FADO... Património Imaterial da Humanidade

FADO... Património Imaterial da Humanidade
* Este espaço foi criado * Com grande dedicação * Por alguém que faz do fado * A sua religião *
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A ausência do Livro de Visitas tem como objectivo impedir que pessoas mal formadas possam *covardemente* descarregar frustrações!
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* Os *2.920* temas publicados são referenciados como sendo repertório das fontes de extração das letras, o que
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Vestida de madrugada

Fernando Peres / José Joaquim Cavalheiro Júnior *fado porto*
Repertório de Carlos do Carmo
Este tema foi gentilmemte enviado por Fernando Henriques

Vestida de madrugada
Vaga ilusão desmaiada
Da tristeza do luar
É esta vida em desejo
Muitos beijos num só beijo
Que nunca cheguei a dar

A esperança é já amargura
Viver é quase loucura / Na saudade dos teus braços
Sinto que vives em mim
Como o princípio do fim / Que a vida faz em pedaços

E tento em vão procurar-te
Tenho medo de encontrar-te / Num amanhã que começa
Numa outra esperança perdida
Como se fosse outra vida / Que quer morrer mais depressa

Os versos de um fado

Tiago Torres da Silva / Fernando Alvim
Repertório de Gisela João

Chegou... 
E já vinha atrasado
Com o passo apressado
De quem pede perdão
Parou...
Com um ar penitente
Ao ver que aquela gente
Não lhe dava atenção

Sorriu...
Como quem fica triste
Como alguém que desiste
Da sua própria voz
Partiu... 
depois da partida
Ainda olhou de fugida 
E desistiu de nós

Deixou...
Sobre a mesa pousado
Um caderno vulgar
Com os versos de um fado
Que eu teimo em cantar

Rosa viúva

Tiago Torres da Silva / Pedro Jóia
Repertório de Rodrigo

A Rosa vive à janela
À espera não sei de quê
E quando passa por ela
A gente já mal a vê

Por trás daquela vidraça
Ela vai perdendo o viço
Mas a gente quando passa
Já nem sequer dá por isso

A rosa dançou á chuva num dia de tempestade
Em que o mar a fez viúva das ondas e da saudade
E nos dias de calor, quando á tardinha refresca
Ela lembra o seu amor que não vai voltar da pesca

A Rosa está quase cega
Das lágrimas traiçoeiras
Com que o seu coração rega
O vaso das sardinheiras

Por isso, vendo a lonjura
Que o seu olhar encontrou
Há gente que ainda jura
Que a Rosa nunca murchou

A Rosa disse-me um dia, que já nem vivia á espera
Pois na sua moradia nunca mais á primavera
A saudade foi ditosa, mas o destino murchou-me
De que adinata ser rosa, se ninguém sabe o meu nome

Cedo

Manuela de Freitas / Fernando Alvim
Repertório de Cristina Branco

Ruas desertas, águas paradas
Feridas abertas, portas fechadas

Cidade antiga, minha cidade
Que queres que diga se já é tarde

Neste degredo triste e sombrio
O teu segredo, quem o ouviu
Dizes que é cedo, mas tenho medo e sinto frio

Rua das trinas, ao longe o rio
Escadas e esquinas, um assobio
Velhas, meninas, com tristes sinas num bar vazio

Lixo no cais, o casario
Coisas banais, um cão vadio
Desço a calçada, não penso em nada e sinto frio

Jornais, revistas, truques e manhas
Vagos turistas, chuva e castanhas

Ouve-se um canto triste e cansado
Parece um pranto, dizem que é fado

Rua do ouro, chego ao Rossio
Não sei se choro, não sei se rio
Subo a avenida, estou tão perdida, está tanto frio

Cidade antiga, dizes que é cedo
Que queres que te diga se não te entendo
Mas vou ouvindo e repetindo, mesmo não crendo

Até que cedo, minha cidade
Sem frio nem medo, que Deus te guarde
Com teu segredo, contigo aprendo, que nunca é tarde

Esta solidão de monge

João Dias / António dos Santos *balada*
Repertório de Rodrigo

Vem de longe, muito longe
Esta solidão de monge
Nenhuma memória alcança
Não me lembro de ninguém
Diz-me, diz-me minha mãe
Se algum dia fui criança

Donde vêm, p'ra onde vão / Pedaços de duro chão
Que só os meus pés conhecem
Retalhos de sofrimento / Proibindo ao pensamento
Os sonhos que me apetecem

Se me deram por brinquedo / Caminhos de sombra e medo
Não terei sido criança
Vem de longe, muito longe / Esta solidão de monge
Nenhuma memória alcança

Para cá, para lá

Amélia Muge / Fernando Alvim
Repertório de Pedro Moutinho

E passas tu, para cá, para lá
E o tempo encalha; que descompasso
Bailando no meu desejar
Teu olhar faz parar o meu passo

E passas tu, para cá, para lá
Apressam-se as horas, deixam-me aqui
Já vou onde sítio não há
Ando à roda, parada, à procura de ti

Está aqui ou ali / Já não sei se algum sítio averá
Onde eu possa dizer / De certeza que aqui não está

E num segundo até posso apostar
Que até já dei a volta ao mundo
Já ando no céu a boiar
E já voo no mar mais profundo

E passas tu, para cá, para lá
E eu no meio tão baralhado
Meus olhos já estão revirados
Para cá, para lá, cada um p’ra seu lado

Rosa da Mouraria

Frederico de Brito / Martinho d'Assunção
Repertório de Rodrigo

Constou pela Mouraria
Que a Rosa ao saír de casa / Ia quase como louca
E a mostrar como sofria
Tinha os olhos numa brasa / E espuma ao canto da boca

Há quem diga que o rapaz
Ainda lhe pediu á porta / Que pensasse o que fazia
Ela nem olhou p'ra trás
Parecia que estava morta / Por saír da Mouraria

Altas horas, lá dentro uma luz enorme
Mostra bem que ele nem dorme
Que nem descansar consegue
Atá a porta que dantes estava trancada
Fica apenas encostada
À espera que a Rosa chegue

Os que ali passam, reparam
Na falta que a Rosa faz / Vendo os vasos na parede
As sardinheiras secaram
E até um cravo lilás / Caíu, mortinho de sede

Mas naquele triste dia
Em que ocorreu esta cena / Contaram tudo em voz alta
E agora na Mouraria
Fala-se á boca pequena / Que a Rosa faz muita falta

A velha da Mouraria

João Ferreira Rosa / Miguel Ramos *fado maragaridas*
Repertório de Nuno da Camara Pereira

Aquela velha mulher da Mouraria
Que triste, pede esmola e canta o fado
Baixinho, sem saber quanto me feria
Ouvi-la ter saudades do passado

È tão mais triste o fado dessa gente
Que a miséria da vida conheceu
Tratei-a por senhora, reverente
Em frente à dôr do fado que é o seu

Esas visões das ruas de Lisboa
Que é tão forte, tão pobre, e foi tão nobre
Que tem uma canção que nos magoa
E toda uma saudade que não morre

È tão triste, por te amar ter de sofrer
A tristeza que sinto por te olhar
Lisboa, minha terra por esquecer
E que um dia de novo há-de acordar

Abraço ao Porto

Mário Raínho / António Redes Cruz
Gravado por Mário Raínho

Quando os meus cinco sentidos
Alcançam maior conforto
Decerto que andam perdidos
Nas velhas ruas do Porto

Seu casario singelo
Vou beijando em desvario
Mora num barco rabelo
Meu olhar, à beira-rio


Ai este Porto tem
Gente de paz e bem
Hospitaleira como não há outra igual
Por isso Deus lhe deu
Como prenda do céu
Um Rio Douro e um Palácio de Cristal

Namoro a gente ribeira
Rezo com o povo na Sé
Adoro a gente tripeira
Verdadeira como é

Sou dentro desta cidade
Numa rima d'emoção
Vinho do Porto, saudade
Um amigo, ou um irmão

À beira da minha rua

João Monge / Popular *fado menor*
Repertório de Mísia

À beira da minha rua
Bateu um mar pequenino
Era regaço da lua
À beira do meu destino

Dobrei a voz com as mágoas / E dela fiz um barquinho
São águas senhor, são águas / Deixai este meu caminho

Fechei os olhos ao mar / Que ele me leve a perder
Este jeito de cantar / Tem esta forma de ver

Tão longe vai o barquinho / Que até o mar continua
Parte e regressa sózinho / À beira da minha rua

No te quiero sino porque te quiero

Pablo Neruda / Armando Machado *fado licas*
Repertório de Rodrigo

No te quiero, sino, porque te quiero
Y de quererte a no quererte, llego
Y de esperar-te cuando no te espero
Pasa mi corazon del frio al fuego

Te quiero solo porque porque a ti te quiero
Te ódio sin fin, y odiandote te ruego
Y la medida de mi amor viajero
Es no vierte y amarte como como un ciego

Talvez, consumirá la luz de Enero
Su rayo cruel, mi corazon intero
Robandome la llave del sosiego

Em esta historia solo yo me muero
Y moriré de amor porque te quiero
Porque te quiero amor, a sangue y fuego

Pássaro voz

Mário Rainho / Fernando Alvim
Repertório de Ana Moura

Solto do meu peito
Gaiola fechada
Esta minha voz que livre voa e ganha altura
Sem perder o jeito
Ave libertada
Em nuvens de versos tem vertigens de ternura
Esta minha voz que livre voa e ganha altura
Em nuvens de versos de ternura

À noite te entrego
Porque o sol te queima
Pássaro que a lua e as estrelas quer beijar
Se nada lhe nego
Porque tanto esta voz teima
Depois de ser céu, querer ser mar?

Volta p’la manhã
Ao beiral da alma
Ainda trás na boca um gosto a fado e a poesia
Mas sei que amanhã
Perde à noite a calma
E volta a ser o céu, luar de prata e maresia
Ainda trás na boca um gosto a fado e a poesia
E volta a ser céu, luar, maresia

Meu amor vem ver o rio

Carmo Rebelo de Andrade / Fernando Alvim
Repertório de Carminho

Meu amor vem ver o rio
Corre corre de mansinho
Lembra as saudades que tenho
Memórias que não detenho
No correr do meu caminho

Meu amor vem ver o rio / Corre corre devagar
Lembra a saudade que sinto / Esta que escondo e que minto
Se não te vejo chegar

Mas vai nele uma certeza / Corre veloz como o vento
São memórias de outras águas / As suas vidas e mágoas
Presas no correr do tempo

Meu amor vem ver o rio / Desce um triste recordar
Saudades do que partiu / Diz adeus ao casario
E assim se entrega ao mar

Tantos fados, tanta vida

Manuela de Freitas / Fernando Alvim
Repertório de Filipa Pais

Nem sempre fala de penas / De virtudes ou pecados
Pois das coisas mais pequenas / Faz o fado grandes fados

Andorinha, procissão / Um raminho de violetas
Uma ginjinha, um pregão / Rosmaninho, tranças pretas

Vida de coisas pequenas
São rimas, são cenas / De letras de fados
Teia p'lo fado tecida
Com versos tirados / Da vida vivida
Já não são versos apenas
Quando à guitarra cantados
Fazem das coisas pequenas
Tanta vida, tantos fados

Balcão de bar, marinheiro / Varina, colcha com barra
Um altar, um cacilheiro / Uma esquina, uma guitarra

Estendais, uma canoa / Vielas e escadinhas
O cais, a luz de Lisboa / Janelas com tabuinhas

Jardim da saudade

Hélder Moutinho / Fernando Alvim
Repertório de Ana Moura

Trago este fado que quero cantar à saudade
Como se o tempo surgisse na calma de um beijo
Tenho uma casa com vista sobre a cidade
E uma saudade perdida nas ondas do Tejo

Tenho um jardim de ternura quando me deito
Com um aroma do amor por onde me prendo
Tenho uma história de vida cravada no peito
E uma saudade perdida nas ondas do vento

Trago cravada no peito uma sentida saudade
Ai se Lisboa não fosse a minha cidade
Trago cravada no peito

Sinto o aroma da noite se falo com ela
Sou como um pássaro livre que canta a verdade
Trago este fado que canto da minha janela
Ai se Lisboa não fosse a minha cidade

Alguém viu por aí a Margarida?

João Monge / Fernando Alvim
Repertório de Camané

Alguém viu por aí a Margarida
A que mora nas águas-furtadas
Tem há dias a roupa estendida
E não a sinto passar nas escadas

Já lá fui bater, ninguém dá fé
Perguntei se alguém a tinha visto
Fui a pé daqui até à Sé
E ninguém a viu, já viram isto?

Até me dava ares de um modelo
Daqueles que dão na televisão
Quando ela soltava o seu cabelo
Fazia parar uma multidão

Que é feito da nossa Margarida
A moça mais vistosa da viela
Partiu e deixou a roupa estendida
Só para a gente não se esquecer dela

Cá p’ra mim, que até nem sou de intrigas
Já deve andar pardal no telhado
Sempre ouvi dizer às raparigas
Que bem guardado é o pecado

Já ninguém lhe volta a pôr a vista
Fica-te com esta, meu amigo
Se ela fugiu com algum fadista
Mais valia que fosse comigo

Morena dos olhos verdes

Letra e musica de Julio Vieitas
Repertório de Rodrigo

Noite de São João, nunca esqueci
Ali á Madragoa, mesmo ás Trinas
A noite era de sonho quando eu vi
A mais linda, entre as mais lindas varinas

Quando a Gracinda entrou no bailarico
O Xico p'ra alcançar singelo fim
Foi ofertar-lhe um cravo e um manjerico
Depois o Xico cantou-lhe assim

Tu que és graciosa e bela... tem cautela
Morena de entontecer
Varina dos olhos verdes... se te perdes
Por ti me quero perder
Vamos saltar á fogueira... mas no calor da braseira
Vê lá, não caias
O amor por vezes infalama... não vá o calor das chamas
Queimar-te as saias

Prossegue o bailarico a noite inteira
Entre alcachofras, cravos e balões
Foi talvez assim, desta maneira
Que um par uniu p'ra sempre os corações

Se acaso ás vezes, vejo a Gracinda
Quando de rua em rua ela apregoa
Com imensa saudade eu lembro ainda
A noite mais linda da Madragoa

Tatuagem de rimas

Mário Rainho / Fernando Alvim
Repertório de Ricardo Ribeiro

Assim que estendo a alma sobre esta cama
E o sono não se deita à minha beira
Há um grito de fado que me chama
Duns versos sobre a mesa de cabeceira

Dou voltas e mais voltas ao meu poema
Que se crava no linho deste meu leito
E a palavra fado é sempre o tema
Das rimas tatuadas no meu peito

É tão perto a alvorada, e pelos sons da rua
Vai a cidade aos poucos despertando
No espaço vem render o sol a lua
E eu ainda acordado vou sonhando

Se eu disser adeus

Hélder Moutinho / Fernando Alvim
Repertório de Heldér Moutinho

Quando eu disser adeus será verdade
Irei mesmo viver perto de mim
Que eu não pertenço às noites da saudade
Nem sou folha caída no jardim

Quando eu disser adeus não é loucura
É forma de viver, é estar no mundo
Desmantelando a noite negra e pura
P’ra me perder no sonho mais profundo

Partir, só quando a terna madrugada
Trouxer palavras de me entristecer
E eu corro numa estrada desnudada
Das formas que me ensinam a viver

Mas se eu disser adeus será verdade
Irei com a tristeza no olhar
Que eu não pertenço às noites da saudade
Mas vou sentir saudades de te amar

Sete sílabas de chita

Tiago Torres da Silva / Fernando Alvim
Repertório de Heldér Moutinho

A noite tarda / Numa alma tão secreta
Que sem querer ficou à guarda / Do coração de um poeta

A noite sabe / Que talvez por ser do fado
Um dia acabo / Sem querer ter começado

A noite ri-se / E na sua timidez
Chega à velhice / E quer ser jovem mais uma vez

Silêncio... está a chegar a saudade
Silêncio... a minha alma sorri
Silêncio... sinto que a noite me invade
Quero abraçar a saudade
E depois morrer por ti

A noite agita / Uma quadra mal bordada
Sete sílabas de chita / P’ra cantar à desgarrada

A noite insiste / Numa rima tão modesta
Um verso triste / Que ela sabe que não presta

A noite ri-se / Dessa tua pequenez
Diz ser tolice / E faz o verso que ninguém fez