As *4.270* letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores !!!
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Se o motor de pesquisa não responder satisfatóriamente, aceite as minhas desculpas !!!
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Vem

Maria Rosário Pedreira / José António Sabrosa *6as*
Repertório de Carminho

Vem essa coisa qualquer
Como seta despedida
Direita ao meu coração
E eu choro e rio sem querer
Nunca de mim tão perdida
Pobre de mim tão sem chão

Que luz è essa que cega / Que desatina, atordoa
Que vem de dentro e m’invade
Que me transforma se chega / Mas quando parte, magoa
Num alívio e saudade

Vem essa coisa tão estranha / Dar-me um laço que desprende
Uma doçura que amarga
E eu pequenina e tamanha / Num corpo que não se rende
A uma estreiteza tão larga

Que graça è essa tão séria / Que corrói até ao osso
E me arde de tão fria
Dá-me tudo, até miséria / Vem meu amor que eu não posso
Viver assim mais um dia

Passa para outro passeio

José Guimarães / Alvaro Martins
Repertório de América Rosa

Desceste tanto na vida
P'la traição que me fizeste
Que essa vida perdida
Não ė a que tu quiseste

O amor agora ė ódio
O ódio por que eu anseio
Mas se tu me vires na rua
Passa p'ra outro passeio

Passa p'ra outro passeio / Segue este conselho meu
Se paras na minha frente / Ė o meu fim e o teu
Se paras na minha frente / Ė o meu fim e o teu
Passa p'ra outro passeio / Segue este conselho meu

Tu hás-de descer mais baixo
Que uma folha pisada
Que este desgosto que tenho
Já não é ódio nem nada

Mas vingar-me è só agora
O ódio por que eu anseio
Mas se tu me vires na rua
Passa p'ra outro passeio

Fadista velhinho

João Ferreira Rosa / Alfredo Duarte *fado lumiar*
Repertório de João Ferreira Rosa

Um fadista já velhinho
Muito triste coitadinho
Contou-me quase a chorar
As saudades do passado
Em que ele cantava o fado
Que todos queriam escutar

Contou-me então como eram
As noitadas que fizeram / Fadistas e cavaleiros
O alegre São Martinho
Nos retiros com bom vinho / E o calor dos fogareiros

De olhos semicerrados
Baixinho lembrou uns fados / Sua tristeza aumentou
Mas parando de repente
Ohando-me bem de frente / Com voz mais firme afirmou


A minha grande tristeza
Não me é dada pela pobreza / Nem lembranças que contei
É o medo de morrer
Sem de novo poder ver / 
Portugal ter o seu Rei

A vinha e o olival

Pierre Aderne / Mú Carvalho
Repertório de Cristiana Águas e Pedro Moutinho

Janelas vão-se abrir
Os olhos marejar
Telhados vão sorrir
Os barcos vão dançar

Nas ruas de Alfama / Vai ter festa e procissõ
Nos rossios de quem ama / Nas quadras da oração

Na luz dessa cidade / Nascente de água pura
Sacio a saudade / Recebo minha cura

Na luz do teu olhar / Fui fogo e tive frio
Com o Sado a desaguar / Nos fados que copio

Já fui vinha e olival / Lá gastei as minhas vidas
No açucar e no sal / De chegadas e partidas

Mulher amor eterno

Gabriel Silva / Carlos da Maia *fado perseguição*
Repertório de Ana Maurício

Sou mulher, calor, alento
Sou queixume, sou lamento
É tudo o mais que Deus quis
Sem ser esteira, sou do mundo
E no meu sentir profundo
Choro, canto e sou feliz

Sou vida que um dia acaba
Sou beleza que se esmaga / Ao beijo mais violento
Os meus braços são abrigo
E trago sempre comigo / Ciúme, amor, sentimento

Sou a mãe de gerações
Irmã gémea das traições / Ternura, pranto, alegria
Virgem de ventre fechado
Que se não fosse rasgado / Ninguém no mundo existia

Sou doçura, sou bondade
Sou mentira, sou verdade / Das loucas paixões, inferno
Sou alma, tortura, grito
Deste medonho infinito / 
Sou mulher, amor eterno

Outras margens

João Fernando / José Alberto
Repertório de Afonso Oliveira

Sou a margem dum povo
Que se encontra ao sul do Tejo
Vejo coisas noutras margens
Que no fundo não desejo
Vejo aves que se esgotam
Vejo peixes que não saltam
Vejo fumos que embalam
Incertezas que nos matam

Vejo bombas rebentarem / Com buracos d'incerteza
Vejo o mundo lamentar / Tantas margens de pobreza
Oiço vozes que nos gritam / O porquê de tanta dor
Quantos tantos e outros tantos / Falam tanto de amor

Mas mesmo assim acredito / Noutras margens de alegria
Em que o homem seja a força / De cantar ainda um dia
Este fado que não é / 
Um clamor de tempestade
È sinfonia talvez / Ou um grito de amizade

Tributo a António Pelarigo

Autor: Carlos Fragata
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Pus o meu chapéu, vesti a samarra
E fui por Lisboa procurando o Fado
E num beco ouvi c
horo de guitarra
E uma voz rouca num tom magoado

Entrei e lá estavam com seu ar garboso
Um grande fadista e o fado antigo
Encostei-me ao canto, mudo e respeitoso
Porque quem cantava era o Pelarigo


Que momento aquele e que sorte a minha
Com tanto retiro que há no luso império
Calhou-me escolher um bairro alfacinha
Onde foi cantar um fadista a sério!

Ouvi cantar as janeiras

João Ferreira Rosa / Armando Góis
Repertório de João Ferreira Rosa

Ouvi cantar as Janeiras
Em terras de Portugal
Vi milho-rei desfolhada
Fados tristes por meu mal

Ouvi cantar as Janeiras / No meio do olival
Bacalhau, por cima azeite / Vinho tinto, bom Natal

Ouvi cantar as Janeiras / Mais tristes, triste sinal
Dos anos que vão correndo / Somente esperança afinal;
Ouvir cantar as Janeiras
Quem me dera Portugal

Quero cantar para a lua

Amália Rodrigues / Pedro de Castro
Repertório de Kátia Guerreiro

Quero cantar para a lua
Deixem-me cantar na rua
Pois foi da rua que eu vim
Vim da rua, vim das pedras;
Nada sei das vossas regras
Regras não são para mim

Deixem-me chorar ao vento
Deixem andar meu lamento 
Pode ser que chegue ao céu
Deixem-me o meu pensamento;
Que embora seja tormento 
Que seja, mas seja meu

Os beijos de fadista

António Mendes / Fontes Rocha *fado isabel*
Repertório de Ana Maurício

Eu nunca tinha beijado
A boca desse fadista
Os seus beijos eram fado
Com sabor tão realista

Os beijos quentes e bons / Que ele me deu nesse dia
Era o Fado dos Dois Tons / Com sabor a Mouraria

Quando chegou à noitinha / Beijou-me com tal ternura
E como já se adivinha / Entrou no Fado Loucura

Esses beijos que levei / Sempre no tom preferido
Foram tantos que eu achei / Sabor a Fado Corrido

Mas quem beijar um fadista / Deve ter muito cuidado
Cada beijo nos conquista / 
Porque a boca sabe a fado

Bairros de Lisboa

Domingos G. Costa / Francisco Carvalhinho
Repertório de Adeleide Rodrigues

Vem comigo visitar / Os bairros desta Lisboa
Numa noite em que o luar / A nossa terra abençoa

Vem ver a Graça cantando / Vem ver de Alfama a magia
A Madragoa bailando / E chorando a Mouraria

Desde o Castelo ao mar infindo
Tudo isto ė belo, tudo isto ė lindo
Lisboa airosa è afinal
Tela famosa do meu Portugal


Quando Lisboa desperta / Alegre, fresca e louçã
Lembra uma janela aberta / A meio do sol da manhã

E aqui tens o estranho encanto / Dos bairros desta cidade
Onde se fala do pranto / 
Do fado, amor e saudade

Saudade é tudo o que fica

Mote: Domingos Gonçalves Costa / Glosa: R. Lobato Faria e António Rocha
Repertório de Carlos Zel

Perguntas-me o que significa
Saudade, vou-te dizer
Saudade é tudo o que fica
Depois de tudo morrer


Tu que jamais conheceste / A dor que as almas tortura
Que só conheces ventura / E por amor não sofreste
Tu, que uma saudade agreste / Nunca te fez padecer
Nem cravou no teu viver / Um espinho que mortifica
Perguntas-me o que significa
Saudade, vou-te dizer


Saudade é um bem ruím / Que tortura o coração
É o princípio do fim / De um sonho sonhado em vão
Saudade é doce ilusão / De um amor que não nos quer
Que a gente teima em esquecer / E a própria dor glorifica
Saudade é tudo o que fica
Depois de tudo morrer


Lágrima caída (2)

Francisco Madureira Pinto / Luís Eduardo de Campos
Repertório de Adelina Silva

Quisera ser uma lágrima
Para em teu olhar nascer
Deslizar em tua face
Em tua boca morrer

Duma lágrima caída / Nasceu a minha paixão
Numa saudade perdida / Morreu a minha ilusão

As lágrimas quero ser
Se um dia te vir chorar
Para em teu rosto correr
O meu penar

Horas tristes que passaram / Eu hoje guardo sem rancor
As migalhas que ficaram / São restos do nosso amor

E dos meus olhos bailaram / Duas lágrimas de medo
As luzes se apagaram / 
À noite morreu mais cedo

Adoro a noite

Artur Ribeiro / Martinho d'Assunção *fado condessa*
Repertório de Adelaide Rodrigues

Quando a noite se faz dia
A minha vida sombria
Fica vazia de sonho
Na minha mente se entranha
Uma escuridão estranha
Que só à noite transponho

Quando vai a madrugada / E o sol se reduz ao nada
Das mais caras ilusōes
È quando conta a vontade / Eu me perco na cidade
Ao sabor das multidões

Só quando a noite aparece
È que de novo acontece / Ter razão para viver
Ė quando sonho acordada
E revejo em cada fado / 
Quem gostaria de ser


Até chegar a ti

Artur Ribeiro / Joaquim Campos *alexandrino*
Repertório de Leonor Santos

Até chegar a ti mil fogos ateei
E rojei aos pedaços meu coração na chama
Até chegar a ti às cegas caminhei
Andei seguindo passos de quem pisava lama

Até chegar a ti eu percorri na vida
As ruas mais sombrias, sem fé e sem razão
Depois quando te vi eu tentei a subida
Das altas pedrarias em busca do perdão

Deste-me a tua mão e juntos vida fora
A tua mão segura quis guiar-me até aqui
Qual bola de sabão, subi hora após hora
Fiquei da tua altura mas não cheguei a ti


Madrugada do meu sonho

Hélio da Costa Ferreira / José António Sabrosa *fado pintadinho*
Repertório de Adelaide Rodrigues

Madrugada do meu sonho
Primavera do meu fim
Esperança fugidia
Deitada dentro de mim

Minha manhã meu nascer / Mentira já sem abrigo
Minha noite meu viver / Abraço do meu castigo

Tarde de dia parada / No tempo que me dá frio
Praia deserta, morada / Nas margens do nosso rio

Maldade será vencida

Ana Madalena Araujo / Julio Proença *fado proença*
Repertório de Amélia Maria

Quem levantou este muro
Quem se apraz em dividir
O
espaço do nosso amor
À fé do amor eu juro
Este muro há-de ruir
Este muro hei-de transpor

Muro de inveja e maldade
Que tenta ensombrar a vida / Que nós queremos viver
Se o nosso amor è verdade
Maldade, serás vencida / Não terás esse prazer

Volta três vezes a inveja
Para quem sabe invejar / Ė antigo este ditado
Eu não quer que se veja
Quem nos inveja, pagar / 
Mas hão-de ver-te a meu lado


Amor que dá vida

José Guimarães / Alvaro Martins
Repertório de América Rosa

Fez-me feliz tua ternura
Mas Deus não quis tanta loucura
Outra encontraste no teu caminho
E desprezaste o meu carinho

Não posso viver
Sem ti a meu lado
Ė negra esta dor
De fé já perdida
Não, não pode ser
Não quero este fado
Volta meu amor
Que o amor dá vida


Não ė ciúme nem ė despeito
Ė um queixume que sai do peito
Por haver tanto homem p'aí
E eu sofrer tanto, tanto, por ti


O suspiro

Bocage / Paquito Rebelo
Repertório de Adriana Marques

Voai, brandos meninos tentadores
Filhos de Vénus, deuses da ternura
Adoçai-me a saudade amarga e dura
Levai-me este suspiro aos meus amores

Dizei-lhe que nasceu dos dissabores
Que influi nos corações a formosura
Dizei-lhe que é penhor da fé mais pura
Porção do mais leal dos amadores

Se o fado para mim sempre mesquinho
A outro of'rece o bem de que me afasta
E em ais lhe envia Ulina o seu carinho

Quando um deles soltar na esfera vasta
Trazei-o a mim, torcendo-lhe o caminho
Eu sou tão infeliz, que isso me basta


Aquela estrela *Tristão*

João de Freitas / Armando Augusto Freire
Repertório de Tristão da Silva

Lá longe, muito ao longe, há uma estrela
Uma estrela radiante
Que me arrasta e que me guia
Quem sabe se è talvez por causa dela
Por causa dela è que eu ando
A sofrer de noite e dia

Acorda coração desse teu sono
Não durmas mais e tem muita cautela
Esquece duma vez aquela estrela
Pois vives ao abandono
E sofres por causa dela

Porque vives assim, diz a verdade
Diz a verdade sem pejo
Linda como a luz da lua
Sai desse pedestal, por caridade
Por caridade eu desejo
Que esqueças aquela rua

Fadista bailarino

Carlos Conde / Popular
Repertório de Alfredo Duarte Jnr

Não canto p’ra dar nas vistas
Nem p’ra ter nome afamado
No meu bairro de fadistas
Toda a gente canta o fado

Afirmam que sou gingão / E bailarino a cantar
Quem bebe e fala calão / Só canta o fado a gingar

Posso iludir o preceito / De cantar e estar parado
Mas não posso, não me ajeito / A ser estátua do fado

O jeito disfarça a voz / E eu quero manter de pé
O cachecol com dois nós / P’ra dar realce ao boné

Como o fado não tem lei / Eu p’ra ser franco e sincero
Canto o fado como sei / Como posso e como quero

Se sou bailarino ou não / É comigo e chega bem
Não vivo da imitação / 
Nem tiro a vez a ninguém


O choro da terra

Eduardo Jorge / Alfredo Paredes
Repertório de Mar & Fados

Quem deu cor ao firmamento
Quem pintou as árvores
Porque brilham as areias
Já chora o vento
Já estalam os mármores
De quem são estas ideias

Quem criou as ondas do mar
O canto do rouxinol
E o cantar das baleias
O encanto do luar
A nuclear no atol
De quem são estas ideias

Porque arde a Amazónia
Que entope o céu de gazes
Quem suja a maré
Ai, ai, choro da terra
Que das guerras sois capatazes
Esburacando a nossa fé
Ai, ai, choro da terra

Juras mentirosas

Ana Madalena / Alves Coelho Filho *fado maria vitória*
Repertório de Amélia Maria

Foste um projeto d'amor
Que eu quis ver realizado
Que eu rasguei com muita dor
Mas que ė hoje um mal menor
Que já pertence ao passado

Tuas juras mentirosa / Ė certo que me iludiram
Como pétalas de rosas
Tão belas, tão amorosas / Envelheceram, caíram

Pobre daquele que tem / Um coração como o teu
Que não sabe amar ninguém
Não conhece o melhor bem / De amar assim como eu

Mas não estou arrependida / Por ti não hei-de chorar
Não me levas de vencida
Se te amei e fui traída / 
Foi por não saberes amar

Estrada da vida

Letra e musica de João Dias Nobre
Repertório de Maria José da Guia

Estrada da vida
Ó estrada do meu destino
Onde, feito peregrino
Meu coração se perdeu
Estrada da vida
Feita de dor e d’esperança
Quem a subiu não se cansa
Que o diga quem a desceu

Estrada da vida
Longa estrada por onde eu sigo
Sem ter mesmo um braço amigo
Onde me possa apoiar
Estrada da vida
É onde os passos mal dados
Ficam p’ra sempre marcados
Como na carne a sangrar
Volta depressa
Ó minha esp’rança perdida
Um rumo certo na vida
Quero por fim encontar

À noite

António Laranjeira / Guilherme Coração *fado sem pernas*
Repertório de Andreia Alferes

À noite não tenho medo
Não tenho medo de mim
Se o dia chega mais cedo
A noite não chega ao fim

À noite a vida não pesa / È mais incerto o sofrer
A cantar também se reza / E o dia volta a nascer

A noite não è das rosas / Nem o perfume das flores
E as frases prodigiosas / Nem sempre falam d’amores

A noite não è do céu / A praia não è do mar
Também tu já não ès meu / E continuo a cantar

Prece *Pessoa*

Fernando Pessoa / João Braga
Repertório de Rodrigo Costa Félix

Senhor, a noite veio e a alma é vil
Tanta foi a tormenta e a vontade
Restam-nos hoje, no silêncio hostil
O mar universal e a saudade

Mas a chama que a vida em nós criou
Se ainda há vida, ainda não é finda
O frio morto em cinzas a ocultou
A mão do vento pode erguê-la ainda

Dá o sopro, a aragem, a desgraça ou ãnsia
Com que a chama do esforço se remoça
E outra vez conquistemos a distância
Do mar ou outra, mas que seja nossa

Aquela Rosa da Mouraria

António José / Rocha Oliveira
Repertório de António Severino

A Rosa da Mouraria / Na moldura da janela
Um poema feito povo / E o povo gostava dela

Não conheceu pai nem mãe / Tinha um encanto qualquer
Uma Rosa diferente / No jeito de ser mulher

E quem diria na viela tão estreitinha
Toda a velha Mouraria fez da Rosa uma rainha
Mas caprichosa fez-se a Rosa, quando um dia
Deixou a Rosa para sempre a Mouraria


Nessa janela fechada / Falta a silhueta dela
E quem lá mora não tem / Nenhuma flor na janela

E o povo que se rendia / Junto à janela vistosa
Sente que hoje a Mouraria / 
Está mais pobre sem a Rosa

Olha-me rindo uma criança

Fernando Pessoa / Diogo Clemente
Repertório de Ricardo Ribeiro

Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madrugou
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca me bastou

Bem sei, tudo isto é um sorriso
Que é nem sequer sorriso meu
Mas para meu não o preciso
Basta-me ser de quem mo deu

Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim
És a memória de um lugar
Onde já fui feliz assim

Eu quero morrer no mar

António Lobo Antunes / Manuel Reis
Repertório de Sandra Correia

Olha os meus olhos morena
Porque a aventura è ficar
Se a minha terra è pequena
Eu quero morrer no mar

Lençóis de algas e peixes

De barcos a menear
No dia em que tu me deixes

Eu quero morrer no mar

E se o negro è a tua cor

Respirando devagar
Depois do amor, meu amor

Eu quero morrer no mar

A noite baixou os olhos

Vasco Lima Couto / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Ana Rosmaninho 

A noite baixou os olhos
No silêncio das paredes
E a vida inventou marés
Pra ser o mar que tu és
E deitar as suas redes

Mas a solidão despiu-me / E apagou a luz mais cedo
Ficou a espreitar as horas
Eu amor, porque as demoras / Mordem a boca de medo

Horas rasgadas e presas / No lugar desta cidade
Que teve de adormecer
À custa de não saber / Qual o preço da saudade

E agora no desencontro / Dum pregão feito d'escolhos
Tenho de continuar
A ver minha dor cantar / 
E a noite a baixar os olhos

A verdade do meu fado

José Guimarães / Alfredo Duarte "fado versículo*
Repertório de Adelina Silva

Não me falem do passado e da saudade
Não me falem mais d'amar e de sofrer
À verdade do meu fado è a verdade
Do que eu sinto a cantar, quero dizer

Para a morte sem disfarce a vida corre
E não temo ver chegar a despedida
Se está escrito que o que nasce também morre
Não sou eu que vou mudar a lei da vida

Olho o mundo sem maldade, confiada
No que a vida tem em si para oferecer
E ao cantar toda a verdade do meu fado
Canto a vida que escolhi para viver

Deixem-me ser como sou, porque não há
Outro bem dentro de mim, mais adorado
Posso errar por onde vou, mas deixem lá
Deixem lá que seja assim, é o meu fado

Sei que estou só

Sophia de Mello Breyner / Tiago Bettencourt
Repertório de Kátia Guerreiro

Sei que estou só
E gelo entre as folhagens
Nenhuma gruta me pode proteger
Como um laço
Deslaça-se o meu ser
E nos meus olhos morrem as paisagens

Desligo da minha alma
A melodia que inventei no ar

Tombo das imagens
Como um pássaro morto das folhagens 
Tombando se desfaz na terra fria

Abraço a Setúbal

Maria Emília Godinho / Leonardo Azevedo
Repertório de António Severino 

È pra Setúbal que vai meu abraço
Pra essa gente que não teme cargas
Homens humildes sem mostrar cansaço
Peixe que salta em chapéus de abas largas


Se o mar é violento com a fé na alma
Esperam o momento que venha a calma
Ouve-se o cantar duma voz que ecoa
Na faina do mar, quando a pesca ė boa
Há que diga até pregão pitoresco
Que só em Setúbal o peixe é mais fresco

Com a canastra à cabeça
E pedindo sempre ao céu
Que o peixe vá caindo
Nas abas do seu chapéu

Descarregadores de Setúbal
Fiéis à velha tradição
Peço a Deus que as traineiras
Vos possam sempre dar pão

Mágoa

Fernando Pessoa / Custódio Castelo
Repertório de Cristina Branco

Bóiam leves, desatentos
Meus pensamentos de mágoa
Como no sono dos ventos
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas

Bóiam como folhas mortas / À tona de águas paradas
São coisas vestindo nadas
Pós remoinhando nas portas / Das casas abandonadas

Sono de ser, sem remédio / Vestígio do que não foi
Leve mágoa, breve tédio
Não sei se pára, se flui / Não sei se existe ou se dói

A tristeza dos teus olhos

Maria Laura Paiva / Alberto Simões Lopes *fado dois tons*
Repertório de Anita Guerreiro

Pergunto ao sol e ao vento
Pergunto â noite sem fim
A causa do sentimento
Com que tu olhos pra mim

Fica triste a minha alma / Por não poder perguntar
A razão dessa tristeza / Que eu vejo no teu olhar

Gosto de ti, em ti creio / Quando tu olhas pra mim
Diz-me: não tenhas receio / Porque me olhas assim

Que me importa a minha cruz / Cheia de espinhos e abrolhos
Se eu vejo um mundo de luz / 
Na tristeza dos teus olhos

Porquê

Jorge Rosa / José Blanc *fado blanc*
Repertório de Carminho

Disse-me o vento que vinha / De bandas não sei de onde
Que procurou mas não tinha / Ideia onde se esconde
Essa paixão que foi minha
E ao grito meu não responde

Montes e vales corridos / Recantos do fim do mundo
Tão distantes e escondidos / Tudo em silêncio profundo
E estes meus cinco sentidos
Gemendo a cada segundo

De noite foges da lua / De dia o sol não te vê
Não há ninguém que possua / A razão desse porquê
E o meu viver continua
A estar à tua mercê

Sei que existes porque existes / E porque foste verdade
E com verdade resistes / A esta grande saudade
Alegra os meus olhos tristes
E volta, faz-me a vontade

O sol, eu e tu

Caetano Veloso / César Mendes e Tom Veloso
Repertório de Carminho

O céu azul, o sol no mar
Só eu e tu damos sentido
A tudo o que existe e existirá

A chuva cai
A imensidão geme num ai
E o horizonte revele-se inteiro neste chão

Nós dois aqui celebramos o mundo
Cada vez que nos olhamos de perto
Rua, floresta, deserto
Hoje, amanhã, norte, sul
O mar sob o sol todo o azul do céu
Eu e tu

Nascido em alto-mar

Eduardo Jorge / Acácio Gomes *fado acácio*
Reperpório de João Roncero Guiomar

Deram-te nome de fado
Sem pesar o significado
Nem certidão de idade
Nasceste da ondulação
Pondo fim à solidão
Dentro da nau da saudade

Deram-te nome de fado
Pesares de canto magoado / Nostálgico como a noitada
Escuro sem brilho de luar
Jeito marialva a cantar / Emoção de tudo ou nada

Conhecera eu teu berço
Que rezaria a Deus um terço / Dando voz em oração
Como um nó que nos amarra
As cordas de uma guitarra / Em forma de coração

Cantigas do mar

José Guimarães / Manuel Reis
Repertório de Sandra Correia

Tantas ondas vêm à praia
E não há duas iguais
Tantos amores conheci
Do teu é que gostei mais

Teu nome escrevo na areia
Vem o mar, logo o desfaz
Só tu não me sais da ideia
E tantas penas me dás

Olha aquela praia que o sol abrasou
Olha aquele beijo que eu não te quis dar
Olha aquela onda que a areia beijou
E a rir-se ficou, de eu não te beijar

Ficam mais verdes teus olhos
Quando estás à beira-mar
Ficam mais negros meus dias
Se não vejo o teu olhar

Cada estrela vale um beijo
Quando em teus braços me enleias
Quando o céu não tem estrelas
Contamos pelas areias

Atei o teu amor

Ana Madalena / Santos Moreira *fado moreninha*
Repertório de Ana Madalena

Atei o teu amor ao meu amor
Com laços de ternura e fé sentida
E além de Deus não vejo bem maior
Do que este bem de estar na tua vida

Se a ventura maior que há neste mundo
È ter amor na vida e amar alguem
O meu amor por ti è tão profundo
Nunca o senti tão forte por ninguém

Se Deus te destinou aos dias meus
Se tens no coração amor por mim
Entrego o nosso amor nas mãos de Deus
E então o nosso amor não terá fim

A rua que foi nossa

Maria de Castro / Armando Machado *fado lurdes*
Repertório de José Pracana

Na rua que foi nossa já não moro
Parti faz hoje um ano, não voltei
E a dor duma saudade ainda choro
Esquecido dos tormentos que passei

Apenas a lembrança em mim existe
Dos tempos que passámos lado a lado
De tudo o que foi alegre ou triste
De tudo o que foi o nosso fado

Nas noites de luar, a lua cheia
Seu manto de brancura desdobrava
Nossos passos traçavam sobre a areia
Quente ternura que o verde mar levava

Na rua que foi nossa há abandono
Voltar de novo ao amor, como eu quisera
Transformar o meu triste e frio outono
Numa nova e risonha primavera

Coração vadio

José Guimarães / Manuel Reis
Repertório de Sandra Correia

Coração, num constante desafio
Vive a vida como pode
Como pode e como quer
Vagabundo e sonhador, è um vadio
Que não sabe qual o mundo
Qual o mundo em que viver
È tão louco que ao bater eu desconfio
Que ele bate sem saber
Sem saber porque bater

Coração vadio que não sabe onde parar
E pára em qualquer lugar
Como e quando lhe convém
Coração vadio, diz que sente, mas não sente
Diz que adora toda a gente
Mas não gosta de ninguém

Coração, vê se encontras um abrigo
Vê se deixas por aí
Por aí de vadiar
Talvez haja um coração que seja amigo
Onde possas, com amor
Com amor ter um lugar
Já è tempo de ter cuidado contigo
Já è tempo de saber também amar

P’ra ver o fado nascer

Tiago Torres da Silva / José Duarte *fado seixal*
Repertório de Ana Sofia Varela

Os fados tradicionais
São pequenas melodias
Que podem parecer banais
Mas nunca serão das tais
Que nascem todos os dias

Têm tal simplicidade / E tamanha singeleza
Que nelas cabe a saudade
Elevada a divindade / Pela alma portuguesa

Vão de quadras a sextilhas / Com métrica regular
Preferem as redondilhas
Pôem em duas quintilhas / Todo o saber popular

Depois, è ver se os fadistas / São fadistas a valer
Porque então os guitarristas
Preferem não dar nas vistas / P’ra ver o fado nascer

Leve, breve, suave

Fernando Pessoa / João Paulo Esteves da Silva
Repertório de Maria Ana Bobone

Leve, breve, suave, um canto de ave
Sobe no ar com que principia o dia
Escuto e passou, parece que foi só
Porque escutei que parou

Nunca, nunca, em nada, raie a madrugada
Ou esplenda o dia, ou doire no declive
Tive prazer a durar mais do que o nada
A perda, antes de eu o ir gozar

Minha madrugada

José Guimarães / Manuel Reis
Repertório de Sandra Correia

Foi na madrugada que um sonho encontrei
Foi na madrugada que um sonho perdi
Nas horas passadas, no amor que inventei
Palavras caladas guardei para ti

Silêncios cantados, momentos vividos
São tudo, são nada, são raiva e loucura
Segredos cantados, sossegos perdidos
Minha magrugada ficou noite escura

Foi na madrugada
Numa madrugada
Que vi nos teus olhos
Certo não sei quê
Nem beijos trocados
Nem mãos encontradas
Desejo sentido
Que a gente não vê

Espero que o dia enfim amanheça
E o louco desejo seja realidade
Que a minha alegria enfim apareça
E eu prenda num beijo a nossa verdade

Domingo em Lisboa

Manuel Paião / Eduardo Damas
Repertório de Maria Valejo

Não há domingo sem sol
Diz o povo e não à toa
Pois ele aparece sempre
Nos domingos em Lisboa

Ruas desertas atuais
E passa um par de braço dado
È ao domingo que ela
Passeia com o namorado

Domingo em Lisboa e Lisboa è diferente
È calma, è pacata e está mais perto da gente
Bandeiras no Castelo que a Sé abençoa
Brilhante até mais o Tejo, è domingo em Lisboa

È domingo em Lisboa
Há passeios na avenida
Há chilreios de pardais
Que são hino à própria vida

Dois corações lado a lado
Uma canção que se entoa
E à noite ouve-se o fado
No domingo em Lisboa

Houve um ritmo no meu sono

Fernando Pessoa / Diogo Clemente
Repertório de Carminho

Houve um ritmo no meu sono
Quando acordei o perdi
Porque saí do abandono
De mim mesmo, em que vivi

Não sei que era, o que não era
Sei que suave me embalou
Como se o embalar quisera
Tornar-me outra vez quem sou

Houve uma música finda
Quando acordei de a sonhar
Mas não morreu, dura ainda
No que me faz não pensar