As *4.235* letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores !!!
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Se o motor de pesquisa não responder satisfatóriamente, aceite as minhas desculpas !!!
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Porquê

Jorge Rosa / José Blanc *fado blanc*
Repertório de Carminho

Disse-me o vento que vinha / De bandas não sei de onde
Que procurou mas não tinha / Ideia onde se esconde
Essa paixão que foi minha
E ao grito meu não responde

Montes e vales corridos / Recantos do fim do mundo
Tão distantes e escondidos / Tudo em silêncio profundo
E estes meus cinco sentidos
Gemendo a cada segundo

De noite foges da lua / De dia o sol não te vê
Não há ninguém que possua / A razão desse porquê
E o meu viver continua
A estar à tua mercê

Sei que existes porque existes / E porque foste verdade
E com verdade resistes / A esta grande saudade
Alegra os meus olhos tristes
E volta, faz-me a vontade

O sol, eu e tu

Caetano Veloso / César Mendes e Tom Veloso
Repertório de Carminho

O céu azul, o sol no mar
Só eu e tu damos sentido
A tudo o que existe e existirá

A chuva cai
A imensidão geme num ai
E o horizonte revele-se inteiro neste chão

Nós dois aqui celebramos o mundo
Cada vez que nos olhamos de perto
Rua, floresta, deserto
Hoje, amanhã, norte, sul
O mar sob o sol todo o azul do céu
Eu e tu

Nascido em alto-mar

Eduardo Jorge / Acácio Gomes *fado acácio*
Reperpório de João Roncero Guiomar

Deram-te nome de fado
Sem pesar o significado
Nem certidão de idade
Nasceste da ondulação
Pondo fim à solidão
Dentro da nau da saudade

Deram-te nome de fado
Pesares de canto magoado / Nostálgico como a noitada
Escuro sem brilho de luar
Jeito marialva a cantar / Emoção de tudo ou nada

Conhecera eu teu berço
Que rezaria a Deus um terço / Dando voz em oração
Como um nó que nos amarra
As cordas de uma guitarra / Em forma de coração

Cantigas do mar

José Guimarães / Manuel Reis
Repertório de Sandra Correia

Tantas ondas vêm à praia
E não há duas iguais
Tantos amores conheci
Do teu é que gostei mais

Teu nome escrevo na areia
Vem o mar, logo o desfaz
Só tu não me sais da ideia
E tantas penas me dás

Olha aquela praia que o sol abrasou
Olha aquele beijo que eu não te quis dar
Olha aquela onda que a areia beijou
E a rir-se ficou, de eu não te beijar

Ficam mais verdes teus olhos
Quando estás à beira-mar
Ficam mais negros meus dias
Se não vejo o teu olhar

Cada estrela vale um beijo
Quando em teus braços me enleias
Quando o céu não tem estrelas
Contamos pelas areias

Atei o teu amor

Ana Madalena / Santos Moreira *fado moreninha*
Repertório de Ana Madalena

Atei o teu amor ao meu amor
Com laços de ternura e fé sentida
E além de Deus não vejo bem maior
Do que este bem de estar na tua vida

Se a ventura maior que há neste mundo
È ter amor na vida e amar alguem
O meu amor por ti è tão profundo
Nunca o senti tão forte por ninguém

Se Deus te destinou aos dias meus
Se tens no coração amor por mim
Entrego o nosso amor nas mãos de Deus
E então o nosso amor não terá fim

A rua que foi nossa

Maria de Castro / Armando Machado *fado lurdes*
Repertório de José Pracana

Na rua que foi nossa já não moro
Parti faz hoje um ano, não voltei
E a dor duma saudade ainda choro
Esquecido dos tormentos que passei

Apenas a lembrança em mim existe
Dos tempos que passámos lado a lado
De tudo o que foi alegre ou triste
De tudo o que foi o nosso fado

Nas noites de luar, a lua cheia
Seu manto de brancura desdobrava
Nossos passos traçavam sobre a areia
Quente ternura que o verde mar levava

Na rua que foi nossa há abandono
Voltar de novo ao amor, como eu quisera
Transformar o meu triste e frio outono
Numa nova e risonha primavera

Coração vadio

José Guimarães / Manuel Reis
Repertório de Sandra Correia

Coração, num constante desafio
Vive a vida como pode
Como pode e como quer
Vagabundo e sonhador, è um vadio
Que não sabe qual o mundo
Qual o mundo em que viver
È tão louco que ao bater eu desconfio
Que ele bate sem saber
Sem saber porque bater

Coração vadio que não sabe onde parar
E pára em qualquer lugar
Como e quando lhe convém
Coração vadio, diz que sente, mas não sente
Diz que adora toda a gente
Mas não gosta de ninguém

Coração, vê se encontras um abrigo
Vê se deixas por aí
Por aí de vadiar
Talvez haja um coração que seja amigo
Onde possas, com amor
Com amor ter um lugar
Já è tempo de ter cuidado contigo
Já è tempo de saber também amar

P’ra ver o fado nascer

Tiago Torres da Silva / José Duarte *fado seixal*
Repertório de Ana Sofia Varela

Os fados tradicionais
São pequenas melodias
Que podem parecer banais
Mas nunca serão das tais
Que nascem todos os dias

Têm tal simplicidade / E tamanha singeleza
Que nelas cabe a saudade
Elevada a divindade / Pela alma portuguesa

Vão de quadras a sextilhas / Com métrica regular
Preferem as redondilhas
Pôem em duas quintilhas / Todo o saber popular

Depois, è ver se os fadistas / São fadistas a valer
Porque então os guitarristas
Preferem não dar nas vistas / P’ra ver o fado nascer

Leve, breve, suave

Fernando Pessoa / João Paulo Esteves da Silva
Repertório de Maria Ana Bobone

Leve, breve, suave, um canto de ave
Sobe no ar com que principia o dia
Escuto e passou, parece que foi só
Porque escutei que parou

Nunca, nunca, em nada, raie a madrugada
Ou esplenda o dia, ou doire no declive
Tive prazer a durar mais do que o nada
A perda, antes de eu o ir gozar

Minha madrugada

José Guimarães / Manuel Reis
Repertório de Sandra Correia

Foi na madrugada que um sonho encontrei
Foi na madrugada que um sonho perdi
Nas horas passadas, no amor que inventei
Palavras caladas guardei para ti

Silêncios cantados, momentos vividos
São tudo, são nada, são raiva e loucura
Segredos cantados, sossegos perdidos
Minha magrugada ficou noite escura

Foi na madrugada
Numa madrugada
Que vi nos teus olhos
Certo não sei quê
Nem beijos trocados
Nem mãos encontradas
Desejo sentido
Que a gente não vê

Espero que o dia enfim amanheça
E o louco desejo seja realidade
Que a minha alegria enfim apareça
E eu prenda num beijo a nossa verdade

Domingo em Lisboa

Manuel Paião / Eduardo Damas
Repertório de Maria Valejo

Não há domingo sem sol
Diz o povo e não à toa
Pois ele aparece sempre
Nos domingos em Lisboa

Ruas desertas atuais
E passa um par de braço dado
È ao domingo que ela
Passeia com o namorado

Domingo em Lisboa e Lisboa è diferente
È calma, è pacata e está mais perto da gente
Bandeiras no Castelo que a Sé abençoa
Brilhante até mais o Tejo, è domingo em Lisboa

È domingo em Lisboa
Há passeios na avenida
Há chilreios de pardais
Que são hino à própria vida

Dois corações lado a lado
Uma canção que se entoa
E à noite ouve-se o fado
No domingo em Lisboa

Houve um ritmo no meu sono

Fernando Pessoa / Diogo Clemente
Repertório de Carminho

Houve um ritmo no meu sono
Quando acordei o perdi
Porque saí do abandono
De mim mesmo, em que vivi

Não sei que era, o que não era
Sei que suave me embalou
Como se o embalar quisera
Tornar-me outra vez quem sou

Houve uma música finda
Quando acordei de a sonhar
Mas não morreu, dura ainda
No que me faz não pensar

Saia rodada

Diogo Clemente / Valter Rolo
Repertório de Carminho

Vesti a saia rodada
P’r’apimentar a chegada
Do meu amor
No mural postei as bodas
Rezei nas capelas todas
Pelo meu amor

Vem lá de longe, da cidade e tem
Os olhos rasos de saudade em mim
E eu mando-lhe beijos e recados em retratos meus
Pensa em casar no fim do verão que vem
Antes pudesse o verão não ter mais fim
Que eu estou tão nervosa com esta coisa de casar, meu Deus

Por tantas vezes pensei eu, também
Sair daqui atrás dos braços seus
De cabeça ao vento e a duvidar o que faz ele por lá
São os ciumes que a saudade tem
E se aos ciumes eu já disse adeus
Hoje mato inteiras as saudades que o rapaz me dá

O tiro pela culatra

Maria do Rosário Pedreira / Ricardo Cruz
Repertório de António Zambujo

Mal a vi fui seduzido
P’lo seu corpo lança-chama
E a perna bem torneada
E meti no meu sentido:
Se não a levo prá cama
Não sou homem não sou nada

Puz um ar de matador
E assim, sem falinhas mansas / Convideia-a para jantar
Quase a vi ficar sem cor
Mas, quando eu perdia as esperanças / Aceitou sem hesitar

Pronto prá grande conquista
Barba feita, risca ao lado / Sapato novo e brilhante
Comprei rosas na florista
E cheguei adiantado / À porta do restaurante

Quase me caía o queixo
E até fiquei aturdido / Com o choque da surpresa
Ela, ao chegar, deu-me um beijo
Apresentou-me o marido / E foi andado prá mesa

Quando Morfeu não vem

Paco Gonzalez / Renato Varela *fado varela*
Repertório de Tristão da Silva

Fugiu de mim há muito, a voz do sono
Desperto, vivo a vida para sentir
Que não sendo de mim o próprio dono
Muito menos sou dono de dormir

Eu sou dos vendavais e dos caminhos
Mais tenebrosos que a vida pode ter
Sou a raiva de ver os pobrezinhos
E sou a dor de lhes não poder valer

Eu sou o pé descalço na calçada
Sou o jornal que serve de colchão
Sou a boca que mesmo amordaçada
Suspira por justiça, amor e pão

Ai se eu pudesse ser no mundo, o rei
Do mistério a que chamo poesia
Em versos eu diria o que não sei
Depois, então estou certo que dormia

Quando o fado for grande

Tiago Torres da Silva / Alberto Costa *fado torres do mondego*
Repertório de Ricardo Ribeiro

Quando o fado era menino
Dizia: quando eu for grande
Hei-de inventar um destino
Que meu coração comande

E percebeu que os poetas / Eram quem, como as crianças
Abriam portas secretas / Sem chaves nem alianças

Ao entrar no universo / Dos poetas populares
Ele vai escrevendo versos / Que já nascem milenares

E por saber que os adultos / Podem voltar à infância
Não quer que os poetas cultos / Se mantenham à distância

Rouba um poema a Pessoa / Ao Ary pede uma glosa
E uns versos sobre Lisboa / Ao mestre Linhares Barbosa

Se voltasse a ser menino / Diria: quando eu crescer
Hei-de inventar um destino / Num poema por escrever

Dois fados desiguais

Fernando Campos de Castro / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de Sandra Correia

Não me peças mais o fado que cantei
No momento dessa hora em que te vi
Depois disso quanta lágrima chorei
Sem ter nada, sem ter Deus e amor sem ti

Do poema que cantei e que era meu
Que falava dum amor que andava ausente
Tu disseste que era igual ao fado teu
E por isso era dos dois eternamente

Não me peças meu amor mais esse fado
Que foi dantes, não de agora, nem depois
Deixa os versos descansar nesse passado
Do passado que existiu entre nós dois


Não me peças que regresse ao tempo antigo
Dessa casa, nessa noite de ternura
Onde ainda eu te vejo a sós comigo
Nessa mesa iluminada de loucura

Ela è Lisboa

Manuel Paião / Eduardo Damas
Repertório de Cidália Moreira

Ainda há e há-de haver
Uma varina sempre a correr
Da lota à rua, da rua à toa
E sem saber ela è Lisboa

Chinela de trança
Anca a dar a dar
Sorrir de criança
Pregão pelo ar
O lenço, a canastra
Avental de chita
Sem ela, Lisboa 
Sem ela, Lisboa
Não è tão bonita

Ainda há e há-de haver
Caras bonitas prá gente ver
Saia rodada, pé com chinela
È aguarela d’uma viela

O pai de todos os fados

Tiago Torres da Silva / Popular *fado menor*
Repertório de Rodrigo Costa Félix

O pai de todos os fados
Chama-se fado menor
Os outros foram criados
Ali mesmo, ao seu redor

Seja em tom grave ou agudo / Neste fado se recita
Tudo aquilo ou quase tudo / De que o fado necessita

Não tem sequer melodia / È apenas um lugar
Onde o fadista è que cria / Aquilo que vai cantar

Mas se uma alma se agrada / De cantar um fado triste
Faz de um nada, ou quase nada / A maior coisa que existe

Montes e a paz que há neles

Fernando Pessoa / Diogo Clemente
Repertório de Ana Sofia Varela

Montes e a paz que há neles, pois são longe
Paisagens, isto é ninguém
Tenho a alma feita para ser de um monge
Mas não me sinto bem

Se eu fosse outro, fora outro, assim
Aceito o que me dão
Como quem espreita para um jardim
Onde os outros estão

Que outros ? não sei, há no sossego incerto
Uma paz que não há
E eu fito sem o ler o livro aberto
Que nunca mo dirá

O tiro pela culatra

Maria do Rosário Pedreira / Ricardo Cruz
Repertório de António Zambujo

Mal a vi fui seduzido
P’lo seu corpo lança-chama
E a perna bem torneada
E meti no meu sentido:
Se não a levo prá cama
Não sou homem não sou nada

Puz um ar de matador / E assim, sem falinhas mansas
Convideia-a para jantar
Quase a vi ficar sem cor / Mas, quando eu perdia as esperanças
Aceitou sem hesitar

Pronto prá grande conquista / Barba feita, risca ao lado
Sapato novo e brilhante
Comprei rosas na florista / E cheguei adiantado
À porta do restaurante

Quase me caía o queixo / E até fiquei aturdido
Com o choque da surpresa
Ela, ao chegar, deu-me um beijo / Apresentou-me o marido
E foi andado prá mesa

Num gesto se adivinha

Tiago Torres da Silva / Armando Machado *fado maria rita*
Repertório de Kátia Guerreiro

Eu uso um xaile bordado
Porque os p’rigos que há no fado
São bem maiores do que os da vida
O xaile è como uma pele
E quando me embrulho nele
Sinto-me mais protegida

Parece umas mãos de mãe
Sabem guiar-nos tão bem / E sossegam tantos medos
Que sempre que elas me tocam
As franjas do xaile, evocam / A ternura dos seus dedos

Num gesto que se adivnha
O xaile è uma andorinha / Num céu que eu mesma criei
Mas assim que o braço pára
O xaile que antes voara / Parece o manto de um rei

E quando o corpo desiste
Numa palavra mais triste / Num grito mais demorado
O xaile velho e sem franjas
São asas de anjos ou de anjas / Que me aconchegam ao fado

Cai chuva do céu cinzento (2)

Fernando Pessoa / Popular c/arranjos de Ernesto Leite
Repertório de Mafalda Arnauth

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto
Quero dizer-ma, mas pesa
O quanto comigo minto

Porque verdadeiramente
Não sei estou triste ou não
E a chuva cai levemente
Dentro do meu coração

Cai chuva do céu cinzento (1)

Fernando Pessoa / Popular *fado das foras*
Repertório de Teresa Tarouca

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer

Tenho uma grande tristeza / Acrescentada à que sinto
Quero dizer-ma, mas pesa / O quanto comigo minto

Que o grande jeito da vida / È pôr a vida com jeito
Murcha a rosa não colhida / Como a rosa posta ao peito

Sou como a praia, a que invade / O mar que torna a descer
Mas nisto tudo a verdade / È só o ter que morrer

Não me dou longe de ti

João Monge / Alfredo dos Santos *marcha do correeiro*
Repertório de António Zambujo

Não me dou longe de ti
Nem em sonhos eu consigo / Ter alguém no meio de nós
Só Deus sabe o que perdi
Para tu ficares comigo / E ouvires a sua voz
Só eu sei o que sofri
Quando sonhava contigo / E abria os olhos a sós

Sabes da minha fraqueza
Onde a faca tem dois gumes / Onde me mato por ti
È da tua natureza
Cortar-me o peito em ciumes / E eu finjo que não morri
Mas è da minha tristeza
Esconder no fado os queixumes / E a cantar entristeci

À noite voltas de chita
Com duas flores no regaço / E tudo o que a Deus pedi
Ès tão minha, tão bonita
Ès a primeira que abraço / Aquela em que me perdi
Nem a minha alma acredita
Que me perco no teu passo / Não me dou longe de ti

Assim te quero guardar
Como se mais nada houvesse / Nem futuro, nem passado
De tanto, tanto, te amar
Pedi a Deus que troxesse / O teu corpo no meu fado

Nesta noite

Letra e musica de Paulo Valentim *fado mafalda*
Repertório de Kátia Guerreiro

Nesta noite em que me deito devagar
Sobre lençóis de silêncios acordados
Bebo a noite desta vida p’ra cantar
A alegria dos teus beijos devorados

Nesta noite eu sinto o quente d’alma pura
Que adormece ao meu lado tão cansada
Nesta cama, os momentos de ternura
São punhais a rasgar a madrugada

Nesta noite, o meu sonho vagabundo
Àè manhã, è tormento, è felicidade
Nesta noite a tua boca è o meu mundo
Como teu è o meu corpo em liberdade

E são gritos deste amor que nos uniu
Os desejos desta dor vivida em ti
Obrigado meu amor, porque nasceste
Obrigado minha mãe, porque nasci

A tua voz, fala amorosa

Fernando Pessoa / Samuel Lopes
Repertório de Débora Rodrigues

A tua voz, fala amorosa
Tão meiga fala que me esquece
Que é falsa a sua branda prosa
Meu coração desentristece

Sim, como a música sugere / O que na música não está
Meu coração nada mais quer / Que a melodia que em ti há

Amar-me, quem o crera, fala / Na mesma voz que nada diz
Se és uma música que embala / Eu ouço, ignoro e sou feliz

Nem há felicidade falsa / Enquanto dura, é verdadeira
Que importa o que a verdade exalça / Se sou feliz desta maneira

A tristeza do Roberto

João Dias / Joaquim Campos *fado rosita*
Repertório de Manuel Domingues

A verdade é como o pão
Conquista de quem de esforça
Quem faz da força razão
Nunca tem razão de força

Mil dias julguei-me certo / De ser livre um certo dia
A tristeza do Roberto / No meio da feira vazia

Meu corpo de grão de areia / Que de montanha sonhaste
Prometeram-te uma ceia / E nem migalha averbaste

Aí está raiva de ter / Apenas cinco sentidos
Num corpo que quer viver / Sem sentidos proibidos

Já fui arado na terra / No mar fui rede vazia
Só não arma de guerra / 
Nem mesmo de guerra fria

Poema dos olhos da amada

Vinicius de Moraes / Paulinho Soledade e Vinicius de Moraes
Repertório de António Zambujo

Oh minha amada que os olhos teus
São cais noturnos cheios de adeus
São docas mansas trilhando luzes
Que brilham longe, longe nos breus

Oh, minha amada que olhos os teus
Quanto mistério nos olhos teus
Quantos saveiros, quantos navios
Quantos naufrágios nos olhos teus

Oh, minha amada que olhos os teus
Se Deus houvera, fizera-os Deus
Pois não os fizera quem não soubera
Que há muitas eras nos olhos teus

Ah, minha amada de olhos ateus
Cria a esperança nos olhos meus
De verem um dia o olhar mendigo
Da poesia nos olhos teus

Tudo é sombra, medo e nada

Fernando Campos de Castro / Carlos Neves *fado tamanquinhas*
Repertório de Sandra Correia

Percorro tantos caminhos
Sem destino e sem saída
Pelas ruas do meu peito
Sempre sozinha me deito
Sem saber se tenho vida

Sinto as tuas mãos abertas / Num adeus junto à vidraça
Tudo é sombra, medo e nada
Por dentro da madrugada / Desta noite que não passa

Nos meus olhos desmedidos / Onde a luz não quer morar
Moram vidas que passei
Mais os sonhos que sonhei / Onde não tive lugar

Ó noite porque demoras / Sobre a dor dos meus desejos
Deixa a manhã finalmente
Com mãos dum amor ausente / 
Cobrir-me o corpo de beijos

Não existe fado antigo

Tiago Torres da Silva / João Noronha *fado pechincha*
Repertório de Celeste Rodrigues

Existe um e um só fado
Que assenta na tradição
E para ser bem antado
Só faz falta um coração

Não è por pôr uma tuba / Acrescentar bateria
Que uma geração derruba / O que outrora se fazia

Não quero a eternidade / Nem os momentos de glória
Quero deixar na saudade / Um pouco da minha história

Não existe fado novo / Como não há fado antigo
Ele è o grito que um povo / Carrega sempre consigo

Sonhos quebrados

Fernando Campos de Castro / Popular *fado menor*
Repertório de Sandra Correia

Caminhos sem ter regresso
Sonhos quebrados sem fim
Negam-me tudo o que peço
Aos mundos dentro de mim

Vazia a noite infinita / Toca-me os olhos fechados
Como um silêncio que grita / Aos meus ouvidos cansados

Sinto medos que me arrastam / Na solidão desta lama
Onde dois corpos se agastam / No gelo da minha cama

Noite breve, ó noite louca / Se me negaste o amor
Não negues à minha boca / 
A dor do fado menor

Pica do 7

Letra e musica de Miguel Araújo
Repertório de António Zambujo

De manhã cedinho eu salto do ninho e vou para a paragem
De bandolete à espera do 7, mas não p’la viagem
Eu bem que não queria mas um belo dia eu vi-o passar
E o meu peito que é céptico
Por um pica de eléctrico voltou a sonhar

Em cada repique que salta do clique daquele alicate
De um modo frenético
Num peito que é céptico, toca a rebate
Se o trem descarrila
O povo refila e eu fico no sino
Pois o mero trajeto
No meu caso concreto é já o destino

Ninguém acredita
O estado em que fica o meu coração
Quando o 7 me apanha
Até acho que a senha me salta da mão
Pois na carreira desta vida vã
Mais nada me dá
A pica que o pica do sete me dá

Que triste fadário e que itinerário tão infeliz
Cruzar meu horário
Com o de um funcionário de um trem da Carris
Se eu lhe perguntasse
Se tem livre passe pró o peito de alguém
Vá-se lá saber
Talvez eu lhe oblitere o peito também

Mentiras

Rita Ferro / Pedro de Castro
Repertório de Kátia Guerreiro

Gostava muito de ti
Mas não posso gostar mais
As mentiras que me pregas
São facadas, são punhais

Olha quando me enganaste / Com a maluca da Maria
Juraste mais de três vezes / P’la alma da tua tia

A minha mãe apanhou-te / A beijá-la, no barranco
A mim disseste que foste / Levantar dinheiro ao banco

E quando, já desvairada / Te obriguei a confessar
Alegaste não ter culpa / Dela ser espectacular

Que estupidez exigir-te / Honradez e seriedade
Consegues que doa menos / A mentira que a verdade

Faz-me portanto um favor / Nunca deixes de enganar-me
Se as mentiras matam gente / As tuas podem salvar-me

A saudade e o tamborim

Tiago Torres da Silva / José Luís Tinoco
Repertório de Cristina Nóbrega

Vem do mar de Ipanema a saudade e o tamborim
Uma onda, um poema que alguém escreveu p’ra mim
E sendo assim, talvez o carnaval não vá ter fim

Vem do mar de Lisboa a guitarra e a solidão
A cantiga que às vezes soa dentro do meu coração
E então, serei porta-estandarte da canção

Carnaval dentro de mim
Carnaval não vai ter fim

Vem do mar ou do grito que aprendi ouvindo Lemanjá
Vai levando pró infinito a pancada do meu ganzá
Mas será ? talvez eu diga que vou mas não vá

Ilha dos amores

Tiago Torres da Silva / Popular *fado corrido*
Repertório de Jorge Fernando

Em muitos livros que leio
Há gente culta que diz
Que pensa que o fado veio
Das Áfricas e dos Brasis

Não desprezo a teoria / Mas eu cá, acho que o fado
Nasceu numa noite fria / Num convés abandonado

Todos sabem mais do que eu / Mas eu tenho a minha ideia
O fado p’ra mim, nasceu / Do canto de uma sereia

Ou do peito solitário / De um marinheiro valente
Que escrevia o seu diário / Tendo o mar por confidente

Por isso peço perdão / A quem tanto tem estudado
Mas os fados è que são / As madrinhas do meu fado

Para que o fado se entenda / Meus mestres e professores
Não pode ser uma lenda / Ir à ilha dos amores