As *4.510* letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores !!!
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Se o motor de pesquisa não responder satisfatóriamente, aceite as minhas desculpas !!!
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Canto com o coração

Maria de Lurdes Brás / João do Carmo Noronha *fado pechincha*
Repertório de Maria de Lurdes Brás

Num beco da Mouraria
Ouvi cantar a rigor
Quando já rompia o dia
Se calou o cantador

Não sou fadista de raça / Nem sou de bairro afamado
Mas se canto e quando canto / Canto por amor ao fado

Ai! a água do rio corre / Da nascente para a foz
Também um fadinho corre / Duma voz p’ra outra voz

Sempre que um fadista canta / Com sentida emoção
Não canta com a garganta / Mas sim com o coração

Ao correr da pena

Manuela de Freitas / Fernando Freitas *fado pena*
Repertório de Camané

Não fôra tanta porta que se fecha
De cada vez que te abro o coração
Não fôra tu só teres razões de queixa
E eu ter de te dar sempre razão

Não fôra este silêncio como fardo
Que pesa sobre nós a toda a hora
E tu não entenderes que quando tardo
È só p'ra não te ouvir mandares-me embora

Não fôra tu dizeres que não partiste
Apenas porque tens pena de mim
E eu acreditar, ao ver-te triste
Que mesmo sendo pena, é mesmo assim

Não fôra tanta coisa que não presta
Pesar demais no livro da nemória
E ao correr da pena que nos resta
Escreviamos de novo a nossa história

Gaiata dos beijos doces

Duarte / Tózé Brito
Repertório de Duarte

Tens a mania de usar
Rosas presas no cabelo
Já tentei não te ligar
Mas acabo por fazê-lo

As rosas ficam-te bem / Não tenho dúvida alguma
Posso garantir porém / Que não te dou mais nenhuma

Atropelamento e fuga / Sem quaisquer danos visíveis
Gaiata dos beijos doces / E das noites impossíveis

Tens a mania de andar / Num baloiço emocional
Tu pedes para empurrar / E dizes que empurro mal

És confusão instalada / Nevoeiro no caminho
Eu chego de madrugada / E durmo sempre sozinho

Conta e tempo

Frei António das Chagas / José Júlio Paiva *fado complementar*
Repertório de Camané

Deus pede hoje estrita conta do meu tempo
E eu vou, do meu tempo dar-lhe conta
Mas como dar sem tempo tanta conta
Eu que gastei sem conta tanto tempo

Para dar a minha conta feita a tempo
O tempo me foi dado e não fiz conta
Não quis, sobrando tempo fazer conta
Hoje quero acertar conta e não há tempo

Ó vós, que tendes tempo sem ter conta
Não gasteis o vosso tempo em passatempo
Cuidai
enquanto è tempo, em vossa conta
Pois aqueles que sem conta gastam tempo;
Quanto o tempo chegar de prestar conta
Chorarão como eu o não ter tempo

Como o amor è ruim

António Rocha / João Alberto
Repertório de António Rocha

Louco sou por pensar que te quero
Por viver no desespero
Desta loucura de amar
Louco, louco è o meu coração
Por viver na ambição
Da tua traição findar

Não, eu não quero esta paixão
Por quem o meu coração tanto suspira
Fora de mim, ando, ao proceder assim
Como o amor è ruím, como è mentira


Triste sou eu por assim viver
Por caminhar sem saber
Qual o caminho que sigo
Triste, mais triste do que a tristeza
È esta minha certeza
De não  querer viver contigo

Quadras de A6 e de A2

Duarte / Alvaro Duarte simões
Repertório de Duarte

Não mereço esta cidade
Nem as coisas que ganhei
Se em parte digo a verdade
Outras partes ocultei

A tua mão foi rasgando / Meu cabelo em desalinho
É tão mais fácil dormir / Quando não estamos sozinhos

Já não temos dias novos / Nem novas formas de estar
O teu olhar que era eterno / Agora é mais um olhar

Eu fui deixando a cidade / E fui ficando mais leve
Quando nos falta a coragem / Somos um barco sem leme

Retiro o que perguntei / Bem como a raiva que tinha
Depois de tudo o que dei / Dei muito mais do que tinha

Depois de tudo o que dei / Dei muito mais do que tinha
Voltava a dar-te o que dei / Se a raiva não fosse minha

Medalha da Senhora das Dores

Vitorino Salomé *fado da medalhinha*
Repertório de Camané

Não desvies os teus olhos dis meus
Quando passo à tua porta
Trago sempre no meu peito
A medalhinha inocente
Que me ofereceste ao escurecer
Naquele domingo tão triste

Só luzia a chama morna, fraquinha
Dun candeeiro de loiça pintada
Quando atiraste o cabelo p'ra trás
E da tua garganta firme, certeira
Soltou-se o fado
Ai tão amarga, dolorosa despedida

A santa tem sete espadas cravadas
Num coração com espinhos d'oiro na coroa
Lá se me foi o amor
A sangrar lágrimas puras e tristes
Foi-se o amor eu fiquei só
Tu em esplendor 
Estamos quites

Cofre de pinho negro

Maria de Lourdes Carvalho / Alfredo Duarte *fado cravo*
Repertório de Pedro Vilar

Pedi, num dia distante
Para guardares meu anor
Num cofre de negro pinho
Fatalidade meu sonho
Afinal nessa àrvore
Nunca pássaro fez seu ninho

Ponho nele a minha fé / Sem me verem os teus olhos
Nem ouvirem teus ouvidos
Canto este fado p'ra ti / Como esmola que recebo
Sem te fazer mais pedidos

Por capricho do destino / Sem pedir, tudo quis dar
E fiz oferta de mim
Sem saber se tens o cofre / Onde guardo os meus versos
Canto este fado p'ra ti

Boa sorte ou despedida

Duarte / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Duarte

No princípio foi a teia
Aconchegante ilusão
Depois veio a tua ideia
De não termos solução

Não atendeste o telefone / Não respondeste às mensagens
Fui arrumando o teu nome / Na lista das coisas frágeis

Não sou de falsas desculpas / Não sou de zangas ou dramas
Mas quando as feridas são muitas / É muita a dor que se apanha

Desejo-te boa sorte / Ou qualquer coisa parecida
Quem me trouxe tal desnorte / Não merece despedida

Cena fadista

António Vilar da Costa / José Marques *fado triplicado*
Repertório de António Mourão

Um marinheiro de Alfama
Que tem fama na Moirama
De atrevido  e valentão
Beijou a Rosa varina
Em surdina, mesmo à esquina
Da Rua do Capelão

Mas nisto, o Chico da Guia / Rufia da Mouraria
Com um sorriso canalha
Segundo o que se presume / Por ciúme, aponta o gume
Traiçoeiro, da navalha

A nova correu a Graça / Breve passa à populaça
Do famoso Bairro Alto
Logo chega à Madragoa / Corre à toa, põe Lisboa
Quase toda em sobressalto

Depois
, silêncio sagrado / Volta o fado a ser cantado
À esquina da Saúde
E aquele bairro de então / Tão brigão e rufião
Parece que tem virtude

A correr

Manuela de Freitas / Alain Oulman *o pião*
Repertório de Camané

Corre a gente decidida
P'ra ter a vida que quer
Sem repararmos que a vida
Passa por nós, a correr;
Às vezes até esquecemos
Nessa louca correria
Porque motivo corremos
E p'ra onde se corria

Buscando novos sabores / Corre-se atrás de petiscos
Quem corre atrás de valores / Corre sempre grandes riscos
E dá prazer escorraçado / Correr de forma diferente
Há quem seja acorrentado / Por correr contra a corrente

Num constante corropio / Já nem sequer nos ocorre
Que a correr, até o rio / Chegando ao mar, também morre
Ou atrás do prejuizo / Ou à frente da ameaça
Corremos sem ser preciso / E a correr a vida passa

Percorrendo o seu caminho / Correndo atrás do sentido
Há quem dance o corridinho / Eu canto o fado corrido;
E o que me ocorre agora / P'ra não correr qualquer p'rigo
È correr daqui p'ra fora / Antes que corram comigo;
Vou correr daqui p'ra fora / 
Antes que corram comigo

Mãe, obrigado

Mário Raínho / Paco Gonzalez
Repertório de Paulo Jorge Ferreira

Não sei se lembras bem, mãe de fadigas
Quando o teu colo era um berço-abraço
Baixinho, murmuravas-me cantigas
E eu sorria enleado em teu regaço

Os teus olhos, dois céus, a mim desciam
E agitavam-se os meus, de amor, à espera
Do jeito dos teus lábios que floriam
Qual rosa que anuncia a primavera

Ternuras d’outro tempo, amor primeiro
Essas gratas memórias são meus bens
de ti guardo o amor, a voz, o cheiro
Esse cheiro que só têm as mães

Não sei se lembras bem, mãe de fadigas
Mas ‘inda mal menino, começado
Te devolvi em fado essas cantigas
Eu sei que è pouco, mãe, mas obrigado

O sol do teu olhar

Letra e musica de Jorge Atayde
Repertório de Rodrigo

Ó meu amor, tudo aquilo que sonhaste
Já pode ser realidade
Ó meu amor, não lembres o tempo antigo
Esse inimigo, essa verdade

Ó meu amor, não fales mais em segredo
Não
tenhas medo, esquece o passado
Ó meu amor, vê que no campo da luta
A falsidade è astuta e o sentir anda calado

Ó meu amor, quantos minutos perdidos
Foram vencidos, sem se dormir
Ó meu amor, acorda e vê, não è mito
A cor do grito dum rosto a rir

Ó meu amor, como o sol do teu olhar
Já vem brilhar sem s'esconder
Ó meu amor, se a verdade è a razão
O falar do coração dá mais razão ao viver

O recado *a suspeita*

Maria do Rosário Pedreira / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Aldina Duarte

Mete o nariz a vizinha
Aonde não é chamada
Com um pé dentro da cozinha
Dispara de uma rajada

Menina, tenha cuidado / Co’ esse rapaz de quem gosta
Ele anda todo embeiçado / E eu sei que há loura na costa

A maldita põe-o louco / Se a visse a arrastar-lhe a asa
Mas ele também lhe dá troco / E já a trouxe cá p’ra casa

Como as duas são amigas / Custa-me vê-la enganada
Eu até nem sou de intrigas / Mas fiquei tão revoltada

E agora, que tudo sabe / Tome conta do que tem
P’ra evitar que se acabe / Um amor que ia tão bem

E assim como veio foi / Sem me deixar perguntar
Se tudo o que agora dói / Vai algum dia passar

Canção do amor perdido

Letra e música de Tristão da Silva
Repertório de Tristão da Silva

O que eu sofri, quando perdi o teu amor
Até de mim senti revolta, senti rancor
Pois dentre tantas, tantas, que existem pr'aí
Louco fui eu em gostar tanto de ti

Agora eu sei
O quanto, quanto, mentias
Quando a sorrir me dizias
Sou tua, meu doce bem
Agora eu sei
Que vocês são sempre assim
Gostam muito, mas no fim
Não gostam è de ninguém


O nosso amor perdeu a cor das nadrugadas
Foram-se os beijos e os desejos de horas passadas
Hoje liberto, da tua falsa afeição
Voltei de novo p'ra mim, voltei a ter coração

Murmúrio do mar

Maria de Lurdes Brás / Cavalheiro Júnior *fado menor do porto*
Repertório de Maria de Lurdes Brás

Ondas na rocha batendo
Em estranho murmurar
Parece que estão dizendo
Muito temos que contar

Canto ao sabor das marés / Faço do vento um estribilho
E a lua de quando em vez / Espalha nas águas seu brilho

Ondas desfeitas em espuma / Morrendo na branca areia
Vão e vem, uma a uma / Esvaziando a maré cheia

Esse murmúrio do mar / Nos vem trazer à memória
Navegadores de além-mar / Com muitos séculos de história

Um dia parti de mim

António Mourão / Mário Martins
Repertório de António Mourão

Um dia parti de mim / À procura da saudade
Já o dia ia no fim / Quando encontrei a verdade

Disse-me ela, sem rodeios / A saudade não existe
È o nome que se dá / Quando alguém se encontra triste

Pode a tristeza ser grande
Podes chorar à vontade
Só te acalma uma certeza
Quando vier a saudade
Vem a saudade e tu sentes 
Que a solidão não è nada
È uma alegria triste
Uma tristeza calada

Se reparares que vou triste / Não me perguntes porquê
È a saudade que insiste / Que magoa e não se vê

Se ainda vida me sobrar / Quando um dia te perder
P'la saudade mandarei / 
O que tinha p'ra dizer

Lugares-comuns *o namoro*

Maria do Rosário Pedreira / Joaquim Campos Silva
Repertório de Aldina Duarte

Nas linhas da minha mão
Leu que era ele o meu fado
E embrulhou o coração
Num lenço de namorado

Veio esperar-me de fato / Depois de mil telefonemas
E de mandar o retrato / Numa carta com poemas

Trouxe bombons de licor / Deu-me perfume francês
Escreveu a palavra amor / Num tronco de árvore, em inglês

Nos lençóis da sua cama / Bordou o meu pensamento
Com rosas veio um telegrama / A pedir-me em casamento

P’ra dar um nó nesse laço / Comprou o anel de noivado
E tatuou no seu braço / Nossos nomes lado a lado

Ai que lindo é o amor / Só quem não ama não sabe
Nunca vi nada melhor / Tomara que não se acabe;
Nunca vi nada melhor / Deus queira que não se acabe

Tudo acabou *O nosso amor*

Moita Girão / Carlos da Maia
Repertório de Fernando Maurício

O nosso amor acabou
Por muitas voltas que dês
E da mente não te saia
Foi aragem que passou
Nuvem que o vento desfez
Onda que morreu na praia

O nosso amor foi quimera
Amarga desilusão / Que duas vidas tortura
Não conheceu primavera
Nunca passou de botão / Nem viu o sol da ventura

Se jurei não dizer nada
Esse sonho, podes crer / Não exalto nem lamento
inha palavra está dada
Por mais que possa sofrer / Não falto ao meu juramento

O nosso amor acabou
Disse-te mais de uma vez / Por muito que nos atraia
Foi aragem que passou
Nuvem que o vento desfez / Onda que morreu na praia

Labareda *a raiva*

Maria do Rosário Pedreira / Carlos Simões Neves *fado tamanquinhas*
Repertório de Aldina Duarte

Eu nunca fui de chorar
Quanto mais triste, mais canto
Se ao baile te vir chegar
Com outra no meu lugar
Não hás-de ouvir o meu pranto

Dança com ela agarrado / Se julgas que me incomoda
Eu canto sozinha um fado
Antes um fado bailado/ Que pôr o pé nessa roda

Se pensas que vou chorar / Escreve o que te vou dizer
Hás-de me vir procurar
E eu hei-de estar a cantar / P’ra outro homem qualquer

Para ti avozinha

Maria de Lurdes Brás/ Henrique Lourenço *fado cigana*
Repertório de Maria de Lurdes Brás

Avozinha quem me dera
Fosse sempre primavera
No teu lindo e meigo olhar
Eu fosse sempre, criança
Para ouvir, cheia de esperança
Tuas histórias de encantar

Foste avó, e foste mãe
Contigo aprendi também / A dar os primeiros passos
Tuas histórias e canções
Foram duas das razões / Para dormir em teus braços

Mas por vontade de Deus
Fechaste esses olhos teus / Com que para mim olhavas
Recordando os teus carinhos
Contarei a meus netinhos / As histórias que tu contavas

Toda esta felicidade
Eu recordo com saudade / Quando estou triste e só
Fui tão feliz a teu lado
Por isso este meu fado / É para ti, querida avó

Os pontos nos ii *o luto*

Maria do Rosário Pedreira / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de Aldina Duarte

Ouvi dizer que à morte te rendias
Que num febrão teu corpo se apagava
Que essa mulher com quem então vivias
Incapaz de salvar-te, só chorava

Eu quis calar a voz que me trazia
Notícia assim cruel e tão fatal
Mas ainda ouvi, já ela não se ouvia
Chorar meu coração pelo teu mal

Se não medi o passo que então dei
E vens agradecê-lo, já curado
Ao menos ouve aquilo que calei
Quando pensei que a morte era o teu fado

Não foi por ti que eu fui, não há maneira
De perdoar o tanto que sofri
Foi na mulher chorando à cabeceira
Que, ao lamentar-te a sorte, eu me revi;
Essa mulher que tens p’rà vida inteira 
Foi por ela que eu fui, e não por ti

Amor abençoado

Maria de Lurdes Brás / António dos Santos
Repertório de Maria de Lurdes Brás

Meus poemas são diversos
E nos meus humildes versos
Uma homenagem recai
Para esse amor profundo
Dos maiores amores do mundo
Que é o grande amor de pai

Ele é esperança, é amor
É o nosso criador / Da nossa vida é semente
Com a benção do senhor
E o seu divino amor / Aprendemos a ser gente

É ambição desmedida
Ver no espelho, reflectida / A boa imagem dos filhos
Com saúde, educação
Muito amor no coração / Vê-los fugir de maus trilhos

Esta a imagem que eu vejo
E em todos vós desejo / Ver no rosto bem estampado
E não esqueçam jamais
Que o amor por nossos pais / Deve ser abençoado

Fogo posto *a traição*

Maria do Rosário Pedreira / Alfredo Duarte
Repertório de Aldina Duarte

Sei que foste ter com ela
Tantos foram os recados
Para se encontrarem os dois
Eu vi da minha janela
Trocarem beijos e fados
E o mais que veio depois

Dizem que ela tem a arte
De manter acesa a chama / Até vir a madrugada
E eu nem quero imaginar-te
Deitado na sua cama / E eu toda a noite acordada

Se voltares, não digas nada
Sobretudo o que não foi / Que eu conheço o seu perfume
Hás-de encontrar-me calada
P’ra não gritar como dói / A ferida do meu ciúme

Conta as lágrimas que correm
Como um rio pelo meu rosto / Pousa nele a tua mão
Os grandes amores não morrem
E a traição é fogo posto / A arder no meu coração

As tuas tranças

Moita Girão / Franklim Godinho
Repertório de Fernando Maurício

Não cortes a linda trança
Se a cortas, perdes dois bens
Deixarás de ser criança
Perdes a graça que tens

Com a trança ès mais bonita / Sou eu que o digo, repara
Tens mais encanto, acredita / Porque a trança è coisa rara

Não è moda, não t'importes / Se falam, deixa falar
Deixa falar, não a cortes / Enquanto a queiras usar

Mas eu sei que chega a hora / Em que a tesoura afiada
Sem reticência devora / A tua trança dourada

E algum dia, noutra idade / Num remover de lembranças
Hás-de ter muita saudade / 
Das tuas bonitas tranças

Sem chão *a saudade*

Maria do Rosário Pedreira / Popular *fado menor*
Repertório de Aldina Duarte

No cais aguardam os barcos
Viagens que o mar lhes deve
Meus dias no mar são parcos
Pois não tenho quem me leve

Por muito que a tempestade /Tingisse as velas de perigo
Em terra só há saudade / Do tempo em que ia contigo

Gemem os remos no lodo / Chorosos de não partir
Meus dias sem mar são todos / Pois não tenho com quem ir

Por muito que a maré alta / Deitasse os cascos ao fundo
Em terra só sinto a falta / De ir contigo ao fim do mundo

Meu amor se queres ficar

Vasco Lima Couto / Jaime Santos *fado alvito*
Repertório de Vasco Rafael

Molho as palavras no mar
Seco-as na espuma do vento
Neste longo desafio
Meu amor, se queres ficar
Dá-me o respirar violento
Que mata as fontes do frio

Como me perco a cantar
Ao pé das praias incertas / Não tenho lençóis de linho
Meu amor, se queres ficar
Dá-me as vontades libertas / Desse teu corpo a caminho

E no tempo de eu chegar
Àquele grito direito / Que nos dá vida ao morrer
Meu amor, se queres ficar
Abre os montes do teu peito / 
Para eu adormecer

Fada do lar *a vida em comum*

Maria do Rosário Pedreira / Armando Freire *fado mayer*
Repertório de Aldina Duarte

Já fiz a sopa, passei a roupa, varri o chão
Dobrei lençóis, estendi rissóis, comprei o pão
Lavei os pratos e os teus sapatos estão a brilhar
Mudei a cama, quero ter fama de fada do lar

Vá, já são horas; se demoras
Que vai ser do jantar?
E eu disse que sabia
Cuidar do meu rapaz
Vá lá, são horas, nunca mais te vejo entrar
E logo hoje, que tanto queria
Mostrar do que sou capaz

Já pus a mesa e a vela acesa, num castiçal
Fiz pataniscas, temperei as iscas com alho e sal
Numa bandeja trouxe a cerveja, vem lá brindar
Bem podes dizer que a tua mulher è a fada do lar

Desacertos *dois ponteiros*

Maria do Rosário Pedreira / Frederico de Brito *fado britinho*
Repertório de Aldina Duarte

Andas tão outro estes dias
Que dou por mim a cismar
Que vivo ao lado de um estranho
Se chego a rir, desconfias
Mas, se me dá p'ra chorar
Nem queres saber o que tenho

Já não sei o que fazer
Se chego tarde, protestas / Se venho cedo, não estás
Ai, quem me dera entender
Porque o que agora contestas / Mais logo tanto te faz

Andas tão longe estes dias
Que ainda agora pensei / Que fui eu que me perdi
Se não estou onde tu querias
Basta dizeres-me onde errei / E volto a correr para ti

A mim não me pesa a culpa
Mas, se culpada me crês / Eu confesso o que não fiz
E até te peço desculpa
Mesmo não tendo de quê / Só p'ra te ver mais feliz

Portugal de marinheiros

Maria de Lurdes Brás / Casimiro Ramos *fado pinóia*
Repertório de Maria de Lurdes Brás

Nesta pátria, Portugal
Um país de marinheiros
Terra de homens sem igual
Com sangue de aventureiros

Olhos postos no infinito / Navegando em mar profundo
Soltámos o nosso grito / Demos Portugal ao mundo

Desbravamos oceanos / Nesses mares sem Ter memória
E muito nos orgulhamos / Termos feito a nossa história

Com olhos da cor do mar / Meu filho, amor derradeiro
Para seu país honrar / Fez-se bravo marinheiro

Nesses mares em que te enleias / Ao navegar no convés
Certo estás que em tuas veias / Corre sangue português

Cessar-fogo *o recomeço*

Maria do Rosário Pedreira / Frederico de Brito *fado britinho*
Repertório de Aldina Duarte

Ai, que amargura tão grande
Foi vê-la ali, qual assombro
Essa amiga do passado
Que roubou o meu amante
E ainda levou o ombro
Em que eu queria ter chorado

Falou-me de peito aberto
Vinha pedir-me perdão / Contar que o tinha deixado
Depois de ter descoberto
Sem ter havido traição / Que ele nunca a tinha amado

Foram erros sobre enganos
Mas é a ti que ele quer / Disse-me ela, arrependida
Se puderes esquecer os danos
Vai ter com ele, mulher / Já esperou demais a vida

Amiga, estás perdoada
Respondi eu com carinho / Mas, entre nós, ouve bem
Desse homem não quero nada
Deixá-lo ficar sozinho / Quem tudo quer, nada tem

Enquanto souber cantar

Paco Bandeira / Lucio Vieira
Repertório de António Mourão

Eu canto aquela rua de vasos na janela
Os garotos que brincam, a gente descuidada
E canto a voz do rio nos barcos e nas velas
A murmurar ternura, mal finda a madrugada;
Eu canto a minha terra, porque a cantar eu digo
Que a terra è uma mulher na minha voz deitada

Cantar è descobrir
O mundo inteiro num sorriso
Cantar è construir
O mundo novo que è preciso
Cantar è um pregão
Que a gente entoa vida fora
Cantar è um gavião
Rasgando a aurora


Eu canto esta certeza de amanhecer o dia
E o homem acordar na terra fecundada
E canto a liberdade, o grito de alegria
Desta força a crescer no espaço à desfilada;
Eu canto a voz da gente a renascer do nada
Que a gente só está viva de voz alevantada

As noivas *o casamento*

Maria do Rosário Pedreira / Adriano Batista *fado macau*
Repertório de Aldina Duarte

Mal passo o adro da igreja
Vejo essa loira fatal.
Nenhuma noiva deseja
Casar-se ao pé da rival

Tento manter-me serena / Enquanto subo ao altar
P’ra quê fazer uma cena / Se sou eu que vou casar?

Durante a festa, bem o chamo / Meu noivo, sem encontrá-lo
Mas, assim que atiro o ramo / Vejo uma loira apanhá-lo

Aperta-o junto do peito / Num gesto tão atrevido
Que lhe faça bom proveito / E arranje logo um marido

Quando o sonho vale a pena

Gonçalves Preto / Pedro Vilar
Repertório de Pedro Vilar

Do cais duma amargura por contar
Vieste mastigando a solidão
Trazendo desencantos no olhar
E um sonho mutilado em cada mão

Mas o teu sonho pode, se quiseres
Crescer na madrugada mais serena
À luz da esperança viva que acenderes
Dar asas ao teu sonho, vale a pena

As tuas revoltas 

São gritos que soltas num sonho qualquer
As tuas esperanças 
São gritos que lanças, já vida a crescer
Um sonho esquecido 

Se for entendido por quem o quiser

As duas graças *o encontro*

Maria do Rosário Pedreira Alfredo Correeiro *marcha do correeiro*
Repertório de Aldina Duarte

Quando as duas raparigas
Cruzaram o seu caminho
Vinham perdidas de riso
Entre a graça das amigas
Ele, que vinha sozinho
Ficou bastante indeciso

Parou p’ra melhor as ver
E, nesse olhar reparando / Pararam elas também
E, se uma era fogo a arder
Pois a outra, em lume brando / Queimava como ninguém

Loira uma, outra morena
Uma acendia desejos / Na outra havia mistério
E, enquanto da mais pequena
Queria abraços e beijos / Com a alta o caso era sério

Ao pé delas tarde fora
Dessas duas raparigas / Foi só uma que escolheu
E quem se riu chora agora
Pois entre invejas e brigas / Quase tudo se perdeu;
E hoje chegou a hora
De vos contar as intrigas / Porque a escolhida fui eu

Roseira linda roseira

Popular / Mário Martins c/arranjos de A.Chaínho
Repertório de António Mourão

Roseira linda roseira
Que dá rosas todo o ano
Não há amor, por mais forte
Que não nos dê desengano;
Que não nos dê desengano
Que não nos moa o juizo
Roseira linda roseira
Só de ti è que eu preciso

Só de ti é que eu preciso / Só a ti eu quero ver
Não há amor de raiz / Que nos não faça sofrer
Que nos não faça sofrer / E não nos magoe a alma
Roseira linda roseira / Dá rosas na tarde calma

Dá rosas na tarde calma / À luz do entardecer
Só è feliz ao amor / Quem o souber escolher
Quem o souber escolher / Nem tarde nem muito cedo
O amor è como um cofre / 
Que lá tem o seu segredo

Andorinha traz a primavera

Maria de Lurdes Brás/ Alfredo Duarte *mocita dos caracóis*
Repoêrtório de Nuno de Aguiar

Junto da minha janela
Uma andorinha poisou
Trazia notícias dela
Ai, mas que saudade aquela
Foi-se embora, não voltou

Mas já não sei o que faça / É um sonho ou foi quimera
A andorinha esvoaça
Vaidosa cheia de graça / Anuncia a primavera

Vou ouvindo os seus trinados / Com dedicado carinho
Ficam lindos os beirados
Pois nos beirais dos telhados / Andorinha faz o ninho

Desapareceu a tristeza / Como um sonho ou por magia
Primavera, é de certeza
Para mim, fogueira acesa / Voltou a minha alegria

Amor em dó maior *declaração de intenções*

Maria do Rosário Pedreira / Casimiro Ramos *fado três bairros*
Repertório de Aldina Duarte

Passa o tempo e não apaga
A memória que a semente
Guarda da mão que a plantou
Quem diz que o amor se acaba
Ou quer esconder o que sente
Ou nunca na vida amou

Eu tive um amor tão grande
Que quando o perdi, não nego / Já não quis amar ninguém
E, por mais que a razão mande
Meu coração ficou cego / Aos encantos de quem vem

Quem nunca esconde o que sente
Vai contar hoje essa história / De um amor que não vingou
Passa o tempo, e a semente
Guarda consigo a memória / Da mão que um dia a plantou;
Quem nunca esconde o que sente
Não pode esquecer a história / Desse amor que não vingou

Meninas negras

Maria de Lurdes Brás / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Carlos Cruz

Encontrei duas meninas
Que sorriam para mim
Tão pequenas, tão ladinas
Tão formosas a traquinas
D’encanto que não tem fim

São para mim tão singelas Sua beleza é moldura
Parecem duas estrelas
Tão brilhantes e tão belas / A dar luz à noite escura

Toda a minha rua é luz / E a lua fica escondida
O seu brilho me seduz
Tornando leve esta cruz / Que trago na minha vida

Tão negras como o carvão / Enchem-me a vida de escolhos
Alegram meu coração
São toda a minha paixão / As meninas dos teus olhos 

A maçã de Adão *a despedida*

Maria do Rosário Pedreira / Joaquim Campos *alexandrino*
Repertório de Aldina Duarte

Não são palavras vãs, a carta que te deixo
Dizendo que me vou, p’ra nunca mais voltar
Ao morderes a maçã, tu perdeste o meu beijo
Já abraços não dou, a carta há-de chegar

Nem vou esperar por ti, as malas estão à porta
Só me resta ir embora, a história chega ao fim
Se esqueceres que existi, não julgues que me importa
O homem que és agora, já não presta para mim

São tudo coisas minhas, aquelas que hoje levo
As mágoas e as penas não tas posso deixar
Entre as ervas daninhas, se encontrares o meu trevo
Tem três folhas apenas e só me deu azar