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Os 1.760 temas publicados são referenciados como sendo repertório das fontes de extração das letras o que nem sempre quer dizer que os artistas referenciados sejam os seus criadores!
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Da Suiça para todo o mundo > BOCAS do FADO, da POESIA e do HUMOR > programa apresentado e coordenado por José Fernandes Castro
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Deixem ouvir as guitarras

Carlos Rocha / Frederico de Brito
Repertório de Heldér Moutinho

Já noite nas horas calmas / Sózinho á luz do luar
O fado procura as almas / Que andam p’raí a cantar

Corre os bairros de Lisboa / Desce ás quelhas da Moirama
Bairro Alto, Madragoa / E anda p’los becos d’'Alfama

Silêncio...
Deixem ouvir as guitarras
Tangendo canções bizarras
Chorando numa voz rouca
Silêncio...
Deixem ouvir este fado
Fartinho de ter andado
Para aí, de boca em boca

Mas dizem que agora o fado / Vai pôr de parte os queixumes
Vai pôr tristezas de lado / Sem querer saber de ciúmes

Diz que vai andar tranquilo / Usar de mais altivez
Se assim é, vamos ouvi-lo / Chorar p’la ultima vez

Águas paradas

José Luís Gordo / Jorge Fernando
Repertório de Maria da Fé

Quem me catiga amor e quem me leva
Ao céu desta vida que me déste
Será que o espaço é o tempo que se nega
E o negro é côr da esperança que se veste

Quem me bate á porta e triste chega
Com olhos de chorar águas paradas
Quem me desfaz a cama e não se entrega
E dorme sem amor nas madrugadas

Quem me perturba o sono e assim me deixa
A pele da sua pele na minha pele
Que voz acorda a noite e a mim se queixa
Com silêncios de perfume e quase mel

Quem me perturba o sono assim, e só me deixa

Portugal não é Lisboa

Américo Patela / Jorge Fernando
Repertório de João Casanova

Portugal não é Lisboa / Porque Lisboa é um bocadinho
Em relação á distãncia / Que vai do Algarve até ao Minho

Portugal tem mais cidades / E tem mais vilas e lugares
Porque ele foi plantado / Entre milhões de hectares

Portugal não é Lisboa
Como se diz muitas vezes
Portugal é toda a terra onde nascem portugueses
Mesmo até no estrangeiro
Um português natural...
Afirma que onde nasceu, também lá é Portugal

Portugal não é Lisboa / Está muito mais que provado
Por tanta gente estrangeira / Que Portugal tem visitado

Por isso que ninguém diga / Tantas mentiras á toa
Porque a verdade é só uma / Portugal não é Lisboa

Procura-me num fado

José Fernandes Castro / Armando Machado *fado marana*
Repertório de José Fernandes

No dia em que tiveres saudades minhas
Eleva o teu olhar até aos céus
Verás no ondular das andorinhas
Desenhos que não fiz, mas que são meus

Verás o meu olhar apaixonado
No brilho duma estrela incandescente
Verás também, um rosto iluminado
No chôro duma nuvem diferente

Depois verás um sol entristecido
Sofrendo a desventura duma hora
E mesmo num poema sem sentido
Verás a solidão que me devora

O nome que darei ao teu amor
Decerto rimará dôr com pecado
No dia em que a saudade fôr maior
Procura a minha voz na voz dum fado

Quando contigo vivi

Agostino Neves / Casimiro Ramos *fado pinóia*
Repertório de Cidália Moreira

Lembro aquela despedida
Ao afastar-me de ti
Fugindo da tua vida
Quando contigo vivi

Já tanto tempo passou / Da minha vida perdida
A saudade a mim chegou / Lembro aquela despedida

Saudades quem as não tem / Lembro as penas que sofri
Como lembro ainda bem / Ao afastar-me de ti

O teu amor eu não quis / Falsa paixão desmedida
Em boa hora eu o fiz / Fugindo da tua vida

P’ra te dizer a verdade / Se acaso passo por ti
Eu recordo com saudade / Quando contigo vivi

Lisboa garrida

Fernando Peres / Jorge Barradas
Repertório de Beatriz da Conceição

Lisboa, os bairros a teus pés
Dão forma ao que tu és / Mulher feita cidade
Lisboa, poema do passado
Nas rimas do meu fado / Com alma de saudade

É sina tua saber ser contente
E vens p’ra rua só p’ra vires c’oa gente
Balão aceso pela tradição
Bem preso, junto ao coração

Cidade garrida
És a melhor verdade para cantares a vida
Com benção de lua
Tens alma e coração de rua

Lisboa, tens sons de sinfonia
E gritos de alegria / Promessas de verdade
Lisboa, janela aberta á vida
Numa esperança perdida / Só p’ra fazer saudade

É sina tua querer andar contente
E vens p’ra rua p’ra cantar c’oa gente
Balão aceso pela tradição
Bem preso, junto ao coração

Bela noitada de Santo António

Letra de musica de: Vicente da Camara
Repertório do autor


Santo António é português / Nascido perto de Alfama
E os milagres que ele fez / Deram-lhe uma enorme fama

Nascido nesta cidade / De Lisboa, junto á Sé
Foi p’ra longe, o nosso frade / Mas português é que é

Bela noitada com o meu par
De braço dado vamos marchar
E a madrugada está a chegar
Vai mais um copo p’ra aconchegar

Para os amores entender / Com o balãozinho na mão
Vamos todos a correr / Comprar um manjericão

Meu santo casamenteiro / Ajuda-me a escolher par
Que seja amor verdadeiro / P’ra nunca mais acabar

Venham daí raparigas

Carlos Conde / José Marques *fado triplicado*
Repertório de António Rocha

Venham daí raparigas
Ao baile dos quintalinhos
Perder a noite a dançar;
A seguir temos cantigas
No retiro do Charquinho
Só com motes a atirar

Vamos todos de Cacilhas
Numa alegre burricada / Á Cova da Piedade
Á noite no Quebra-bilhas
Há peixe frito e salada / Com carrascão á vontade

P’ra essa genta rambóia
Dançar a polka janota / Até ao romper do dia
A seguir, temos tipóia
P’ra almoçar na Porcalhota / E jantar na Tia Iria

Vamos ao vinho em tigelas
Que aos arraiais cá da terra / Nunca falta gente faia
Depois da Quinta de Belas
Vamos do Senhor da Serra / Para os Sinos da Atalaia

Fado, toiros, vinho tinto
Se era assim a mocidade / Como oiço dizer p’raí
Além da pena que sinto
Até chego a ter saudades / Daquilo que nunca vi

Deus fez as almas aos pares

Maria de Jesus Viana / Vicente da Camara
Repertório de Vicente da Camara

Nem sei onde fica o céu
E nem sei se há outro inferno
Mas sinto alturas na vida
Em que só Deus é eterno

Não estou alegre nem triste / Mais pobrezinho é que estou
De tudo o que Deus me deu / Foi de ti que me roubou

Deus fez as almas aos pares / Fez a minha, fez a tua
Agora que tu partiste / A minha não se habitua

Novo fado da Severa

Este fado é também conecido com o título *Rua do Capelão*
Júlio Dantas / Frederico de Freitas
Repertório de Amália

Oh Rua do Capelão
Juncada de rosmaninho;
Se o meu amor vier cedinho
Eu beijo as pedras do chão
Que ele pisar no caminho

Tenho um degrau no meu leito / Que é feito p'ra ti somente
Oh meu amor, sobe-o com jeito
Se o meu coração te sente / Fica-me aos saltos no peito

Tenho o destino marcado / Desde a hora em que te vi
Oh meu cigano adorado
Viver abraçada ao fado / Morrer abraçada a ti

Retrato do poeta quando jovem

José Saramago / Alfredo Duarte *fado cuf*
Repertório de Carlos do Carmo

Há na memória um rio onde navegam

Os barcos da infância em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas

Há um bater de remos compassado

No silêncio da lisa madrugada
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada

Há um nascer do sol no sítio exacto

À hora que mais conta duma vida
Um acordar dos olhos e do tacto
Um ansiar de sede inextinguida

Há um retrato de água e de quebranto

Que do fundo rompeu desta memória
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história

Alma minha

Luíz Vaz de Camões / Alain Oulman
Repertório de Amália

Alma minha gentil, que te partiste

Tão cedo desta vida descontente
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste

Se lá no assento etéreo, onde subiste
Memória desta vida se consente
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste

E se vires que pode merecer-te
Alguma causa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te

Roga a Deus, que teus anos encurtou
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou

Dizem que Deus fez a noite

José Guimarães / Casimiro Ramos *fado freira*
Repertório de Filomeno Silva

As velhas lá do lugar
Dizem que Deus fez a noite
E depois se arrependeu;
Na noite quero encontrar
Um lugar onde me acoite
E um amor que seja meu

Noite sem luz, noite escura
És oração e cantiga / És verdade e fantasia
Na noite vou á procura
Daqule alguém que consiga / Fazer da noite o meu dia

Noite fora com ternura
Rua em rua a céu aberto / Sinto-me livre e por fim
De dia tudo é lonjura
E á noite fico mais perto / Fico mais perto de mim

Ás velhas lá do lugar
Nunca mais eu ouvirei / Aquele presságio seu
Nem as vou acreditar
Porque na noite encontrei / O que o dia não me deu

Amantes separados

Pedro Muralha / António Mestre
Repertório de Amália

Como num búzio o mar repete essa balada

Numa canção feita de sonho e ansiedade
Meu coração repete a história apaixonada
Duma presença que se fez longe, saudade

A vida quis que fosse assim nosso destino
No grande amor que quis vencer os vendavais
A vida quis que fosse assim nosso destino
Onda quebrada contra a praia e nada mais

E a vida passa como os versos que escrevemos
E as promessas que fizemos no dia da despedida
E a vida passa, passam os dias rasgados
Tudo passa e passa a vida dos amantes separados

Amanheceu junto ao mar

Artur Lobato / Vicente da Camara
Repertório de Vicente da Camara

Amanheceu junto ao mar
A sombra d’uma ansiedade
Vela branca a esvoaçar
No veleiro da saudade

Uma saudade ficou / No porto da minha dôr
foi tudo quanto resto / D’um sonho feito de amor

Não chores a solidão / Se já tiveste um passado
Saudade no coração / É viver acompanhado

Nem mesmo ao ver-te chegar / A saudade quis partir
Ficou presa a meditar / Na saudade que há-de vir

De tanto te recordar / Nesta saudade sem fim
És tu a própria saudade / A viver dento de mim

Lágrimas do céu

Carlos Conde / João Maria dos Anjos
Repertório de Raúl Pereira

Quando eu canto e a chuva cai
Uma nuvem de incerteza
Paira em mim de quando em quando;
Cada gota lembra um ai
A rimar com a tristeza
Dos versos que vou cantando

E na doce melodia
De que o fado se reveste / Quando o meu olhar embaça
Vejo a estranha melodia
Da chuva que o vento agreste / Faz murmurar na vidraça

Então dou, no meu lamento
Ao fado que me prendeu / Rimas tristes, pobrezinhas
Cai a chuva, geme o vento
São as lágrimas do céu / Que fazem brotar as minhas

Troca de olhares

Linhares Barbosa / Martinho d’Assunção
Repertório de Amália

Os olhares que te deito

Desde a hora em que te vi
São as falas do meu peito
Que morre de amor por ti

Quantos olhares são trocados
Em segredos envolvidos
Sinais mudos, bem falados
Por quem são compreendidos

Não é preciso falar
Havendo combinações
Porque a troca do olhar
É a voz dos corações

Noutro cantar

João Veiga / popular *fado das horas*
Repertório de Salvador Taborda

Este fado que acontece
Na minha voz ao cantar
Como se fosse uma prece
A minha forma de amar

Este fadoa onde existe / Um pouco da minha vida
Não é alegre nem triste / É feito á minha medida

Este fado é minha sina / Não vou mudar o caminho
Fiz dele a minha doutrina / Por onde ando sózinho

Neste fado que vos canto / Só não posso revelar
Alguns segredos de amor / Que escondo noutro cantar

Triste viúvinha

Linhares Barbosa / Jaime Santos
Repertório de Amália

Olha a triste viuvinha

Que anda na roda a chorar
É bem feito, é bem feito
Já não tem com quem casar

Já levaste um cabaço
Dois ou três hás-de apanhar
Ela não tem que vestir
Ela não tem que calçar

Já levaste dois cabaços
Cinco ou seis hás-de apanhar
É bem feito, é bem feito
Já não tem com quem casar

Para poder te amar

Dalmo Belotti
Repertório de Salvador Taborda

O amor não tem côr, o amor não tem idade
O amor não vê cara nem religião
Não faz diferença do rico e do pobre
O amor só precisa dum coração

O amor não tem tom nem nacionalidade
Dispensa palavras, basta um olhar
O amor não tem hora nem fórmula certa
Não manda recado, chega p’ra ficar

O amor entrou na minha quando te encontrei
Olhei no teu olhar e me apaixonei
Foi tanta emoção, não deu p’ra segurar... não deu
O amor, contigo a meu lado é cada vez maior
Quero-me me baptizar com sal do teu suor
E ter a vida inteira p’ra poder te amar

Vamos os dois para a farra

Linhares Barbosa / Domingos Camarinha
Repertório de Amália

Vamos os dois para a farra

Passar o dia na estroina
Eu, o saiote de barra
E tu, a cinta e a boina

Os meus vestidos discretos / Acho que os não devo pôr
Bastam-me os teus olhos pretos / Que nunca mudam de cor

Vou cantar um outro fado / E vais gostar de me ouvir
Hoje não quero pensar / Hoje apetece-me rir

Pra não fugir ao costume / Se os meus fados e motejos
Te provocarem ciúme / Tapas-me a boca com beijos

Acordei com este jeito / De lançar um desafio
Ao teu coração vadio / Que anda a faltar-me o respeito

Valentim

Cancioneiro popular
Repertório de Amália

Adeus casa de meu pai / Adeus largo do quinteiro
Quero o Valentim ó laró laró /
Quero o Valentim ó laró meu bem
Adeus mocidade nova / Adeus vida de solteiro
Quero o Valentim ó laró laró /
Quero o Valentim ó laró meu bem

No tempo das desfolhadas / Lá na aldeia era um regalo
Quero o Valentim ó laró laró / Quero o Valentim ó laró meu bem
Era o tempo em que eu chegava / A casa ao cantar do galo
Quero o Valentim ó laró laró / Quero o Valentim ó laró meu bem

Adeus casa de meu pai / Adeus quarto da palhada
Quero o Valentim ó laró laró / Quero o Valentim ó laró meu bem
Era a cama onde eu dormia / Ao chegar de madrugada
Quero o Valentim ó laró laró / Quero o Valentim ó laró meu bem

Adeus pau de marmeleiro / Se ele falasse dizia
Quero o Valentim ó laró laró / Quero o Valentim ó laró meu bem
As pancadas que me deu / Quando eu chegava ao ser dia
Quero o Valentim ó laró laró / Quero o Valentim ó laró meu bem

Adeus também ao meu pai / Adeus vida de solteiro
Quero o Valentim ó laró laró /
Quero o Valentim ó laró meu bem
Agora é que eu reconheço / O valor do marmeleiro
Quero o Valentim ó laró laró / Quero o Valentim ó laró meu bem

Á janela da vida

Carlos Conde / Alfredo Duarte
Repertório de Alfredo Marceneiro

P’ra ver quanta fé perdida
Quanta miséria sem par
Há neste orbe atroz, ruim;
Pus-me à janela da vida
E alonguei o meu olhar
P’lo vasto mundo sem fim

Pus todo o meu sentimento
Na mágoa que não se aparta / Do que mais nos desconsola
E assim, a cada momento
Vi buçaes comendo à farta / E génios pedindo esmola

Vi muita vez a razão
Por muitos posta de rastos / E a mentira em viva chama
Até por triste irrisão
Vi nulidades nos astros / E vi ciências na lama

Vi dar aos ladrões, valores
Vi sentimentos perdidos / Nas que passam por honradas
Vi cinismos vencedores
Muitos heróis esquecidos / E vaidades medalhadas

Vi, no torpor mais imundo
Profundas crenças caindo / E maldições ascendendo
Tudo vi, por esse mundo
Vi miseráveis subindo / E homens honrados descendo

Por isso, afirmo, conciso
Que, p’ra na vida ter sorte / Não basta a fé decidida
P’ra ser feliz, é preciso
Ser canalha até à morte / Ou não pensar mais na vida

Vagamundo

Humberto Arcanjo Brito Rodrigues
Repertório de Amália

Já disse adeus a tanta terra, a tanta gente
Nunca senti meu coração tão magoado
Inquieto por saber que o tempo vai passar
E tu vais esquecer o nosso fado

Partida cada vez mais sombria... cansada
São nuvens negras em céu azul
São ondas de naufrágio em mar fundo
No meu deserto não vejo abrigo
Sem ter um amor neste mundo

Mas se eu voltar e como penso, me esqueceste
Troco por outro o coração amargurado
Tentarei não fazer mais castelos no ar
E nunca mais viver um outro fado

Drama de uma velhinha

Carlos Conde / João Maria dos Anjos
Repertório de Argentina Santos

Senhor Juíz... o meu filho
Não me bateu nem roubou
Com alguém já disse aqui;
Tropecei num impecilho
E ele até me levantou
No momento em que caí

Não tem profissão marcada
Mas na sua triste rota / Mal ou bem lá se governa
E nunca me exigiu nada
Para perder na batota / Ou p’ra gastar na taberna

É mentira o que se diz!
Este arranhão sem valor / A marcar o meu desgosto
Não chega a ser cicatriz
É uma ruga maior / Entre as rugas do meu rosto

Senhor juíz... eu sou mãe
E juro que o meu menino / Não me roubou nem bateu
O cadastro que ele tem
Traduz o negro destino / Da sorte que deus lhe deu

Neste conto se adivinha
Mercê de frases tão frias / O destino dum ladrão
E o drama de uma velhinha
Que passa todos os dias / A caminho da prisão

Triste sina

Nóbrega e Sousa / Jerónimo Bragança
Repertório de Amália

Mar de mágoa sem marés
Onde não há sinal de qualquer porto
De lés a lés o céu é cor de cinza e o mundo desconforto
No quadrante deste mar que vai rasgando
Horizontes sempre iguais à minha frente
Há um sonho agonizando, lentamente, tristemente

Mãos e braços, para quê?
E para quê, os meus cinco sentidos?
Se a gente não se abraça e não se vê, ambos perdidos
Nau da vida que me leva naufragando em mar de treva
Com meus sonhos de menina... triste sina

Pelas rochas se quebrou
E se perdeu a onda deste sonho
Depois ficou uma franja de espuma a desfazer-se em bruma
No meu jeito de sorrir ficou vincada
A tristeza, de por ti não ser beijada
Meu senhor de todo o sempre, sendo tudo, não és nada

Libertação *Amália*

David Mourão Ferreira / Filipe Pinto *fado meia noite*
Repertório de Amália

Fui à praia, e vi nos limos

A nossa vida enredada
Ó meu amor, se fugirmos
Ninguém saberá de nada

Na esquina de cada rua / Uma sombra nos espreita
E nos olhares se insinua / De repente, uma suspeita

Fui ao campo e vi os ramos / Decepados e torcidos
Ó meu amor, se ficamos / Pobres dos nossos sentidos

Em tudo vejo fronteiras / Fronteiras ao nosso amor
Longe daqui, onde queiras / A vida será maior

Nem as esperanças do céu / Me conseguem demover
Este amor é teu e meu / Só na Terra o queremos ter

Anda comigo vou falar de esperança

Lima Brumman / Fontes Rocha
Repertório de: Teresa Tarouca

Anda comigo vou falar de esperança

Da vida que ainda agora principia
Perde essa amarga e vã desconfiança
Toma a minha mão de amigo e confia

Anda comigo eu canto as tuas dores
Sou mais poeta sendo teu irmão
Nesta densa floresta sem flores
O sangue e a alma são o mesmo pão

Anda comigo, além na clareira
Há uma fonte pra matar a sede
A água é pura livre não se negue
E corre simples para quem a queira;
Anda comigo vou falar de esperança
Anda comigo fazer a sementeira

Se me amas

Carlos Beirão da Veiga / João Veiga
Repertório de Salvador Taborda Ferreira

Pescador que vais p’ra faina labutar a vida tua
Que importa o mar bravio... se há lua
Ceifeiras do Alentejo, as que alegria ao vê-las
Que importa o trigo estragado... se há estrelas

Se há estrelas se há lua
Se me amasa, meu amor
Esta vida minha e tua
Tem o prefume da flor

A oliveira velhinha sem água, morre com dôr
Que importa que haja o fruto... se há flor
Que importa que cresçam pobres, que importa riqueza e fama
Que importa que o mundo morra... se me amas

Pescador que vais p’ra faina, ceifeiras do Alentejo
Essa oliveira velhinha
Que importa riqueza e fama... se me amas

Sem sentido

Manuela de Freitas / Joaquim Campos *fado rosita
Repertório de Pedro Moutinho

Naquela noite sem lua
Talvez por andar perdido
Entrei pela tua rua
Em sentido proíbido

Tentei fazer marcha-atrás / Mas disseste divertida
Que o sentido tanto faz / Se a rua não tem sentido

Começando a sentir frio / E sendo já noite porta
Ao ver um lugar vazio / Estacionei á tua porta

Que sentido tão perverso / Teve essa noite sem lua
Andar em sentido inverso / P’ra acabar na tua rua

Se faz sentido não sei / Mas não estou arrependido
Dos sentidos que encontrei / Nessa noite sem sentido

Fado Maluda

Rosa de Lobato Faria / Carlos da Maia
Repertório de Carlos Zel

Nasceu guardiã dos sonhos
Tem a magia nos olhos
Traz os segredos na mão;
Torna Lisboa mais bela
Quando pinta uma janela
Logo se abre o coração

São quiosques, são telhados
E há pardais alucinados / Embriagados de Tejo
E uma cegonha perdida
Confusa, pediu guarida / Numa tela de além Tejo

Tonalidades secretas
Azuis de prussia violetas / Ardências de chão queimado
E onde a noite principia
P’ra não morrer a magia / Poisa os pincéis, canta o fado

Divino sol, divino fado

José Luís Gordo / Popular *fado corrido*
Repertório de Maria da Fé

Minha mãe, eu sou do tempo
Da força que a água tem
Sou do mistério do vento
Que não sabe d’onde vem

Esta voz que canta em mim / Não a canta mais ninguém
Sou do mistério do fado / Que não sabe d’onde vem

Minha mãe, dá-me o talento / Que só o poeta tem
Que eu sou como o próprio vento / Que não sabe d’onde vem

Minha mãe, do vosso amor / Pouco ou nada quase sei
Sou como a própria flor / Que não sabe d’onde vem

Minha mãe, eu sou do tempo / Da força que o fado tem
Sou do mistério do vento / Que não sabe d’onde vem

Lisboa, tu és assim

Letra e música de Pedro Campos
Repertório de Pedro Moutinho

Quando o sol se põe, já fugidio
Bate nos barcos sobre o rio
E na rotunda ao fim da tarde
Pessoas, vagueiam na hora de ponta
Passam por mim vezes sem conta
É a cidade

As casas e as paragens na avenida
Cheias de côr, cheias de vida
Do Bairro Alto á Madragoa
Eu ando e vou sentindo como és
Vendo as esplanadas nos cafés
Sei que és Lisboa

Lisboa do rio e dos barcos no cais
Da gente nas ruas e mais ... tu és assim
Lisboa, tu sabes que bom que é voltar
De longe de qualquer lugar ... só para ti

Eu sigo e vou sentindo como és
Nas passadeiras do Marquês
Sei que és Lisboa

Janela da noite

Maria da Fé / José António Sabrosa
Repertório de Maria da Fé

Nas ondas da nossa cama
Mergulhei noites sem fim
Fiz amor com quem me ama
Nos meus lençóis de cetim

Nos meus lençóis de cetim / Acordei abandonada
Porque esse amor foi o fim / Duma longa madrugada

Fui á janela da noite / Procurei estrelas sem fim
Acordei desse abandono / Nesses lençóis de cetim

Palavras minhas

Pedro Tamen / Carlos Manuel Proença *fado sereno
Repertório de Pedro Moutinho

Palavras que disseste e já não dizes
Palavras como um sol que me queimava
Olhos loucos dum vento que soprava
Em olhos que eram meus e mais felizes

Palavras que disseste e que diziam
Segredos que eram lentas madrugadas
Promessas imperfeitas murmuradas
Enquanto os nossos beijos permitiam

Palavras que dizias sem sentido
Sem as quereres mas só porque eram elas
Que traziam a calma das estrelas
Á noite que assomava ao meu ouvido

Palavras que não dizes, nem são tuas
Que morreram, que em ti já não existem
Que são minhas, só minhas, pois persitem
Na memória que arrasto pelas ruas

Águas paradas

José Luís Gordo / Jorge Fernando
Repertório de Maria da Fé

Quem me catiga amor e quem me leva
Ao céu desta vida que me déste
Será que o espaço é o tempo que se nega
E o negro é côr da esperança que se veste

Quem me bate á porta e triste chega
Com olhos de chorar águas paradas
Quem me desfaz a cama e não se entrega
E dorme sem amor nas madrugadas

Quem me perturba o sono e assim me deixa
A pele da sua pele na minha pele
Que voz acorda a noite e a mim se queixa
Com silêncios de perfume e quase mel

Quem me perturba o sono assim

E só me deixa

Divino fado

José Luís Gordo / João Maria dos Anjos
Repertório de Maria da Fé

Trago minhas mãos abertas
Os teus dedos são dez setas
Apontam teu coração;
Dizem-me as horas que sim
Tudo tem princípio e fim
E eu acredito que não

Trago minhas mãos abertas
Duas montanhas desertas / Dois oceanos vazios
Já cansei de te alcançar
Já rasguei por dentro o mar / Já sequei todos os rios

Trago minhas mãos abertas
Nas madrugadas desertas / Quando acordo e não te vejo
Rosas de fogo na cama
Acendem por dento a chama / Da saudade e do desejo

Disse mal de ti

Linhares Barbosa / Acácio Gomes
Repertório de Amália

Fui dizer mal de ti a toda a gente

Jurei, teimei, a todos convenci
Que és um impostor que nada sente
E ainda hoje disse mal de ti

Afirmei que me bates, que me oprimes
Que és covarde, que és cínico e promíscuo
Serias bem capaz dos maiores crimes
Se te pagassem bem, disse tudo isto

Todos me acreditaram cegamente
Alguns olhos de lágrimas luzindo
Chorei, gritei, gemi cinicamente
Mas cá dentro minha alma ia sorrindo

Na boca das mulheres vi o lume
Do ódio, do rancor que eu acendi
Menti a toda a gente por ciúme
Só eu quero gostar, gostar de ti

É daqui da minha terra

José Luís Gordo / Fontes Rocha
Repertório de Maria da Fé

É daqui da minha terra que vos canto
O fado que vos dou na minha voz
Como um rio que se derrama no meu pranto
E chega com coragem morto á foz

É daqui da minha terra que vos canto
A saudade que só nós sabemos ter
E perdidos no jardim do desencanto
Sabemos dar amor e receber

É daqui da minha terra que vos canto
O fado que em nós nasceu um dia
Ai minha terra, amor que eu quero tanto
Que me matas de tristeza e alegria

É daqui da minha terra que vos canto
As palavras desta língua portuguesa
E digo á minha voz, em cada canto
Que a força do amor está sempre acesa

Sou fado do meu fado

Fernando Alves / Pedro Rodrigues
Repertório de Nelson Duarte

Sou a imagem do fado

Sou amado, contestado
Mas muitos gostam de mim;
Sou corpo, sou coração
Sou fado e rejeição
Mas gosto de ser assim

Eu sou fado de certeza
Sou o pranto da tristeza / Sou um gemido de dor
Sou a voz do sentimento
Um sofoco, um lamento / E um suspiro de amor

Sou o fado do meu fado
Poema sempre cantado / Com estranha melodia
Sou a revolta do mar
Sou a saudade a chorar / No colo da nostalgia

Sou o trinar da guitarra
O cantar de uma cigarra / Pelos poentes de verão
Sou grito na sombra escura
Sou fado de amargura / Nas noites de solidão

Bodas de oiro

Maria de Jesus Facco Viana / Vicente da Camara
Repertório de Vicente da Camara

O meu tempo envelheceu
Já quase não sou capaz
De acreditar que era meu
O meu tempo de rapaz

Talvez o tempo feliz / Passe mais devagarinho
É o tempo que Deus quis / São passos do meu caminho

Vivi a vida melhor / Sem saber bem como era
O tempo só tem valor / Para o tempo que me espera

Se lá mais p’ro fim da vida / Lembra tudo o que passou
Essa memória perdida / Ainda não me lembrou

Naufrágio

Cecília Meireles / Alain Oulman
Repertório de Amália Rodrigues

Pus o meu sonho no navio
E o navio em cima do mar
Depois abri o mar com as mãos
Com as mãos para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul, do azul das ondas entreabertas
E a côr que escorre dos meus dedos
Colore as areias desertas

O vento vem vindo de longe
A noite se curva de frio
Debaixo da água vai morrendo
Vai morrendo o meu sonho dentro do navio

Chorarei quando fôr preciso para fazer
Para fazer com que o mar cresça
E o meu navio chegue ao fundo
E o meu sonho desapareça

Fadistice

Letra e musica de: Vicente da Camara
Repertório de Vicente da Camara

No quartel das velhas farras
Toquei o Fado Corrido
E logo as outras guitarras
Vieram pôr-se em sentido

Rebentou o Mouraria / Numa enorme desgarrada
O Dois Tons também se ouvia / Já meia noite passada

E num brilhante improviso / Uma guitarra trinava
Foi estilando... e sem aviso / Despontou a madrugada

A manhãzinha chegou / Eis que o Menor acontece
Foi o meste que o cantou / Como se fosse uma prece

Ficam notas a vibrar / Como vibra o coração
Que tudo ao céu vai chegar / Se partir do coração

Fado do Princípe Real

Maria Jesus Facco Viana / Vicente da Camara
Repertório de Vicente da Camara

Por mais que fujas de mim
Com demoras no jardim
Sinto a minha solidão;
São demais tantas idades
Quando voltam as saudades
Para esquecer meu perdão

Por baixo da ramaria
É a luz do fim do dia / Em contraste com o céu
É um xaile de renda verde
É filigrana e não perde / Toda a côr que Deus lhe deu

Os nossos dias tão breves
Deixam só uns traços leves / Vivem na vida passada
Agora passam depressa
Mesmo que a terra me esqueça / Vou deixá-la bem cantada

O sorriso é coisa boa

Letra e musica de: Vicente da Camara
Repertório de Vicente da Camara

Um tão bonito sorriso
Nunca se deve esconder
Pode um dia, sem aviso
Querer sorrir e não poder

Sorria sempre sem medo / E não pense em mal nenhum
Que o sorriso é o segredo / Na alma de cada um

Se alguém deixa de sorrir / Vem-me logo ao pensamento
Que tudo o que está p’ra vir / É falta de encantamento

Sorria portanto á toa / Sorria sempre primeiro
O sorriso é coisa boa / Que pertence ao mundo inteiro

Chaves da vida

Tema também gravado com o título *Não vou, não vou*
Júlio de Sousa / Moniz Pereira
Repertório de Lucília do Carmo

Eu tinha as chaves da vida e não abri
As portas onde morava a felicidade
Eu tinha as chaves da vida e não vivi
A minha vida foi toda uma saudade

E tanta ilusão que tinha e foi perdida
Tanta esperança no amor foi destroçada
Não sei porque me queixo desta vida
Se não quero outra vida para nada

Se foi p'ra isto que nasci / Se foi p'ra isto que hoje sou
Se foi só isto que mereci / Não vou, não vou
Podem passar bocas pedindo / Olhos em fogo, tudo acabou
Pode passar o amor mais lindo / Não vou, não vou

Eu tinha as chaves da vida e fui roubada
Mataram dentro de mim toda a poesia
Deixaram só tristeza e mais nada
E a fonte dos meus olhos que eu não queria

Ausente

Tema também gravado com o título: Adeus ó minha gente
Jorge Fernando / Custódio Castelo
Repertório de Jorge Fernando

Adeus ó minha gente
Vou fazer-me á dura estrada
Minh'alma ardentemente
Quer erguer-se e está prostrada;
Longe está meu horizonte
Uma luz resta-me ao longe
Qual fogueira em alto monte

Adeus ó minha gente / A quem vejo arrependidos
As mãos que me negaram / Já mas deram como amigos;
Mas dentro de mim arde / O sossego abrasador
Do Alentejo em fim de tarde

Adeus ó minha gente / Venham ver-me á despedida
Nasci no lado errado / No lado errado da vida;
Partindo fico ausente / Nem memória vou guardar
Ai adeus ó minha gente

Diário que me resta

Letra e música de: Diogo Clemente
Repertório de Heldér Moutinho

Quando o relógio do meu peito, este poeta
Se desalinha, cai no chão e acorda a voz
A alma surge além de mim em voz aberta
Como no dia em que perdi o amor do meu amor

E nesse tempo a vida fez por me ajudar
Foi escrevendo a noite e o dia nos meus passos
Hoje nos braços trago o mundo em teu lugar
E o mundo inteiro é peso a mais para os meus braços

Não é que os dias se desenhem, mal ou bem
Lá vão passando devagar, devagarinho
É cá por dentro este silêncio que mantém
O sol poente pelas pedras, as pedras do caminho

Mas eu renego uma outra vida tendo esta
O porto amigo de quem vive de desejos
A alma triste é o diário que me resta
E ainda desfolho alguns poemas dos teus beijos

Fins do século passado

Carlos Conde / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Manuel de Almeida

Fins do século passado
Estamos fora de portas
Vinho tinto canjirões;
Uma mulher canta o fado
Anda alegria nas hortas
O amor nos corações

Entra um faia atira um dito
Logo outro faia presume / Que a mulher ri da piada
Um modo, um sorriso, um grito
Uma cena de ciúme / Resolvida à bofetada

Na mesa tosca de pinho
Fidalgos e boleeiros / Que sobre touros dão lei
Ouvem fado, bebem vinho
E falam sobre toureiros / Gado bravo e redondéis

Já vai alta a madrugada
Mas nisto, chegam agora / Fadistas em traquitana
E enquanto se canta o fado
O alquilador namora / Os olhos de uma cigana

Fins do século Passado
Faias, boémios, artistas / Aberturas de agua pé
Tempo em que o fado era fado
O fadista mais fadista / O amor mais português


Letra extraída do blogue: Fado das Bocas Lindas

Que fado é este que trago

Helder Moutinho / Yami *Fernando Araújo*
Repertório de Heldér Moutinho

Que fado é este que trago
No mar alto da saudade
Onde navega a paixão;
E onde ás vezes naufrago
Com toda a minha verdade
Com todo o meu coração

Que rio é este onde correm
As mágoas da minha vida / Correntes do meu país
Quando as saudades não morrem
Vale mais a despedida / P’ra voltar a ser feliz

Que fado é este que trago
No mar alto da saudade / Que fado, que fado, que fado és
E onde ás vezes naufrago
Com toda a minha verdade / Que fado, que fado, que fado és

Que espelho é este onde vejo
Um olhar de solidão / Se o Outono desespera
Quando no primeiro beijo
Senti que o teu coração / Descobria a Primavera

Sete esperanças, sete dias

Manuel de Andrade / Alfredo Marceneiro
Repertório de: João Braga

Sete esperanças sete dias
Era tudo o que trazias
Nada mais me querias dar;
Sete ventos te trouxeram
Mais outros sete vieram
Mais tarde pra te levar

Teus olhos vinham de longe
Teus olhos vinham de longe / De mais longe que os teus passos
Vitórias fáceis de mais
Deste-os em beijos iguais / Sete dias nos meus braços

Brancos lírios não mos deste
Nem esse perfume agreste / Que nos teus olhos trazias
Vinhas de mãos estendidas
Trazer-me em frases mentidas / Sete esperanças sete dias

Esta voz

Heldér Moutinho / Ricardo Pereira
Repertório de Heldér Moutinho

Esta voz com que te chamo, não é minha
É do vento que se estende nas praias da solidão
É um grito de paixão que se avizinha;
Esta voz com que te chamo, não é minha
Mas é minha a condição

Esta voz com que te chamo na ternura
Dos teus olhos, verdes campos, mar sereno côr do mar
É um grito de paixão, quase loucura;
Esta voz com que te chamo, é quase pura
Quando chama o teu olhar

Nossos fados são assim quase dispersos
Envolvidos num segredo que não queremos revelar
Num poema onde os versos são diversos;
Nossos fados são dispersos
Mas não sabemos sonhar

Esta voz com que te chamo, é quase louca
Água pura, doce mel
Mas não sabemos sonhar

Fado para um amor ausente

Manuel Alegre / António Portugal
Repertório de Valdemar Vigário

Meu amor disse que eu tinha
Uns olhos como gaivotas
E uma boca onde começa
O mar de todas as rotas

Assim falou meu amor
Assim falou ele um dia
E desde então fico à espera
Que seja como dizia

Sei que ele um dia virá
Assim muito de repente
Como se o mar e o vento
Nascessem dentro da gente

Rua do meio

Heldér Moutinho / H. Moutinho e Manuel Oliveira
Repertório de Heldér Moutinho

Naquelas águas furtadas
Estendidas sob um desejo
Quantas palavras contadas
Inventadas num só beijo

Naquela janela aberta
Á beira-rio de Lisboa
Rua sombria deserta
Ao cimo da Madragoa

Rua do meio á Lapa, do meio da vida
Onde o lençol destapa a solidão esquecida
Rua do meio á Lapa, uma história de lisboa
Para mim, rua do meio á Madragoa

Quantas saudades perdidas
Quantas histórias quebradas
Segredos das nossas vidas
E as mágoas amarrotadas

Em cada noite perdida
Quantos versos por cantar
Numa história prometida
Com gaivotas no olhar

Labirinto ou não foi nada

David Mourão Ferreira / Helder Moutinho *fado labirinto*
Repertório de Heldér Moutinho

Talvez houvesse uma flor

Aberta, na tua mão
Podia ter sido amor
Mas foi apenas traição

É tão grande o labirinto / Que vai dar á tua rua
Ai de mim que nem pressinto / A côr dos olhos da lua

Talvez houvesse a passagem / Duma estrela no teu rosto
Era quase uma viagem / Foi apenas um desgosto

É tão negro o labirinto / Que vai dar á tua rua
Só o fantasma do instinto / Na cinza do céu flutua

Tens agora a mão fechada / No peito nenhum fulgôr
Não foi nada, não foi nada / Podia ter sido amor

As minhas penas

Fernando Caldeira / Carlos da Maia *fado perseguição
Repertório de Maria Teresa de Noronha

Como diferem das minhas

As penas das avezinhas
Que de leves, levam ar;
Só as minhas pesam tanto
Que às vezes já nem o pranto
Lhes alivia o pesar

As minhas penas não caem
Não voam nunca, nem saem / Comigo desta amargura
Mostram apenas na vida
A estrada já conhecida / Trilhada p’los sem ventura

Passam dias, passam meses
Passa um ano muitas vezes / Sem que uma pena se vá
E se uma vem mais pequena
Ai depois nem vale a pena / Por que mais penas me dá


Que felizes são as aves
Como são leves, suaves / As penas que Deus lhes deu
Só as minhas pesam tanto
Ai se tu soubesses quanto / Sabe Deus e sei-o eu!

E num segundo

Letra e musica de: Luís Caracol
Repertório de Heldér Moutinho

Se os meus olhos se perdem nos teus
E os sentidos se enlaçam em nós
Tenho medo de não me encontrar
De ficarmos sós

Se os meus sonhos se escodem nos teus
E os tormentos se insurgem no ar
Tenho medo de ficarmos sós
De não me encontrar

E se a esquina da dôr atravessa
Os lamentos das noites sem fim
O que vai ser de mim

Será que o dia não acorda
Num rasgo de lua que atravessa o mundo
E num segundo me deixa sonhar
Em querer ficar

Se os meus beijos se perdem nos teus
E os segredos se calam sem voz
Tenho medo de não me encontrar
De ficarmos sós

Se os meus passos encontram os teus
E os momentos se negam a dar
Tenho medo de ficarmos sós
De não me encontar

Jacinta aguadeira

José Araújo / Joaquim Campos *fado rosita*
Repertório de Catarina Nunes dos Santos

Jacinta Nunes Figueira
Era, desde tenra idade
A mais linda aguadeira
Da Cova da Piedade

Começava na Romeira / E das Barrocas, ao Pombal
Percorria a vila inteira / Sorrindo em tom jovial

À noitinha já cansada / Sentada junto ao braseiro
Cantava bem abraçada / Ao seu amado aguadeiro

Esta história tão singela / Da velhinha Piedade
Pode não ser a mais bela / Mas traz-me muita saudade

Nem ventos nem madrugadas

Heldér Moutinho / H. Moutinho e Manuel Oliveira
Repertório de: Heldér Moutinho

Não é o vento do norte
Não é um fado magoado;
Que o fado fala da sorte
E toda a sorte é um fado

Não é o mar que nos trouxe / Tantas palavars sentidas
Como se o mar já não fosse / O espelho das nossas vidas

Podia até ser o céu / Em madrugadas serenas
Que o sonho não é só meu / Nem são só minhas as penas

Nem o vento nem o mar / Nem o céu nem a canção
É a luz do teu olhar / Que me acorda o coração

Nem as sombras da cidade / Onde aguardo a madrugada
É apenas a saudade / Da nossa casa fechada

Caixinha de música

Heldér Moutinho / Heldér Moutinho e Miguel Monteiro
Repertório de Heldér Moutinho

As cordas que correm no ventre do mar
No ventre das coisas que sabes de cor
São ondas profundas, profundo o olhar
Que trazes contigo e comigo na dôr

Os versos que correm no ventre da vida
No ventre de tudo o que te faz ficar
São rimas de amor, não têm saída
São como as palavras que não sei cantar

As folhas que caiem no cais do outono
No porto de abrigo das nossas esperanças
Acordam o medo do nosso abandono
Que não sejam breves as nossas lembranças

Que não seja tudo, apenas poesia
Apenas um sonho no ventre do mar
E que a vida seja um dia após dia
Para todos os dias sabermos amar

Um copo de sol

Letra e música de: Amélia Muge
Repertório de Pedro Moutinho

Bebe um copo de sol
Com mais de mil milhões de anos
Que é da estirpe das estrelas que destilam os humanos
Deixa o calor afogar-se na veia
Há lá coisa assim mais séria que andar nesta bebedeira

Bebe um copo de sol
Um de copo sol “on the rocks”
E tem paixões siderais de Lisboa até Cascais
P’ra beber sol
O mundo inteiro é uma tasca
Onde a gente se enfrasca de manhã ao pôr do sol

Bebe um copo de sol
Que a tarde vem bem avançada
A lua está mesmo a chegar e p’ra beber nunca tem nada
P’ra se vingar, a lua inventa um arder
Que num fermento qualquer a gente aprende a beber

Bebe um copo de sol
Por mim, por ti, por todos nós
Frutos da seiva solar que nos fez netos, nos faz avós
Vai luz adentro ao campo bom desta adega
Como um corpo que se dá
Bebe o sol que a ti se entrega

Perdi-me nos olhos teus

Heldér Moutinho / Popular *fado mouraria*
Repertório de Heldér Moutinho

Perdi-me nos olhos teus
Como quem perde a razão
Quando dissemos adeus
Perdi o meu coração

Cai a noite e o luar / Revela-nos uma saudade
Como se toda a verdade / Descobrisse o nosso olhar;
Se não sabemos sonhar / P’ra poder dizer adeus
Não há segredos nos céus / Nem sequer um vento agreste;
Por todo o amor que me deste /
Perdi-me nos olhos teus

Depois vem a solidão / Abraçar-me lentamente
Que por minha condição / Me afasta de toda a gente;
É que a minha voz não mente / Quando canta o coração
E por isso, desde então / Quis ficar só por momentos;
Nos meus próprios pensamentos /
Como quem perde a razão

Se era dia, escureceu / Fez-se noite e uma tristeza
Ficou na minh’alma presa / Quando o nosso amor morreu;
Depois, quando amanheceu / Fui pedir por mim a Deus
Que o brilho dos olhos meus / Não se perdesse, no entanto;
Perdemos todo o encanto / Quando dissemos adeus

Ainda ficamos á espera / Que o nosso outono morresse
E que o inverno merecesse / Uma nova primavera;
Não era tarde, não era / Era a nossa condição
Pela qual uma razão / Se perde num desalento;
Por isso nesse momento / Perdi o meu coração

O rio que nos viu nascer

Maria de Jesus Facco Viana / Vicente da Camara
Repertório de Vicente da Camara

O rio que nos viu nascer
Viu também nascer Lisboa
Sou português, tenho avós
O bom sangue não perdoa...
E como qualquer de nós
Embarco quase sem querer
Que o rio que nos viu nascer
Viu também nascer Lisboa

Partir mas sem saber quando e sem destino marcado
A vida vai-se passando e o que era amarra, soltou-se
E agora é como se fosse uma barco mal encalhado
Partir mas sem saber quando e sem destino marcado

O Tejo faz-nos partir
Lisboa faz-nos voltar
As marés sempre a seguir
As rotas do Oriente...
Tantas terras, tanta gente
Mais o apelo do mar
O Tejo faz-nos partir
Lisboa faz-nos voltar

A saudade

Linhares Barbosa / Fontes Rocha *fado isabel*
Repertório de Heldér Moutinho

Sabendo que em tua ausência
Prazer algum me conforta
No momento em que saíste
A saudade entrou-me a porta

Andou em volta da casa / Como se ela sua fosse
Chegou pertinho de mim / Puxou um banco e sentou-se

Estavas só e tive pena / Disse-me então a saudade
Vamos esperar por ela / Podes chorar á vontade

E não me larga um momento / Toda a noite e todo o dia
Enquanto tu não voltares / Não quero outra companhia

Moleira dos longos olhos

Vicente da Camara / Branco Rodrigues
Repertório de Vicente de Câmara

Olha como roda a roda da velha azenha
Olha como volta e anda sempre a voltear
Lá vão com ela rodando sem mais parar
Os pensamentos que no seu girar apanha

Á sua porta sentada lá está fiando
A moleirinha que o seu fuso faz girar
E com o fuso também faz rodopiar
Os belos sonhos que ela tem vindo sonhando

Á sua volta tudo roda e rodopia
Até a brisa suas tranças despenteia
E entre as mós os belos sonhos porque anseia
Saem desfeitos como o grão se desfaria

Mas oh moleira, uma estrada sem abrolhos
É como azenha que não tenha movimento
É pois chegado esse natural momento
De abrires prá vida teus belos e longos olhos

Á espera de uma paixão

Heldér Moutinho / Yami *Fernando Araújo*
Repertório de Heldér Moutinho

Nesse teu olhar tristonho
Onde parece que a lua
Se desnuda lentamente;
Há um reverso dum sonho
Numa verdade tão nua
Que nasce tão de repente

Nessa tua voz sentida
Tão doce como o segredo / Que um dia te revelei
Nasce outra vida na vida
Outra saudade sem medo / Outra verdade sem lei

No brilho do teu sorriso

Encontrei a primavera / Desbravei a solidão
Amar demais é preciso
Se uma paixão desespera / Á espera de outra paixão

Maria triste

Letra e musica de: Jorge Fernando
Repertório de Filipa Cardoso

Tinha um xaile sobre os ombros encurvados
E um sorriso a traír a sua idade
Nos seus olhos meios tristes e enrugados
Tinha a sombra atormentada da saudade...
Sobre os pés que se arrastavam mal calçados
O seu corpo deformado p’la idade

Sem pudor se deu á vida
Num destino encruzilhado
Maria triste cumpriu seu fado

Foi a mãe de quatro fihos e o fado
O sustento a sustentar-lhe a pobre vida
O seu homem de feitio endiabrado
Foi levado ainda novo, á flor da vida...
Quatro filhos deixou ele a seu cuidado
E o alento a suavizar-lhe a alma ferida

Sua voz nocturna sombra esmaecida
Paira ainda com encanto perfumado
Na memória dos poetas, cuja a vida
Partilhou num timbre intenso e magoado...
E nas noites da cidade adormecida
Há quem pense ouvir-lhe a voz cantando um fado

Fado á janela

Letra e musica de: Marco Oliveira
Repertório de Heldér Moutinho

Eu não sabia que ela e
spreitava á janela
Sempre que eu passava
Nunca ouvi o nome dela, n
em que segredos guardava

Trazia sempre um sorriso discreto e preciso
Mas não me falava
E o coração distante de qualquer instante q
ue eu não reparava

Mas como agora se foi embora
Já não encontro o seu olhar
Abro a janela, espero por ela
Talvez um dia volte a passar

Nunca baixava o olhar ao ver-me chegar
De noite ou de dia
Mal sabia que ao passar, e
ra amor o que eu sentia

Trazia sempre a saudade de quem na verdade
Nunca conheceu
E o silêncio de um beijo de rosa e
desejo que nunca me deu

Eu não sabia que ela espreitava á janela
Sempre que eu passava
Talvez um dia me veja e eu mesmo seja quem não reparava

Dia estranho

Letra e musica de: Jorge Fernando
Repertório de Filipa Cardoso

Já sei que hoje vai ser um dia estranho
Não sei como entender pequenos nadas
O amor não dá para saber o tamanho
Nem quando nos faz ver coisas erradas

Porque é que á noite a sós, cumpro o castigo
Que a pouco se resume o meu amor
Entre o querer e o não querer, baixinho digo
Apaga a luz do quarto, por favor

Já sei que hoje vai ser um dia longo
Atreves-me um adeus quase obrigado
Despedes-te á mercê dum só ditongo
Na evasiva questão dum ser zangado

Já sei que hoje vai ser um dia errado
Dos que se alongam sem nunca acabar
E a mágoa no meu peito magoado
Apaga-me o desejo de voltar

Tenho uma onda no mar

Heldér Moutinho / H. Moutinho e Manuel Oliveira
Repertório de: Heldér Moutinho

Perfume de rosas bravas
Folhas caídas, novembro / Brisa nas margens do Tejo

Nos beijos que não me davas
Vinham restos de setembro / Amordaçados num beijo

Tenho um segedo na praia / Tenho uma onda no mar
E quando a tarde desmaia / Só me resta o teu olhar
Tenho uma rosa encarnada / Ao lado do coração
Tenho toda a primavera / No calor da tua mão

Era branca a madrugada
No contraste do segredo / Que trazias no olhar
E a lua ás vezes calada
Desvendava quase a medo / O som das ondas do mar

Lisboa cantava a dôr
Que os nossos corpos fechados / Suspiravam de desejo
Era o perfume da flor
Nos lençóis amarrotados / Amordaçados num beijo

Cai a noite

Letra e musica de: Jorge Fernando
Repertório de Filipa Cardoso

Não é apenas o frio / Da noite que se avizinha
É este enorme vazio / Que me obriga a estar sózinha

Bate as horas junto á foz / Cai a noite leve bruma
E ao chamar-te, a minha voz / Não tem resposta nenhuma

Fica comigo, preciso ter
Algum sossego em mim
Recuso a sorte de perder-te assim


Não é raiva nem despeito / Que entristece o meu olhar
É esta ferida no peito / Que eu não sei como cuidar

Fosse eu a paz deste rio / Entre as margens da cidade
P’ra matar este vazio / Que está cheio de sauadde

A côr dos olhos

Linhares Barbosa / Frederico de Brito *fado artilheiro*
Repertório de Heldér Moutinho

Dizem que os olhos leais
São os castanhos, pois bem
Conheço uns olhos fatais
Que são castanhos também

Olhos negros, negra cruz / Quem o disse concerteza
Não vê qua a noite sem luz / Também tem sua beleza

Olhos azuis, falsidade / Errou quem isso escreveu;
Como pode haver maldade / Nuns olhos da côr do céu?

Com os olhos verdes, cautela / Ninguém de deixe embalar
Lembra o mar e porcela / É irmã gémea do mar

Não há resposta acertada / Que traduza bem a côr
Dos olhos da nossa amada / Se andamos cegos de amor

Á noite voltas ao ninho

Maria Manuel Cid / Custódio Castelo
Repertório de António Pelarigo

Comparo a fala que tens
Ao canto do passarinho
Dizes sempre que não vens
E á noite voltas ao ninho

Voar, voar, é condão / Do teu corpo sem guarida
Faz parar o coração / Que anda cansado da vida

Repara que o tempo passa / E logo se vai embora
Cada segundo se abraça / Ao minuto duma hora

Toda a verdade nos faz / Matar o sonho mas lindo
Agarra o tempo e verás / Que os dias te vão fugindo

Agarra os sons dos teus ais / Assim terás o teu fado
A gente não pode mais / Voltar atrás ao passado

Aquela estrela

José Guimarães / Armandinho *alexandrino antigo*
Repertório de Joaquim Brandão

Em noite de natal, um pobre pequenito
Sentado num portal duma estreita viela
Com seu ar inocente, olhando o infinito
Prendeu o seu olhar ao brilho duma estrela

E tal como os poetas que o silêncio inspirou
A meditar ficou, pensando em sua mãe
Se é verdade que Deus para o céu a levou
Ela deve morar numa estrela, também

E rogando a Jesus, com voz de enternecer
Ele ansiou poder estar juntinho dela
Erguendo as mãos aos céus, pediu para morrer
Para poder viver também, naquela estrela

Cansado de pensar, ali adormeceu
E teve um sonho lindo, visão celestial
Agarradinho á mãe, passeou pelo céu
E sonhando passou a noite de Natal