Pedro Homem de Melo
Poema completo que deu origem ao fado *Povo que lavas no rio*
Povo que lavas no rio / Que vais ás feiras e á tenda
Que talhas com teu machado / As tábuas do meu caixão
Pode haver quem te defenda / Quem turve o teu ar sadio
Quem compre o teu chão sagrado / Mas a tua vida não
Meu cravo branco na orelha / Minha camélia vermelha
Meu verde manjericão
Ó natureza vadia / Vejo uma fotografia
Mas a tua vida não
Fui ter á mesa redonda / Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão
Água pura, fruto agreste / Fora o vinho que me déste
Mas a tua vida não
Procissões de praia e monte / Areias, píncaros, pássaros
Atrás dos quais os meus vão
Qu é dos cantaros da fonte? / Guardo o jeito desses braços
Mas a tua vida não
Aromas de urze e de lama / Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição
Bruxas e lobas, estrelas / Tive o dom de conhecê-las
Mas a tua vida não
Subi ás frias montanhas / Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão
Rasguei certo corpo ao meio / Vi certa curva em teu seio
Mas a tua vida não
Só tu! só tu és verdade / Quando o remorso me invade
E me leva á confissão
Povo, povo, eu te pertenço / Deste-me alturas de incenso
Mas a tua vida não