As *4.058* letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores !!!
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... por razões desconhecidas ...
o motor de pesquisa não está a funcionar corretamente, aceite as minhas desculpas !!!
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A vida que há na saudade

Tiago Torres da Silva / Alfredo Duarte *fado cravo*
Repertório de Cristina Nóbrega

Quando o silêncio me diz
Que a vida está por um triz
E eu sei que fala verdade
Vou pra trás de uma guitarra
E a minha voz agarra
A vida que há na saudade

Vem um fado e outro fado
E o coração, cansado / Diz que não quer sofrer tanto
Porque já sabe de cor
O que lhe faz o Menor / De cada vez que o canto

Mas o guitarrista toca
Uma guitarra que evoca / Outra guitarra mais triste
Está guardada no meu peito
E toca um fado que é feito / Da dor mais forte que existe

Ao escutá-la no meu sangue
O meu coração exangue / Volta a bater com vontade
E é nas cordas da viola
Que a minha vida se enrola / Na vida que há na saudade

O que sobrou de um queixume

Letra e musica de Frederico de Brito
Repertório de Carlos do Carmo c/Raquel Tavares

Se não sabes o que é fado
Sem ter sombra de pecado
Sem traições, corações aos baldões e paixões de vielas
Se não fazes uma ideia
Desta triste melopeia
Que nos alegra e por via de regra chorámos com ela

Se não sabes como encanta
Quem o ouve e quem o canta
Quando se agarra a uma guitarra à luz do luar
Fado dum fado nascido
Um grito de espanto, um gemido
Vem ver Lisboa, como ela o entoa e o canta a chorar

Fado é amor
Que sobrou d’algum queixume
Que se agrarrou ao ciúme
E se embrulhou no seu manto
Fado é a dor
É o meio termo da vida
Nem esperança perdida
Nem riso, nem pranto

Se não sabes que a tristeza
Que nos prende e fica presa
Não é mais que os sinais usuais d’alguns ais sem agrado
Se não sabes que a saudade
Que nos abre e nos invade
Só aparece quando não se esquece que também é fado

Se não sabes o que é esperança
Que não pára, que não cansa
E é concerteza, tal como a firmeza, um rasto de fé
Sonho dum sonho desfeito
O gosto dum gosto pefito
Que nos embala mas que não se iguala ao que o fado é

Lágrima de prata

Mário Raínho / Carlos Dionísio
Repertório de Ana Marta

Uma lágrima de prata / Como se fosse um desgosto
Que da lua se desata / E vem poisar em meu rosto

Segue comigo pela noite / Sinal de luar marcado
E toma sempre pernoite / Na minha alma de fado

Assim eu vou
A chorar, como um Pierrot
Pela noite, a que me dou
Onde entorno meu cantar
Assim eu vou
De encontro a outros sentidos
Desprende a alma gemidos
Fados que canto a chorar

Plos recantos da cidade / Meu canto é choro também
Fala de amor e saudade / De uma dor que sabe bem

Tanto tarda o amanhecer / De fado em fado caminho
E até o sol nascer / 
O meu ser geme baixinho 

Verdes anos

José Luis Gordo / José Marques do Amaral
Repertório de Maria da Fé

Trago meu país primeiro
Por dentro da minha voz
Dou todo o meu corpo inteiro
Ao canto que não tem foz

O meu canto é sempre novo / É um rio que se alimenta
De matar a sede ao povo / No canto que
'ele próprio inventa

Ai fado, amor, meu destino / Meu namoro de criança
Minha paixão, desatino / 
Que só minha voz alcança

Ai, amor, tantos enganos / Na minha entrega total
Dei-te tantos verdes anos / 
Por amor a Portugal

Regresso àquele beijo

Mário Rainho Casimiro Ramos *janelas enfeitadas*
Repertório de Maria da Fé

Às vezes rasgo tempo e a distância
E regresso ao passado, novamente
Ao balancé dos meus sonhos d’infância
Ao meu primeiro beijo adolescente

Cantigas e namoros, dessa era
Desfolham-se em meus olhos qual bonina
Que logo, após partir a primavera
Perdesse todo o encanto de menina

Demoro mais um pouco, assim perdida
Nas ruas da saudade, a recordar
Mas há sempre uma lágrima, atrevida
Que teima em vir espreitar no meu olhar

Porque o supremo enleio, eternamente
Que deixei na memória , no passado
É esse teu amor que, sendo ausente
Deixou em minha voz nervoso fado

Vem a noite

Vasco Lima Couto / Ferrer Trindade
Repertório de Fernanda Batista

Vem a noite
Com montras que já não sonham
A passagem distraída
E onde se morre a cantar
As impromessas da vida

Vem a hora
De atormentar o silêncio
Da palavra que se reza
Às luzes da meia altura
Que iluminam a voz presa

Porque a rua, quando compra devagar
Insinua, um Deus que tarda a chegar
Um Deus morto no amor que não se entrega
Que é o porto da loucura quando é cega


Vem o sonho
Que estende um tapete frio
De sombras, à solidão
Para que a chuva dos olhos
Não teça riscos no chão

É o momento
Em que se analisa o vento
Como quem sai de uma gruta
E abre em nós o peito à espera
Do amanhã de outra luta

Lisboa e o Tejo

Mário Raínho / Fontes Rocha
Repertório de Maria Armanda

Lisboa também tem um namorado
E também tem ciúmes, como nós
Lisboa, quando sofre canta o fado
Com um soluço triste em sua voz

Lisboa é namorada delicada
Vaidosa e orgulhosa de assim ser
Lisboa fica às vezes amuada
Se o seu amor, amor não lhe oferecer

Chama-lhe marinheiro, fala dele na rua
E sente ciúme dos olhos da lua
Chama-lhe marinheiro sem rumo nem rota
Sempre atrás das asas de alguma gaivota;
Ele numa onda atira-lhe um beijo
E assim namoram, Lisboa e o Tejo

Lisboa tem arrufos com o namoro
Se o vê fazer olhinhos às estrelas
E então vai mirá-lo ao Miradouro
Que não vá o diabo tecê-las

Lisboa, quando desce uma colina
P’ra namorar com ele toda se enfeita
Lisboa veste saia de varina
Para ouvir os piropos que ele deita

Estes meus olhos

Moita Girão / João Alberto
Repertório de Mariana Silva

Dizes que eu era linda flor do teu jardim
A mais sincera, de mais encanto e perfume
Se me beijavas numa ternura sem fim
Não te lembravas que no amor há ciúme

E por tão pouco acabou-se o teu amor
Acabou, morreu a flor, a flor dos teus ideais
Foi amor louco, foi um sonho que passou
Já lá vai, já se acabou, acabou, não volta mais

Estes meus olhos, hoje não sabem chorar
São dois regatos que secaram no caminho
São pombas mansas esquecidas de voar
São andorinhas que se perderam do ninho

Estes meus olhos, cativos, sem liberdade
Presos no véu da saudade deste amor em que os perdi
Andam sem luz, perdidos da luz dos teus
Andam ceguinhos, meu Deus, ceguinhos de amor por ti

Não era a cidade fria

Fernando Campos de Castro / José Marques do Amaral
Repertório de Maria de Lourdes

Não era a cidade fria
Nem os soluços do vento
Era uma luz que acendia
Os sonhos no pensamento

Não era a voz da cidade / Que povoava os ouvido
Era uma louca ansiedade / Que nos prendia os sentidos

Não eram sombras incertas / Nem essa noite era fria
Eram as ondas libertas / Na noite que acontecia

Não era a lua gemendo / Nem o murmúrio das casas
Eram dois corpos ardendo / Mas que sonhavam ter asas 

Demos as mãos

Ary dos Santos / Martinho d’Assunção
Repertório de Maria Amélia Proença

Demos as mãos e tudo ficou diferente
A tristeza mais ausente
A amizade mais intensa
Demos as mãos e o futuro foi presente
Naquela ternura imensa
Que faz a gente ser gente

Demos as mãos e senti as tuas veias
Movediças como areias
Latejando no meu pulso
Demos as mãos e a carne ficou cativa
Naquele primeiro impulso
Que faz a gente estar viva

Demos as mãos e aconteceu a vida
Vida própria e desmedida
Vida à nossa dimensão
Demos as mãos e começou a subida
Do coração à cabeça
Da cabeça ao coração

Demos as mãos e morremos devagar
No amar e odiar
Dos amantes perseguidos
Demos as mãos e ficamos no lugar
Das rosas por despertar
No relógio dos sentidos

Quando nasce um homem

Ary dos Santos / Martinho d’Assunção *alexandrino*
Repertório de Maria da Fé

Eu não nasci aqui, o meu lugar é outro
É na terra de fogo onde as palavras ardem
É na ilha de sal onde os ventos me levam
Na estepe de silêncio onde os homens me ladram

É no falcão da noite que voa sobre as águas
No cavalo dos deuses que correm sobre o vento
No flanco da loucura, à direira do mundo
Na espora do silêncio, à direita do tempo

É no ir dos navios que demandam o rumo
Dum cabo de segredos que não podem dobrar
No galope do medo, na viagem do fumo
Nas terríveis passadas do destino a andar

Eu não nasci aqui, o meu lugar é outro
É onde for o sangue, o abismo, o espasmo, o polén
É onde eu não chegar, é onde for o grito
Em que se rasga o mundo quando nasce um homem

As pedras que tu pisas

Manuel Paião / Eduardo Damas
Repertório de Fernanda Maria

Não sei o que se passou com o meu coração
Que só sabe sentir esta grande paixão
Eu hoje só sei ver a luz do teu olhar
Só sei olhar p’ra ti, viver para te amar

Tenho ciúmes das pedras que tu pisas
Do ar que tu respiras
E até das próprias brisas
Tenho ciúmes do sol, da lua cheia
De tudo o que te toca
Da luz que te rodeia
Dos próprios sonhos que tu idealizas
Tenho ciúmes
Das pedras que tu pisas

Nã sei o que se passou desde que eu te vi
Só sei que o meu olhar, só sabe olhar p’ra ti
A minha vida é tua e o meu coração
Fugiu já do meu peito, está na tua mão

Outono ou primavera

António Campos / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Pedro Vilar

Nada tive na chegada
Nem um pouco ou quase nada
Nada tinham p’ra me dar
Não sei o que faço aqui
Pois nada, nada pedi
Nem conheço este lugar

Se uma brisa aqui passasse
Que de leve me tocasse / E me dissesse o que eu sou
Quem sabe eu não fôra alguém
Que não sabe de onde vem / Mas que um dia alguém amou

Se eu fosse vinho ou fermento
Ou mesmo um golpe de vento / Pelo menos tinha um nome
Mas não sei nada de mim
Se sou princípio ou sou fim / Nem o não ser que consome

Olho em volta e nada faço
Não sinto dor nem cansaço / Não sou razão nem quimera
Tudo tudo é abandono
Não sei se nasci no outono / Se morri na primavera

Morrer na Sé

Carlos Bessa / Alvaro Martins
Repertório de Alma Rosa

Quero aqui ficar sempre até morrer
Não quero mudar deste meu lugar
Que me viu nascer

Eu não quero não, bairro encaixotado
Feito de betão e de solidão
Por metro quadrado

Quero a casinha / Aqui aonde moro
Nesta Sé vélhinha / Que eu tanto adoro

Oh Sé, oh Sé
Oh meu lindo Bairro da Sé
Tudo morre na cidade
Só tu é que estás de pé

De saudades chora quem a Sé deixar
E a qualquer hora, vêm sem demora
A Sé visitar

Eu contrariamente, vivo a cantar
Com a minha gente vivo alegremente
Por aqui estar

Antes de morrer / Quero ver na Sé
O entardecer / Que tão lindo é

A chegada dos navios

Ary dos Santos / Martinho d’Assunção
Repertório de Maria da Fé

Chegam heróis e jovens de mãos dadas
Chegam rapazes loiros como o estio
E partem as palavras censuradas
No penacho de fumo do navio

Chegam esperanças, medos e ciladas
Em que a aventura nos embosca o cio
E partem as angústias exiladas
No penacho de fumo do navio

Ao ritmo dos guindastes estremecemos
Portos abertos ao que nos deslumbra
Somos apenas o que não sabemos
Barcos de sol rumados à penumbra

Piratas de abordagem que trazemos
A latejar nas veias: que se cumpra
A palavra que nós nunca dissemos
Rosa de sangue a rebentar de sombra

Meu triste fado

Pedro Vilar / Jaime Martins
Repertório de Pedro Vilar

Meu amor, és meu sonho incompleto
Eu vivo num desesto
De incertezas que matam

Talvez eu me encontre um dia
E tenha essa alegria
Do que vejo e não sinto

Sentir teu peito junto ao meu
E sem saber se eu
Te perca e não te encontre

Meu amor, meu amor, que juras fizeste
Meu amor, meu amor, q nada me déste
Meu amor, meu amor, neu sonho acabado
Meu amor, meu amor, meu triste fado

Um grito na escuridão

Carlos Bessa / Alvaro Martins *alma corridinha*
Repertório de Alma Rosa

Um grito na escuridão
Duma boca amordaçada
Dum grito nasce um trovão
Ou quem sabe, talvez nada

Meu país, quero que sintas / O cheiro da podridão
E das crianças famintas / Um grito, na escuridão

Há hortos de prostituição / Heroínas na picada
Gritos de morte em vão / Duma boca amordaçada

Dormem na pedra gelada / A velhice sem colchão
Rasgam a noite calada / Dum grito nasce um trovão

Rolem cabeças pelo chão / Dessa gente tão culpada
Que tem o poder na mão / Ou quem sabe, talvez nada

Sossega coração

Fernando Pessoa / Paco Bandeira
Repertório de Margarida Bessa

Sossega, coração, não desesperes
Talvez um dia, para além dos dias
Encontres o que queres porque o queres
Então, livre de falsas nostalgias
Atingirás a perfeição de seres
Sossega, coração, não desesperes

Sossega, coração, contudo, dorme
O sossego não quer razão nem causa
Quer só a noite plácida e enorme
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme
Sossega, coração, contudo, dorme

Mas pobre sonho, que só quer não tê-lo
Pobre esperença a de existir somente
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente
Como faz mal ao sonho o concebê-lo
Mas pobre sonho, que só quer não tê-lo

Guardei na minha saudade

Vasco Lima Couto / Alfredo Duarte *fado mocita dos caracóis*
Repertório de Carlos do Carmo

Guardei na minha saudade
De poeta alucinado
Este amor, sombra e rio
Onde a alma em desafio
Põe marés em cada fado

Somei as pontes do céu
P’ra sorrir e ficar certo
E andei só, pela cidade
Que me lembra a tua idade
E a tua voz longe e perto

Mas a vida é sempre um tempo
A que a dor se entrega tanto
Que nada vale de nada
E antes da tua chegada
Só te encontro quando canto

Ali então

Sophia de Mello Breyner Anderson / João Braga
Repertório de João Braga

Ali então em pleno mundo antigo 
À sombra do cipreste e da videira
Olhando o longo tremular do mar
Num silêncio de luas e de trigo

Como se a morte a dor o tempo a sorte
Não nos tivessem nunca acontecido

Em nossas mãos a pausa há-de poisar
Como o luar que poisa nas videiras
E em frente ao longo tremular do mar
Num perfume de vinho e de roseiras


A sombra da videira há-de poisar
Em nossas mãos e havemos de habitar
O silêncio das luas e do trigo
No instante ameaçado e prometido

E os poemas serão o próprio ar
Canto de ser inteiro e reunido
Tudo será tão próximo do mar 
Como o primeiro dia conhecido

Fado das desgarradas

Manuel Alegre / Popular *fado corrido*
Repertório de João Braga

Fado da nossa partida
E de nunca haver chegada
Foi desgarrada da vida
E a vida à desgarrada

Fado da nossa memória / E da história por contar
Sabe a derrota e a vitória / Cheira a porto por achar

Fado do nosso sentir / Ninguém sabe donde vem
Talvez de Alcácer-Quibir / E quando chega é ninguém

Fado do tudo e do nada / Fado que não tem medida
Há sempre uma desgarrada / Na desgarrada da vida

Maria tripeira

Coelho Júnior / Resende Dias
Repertório de Florência

Texto declamado
Sou a Maria tripeira, como todas as Marias da cidade
A Maria da Sé, Maria da Ribeira, Miragaia ou Bonfim
Porque afinal, toda a Maria tripeira é uma Maria igual a mim

É a Maria que se levanta de madrugada 
Para o trabalho do dia a dia
Alegre, azougada, na boca uma cantiga sadia
Que aquece a madrugada se a madrugada é fria

Sempre a mesma Maria
Maria das Fontaínhas, do Bom Sucesso, do Bolhão
E em todas as Marias há sempre o mesmo coração

É o coração da Maria tripeira 
Aberto e generoso à desgraça alheia
E se é preciso fazer bem a alguém
Esta Maria não espera por ninguém
É sempre a primeira, ou não fosse ela a Maria tripeira

É assim a Maria do Porto que tem por trabalho, brasão
Ama a todos por igual e traz o Porto no coração
É assim esta Maria desta invicta cidade
Que gosta de ser livre e ama a liberdade

Mas a sua liberdade, com ordem e alegria a rodos
Com paz e trabalho para todos
Mas se maus ventos soprarem de quadrantes que o povo não quer
Mesmo que a ventania venha de longe e agreste
Não tenhas medo, Lisboa
Porque o vento cá do Norte tem mais força que o de Leste
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Sou assim desta maneira / Sou do Porto pois então
Sou a Maria tripeira / A Maria do Bolhão
Pulsa dentro do meu peito / Um sincero coração
Que só fica satisfeito / Se todos tiverem pão
Maria Tripeira
Da Sé, da Ribeira, de toda a cidade
Maria mulher que sabe o que quer
Paz e liberdade
Maria Tripeira
Esperança fagueira que todos, um dia
Se dêem as mãos e sejam irmãos 
Na paz e alegria
No 31 de Janeiro / Lutanto com fé ao rubro
O nosso burgo tripeiro / Fez nascer 5 de Outubro
Foi neste Porto cidade / Que nasceu um grito novo
Foi a voz da liberdade / Na voz forte deste povo

Fado d’aquém e d’além

Manuel Alegre / Popular *fado mouraria*
Repertório de João Braga

De todo o lado e nenhum
De todo o mundo e ninguém
Somos vários e só um
Fado d’aquém e d’além

Já fomos antes, da Europa / Europa por sobre o mar
Nosso fado é vento à popa / Nosso verbo, o verbo amar

O vento canta o seu cântico / Vem com recados na voz
Onde sabe a sal e Atlântico / Esse país somos nós

Amor sem mas nem talvez / Que não tem cor nem tem raça
É este amor português / Que fica por onde passa

D.Sebastião

Manuel Alegre / João Braga
Repertório de João Braga

Haverá sempre um porto por achar
Em outro mar que não o navegado
Haverá sempre o que não é e o que não vem
Sua verdade está em o sonhar
E D.Sebastião é quem
Conquista em nós o inconquistado

Haverá sempre em nós um além-sul
Um lugar que só é onde não está
Haverá outro espaço e um mais azul
Um buscar sem sentido e sem porquê
Haverá sempre o reino que não há
E D.Sebastião é quem dentro de nós o vê

Haverá sempre em nós um rei perdido
Por seu excesso de saudade e ânsia
Um ser de ainda não ser ou já ter sido
Outro tempo no rempo, outra distãncia

A nossa pátria é sempre outro lugar
E quando alguém voltar, ninguém, ninguém
Haverá sempre um não chegar
E D. Sebastião é quem

Um adeus que me esqueceu

Heitor Castro Monteiro / Fernando Carvalho
Repertório de Florência

Era um nada, era tudo / P'rá minha alma tão singela
Esse cantinho florido / Da minha linda janela
 
Esse cantinho tão querido / Onde o meu olhar absorto
Olhava tempo esquecido
Olhava tempo esquecido / P'rós telhados do meu Porto
Via o rio, via a serra
Via a ponte, a nossa terra
Via a Sé, o nosso altar
À tardinha ao sol-pôr
Meu amor via chegar

Hoje vou por aí fora / Sem ao menos saber quando
Virá serena, chegando / A minha última hora
 
Vou partir mas levo na alma / Uma dor que me enregela
Não disse adeus aos amigos
Não disse adeus aos amigos / Que via dessa janela

Fado do Porto

Manuel Alegre / João Braga
Repertório de João Braga

No princípio de tudo era a cidade
Cinco letras de Douro e de Cristal
Um gosto de Ribeira e Liberdade
Aqui onde houve nome, Portugal

Cinco letras de pátria e de raíz
Sabem a vinho e pão quando as soletras
Cinco letras e o resto é um país
Onde o Porto de diz com cinco letras

E há Camilo a escrever perdidamente
A mão de Teresa acena por Simão
Amor de Perdição que é o que sente
Quam traz na alma o Porto e a paixão

E há um Dom Pedro a passar com seu cavalo
Cinco letras de rio e de Rabelo
E quando alguém vier para cercá-lo
Verá chegar os Bravos do Mindelo

Samba em prelúdio

Vinícius de Moraes / Baden Powell
Repertório de João Braga e Rita Guerra

Eu sem você não tenho porquê
Porque sem você não sei nem chorar
Sou chama sem luz, jardim sem luar
Luar sem amor, amor sem se dar

Eu sem você sou só desamor
Um barco sem mar, um campo sem flor
Tristeza que vai, tristeza que vem
Sem você meu amor eu não sou ninguém

Ai que saudade
Que vontade de ver renascer nossas vidas
Volta querido
Teus abraços precisam dos meus
Os meus braços precisam dos teus

Estou tão sozinha
Tenho os olhos cansados de olhar para o além
Vem ver a vida
Sem você meu amor eu não sou ninguém 

O sino

Vicente da Câmara / Popular *fado menor e Mouraria*
Repertório de Vicente da Câmara

Tristezas e alegrias
Podem ser assinaladas
Conforme  se puxa a corda
O sino dá badaladas

Casamento ou batizado / Que nos enche o coração
Sempre foi anunciado / P’lo sino tão balalão

Se tange com dor sentida / Foi alguém que nos deixou
E o sino sente a partida / Sua voz também mudou

Repicando alegremente / O sino dança também
Dança na alma da gente / E todos lhe querem bem

E os crentes na romaria / Pelo sino são chamados
E à tardinha, a Avé-Maria / Rezamos ajoelhados

Já é tarde e em revoadas / Passam pardais a brincar
O sino, dá gargalhadas / Contente de os ver chegar

O achado

Miguel Torga / Fontes Rocha e João Braga
Repertório de João Braga

Traziam nova terra e nova luz
Nos românticos olhos lusitanos
E uma cruz, e uma cruz
Que depois carregaram largos anos

Traziam todo o anseio que os levou
E que nenhuma Índia satisfez
E traziam a fé que lhes sobrou
Da fé sem fim dessa primeira vez

Traziam a promessa de voltar
A ver se a cor do sonho se mantinha
O puro azul de que se veste o mar
Quando o fim da aventura se avizinha

Cantar é dizer adeus

António Calém / José António Sabrosa
Repertório de Teresa Siqueira

Cantar é dizer adeus
Às almas em madrugada
É sonhar estar no céu
Tendo o inferno por morada

É morrer como quem canta / Ou cantar como quem morre
É a voz duma garganta / Ou dum rio quando corre

E a voz sobe e lá se perde / Nos que a ouvem sem pensar
Toda a dor posta nuns versos / Que uma voz diz a cantar

Versos predidos na noite / Ouvidos por toda a gente
Quem é que sabe ao ouvi-los / Toda a dor que a alma sente ?

Um pouco de fado

Clemente Pereira / Jorge Fontes
Repertório de Alcindo de Carvalho

Velha samarra que o prende amarra à tradição
Chapéu ao lado, andar cansado, ainda gingão
Passou por mim, num ar assim, afadistado
Que no presente, o punha em frente do meu passado

E o meu olhar
Pôde então adivinhar
Na figura singular
Que viu surgir a meu lado
Pelo trajar
Pela maneira de andar
Que tinha visto passar
Um pouco do antigo fado

Falei com ele, encontrei nele ainda o clarão
Que não se apaga quando se afaga uma paixão
Na sua voz notei após falar consigo
Que ainda havia a melodia do fado antigo

Afonso de Albuquerque

Miguel Torga / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de João Braga

Quando esta escrevo a Vossa Alteza 
Estou com um soluço que é sinal de morte
Morro à vista de Goa, a fortaleza
Que deixo à Índia a defender-lhe a sorte

Morro de mal com todos que servi
Porque eu servi o rei e o povo todo
Morro quase sem mancha, que não vi
Alma sem mancha à tona deste lodo

De Oeste a Leste a Índia fica vossa
De Oeste a Leste o vento da traição
Sopra com força para que não possa
O rei de Portugal tê-la na mão

Em Deus e em mim o império tem raízes
Que nem um furacão pode arrancar
Em Deus e em mim, que temos cicatrizes
Da mesma lança que nos fez lutar

Em mais ninguém, Senhor, em mais ninguém
O meu sonho cresceu e avassalou
A semente daninha que de além
A tua mão, Senhor, lhe semeou

Por isso a Índia há-de acabar em fumo
Nesses doirados paços de Lisboa
Por isso a pátria há-de perder o rumo
Das muralhas de Goa

Por isso o Nilo há-de correr no Egito
E Meca há-de guardar o muçulmano
Corpo dum moiro que gerou meu grito
De cristão lusitano

Por isso melhor é que chegue a hora
E outra vida comece neste fim
Do que fiz e não fiz não cuido agora
A Índia inteira falará por mim

Outra Lisboa

Luís Nobre Guedes / Guy Valle-Flor
Repertório de João Braga

Tenho saudades da minha velha Lisboa
E de tanta gente boa que então eu conheci
Noites de fado com a Amália e o Marceneiro
No mesquita e no Machado, momentos bons que vivi

Meio wisky com amigos no Belcanto
E se a massa der p’ra tanto, almocinho no Tavares
Vem-me a saudade daquela outra Lisboa
E de tanta gente boa que então eu conheci

P’ra dar bom ar, um cházinho bem tomado
Na Marques ou na Bernard, bem no centro do Chiado
A cervejinha no Gambrinus, só no bar
Os piratas no Simões, p’ra ver as moças passar

Ao fim do dia lá ia todo lampeiro
Ajeitar o penteado ao mestre João Barbeiro
Vem-me a saudade daquela outra Lisboa
E de tanta gente boa que então eu conheci

Era ao jantar que começava o programa
Nas tascas do Bairro Alto ou no Pereira de Alfama
Foi na Tipóia que fomos primeiro ao fado
Com a Teresinha e o João, mais tarde no Embuçado

Fim de noitada que não era nada mau
Com ceia de madrugada no velho Porão da Nau
Vem-me a saudade daquela outra Lisboa
E de tanta gente boa que então eu conheci

Foi com saudade
Que cantei esta canção
Não faz mal ter mais idade
Enquanto houver coração