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<> Ninguém sabe tudo, ninguém ignora tudo, só todos juntos sabemos alguma coisa <> PAULO FREIRE
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Rosa de amargura

José Luís Gordo / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de Francisco Sobral 

Meu amor, não me lamento
Tanto sol e tanto vento
Sonhar-te assim, quem me dera
Ter sorrisos de alegria
Arco-íris de fantasia
Sobre os céus da nossa espera

E nos campos do desejo
Há dois rios que te não vejo / Há dois mares que não são meus
Há desjos por arder
Tudo por me aconetecer / À espera dum olhar teu

Mas, ao dares-me a tua mão
Dou-te inteiro um coração / Com a loucura mais pura
Quem ama assim deste jeito
Traz cravado no seu peito / Uma rosa de ternura

Manual do coração

João Monge / Pedro Silva Martins, Luis José Martins *fado moutinho*
Repertório de Hélder Moutinho 

Maria foi ao baile e viu José
Viu António, viu Tó Zé
Para mim nem um olharzinho
Disse a José que estava meio cansada
António não levou nada
E o Tó Zé dançou sozinho

E foi dando nega atrás de nega
Nem um tango prá sossega
Não dançou nem por momentos
Como é que uma mulher tão bonita
Se revela tão esquisita
Fui tirando apontamentos

Maria ouviu piropos de poetas
De artistas, de profetas
Mas não deu bola a nenhum
Teve convites para jantar no céu
Luz das velas, num ilhéu
E a todos deu jejum

Até havia quem fizesse o pino
Cuspir fogo cantar hino
Em frente à sua janela
Mas nada, nada dava resultado
Nunca abria o cortinado
Ninguém atuou para ela

Eu apontava o que ela não queria
Só para entender Maria
Entender o seu olhar
Escrevia tudo em letra miudinha
Num caderno com capinha
Para aprender a sonhar

Houve um que deu anel de mil quilates
Lenços, brincos, flores de engate
Coisas que ela nunca usou
Talvez ela só queira ser amada
Ser tratada, ser beijada
Como nunca alguém beijou

Qualquer coisa de fado

Tiago Torres da Silva / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Rita Santos 

Respeitando a tradição
Sem ouvir o coração 
Não saímos do lugar
Entre nós e o passado
Há qualquer coisa de fado
Que temos de abandonar

Quando as guitarras 'stão prontas
Pode a alma fazer contas / À memória mais sofrida
Mas depois quando a voz chora
É inventando o agora / Que o fado se torna vida

Entre nós e o futuro
Vamos construindo um muro / Que ninguém sabe transpor
Mas quem viu o outro lado
Sabe que lá mora o fado / Quando aqui mora o amor

Canta-se o fado na sede
De galgar essa parede  / Que cada vez é mais alta
O fado está sempre além 
Porque quanto mais se tem / Mais dele sentimos falta

Verdade e mentira

Letra e música de Pedro Osório
Rpertório de Francisco Moreira *Kiko*

Tantas palavras são ditas / P’ra disfarçar a mentira
Tantas palavras bonitas / Para encobrir a verdade
Tanta bondade fingida/ Tanta mentira doirada
Tanta notícia esquecida / Tanta verdade calada 

Se dizem que trazemos ao nascer
O destino já marcado... mentira
Se dizem que devemos aprender
A mudar o nosso fado... verdade
A vida não se pode deitar fora
Passando cada dia como quem faz um recado
Quem pensa que o destino marca a hora
Ou anda ao desengano ou então foi enganado

Eu hei-de ter o meu fado / Feito p'la minha vontade
Com o futuro agarrado / Hei-de matar a saudade
Hei-de enganar a mentira / Hei-de beber a verdade
E não me venham dizer / Que isto são coisas da idade

Fado menor

Maria Manuel Cid / Popular *fado menor*
Repertório de António Zambujo 

Fado menor meu castigo
Meu pecado original
Que trago sempre comigo
Sem ter feito nenhum mal

Velhinho, levas a vida / A pedir por quem padece
E quem a sente perdida / Confia na tua prece

Saudade, tristeza, amor / Em cada nota dolente
São preces do cantador 7 A rezar por toda a gente

Nenhuma dor já sofrida / Pode igualar o tormento
De cantar a dor da vida / E morrer de sofrimento

Até que volte à luz

Fernando Campos de Castro / Armandinho *fado estoril*
Repertório de Rita Santos

Aqui neste vazio onde tão só me encontro
A vida que me quer tornou-se desespero
Se tudo em mim é frio tristeza e desencontro
De que me serve a vida que não quero

Sempre que vivo um sonho e nesse sonho avanço
A vida corta o passo e tudo em mim recua
Num gelo tão medonho, sem calma nem descanso
Deixando-me cansaço na alma triste e nua

Se nada me seduz, quero voltar um dia
À vida que eu quis ter e há muito me deixou
Até que volte à luz da tua companhia
Para voltar a ser aqulo que não sou

Voz triste

Tina Jofre / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Tina Jofre

Sou uma voz triste cantando
Chorando penas sem fim
E vós que me estais escutando
Não tenhais pena de mim

Fui feliz e vivi bem / Tive um grande, grande amor
Amada como ninguém / Razão p’ra chorar de dor

Foram anos de loucura / De muito amor e carinho
Terminou essa ventura / A morte ganhou caminho

Separou a união / Que Deus tinha abençoado
Deu-me porém o condão / Vencer dor cantando fado

Rivais

Mário Raínho / Fontes Rocha *fado isabel*
Repertório de José da Câmara 

Meu inquieto coração
Não é que me apeteça
Mas tinhas muita razão
Em te mudares p’ra cabeça

A cabeça é das ideias / O coração, dos ideais
Moram paredes meias / Parece que são rivais

Lembranças a meu jeito / Feitas de sombras e luz
No peito amores a eito / Da cabeça negra cruz

Atarefada cabeça / Para guardares a razão
Leva a alegria e depressa / Muda-te para o coração

Voz do fado

Fernando Farinha / Casimiro Ramos *fado pinóia*
Repertório de Fernando Farinha 

Há quem afirme que o fado / Com voz, tem pouca intenção
Quanto a meu ver, o cantar / Só na voz tem tradução
No fado, ou qualquer canção / Seus fiéis cultivadores
Só nos mostram ser cantores / Vibrando num grito d'alma
Dizer é arte de talma
É domínio dos atores 

Há quem não tenha garganta / E dê ao fado, expressão
Mas a voz que se levanta / Tem muito mais coração
O hino d'uma nação / Estando ao coração ligado
Quando p'lo povo é cantado / É sempre com voz soante
Um hino, p'ra ser vibrante
Nunca pode ser falado 

O mesmo acontece ao fado / Que nasceu p'ra se cantar
E não p'ra 'star amarrado / Ao peito que o quer soltar
Cantar é saver vibrar / Com voz, com alma e ralé
Grito d'esperança e de fé / Bem arrancado do peito
Fado falado a preceito
Só o cantou Villaret

Jesus de misericórdia

Carlos Alexandre Pinto / Alfredo Duarte *marcha do marceneiro*
Repertório de João Chora 

Neste Ribatejo imenso
Cheio de labor intenso
De virtude e tradição
Parou a faina do dia
Já ninguém tem valentia
É dia da procissão

Parou no mundo a discórdia
E o Jesus de misericórdia / Na sua beata unção
Vai p'las ruas e vielas
Olha todas as janelas / Do meio da procissão

Chmusca dos arrozais
Dos vinhedos e trigais / Do sol, da luz, da paixão
Deixa a campina em descanso
Todo o toiro bravo é manso / Ao passar a procissão

Na cruz com olhar sereno
Meigo, bom, o nazareno / Abençoa os pecadores
Jesus da misericórdia
Trazei ao mundo a concórdia / 
Rogai por nós pecadores

O lado oculto da noite

Carlos Bessa / José António Sabrosa *4as*
Repertório de Rita Santos 

Meus segredos estão guardados
No lado oculto da lua
Severamente arrancados
Das pedras da minha rua

Lá estão nossos momentos / De felicidade e tristeza
Mistura de sentimentos / Na pequenez da grandeza

Já sinto a noite chorando / Ao sentir como eu estou
Ao ver o tempo passando / Sobre um amor que findou

Dorme o silêncio na cama / Aonde eu durmo também
O frio do corpo chama / Pelo seu nome, ele não vem

Página da história acabada / Porque amor, já não sou tua
Tua imagem está guardada / No lado oculto na rua

Letra para um hino

Manuel Alegre / António Chaínho
Repertório de Humberto Sotto Mayor 

É possível falar sem um nó na garganta
É possível amar sem que venham proibir
É possível correr sem que seja a fugir
Se tens vontade de cantar
Não tenhas medo, canta

É possível andar sem olhar para o chão
É possível viver sem que seja de rastos
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
Se te apetecer dizer não
Grita comigo, não

É possível viver de outro modo
É possível transformares em arma a tua mão
É possível o amor, é possível o pão
É possível viver, viver, viver de pé

Não te deixes murchar, não deixes que te domem
É possível viver sem fingir que se vive
É possível ser homem, é possível ser homem
É possível ser livre, livre livre, livre

Fado do Montijo

Humberto Fortunato / Joaquim Carla
Repertório de Moniz Trindade 

Duma aldeia portuguesa / Da gente alegre e sem mágoa
Nasceu a vila princesa / Das vilas da borda d'água

Cresceu e fez-se mulher / Essa aldeia ribeirinha
Princesa deixou de ser / Mas passou a ser rainha

Aldeia galega d'outrora
Das esperas e das touradas
Dos fados e guitarradas
És o Montijo de agora
Vila princesa
O trabalho é seu brasão
E a gente é bem portuguesa
Como manda a tradição

Lá nasceram bons forcados / Rijos campinos, toureiros
Teve também afamados / E varonis cavaleiros

Em muitas tardes de glória / O sol brilhando na praça
Davam mais uma vitória / E mais nome à sua raça

Palavras encruzilhadas

Mário Raínho / Armando Machado *fado sta luzia*
Repertótio de José da Câmara 

Assim que um feixe de luz
Se projeta sobre a cruz
Das ruas por mim cruzadas
A minh’alma se agiganta
E atira-me à garganta
Palavras encruzilhadas

Tomo o lugar do meu fado
De verso em verso enleado / Enfeito a noite onde moro
Com os poemas que teço
Avé-marias dum terço / Que a desfiar me demoro

Fica-me a noite menor
Desbravo esta voz e a dor / Num canto mais compassado
Chega a estrela da manhã
Vou sonhar porque amanhã / Regresso de novo ao fado

Uma lágrima por engano

Fabrizio Romano / Mísia
Repertório de Mísia 

Nasceu sem ti a cidade / Lisboa ficou pequena
Nesta fria claridade / Deito-me cheia de penas

Amália nossa Senhora / Luz deste cego caminho
Na tua prece redentora / Erros meus choro baixinho

Foi por vontade de Deus / Que de nós foste levada
Num barco negro p’los céus / Triste sina, conta errada

Vagamundo por ti trago / O meu coração cigano
Roubam-me as cordas do fado / Uma lágrima por engano

Alma perdida

Florbela Espanca / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de Joaquim Cardoso 

Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente
Alma de rouxinol, alma de gente
Tu és, talvez, alguém que se finou

Tu és, talvez, um sonho que passou
Que se fundiu na dor, suavemente
Talvez sejas a alma, alma doente
D'alguém que quis amar e nunca amou

Toda a noite choraste e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós

Contaste tanta coisa à noite calma;
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz

Lírio roxo

António Gedião / Jaime Santos
Repertório de Humberto Sotto Mayor 

Viajei por toda a terra
Desde o norte até ao sul
Em toda a parte do mundo
Vi mar verde e céu azul

Em toda a parte vi flores / Romperem do pó do chão
Universais, como as dores / 
Que em toda a parte se dão

Vi sempre estrelas serenas / E as ondas morrendo em espuma
Todo o sol, um sol apenas / E a lua sempre só uma

Diferente de quanto existe / Só a dor que me reparte
Enquanto em mim morro triste / 
Nasço alegre em toda a parte

O fado *T.Jofre*

Letra e musica de Tina Jofre *fado jofre*
Repertório de Tina Jofre

O fado, palavra tão portuguesa
Foi Camões que a inventou
O fado como destino, tristeza
Num tempo que já passou

O fado, arpejado em menor
Em maior ou em corrido
O fado cantado com o negro misturado
Tem verdadeiro sentido

O fado está-nos na alma / Numa alma especial
O fado é lascivo e acalma / O fado é fado, é Portugal

O fado, melodia popular
Muito nossa e que às vezes
O fado faz-nos sentir sonhar
Porque somos portugueses

O fado gganhou expressão co’a guitarra
De Coimbra ou de Lisboa
O fado agarra
O amor e a saudade na voz de quem o entoa

Lisboa perto e longe

Manuel Alegre / António Chaínho
Repertório de Humberto Sotto Mayor 

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios, sentinelas
E fecham-se janelas quando voa
Nas praças de Lisboa, branca e rota
A blusa de seu povo, essa gaivota 

Lisboa tem o sol crucificado
Nas armas que em Lisboa estão voltadas
Contra as mãos desarmadas, povo armado
De vento revoltado, violas astros
Meu povo que ninguém verá de rastos 

Lisboa tem um cravo em cada mão
Tem camisas que abril desabotoa
Mas em maio Lisboa é uma canção
Onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos

Herança fadista

Clemente José Pereira / João do Carmo Noronha *fado pechincha*
Repertório de António Mourão

Eu não sou do tempo antigo
Mas noto que finalmente
Trago este fado comigo
O fado de antigamente

Não vesti com galhardia / A calça estreita e samarra
Nem ouvi na Mouraria / O trinar duma guitarra

Também não cantei o fado / Em serenatas bairristas
Nem nas esperas do gado / Com fidalgos e fadistas

Minha voz que tanto abraça / O fado que me encantou
Algum fadista de raça / 
Por herança me deixou

Os versos que te faço

Fernando Campos de Castro / Carlos Fonseca *fado deca*
Repertório de Rita Santos 

Os versos que te faço e que te canto
São feitos para ti amor somente
De lágrimas à solta no meu pranto
De te sentir em mim e ter-te ausente

Um grito de saudade que me acalma
Se sei que posso ter-te à minha beira
Pedaços de loucura, fogo e alma
Que acendem no meu corpo uma fogueira

São versos que não sei como guardar
Na alma que tão cheia não sustenta
Que bailam nesta boca sem beijar
Os lábios que a ternura a sós inventa

São gritos que me rasgam cada poro
Os versos que te canto e ninguém sabe
Se rio deste amor, se canto ou choro
Deste amor que no corpo já não cabe

Velas ao vento

Tina Jofre / Sara Jofre
Repertorio de Tina Jofre 

Há muitos anos atrás / Sonhava e era capaz
De sonhar sem dormir
Imaginava romanos / Combatendo muçulmanos
E nenhum deles ferir

Até via o Lidador / Combatendo com amor 
Ganhando assim outra amada
E em momentos de encanto / Na terra que eu amo tanto
Querer ser Moura encantada

Velas ao vento
Barcos grandes vão subindo o Tejo
Velas ao vento
Vão trazendo e vão levando desejo
Velas ao vento
Vão cruzando as puras águas
Vão levando minhas mágoas 
É também meus pensamentos

Via na torre de menagem / Dizendo boa viagem
Uma donzela a acenava
Com um lenço branco na mão / A outra no coração
Uma lágrima deslizava

Pelo seu apaixonado / Que partia embarcado
E que tão longe a deixava
Eu era feliz assim / Sonhava só para mim
E a sorrir eu acordava

Abençoada por Deus

José Patrício / Amadeu Ramim *fado zeca*
Repertório de Rita Santos 

Eu quero ser o mar onde navegas
A praia onde anseias por descanso
Meus braços que te esperam, tu te entregas
Dos teus beijos, amor, nunca me canso

Eu quero ser o sol que te bronzeia
Ser a sombra feliz que por ti espera
A brisa que a sorrir te despenteia
Sabendo que és a minha primavera

Eu quero repartir contigo, amor
O que de mim é farto em alegria
Meus braços que ao teu corpo dão calor
Não existe a teu lado noite fria

Eu quero ser a luz do teu olhar
Iluminar com fé os olhos meus
Unidos, de mãos dadas caminhar
Ser nossa testemunha, Santo Deus

Madrinha de nossas horas

Mario Cláudio / Ricardo Borges de Sousa
Repertório de Mísia 

Vendedeira de laranjas
Fadista no outro dia
O mesmo xaile de franjas
Os ombros te cingiria

Momentos de despedida / Ou de regresso à lareira
Estranha forma de vida / A vida da cantadeira

Na penumbra do menor / A noite te abrigaria
Ou no sopro do calor / Da letra de um Mouraria

Tão pequenina que foras / Tão imensa te farias
Madrinha de nossas horas / De confusas nostalgias

E o vento que vem do mar / Amigo da tua voz
Leva-te a alma a chorar / No beijo de todos nós

Fado do trabalho

Alves Coelho e Raul Portela / S.Tavares, F.Romano e A.Carneiro
Repertório de Fernando Madeira 

Ao fogacho da fornalha 
Donde sai o ferro quente / Que se amolda a fantasia
O ideal de quem trabalha
É ganhar honradamente / O seu pão de cada dia

E esse pão ganho a suar / Para o pobre é um tesoiro
Melhor que o melhor manjar / Servido em baixela d'oiro

Torna que torna bem compassado
Sobre a bigorna do som do malho
Ai reproduz o nosso fado bem fadado
Porque não há fado melhor que o do trabalho

Os que passam toda a vida
Trabalhando tendo em vistas / A firmeza dos seus braços
Com a sua fronte erguida
São os grandes idealistas / Deste mundo de madraços

E ao compasso dos martelos / Ou das serras a serrar
O seu sonho é sempre belo / Porque é belo trabalhar

Coração magoado

Tina Jofre / Popular *fado corrido*
Repertório de Tina Jofre 

Meu coração está magoado
Todo entregue ao teu amor
Ó meu coração gelado
Dá-me forças por favor

Eu não suporto a saudade / Deste amor tão grande e puro
Tão grande é a dor e juro / Que perdi a felicidade

Em mim já não há vontade / Está tudo envolto em vazio
Só teu coração está frio / Teu espírito envolvente
Abraça-me eternamente / Meu anjo com asas brancas
Sempre tão meigas e francas / Sempre prontas a ajudar
Meu poeta de encantar / O vazio é tão profundo
Que o céu, a terra, ou o mundo
Estão por ti a chorar

Amigos, mais de um milhar / Partilhando a mesma dor
A falta do teu amor / Da amizade, da alegria;
Só acabará no dia / Que p'ra junto de ti for

As palavras *M.Alegre*

Manuel Alegre / António Chaínho
Repertório de Humberto Sotto Mayor 

Palavras tantas vezes perseguidas
Palavras tantas vezes violadas
Que não sabem cantar ajoelhadas
Que não se rendem mesmo se feridas

Palavras por quem eu fui cativo
Na língua de Camões vos querem escravas
Palavras com que canto e onde estou vivo
Mas se tudo nos levam isto nos resta:
Estamos de pé dentro de vós palavras
Nem outra glória há maior do que esta

Palavras tantas vezes proibidas
E no entanto as únicas espadas
Que ferem sempre mesmo se quebradas
Vencedoras ainda que vencidas

O meu amor é o fado

Tina Jofre / Pedro Rodrigues
Repertório de Tina Jofre 

O meu amor é o fado
É meu amigo também
Meu companheiro ideal
Ando a ele abraçada
Amando-o sinto-me bem
Meu herói de Portugal

Companheiro das noites tristes
Companheiro de ilusões / Meu afago, meu carinho
Ainda bem que tu existes
Alimento de paixões / Nunca abandonas o ninho

Meu fiel enamorado
Entre os maiores tu figuras / Serás eterno, tenho fé
Até morrer canto o fado
E morrerei como as árvores / As árvores morrem de pé

Quadras ao vento

Manuel de Almeida / Popular *fado das horas*
Repertório de Manuel de Almeida

Chego a andar o dia inteiro
Atrás de ti para te ver
Se acaso o tempo é dinheiro
Serei pobre até morrer

Esta profunda tristeza / Que sinto quando te vais
Não é amor concerteza / Concerteza é muito mais

Gosto de ti com firmeza / Embora pouco te veja
Há tanta gente que reza / E pouco vai à igreja

Tu não me chames senhor / Eu não sou tão velho assim
Ao pé de ti meu amor / Não sou senhor nem de mim

Fado alentejano *J.Régio*

José Régio / António dos Santos
Repertório de Humberto Sotto Mayor 

Alentejo, ai solidão
Solidão, ai Alentejo
Oceano de ondas de oiro
Tinha um tesoiro perdido
Nos teus ermos escondido
Vim achar o meu tesoiro

Alentejo, ai solidão
Solidão, ai Alentejo
Convento de céu aberto
Nos teus claustros me fiz monge
Perdeu-se-me a terra ao longe
Chegou-se-me o céu mais perto

Alentejo, ai solidão
Solidão, ai Alentejo
Padre-nosso de infelizes
Vim coberto de cadeias
Mas estas com que me enleias 
Deram-me asas e raízes

Aquela Maria

Alice Ogando / Frei Hermano da Câmara
Repertório de Frei Hermano da Câmara 

Maria da Conceição
Vi-te ontem na procissão / Mas duvidei do que via
Pois quando p'ra ti olhei 
Olhei logo e reparei / Que toda a gente sorria

Maria da Conceição
Ou tu perdeste a razão / Ou então foi bruxaria
Um chapéu nessa cabeça
Mas tu queres que eu endoideça / Oh pobre, pobre Maria

Calça a chinelinha, calça
Põe teu lenço de Alcobaça e a saia de flanela
Põe teu xaile de tricana
Pois tu és ribatejana, pois tu Maria és aquela
Criada com essa aragem
Que faz a mulher formosa e em paisagem bravia
Nunca pode ir bem Maria
Esse chapéu, essa rosa

Maria da Conceição
Sai-me já da procissão / Olha que Nosso Senhor
Sendo embora de madeira
Ao ver-te dessa maneira / Pode fugir do andor

Volta depois sem vaidade
Prefere a simplicidade / Numa vida sem mentira
Sem pose e sem presunção
Maria da Conceição / De Vila Franca de Xira

Gaiola doirada, não

Carlos Conde / Popular *fado corrido*
Repertório de Raúl Pereira 

Deixai-me rir e brincar
Ser livre, livre e mais nada
Ninguém me obrigue a cantar
Numa gaiola doirada


Se o meu nome anda ligado / Ao fado tiste e boémio
Deixai-me ser irmão gémeo / 
Das grandes noites de fado;
Quero viver lado a lado / Com a malta afadistada
Dar o braço à madrugada / E ver o sol a raiar
Deixai-me rir e brincar
Ser livre, livre e mais nada


Deixai-me gozar a vida / No que a vida tem de bom
Sem lhe dar aquele tom / De má sorte ou fé perdida;
Quero andar de fronte erguida / Sem dependência marcada
Procurar o fim da estrada / Sem jamais o encontrar
Ninguém me obrigue a cantar
Numa gaiola doirada

Cantiga de abrigo

Letra e música de Samuel Úria
Repertório de Ana Moura 

Vou esperar contigo / E se quiser tardar
O tempo foi meu amigo
Prendo os ponteiros / Que o teu instante é meigo

Vou mudar contigo / E se puder escapar
Teu corpo é meu abrigo
Prendo-me ao peito / E em ti me desarraigo

Repreendo a própria vida / Cada dia em que, iludida
Me extingui a sós comigo
Sem guarida, mas sigo / Que em teu refúgio há fogo

Se me chamares, meu nome / 
Meu nome seja aconchego
Prendo-te aos braços / E o nó que dou é cego

Guitarras da minha vida

Jorge Rosa / José Marques do Amaral
Repertório de Natércia da Conceição 

Trago guitarras na alma
P'ra acompanhar a tristeza
Ouvindo-as tenho a certeza
Que a minha mágoa se acalma

Trago guitarras no rosto / P'ra acompanhar o meu pranto
Ouvindo-as, não choro tanto / Adormeço o meu desgosto

Trago guitarras na voz / P'ra acompanhar o que canto
Ouvindo-as têm encanto / Fados que Deus me compôs

Em constante guitarrada / Trago guitarras na vida
Vivo assim mais convencida / 
Que não sou tão desgraçada

Isso é com ele e com elas

Carlos Conde / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Hermínia Silva 

Se tens outras, teu proveito
Desconheço-as, nunca as vi
Não tenho tempo nem jeito
Para andar atrás de ti


Em tudo o que seja amor / Não pode haver preconceito
Se és só meu, tanto melhor / Se tens outras, teu proveito

P'ra quê armar discussão / Se o teu amor me sorri
Mesmo que eu saiba quem são / Desconheço-as, nunca as vi

Sei que existes, sei que existo / Sei que és tu o meu eleito
E p'ra fazer cenas tristes / Não tenho tempo nem jeito

Não me importo mesmo nada / Do que tu fazes p'ra aí
Já nasci muito cansada / 
Para andar atrás de ti

Fado pequenino

João José Samouco da Fonseca / António Luís Arrenega
Repertório de João Chora 

Sem ser fadista nem nada
Fiz um fado pequenino
Que chora a vida passada
Nessa Chamusca adorada
De quando eu era menino

Rapazinho de calções / Quanta vez fugi afoito
P’ra espreitar os dramalhões / Pelas frestas dos portões
Do velho teatro Foito

E em páscoas que já lá vão / P’ra fugir à populaça
Ia ver a procissão / Quinta-feira de paixão
Do antigo largo da praça

E a pena que me fazia / Ver a saudade cruel
Dos velhos co’a nostalgia / Da saudosa romaria
Do dia de São Miguel

E o meu fado canta e chora / Serenatas que se deram
Cantadas p’la noite fora / Às raparigas que agora
São velhas ou já morreram

Quando tu passas por mim

Vinícius de Moraes / António Maria
Repertório de António Zambujo 

Quando tu passas por mim
Por mim passam saudades cruéis
Passam saudades de um tempo
Em que a vida eu vivia a teus pés

Quando tu passas por mim
Passam coisas que eu quero esquecer
Beijos de amor infiéis
Juras que fazem sofrer

Quando tu passas por mim
Passa o tempo que me leva pra trás
Leva-me a um tempo sem fim
A um amor onde o amor foi demais

Eu que só fiz adorar-te
E de tanto te amar penei mágoas sem fim
Hoje nem olho pra trás
Quando tu passas por mim