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Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa, todos nós ignoramos alguma coisa.
Paulo Freire *filósofo* 1921 <> 1997

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Lisboa noiva do fado

António José / Ferrer Trindade
Repertório de Amália Rodrigues

Nessa janela de águas furtadas
Há trepadeiras entrelaçadas
E dentro delaS lá está Lisboa
Olhando o Tejo no altar da Madragoa

Mas à noitinha, está combinado
Andar sozinha com o seu fado
Se desce à rua já não se importa
Que até a lua veja o fado à sua porta

Dizem que o Tejo é
 teu namorado
E todos sabemos que és noiva do fado
Mas não te cases com um só depois
O melhor que fazes é namorar com os dois

Neste noivado entre vizinhos
Não há pecado, pois são velhinhos
Mas tu Lisboa toda te enfeitas
E eu até vejo os olhares que lhe deitas

Tens um costume que eu tanto invejo
Fazer ciúme ao pobre Tejo
Quando apareces com o teu tado
Nunca te esqueces de levar xaile franjado

Pop fado

César de Oliveira / Fernando de Carvalho
Repertório de António Calvário
Esta letra poderá não estar devidamente correta.

O fado que é democrata
Mudou agora de estilo
Pegou-se à arte abstrata
Em concordata com tudo aquilo

Deixou-se da vadiagem
E é todo intelectualizado
Quis aprender a linguagem
E a mensagem do pop fado

Oh pá... p
op agora pró fado é popular
Topa ó pá o xarope do pop
Popátuá a galope com o pop
Oh pá... e
stão-se nas poptintas os poplintras
São mais popistas que o fado
Popelarizado, popesticado
Popstarim poplista
Pop fadista sem rei nem pop


Arranjam novos modelos
Para atrair os mirones
Remendos nos cotovelos
E os cabelos à Rolling Stones

Existencial nos inversos
Rimas de nobres sentidos
Tem os trinados dispersos
Com estes versos muito atrevidos

A voz do vento

Fernando Gomes / Valter Rolo
Repertório de Catarina Rocha

Quando a mágoa vem / Dizer-me que ninguém
Tem mais saber do que ela
E teima em calar / Que eu quero sonhar
Eu não fecho a janela

Escuto a voz do vento / Que me fala do futuro
Ganho um novo alento / E atravesso qualquer muro

Digo à tristeza que vá embora
Não fico presa ao meu passado
E sem demora vem a certeza
Dizer que é hora de um outro fado


Digo adeus à dor / Avanço com temor
E de alma em desalinho
O medo é voraz / Mas eu não volto atrás
Procuro o meu caminho

Sigo a voz do vento / Que me leva ao infinito
Vou sem um lamento / À procura do meu grito

Papoilas aos ventos

Nuno da Câmara Pereira / Custódio Castelo
Repertório de Nuno da Câmara Pereira

Com ela de braço dado
Toda vestida de verão
Olhinhos em seu regaço
Papoilas em minha mão

Ajeito sua cintura
Aperto o meu coração
Sinto a sua loucura
Mar da minha emoção

Navegando no trigo louro
A brincar na solidão
A beijar o seu tesouro
Acendemos a paixão

Desengano

Carminho / Jaime Santos *fado latino*
Repertório da autora

Daria o mundo inteiro para ser tua
E o mundo inteiro é meu e estou tão só
Seria tão feliz na tua rua
Que a minha é só a solidão e o dó

Já noutro tempo eu não pensava assim
Mas ao contrário deste fim profundo
Tu eras o amor a esperar por mim
E eu queria o mundo inteiro deste mundo

Sei que nada é o que sonhamos
Mas é preciso, amor, sonhar na vida
Prepara bem assim os desenganos
P’ra que os teus sonhos cheguem algum dia

O povo canta na rua

Letra e música de Eduardo Pais Mamede
Repertório de Carla Pires

Abre a janela e deixa a lua entrar
Anda co’a gente, prá rua cantar
Que agora a festa vai ser tua
E até o sol acordar o povo canta na rua


Traz o teu par e vem dançar a noite inteira
Vamos saltar à fogueira 
E comer sardinha assada
E não te rales, ó pá
Deixa a tristeza p’ra lá
Põe um sorriso e vem com a rapaziada

Vamos comprar um manjerico e um balão
Vamos para a marcha cantar e foliar, pois então
Tomar de assalto a cidade, encher as ruas
Quem não gostar que não venha 
E não faz falta, pois não
Quem esteja alegre há-de vir pró pé da malta 

Se houver senhores que tenham dores de cotovelo
E lhes irritar o pelo de ouvir a malta cantar
Não te arrelies, ó Zé
Com o mal deles, pois é
Canta mais alto só para os incomodar

Que eles não gostam de ver a nossa alegria
Querem o povo tristonho, sem fantasia, bisonho
Mas queiram eles ou não estamos na rua 
E em algazarra, ó Zé
A marcha passa, pois é
Canta mais alto só para lhes fazer pirraça 

Às voltas com o fado

Repertório de Tiago Torres da Silva / Valter Rolo
Repertório de Inês Duarte

Meu amor se tu quiseres
Ir ao campo p’la tardinha
Traz-me vinte malmequeres
E nenhuma erva daninha

Porque quem oferece flores
Quando o dia vai murchando
Talvez vá morrer de amores
Mas ‘inda não sabe quando

E se por ocaso não me vires na romaria
Não procures outra p’ra bailar
Já fiz vinte anos mas não vou ficar p’ra tia
Porque um malmequer me prometeu que vais voltar

Meu amor longe de ti
Sinto o corpo tão cansado
Pols quando nao estás aqul
Ando às voltas com o fado

E quando o fado adivinha
0 que o meu coração quer
Obriga-me a estar sozinha
Sem a saudade sequer

Eu não te amo, quero-te

Almeida Garrett / Custódio Castelo
Repertório de Nuno da Câmara Pereira

Não te amo, quero-te / O amar vem da alma
E eu na alma tenho a calma / A calma do jazigo
Ai, não te amo, não

Não te amo, quero-te / O amor é vida
E a vida, nem sentida / A trago eu já comigo
Ai, não te amo, não

Ai! não te amo, não / E só te quero
De um querer bruto e fero / Que o sangue me devora
Não chega ao coração

Infame sou, porque te quero
E tanto, tanto, tanto
Que de mim, tenho espanto / De ti, medo e terror
Mas amar... não te amo, não

Noites perdidas

Carlos Leitão / Pedro Pinhal
Repertório de Carla Pires

São noites perdidas e não sei porquê
Razões que não quero saber onde estão
As portas fechadas que já ninguém vê
São os sonhos mais loucos sem tempo e perdão

São dias inteiros que vêm e vão
Gemidos que guardo na boca calada
Angústias trancadas na porta do chão
Ilusões que hoje grito no meio do nada

Noites e dias, madrugadas sem fim
Desejos de um beijo carnal a nascer
Do grito mais belo que deixas em mim
Só fica a certeza da vida a viver


São restos de tardes paradas no tempo
Caminhos trocados que outrora vivi
Segredos lembrados num breve momento
Saudades esquecidas vividas em ti

Estrela

Letra e música de Carminho
Repertório da autora

Tu és a estrela que guia o meu coração
Tu és a estrela que iluminou o meu chão
És o sinal de que eu conduzo o destino
Tu és a estrela e eu sou o peregrino


Até aqui foi uma escuridão tal
Dessas que nos faz ser sábios do mundo
Vivi desilusão tão desigual
Que vim dar à minha infância num segundo

Nem sabes tu aquilo que fizeste
Por mim e a até por ti quando chegaste
Só sei que ao te ver, tu re-ergueste
O que em mim era só cinza e desgaste

Amor que se deu mas numa distância
Distância que nos fez acreditar
Que é essa que dá real importância
À liberdade que é poder e saber amar

Bem mais feliz agora, certamente
Vou eu seguindo assim pela vida fora
Não mais ‘starei sozinha e estou bem crente
Que o teu feixe de luz própria me segue agora

Por medo de te perder

Tiago Torres da Silva / Jaime Santos *fado alfacinha*
Repertório de Inês Duarte

Por medo te te perder
É que me encontro perdida
Sem coragem de dizer
Que eu tenho medo é da vida

Os momentos de alegria / Não se atrevem a ficar
É que a saudade, perdi-a / Na ânsia de a encontrar

Passo os dias à procura / Do que por medo perdi
O medo é a noite escura / Em que me perco de ti

E vou perdendo os sentidos / Quando descubro, por fim
Os teus dois olhos perdidos / Perdidos de amor por mim 

Ao meu amigo sincero

Nuno da Câmara Pereira / Custódio Castelo e Nuno da Câmara Pereira
Repertório de Nuno da Câmara Pereira

Pró o meu amigo sincero
Que me dá a sua mão franca
Quer em Julho quer em Janeiro
Cultivo uma rosa branca


Nem cardos nem urtigas cultivo
P’ra quem me quer mal e cansa
Neste coração em que vivo
Cultivo uma rosa branca

Não grito pranto, ou maldigo
Pessoa que não me aquece
Neste meu pulsar de amigo
Cultivo uma rosa branca

Impasse

Rita Mariano de Carvalho / Franklín Godinho *4as*
Francisco Salvação Barreto

Tu queres saber, meu amor
Qual era o desejo meu
Formar um mundo e vivermos
Somente Deus, tu e eu

Vivo tanto em teu olhar / Nesses olhos que são espinhos
Que já nem sei como andar / Se não vejo outros caminhos

Quando rio ou quando choro / E até quando rezo a Deus
Recordo sempre esses olhos / Esses olhos que são meus

Louco de amor eu sonhava / Que o mundo seria meu
Faltou-me a luz dos teus olhos / E o destino escureceu 

Sorte e amor

Ary dos Santos / Custódio Castelo e Nuno da Câmara Pereira
Repertório de Nuno da Câmara Pereira

Abre os olhos e encara a tua sina
O coração ao alto todo em flor
Que as tuas mãos singelas de menina
Saibam prender e acarinhar o amor

Nessa doçura louca que fascina
Sobe mais alto ainda, que o condor
Ama aqueles que a sorte te destina
Sem desprezar nem maldizer a dor

Vai mais além do mundo e dos espaços
Com teu olhar vibrante d’ilusão
Vai tu aonde nunca foi ninguém

E prende bem a vida nos teus braços
Que a vida não é mais que um sonho vão
Se quanto mais se quer, menos se tem 

A tecedeira

Letra e música de Carminho
Repertório da autora

Nem pensem que me esqueci
De começar a fiar
Novelo que por quebrar
Deu ideia que morri

As voltas que ao mundo irei dar / Novamente a cantar
São com fio que fiarei / 
Dia e noite sem parar

Tecerei verdes ciprestes / À dimensão desta fé
Que ensina sábios e crentes / Que árvores morrem de pé

Mas à vista não há morte / Fiarei toda a beleza
O fio apanhei por sorte / Ou por ter muita certeza

Canção com lágrimas

Manuel Alegre / Adriano Correia de Oliveira
Repertório de Adriano Correia de Oliveira

Eu canto para ti o mês das giestas
O mês de morte e crescimento, ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti o mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol, o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste, quem me dera em Lisboa
Quem me dera me Maio, depois morreste
Com Lisboa tão longe, ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste, quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol, Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera, ó meu irmão tão breve

Para onde vou (eu cá não sei)

Tiago Torres da Silva / Valter Rolo
Repertório de Inês Duarte

Para ande vou
Eu cá não sei nem vou saber
Quem me acompanhou
Diz que eu irei onde quiser

Mas eu que me perdi
Sempre que dei um passo em falso
Agora descobri
Que me encontrei no teu encalço
Vou atrás de ti
Se tu fores descalço

Mas não volto a dizer-te onde vou
Se não me disseres onde vais

Quem sabe de nós
Talvez não vá saber de mim
Se ao chegar à foz
Pensar que enfim, chegou o fim

Mas quem sabe ou pressente
Que o mundo gira dentro de nós
Sabe que a nascente
É mais bonita depois da foz
É uma tangente
Ao fado e à voz 

Que triste sonho o meu

Carlos Conde / Fernando Alcobia
Repertório de Júlia Lopes

Agora, meu amor, nem por contraste
Podemos evitar sorte mais triste
Eu já não sou aquela que deixaste
Tu já não és aquele que partiste

Vê como de um capricho ou sorte crua
De uma ligeira zanga que nasceu
Agora já sou de outro, não sou tua
Agora já és de outra, não és meu

Hoje sinto o calor que há noutras mãos
Tu sentes o prazer que há noutro olhar
Seguimos outra lei, a lei de irmãos
Mas dessa não nos podem separar

Isto foi sonho mau, sonho ruim
Que não deixou pecado nem castigo
P'ra não ter sonhos maus, sonhos assim
Só quero, meu amor, sonhar contigo

Olhos nos olhos

Ana Vidal / Filipe Pinto *fado vadio c/arranjo musical*
Repertório de José da Câmara

É nos teus olhos que dança
A luz clara da manhã
Trazem promessas de esperança
Ao meu incerto amanhã

Trazes nos olhos a vida
Sem saber o que vens dar
A tua vida vivida
Em cores de céu e de mar

Olhos nos olhos gostava de te dizer
Que sem os teus não sei ver
As cores que a vida tem 
Olhos nos olhos p’ra não perder o caminho
Sigo os teus, devagarinho
E aprendo a sonhar também


Vivida em nuvens de fumo
À margem da realidade
Numa corrida sem rumo
Em busca de novidade

Olhos loucos que não sabem
Quanto têm de profundo
Olhos lindos onde cabem
Todos os sonhos do mundo

Verdes campos, verde vida

Maria Manuel Cid / Fernando Pinto Coelho
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt

Verdes campos, verde vida
Toda a campina florida
De repente escureceu
Fez-se noite em toda a parte
E porque o sonho não parte
Fiquei só apenas eu

Uma certeza me déste / E nela o sabor agreste
Da sina que foi traçada
A parra do azevinho / Já nasce trazendo espinho
E morre quando pisada

E morre porque não sabe / Que alguma parte lhe cabe
De tanta coisa perdida
Algo mais amargo e doce / E sempre, se mais não fosse
Verdes campos, verde vida

Nada tenho, resta apenas / Esta roupagem de penas
Mais pobre que um pobrezinho
Mas quando a morte chegar / Eu sei que posso voltar
Ao verde do meu caminho 

Só mais um dia

José Luís Gordo / Alfredo Marceneiro *menor-versículo*
Repertório de Francisco Salvação Barreto

Dá-me a tua mão amor, vamos dançar
A valsa da tristeza que nos ata
Vamos matar a dor que a dor nos traz
Ao nó desta tristeza que nos mata

Sossega ó minha dor, deixa-te estar
Neste anoitecer que a vida sempre dá
Derrama sobre a noite o teu pesar
Levanta-te, amanhã não durmas cá

Passeia-te pela noite na certeza
De que irei contigo em fundas águas
Lavar para sempre esta tristeza
E afogar de morte tantas mágoas

Mas dor, podes ficar só mais um dia
Deitada no meu corpo já cansado
Que amanhã vou acender a alegria
No meu quarto onde sempre tens morado 

Eu não sabia

Tiago Torres da Silva / Anamar e Armando Vieira
Repertório de Anamar

Nem por ti nem por ninguém
Subi ao monte mais alto
Ia só por ser além
E a cada passo que eu dava;
Ouvia a voz do basalto
Nas minhas veias de lava

Meu amor eu não sabia / Que por trás do teu olhar
Existe uma luz que é dia / Existe um azul que é mar
Meu amor eu não sabia

Enfrentei raios, trovões / Dos meus pés fiz cada passo
Da minha voz fiz canções / Não temi lobos nem feras;
E não morri de cansaço / À procura de quem eras

Numa noite tão agreste / Vi o sol dentro da lua
No abraço que me deste / E a noite adormeceu;
Descobrindo que sou tua / Ao saber que tu és meu

Fado da carta

João Ferreira Rosa / Joaquim Campos *fado castanheiro*
Repertório do autor

Não me escrevas meu amor
A contar seja o que for
Do que se passa contigo
Pois antes quero pensar
Que só pensas em voltar
Ao tempo por ti esquecido

No que escreves e me contas
Só indiferenças apontas / Pelas juras que fizeste
Por isso não quero ler
Outra carta, p’ra saber / Que a mais alguém já quiseste

Eu antes queria fechada
A carta por ti mandada / E que esperei com fervor
Pois tua carta tão fria
Marcou pra mim a agonia / Do que foi o nosso amor 

Se vieres

Carminho / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de Carminho

Se vieres, vem com amor
Traz-me a alegria maior
E a vontade de me ver
Vem com os olhos a cantar
Com o teu sorriso solar
E o coração a bater

Ao chegares não digas nada
Deixa que fique calada / A ilusão e o lamento
Se vieres, quando isso for
Eu prometo, meu amor / Saber viver o momento

Se vieres, não te demores
Que as minhas mais frias dores / São a espera e o seu lume
Volta com Frésias na mão
Conheço o teu coração / E é esse o seu perfume

Paixão, amor

José da Câmara / Jaime Santos *fado jaime*
Repertório de José da Câmara

Sempre fui senhor de mim
Foi sempre assim, o meu viver
Sempre que mostravam perigo
Dava comigo a não querer;
Era a minha proteção
Ninguém ousava tentar entrar
Mas um dia tropecei
Caí na teia do teu olhar;
Prisioneiro eu fiquei
E comecei a apaixonar

Esse teu ar tão dengoso / Que me dá gozo, traz a paixão
Essa tua linda cara / Que coisa rara, pura ilusão
Essas tuas palavras / Entram em mim, sem eu saber
E assim sempre tu consegues / Fazer de mim o teu viver
Meu amor eu vou contigo / Mesmo sabendo que vou sofrer

Certa noite eu acordei / E não deixei, fugi de ti
Esse teu poder em mim / Vai ter um fim, pois descobri
Que a paixão é um arame / Por onde andei, sem ter noção
Sinto o meu andar mais firme / Já não preciso da tua mão
Hei-de encontrar o teu amor / É mais seguro do que a paixão

O menino e a cidade

Letra e música de Joana Espadinha
Repertório de Carminho

Uma a uma, as luzes da cidade vão se despedindo
E o menino, sonhando acordado, espera o seu destino
Que horas lhe trarão os dias?
Que mãos um dia há-de beijar, devagar?

Ele sabe que a vida não arde se o sonho é pequeno
E que às vezes poderá queimar-te com o seu veneno
À noite a mãe chora baixinho
Sozinha p’ra não perturbar
A cidade que hoje dorme sem luar

Não tenhas medo
Se o tempo foge sem razão não tenhas medo
Serás maior que a solidão
Que o homem não chora sozinho
Não pode deixar de sonhar


Noite fora, a madrugada chora solta pelo vento
E o menino já se foi embora, já cresceu por dentro
Não espera desvendar os dias, já desvendou uma mulher
Faz de conta que já sabe o que ela quer 

Adiante

Maria do Rosário Pedreira / Carlos da Maia *fado perseguição*
Repertório de Francisco Salvação Barreto

Perco a esperança no futuro
Já não prometo, não juro
Não calculo e não prevejo
A vida dá-nos lições
E eu já não tenho ilusões
De vir a ter o teu beijo

Bem sei que fui o culpado / De tanto tempo, enganado
Ter andado à espera disso
Pois tu nem conta te déste / De que logo que apareceste
Me lançaste o teu feitiço

Fiz sempre tudo a teu gosto / Nunca te dei um desgosto
Fui melhor do que hoje sou
Fiquei sempre do teu lado / E até te cantei o fado
Mas nem isso resultou

Hoje já não faço planos / Chegam-me bem os enganos
Porque tive de passar
Seja o futuro o que seja / Se não fores tu quem me beija
Alguém me há-de beijar

Insistência

Fábia Rebordão / Jorge Fernando
Repertório de Fábia Rebordão

Atende… sou eu
Basta p’ra mim ouvir, sim
Dizer... estou
Atende… sou eu, sou 
Temes que eu insista
Se atenderes sem saberes 
Que p’ra mim nada há mais
Pr’além do fim 

Indiferente, não atendes
Finges não ouvir
É o teu jogo p'ra que logo 
Volte a insistir 

Passa a dor
Que o amor desgastado morre
Não dá mais, que os sinais 
De que o tempo corre

Já não dói, já se foi 
O amor que eu senti
E é por isto que eu persisto 
Em ligar p'ra ti

Fado rock

Artur Ribeiro / António Rebocho
Repertório de Nuno da Câmara Pereira

Não é rock nem é fado 
Não é mambo nem chachado
Nem tem gente no mercado p’ra quem toque
É o fado novo fado de outro modo
Cozinhado, sincopado e misturado com o rock

Foi assim que o velho fado foi torcido
E massacrado com baquetes torturado num remoque
Acabou por ser cantado à moda do outro lado
E nasceu assassinado, o fado rock

Nem viola nem guitarra, nem jaqueta nem samarra
Nem da banza se desgarra como outrora
Todo feito de algazarra, anda de noite na farra
Fora de horas e da barra, já não chora

Nem trinado nem corrido, nem marcado nem gemido
Nem sequer está convencido de que é fado
Não é choro comovido, não rima nem faz sentido
Desagrada ao ouvido mais tapado

Nem tipóias nem Severa, nem fidalgos doutra era
Nem nenhuma cantadeira que o cante
Eu cá canto mas quem dera que apareça alguma fera
Que coma a orquestra inteira neste instante

Quando canto o fado rock, fico em transe, tenho um choque
Fico a tremer qual berloque pendurado
Que ninguém cante nem toque música sem Rei nem roque
Que é a mistura do rock com o fado

Assim foi o fado rock assassinado 

Relembrar

Amadeu Dinis da Fonseca / Pedro Rodrigues
Repertório de José da Câmara

Não se morre de saudade
De saudade eu não morri
Mas tu sabes que é verdade
Que vivo e morro de saudade
Cada vez que eu penso em ti

Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Tenho agora uma raínha
Bem melhor do que a que tinha
Continua a primavera

Por favor não venhas tarde
Dizes-me tu com carinho
Mas não faças muito alarde
Das vezes que chego tarde
Por me enganar no caminho

Oh tempo volta para trás
Dá-me tudo o que eu perdi
Mas vê lá se és capaz
De voltar de novo atrás
P’ra ganhar o que vivi 

Lisboa menina bonita

Luís Simão / Carlos Rocha
Repertório de Alice Maria

Lisboa teve um desejo / Foi p’rá boite brincar
Sorriu e disse um gracejo / Depois então foi bailar

Lisboa, menina bonita
Que bebe, que fuma, saltita
Champanhe e danças só quer
É outra, bem outra mulher
Tem charme, se canta, se ri
Diz: yes, goodbye, bonne nuit
Lisboa parece feliz
E lembra que esteve em Paris


Volta p’ra casa já tarde / Depois da noite perdida
Não quer que ninguém a guarde / Por ser menina crescida

Àquela casa

Flávio Gil / Mário Pacheco *fado sandra*
Repertório de Sandra Correia

Amor, porque não vens àquela casa 
Aonde nos amamos loucamente
E fomos corpo a corpo, um golpe de asa
Que fez do nosso amor um sol nascente

Amor, porque não vens àquele beijo
Que nunca tem sabor a frases feitas
Amor, porque arrefeces o desejo
Na mesma cama fria em que te deitas

Amor, porque não vens àquela hora
A hora que era sempre de te ver
Chegar aos meus desejos alegre e sem demora
Porque essa a hora de eu te ver

Amor, porque não vens àquele dia
Que a vida fez de nós seres iguais
Amor, porque não vens por ironia
Ficar comigo um dia ou nunca mais 

Vira da minha rua

Frederico de Brito / João Aleixo
Repertório de Celeste Rodrigues *versão do seu último trabalho discográfico*
Existe uma outra versão de Celeste Rodrigues gravada ao vivo na Viela
A versão aqui apresentada foi extraída do repertório de Mafalda Arnauth

Anda o vira na minha rua
Já me encheram a rua toda
Eu só vejo é à luz da lua
Cabeças à roda
Oiço harmónios e cavaquinhos
Vejo tantos braços no ar
Andam pares em remoínho
Rapazes agora é bailar

Quis ver da minha janela / Como é que se dança o vira
Como é que baila a chinela / Sobre o salto que salta e que gira

Pus-me atirando cantigas / E logo de todo o lado
Homens, mulheres, raparigas / Pareciam formigas
Num vira pegado

Pois agora viro eu / Que ao vira não se resiste
Tanto me viro e reviro / Do avesso nunca se é triste

Salto que salta e que gira / Leva-me ao baile dançar
Que enquanto a vida não vira
Eu troco-lhe as voltas / Que eu quero é bailar

Novo mar

Fernando Gomes / Valter Rolo
Repertório de Catarina Rocha 

Meu amor foi marinheiro / Navegou de lés a lés
Enfrentou o mar inteiro / Ventos e marés

Mas um dia desistiu
De embarcar no mar de tanta perdição
E o seu navio só cruza agora o meu coração

Meu amor audaz e forte / Resistiu aos temporais
E nunca perdeu o norte / Chegou sempre ao cais

Meu amor correu o mundo
Até esteve em multas terras de ninguém
Foi vagabundo, mas já não vive nesse vai e vem

Mil e uma histórias / Que ele tem p’ra me contar
E eu dou-lhe memórias / Do futuro, eu sou seu novo mar

Meu amor foi marinheiro / Navegou de sol a sol
Enfrentou o mar inteiro / Sem qualquer farol

Ele em cada noite escura
Inventava tantos raios de luar
E agora jura, sou o seu rumo e o seu novo mar

Mantém-se a miragem / E o prazer de navegar
Mas nesta viagem
Eu sou seu rumo / Eu sou seu novo mar

A mulher-vento

Letra e música de Carminho
Repertório da autora

A mulher-vento, é ela que canta o vento
Vem em forma de lamento
Povoar a solidão
Seu movimento traz à terra um alento
De que o mundo está sedento
Do sopro do coração

Pelas arestas, canta por todas as frestas
E nas folhas das florestas
Que buscam a luz solar
Vive escondida, é princesa prometida
Mas por karma está contida
No destino precioso de cantar

Canta nas velas, nas marés das caravelas
E nos recados daquelas
Que esperam p’ra lá do mar
É prisioneira de cantar a noite inteira
E de acender a fogueira
Que aquece a noite ao luar

E assim cantando a mulher-vento vai dando
Um sentido claro e brando
À sua vida entregar
E se eu disser que ousaria escolher
O vento desta mulher
Que nasceu para cantar

Nuvens correndo num rio

Natália Correia / Valter Rolo
Repertório de Inês Duarte

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar

Vais por caminhos de bruma / Que são caminhos de olvido
Não queiras, ó meu navio / Ser um navio perdido

Não corras ó meu navio / Navega mais devagar
Que nuvens correndo em rio / Quem sabe onde vão parar

Que este destino em que venho / E uma troça tão triste
Um navio que não tenho / Num rio que não existe 

Sonhos içados ao vento / Querem estrelas varejar
Velas do meu pensamento / Aonde me quereis levar

Há samba nas colinas de Lisboa

Paulo Abreu Lima / Mingo Rangel
Repertório de Carla Pires

Há samba nas colinas de Lisboa
Que lembram qualquer morro do Brasil
Ladeiras de varinas quase à toa
Com peixe na canastra e sonhos mil

Há fado com cheirinho a Madragoa
No Rio deste nosso carnaval
Baianas que desfilam pelo Chile
Das praças que confundem Portugal

Mistura de perfumes e compassos
Na senda das conquistas e bandeiras
Com pedras da calçada e dos abraços
Que fundem o limite das fronteiras

Há sonhos que trespassam o azul
No ventre que ressaca as bebedeiras
E nortes que derivam para o sul
No branco que deserta das trincheiras

Mulato este meu Rio de Lisboa
No ventre do teu Rio de Janeiro
É samba que renasce a Madragoa
No fado que se casa por inteiro 

Fado do candeeiro

Amadeu do Vale / João Nobre
Repertório de Fernanda Baptista
Fado da Revista *O Trunfo é Espadas*

O amor que eu não supunha / Ser-me um dia traiçoeiro
Foi a melhor testemunha / Este humilde candeeiro

Sua luz viu que ceguei / Por quem de amor me falara
E quando dele me apartei / Foi então que reparei
Que há muito a luz se apagara

Companheiro amigo do tempo passado
Da janela aberta, da rua deserta
E o  amor a meu lado
Não, não o condenes porque me perdeu
As mágoas consomem, mas ele era um homem
E a louca fui eu

Mas em breve a luz escassa / Deste humilde candeeiro
Iluminou a desgraça / Do meu amor traiçoeiro

Dele em mim nada ficou / Nem sei que ideia era a sua
Entre nós tudo acabou / Tal qual a luz se apagou
No candeeiro da rua

Hoje ainda penso que essa luz existe
P’ra na noite escura viver a amargura
Deste amor tão triste
Mas só vejo a sombra dum vulto e mais nada
Sombra fugidia daquele que um dia
Me fez desgraçada 

Desencontrados

Catarina Rocha / Alberto Simões da Costa *fado dois tons*
Repertório da autora

Não quero que me prometas
A lua e o firmamento
Quero apenas que me digas
Que me tens no pensamento

Somos como a lua e o sol / Andamos desencontrados
Brilhamos um para o outro / Ambos de olhos vendados

Dizem-nos que loucos são / Os amores loucos sem fim
Eu brilho na tua noite  / E o teu dia brilha em mim

As mais belas melodias / Foram feitas ao luar
Nas ondas que se agigantam / Na imensidão do mar 

Dentro de mim, Lisboa

Fernando Gomes dos Santos / Valter Rolo
Repertório de Inês Duarte c/ Carlos do Carmo

Cai a tarde no meu olhar / Pouco a pouco soltas a luz
Essa luz que é o meu ar / Que respiro e me atordoa
Trago-te dentro de mim, Lisboa

Corre o Tejo nas minhas veias / Há varinas na minha voz
Sou o corpo em que semeias / O fado que te povoa
Trago-te dentro de mim / Nos meus sentidos, Lisboa

Ai, quanta vida por sonhar
Ai, quanto sonho por viver aqui
Minha cidade de encantar
Eu nada sou sem ti

Em Alfama sou maresia / No Castelo recebo a Graça
De alma presa à Mouraria / Sou pregão da Madragoa
Trago-te dentro de mim, Lisboa

Nas vielas escondidas / Acorrento-me à saudade
Mas as tuas avenidas / São da minha liberdade

Cidade bela do fado

David Mourão Ferreira / Mário Pacheco
Repertório de Carla Pires

Era a cidade serena, ou o tempo desolado
Era o cansaço, era o fado
Fosse o que fosse, era pena
A vida ter-me deixado longe de ti
Na serena cidade triste do fado

Ai tardes de Primavera
Ai tardes de Verão precoce
A voz do vento calou-se
E o que eu ouvia não era
Não era vento, era o doce
Murmúrio da Primavera
Doçura do Verão precoce

Bela cidade serena,longe o tempo desolado
Perto, só tu, a meu lado
Lírica barca pequena
Que a vida enfim há deixado junto de mim, na serena
Cidade bela do fado

Sombras do passado

Ana Sofia Paiva / Frederico Pereira
Repertório de Gisela João

Venham sombras do passado
Venha tudo o que eu te dei
Venha a seiva do pecado
Venha o mal que eu rejeitei
Venham sombras do passado 

Venham crimes de saudade
Pesadelos de amargura
Venham sismos à cidade
Desatar esta loucura

Venham sonhos e promessas
Ocupar o que foi teu
Venha o dia em que tropeças
Neste amor que já morreu;
Venham sonhos e promessas

Venha vento, venha frio
A mais negra solidão
Venha a dor do teu vazio
Implorar o meu perdão

Volta ao mundo

Cátia Oliveira / Catarina Rocha
Repertório de Catarina Rocha

Fui de viagem para me esquecer de ti
Porque de mim já me esquecera e nem vi
Mas não havia rua, praça, nem jardim
Que não trouxesse a tua imagem, ai de mim

Cheguei a ver-te noutro mundo, outro lugar
Aonde não havia nada p’ra esperar
Nos mares longe, onde não tinha mais ninguém
Dentro de mim ouvi a tua voz também

Em todo o lado, meu amor
Toda a viagem, meu amor
Trago no peito a tua imagem junto a mim
Vivo em saudade meu amor
E tudo diz ao meu redor
Que a nossa história não é feita deste fim
Mas no regresso volto à vida
E tu não estás... para mim

Fica-te mesmo a matar

Fernando Peres / Jaime Santos *fado jaime*
Repertório de Manuel Dias

Fica-te mesmo a matar
Esse teu ar de fatalismo
Que me pretende enganar
Com seu olhar, com seu cinismo
Procura ser natural
Porque afinal tudo tem fim
Tu já me enganaste um dia
Eu não sabia, não és p’ra mim

Teus olhos nariz e boca
Que coisa louca, que coisa bela
De cinturinha afinada
Bem torneada, duma donzela
Teu andar tem tal recorte
Que é bem o porte, que me enganou
Cinzas dum amor passado
Bem acabado, mas que findou

Quero sonhar com tua imagem
Tua beleza e tua voz
Quero sonhar co’a incerteza
Do grande amor que houve entre nós
Quero esquecer o segredo
Que me faz medo, lembra traição
Pagas um dia o tributo
É esse o fruto dessa ilusão 

Nós juramos tantas coisas, tantas vezes

Duarte / Alfredo Duarte *menor-versículo*
Repertório do autor / Participação de Albano Jerónimo

Nós jurámos tantas coisas tantas vezes
Que entretanto sem sabermos bem porquê
Lá nos fomos arrastando por uns meses
Decididos a fingir que ninguém vê

Mas doeu-me a vida toda nesse dia
Logo a mim, que nunca fui de dramatismo
Eu confesso que no fundo ainda sentia
Ser capaz de fazer frente ao nosso abismo

Foi tão frágil esta nossa despedida
Foram tantas as desculpas que inventamos
Muito embora já saibamos que à partidadu
A nossa vida não acaba se acabarmos

Estrofe declamada por Albano Jerónimo
Já que falas nesse assunto, eu julgo ter
Ao contrário do que dizes, um senão
Se nunca disse, foi só porque dizer
É quase nada do que diz meu coração 

Só por cantar

Fernando Gomes dos Santos / Valter Rolo
Repertório de Inês Duarte

Canto feliz um país que já navegou
Canto a raíz em que o meu canto acordou
Trago na voz trovas de um povo
Sigo veloz o som de um canto sempre novo

Canto o valor da minha gente, com paixão
Canto de cor todos os cantos deste chão
Canto ao despertar, canto p’ra respirar
E canto só por cantar

Canto o amor que ateia o sonho de viver
Canto o fervor desta vontade de vencer
Solto sem medo rimas inquietas
E mato a sede com as palavras dos poetas

Canto de pé os que ficaram para trás
Canto com fé quem acredita que é capaz
Canto de par em par, canto em qualquer lugar
E canto só por cantar 

Nos rios dessa boca

Paulo Abreu Lima / António Zambujo
Repertório de Carla Pires

Nos rios dessa boca por beber
Eu gosto de poder imaginar
Que existe uma razão p’ra te querer
Tal qual esta certeza de te amar

A vida tem caminhos por aí
Com pedras dos amores por conquistar
Quem sabe nos destinos que há em ti
Eu seja o que me juras a sonhar

Aquele amor que procuras
Como se fosse prá vida
Sem mais promessas e juras
Ou qualquer contrapartida
Amar só tem que saber
Quem nunca teve p’ra dar
À espera de receber
O que não pude comprar


De ti eu quero o tempo de te ter
E mais do que depois me possas dar
Na boca onde me deste de beber
Sabores que ninguém ousa imaginar

Quadras soltas

António Pires Moliceiro / Francisco Viana
Repertório de Rodrigo

Sou feliz nos meus abraços
Milionário de alegrias
Correm-me os filhos nos braços
Nem que traga as mãos vazias

A mais ardente verdade
Que nos pode destruir
É sentir-se a felicidade
E ter de a deixar fugir

Minha tristeza tem cor
Mas não sei qual ela seja
Porque os matizes da dor
Não são coisa que se veja

Quem muito ou pouco ofertar
Fere sempre a gente má
Vale mais o jeito de dar
Que aquilo que a gente dá 

Se Lisboa sonhasse

Letra e música de José Manuel Coelho
Repertório de Carla Pires

Lisboa tem amarras de ciúme
O seu corpo é como lume
Arde na pele sem se ver
E cada bairro antigo é um abraço
De solidão e cansaço
No viver dessa mulher

Lisboa é uma história sem idade
Traz no ventre a liberdade
E um verso no olhar
Lisboa é esse bairro sempre novo
É a história desse povo
Que se fez um dia ao mar

Se Lisboa sonhasse, eu sonhava com ela
Enfeitava a saudade, punha um cravo à janela
No olhar da cidade eu plantava um jardim
Se Lisboa sonhasse, o seu sonho era assim


Lisboa é um grito de gaivota
Uma varina na lota
Um adeus sempre a chegar
Lisboa abraça o mar numa canoa
E à noite a Madragoa
Corre a cidade a cantar 

Fado da desistência

Hélia Correia / António Chaínho
Repertório de Filipa Pais

Não me descubras os olhos
Não mos queiras desvendar
Toda a cor lhes fugiu / Desde que os recobriu
A sombra que saiu / Da luz do teu olhar

Não vás chamá-los mals
Que eles já não olham para trás
Não vás, deixa-os em paz,eixa-os cegar

Não levantes a minh’alma
Não lhe tornes a pegar
Longe de mim voou / E em cinzas regressou
Depois que se queimou / Na luz do teu olhar

Não vás tocar-lhe mais
Que em pó e nada se desfaz
Não vás deixa-a em paz, deixa-a deitar

Não me acordes os sentidos
Que eles não te podem escutar
Beberam do licor / Da venenosa flor
Criada ao desamor / Da luz do teu olhar

Não vás falar-lhes mals
Que eles já não estão entre os mortais
Não vás, deixa-os em paz, deixa acabar

Se não vieres veloz

Valter Hugo Mãe / Fontes Rocha *lavava no rio*
Repertório de Eliana Castro

Amor… vem ver-me agora
Por Deus, não vás embora
Deixo o tempo, deixo a vida
Choro e todo o mundo chora
Sem ti aqui esquecida
Será esta a minha hora

Sei dos pássaros em redor
A casa chilreia de asas / Se são anjos do Senhor
Se é voando que vou
Vem despedir-te em pressas / Que da morte ninguém voltou

Ou então não me deixes morrer
Vem agora para sempre / Tanto quanto o amor quer
Quanto te quero sem fim
Como Deus dentro de mim / Coração eterno a crescer

Amor… vem ver-me agora
Que a saudade me mata / Ai, se não vieres veloz
Tenho a morte, será exacta
Ou guardo teu nome na voz / E cantando espero que parta