perfumada / p’lo prazer
A essência da verdade / encantadora

Tinhas no corpo a vontade / renovada
Dum verso feito p’lo mar / do coração
Tinhas sol de liberdade / controlada
No teu doce respirar / por sedução

Tinhas marca de futuro / desejado
No perfil da tua imagem / singular
Em ti, tudo era puro / e sem pecado
Meu amor, minha coragem / para amar

Este castigo

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório da autora


Quantos céus
Quantas noites, quantos dias
Quantos sóis me alumiaram
Em pramessas de alegrias

Quantos voos 
Em primaveras de pranto
Cresceram no meu olhar
Se afundaram no meu canto

Quantas horas
Neste morrer acordada
Quanta raiva no silêncio
Da minh’alma amordaçada

Tudo morre
Só não morre este castigo
As dores do pensamento
Que arrasto sempre comigo

Poemas canhotos

Herberto Hélder / António Vitorino d’Almeida
Repertório de Carlos do Carmo


Estes poemas que chegam 
Do meio da escuridão
De que ficamos incertos 
Se têm autor ou não
Poemas às vezes perto 
Da nossa própria razão
Que nos podem fazer ver 
O dentro da nossa morte

As forças fora de nós / E a matéria da voz
Fabricada no mais fundo / De outro silêncio do mundo
Que serão eles senão / Uma imensidão de voz
Que vem da terra calada / Do lado da solidão

Estes poemas que avançam / No meio da escuridão
Até não serem mais nada / Que lápis, papel e mão
E esta tremenda atenção, este nada

Uma cegueira que apago / A luz por trás de outra mão
Tudo o que acende e me apaga / Alumiação de mais nada
Que a mão parada

Alumiação então / De que esta mão me conduz
Por descaminhos de luz / Ao centro da escuridão
Que é fácil a rima em Ão / Difícil é ver-se a luz
Rima ou não rima co’a mão

Saudade cantadeira

José Fernandes Castro / Georgino de Soua *fado georgino*
Repertório de Angela Pimenta

A saudade foi ao fado
Mais uma vez com vontade
De pôr a alma à janela
Por lá ficou, lado a lado
Com a dona felicidade
Que também lá foi com ela

Ficaram juntas ao canto
Da sala, aonde os cantores / Punham nostalgia em nós
E foi com algum espanto
Que ao ouvir falar d'amores / A saudade ganhou voz

Cheia de brio e de garra
Movida pla poesia / A saudade motivou-se
Depois, ao som da guitarra
Cantou com rara mestria / E o fado emocionou-se

Com o olhar marejado
Com a alma bem acesa / E de peito a bater forte
A saudade e o senhor fado
Deram alma portuguesa / Ao fado da nossa sorte

Bem-disposto então vá

Júlio Pomar / Paulo de Carvalho
Repertório de carlos do Carmo


Bem-disposto então vá / Pão e vinho sobre a mesa
E cozido à portuguesa? / É sexta-feira, não há

Bem-disposto então vá / No cavalo do poder
De burro, não chega lá / De mula, iremos ver

Bem-disposto então ó meu
Quem é t’acaba o resto
Das cantigas de protesto? 
Inda me passas a réu
Bem-disposto então vá 
Alevantado do chão
E o bem é da nação
Acabou-se a festa, pá

Bem-disposto então vá / Lá fora ver a mudança
Viver sempre também cansa / Descanso é que não há

Bem-disposto então vá / Que a fome não enganas
Saiam finos e bifanas / Para mais é que não há

Bem-disposto então vá / E depois para limpar
Dava jeito um Salazar / Nem por brincadeitra, pá

Pois zero de mão beijada / Te será dado de graça
No país que vai à praça / Por pó, terra, cinza e nada

Sopro madeirense

José Fernandes Castro / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de Maria José Figueira


O sopro do meu fado é um poema
Que canto à minha Ilha da Madeira
Poema que só tem força suprema
Por ser cantado assim desta maneira

Cantando com prazer e com rigor
Sentida pela alma que hoje sou
A força deste fado tem a cor
Da fé que o céu da ilha me ensinou

A minha condição de ser fadista
É culpa desta raça portuguesa
Que não se compra, apenas se conquista
Com brio e com muito mais nobreza

O sopro do meu canto é este amor
Que faz de mim um ser abençado
Bendito este jardim encantador
Bendita esta Madeira do meu fado

Vai devagar coração

António Rocha / Raúl Pinto *fado raul pinto*
Repertório de António Rocha


Silêncio em horas perdidas
São meus tristes pensamentos
Vai devagar coração
P’ra não viveres duas vidas
Nestes escassos momentos
De doce recordação

Coração, não me condenes
Porque te faço sentir
Que segues caminho errado
Mas eeu não quero que penes
Nem te deixes iludir
Na mentira do meu fado

Fado que não te convém
Porque não tem pró guiar
O calor daquela mão
Que há muito espero e não vem
Não te deixes arrastar
Vai devagar coração

Não voltes

Moita Girão / Pedro Rodrigues
Repertório de Fernando Maurício


Porque teimas em seguir
Cegamente a caminhar
Na poeira dos meus passos
Não vês que eu ando a fugir
A fugir de te apertar
Novamente nos meus braços

Desde o dia em que abalaste
Do jardim do nosso amor / A saudade não se mede
As rosas murcham na haste
Os cravos perdem a cor / E os lírios morrem à sede

Se o inverno se avizinha 
Eu já sou não como era / Cai tanta neve em meu peito
Não podes ser andorinha
Que volta na primavera / Ao ninho que deixou feito

Sabes que não sei mentir
Se hoje só te posso dar / Um coração em pedaços
Deixa-me andar a fugir
A fugir de te apertar / Novamente nos meus braços

Mariquinhas.com

Vasco Graça Moura / Paulo de Carvalho
Repertório de Carlos do Carmo


A quem quer pintar o sete
À moda dos alfacinhas
Dá bem mais do que promete
A formosa Mariquinhas


Consta que já reabriu / A Casa da Mariquinhas
E que tem as amiguinhas / Mais lindas que já se viu
Quem o disse, sugeriu / Que se vá ver na internet
O site dela promete / Só meiguices e fosquinhas
E diz mais nas entrelinhas 
A quem quer pintar o sete

Será caro mas é bom / Não vos sei dizer o preço
É este o seu endereço / Mariquinhas ponto com
Tem mobílias de bom tom / E discretas tabuínhas
E até vende camisinhas / Para os encontros brejeiros
Vão lá muitos estrangeiros 
À moda dos alfacinhas

Faz-se em duas ou três linhas / Uma marcação de amor
E se está muito calor / Há no tecto as ventoinhas
Quando chega a Mariquinhas / Com escassa toilett
Logo os corações derrete / Por ser boa rapariga
Não faltando até quem diga 
Dá bem mais do que promete

O progresso é mesmo assim / Hoje não há nada inédito
Usa-se o cartão de crédito / Paga-se antes e no fim
O sabão cheira a jasmim / E as bebidas são fresquinhas
Se é altiva entre as vizinhas / Virtuosa não será
Mas virtual se fez já
A formosa Mariquinhas

Canção

Sophia de Mello Breyner / Mário Pacheco
Repertório de Carlos do Carmo


Clara uma canção
Rente à noite calada
Cismo sem atenção
Com a alma velada

A vida encontrei-a / T
ão desencontrada
Embora a lua cheia / E a noite extasiada

A vida mostrou-se / Caminho de nada
Embora brilhasse / Lua sobre a estrada

Como se a beleza / Da lua ou do mar
Nada mais dissesse / Que o próprio brilhar

Por esta razão / Sem riso nem pranto
Neste sem sentido / Se rompe o encanto

Estou bem

Capicua / Ricardo Cruz
Repertório de Inês de Vasconcellos


Fiz a cama de lavado
E com papel perfumado / Forrei a minha gaveta
Duas gotas de lavanda
E sentei-me na varanda A beber um chá de menta

O gato deitado no colo
Ouço Coltrane num solo / A tocar no gira-discos
Olho a cidade serena
Que até parece pequena / No sossego dos chuviscos

Estou bem
Assim sem ninguém... tão bem
Sabe tão bem saber estar em solidão
Como também
Quando a companhia vem
Estou bem, sabendo bem saborear a confusão


A sala silenciosa
Parece estar ansiosa / Que retorne o frenesim
Mas eu aproveito o tempo
Faço render o momento / De ter espaço só pra mim

Aconchego-me na manta
Abro um livro, mas às tantas / Vou deixando o sono ler 
Quando uma mão pequenina
Me acorda com uma festinha / E a casa volta a encher

Jogo do lenço

José Saramago / Joaquim Campos *fado puxavante estilado*
Repertório de Carlos do Carmo


Trago no bolso do peito
Um lenço de seda fina
Dobrado de certo jeito
Não sei quem tanto lhe ensina
Que quanto faz, é bem feito

Acena nas despedidas
Quando a voz já lá não chega
Por distâncias desmedidas
Depois no bolso aconchega
As saudades permitidas

Nunca mais chegava ao fim
Se as graças todas dissesse
Deste meu lenço e de mim
Mas uma coisa acontece
De que não sei porque sim

Quando os meus olhos molhados
Pedem auxílio do lenço
São pedidos escusados
E é bem por isso que penso
Que os meus olhos, se molhados
Só se enxugam no teu lenço

Fado das amarguras

Vasco Graça Moura / Rogério Charraz
Repertório de Inês de Vasconcellos


Meu amor, se me és o mundo
Nestas minhas desventuras
Podes ver quanto me afundo
No lodo das amarguras
No lodo das amarguras


Não posso viver contente
De meu próprio natural
O meu bem corre-me mal
E o meu mal é recorrente

Mas a mim infelizmente
Parece que mais abundo
Em tristezas num segundo
Do que os mais em toda a vida;
És a história repetida
Meu amor, se me és o mundo

Eu dei, tu deste, nós demos
Um ao outro a vida acesa
Tinha a força da represa
Darmos tudo o que pudemos

E as palavras que dissemos
De paixão e ardente juras
Os afagos, as ternuras
Tudo isso agora parece;
Que não trava o que acontece
Nestas minhas desventuras

Canção de vida

Letra e música de Jorge Palma
Repertório de Carlos do Carmo


Nascemos tão furiosamente sábios
Dispensamos a razão
Corremos com sorrisos nos lábios
De encontro ao mundo em contramão

Crescemos descortinando o nosso fado
Desvendando a nossa voz
Mantemos bem-acondicionado
O fugitivo que há em nós

E tu, tu que nem sempre me entendes
Mas que tão bem sabes aconchegar
Aquele que eu sou
Talvez num breve instante, ao olhares-me
Consigas simplesmente, sem pudor
Rever-te em mim


Às vezes nada nos pode causar medo
Tudo corre de feição
Revezes também constam no enredo
Pois não há bela sem senão

Mais tarde valorizamos a inocência
E o que dela resta em nós
Mais tarde temos plena consciência
De que o final é sempre a sós

Ao correr da pele

Letra e música de Amélia Muge
Repertório de Nathalie Pires


O meu amor tem a pele tão macia
A sede nele não tem valia
O meu amor é um cravo de rosa ao peito
Aroma escravo com que me enfeito

Só mais uma coisa vos digo
Já muito em segredo
Ao brincar comigo
Pega num pião
Feito do meu coração
E gira com ele sem medo


O meu amor se está brando é uma lentura
Nada falando pela ternura
O meu amor parece de veludo
Eu faço dele o meu sobretudo

O meu amor tem a pele tão macia
O meu amor é um cravo de rosa ao peito
O meu amor se está brando é uma lentura
Parece de veludo
Eu faço dele o meu sobretudo

O olhar e a morte

António Calém / Miguel Ramos *fado alberto*
Repertório de João Braga


Há olhares que matam sem viver
Eu vi um dia alguém à luz da lua
E nesse alguém eu senti-me anoitecer
E nessa voz ainda ouvi: sou tua

Depois, veio outra noite e outra vida
Unidos num só corpo e tão distantes
Que mais parecia a sombra dolorida
Da luz do sol que então éramos dantes

Mas hoje nada resta do que fomos
Morreu a esperança vã de te sonhar
Em mim ficaram apenas os meus sonhos
E o nada que ficou em teu lugar

Fado em amor perfeito

João Barge / Pedro Moreira
Repertório de Nathalie Pires


Meu amor, amor em chamas
Feito de noite e de lume
Coração onde derramas
Toda a cor do teu perfume

Meu amor, amor amante / Amor de perdas e danos
Eterno como o instante / De nós termos vinte anos

Meu amor, amor liberto / Feito de sal e luar
Mora tão longe ou tão perto / Do que tens para me dar

Meu amor, amor perfeito / Preso na cor das cerejas
Não cabe dentro do peito / Por saber que me desejas

Meu amor, amor inteiro / Cheio de luz e de sombra
Vai num olhar derradeiro / Vem nos olhos de uma pomba

Cântico negro

José Régio
Gravado por João Loy


“Vem por aqui”
Dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros de que
Seria bom que eu os ouvisse quando me dizem:
"Vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos
Há, nos olhos meus, ironias e cansaços
E cruzo os braços, e nunca vou por ali

A minha glória é esta: criar desumanidade
Não acompanhar ninguém
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí!
Só vou por onde me levam meus próprios passos
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos
Redemoinhar aos ventos como farrapos
Arrastar os pés sangrentos, a ir por aí...

Se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós que me dareis impulsos
Ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós
E vós amais o que é fácil
Eu amo o longe e a miragem, amo os abismos
As torrentes, os desertos...

Ide! 
Tendes estradas, tendes jardins
Tendes canteiros, tendes pátria
Tendes tetos, e tendes regras, e tratados
E filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha loucura
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe
Mas eu, que nunca principio nem acabo
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções
Ninguém me peça definições
Ninguém me diga: "vem por aqui"

A minha vida é um vendaval que se soltou
É uma onda que se alevantou
É um átomo a mais que se animou
Não sei por onde vou, não sei para onde vou
Sei que não vou por aí

Amor incurável

Telmo Pires / Armando Machado *fado súplica*
Repertório de Nathalie Pires


Voltaste e eu caí na tentação
De sentir dos teus braços, o calor
Voltei a enganar meu coração
Sabendo-te incapaz de dar amor

Essa força que me atrai e me fascina
Impossível resistir ao teu olhar
É loucura esta paixão que me domina
Sentimentos que não posso controlar

E depois de fazer-nos tanto mal
Ferir-nos, uma outra e outra vez
Parece ser mas não, não é normal
Perdemos toda a nossa lucidez

Este amor é um mal que não tem cura
É doença que aumenta sem parar
Dois loucos que perdidos na loucura
Encontram mil razões para sonhar

Eu tenho tanta pena… pai

Letra e música de José Gonçalez
Repertório de José Gonçalez


Eu tenho tanta pena
Que não possas ‘star comigo
Agora que o presente se desenha
Sobre o meu passado antigo

Eu tenho tanta pena
Dessas coisas do destino
Quando a história é a resenha
Dum homem que foi menino

Mas eu tenho é a vontade / De te poder dar a mão
Dar um murro na saudade / Que me prende à solidão;
Quero abrir uma janela / E deixar o sol entrar
E pintar uma aguarela / Onde tu possas morar;
E depois dou-te umas asas
P’ra que tu possas voar

Eu tenho tanta pena
De não ‘stares aqui agora
Quando a vida me acena
Com os meus sonhos de outrora

Eu tenho tanta pena
De tudo o que já lá vai
Da tua voz amena
De poder chamar-te pai

Soledad

Cecília Meireles / Alain Oulman
Repertório de Amália


Soledad… antes que o sol se vá
Como um pássaro perdido
Também te direi adeus
Soledad, soledad
Também te direi adeus

Terra… terra morrendo de fome
Pedras secas, folhas bravas
Ai quem te pôs esse nome
Soledad, soledad
Sabia o que são palavras

Antes que o sol se vá
Como um sonho de agonia
Cairás dos olhos meus, Soledad

Indiazinha… indiazinha tão sentada
Na cinza do chão deserta
Que pensas, não pensas nada
Soledad, soledad
Que a vida é toda secreta

Como estrela… como estrela nestas cinzas
Antes que o sol se vá
Nem depois não virá Deus
Soledad, soledad
Nem depois não virá Deus

Pois só ele explicaria
A quem teu destino serve
Sem mágoa nem alegria
Um coração tão breve
Também te direi adeus, Soledad

Lisboa

Letra e música de João Paulo Esteves da Silva
Repertório de Nathalie Pires


Desespero de acabar
Já não se fala de amor
A neblina da saudade vai mudar de cor
Ficas tão perto do mar
Que o sol já perde o sabor
Cai a noite, não faz mal se ficar ou se me for

Vem, anda correr a cidade, não há pressa de partir
A estátua da liberdade deixa lá fugir
Não sinto grande vontade de dançar
Vais-te embora tu também

Não há tempo de acabar o que acaba no amor
E dói muito esta verdade
Talvez até mais que o fim da dor


Ficas tão perto do mar
Que o sol já perde o sabor
Cai a chuva nos meus ombros
É talvez melhor

Anda correr a cidade, não há pressa de partir
A estátua da liberdade deixa lá fugir
Não sinto grande contade de dançar, estar a sorrir
Vais-te embora, vou também

Não há tempo de acabar o que acaba no amor
E dói muito esta verdade
Talvez até mais que o fim da dor

A lenda do fado

António Mendes / Franklim Godinho
Repertório de Ana Maurício

Dizem que o fado nasceu
Numa noite triste e fria
Na mais humilde viela
Quando uma estrela do céu
Foi caír na Mouraria
Nos degraus da porta dela

Cota a lenda dessa era
Que esese menino sagrado / Que veio à terra por bem
Entrou dentro da Severa
Porque ela chamou-lhe fado / E o fado chamou-lhe mãe

Há quem se atreva a contar
Quando a Severa morreu / E o deixou na orfandade
O fado pôs-se a chorar
A boa mãe que perdeu / E assim nasceu a saudade

Por isso é que o fado é triste
Porque chora muitas vezes / E também nos faz chorar
É porque a tristeza existe
Na alma dos portugueses / Quando ouve o fado cantar

Gare do Oriente

Amélia Muge / Ricardo Dias
Repertório de Nathalie Pires


Num rendilhar de velas postas
Chamam por mim por todo o mundo
Têm um espelho de água ao fundo
São uma asa aberta ao voo
Do que é partir e regressar

No meio há um mercado
Onde se vendem coisas soltas
Há quem lá passe apreçando a cor
Brilhando na pedrinha
Do cheiro que tem nome de flor

Ao canto há um café aonde tu paraste
E diz o teu olhar a hora de embracar
Mas não diz quando chegaste

Já bailam as escadas, sobem os elevadores
Correm sombras e há um vai e vem
São pernas apressando amores

Que foi, o que aconteceu
Alguém procura o que perdeu
E há uma luz que se reflete e bate em cheio
Nesse olhar que é tão passageiro

P’ra lá daquele vidro, do chão assim traçado
Há um atraso, um horário atrasado
O calor diz que fique
Eu sei, chove em Munique

E aqui estou nesta Gare que se chama de Oriente
E nela vejo o teu olhar que diz
Que é daqui, dali, ele é qualquer lugar

A lenda do velho Porto

Carlos Bessa / Pedro Rodrigues
Repertório de José Barbosa

Cai um forte nevoeiro
Sobre esta linda cidade
Que deu nome a Portugal
Parece que o céu inteiro
Quer esconder a verdade
Da história medieval

Diz a lenda, que um dia
El-rei D, Pedro, à toa / Anunciou o noivado
Sem saber o que dizia
Quis que o Porto e Lisboa / Casassem no seu reinado

Grande cortejo impomente
O Rio Douro subiu / Barcos do país inteiro
É então que de repente
As portas do céu se abriu / Caíu forte nevoeiro

O Porto desapareceu
E El-rei viu-se obrigado / A anular o casamento
Lisboa se entristeceu
Por romperem seu noivado / Deu entrada num convento

O Porto ficou solteiro
Amante da liberdade / Deixá-lo ser, não faz mal
Deus lhe deu o nevoeiro
A essa linda cidade / Que deu nome a Portugal

Diário

Mário Claudio / Ricardo Dias
Repertório de Nathalie Pires


Quer fosse noite, quer dia
Era uma ãnsia, uma espera
E em cada hora batia
Um coração de pantera

O desfraldado desejo
A sede da maresia
Passavam de beijo a beijo
A chama que nos unia

Morria num sobressalto
As terras da promissão
E as águias pairavam alto
Além dos dedos da mão

Fique de nós o abraço
Ao que perdemos de vista
Não há tempo nem espaço
Não há raiz que persista

Que estranha vida

Vitor de Deus / Arménio de Melo
Repertório de Luís Caeiro


Que estranha forma tenho de viver
Sem nada à minha volta, em solidão
Um misto de te querer e te perder
Ciúmes a jorrar do coração;
Sem nada à minha volta, em solidão
Que estranha forma tenho de viver

Que estranha noite longa, em tempestade
Amor, desejos loucos, alimento
E quando caio em mim sem liberdade
Ao teu corpo e em teus braços me acorrento;
Amor, desejos loucos, alimento
Que estranha noite longa, em tempestade

Vem possuír-me, amor, em cada instante
Afaga meus cabelos, dá-me carinhos
Vem ser minha mulher e minha amante
Se o vento soprar contra, revoltado;
Conduz a minha vida p’los caminhos
Até que o meu amor fique calado

Noiva do teu olhar

João Barge / Pedro Moreira
Repertório de Nathalie Pires


Quero ser a tua casa
Quero dar-te a minha mão
Eu preciso de outra asa
Para assim me erguer do chão

Hei-de abrir-te a minha cama / E arder no teu abraço
E à noite quem nos ama / Não sabe a cor do cansaço

Hei-de acordar a teu lado / Ser noiva do teu olhar
Molhar de luz este fado / Como se fosse rezar

Nem toda a luz me cativa / Nem toda a tristeza passa
Eu sou flor em carne viva / Que o vento de leve abraça

Canção de Alcântara

Letra de José Galhardo, Lourenço Rodrigues e Carvalho Mourão
Música de Raúl Ferrão
Versão do Repertório de Lídia Ribeiro

Criação de Margarida de Almeida na revista *Fado Liró*
Teatro Variedades, 1928
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*

Ó linda Alcântara, junto à qual o velho Tejo
Reza sempre dia e noite, uma oração
Como eu ostava que coubesses só num beijo
Como cabes toda inteira, no coração

Bairro modesto de modestos pescadores
Onde o povo sabe rir e padecer
A minha mãe, a luz do sol e os meus amores
Em Alcântara tudo eu vim a conhecer

Não há bairro de Lisboa mais lindo
Do que aquele onde eu ganho 
O pão para comer
E ali vivo, ora triste, ora rindo
Ali fui criança
Ali fui mulher
Eu só queria que no dia em que a morte
O meu pobre corpo 
Viesse buscar
Eu só queria, meu Deus, ter a sorte
De ainda em Alcântara 
Poder me enterrar

Ó lindo bairro que os antigos guerrilheiros
Amarraram ao valor de Portugal
És o cantinho que os valentes marinheiros
Querem todo só p’ra si, a bem ou mal

Quando é noitinha e as cantigas fatalistas
Já começam p´las vielas a gemer
É para Alcântara que os últimos fadistas
Vão cantar o triste fado, que vai morrer

Tudo é Portugal

Artur Ribeiro / Ferrer Trindade
Repertório de Artur Ribeiro


Vem ver a terra das mil candeias
Olha esta gente tão diferente e tão feliz
Vem ver a Serra e as aldeias
Verás então porque razão se diz

Aqui é Portugal
Dono e senhor 
Da humildade e do amor
E verás que afinal
Onde quer que haja saudade
Tudo é Portugal


Vem ver quem passa, ouve as cantigas
Olha o encanto deste santo ali em paz
Vem ver a graça das raparigas
E quando alguém não souber bem, dirás

O rei dos outros sóis

Artur Ribeiro / Joaquim Campos “alexandrino
Repertório de Trio Odemira


Um sol para nós dois num céu de tom rinhoso
Sem nuvens a causar mais sombras descabidas
É rei dos outros sóis o sol dos nossos sonhos
Nasce do teu olhar e morre em nossas vidas

Um sol para nós que a nossa vida aquece
E desde que nascemos nos tornou bem diferentes
Um sol para nós dois que vela e não esquece
E andamos tu e eu da sua luz pendentes

Um sol para nós dois a dar-nos confiança
Numa vida melhor onde não há pecado
Juntou-nos e depois com raios de esperança
Formou o nosso amor, deu-nos o mesmo fado

Canção ao Porto

Artur Ribeiro / Jaime Filipe
Repertório de Artur Ribeiro


Esta canção que vou cantar ao Porto
É oração para rezar ao Porto
Tudo o que sou nasceu em ti, minha cidade
E só te dou o meu amor e esta saudade

Aqui nasci, aqui brinquei, meu Porto
E até sofri quando deixei o Porto
És a feliz inspiração da minha vida
Para quem fiz esta canção sentida

Porto velhinho das ruas antigas
E das cantigas pelo São João
Do riso alegre das raparigas
Ó minha terra só coração


Se a noite vem eu canto a sós ao Porto
O mar também canta na voz ao Porto
E ao luar o Douro então fica absorto
A escutar esta canção ao Porto

Quadras de Aleixo

António Aleixo / Júlio Proença *fado puxavante
Repertório de Trio Odemira


O homem sonha acordado 
Sonhando, a vida percorre
E desse sonho doirado 
Só acorda quando morre

Embora me queiras tanto / Quanto pode o bem-querer
Não me queres tanto quanto / Te quero sem te dizer

Não digas que me enganaste / Por ter confiado em ti
Muito mais do que levaste / Ganhei eu no que aprendei

Só quando sinceramente / Sentirmos a dor de alguém
Podemas descrever bem / A mágoa que essa alguém sente

Campo em festa

Francisco Martins / Vitor Rodrigues
Repertório de Francisco Martins *Fado Marialva*


No meu cavalo montado / Logo que a manhã rompia
Com o Rodrigo e o Ricardo / O Pietra e o Faria
Por esses campos fora / No seio do Ribatejo
Calça justa, bota e espora / Em Arruda ou em Samora
Da Chamusca ao Alentejo

Com valentia
Toiros vamos apartar
Galhardos na picardia
Garbosos a derribar
E com nobreza
Trazemos no coração
A saudade que está presa
Aos tempos que já lá vão


O Visconde já pingado / O Palhas na caturreira
O Dentinho desafivelado / Casquinha à antiga maneira

Passeios e romarias / Vilaverde, que saudade
Deu-nos grandes alegrias / Era vê-lo nas picarias
Hoje, dele, só Deus sabe

E depois do sol-posto / Trinam guitarras de fundo
Dedilhadas com bom gosto / P’lo Velez e o Edmundo

Marialavas de cartel / Que cantam o velho fado
O Rodrigo Miguel / O Xico e o Manel
O Macho e o Pegado

Meu amor

Letra e música de Telmo Pires
Repertório do autor


Se juntarmos todas as cores da cidade
O amarelo, o azul do Tejo sem idade
O cinzento desta noite e o encarnado
Vai tudo dar ao triste negro do meu fado

Vou andando pelas ruas tão queridas
Bem sabendo que tantas delas são proíbidas
O cinzento desta noite pesa tanto
E eu sem saber p’ra onde ir neste meu pranto

Meu amor se eu não estou a teu lado
Sou um qualquer tom num qualquer fado
Corro a noite inteira só p’ra estar aqui


De repente, já cansado de tanto andar
À procura do teu olhar p’ra me deitar
Nascido dum poema que está à venda
Meu coração lá vai, não há ninguém que o prenda

O sonho de João Moura

César Marinho / Vitor Rodrigues / Jaime Santos
Repertório de Manuel da Câmara *Fado Marialva*


A sonhar com as toiradas
Saltou do berço e montou
Como num conto de fadas
João Moura toureou

O sonho fez-se façanha
P’lo menino de Monforte
Venceu nas praças de Espanha
Desde o sul até ao norte

Os triunfos consagraram
Um toureiro genial
E com mestria honraram
O nome de Portugal

O Belmonte foi brilhante
O Sandokam, colossal
Majestoso o Importante
O Farrolho é imortal

E as mãos que embalaram
O seu berço tão ditoso
Foram as mãos que fadaram
Um João Moura famoso

Sou a chuva

Rodrigo Serrão / Pedro Pinhal
Repertório de Maja


Quando a chuva cai de mansinho
E ao ouvido diz, a cantar
Que a saudade de estar contigo
É uma vela sempre a brilhar

Que me leva de encontro ao sonho
Embalada p’la solidão
Sou a chiuva no seu caminho
E ele é pena na minha mão

Alma ausente, sorriso vago
Sou a chuva no seu cantar
Melodia do meu embalo
É a dele sempre a chorar
Pelos teus olhos abrigo manso
Onde acalmo o meu coração
Mas agora sem teu regaço
Só há chuva na minha mão

Quando a chuva cai de mansinho
E ao meu peito diz, a cantar
Cada encontro no caminho
É um desejo de te abraçar

Fomos sonho prometido
Um poema, uma canção
Agora só a chuva canta
É uma lágrima na minha mão

No sonho de passar além do sonho

Artur Ribeiro / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de Trio Odemira


No sonho de passar além do sonho
Transformei-me de tudo o que fui antes
Mas transformar alguém é tão medonho
Como o juntar de notas dissonantes

No sonho de passar além de tudo
Quis ver-me nos espelhos atuais
Mas vi-me tão disforme e absurdo
E a mim mesmo jurei não ver-me mais

Que cada se vista de outros fatos
Eu prefiro seguir dias após dia
Poeta por instinto, dos baratos
Poeta que não sabe como cria

Quase

Fernando Rodrigues / Raúl Ferrão *fado carriche
Repertório de Luís Manhita


Hoje minh’alma adormece
Sem dizer mais que um sofrer
Meu coração enlouquece
Sem nunca te responder

Ao acordar sempre sonha
Do teu olhar, um pouquinho
E espera um dia, quem sabe
Ouvir-te suspirar baixinho

Musa que em coração tocaste
Sem pedir licença sequer
Deixaste meu ser à tua porta
Meu Outono, fado, viver

Nem todo o oiro da terra

Artur Ribeiro / Joaquim Campos *fado vitória*
Repertório de Trio Odemira


Eu dou, em troca de ada
Estes anseios dispersos
A que o mundo chama veia
Pois acho uma coisa errada
A gente vender os versos
Que Deus nos pôs na ideia

Se Deus pôs por sua mão
O que a minha mente encerra / Me dá a rima e o tema
Não vendo, faço questão
Pois não oiro da terra / Que valha qualquer poema

Por isso dou a quem canta
Este cantar magoado / Que Deus me deu quando vim
Dou a quem quer tiver garganta
E saiba cantar o fado / E queira cantar por mim

A cor da alegria

João Veiga / José Lopes *fado lopes
Repertório de Salvador Taborda

Nunca pensei na vida
Vir um dia a encontrar
A minha vida escondida
Dentro do teu olhar

Teus olhos têm a cor / A cor da minha alegria
São o meu sonho maior / São a luz que me alumia

Eu que tanto procurei / Por esta minha vida
Afinal encontrei-a / Nos teus olhos escondida

O teu olhar é o sol / Que aquece a noite calma
São de noite o meu farol / Que ilumina a minha alma

Quando eu era pecador

Artur Ribeiro / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Trio Odemira


Eu, de joelhos roguei
A Deus, que puzesse fim
Aos pecados degradantes
Deus ouviu-me e eu mudei
Mas gostava mais de mim
Pecador como era dantes

Em cada paixão traída
No meu ir de mão em mão / Bebendo p’la noite fora
Eu perdi anos de vida
Mas sentia o coração / Coisa que não sinto agora

Agora não sei se vivo
No eterno *tanto faz* / De quem vive sem amor
Lamento não ter motivo
P’ra voltar tempos atrás / Quando era pecador

A minha noiva tristeza

Inês Filipa Rebelo do Carmo / Arménio de Melo
Repertório de Luís Caeiro

A tristeza casou comigo
Ao ver-me sofrer um dia
Por mais que lute não consigo
Transformá-la em alegria

Conheci-a num inverno / Com chuva, com vento e frio
Um vendaval do inferno / Com luta insana no rio

Bateu-me à porta a chorar / Com uma rosa na mão
Talvez para me animar / Ou vender-me uma ilusão

Mas a rosa perfumada / Que ela me trouxera à porta
Estava tão triste, a coitada / Quando o beijei estava morta

E eu mais triste do que sou / Fiquei naquele desgosto
E uma lágrima deslizou / Pela tristeza do meu rosto

E hoje vivo com a tristeza / Pois sou casado com ela
E vejo nela beleza / Que a vida triste é mais bela

Roleta do destino

Artur Ribeiro / Raúl Ferrão *fado carriche*
Repertório de Trio Odemira


Há duas coisas que a vida
Não me consegue roubar
Esta tristeza incontida
E a morte, quando chegar

Como a provocar a sorte
Que traz consigo ao nascer
O homem tem medo à morte
E tudo faz p’ra morrer

Desde o princípio do homem
Até ao homem presente
Que gerações se consomem
Para destruír a gente

No jogo da nossa vida
A vida, por mais que queira
Nunca levou de vencida
A sua velha parceira

Deus criou essa partida
Onde não impera a sorte
E por algo, deu à vida
Menos trunfos do que à morte

Aqui tão perto de ti

Letra e música de Múcio de Sá
Repertório de Liliana Martins


Perdida nas janelas da alma
Olho as cidades sem tempo
Cenários de vidas imaginadas
Distante de trabalho intenso;
Mundos no tempo imaginado, só eu sei
Perdidos à entreda do labirinto

No meio da vastidão a poesia
De um dia a mais a viver
Janelas da alma, sol do meio-dia
Riquezas de quem não tem o que fazer;
Cenários de vidas imaginadas
Frestas de luz ao amanhecer

E se o amor bate as asas e voa sobre nós
Eu vou ser feliz, hoje, amanhã e depois
E se o amor bate as asas e voa sobre nós
Eu vou ser feliz aqui tão perto de ti

Não mais de mim

Artur Ribeiro / Santos Moreira *fado moreninha*
Repertório de Trio Odemira


Quando o meu coração quiser parar
Então é tempo de ficar dormindo
Então é tempo de ficar, ficar
No jeito de não ter acontecido

É tempo de fugir, fugir enfim
Ao inferno que trago p’ra castigo
É tempo de não mais saber de mim
Ou talvez de ficar por fim, comigo

Quando o meu coração quiser findar
Com este meu morrer assim, aos poucos
Que me dê tempo só para queimar
Que a ninguém deixo os meus poemas loucos

Amor, anda ver

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório de Nuno da Câmara Pereira


Vamos acordar amanhã cedinho
Beber devagar nas fontes do ar
Como fôra vinho
Os dois, estrada fora como se num só
Sem espaço nem hora e sem demora
Qual réstea de pó

Amor anda ver o sol a nascer sobre o horizonte
Amor anda ver a água a correr debaixo da ponte
Dar-te-ei a flor da mais linda cor que por lá houver
E o sol como em sonho vestirá risonho a flor que prefere


Tu vais de certeza ficar seduzida
Com a natureza de sol à cabeça
Respirando vida
E no trono forte da árvore mais alta
Gravados em corte os nomes que à sorte
Nosso nome exalta

Tradição

Letra e música de Miguel Araújo
Repertório de Raquel Tavares


Rosa, roda a saia
O vento muda, empurra a moda
Nem que a Rosa caia
Nada nunca pára a roda

Vai Rosa cobaia, arredonda-a bem
Que essa tua saia já foi da tua mãe
Já a mãe dela girava essa saia a tempo
Contra o vento, contra o tempo
Que faz girar o mundo
Nem que em plena roda a a rosa caia

Vem Maria, canta
Aos teus amores as dores de outrora
Canta em agonia
Outra que não é de agora

Vai roda gigante, faz girar o mundo
Que a pedra que anda à roda
E contraria aquela pedra que parou
No peito de qualquer Maria
E a Rosa no seu posto ainda rodopia
E vai rodando a saia até qualquer dia

É melhor assim

António Rocha / Franklim Godinho *4as*
Repertório de Pedro Galveias


Foi bom enquanto durou
A paixão que houve em nós
Mas a paixão acabou
Hoje estamos melhor sós


Não foi amor de raíz / A força que nos juntou
Por isso, como se diz / Foi bom enquanto durou

Vivemos uma aventura / Que se tornou um algoz
Pois foi sol de pouca dura / A paixão que houve em nós

Foi triste a realidade / Que o destino nos traçou
Sonhamos felicidade / Mas a paixão acabou

Pode ficar a amizade / Pesando contras e prós
Eu acho que na verdade / Hoje estamos melhor sós

Rendas pretas

Fernando Tavares Rodrigues / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


O que sinto por ti são rendas pretas
Recordações vagas, indiscretas
De um corpo que conheci
O que sinto por ti são rendas pretas
Volúpias de cetim, sedas secretas
Que tu despias para mim

Pedaços de fantasia / Que vestias para estar nua
Restos de noite que a lua / Na tua pele descobria

O que sinto por ti são rendas pretas
Essas rendas incompletas / Que nos dedos descobri
Quando ao ver-te assim despida
Toda de negro vestida / Me dei e te possuí

Dessas nocturnas intrigas / Que me calaram de espanto
Das meias finas, das ligas / Das rendas que te ofereci;

Lembro ainda o doce encanto / Das rendas pretas em ti
Do corpo que me ofereceste / Quando entre as rendas te deste
E entre rendas me rendi
Tão tranparentes macias / As rendas que tu vestias
Hoje tão tristes, sem ti

Vai mais um dia

Pinto Jorge / Paulo de Carvalho
Repertório de Luísa Basto


Às seis o salto da cama e o puto a resmungar
São dez minutos prá mama e a bucha por arrumar
Sai tudo à rua na guita, vai tudo a andar na ganga
No barco há um que arma fita, na volta ninguém se zanga

Um jeitinho no transporte e o puto fica na ama
Só nos faltava esta sorte, o metro ainda nos trama
Um beijo dado apressado, adeus ao virar da esquina
Num fato mais que coçado, a mulher ‘inda menina

Vai mais um dia de trabalho
Em qualquer lado
Vai mais um dia de trabalho
Pelo pão
Mas qualquer dia no trabalho
Ao nosso lado
Há-de ser dia de acabar
O dia não
Sabemos que ainda um dia
Hão-de ver quem tem razão


Lá vão quinhentos pró passe das viagens que fazemos
E não há ninguém que cace as paragens que perdemos
O puto vem a tossir das friagens que apanhou
A mulher vai a dormir p’las vezes que hoje acordou

À volta é gente da volta do trabalho que fizemos
E pensar que andam à solta os males de que sofremos
Vai mais um dia passado, se é que essde dia passou
Talvez eu ande enganada, o dia não acabou

Canto das descobertas

Michel Legrand / Marilyn Bergman / Alan Bergman
Versão de Mário Martins
Repertório de José da Câmara


Hoje, os sorrisos da cidade trazem sol ao meu olhar
São as notas deste fado no meu tempo de o cantar
Há a história que se conta dum povo à beira do mar
E dum sonho muito antigo e de vozes para o cantar;
Vozes fortes de muralha, vozes molhadas de pranto
E vozes de praça forte p’ra defender nosso canto

Vozes que tinham na voz mistérios a desvendar
E do tributo que nós tão longe fomos pagar
Tantas vezes, tantas vezes a conceder-nos foral
Por fabuelas proezas das gentes de Portugal;
Vozes claras, transparentes como cristais de firmeza
Vozes gostosas do pão que come connosco à mesa

Vozes de tanta ternura e tamanha dimensão
Com a medida do mundo em dois palmos de canção
São as vozes de além Tejo, são as vozes de além dôr
No coral da Epopeia que dobrou o Bojador;
São vozes de coro grego vestido à moda do Minho
Vozes de nau viajeira que tem garganta de pinho
Tantas vezes, tantas vezes, de grandeza universal
Deste sonho desmedido dum país no plural

Restos de nada

Maria Luísa Batista / Casimiro Ramos *fado três bairros*
Repertótio de António Vasco Moraes


Ficou no calor da cama
Acesa como uma chama
A lembrança dos sentidos
Ficou o cheiro e o sabor
Daquela noite de amor
Nos nossos corpos doridos

Ficou paixão e carinho / Dentro dos lençóis de linho
Revoltos, amarrotados
E num canto de memória / Só eu guardo dessa história
Os sentimentos rasgados

Os lençóis ficaram frios / Os sentimentos vazios
Afinal o que sobrou?
O amor envelheceu / A paixão arrefeceu
Do nada nada restou

Não guardo rancor nem mágoa / Sou como a corrente d’água
Que procura o mar salgado
Porque é de sal o meu pranto / Porque é de paz o seu manto
Não lhe interessa o meu passado

Canigas

Maria Manuel Cid / Popular
Repertório de António Vasco de Moraes


Não vejo, não vejo, não vejo ninguém
Que tenha mais medo que tem o meu bem
De contar segredos, segredos contar
E tornar azedos os beijos roubados


Tu ficas airosa se pões o teu lenço
É da cor da rosa e cheira a incenso
Não vejo, não vejo, não vejo ninguém
Que tenha mais medo que tem o meu bem

Não pintes a boca da cor do carmim
A nódoa da amora é coisa ruím
Se me dás um beijo assim a marcá-los
Quem tiver desejos já pode contá-los

Não vejo, não vejo, não vejo ninguém
Que tenha mais medo que tem o meu bem

Oh minha Rosinha eu hei-de te amar
De dia ao sol, de noite ao luar
De noite ao luar, de noite ao luar
Oh minha Rosinha eu hei-de te amar

Vê lá meu bem

Letra e música de Marcelo Camelo
Repertório de Maja


Vê lá bem meu bem, sinto te informar
Que arranjei alguém p’ra me confortar
Este alguém está quando tu sais
E eu só posso crer pois sem te ter
Nestes braços tais

Vê lá bem, amor, só te quero ver
Somos no papel mas não no viver
Viajares sem mim, me deixares assim
Tive que arranjar alguém p’ra passar
Os dias ruíns

Enquanto isso, navegando eu vou sem paz
Sem ter um porto, quase morta, sem um cais
E eu nunca vou esquecer-te, amor
Mas a solidão deixa o coração neste leva e traz

Vê lá bem, além destes factos vis
Sabes que as traições são bem mais subtis
Se eu te troquei não foi por maldade
Vê lá meu bem, arranjei alguém
Chamado *saudade*

Cantar perfeito

João Dias / Armando Macado *fado licas*
Repertório de Maria Armanda


Perfeita é a palavra quando verso
E a graça de cantar é já entrega
A malha em que se tece o universo
É força que nenhuma força nega

Perfeita é a razão de ser poeta
Amar a flor nascida em qualquer chão
Andar de corpo inteiro, alma liberta
Estender a mão aberta a qualquer mão

Perfeito é o lugar aonde estás
Tecendo o linho verde duma esperança
Perfeita é qualquer voz cantando paz
Perfeito é qualquer gesto de criança

Perfeito é o perfil do seio fecundo
Da mãe ganhando o filho de seu ventre
Perfeito movimento é o do mundo
A repartir o sol por toda a gente

Fado século XXI

A vida é um milagre
Letra e música de Edgar Nogueira
Repertório de Catarina Rosa


A vida é um milagre 
Amor é fogo que arde
Diz Virgílio, diz Camões
Não fôra Cristo a verdade
Que há-de cá voltar, pois há-de
Só havia interrogações

Porque amo a vida logo
A mim própria me interrogo
O que é o homem no tempo
Vela que acende com modo
Luz que se apaga mal acordo
Tão breve como um lamento

Na vida individual
O homem é temporal
E por isso me lamento
Sou uno sem ter igual
Mesmo assim, para meu mal
Só juntos temos assento

Eu gosto imenso da vida
Não gosto é da intriga
Amo somente a verdade
Uma estrela minha amiga
Deu-me luz bem definida
Pois a vida é um milagre

Marinheiro americano

Amadeu dos Santos / Sebastião Ferreira / Fernando dos Santos
Manuel Carvalho Jnr / Frederico Valério
Repertório de Hermínia Silva

Mim ter ouvido fada e não saber
Cantada por Alfreda Marceneira
Mas não perceber nada do que era
E só ter apanhado bebedeira

Alfredo ter cantado o Bacalhau
E tudo ter na boca posto um rolha
Mas mim fazer barulho no cançau
E levar um camóne aqui no ôlha

Ó fada yes allrigth
Lady Maria Aliça
Ter cantado quatro fadas… chatiça
Ó fada yes allrigth
Mister Cascais Manuel
No guitara, Armandinha, very well
Mim gostar muito de ouvir guitarradas
E ouvir cantigas desgraciadas
Ó fada yes allrigth
Mister Alberto Costa
No corrida choradinha… mim gosta


Lembro do bom Fialha ter cantada
O cantiga no fado corridinha
Todo o gente a chorar, ficar magoada
Mas mim, beber cerveja, beber vinha

Mim chamar o criada por ter sede
E logo um fadista dar chapada
Por não ter visto escrito no parede
Sailance… que se vai cantar o fada

João Cortes

Vitor Rodrigues / Joaquim Campos *fado rosita*
Repertório de Manuel da Câmara


Aquele rosto moreno
Onde sorri o passado
Sereno sem ser pequeno
Enorme por ser forcado

Enfrentou p’rigos e mortes / Aos consagrados pertence
De seu nome João Cortes / Um ilustre Estremocence

Na festa, triunfador / Onde colheu faustos loiros
Distinto seu pundonor / Destemido a pegar toiros

Por razões de gratidão / Seu nome será lembrando
O Cortes é a lição / Do culto do bom forcado

No simbolismo imponente / Perdura ainda o valor
Do cabo nobre e valente / Que sempre honrou Montemor

Canção de amor

Fernando Tavares Rodrigues
Repertório de António Pinto Basto


Amo-te muito
Como se já te amasse assim há muito
Amo-te tanto
Como se fosse apenas por enquanto
Amo-te como quem partiu
Sabendo, ao partir, que já chegou
Amo-te como amo aquilo que te dou

Amo-te como um vinho antigo, um mosto doce
Amo-te como a Primavera que te trouxe
Quero-te como se te amasse por encanto
Só sei amar-te assim como se fosse a mim


E quero amar-te
E quero dar-me sempre a ti constantemente
A um tempo só
O futuro e o passado no presente
E a ternura, esse fogo
Que acendemos mão na mão
Seja sempre amor sem deixar de ser paixão

Deixa aquela rua

José Nunes Pereira / Augusto Pinho
Repertório de João Pedro


Porque é que te ris com tanta vaidade
Se não é feliz, quem diz a verdade

Esconde que eu vejo a tua alegria
Aquele desejo que sonhaste um dia

Deixa aquela rua onde ergui a fé
Que foi minha e tua, agora não é
Fechou-se a janela da minha paixão
Vê lá, tem cautela, não a acordes não


Tu podes passar, passar não importa
Tens de respeitar esta paixão morta

Outra hora vivida não soubeste amar
Agora esquecida, não deve acordar

Segue o teu rumo

Ricardo Reis / Sueli Costa
Repertório de Carolina


Segue o teu destino
Rega as tuas plantas, ama as tuas rosas
O resto é sombra de árvores alheias

A realidade
Sempre é mais ou menos do que nós queremos
Só nós somos sempre iguais a nós próprios

Suave é viver só
Grande e nobre é sempre viver simplesmente
Deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses
Vê de longe a vida, nunca a interrogues
A resposta está além dos deuses

Mas serenamente imita o Olimpo
No teu coração
Os deuses são deuses porque não se pensam
Porque não se pensam

Creio amigo

Maria Manuel Cid / António Mourão
Repertório de António Mourão
Este poema foi também gravado por Carlos Timóteo 
com música de Custódio Castelo 

A vida é destino aberto
Duma lonjura tamanha
Quem percorrer o deserto
Tem abrigo na montanha

Só fica pelo caminho
Quem o caminho temeu
Só p’ra voarmos do ninho
Nas asas que Deus nos deu

Creio amigo que o silêncio é morte
Crei0 amigo que a vontade é lei
Creio amigo que daria a sorte
E no sonho nada encontrei


Vem daí, anda comigo
Não sei bem aonde vou
Se há coisas que te não digo
É que ninguém me ensinou

Vem comigo à descoberta
A vida é porta cerrada
Minha mão estende-se aberta
Sempre que tombes na estrada

Louca paixão

Maria Estela / Alfredo Coeeeiro
Repertório de Fernanda Maria


Roubei à vida um bocado
Para viver a teu lado
Fechada nos braços teus
Num momento de loucura
Roubei a febre e ternura
Que não podiam ser meus

Tivemos iguais desejos
Trocamos beijos por beijos / Vivemos um só amor
Horas roubadas à vida
Qual ventura proíbida / Talvez por isso a melhor

Roubei mas fui condenada
Hoje expio encarcerada / Culpa que foi tua e minha
Só louca, a minha paixão
Ficou no teu coração / 
Aonde eu coube inteirinha

Não quero mais fado

Eugénio Pepe / Aníbal Nazaré
Repertório de José da Câmara

Naquela tasca afamada
Depois de ouvir fado a esmo
Sempre na mesma toada
E onde o motivo era o mesmo

Ouvi alguém que pedia
Como quem pede ao balcão
Mas com certa galhardia
E carradas de razão

Por favor, tragam-me um fado
Que não fale das esperas
Que não viva do passado
Nem à sombra das Severas
Não fale nas tascas mais rascas que havia
Nos becos de Alfama e da Mouraria
Não lembre toureiros, campinos, forcados
Se trazem só disso, não quero mais fados


Ouviu-se uma desgarrada
Coisa que é pouco fadista
Tudo a falar em bairrista
Um fado triste e mais nada

E ao recordar a cantiga
Que ao fado tudo se canta
Pedi à maneira antiga
Sem trinados na garganta

Onde Deus me possa ouvir

Letra e música de Vander Lee
Repertório de Cristina Maria


Sabe o que eu queria agora, meu bem?
Saír, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo o desengano
Mas a vida anda louca, as pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém

Meu amor
Deixa eu chorar até me cansar
Me leve p’ra qualquer lugar
Onde Deus possa me ouvir
Minha dor
Eu não consigo compreender
Eu quero algo p’ra beber
Deixa-me aqui, pode saír


Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Entender porque se agridem
Se empurram pró abismo
Se debatem, se combatem sem saber

Fado do trapo

Pinto Jorge / João Fernando
Repertório de Luísa Basto

Já catou
Os caixotes da cidade sem achar
Os arredores da vida já buscou
Nas ruas desta idade, um só lar
Uma cama esquecida

No latão do lixo que deixámos no papel
Que deitámos à rua
Está o pão que nós já desprezamos, está o fel
Da sopa que faz sua

Não toquem naquilo que é do Chico
Ninguém quer papel ou trapo
Ai mal de quem quer ficar mais rico
Por ter um caixote e um farrapo


Quem lhe dera
Ter um caixote cheio, mais cartão
Sem entrada na Mitra, ele espera
Poder achar um meio, um portão
Que vá dando guarida

Esta terra
Que vai sendo pesada, esta hora
Já lhe custou a passar, está na guerra
Desta coisa danada, já demora
A vez de descansar

Três degraus, uma cortina

Mote de Linhares Barbosa / Glosa de Silvério Santos
Popular *fado menor*
Repertório de Eduardo Silva
Analaisando a letra vê-se que não foi gravada a estrofe 
que deveria glosar o 2° verso do mote

Três degraus, uma cortina
Uma imagem de Jesus
E a luz duma lamparina
Iluminando outra cruz


É tão pobre mas singela
Minha casa pequeina
Uma porta, uma janela
Três degraus, uma cortina

Tanta fé, carinho e esperança
Por bem pouco se ilumina
Um sorriso de criança
E a luz duma lamparina

E como a cruz do calvário
Vai a pequenina luz
Dando luz ao meu fadário
Iluminando outra cruz

Aicha Conticha

Manuel Alegre / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de João Braga


A armada deixa Arzíla sobre as naus
Brilham uma última vez as armas portuguesas
Quando os moiros chegarem, verão apenas
Uma mulher de negro pelas ruas
Não resta mais de Portugal, só esse luto
Na cidade deserta e abandonada

Os moiros lhe chamarão Aicha Conticha
Os moiros lhe chamarão Aicha Conticha
E enquanto a armada se despede lentamente
Ela só, é senhora da cidade
De negro está vestida, ela só
Ela só na cidade abandonada
E nunca mais Arzíla será perdida
E nunca mais Arzíla será tomada


Talvez um amor antigo ou um morto querido
Talvez a luz, o branco, o sul
Talvez o puro prazer de olhar
Outros amaram Arzília, mas não tanto
Que tivessem de ficar só por amor
Ela só quis Arzíla por Arzíla

As rosas não falam

Letra e música de Cartola
Repertório de Gisela João


Bate outra vez com esperanças, o meu coração
Pois já vai terminando o Verão… enfim
Volto ao jardim co’a certeza que devo chorar
Pois sei bem que não queres voltar para mim

Queixo-me às rosas
Mas que loucura, as rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubem de ti

Devias vir para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe, talvez nos meus sonhos, por fim

Louca paixão

José Patrício / Miguel Ramos*fado alberto*
Repertório de Fernando Jorge

Sentir perto de mim teu meigo olhar
É quanto a mim me basta p’ra riqueza
Meu Deus, como é que pudeste dar
Apenas a alguém, tanta beleza

Na chama desse amor fui-me embalar
No calor dos teus braços vou caír
Amor, se não me pedes p’ra ficar
Sou eu que digo: não quero partir

Ao navegar contigo em mil desejos
Em ondas de paixão por saciar
Alimentar meus lábios nos teus beijos
Nesta fome de amor por acalmar

Se na vida real eu não consigo
Teu corpo com carinho abraçar
Então quero dormir, sonhar contigo
E peço p’ra ninguém mais me acordar

Cantar da milésima segunda noite

Rodrigo Emílio / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


Eu vi o sol em plena noite
Quando ninguém podia vê-lo
Eu vi o sol da meia noite
A raiar no teu cabelo

E houve mil e uma noites
De fulgor inapagável
Da boémia, a mais profunda
Houve mil e uma noites
Mas nenhuma comprarável
À milésima segunda


Quando ninguém podia vê-las
Vi tuas mãos de Dulcineia
Não sei se foi noite de estrelas
Mas sei que foi noite de estreia

E ouvi cantar, cantar em coro
Em cada artéria, em cada vela
O sol do sangue e o fulvo touro
Que te anuncia e me inceideia