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Tenho vindo a publicar letras (de autores que já partiram) sem indicação de intérpretes ou compositores na esperança de obter informações detalhadas sobre os temas.
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As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: por falta de informação nem sempre são mencionados os criadores dos temas aqui apresentados.
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Calçada de Carriche

António Gedeão / José Niza
Repertório de Carlos Mendes


Luísa sobe, sobe a calçada
Sobe e não pode que vai cansada
Sobe, Luísa, Luísa, sobe
Sobe que sobe, sobe a calçada


Saiu de casa de madrugada
Regressa a casa é já noite fechada
Na mão grosseira de pele queimada
Leva a lancheira desengonçada
Anda, Luísa, Luísa, sobe
Sobe que sobe, sobe a calçada


Luísa é nova, desenxovalhada
Tem perna gorda, bem torneada
Ferve-lhe o sangue de afogueada
Saltam-lhe os peitos na caminhada
Anda, Luísa. Luísa, sobe
Sobe que sobe, sobe a calçada


Passam magalas, rapaziada
Palpam-lhe as coxas, não dá por nada
Anda, Luísa, Luísa, sobe
Sobe que sobe, sobe a calçada


Chegou a casa, não disse nada
Pegou na filha, deu-lhe a mamada
Bebeu a sopa numa golada
Lavou a loiça, varreu a escada

Deu jeito à casa desarranjada
Coseu a roupa já remendada
Despiu-se à pressa, desinteressada
Caiu na cama de uma assentada

Chegou o homem, viu-a deitada
Serviu-se dela, não deu por nada
Anda, Luísa. Luísa, sobe
Sobe que sobe, sobe a calçada


NÃO GRAVADO
Na manhã débil, sem alvorada
Salta da cama, desembestada

Puxa da filha, dá-lhe a mamada
Veste-se à pressa, desengonçada

Anda, ciranda, desaustinada
Range o soalho a cada passada

Salta prá rua, corre açodada
Galga o passeio, desce a calçada
Chega à oficina à hora marcada

Puxa que puxa, larga que larga
Toca a sineta na hora aprazada
Corre à cantina, volta à toada
Puxa que puxa, larga que larga

Regressa a casa é já noite fechada
Luísa arqueja pela calçada

São para ti estes versos

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


São para ti estes versos meu amor
Pedaços de mim submersos em teus braços
Como pétalas dispersas duma flor
Renascida na raiz dos teus abraços

Como quem embala um berço de criança
Eis a esp’rança em cada verso deste fado
Inventando uma ave branca e mansa
Mensageira de meus sonhos em recado

E na límpida razão deste pecado
Que ninguém pode atrever-se a condenar
Encontrei o meu lugar iluminado
Inundado do sol do teu olhar

Renascidas na raiz dos teus abraços
Eis as pétalas dispersas duma flor
Pedaços de mim submersos em teus braços
São para ti estes versos meu amor

A rosa que te dei

Letra e música de José Cid
Repertório do autor


Vivias no nosso tempo
Num quarto andar 
De uma velha mansarda
Que tinha, junto à janela
Sobre o beiral
Uma roseira brava

Que hoje eu venho lembrar
Para voltar com toda a minha alma
Ao tempo em que tu dormias
Sobre o meu peito
E acordavas calma

A rosa que te dei
Não foi criada num jardim
Por isso tinha mais 
Significado para mim
A rosa que te dei
Era uma terna e simples flor
Que fez nascer em nós
Um grande amor


E a rua, no mês de junho
Tinha balões e riso de crianças
O velho da concertina
E a menina que tinha loiras tranças

Cantavas-me uma canção 
Fora de moda
Mas que me era tão querida
Guardei-a entre as mil folhas
Desse romance
Que é o livro da vida

As mãos

Manuel Alegre / Adriano 
Repertório de Adriano Correia de Oliveira


Com mãos se faz a paz se faz a guerra
Com mãos tudo se faz e se desfaz
Com mãos se faz o poema e são de terra
Com mãos se faz a guerra e são a paz

Com mãos se rasga o mar, com mãos se lavra
Não são de pedras estas casas, mas de mãos

E estão no fruto e na palavra
As mãos que são o canto e são as armas

E cravam-se no tempo como farpas
As mãos que vês nas coisas transformadas
Folhas que vão no vento, verdes harpas

De mãos é cada flor, cada cidade
Ninguém pode vencer estas espadas
Nas tuas mãos começa a liberdade

Deixamos de ser brinquedo

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


A amizade que de pequenos
Enlaçava as nossas vidas
Tive que pô-la no cesto velho
Das ideias esquecidas

E fez-me pena, era pura, inocente
E era franca como é a luz que o sol produz

Na neve branca também notaste
Que no beijo que trocámos certo dia
Houve o sabor de coisas novas
Que nos outros não havia

Naquele beijo vi que o desejo
A nós ambos dominou
E no meu peito de coisas estranhas
Eu nem sei que se passou

O afecto puro que dia a dia
Nossas vidas, sempre unir
Chamar-lhe puro para o futuro, era mentira

Eu bem senti
Que esse beijo nos traçara um outro rumo
A amizade foi-se apagando
E perdeu-se como o fumo

Deixámos de ser brinquedo um do outro
É a verdade
E toda a nossa amizade
Que começara tão cedo
Ficou doente no beijo daquele dia
Depois
Foi morrendo no desejo
Do amor de nós os dois

Postal dos correios

João Monge / João Gil
Repertório de Rio Grande


Querida mãe, querido pai, então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer

Mas falemos de coisas bem melhores
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo "expresso" que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça p’rá merenda
Sempre dá para enganar a saudade

Espero que não demorem a mandar
Novidade na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como estão as oliveiras de candeio?

Já não tenho mais assunto p’ra escrever
Cumprimentos ao nosso pessoal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal

Milagre maior

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Darei a minha vida toda à vida
Buscando-me total além do espanto
De sentir uma criança adormecida
Despertar-me na voz sempre que canto

Quero sentir nos braços estendidos
A carícia de todas as aragens
E percorrer-me em todos os sentidos
Alma e corpo de todas as viagens

Embriagar-me de vida e de espaço
As mais altas montanhas alcançar
Sentir a eloquência do teu braço
Ver o tempo correr mais devagar

Então que a morte venha e nos consagre
De tão alto caminho percorrido
Se ser vivo meu amor já foi milagre
Maior foi o de ter-te conhecido

Três beijos

Júlio Proença / Joaquim Campos *fado puxavante*
Repertório de Renato Manuel


Eu nunca pedi um beijo
Ao primeiro amor que tive
Não me faltaram desejos
Mas os desejos contive

Beijei-o, não fui beijado
Era um amor sem calor
Era uma amor apagado

O terceiro amor doidinho (a)
Nos beijos e nos desejos
Nasceram-me os três filhinhos
Mais lindos do que três beijos

(a) provavelmente o 1º verso da 3ª estrofe será;
Do terceiro amor doidinho

Feitiço do fado

Letra e música de Paco Bandeira
Repertório do autor


Consta que o fado nasceu n
o Cais da Ribeira
Mulato boémio gingão por uma varina
Cativa dum certo Lundum que ficou da galera
Que zarpou para o Brasil com os escravos
Do sangue e da sina

Do sal o lamento 
A canção que ainda cá se venera
Como as velas das naus 
É matriz da nossa memória
A morna saudade
O chorinho da canção marinheira
O leme é a guitarra que geme 
No cordame da estória

Quando a gente se entristece
P’ra o sentir como se fosse sagrado
Qualquer coisa de feitiço
De boémio de mestiço, há no fado;
Ou talvez mais que destino para um povo
Seja o mito de um passado sempre novo
De quem deu à escravatura liberdade
Com o timbre do destino da saudade


Diz-se também por aí que é aristocrata
Por mor dum fidalgo fadista 
Amigo da farra
Que toureava montado a cavalo 
De tricórnio e casaca
E que em vez de piano 
Na sala tinha uma guitarra

Porém há quem diga também 
Que o fado é cigano
Que a lendária Severa o cantava 
À noite à meia porta
Que o símbolo do dito maior 
É bem lusitano
Porém o fado hoje é do mundo 
E isso é que conta

Ruas da memória

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Pelas ruas da memória
Andam sombras inquietas
A sangrar-me o pensamento
Farrapos da minha história
De naufrágios e grilhetas
De velas pobres de vento

Sob os meus pés doloridos
As pedras desta cidade
Cinzenta sem horizonte
Choram sonhos proibidos
Fantasmas duma saudade
De sonhos que andam a monte

Dei por migalhas de amor
Searas verdes de esperança
Num campo grande de trigo
Por cada beijo uma flor
Que eu dava como criança
À procura dum abrigo

Desço ao cais da tua imagem
Olho o mar do meu passado
Alongo os braços ao vento
Na esperança doutra imagem
Deste meu corpo amarrado
À memória doutro tempo

Eu não sou poeta

Letra e música de Carlos Paião
Repertório do autor


Quem me dera saber
Fazer versos, rimar
Para um dia escrever
Que tu és a mulher 
Que eu quero amar

Quem me dera fazer poesia
Inspirada na minha paixão
Inventar sofrimento, agonia
O amor de Platão

Quem me dera c
hamar-te de musa
Em sonetos e coisas que tais
Uma escrita solene e confusa
Com palavras a mais

Eu não sou poeta
Não, não sou poeta
Nunca fui um grande sofredor
Eu não sou poeta
Não, não sou poeta
Não te sei falar de amor


Mas seu eu fosse poeta dotado
Ou se ao menos julgasse que sim
Falaria com um ar afetado
Aprenderia latim

Só faria canções eruditas
E se as ditas ninguém entendesse
Rematava com frases bonitas
P’ró que desse e viesse

Adoro o que não sorri

Maria Manuel Cid / Pedro Rodrigues
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Caminho num longo espaço
Sigo sempre o que não traço
Adoro o que não sorri
P'ra min o mundo é deserto
Apenas o que está perto
Me fala do que não vi

Para quê chorar tristeza
Para quê trazer acesa
A chama do meu tormento
Para quê gostar dalguém
O melhor que a gente tem
É calar o sentimento

Juntei as mágoas da vida
Agarrei desiludida
Os restos de meu passado
E no meio da tempestade
Deixei correr à vontade
O destino já traçado

Fado magano

João Dias / Popular c/arranjos de Emília Reis
Repertório de Emília Reis

Gosto do fado magano
Atrevido e galhofeiro
Tisnado como um cigano
Gingão como um marinheiro

Anda em jeito de fandango
Diz-me piadas brejeiras
Mas eu cá nunca me zango
Já lhe conheço as maneiras

Todo magano bem picadinho
Ajanotado e com gajé
Ri de piano, gosta de vinho
Isto é que é fado
Assim é que é


Gosta da noite e da farra
Este grande mariola
Diz-se noivo da guitarra
E faz namoro à viola.

Na boémia não se atrasa
P’ra mostrar que tem ralé
Quando está de grão na asa
Arma logo o seu banzé

As balas

Manuel da Fonseca / Adriano 
Repertório de Adriano Correia de Oliveira


Dá o Outono, as uvas e o vinho
Dos olivais, azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa, o verde pinho
As balas deram sangue derramado

Dá a chuva, o inverno criador
Às sementes dá sulcos o arado
No lar, a lenha em chama dá calor
As balas deram sangue derramado

Dá a Primavera, o campo colorido
Glória, coroa do mundo renovado
Aos corações, dá o amor renascido
As balas deram sangue derramado

Dá o sol as searas pelo verão
O fermento no trigo amassado
No esbraseado forno cresce o pão
As balas deram sangue derramado

Dá cada dia o homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas deram sangue derramado

De meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo onde viver
As balas deram sangue derramado

Dá a certeza o querer e o construir
O que tanto nos negou o ódio armado
Que a vida construída é destruir
Balas deram sangue derramado

Essas balas deram sangue derramado
Só roubo e fome e o sangue derramado
Só ruina e peste e o sangue derramado
Só crime e morte e o sangue derramado

Cantar de um amor perdido

João Dias / Casimiro Ramos *fado oliveira-freira*
Repertório de João Casanova


Esta noite vou cantar
E beber para lembrar
Que bebo para esquecer
Nas mãos da embriaguez
Quero afogar duma vez
A raiva de te perder

Esta noite vou cantar
O ciúme a gargalhar
Como um palhaço traído
Vou pôr a minh’alma em praça
Venham todos que é de graça
Troçar dum amor perdido

Esta noite vou cantar
Até a voz alcançar
O grito da minha ira
E hei-de arrancar de mim
Esta ferida tão ruim
Ainda que mais me fira

Teu corpo nos meus sentidos
Teu nome nos meus ouvidos
Memórias de endoidecer
Esta noite vou cantar
E beber para lembrar
Que bebo para esquecer

Velho moinho

Letra e música José Cid
Repertório do autor


Sempre que o tempo recordar
O que ficou daquele amor
Só vejo velas a rodar
Os teus cabelos a voar
Sinto o perfume de uma flor

E o teu corpete de linho
Que eu desatei com avidez
Fui cama e berço de carinho
Foi o teu corpo que se fez
Mulher pela primeira vez

Velho moinho
Rodando ao vento
Eu venho aqui
P’ra recordar esse momento
Só tu me viste quando abracei
Essa mulher
Que nunca mais eu encontrei


As velas brancas do moinho
Igual à vida igual aos anos
O vento que os faz rodar
É o destino que nos traz
Amor tristeza, desenganos

Quero é viver

Letra e música de António Variações
Repertório do autor


Vou viver
Até quando eu não sei
Que me importa o que serei
Quero é viver
Amanhã, espero sempre um amanhã
E acredito que será
Mais um prazer

E a vida é sempre uma curiosidade
Que me desperta com a idade
Interessa-me o que está p’ra vir
A vida em mim é sempre uma certeza
Que nasce da minha riqueza
Do meu prazer em descobrir
Encontrar, renovar
Vou fugir ou repetir

Vou viver
Até quando, eu não sei
Que me importa o que serei
Quero é viver
Amanhã, espero sempre um amanhã
E acredito que será mais um prazer

A vida é sempre uma curiosidade
Que me desperta com idade
Interessa-me o que está p’ra vir
A vida, em mim é sempre uma certeza
Que nasce da minha riqueza
Do meu prazer em descobrir;
Encontrar, renovar
Vou fugir ou repetir

Fado do piquenique

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Uns três ou quatro amigos leais
Outros tantos sorrisos de mulher
Uns cinco litros ou mais
E um regato a correr

Cheiro de pimentos no ar
Os copos de mão em mão
E o sol a querer-se sentar
Ao lado do garrafão

Tem tal sabor o campo e graça tanta
Que canta tudo em redor
No campo quando alguém canta
Um petisquinho quando a vida nos afronta
E tantos copos de vinho
P’ra ficar na boa conta

Em versos feitos à desgarrada
Todos, todos, cantam por chalaça
E a bela sardinha assada
Rescende que é uma graça

O copo sempre virado
Até ver-se bem o fundo
E depois canta-se o fado
E é quase o fim do mundo

E pianinho, num corrido bem marcado
O sentimento e carinho
Brincam nos versos do fado
É-se poeta, põe-se em tudo o coração
E uma guitarra preta
Parece nascer do chão

Ao sol postinho cheira a mentastro
O campo todo é serenidade
Fugiram beijos prós pastos
A brincar em liberdade
E do céu esta harmonia
Desce a noite toda enternecida
A marcar o fim dum dia
Dos melhores da minha vida

Andam gemidos nos ramos do arvoredo
São rouxinóis atrevidos
A cantar sem terem medo
Pois os artistas ficam ali dois a dois
Dá a cidade os fadistas
O campo dá rouxinóis

Rosa da Madragoa

João Dias / António Parreira
Repertório de Rodrigo
Na discografia de Lucília do Carmo este tema aparece gravado
com o título *Lá vai a Rosa Maria* música de Moniz Pereira


No Bairro da Madragoa
À janela de Lisboa
Nasceu a Rosa Maria
Filha de gente vareira
Foi criada na Ribeira
Entre peixe e maresia

Flor mulher aquela rosa
É a moça mais airosa
Que a lota já conheceu
E toda a malta do mar
Suspira ao vê-la passar
De chinela e perna ao léu

Lá vai a Rosa Maria
Que é a alegria
Desta Ribeira
Ouvi e ri à gargalhada
Qualquer piada
Por mais brejeira;
Vai bugiar meu menino
Não deites barro à parede
Que esta Rosa é peixe fino
P'rá malha da tua rede


O jovem Chico Fateixa
Já jurou que não a deixa
Pois a paixão é teimosa
É de tal modo a cegueira
Que deu à sua traineira
O nome daquela Rosa

E a flor da Madragoa
Ao ver escrito na proa
Seu nome, Rosa Maria
Abriu os braços ao Chico
Começou o namorico
E vão casar qualquer dia

Pé descalço

João Dias / Jorge Atayde
Repertório de Maria Armanda


Nasceu ao lado da vida
À margem de qualquer riso
Por ser criança ofendida
Cantou um fado de aviso

Filho de gente migalha
Brincou descalço na lama
Com malta da mesma igualha
Andou por noites sem cama

De pé descalço
Jogou à bola trapeira
Ao berlinde e ao pião
De pé descalço
Esquecia na brincadeira
Com aquela malta porreira
A sua fome de pão;
De pé descalço
Ficou à porta da escola
P’ra quem nasceu por esmola
Era um luxo a instrução


Engraxador e ardina
Fez recados aos ricaços
Da chamada gente fina
Vestia os trapos ralaços

E quando a fome apertava
Assobiava um fadinho
Ao menos sempre encontrava
Quem lhe pagasse um copinho

Não te esquecerei

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Pode o rouxinol já não cantar
Quando vê brilhar a lua
Porque não soube juntar
A minha vida e a tua

Pode a morte 
Não me querer matar
Quando de mim se avizinha
Com pena d’ir separar
A tua vida da minha

Não te esquecerei
Ainda que as rosas 
Percam o perfume
E que o sol arrefeça;
Porque um dia esqueça
O acender do lume

Nem que as andorinhas 
O luto mudassem
Noutra cor eu sei
Pode o mar secar, morrer o luar
Não te esquecerei

Pode já não vir a primavera
Abrir as flores do jardim
Meu amor será o que era
Até chegar o meu fim

Pode o tempo fazer-me um velhinho
Pôr-me o cabelo de prata
Que a sede do teu carinho
Nem mesmo a idade a mata

Foi feitiço

Letra e música de André Sardet
Repertório do autor


Eu gostava de olhar para ti
E dizer-te que és uma luz
Que me acende a noite
Me guia de dia e seduz

Eu gostava de ser como tu
Não ter asas e poder voar
Ter o céu como fundo
Ir ao fim do mundo e voltar

Eu não sei o que me aconteceu
Foi feitiço, o que é que me deu?
Pra gostar tanto assim de alguém
Como tu


Eu gostava que olhasses p’ra mim
E sentisses que sou o teu mar
Mergulhasses sem medo
Olhar em segredo
Só p’ra eu... te abraçar

O primeiro impulso
É sempre o mais justo
É mais verdadeiro
E o primeiro susto
Dá voltas e voltas
Na volta redonda
De um beijo profundo

Meu coração encalhou

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Meu coração encalhou
Por culpa do timoneiro
Que uma sereia encantou
Enganando o meu veleiro
Meu coração encalhou
Nos braços dum marinheiro

Tenho lenços de cambraia
Todos tecidos dos beijos
E dos recados d’espuma
Que as ondas uma por uma
Vêm marulhar na praia
Murmúrios feitos desejos

Tenho uma saia de mar
Verde-azul quase opalina
E os brincos são de coral
Tenho colchas de luar
Chinelas de areia fina
É este o meu enxoval

Chorona

Manuel Alejandro / António José
Repertório de António Calvário


Saías do templo um dia, chorona
Quando eu te vi ao passar
Julguei que eras uma santa, chorona
Que desceu do seu altar

Ai chorona, chorona, chorona
Num campo lírio
E quem não sabe de amor, chorona
Não sabe o que é martírio


Não sei o que há nas flores, chorona
Nas flores dum campo santo
Se o vento passar por elas, chorona
Parece que estão chorando

Ai chorona, chorona, chorona
Leva-me ao rio
Tapa-me com o teu manto, chorona
Porque eu morro de frio


Dois beijos tenho na alma, chorona
Que sempre recordarei
O último de minha mãe, chorona
E o primeiro que te dei

A luz da essência

Letra e música de Fernando Girão
Repertório do autor


As lembranças deixaram de me fazer mal 
Com o passar do tempo, em silêncio

Eu convivo com as surpresas do presente
Mas às vezes n
ão consigo que a tua imagem 
Se ausente
Estarás sempre aqui
És parte da minha mente

Ajo sempre de maneira semelhante
Mas cada caso é um caso
Um universo distante
Desculpo a minha inconsciência
Atrás dos muros da arte
E choro a tua ausência 
Quando invento outra paixão
Como um cego procura 
A luz sagrada da essência

Não me perguntes

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Perguntas-me meu bem o que é amor
Não sei, porém, a voz do meu instinto
Segreda que o amor seja o que for
É tudo o que por ti amor eu sinto

Não me perguntes p’ra quê
O que é amor, o que sei
É que é ceguinho não vê
Que manda mais do que um rei
Dele o que sei dizer
É isto só bem pouco
Que ele nos faz sofrer
Como se fosse um louco

O que é amor, eu desejo
Contar em termos diversos
Mas digo-o melhor num beijo
Do que em centenas de versos

Não há palavras feitas com certeza
Que saibam traduzir nossos desejos
Por isso é que talvez a natureza
Pôs a fala do amor na voz dos beijos

Brincando com o fogo

*Cavaleiro andante*
Beto / Rita Guerra / Pedro Malaquias / Jan Van Djick
Repertório de Beto e Rita Guerra


Vem no fim da noite sem avisar
Dança no silêncio do teu olhar
A chamar por mim, a chamar por mim

Chega com a brisa que vem do mar
Brinca no meu corpo a desinquietar
Como um arlequim, como um arlequim

Chega quando quer e não quer saber
Nem do mal que fez ou que vai fazer
É um tanto faz, crer ou não crer

Chega assim
Cavaleiro andante
Louco e triunfante
Como um salteador
P'ra no fim 
Nos deixar a contas
Com as palavras tontas
Que dissemos por amor


E eu que jurei nunca mais cair
Nesses teus ardis nunca mais seguir
Esse teu olhar, esse teu olhar

De nada nos vale tentar fingir
Para quê negar ou sequer fugir
Desse mal de amar, desse mal de amar

Praia da minha agonia

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Praia da minha agonia
Onde em cada fim de dia
Vejo o sol morrer aos poucos
E logo que a luz desmaia
As sombras na minha praia
Ensaiam bailados loucos

Praia da minha agonia
Meu berço de fantasia
De menina sem brinquedo
Calcei sapatos de areia
Ouvi vozes de sereia
Não eram vozes de medo

Praia da minha agonia
Onde o mar me prometia
Um amor em cada onda
Foram promessas de espuma
Desfeitas uma por uma
Na sua queda redonda

Ó lugar dos meus cansaços
Das algas presas nos braços
Tecendo a cruz dos meus dias
Cativos de estranha teia
Desmaiam sonhos na areia
Praia da minha agonia

A noite dos poetas

António Barahona da Fonseca / Adriano 
Repertório de Adriano Correia de Oliveira


Ó habitantes da terra e água
Com os semblantes cheios de mágoa
Saltem depressa para a cidade
Com a promessa da liberdade

Invadam tudo, comam pessoas
A cantar loas de meter medo
O mundo é mudo, pertence às cobras
Que trepam escadas no arvoredo

Haverá sinais no nevoeiro
Vinho. veneno e ansiedade
Só um barqueiro cantando breve
Muito sereno na tempestade

Ó habitantes da terra e água
Com os semblantes cheios de mágoa
Saltem depressa para a cidade
Com a promessa da liberdade

E os poetas a delirar
Devoram lírios no meio do mar
Constroem barcas que o vento vira
Pesadas arcas e uma lira

Vai à montanha

Letra de José Guimarães
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Va i à montanha
E respira o ar puro e sossego da paz
Sobe à montanha
Que subindo, mais longe do mundo estarás

Estende os braços ao céu e à brisa
Prende a ti um punhado de estrelas
E um ramo de luz faz com elas
Que é de luz que o teu mundo precisa

Vai à montanha
Traz contigo uma rosa, põe a terra a florir
Sobe à montanha
Vai lá acima e aprende outra ver a sorrir

Ao descer traz contigo uma esperança
E a palavra de Deus por verdade
Rasga a névoa que encobre a cidade
Vem aos homens trazer confiança

Vai...
Vai lá cima à montanha
Vai em busca de alento
Para enfrentar a maldade
Vai...
Vai lá cima à montanha
E atira no vento
As sementes do amor e bondade

Também o sonho é urgente

João Dias / José António Sabrosa *fado saudade das saudades*
Repertório de Rodrigo

Ó lua de luz tão farta
Desce aqui à minha rua
Que eu quero vestir de prata
Aquela criança nua

Vós também, que sois repletas
De luz, ó altas estrelas
Vinde afagar os poetas
Que têm fome de vê-las

E tu ave branca e mansa
Vai ao céu buscar o sol
Para vestir a esperança
Do homem que está mais só

Nesta força de sonhar
Um sonho p’ra toda a gente
Nasce a razão de cantar
Também o sonho é urgente

Meu nome é fado

Letra e música de José Manuel Martins
Repertório de Carlos do Carmo


Nasci do povo como um lamento
Fui pranto, mágoa e sofrimento
Fui a tristeza da voz que dói no tempo
Que é fado

Fado perdido e malfadado
Fado vendido e leiloado
Mas não me fico no fado mal sofrido
Do passado

Vou ser o fado que diz frescura
Criança flor
Desfolhando a ternura
Em seara de amor
Cantando a vida
Deixando atrás tudo o que fiz
Eu vou ser a raiz
Da voz do meu país


Olhando em frente nego o passado
Pois o futuro também é fado
Eu sou o povo
Meu nome é fado novo
Liberdade

Procura país, procura

João Dias / Casimiro Ramos *fado fé*
Repertório de Rodrigo


Em liberdade se esvai
Meu país pobre de mim;
És livre não sei p’ra quem
És tudo o que te convém
Tu és todo frenesim

E eu quem sou, eu sou um todo
Um todo acorrentado
Mas serei de qualquer modo
Um pouco nada do todo
Por nós todo idealizado

Em nada todo me vejo
Olho em mim e vou pensando
P’ra que serve tanto ensejo
Enquanto no lugarejo
Aos poucos nos vão travando

Mas a corrente do nada
Qual vulcão se há transformado
Hei-de gritar na parada
Por nosso povo idealizada
Jamais serei enganado

D. João, o segundo

Fernando Pessoa / João Braga
Repertório de João Braga


Braços cruzados, fita além do mar
Parece em promontório uma alta serra
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra

Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu

Buscando a vida na morte

João Dias / Direitos reservados
Repertório de Maria Pereira


Minh’alma cansada e gasta
Em busca duma ilusão
É folha que o vento arrasta
Pela poeira do chão

Como ave d’arribação
Fugiste da minha vida
Levaste-me o coração
Deixaste-me a fé perdida

E d’alma triste e despida
Cativa da solidão
Sou corpo, vivo sem vida
Sozinha na multidão

E o fado que é meu irmão
Que é gémeo da minha sorte
Anda comigo p’la mão
Buscando a vida na morte

Amar como Jesus amou

Letra e música de Padre Zézinho
Repertório de José Cid


Um dia uma criança me chamou
Olhou-me nos meus olhos a sorrir
Caneta e papel na sua mão
Tarefa escolar para cumprir;
E perguntou no meio dum sorriso
O que é preciso para ser feliz?

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia;
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria 
Muito mais feliz

Ouvindo atentamente, ela me olhou
E disse que era lindo o que eu falei
Pediu que eu repetisse, por favor
Que não dissesse tudo de uma vez;
E perguntou no meio de um sorriso
O que é preciso para ser feliz?

Depois que eu acabei de repetir
Seus olhos não saíram do papel
Toquei na sua cara e a sorrir
Pedi que ao transmitir fosse fiel;
E ela deu-me um beijo demorado
E a meu lado foi cantando assim

Longe da vista

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


No meu cinzeiro de barro
Coloquei sem reparar
Uma ponta de cigarro
Quando acabei de fumar

O fumo ainda perdeu
Duas ou três espirais
Mas logo se aborreceu
Achou trabalho de mais

Sucede assim geralmente
Ao amor por um ausente
E mesmo o fogo sagrado
Precisa de ser ateado

Maria varina

Letra e música de Carlos Coelho
Repertório do autor


Canastra à cabeça
Alegre e brejeira
Os seios saltando
Vai cheia de pressa
Passada ligeira
Sempre apregoando

Feliz sem parar
Co’a pele a tostar 
Do sol a queimar
O corpo a gingar
Fazendo lembrar 
As ondas do mar

Maria varina
Lutando p’la vida
Sem nunca cansar
Cumpre a sua sina
Vivendo do mar

Maria varina
Conhece a brincar
Já desde menina
As pedras da rua 
Que tem de calcar

Pela madrugada
Lá salta da cama
Enfia a blusa
E a saia coçada
Como monograma
A canastra que usa

Sempre bem-disposta
Vai buscar à lota
Para seu pregão
Chicharro, marmota
Sardinha da costa
Que são o seu pão

Canção dos cinco dedos

Letra e música de Carlos Paião
Repertório do autor


São cinco dedos
Cada qual com seus segredos
Lado a lado, lado a lado
Do teimoso polegar
Que dá dedadas, a agarrar
Ao mais fininho, o mindinho

Cinco dedos
São cinco bons brinquedos
Em sincronização
Um por um, aqui estão
Resguardados no dedal da nossa mão

O dedo médio
Fica ao meio, que remédio
É sina sua, capicua
O altivo indicador
Aponta o bem, indica a dor
E o anelar dá jeito a quem noivar

Polegando, palmo a palmo, palmilhando
Como um circo em construção
Um por um, aqui estão
São diferentes
Mas unidos dão a mão

E assim como a cinco
Sinto os dedos musicais
E os meus cinco sentidos
Em crescendo já são mais

Cinco dedos, sincopados
Sustenizam num bemol
Dó, ré, mi, fá, sol, lá
Cinco simples, simples, como o sol
E brinco, com afinco
Queria ser um girassol
Até para ser dedo é preciso ter unhas!

São cinco dedos
São delícias, são enredos
Dedicados, dedilhados
E, num dédalo de dedos
Deduzimos a lição
São amigos que nós temos
Mesmo à mão
Sempre à mão

A lenda D'el-rei D. Sebastião

Letra e música de José Cid
Repertório do autor


Fugiu de Alcácer-Quibir
El-Rei D. Sebastião
Perdeu-se num labirinto
Com seu cavalo real

As bruxas e adivinhos
Das altas serras beirãs
Juravam que nas manhãs
De cerrado nevoeiro;
Vinha D. Sebastião

Pastoras e trovadores
Das regiões litorais
Afirmaram terem visto
Perdido entre os pinhais;
El-Rei D. Sebastião

Ciganos vindos de longe
Falcatos desconhecidos
Tentando iludir o povo;
Afirmaram serem eles
El-Rei D. Sebastião
E que voltava de novo

Todos foram desmentidos
Condenados às galés
Pois nas praias dos Algarves
Trazidos pelas marés

Encontraram o cavalo
Farrapos do seu gibão
Pedaços de nevoeiro
A espada e o coração;
D'El-Rei D. Sebastião

Fugiu de Alcácer-Quibir
El-Rei D. Sebastião

E uma lenda nasceu
Entre a bruma do passado
Chamam-lhe o desejado
Pois que nunca mais voltou;
El-Rei D. Sebastião
El-Rei D. Sebastião

Fascinação

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


O teu olhar sugestivo
De pensamentos de amor
Tem um ar dominador
Que me deixa pensativo

Tem as belezas do mar
A majestade da calma
O horror no trovejar
Das tempestades da alma

E eu sem rumo no mundo
Queria ser o afogado
Nesse mar encapelado
Negro, revolto, profundo

Madrugada

Letra e música de José Luís Tinoco
Repertório de Duarte Mendes
Festival RTP 1975

Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida no medo
E a raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio

Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Da escuridão a abrir em cor
Do braço dado e a arma flor
Fazem-se as margens do meu povo

Canta-se a gente
Que a si mesma se descobre
E acorda vozes arraiais
Canta-se a terra
Que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais


Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia

Acordem luzes
Nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes e arraiais
Cantem despertos
Na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais


Cantem marés
Por essas praias de sargaços
Acordem vozes, arraiais
Corram descalços
Rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais

Diálogo em fado

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Aqui estou eu fado antigo
De cinta preta e samarra
De braço dado contigo
Ó minha linda guitarra

Ouve lá meu mariola
Juras-me fidelidade
Fazes namoro à viola
Aonde está a verdade?

Bem sei que a viola é gorda
Não tem a forma ideal
Mas se tu lhe dás mais corda
Isto pode acabar mal

Se tu me abrisses o peito
Verias a minha paixão
Que tens a forma e o jeito
Do meu próprio coração

Essa é já muito antiga
Mas dá sempre resultado
Se não tivesses cantiga
Não te chamarias fado

Guitarra não sejas tola
Nem digas tal heresia
Não vês que a gorda viola
É só tua companhia

Não tens simpatia

João Dias / Jaime Santos
Repertório de Rodrigo


Para que és franco na vida
Se crias inimizades
Uma mentira polida
Vale por trinta verdades

A franqueza não tem culto
Como a verdade o não tem
E há quem tome por insulto
O prazer de fazer bem

Não elogies qualquer 
Não tens simpatia
Dizes o que te aprouver 
Não tens simpatia
E se tens talento e arte
São tantos a invejar-te
Que mais dia menos dia 
Não tens simpatia

Tens um pedestal desce-o
E põe teu riso postiço
Se chamas parvo a um néscio
Não ganhas nada com isso

O riso é gozo profundo
Que vem dos nossos avós
Antes nós rirmos do mundo
Do que o mundo rir de nós

Poeta do meu povo

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Poeta meu povo
Trigo do meu pão
Tens um fado novo
Na palma da mão

Poeta meu povo
Fruto do meu chão
Um fadinho novo
Tem sempre razão

Com gestos de remos
Em qualquer maré
Inventa poemas
De força e de fé

Arado que lavras
A terra ao rigor
Mais do que palavras
Tu és todo amor

O suor do rosto
É satisfação
E mais vale um gosto
Do que oiro na mão

Recordar é viver

Letra e música de Tó Zé Brito
Repertório de Vitor Espadinha


Foi em setembro que te conheci
Trazias nos olhos a luz de maio
Nas mãos o calor de agosto e um sorriso
Um sorriso tão grande
Que não cabia no tempo
Ouve; vamos ver o mar
Foste o 30 de fevereiro
De um ano por inventar
Falamos…
Falamos de coisas tão loucas
Que acabamos, em silêncio
Por unir as nossas bocas
E eu aprendi a amar

Sim eu sei 
Que tudo são recordações
Sim eu sei 
É triste viver de ilusões
Mas tu foste
A mais linda história de amor
Que um dia me aconteceu
E recordar é viver… só tu e eu

Foi em novembro que partistes
Levavas nos olhos as chuvas de março
E nas mãos o mês frio de janeiro
Lembro-me que me disseste
Que o meu corpo tremia
E eu que queria ser forte
Respondi que tinha frio
Falei-te do vento norte

Não me digas adeus
Quem sabe talvez um dia
Como eu tremia meu Deus!
Amei como nunca amei
Fui louco? Não sei, talvez!
Mas por pouco, muito pouco
Eu voltaria a ser louco
Amar-te-ia outra vez

Foge para o campo

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Deixa a cidade hoje ainda
Foge p'ró campo, anda ver
Que a vida pode ser linda
Quando a sabemos viver

Vem comigo, vou mostrar-te
Como a terra portuguesa
É em si uma obra de arte
De mimos por toda a parte
Que lhe deu a natureza

No campo qualquer mendigo
Passeia a vista à vontade
O sol é tão seu amigo
Que fica no seu postigo
Mais tempo que na cidade

O céu, não são os bocados
Que na cidade se conhecem
Em tiras, porque os telhados
Deixam os olhos tapados
Só retalhos aparecem

No campo, toda essa bola
Do céu vê-se duma vez
E a vista se consola
O céu todo é a gaiola
Dos olhos do camponês

A cidade até der dia

Pedro Abrantes / Marco Quelhas / Paulo de Carvalho
Repertório de Anabela
Festival RTP 1993

De madrugada saio para a rua
A cidade está à minha frente
E de repente a cidade é minha e tua
A cidade é de toda a gente

Entre um gin e um beijo
Vamos nós de bar em bar
Sinto tudo o que vejo
Há um brilho no ar

Quando cai a noite na cidade
Há sempre um sonho e há magia
À noite na cidade
Há sempre um sonho, até ser dia


As cores da noite
Dão um brilho à cidade
Fazem luz até se fazer dia

Entre a lua e o sol
Vamos nós de rua em rua
Amanhã de manhã
Já será outro dia

Cantar de povo

João Dias / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de Hélder Cruz


Enquanto me souber fruto e raiz
Neste palmo de chão onde respiro
Hei-de cantar na voz do meu país
As cantigas do povo em que me inspiro

Enquanto me restar sopro de vida
E uma gota de sangue me animar
Hei-de alcançar a graça prometida
A quem tem por chão este lugar

Não é favor nenhum amar o berço
Amando toda a terra e toda a gente
É um dever que cumpro e me apeteço
A gratidão do fruto p’la semente

E ao fado alcunhado de castiço
P’ra sempre cantarei meu povo irmão
Pois sou sangue de povo e dou por isso
No suor do meu rosto e no meu pão

Dúvida

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Quando sinto na vidraça
Uma noite de invernia
Acredito que não passa
A chuva, nem volta o dia

Se te vejo radiante
De beleza e de frescura
Acredito nesse instante
No amor que sempre dura

Menino mudo

João Dias / José António Silva *fado bacalhau*
Repertório de Rodrigo


Perdida na noite imensa
Já não sonha, já não pensa
A alma que sinto aqui
As horas sabem a pranto
Os dias pesam-me tanto
Por tudo quanto perdi

Como uma voz agoirenta
Oiço uma ave cinzenta
Sob um céu da mesma cor
Como a chuva sobre o mar
A saudade a inundar
Este sítio sem amor

Nem um só rosto diviso
A promessa dum sorriso
Perdido na multidão
Ai como dói isto tudo
Meu povo, menino mudo
Sem brinquedo e sem balão

Lisboa de sua graça

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Senhora no seu Castelo
Lisboa de sua Graça
A Torre ali ao Restelo
Conta a história duma raça

Santo António que mereceu
Ser santo por sua fé
Mora agora onde nasceu
Ali pertinho da Sé

Para carpir a saudade
Nos momentos bons ou maus
Mouraria deu-lhe o fado
Que Alfama embarcou nas naus

O Santo António, o São Pedro e o São João
São do povo o património
Pela sua devoção
O manjerico já anda de mão em mão
E começa o namorico
D’alcachofra e do balão
Toda a Lisboa vem p’ra rua a noite inteira
Desde Alfama à Madragoa
P’ra saltar uma fogueira


Lisboa estendeu um braço 
Por sobre as águas do Tejo
E a Ponte foi um abraço 
Do mais remoto desejo

Quando a cidade desperta 
No pregão duma varina
Há uma divina oferta 
De sol em cada colina

Grito d’orgulho e de glória 
Esta Lisboa imortal
Em cada pedra a memória 
Da História de Portugal

D. João, o primeiro

Fernando Pessoa / João Braga
Repertório de João Braga


O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita

Mestre, sem o saber, do templo
Que Portugal foi feito ser
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender

Teu nome, eleito em sua fama
É, na ara da nossa alma interna
A que repele, eterna chama
A sombra eterna

No dia em que o rei fez anos

Letra e música de José Cid
Repertório do autor
2º lugar no Festival RTP 1974

Vieram tribos ciganas
Saltimbancos sem eira nem beira
Evitaram a estrada real
E passaram de noite a fronteira

E veio a gente da gleba
Mais a gente que vivia do mar
Para enfeitar a cidade
E abrir as portas de par em par

No dia em que o rei fez anos
Houve arraial e foguetes no ar
O vinho correu à farta
E a fanfarra não parou de tocar
E o povo saiu à rua
Com a alegria que costumava ter
Cantando, se o rei faz anos
Que venha à praça, para nos conhecer


Mas nesse reino distante
Quem tinha um olho era rei
Lá vai rei morto rei posto
Levado em ombros p'la grei

E a festa continuou
Já que ninguém tinha nada a perder
Só ficou um trovador
P’ra contar o que acabava de ver

Quem não sonha é cego d’alma

João Dias / Alves Coelho *fado maria vitória*
Repertório de Joaquim Campos


Quem não sonha é cego d’alma
Quem não ama é corpo morto
Triste vela em mar de calma
Que não chega a nenhum porto
Quem não sonha é cego d’alma

P’ra lá da noite do tempo
Há uma noite pior
É mergulhar para sempre
Numa só noite interior
P’ra lá da noite do tempo

Há sempre um dia de sol
Na vida de um sonhador
E ninguém dirá “estou só”
Se teimar buscando amor
Há sempre um dia de sol

Devaneio

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Deixei-me um dia levar
Nas asas da fantasia
Fui como folha no ar
Ao sabor da ventania

Voei tão perto do céu
Que este mundo pequenino
Da vista se me perdeu

Mas um dedo feminino
Um dedo teu, tão leve e fino
Afugentou-me a miragem;
Descendo vi afinal
Que o paraíso não vale
A fadiga da viagem

Tribo dos que falam

Letra e música de Fernando Girão
Repertório do autor


Sou da tribo dos que falam
Que não calam as ideias
Dos que fervem o azeite
E defendem as muralhas
Permaneço no meu posto
Até à última investida
Eu só tenho amor à vida
Se a vida tiver amor

Sou da tribo dos que falam
Que não calam as ideias
Dos que acham que a vida
Deve ser vivida inteira
Acredito no que dizes
Acredito no que fazes
Só faço aquilo que manda
A voz do meu coração

Não temos nada a perder
Somos os outros marginais
Ladrões de sonhos e paixões
Somos da terra de Camões
A herança dos nossos pais

Sou da tribo dos que falam
Que não calam as ideias
Que não temem ameaças
Represálias caras feias
Somos nós que incomodamos
Quem não quer ser incomodado
Somos da terra do fado
E temos muito a dizer

Já o tempo se habitua

Letra e música de José Afonso
Repertório do autor


Já o tempo se habitua a estar alerta
Não há luz que não resista à noite cega
Já a rosa perde o cheiro e a cor vermelha
Cai a flor da laranjeira à cova incerta

Água mole, água bendita, fresca serra
Lava a língua, lava a lama, lava a guerra
Já o tempo se acostuma à cova funda
Já tem cama e sepultura toda a terra

Nem o voo do milhano ao vento leste
Nem a rota da gaivota ao vento norte
Nem toda a força do pano todo o ano
Quebra a proa do mais forte, nem a morte


Já o mundo se não lembra de cantigas
Tanta areia suja, tanta erva daninha
A nenhuma porta aberta chega a lua
Cai a flor da laranjeira à cova incerta

Entre as vilas e as muralhas da moirama
Sobre a espiga e sobre a palha que derrama
Sobre as ondas sobre a praia, já o tempo
Perde a fala e perde o riso, perde o amor

Sou povo por ter irmãos

João Dias /Júlio Proença *fado puxavante*
Repertório Lúcio Bamond (Lucílio de Oliveira)


Sou povo por ter irmãos
Em qualquer lugar da terra
Não tenho raivas nas mãos
Nem sou machado de guerra

Cada verso é uma criança
Que o poeta traz ao colo
Como quem embala a esp’rança
De um amor de polo a polo

Lavro searas de versos
Nos campos de qualquer mundo
Para cantar universos
De amor em cada segundo

Não tenho raivas nas mãos
Nem sou machado de guerra
Sou povo por ter irmãos
Em qualquer lugar da terra

A mão do poeta

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.

Na mão total do poeta
Nasceu a palavra aberta
Duma voz mais transparente
Nos venenos que bebeu
Nas mil vezes que morreu
Para avisar toda a gente

Na mão total do poeta
A verdade mais erecta
Do sangue desfeito em flor
Corpo e alma para dar
Sonho, sonhos de alcançar
A força dum novo amor

Nos braços longos do tempo
Montou cavalos de vento
Atavismos de profeta
Cada verso um recado
Universo desvendado
A mão total do poeta

Afonso de Albuquerque

Fernando Pessoa / João Braga
Repertório de João Braga


De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte
Não pensa em vida ou morte
Tão poderoso que não quer o quanto pode

Que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo

Três impérios do chão 
Lhe a sorte apanha
Criou-os como quem desdenha

Só há um caminho

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Ave do meu ninho
Irmão do meu sonhar
Só há um caminho
E um céu p’ra voar;
Mas quem for sozinho
Não vai lá chegar

Junta-te a quem leva
A fé pela mão
Rasga a negra treva
Dessa solidão

Faz do coração
Albergue de esp’rança
Vem cá meu irmão
Que sonhar não cansa

E da curta história
Do corpo onde andaste
Só fica a memória
Do bem que deixaste

Ouve, pois, amigo
A voz branca e mansa
Anda vem comigo
Que sonhar não cansa

Postal dos correios

João Monge / João Gil
Repertório de Rio Grande


Querida mãe, querido pai, então que tal?
Nós andamos do jeito que Deus quer
Entre dias que passam menos mal
Lá vem um que nos dá mais que fazer

Mas falemos de coisas bem melhores
A Laurinda faz vestidos por medida
O rapaz estuda nos computadores
Dizem que é um emprego com saída

Cá chegou direitinha a encomenda
Pelo "expresso" que parou na Piedade
Pão de trigo e linguiça p’rá merenda
Sempre dá para enganar a saudade

Espero que não demorem a mandar
Novidade na volta do correio
A ribeira corre bem ou vai secar?
Como estão as oliveiras de candeio?

Já não tenho mais assunto p’ra escrever
Cumprimentos ao nosso pessoal
Um abraço deste que tanto vos quer
Sou capaz de ir aí pelo Natal

A festa da vida

José Niza / José Calvário
Repertório de Carlos Mendes
Festival da Canção 1972


Que venha o sol o vinho as flores
Marés canções todas as cores
Guerras esquecidas por amores

Que venham já trazendo abraços
Vistam sorrisos de palhaços
Esqueçam tristezas e cansaços

Que tragam todos os festejos
E ninguém se esqueça de beijos
Que tragam prendas de alegria
E a festa dure até ser dia


Que não se privem nas despesas
Afastem todas as tristezas
Pão vinho e rosas sobre as mesas

Que tragam cobertores ou mantas
O vinho escorra p’las gargantas
E a festa dure até às tantas

Que venham todos de vontade
Sem se lembrarem de saudade
Venham os novos e os velhos
Mas que nenhum me dê conselhos

Dizei-me se vale a pena

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Dizei me se vale a pena
Cantar se ninguém m’escuta
Minha voz será pequena
Mas canta por causa justa

Uma migalha de amor
Apenas uma migalha
Deve estar seja onde for
Sobrando em qualquer toalha

Dizei-me se vale a pena
Cantar o mito da sorte
Quando a vida nos acena
Com a certeza da morte

Dizei-me se vale a pena
Existir entre esta gente
Se já ninguém sente pena
Das penas que a gente sente

Brinquedo desfeito

Rosa Lobato Faria / Luís Filipe
Repertório de Luís Filipe


Trago na lembrança o teu olhar de criança
Como quem recorda um pedaço de céu
Lembro a tua corda onde o salto era dança
E a tua trança

Lembro aquela tarde cinco anos mais tarde
Ainda te vejo a sair do liceu
Foste no meu beijo fruto do paraíso
E o teu sorriso

Eram tempos doces dos doces namoros
Segredos tesouros escondidos dos pais
Eram os recados os beijos roubados
Corações trocados deixados no cais


Eram tempos breves de breves amores
Grinaldas de flores odores tropicais
Eram juramentos e leves tormentos
Que não voltam mais

Trago no meu peito um brinquedo desfeito
Na espuma da popa quando o barco partiu
Um adeus sem jeito, uma festa na roupa
E a tua boca

Trago a claridade que ilumina a infância
Trago uma saudade que parece um navio
Trago da distância uma ilha, um apelo
E o teu cabelo

O fado

Henrique Rego / Francisco José marques *fado zé negro
Repertório de Carlos do Carmo

O fado que nasceu pobre
Chegou contudo a ser nobre
Mas não perdeu singeleza
Introduzido por moda
Nos salões da alta-roda
Mantém a sua lhaneza

Altivo como nasceu
O fado não se vendeu
É do povo emissário
Beija a luva a uma duquesa
Toma chá com a nobreza
E aperta a mão d'um operário

Ao seu nome anda ligado
O destino e outro fado
Guitarras e sofrimento
Mantém o cunho de outrora
Quando canta, ainda chora
Não perdeu o sentimento

Balão verde

João Dias / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Lídia Ribeiro


Que é feito do balão verde
Da minha infância mimada
Quem tudo quer tudo perde
Quis ser muito, fiquei nada
Que é feito do balão verde.

Cerraram todas as portas
Minha gaiola dourada
Sete chaves, horas mortas
Na minha noite fechada
Cerraram todas as portas

Triste candeia apagada
Noites medonhas sem fim
Até minh’alma magoada
Chorando fugiu de mim
Triste candeia apagada

Antemanhã

Fernando Pessoa / João Braga
Repertório de João Braga


O mostrengo que está no fim do mar
Veio das trevas a procurar
A madrugada do novo dia
Do novo dia sem acabar

E disse: quem é que dorme a lembrar
Que desvendou o segundo mundo
Nem o terceiro quer desvendar

E o som na treva de ele rodar
Faz mau o sono, triste o sonhar
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar

Que veio aqui seu senhor chamar
Chamar aquele que está dormindo
E foi outrora senhor do mar

Searas de vento

Letra de João Dias / Carlos da Maia
Repertório de Vicente da Câmara


Quisera que este poema
Tivesse força de vento
E os versos que lhe são tema
Gritassem o meu tormento

O que vejo em meu redor
Traz-me a alma enegrecida
Planeta vazio d’amor
Num universo sem vida

Mãos que espalhavam sementes
Sobre a terra mãe imensa
Agora agitam frementes
Gestos de morte e descrença

Ouvi, pois, este lamento
Verdade sentenciada
Quem faz searas de vento
Terá colheitas de nada

A cigana e o pastor

Letra e música de Paco Bandeira
Repertório do autor


Nos arraiais da fronteira
Corre a lenda dum amor
Uma cigana morena
Partiu um dia a cavalo
Á procura de um pastor

E a cigana correu mundo
Sem o pastor encontrar
Seu pai viera uma noite
Com uma navalha espanhola
Para a traidora matar

Mary Lúcia era a moça
Mais bonita das ciganas
Tinha os olhos enfeitados
Das paisagens arraianas


Vai um dia numa feira
Os ciganos se juntaram
Todos juntos eram cem
E pelas almas juraram
E pelas almas juraram

Mary Lúcia és traidora
Maldito seja o amor
Malditos sejam os dias
Que te tornaram princesa
À procura dum pastor

Nos dias de tiroteio
As aves cantam seus ais
E a frauta do pastorinho
Chama o cavalo perdido
No meio dos matagais

Mas em lugar do pastor
Três cantigas matinais
Com tiros gritos e pragas
Mataram Maria Lúcia
Num cerco de chaparrais

Palavras perfeitas

João Dias / Raúl Pereira *fado zé grande*
Repertório de Rodrigo


Perfeita é a palavra quando verso
E a graça de cantar é já entrega
A malha em que se tece o universo
É força que nenhuma força nega

Perfeita é a razão de ser poeta
Amar a flor nascida em qualquer chão
Andar de corpo inteiro, alma liberta
Estender a mão aberta a qualquer mão

Perfeito é o lugar aonde estás
Tecendo o linho branco duma esperança
Perfeita é qualquer voz cantando paz
Perfeito é qualquer gesto de criança

Perfeito é o perfil do seio fecundo
Da mãe ganhando o filho de seu ventre
Perfeito movimento é o do mundo
A repartir o sol por toda a gente

Loucos de Lisboa

João Monge / João Gil
Repertório da Ala dos Namorados


Parava no café quando eu lá estava
Na voz tinha o talento dos pedintes
Entre um cigarro e outro, lá cravava
A bica… ao melhor dos seus ouvintes

As mãos e o olhar da mesma cor
Cinzenta como a roupa que trazia
Um gesto que podia ser de amor
Sorria… e ao partir agradecia

São os loucos de Lisboa
Que nos fazem duvidar
A Terra gira ao contrário
E os rios nascem no mar


Um dia numa sala do quarteto
Passou um filme lá do hospital
Onde o esquecido filmado no gueto
Entrava… como artista principal

Compramos a entrada p'rá sessão
Pra ver tal personagem no ecran
O rosto maltratado era a razão
De ele… não aparecer pela manhã

Mudamos muita vez de calendário
Como o café mudou de freguesia
Deixamos de tributo a quem lá pára
Um louco… a fazer-lhe companhia

É sempre a mesma pose o mesmo olhar
De quem não mede os dias que vagueiam
Sentado lá continua a cravar
Beijinhos… às meninas que passeiam

Contradição

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Quando te vejo chorar
Duvido da tua mágoa
Mas gosto de te mirar
Para ver os jogos de água

Quando te ris do que digo
Fazendo um trejeito cómico
Penso cá para comigo
Que jogo fisionómico

Mas tu cativas-me tanto
Com essa noite enigmática
Não será todo esse encanto
Amor da arte dramática?

Lisboa velha menina

João Dias / António Chaínho
Repertório de Lizete Castelo


Já tanta gente cantou
Esta cidade-granito
Onde Ulisses naufragou
E uma sereia encantou
Segundo a lenda e o mito

Orgulhosa e inspiradora
De poetas e pintores
E o Tejo que a namora
Vem de longe campos fora
Morrer por ela de amores

Lisboa velha menina
Sobe e desce em desvario
Nas chinelas das varinas
Apregoando ladinas
Peixes do mar ou do rio;
Lisboa velha menina
Gaivota em voo devassa
Quando a noite se realça
Deixa a Ribeira descalça
Para o rio lhe dar um beijo
Lisboa eterna noiva do Tejo


Ó cidade das vielas
Onde o sol mal pode entrar
Mas sempre cabe uma estrela
Que de janela a janela
Este podem abraçar

Burguesa nos bairros nobres
Nos bairros pobres, brejeira
Madrugada de escolhos
Que ainda sobram uns cobres
Para o Cacau da Ribeira

A verdade é como o pão

João Dias / Joaquim Campos *fado rosita*
Repertório de Maria Armanda
Gravado por Rodrigo na música do Fado Meia Noite
com o título *Epigramas*

A verdade é como o pão
Conquista de quem se esforça
Quem faz da força razão
Nunca tem razão de força

Mil dias me julguei certo
De ser livre um certo dia
A tristeza do Roberto
No meio da feira vazia

Ai está raiva de ter
Apenas cinco sentidos
Num corpo que quer viver
Sem sentidos proibidos

Meu corpo de grão de areia
Que de montanhas sonhaste
Prometeram-te uma ceia
E nem migalha agregaste

Já fui arado na terra
No mar fui rede vazia
Só não fui arma de guerra
Nem mesmo de guerra fria

Coro da primavera

Letra e música de José Afonso
Repertório do autor

Cobre-te canalha na mortalha
Hoje o rei vai nu
Os velhos tiranos de há mil anos
Morrem como tu

Abre uma trincheira, companheira
Deita-te no chão
Sempre à tua frente viste gente
Doutra condição

Ergue-te ó Sol de verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores


Livra-te do medo que bem cedo
Há-de o sol queimar
E tu camarada, põe-te em guarda
Que te vão matar

Venham lavradeiras, mondadeiras
Deste campo em flor
Venham enlaçadas, de mãos dadas
Semear o amor

Ergue-te ó Sol de verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores


Venha a maré cheia duma ideia
P’ra nos empurrar
Só um pensamento no momento
P’ra nos despertar

Eia mais um braço e outro braço
Nos conduz irmão
Sempre a nossa fome nos consome
Dá-me a tua mão

Milhões de outros como eu

Letra e música de Fernando Girão
Repertório do autor

Nunca disse a ninguém que era perfeito
E assumo os defeitos que Deus me quis dar
Nunca te fiz pensar
Que a vida ao meu lado
Era o melhor que a vida te podia dar

Eu lembro-me bem das coisas que falei
Disse-te a verdade
Quem eu sou; não sou nada mais
Do que alguém igual
A milhões de outros como eu

Não me importa a raça nem a opinião
Só importa a cor da intenção
Sou... um louco

Louco por ainda acreditar
Eu sou de uma tribo da religião
Em que Deus se chama coração

D. Fernando *Infante de Portugal

Fernando Pessoa / João Braga
Repertório de João Braga


Deu-me Deus o seu gládio
Porque eu faça a sua santa guerra
Sagrou-me seu em honra e em desgraça
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra

Pôs-me as mãos sobre os ombros
E doirou-me a fronte com o olhar
E esta febre de além, que me consome
E este querer grandeza, são seu nome
Dentro em mim a vibrar

E eu vou, e a luz do gládio erguido, dá
Em minha face calma
Cheio de Deus, não temo o que virá
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma

Onde o sol castiga mais

Letra e música de Paco Bandeira
Repertório do autor


Quem nunca viu
Quem nunca andou a combater
Não dá valor, nem faz ideia o que é sofrer
Ter de matar para não morrer
Saber sofrer sem chorar
Saber chorar a sorrir

Lá longe
Onde o sol castiga mais
Não há suspiros nem ais
Há coragem e valor
E à noite
Com os olhos postos nos céus
Rogamos ao nosso Deus
Que nos dê a salvação


E quando alguém do nosso grupo cai
Ainda é pior, ainda sofremos mais
Faz-nos sentir, faz-nos pensar
Talvez da próxima vez
Seja eu quem vá tombar

Lisboa

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Algum dos senhores mandou seu cartão
Um ramo de flores com esta canção
Não sei quem a sonhou, mas a essa pessoa
Só quem o inspirou, foi Lisboa

Talvez um fadista ma tenha mandado
Talvez um artista que sonha acordado
Há nesse teu sol alegria a rodos
Quando ele brilha dá beijos em todos

E de noite brinca a lua, fica tudo prateado
Até as pedras da rua têm prata em todo o lado;
É então que se insinua desejo que se acentua
De se ouvir cantar o fado

Teus cravos floridos nos tons mais diversos
Trazem aos sentidos perfumes de versos
Há nos teus canteiros lágrimas de fados
Poemas inteiros d’almas namoradas

Nos bairros da Mouraria, da Alfama e Madragoa
Há no ar a melodia duma guitarra que soa
Nos degraus da escadaria, nas pedras da cantaria
Vive o fado de Lisboa

Quem canta por conta sua

João Dias / Popular *fado corrido*
Repertório Vicente da Câmara


Quem canta por conta sua
Canta com muita razão
Antes pardal cá na rua
Que rouxinol na prisão


Ser satélite d’alguém
Como do sol é a lua
É destino que não tem
Quem canta por conta sua

Ser-se livre é na verdade
Tão urgente como o pão
E quem canta em liberdade
Canta com muita razão

Linda ave de voz d’oiro
Que bela gaiola a tua
Mas irmão para tal tesoiro
Antes pardal cá na rua

E embora cantando mal
Se é de livre condição
Tem mais valor o pardal
Que rouxinol na prisão

Crónica do Ribatejo

António Lúcio Vieira / Paco Bandeira
Repertório de Paco Bandeira


A braços faz-se a lezíria
Nas veias soltou-se o Tejo
Este chão de camponeses
Que me fala quando o vejo;
Diz-me a verdade da terra
Diz-me a certeza do povo
Do Ribatejo

Tentam-se toiros, contam-se pegas
Rompem fandangos pelas sossegas
Passam marialvas, passa a procissão
Ninguém diz da fome nem da escravidão


Veste-se a melhor jaqueta
E compra-se um selim novo
Abre-se a porta da adega
P’ra embebedar o povo;
Canta-se o fado em tertúlias
Ganham-se prémios na feira
Cala-se o roubo

Só tu podes, companheiro
Enfrentar senhores e gado
Montando corcéis de esperança
Toureando o sol embolado;
Só o povo, sobe a cheia
Num barco de muitos nomes
Sempre varado

Na fonte está Lianor

Letra e música de José Afonso
Repertório do autor


Na fonte está Lianor
Lavando a talha e chorando
Às amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?

Nisto estava Lianor
O seu desejo enganando
Às amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre ũa mão
Os olhos no chão pregados
Que, de chorar já cansados
Algum descanso lhe dão

Na fonte está Lianor
Lavando a talha e chorando
Às amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?

Lenda de Benavente

João Dias / Alfredo Correeiro
Repertório de Rodrigo


O Chico de Benavente
Era um campino valente
Brioso no seu labor
Quer fosse toiro ou novilho
Obedecia ao pampilho
Como um escravo ao seu senhor

Tratava como um irmão
O seu cavalo alazão
Nobre e veloz como um raio
Salvara-o de muito perigo
Era o seu maior amigo
Montava-o desde catraio

Mas um dia, D. João
Cavaleiro e seu patrão
Figura bem conhecida
Pediu ao Chico o cavalo
Dizendo que ia treiná-lo
Para a próxima corrida

Mas por capricho da sorte
O cavalo encontra a morte
Depois de grave colhida
E enquanto o patrão fugia
O Chico à arena descia
Perdendo também a vida

Dizem que em noites de assombro
O Chico pampilho ao ombro
Montado num alazão
Corre os campos ponta a ponta
E grita pedindo contas
Ao fidalgo seu patrão

Lisboa, o sol e o mar

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.

Há entre o sol o mar
Um barulho que atordoa
Porque ambos querem casar
Contigo, Lisboa
O sol não é capaz
De ver dia a dia o Tejo
Em cada onda que faz
Roubar-te um beijo

É o sol esse pintor
Que te dá luz em centelhas
E em riquezas de cor
Põe-te brincos nas orelhas
A teus pés ficam as prendas
Que a onda ao voltar atrás
Vai deixando nessas rendas
Que a espuma lhe faz

Até no teu fado passa
Um e outro a namorar
Um verso alegre é a graça
Do sol a brincar
Mas quando há melancolia
Duma saudade a cantar
Vem toda da nostalgia
Que te dá o mar

Terra breve repartida

João Dias / Joaquim Campos *fado amora*
Repertório de Carlos Macedo


Terra breve repartida
Pelo mar feito destino
Ó terra da voz perdida
Nascida em chão pequenino

Que estranho silêncio é este
A gritar dentro de nós
Terra que há muito perdeste
Uma promessa de voz

Onde está a seiva antiga
Que corria em tuas veias
Povo, que força te obriga
Ao silêncio em que te enleias

Nascida em chão pequenino
Terra breve repartida
Pelo mar feito destino
Ó terra da voz perdida

Cabana junto à praia

Letra e música de José Cid
Repertório do autor


Naquele tempo
Tu vinhas de noite à procura de amor
E eu fumando um cigarro
Esperava por ti
Quando chegavas
Abrias a porta sem me avisar
P'la noite fora ficavas abraçada a mim

Na cabana junto à praia
Entre as dunas e os canaviais
Só o vento e o mar e as gaivotas
Falam desse amor


Todos os anos
Eu volto em agosto ao mesmo lugar
Já uma hera cobriu a parede do quarto
Dava dez anos se vida p’ra te ver voltar
Posso estar farto
De tudo mas nunca me afasto

Tudo parecia tão firme

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


Tudo parecia tão firme
No amor que nos unia
Que até gostava de rir-me
Se alguém vinha garantir-me
Que o tempo o destruiria

E dizia aos meus botões
Numa conversa contida
Não se destroem as paixões
Quando elas são as razões
Da razão da própria vida

Eu via o olhar sem fundo
Dos olhos com que ela olhava
Onde ardiam por segundo
Todos os sonhos dum mundo
Que a fantasia criava

Via a noite, fria e escura
Com tanta sede de luz
Como a boca que procura
Num beijo toda a ternura
Com que o amor nos seduz

Via tudo; só não via
Como o tempo é um cobarde
Que um dia que decorria
No nosso amor era um dia
Que se fazia mais tarde

Já não sou meu, nem és tua
Eu não sou teu e depois
Somos sobra que flutua
Duma saudade que actua
Na vida de nós os dois

Tudo ruiu afinal
Nada no mundo é eterno
Todo o bem acaba em mal
As rosas dum roseiral
Morrem de frio no Inverno

Até a rocha mais firme da montanha
Cai do alto até ao fundo
O tempo tem tanta manha
E uma força tamanha
Que é só ele o rei do mundo

Cantar alentejano

*Catarina Eufémia*
Letra e música de José Afonso
Repertório do autor


Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

Respira e canta

João Dias / Joaquim Campos *fado vitória*
Repertório de Nuno de Aguiar


Amigo, respira e canta
Vaza a alma na garganta
Liberta o sonho maior
Faz do teu corpo uma festa
E põe tudo o que te resta
Num grande gesto de amor

Que o teu sangue seja lava
Em fogueira ardente e brava
Incensando-te a razão
Braços abertos em cruz
Pede ao sol a melhor luz
Para iluminar o teu chão

Escuta na voz das aves
Cantigas que também sabes
Aprende a lição da planta
Espanta sombras e medos (A)
Desnuda a alma aos segredos (B)
Amigo, respira e canta

Estes dois versos foram alterados na gravação

(A) Abate mitos e medos
(B) Desnuda o corpo aos segredos

Fado fadista

Letra de Alberto Janes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível.


O fado às vezes esmorece
E dizem que está mudado
Mas de repente aparece
Tão batido tão marcado
Que a emoção que nos dá
Começa a brincar e ganha tal jeito
Que se o fado é giro não há
Nada sem cantar, cá dentro do peito

O fado agora ind’é gingão ind’é artista
E não me digam que fadista
Ele hoje já o não é, assim
Oiçam lá isto
Que fadista é que tem nisto
Ser mais fadista do qu’isto
Do princípio até ao fim

O fado ninguém o fez
Pois surge naturalmente
Na boca dum português
Que canta aquilo que sente
E a emoção que nos dá
Começa a brincar e ganha tal jeito
Que se o fado é giro não há
Nada sem cantar cá dentro do peito

Requiem para um morgado

João Dias / Raúl Silva
Repertório de Rodrigo


É dono de muitas leiras
Senhor de muito povoado
Aluga braços nas feiras
Onde vai vender o gado

Monta cavalos e fêmeas 
Tem filhos que não conhece
Semeia fomes e sêmeas 
E come o que lhe apetece

Traz a mulher e a montada 
Presas na mesma arreata
Sobre a bota afiambrada 
Usa acicates de prata

Sobre a enorme barriga 
Cadeias de oiro maciço
Prendem um corno e uma figa 
Para afastar o feitiço

Dizem à boca pequena
Que assassinou um maltês
Por um braçado de lenha 
Deu-lhe dois tiros ou três

Engorda porcos e cães 
E guardas florestais
E outros filhos da mãe 
Que lhe guardam os trigais

Missa de corpo presente 
Já pagou adiantado
Deus não fia a toda a gente 
E o céu está superlotado

Aqui ficou retratado 
Um morgado de outros tempos
Que há pouco foi enterrado 
Com todos os sacramentos

Onde vais alma inquieta?

João Dias / Alfredo Duarte *fado bailado*
Repertório de Vicente da Câmara

Onde vais alma inquieta
Que velhos sonhos te enleiam
Corpo d’areia deserta
Que estranhas sedes te anseiam
Onde vais alma inquieta

Ter medo não sei de quê
Pranto sem razão de ser
Angústia que se não vê
Lembrança que quer esquecer
Ter medo não sei de quê

Esta náusea negra e fria
Sensação de luto e nojo
Esta presença sombria
De vultos que andam de rojo
Esta náusea negra e fria

Onde vais alma inquieta
Que buscas corpo sedento
Se não tens rota nem meta
Vela rota em mar sem vento
Onde vais alma inquieta