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Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa, todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre
PAULO FREIRE *filósofo* 19.09.1921 / 02.05.1997
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As 5.650 letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores.
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Guitarra imaginada

António Torre da Guia / Raúl Portela *fado magala*
Repertório de Fernanda Moreira

Se bem do corpo te tiro
Gemidos duma guitarra
É contigo que eu deliro
E minh'alma se desgarra

Se os meus dedos percorrem / Teu corpo unido ao meu
Sinto que os anjos não dormem / Quando me acordam no céu

Se te afago com ternura / Encostada a meu peito
Para ouvirmos a loucura / O silêncio é mais perfeito

Se te deito recolhida / Em protegido remanso
Dos fados todos da vida / Tu descansas e eu descanso

Se um dia a noite chegar / De luto e solidão
Não te esqueças de afinar / As cordas do coração

Vidas iguais

Fernando Campos de Castro / Jaime Santos *fado alvito*
Repertório de Fernanda Moreira

Quando chegaste a meu lado
Tinhas o corpo cansado
De saudade e abandono
Deixaste em mim a loucura
Que dá luz à noite escura
Nas minhas noites sem sono

Peguei-te nas mãos abertas / E percebi descobertas
Que nunca tinhas vivido
Beijei-as tão docemente / Que descobri, de repente 
Que nunca as tinha sentido

E quanto mais eu me dava / O teu corpo se entregava
Como nunca o tinha feito
Deixando liberta e nua / A minha alma e a tua
Suspensas fora do peito

Era um amor que nascia / E a pouco e pouco acendia
Dois corpos na mesma chama
Duas vidas tão iguais / Em voos horizontais
No céu aberto da cama

Vestida de palavras

Jerónimo Bragança / Nóbrega e Sousa 
Repertório de Tony de Matos

Vestida de palavras a canção é desejo
É sede de beijar-te como tu nunca foste
Teu corpo nú devassar
Possuir-te devagar, amor
Como a raíz faz ao chão
A sol com fome de receber e dar

Vestida de palavras a canção é desejo
É sede de beijar-te como tu nunca foste
Teu corpo nú, país de tentação
Emoldurado nos meus olhos
Moreno como chão
Aberto em flor canção

Quando tu sorris, que poema
Há no teu olhar, melodia
Tu és som, és cor, és o tema
Da canção feita com amor

Derradeiro encontro

Antonio Torre da Guia / Casimiro Ramos *fado oliveira*
Repertório de Fernanda Moreira

Vivo a doer dia a dia
Entre o pêndulo das horas
E o gemer da solidão
Agarrado à fantasia
Que me diz que tu demoras
Mas não espero em vão

Conforta-me a oração
Do fado que me enamora / E canta dentro do peito
O amor de perdição
Que um dia se foi embora / E deixou tudo desfeito

À sombra do imperfeito
Outra sombra à deriva / Vagueia dentro de mim
E às vezes até suspeito
Que estou em carne viva / A sofrer meu próprio fim

Adormeço e, enfim
Mergulhado na quimera / Meu corpo em sonho atravessa
O luminoso jardim
Onde me dizes: espera / Meu amor, não tenhas pressa

A vida é só amor

Maria da Graça Vilar / Jaime Santos
Repertório de Fernanda Maria

Não deites contas à vida
Que a vida é para viver
Sem a noção de medida
Desde o berço, até morrer

Se quiseres experimentar / Jogá-la de olhos fechados
Tudo terás a ganhar / Quando Deus lançar os dados

Entrega-a na sua mão / Como quem dá o que tem
E perderás a ilusão / De seres neste mundo, alguém

E assim poderás amar / Com infinita medida
Pois só terás a lucrar / Nessa jogada perdida

Então hás-de compreender / Seu verdadeiro valor
Só então hás-de viver 7 Porque a vida é só amor

Passeias nos meus sonhos

Manuel Carvalho / Alfredo Duarte *fado pájem*
Repertório de Fernanda Moreira

Passas as noites comigo
A passear nos meus sonhos
Sozinha p’ra meu castigo
Eu passo os dias medonhos

Ai quem me dera poder / Nas horas que o dia tem
Dormir, sonhar, p’ra te ter / Presa a meus sonhos também

Tudo isto é a saudade / Do teu corpo dos teus beijos
E creio nessa verdade / Sonhos traduzem desejos

O dia é meu inimigo / Só te tenho noite fora
De noite sonho contigo / Vem a manhã, vais-te embora

Poema do fim

Manuel Paião / Eduardo Damas
Repertório de Tony de Matos

A onda acaba na areia
O fumo acaba no ar
O dia acaba na noite
E eu acabei por te amar

Acaba a mágoa profunda
No desejo de viver
A chuva acaba no sol
E eu acabei por te ver

O outono acaba no inverno
A flor acaba no chão
E eu acabei por te dar
A alma e o meu coração

Tributo saudosista ao Fado

José Fernandes Castro
Os nomes que não constam deste tributo são sufucientes para muitos mais tributos !!!

Para entender melhor o sentimento
Que a poesia dá em rima ou prosa
Queria ter vivido nesse tempo
Do Carlos Conde e do Linhares Barbosa;
E também d’outros poetas de craveira
Radamanto e Gabriel de Oliveira

Para entender melhor o tal talento
Que só tem quem já nasce abençoado
Queria ter vivido nesse tempo
Em que o Farinha era o próprio fado;
O Manuel de Almeida já dizia
Que do fado, não era quem queria

Queria ter vivido nesse tempo
Em que Vieitas, Peres e Gabino
Carlos Ramos, Tristão e Natalino
Cantavam encantando o próprio vento;
Do tempo do António baladeiro
Do Vicente e do Afredo Marceneiro

Queria ter vivido nesse tempo
Em que Tony, Mourão e Chico Zé
Conseguiam agitar e pôr de pé
O povo, em perfeito encantamento;
Do tempo em que o Max e o fado
Passeavam quase sempre lado a lado

Mas sou do tempo do grande Maurício
Carlos do Carmo, Zel e Pelarigo
Rodrigo que andará sempre comigo
Nesta união de amor, feitiço-vício;
António Rocha e Nuno de Aguiar
Que ao fado muito têm para dar

Sou do tempo do grande Camané
Do Pedro e do Hélder, seu irmão
Do Ricardo Ribeiro, porqu’ele é
Suporte do amor à tradição;
Do Daniel Gouveia, professor
Do Jorge, que já é Comendador

Falando novamente em poesias
O mote com o qual cheguei aqui
Direi que sou do tempo do Ary
De Raínho, de Tiago e João Dias;
Do tempo em que muitos, muitos mais
Sendo tão desiguais, são imortais

Talvez a inspiração volte a aparecer
Pra que possa falar entusiasmado
Nas vozes femininas que a meu ver
Perfumaram de amor o nosso fado;
Berta Cardoso, Celeste, Beatriz
Lucília, Amália, fado de raiz

Argentina, Valejo, Nazaré
Maria Armanda e Maria da Fé
Maria Portugal, José da Guia
Leopoldina e Fernanda Maria;
Existem outras mais que foram santas
Existe fado em muito mais gargantas

Nomes de enorme grandeza
Pla nobreza / pla firmeza / E pla beleza maior
Consagrados justamente
Por quem sente / ainda presente / Essa gente de valor
Gente a quem o fado deve
O que teve / e o que não teve / Em nome dum grande amor

05 de Março de 2019

Na boca de toda a gente

Tiago Torres da Silva / Daniel Gouveia *fado daniel*
Repertório de Linda Leonardo

Se eu te disser ao ouvido
Que o fado me tem pedido
Para ninguém o cantar;
Por favor, guarda segredo
Porque o fado está com medo
Que alguém o queira matar

Anda tão envergonhado
Que diz que já nem é fado / Nem julga que o fado exista
Porque quem sente vaidade
Em dar abrigo à saudade / Já não pode ser fadista

E depois o fado diz
Que não pode ser feliz / Na boca de toda a gente
E que talvez a meu lado
Possa voltar a ser fado / Como era antigamente

É por isso que eu lhe digo
Que quando lhe dou abrigo / Sinto o peito tão cansado
E um dia, talvez consiga
Que ao chorar o fado diga / Que quer voltar a ser fado

Linda Leonardo

AMOR ALGEMADO 
Acróstico a Linda Leonardo
Tributo de José Fernandes Castro 

Lavei a alma com fados
Inventados pla saudade;
Nascendo d'alma lavada
Dentro desta voz rimada
A que me dou com verdade


Lembrei-me de viver
Enquanto o coração
Ocultava a magia
Nascida só por nós;
Assim, como quem quer
Rasgar a solidão
Descrevi em poesia
O som da tua voz



Libertei-me da saudade
Intensa e tão dolorida;
Nem mesmo assim sou melhor
Deus sabe que o nosso amor
Algemou a minha vida

Rei sem coroa

Tony Carolas  / Jorge Fernando
Repertório de Ana Maurício 

Tu és o rei sem nunca teres governado
Foste por grei um fado dentro do fado

E tudo em ti… Maurício… me faz sonhar
Pois no fado nunca ouvi alguém assim a cantar

Tanto fado é cantado
De que foste o criador
És cantado em todo o lado
Fernando, tu és o fado
E serás sempre o maior
Esta é a homenagem
Que eu te quero prestar
Um prémio à tua coragem
Pois tua voz e imagem
Vão pra sempre perdurar

E se algum dia uma estátua alguém te erguer
A Mouraria cá estará prá receber

Acho normal perpetuar a tua imagem
Pra que o fado afinal te vá prestar vassalagem

Mestre Daniel Gouveia

Tributo de José Fernandes Castro

Meu mestre, meu professor 
Defensor divulgador
Deste amor enraízado
A sua sabedoria 
Indicia que a magia 
É a mestria do fado

Todo o seu conhecimento 
Reflete o empenhamento 
De quem dá tudo o que tem
Tanto compõe como escreve 
E o dom também lhe serve
Pra provar que canta bem

Na sua voz musicada
Cada palavra é levada
Ao espaço do prazer
Canta quase como fala
E se fala, o mundo cala
Para ouvir e aprender

Meu mestre, bíblia-lição 
Coração-religião
Arte-paixão que dá brado
Feliz de quem o escuta
Com batuta ou sem batuta
A reger o nosso fado

O fado na academia

Daniel Gouveia / Luís Penedo *fado alcainça*
Repertório de Daniel Gouveia

Chamo-me Fado, meus senhores
Sou devotado aos meus valores
Cantar é lei que eu adoptei como brasão
Moro num beco, ainda visto
À papo-seco e não resisto
A um bom tinto, quando sinto inspiração

Bem me consola uma guitarra
Uma viola dá-me garra
Enche-me o peito, de tal jeito que arrepia
Com o meu trinar, de alma a sorrir
Faço chorar e, a seguir
Qualquer tormento ou desalento se alivia

Já tenho idade mas sou moço de à-vontade
Quer na alta sociedade
Quer na tasca mais ruim
Sou bem tratado por poetas, por cantores
Pessoas como os senhores
Que é que querem... sou assim

Na companhia do Seixas e do Penedo
Do Chico e Raul Semedo
Sou amado, sou feliz
E há o Coutinho , o Louro e mais companheiros
Sem esquecer "Os Feiticeiros"
Desde o Mestre ao Aprendiz

E, de Coimbra, todo o grupo das saudades
Da Sé Velha, Faculdades
Capas negras, o Choupal
Com o Segismundo, o Pracana, o João Machado
E vós todos a meu lado
Faço vibrar Portugal

Não morrerei enquanto a meta
Que marquei p'ró lisboeta
For estilar como a Severa bem sabia
Contem comigo p'ró futuro
E aqui vos digo: estou seguro 
Não há perigo; até já tenho Academia

Paixão

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório de Mariza

Há um caminho inseguro
Uma espécie de muro / Um degrau sobre os dois
Uma energia constante
Um rodopio de amante / À espera de ser dois

Uma carta que se atrasa
O cigarro, a brasa / E a cinza no chão
Um desvendar de segredo
E a mão quase a medo / A pegar-te na mão

Como é que eu hei-de apagar esta paixão
Como é que eu hei-de apagar esta paixão

Há um passado um presente
Gravado na mente / Cismado na dor
Um arrepio disfarçado
Um olhar-te de lado / E um medo do amor

A palavra que se nega
O recuo a entrega / A balançar em mim
Uma reta que se curva
Um olhar que se turva / E um medo do fim

Um verso que se conjuga
Um verbo e a fuga / Por dentro de mim
Vou pôr minhas mãos no fogo
Arriscando no jogo / E dizer-te que sim

Um verso que se conjuga
Um verbo e a fuga / Por dentro de mim
Vou pôr as minhas mãos no fogo
Arriscar-me no jogo / E dizer-te que sim

Corrido dos botões

Diogo Clemente / Popular *fado corrido*
Repertório de Sara Correia 

De saudades fala a gente
Tantas vezes sem razão
Saudades só quem as sente
É que sabe o que elas são

Cada noite aqui te vejo / Junto da minha janela
Somos o vento e a vela / De um barco que não desejo
Trazes mentiras e um beijo / Na boca de quem não sente
Não me iludo por quem mente / Digo eu, prós meus botões
E a fugir das ilusões
De saudades fala a gente

Hoje sol, ontem luar / Ora luz, ora sol posto
És como as tardes de agosto / Vão e vêm devagar
Eu acabo por esperar / Entre nós e a solidão
Não há tempo nem razão / Quando às tuas mãos perdida
Esqueço as horas e a vida
Tantas vezes sem razão

Fica o silêncio profundo / Das horas em que não estás
Mas tu chegando, és capaz / De me levar num segundo
Tendo-te, amor, por meu mundo / Tenho o mundo à minha frente
Falam da vida da gente / E a quem ouve são verdades
Só não falem de saudades
Saudades, só quem as sente

Depois de tanto esperar / Entre sinais e segredos
Malfeito fora se os medos / Não ocupassem lugar
E ainda que o teu olhar / Siga as pedrinhas do chão
Eu dei-te o meu coração / E aqui me tens p’lo que for
Só quem tem penas d’amor
É que sabe o que elas são

Lava a camisa com jeito

Mote de Vítor Lourenço / Glosa de Daniel Gouveia / João Maria dos Anjos
Repertório de Daniel Gouveia 

Lava a camisa com jeito
Não lhe dês algum rasgão
Que está fraquinha no peito
Do bater do coração
                                      
O rio e tu, rapariga / Fazem um par a preceito
Com sabão e uma cantiga / Lava a camisa com jeito

Mas tem cautela, catraia / Que andam silvas pelo chão
Arregaça a tua saia / Não lhe dês algum rasgão

Lava a camisa e sorri / Mas não a esfregues a eito
Que é de suspirar por ti / Que está fraquinha no peito

Quem me dera o teu abraço / E esta suprema ambição
Dançar contigo ao compasso / Do bater do coração

Hoje

Diogo Clemente / José António Sabrosa *6as*
Rpertório de Sara Correia

Hoje eu peço que me entendas
Que nos valha algum amor
No adeus tudo é preciso
Não me beijes nem me prendas
Não se turve a minha dor
No teu olhar indeciso

Hoje sei dos meus caminhos
Já corri muitas moradas / A procurar o meu nome
Nunca foram tão sozinhos
Meus olhos de tantos nadas / Nem tão grande a minha fome

Hoje a vida é mais pesada
Escreve-me o corpo de medos / Tatuagens de incerteza
É das mãos da madrugada
Da solidão dos teus dedos / Que se desenha a tristeza

Hoje eu digo tudo isto
Que sigo a minha viagem / Que o que foi já se desfez
E diria que desisto
Se houvesse em mim a coragem / De ser sincera uma vez

Fado rezado

Mário Raínho / Raúl Ferrão *fado alcantara*
Repertório de Sónia Santos

Cruzo o meu xaile sobre o peito, em devoção
Como fosse uma oração que vou rezar
E nos cadilhos, nervosos dedos enleio
Apenas pelo receio de me enganar

De não saber de cor, este fado-reza
Porque a alma me represa, mas com decoro
Atiro a voz, para aos céus poder chegar
Para Deus me ouvir cantar
Quase num choro

Este fado que choro a cantar
Tem o seu altar e um sacrário antigo
Num lugar onde almas dispersas
Abaixam conversas p’rra rezar comigo
Fecho os olhos e saio de mim
E esta fé sem fim a voz me conquista
É assim, por virtude, ou pecado
Que faço do fado oração fadista

Quase que queria pôr meu xaile nos cabelos
Como um véu e com desvelos orar meu fado
E que esses versos fossem contas dum rosário
A guitarra, um relicário abençoado

Deus me perdoe de lhe esmolar um perdão
De atrever uma oração desta maneira
Mas a cantar sinto melhor o que digo
Creio não merecer castigo, assim Deus queira


Fora de cena

Manuela de Freitas / José Mário Branco
Rpertório de Kátia Guerreiro 

Sem a sombra que projeta à hora certa
O espaço de luz em que me exponho
Sem a voz com que a noite me desperta
Insónia em que renovo cada sonho;
No espaço de luz em que me exponho

Sem os limites a que me condeno
Na busca ilimitada de infinito
Sem a grande verdade com que enceno
A única mentira em que acredito;
Na busca ilimitada de infinito

Sem a dor partilhada com que enfrento
A solidão que me invade e desagrega
Sem essa perdição que é o momento
Da impune violência da entrega;
Na solidão que me invade e desagrega

Dispersa por sentidos sem razão
Minha alma é um fantasma adormecido
E o corpo, repousado à exaustão
Disperso, por razões, perde o sentido

Distante

Hélder Moutinho / Paulo Valentim
Repertório de Kátia Guerreiro

Porque não oiço no ar a tua voz
Entre brumas e segredos escondidos
Descubro no silêncio entre nós
Mil versos de mil cantos esquecidos

Porque não vejo no azul escuro da noite
Nas estrelas, esse brilho que é o teu
Procuro a madrugada que me acoite
Num poema que não escrevo, mas é meu

Olha o vento que se estende no caminho
E ensaia a tua ânsia de voar
És gaivota que só chega a fazer ninho
Quando o tempo te dá tempo para amar

Mas também se perde o tempo que se tem
P’ra gastar só quando chega a primavera
Veste um fato de saudade, amor, e vem
Que é inverno mas eu estou à tua espera

Dia não

Manuela de Freitas / Pedro de Castro
Repertório de Kátia Guerreiro

Acordei, era domingo / Saltei da cama contente
Nas torneiras nem um pingo / Nem nas tomadas corrente
Quis fugir à barulheira / Do vizinho c’oas mudanças
Na escada, a minha porteira / Deu-me um postal das finanças
Dia não é dia não

Tentei comer sossegada / Na tasca da minha rua
A carne vinha queimada / A batata vinha crua
Depois fui ao “Corte Inglês” / Para assistir à sessão
Era um filme japonês / Legendado em alemão

Passeando à beira rio / Apeteceu-me ouvir fado
Fui à “tasca do vadio” / O Chico tinha faltado
Era tal a ganideira / Quis fugir mas ao pagar
Dei por falta da carteira / Inda tive de cantar
Dia não é dia não

Saí com um grão na asa / Uma nódoa no casaco
Perdi as chaves de casa / Acabou-se-me o tabaco
Deitando contas à vida / Comecei a andar a pé
Atravessei distraida / Fui para a São José
Dia não é dia não

Por ter uma mão dorida / Fiquei três horas na bicha
E quando fui atendida / Houve um engano na ficha
Acordei na enfermaria / E alguém disse com voz terna
Correu bem a cirurgia / Engessámos-lhe uma perna
Dia não é dia não

Em descanso finalmente / Pensei, ao ver-me em pijama
Ele há dias em que a gente / Não deve saír da cama
Dia não é dia não