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A moleirinha

Popular / Alfredo Duarte *mocita dos caracóis*
Repertório de Alfredo Duarte Júnior*

Minha linda moleirinha
A quem eu adoro tanto
Tão simples, tão maneirinha
Que até o pó da farinha
Ainda te dá mais encanto

Não penses mais na cidade / O teu sonho mal fadado
Perdes lá a felicidade
Depois sentirás saudade / Do teu rosto enfarinhado

Não ouves velas ao vento? / O chiar do teu moinho
É talvez o seu lamento
Por ter o pressentimento / De que o vais deixar sozinho

Lá a vida é bem ruim / O porvir não se adivinha
Tem dó de ti e de mim
Porque eu prefiro-te assim / Minha linda moleirinha

O meu viver

Jorge Rosa / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de António Mourão 

Não avalia ninguém
O peso da minha dor
Amar-te, calando bem
Dentro de mim, este amor

A adorar-te a vida inteira / Condenei neu coração
Agora não há maneira / De o livrar desta prisão

Não duvides do meu querer / Para tal não tens motivo
È p'ra ti o meu viver / E è do teu amor que eu vivo

Mais doido que tu, dou eu / Que vivo a tua loucura
P'ra este errar teu e meu / 
Não há remédio nem cura

P’la cidade passeei

Fernando Lito Inácio Magalhães / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Augusto Fernandes

P'la cidade passeei
Até vir a madrugada
Pelas ruas divaguei
Aonde fui eu não sei
Eu não me lembro de nada

Vi a lua prateada / Lá no céu a cintilar
E a minha mente cansada
Andava ali agarrada / Não me deixando sonhar

Vim par casa e finalmente / Contigo p'la minha mão
Disse-te então friamente
Meu coração já não sente / Por ti a mesma paixão

Como eu recordo esse dia / Em que o teu amor neguei
Por todo o lada eu te via
Perdi a minha alegria / Por onde ando, não sei

Poema bendito

Maria de Lourdes Carvalho / Martinho d'Assunção
Repertório de Ana Madalena

Trago comigo, escondido
Só, vagabundo, perdido
Um poema que te fiz
Aquece meu peito vazio
E com ele suporto o frio
Das noites em que te quis

Fala d’amor, è verdade
Chora o pranto da saudade / Tempo vivido a teu lado
Chama que tu acendeste
Alimentaste e esqueceste / Como brinquedo quebrado

Na rima do meu poema
Tua boca é doce tema / Teus olhos mais atrevidos
Tua voz, verso final
Anjo do bem e do mal / Castigando meus sentidos

Passo triste *em vão*

Florbela Espanca / Alfredo Duarte *fado cuf*
Repertório de Alfredo Guedes 

Passo triste na vida e triste sou
Um pobre a quem jamais quiseram bem
Um caminhante exausto que passou
Que não diz onde vai nem donde vem

Ah!  sem piedade, a rir, tanto desdém
A flor da minha boca desdenhou
Solitário convento onde ninguém
A silenciosa cela procurou

E eu quero bem a tudo, a toda a gente
Ando a amar assim, perdidamente
A acalentar o mundo nos meus braços
E tem passado, em vão, a mocidade;
Sem que no meu caminho uma saudade
Abra em flor a sombra dos meus passos

Madalena

Letra e música de Marques de Carvalho
Repertório de Tristão da Silva

Madalena, a formosa pecadora
Arrependida, foi pedir perdão a Deus
E sem pena dessa vida sedutora
Resolveu mudar de vida
E olhar de frente os céus
E o amor transformou-se em devoção
Pois
sorrindo, o redentor
Concedeu-lhe o seu perdão

Agora o sol é d'oiro

A lua é fantasia
A vida é tesoiro de alegria
E Cristo murmurou
Talvez com certa pena
Quem foi que não pecou, ó Madanela

Meu Jesus: assim falou Madalena
Sou tão ditosa, sinto tal felicidade
Que da luz dos meus olhos em  berbena
Vejo a vida cor de rosa
Tudo no mundo é verdade
Se pequei e vivi na perdição
P'lo teu amor me salvei
Acordei a redenção

Retrato

Mário Claudio / Bernanrdo Sassetti
Repertório de Carlos do Carmo

Quando a tarde passa, abre-se outra porta
Se o morcego voa, a estrela desponta
Ser de hoje ou de sempre, nada disso importa
Todo o tempo corre só por nossa conta

Sei de praias brancas, de velas queimadas
Se perdi meus passos em longa carreira
Tive pais e filhos, tive namoradas
E encontrei-me logo aqui mesmo à beira

Jogo minhas cartas na mesa da vida
Recolho moedas e penas também
Alma incandescente, de frio transida
Quem me dá certezas que o livro não tem

O vinho bebido ao sangue juntei
E os frutos da terra descobri em mim
Que ninguém me diga que morreu sem lei
Que ninguém me diga que morreu assim

A vida *F.Farinha*

Linhares Barbosa / Popular *fado menor*
Repertório de Fernando Farinha

A vida, o que vale a vida
Cante a vida quem souber
Que eu trago a vida perdida
Na vida duma mulher


P'ra que vivo, p'ra que existo / P'ra tanta mágoa sofrida
Se a vida é apenas isto / A vida, o que vale a vida

Se a dor é ferro e a lei / Que todos corações fere
Cantar a vida, não sei / Cante a vida quem souber

Lá porque não sei limpar / Uma lágrima caída
Não querem acreditar / Que eu trago a vida perdida

Foi no amor, eu bem sei / Numa paixão de morrer
Que a minha vida deixei / 
Na vida duma mulher

É festa é festa

Carlos Dias / César de Oliveira
Repertório de Anita Guerreiro

Se é curta a vida e mal vivida
P'ra quê fugir ao que há-de vir um dia a suceder
A vida é bela, fazei por ela
Que o mal só vem quando ele tem de acontecer

Venham cantigas, trovas amigas
P'ra se sofrer ou se viver com mais animação
Não parem de sorrir
Toca a folgar e rir
Que é p'ra alegrar e animar o coração

É festa, é festa ó Zé
É festa, é festa ó pá
Ai goza a vida
Que um dia perdida, já outra não há
Alegre romaria
Não há como esta
Ai, ò Zé haja alegria e viva a folia
Que é dia de festa


Se nos ralamos nada ganhamos
Ainda mais nos são fatais as horas de amargor
A felicidade vem por vontade
Não vem, oh não, por obrigação, nem por favor

Abram a alma à vida calma
Que assim fiz e sou feliz, alegre e jovial
Agora à luz do luar, alegre e a tremular
Meu coração è um balão no arraial

Fado calado

Nuno Miguel Guedes / Sidónio Pereira
Repertório de Lúcia Mourinho 

Pediste-me cem palavras
Para dizer o que sentia
Deixaste-me sem palavras
A pensar como seria

De boca aberta d’espanto / Resolvi cantar um fado
O que saiu do meu canto / Foi só um fado calado

Por mais que pedisse a voz / Ela teimou não chegar
P’ra dizer eu, tu e nós / E as mil maneiras de amar

Não existem cem palavras / Para dizer este tudo
Coração é sem palavras / E é cego, surdo e mudo

Esse teu nome Lisboa

Mário Raínho / Carlos Dionísio
Repertório de Paulo Filipe

Confesso tinha saudade / Já, de ti minha Lisboa
Pra onde for sempre há-de / O teu nome vir à proa

À proa deste navio / Ao mar da minha lembrança
Convés de fio a pavio / Que percorro de criança

Lisboa, mulher-magia
De colinas à cabeça
Saia bordada a maresia
Ancas onde o olhar tropeça
Teus braços, ondas de mar
Gaivota, que sobrevoa
A minha alma, a cantar
Esse teu nome, Lisboa

Tuas veias são as ruas / Aonde corre enleado
Em noite de frias luas / O choro de tanto fado

Tanto fado, que recordas / Não só choro, mas festejo
Lisboa que quando acordas / 
Lavas sorrisos no Tejo

Há um silêncio-amargura

Fernando Lito / Fontes Rocha *fado isabel*
Repertório de Fátima Couto

Há um silêncio-amargura
No teu sorriso sem cor
E o grito de quem procura
Razão na palavra amor

Horas mortas, madrugada / Ódio, paixão, ou ternura
Na tua face marcada / Há um silêncio-amargura

À vida já perguntei / A razão da tua dor
Mas a resposta encontrei / No teu sorriso sem cor

A noite já acendeu / Dentro de ti, a loucura
És um sonho que morreu / E o grito de quem procura

E nesse teu caminhar / A Deus pede com fervor
Possas um dia encontrar / Razão na palavra amor

Tempos que já lá vão

Manuel de Almeida / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Manuel de Almeida 

Oh fadistas do passado
Que no fado deram brado
Na boémia e no tacão
As coloridas toiradas
E as noitadas bem passadas
São tempos que já lá vão

Fidalgos aventureiros
Boleeiros e toureiros / Gente nobre, gente fixe
Abalam nas traquitanas
Cem ciganas levianas / Prás adegas de Carriche

As severas, os artistas
Guitarristas e fadistas / E faias de cachené
Os fidalgos mais ramboias
Mandam bater as tipoias / P’ra abertura da água-pé

Entre os improvisadores
Cantadores dedilhadores / Ao findar a desgarrada
Por causa dum rufião
Há discussão e confusão / Resolvida à bofetada

Que é feito do nosso fado
Que deu brado no passado / E um faia a falar calão
As coloridas toiradas
As noitadas bem passadas / São tempos que já lá vão

É só por causa dela

Rosa Lobato Faria / Thilo Krasmann
Repertório de Marco Rodrigues 

É só por causa dela que não dá por mim
Com os seus olhos verdes de mar
É só por causa dela que eu sou assim
Vagabundo destas ruas, destes cais

É só por causa dela que não tenho sede
E ando de cabeça no ar
É só por causa dela, sei lá porquê
Que eu não quero outro céu nem outro mar

Teu lindo nome
Marcou-me no coração
E a tua graça que passa sem saber
Teu nome rima
Por cima da tentação
Olá Lisboa, tão boa, tão mulher

É só por causa dela que não digo adeus
Ao luxo a preto e branco do chão
E os beijos e azulejos são todos meus
E as janelas das vielas também são

É só por causa dela, se a maré subir
Que à tarde o seu vestido é a cor
E quando noite desce sem prevenir
Me comovo a um fado novo deste amor

Guitarra e violino

Francisco Radamanto / Direitos musicais reservados
Repertório de Mário Rocha, Jorge Fernando e Nuno de Aguiar

Mário Rocha - Declamado
No vasto anfiteatro abandonado
Finda a festa, eu ouvi uma guitarra
E um certo violino afidalgado
A discutir de forma mui bizarra

Jorge Fernando - Fado Alberto de Miguel Ramos
Pobre lira: dizia o violino
Quem te manda a ti, cá vir cantar
Não sabias que eu estava, eu, o divino
Cantor universal de voz sem par

Nuno de Aguiar - Fado Margarida de Miguel Ramos
Que figura mesquinha hás-de fazer
Em contraste com o meu valor profundo
Não voltes a cantar onde eu estiver
Porque eu só; apaixono de todo o mundo

Mário Rocha - Fado Varela de Renato Varela
E a guitarra lhe diz, humildemente;
Teu orgulho é talvez, demasiado
Tens valor sim; mas cá prá nossa gente
Tens um defeito; não cantas o fado

És de todos; não tens pátria, afinal
E eu nunca invejei tua nobreza
Tu és o violino universal
Mas eu sou a guitarra portuguesa

Errei

Alberto Rodrigues / Acácio Gomes *fado acácio*
Repertório de Mariana Silva
                                                          
Errei, mas não fui culpada
Nem sei até porque errei
Foi o destino que quis
Errar por tudo e por nada
É uma forçada lei
Da mulher que é infeliz

Quis-lhe com tanto fervor
Que louca de amor por ele / O amava cegamente
Era tanta a minha dor
Que andava sempre atrás dele / A errar constantemente

Nesse sonho embalador
Fui-me deixando vencer / Em tudo via paixão
E perdida nesse amor
P’ra sempre deixei morrer / O meu pobre coração

E hoje desiludida
Quando o vejo ainda parece / Que continuo a errar
É a vida sempre a vida
Da mulher que nunca esquece / O homem que soube amar

Eu seja fado

Ana Sofia Paiva / Raúl Ferrão *fado carriche*
Repertório de Sofia Ramos

Amanheceu solitária
A minha rosa em botão
Cantou-me um fado, uma ária
E foi-se abrindo em canção

É uma rosa trigueira / Cor de Alentejo ao relento
E canta de tal maneira / Que arrepia o pensamento

Se o meu destino é o nosso / Se são meus os seus sinais
Colher a rosa, não posso / Viver sem ela, jamais     

Mas se eu cantar esta rosa / Se eu lhe fizer companhia
Talvez em flor ou em prosa / Eu seja fado algum dia

Ala arriba

Manuel de Almeida / José Pereira “fado clarim”
Repertório de Nuno de Aguiar

Ala arriba é o grito dos poveiros
Que o mar misterioso lhes quer roubar
O grito dos fortes aventureiros
Heróis dos sacrifícios além mar

Lá partem nos veleiros, sorridentes
Na conquista de pão e de agasalho
E os calos que mostram avaramente
São medalhas sagradas do trabalho

Arriba... éo grito, o murmurar
Dos velhos lobos do mar nas tempestades de além
Arriba... tem cuidado ó pescador
Olha que o mar é traidor e não respeita ninguém

Oh almas peregrinas daqui vos louvo
Dos loucos vendavais com emoção
Filhos do povo que lutam pelo povo
Escravos do dever e da razão

Já vibra na alvorada o raio profundo
Da marcha triunfante do regresso
E os seus músculos sagrados são no mundo
As fortes alavancas o progresso

Xaile negro

Maria Fernanda Santos / Popular *fado mouraria*
Repertório de Fernanda Maria

Ao trinar duma guitarra
Com tristeza ou alegria
De xaile negro sobre os ombros
Vou cantar o Mouraria

Fado triste, xaile negro / Aos ombros duma fadista
Quem o canta, quem o escuta / Vive um quadro realista

Nem só a tristeza impera / Nesse quadro realista
Xaile negro sobre os ombros / Fado triste é mais fadista

Guitarra minha guitarra / Dedelhando o Mouraria
Quero o xaile e a guitarra / Na tristeza ou na alegria

Falaram de nós

Domingos Gonçalves Costa / Jorge Fontes
Repertório de Tristão da Silva

Falaram de nós quando era mentira
Vivemos somente juntos, mas tão sós
Juntos mas distantes da maldosa ira
Com que certa gente falava de nós

Falavam de nós por isso sofremos
Calúnias sem par muita hora atroz
Porém despertamos e agora nos queremos
Sem nos importar que falem de nós

Que importa o que diz o mundo
Que importa o que a boca diz
Tudo passa num segundo
Ès feliz e eu sou feliz;
É o que conta e após
Unidos porque Deus quiz
Já ninguém fala de nós


Faram de nós, teceram-se enredos
Contaram-se histórias com finais medonhos
Mas há no amor, mistérios, segredos
Derrotas, vitórias e um mundo de sonhos

Falaram de nós sem dó nem desculpa
E a vil falsidade ergueu sua voz
Por isso è que ès minha e bendita a culpa
Dos que, com maldade, falaram de nós

Fado alegre

Letra e música de Joko
Repertório de Beatriz 

Não quero mais choradinho
Estou farta de tanta mágoa
Nunca mais ninguém vai ver
Os meus olhos rasos de água

Quero cantar outro fado / Quero deixar o casebre
Vou deixar o tom menor / Vou cantar o fado alegre

Gostava de andar em frente
Sem nunca mais olhar para trás
Na minha terra ou no mundo
Qualquer sítio tanto faz

Quero que o meu povo / Passe do choro ao cantar
Mesmo da velha má-língua / Tenho que me libertar;
De amor não quero míngua / Espero alguém para amar

Não negues a tua mão

Manuel de Almeida / Filipe Pinto *fado meia-noite estilizado*
Repertório de Manuel de Almeida 

Não negues a tua mão
Não negues o teu amor
Vê em todos um irmão
Sem olhar à sua cor

Cansado de não ser gente
E de batalhas perdidas
Minha voz andou ausente
De palavras prometidas

Minha longa madrugada
Meu silêncio de morrer
Minha feliz alvorada
Meu direito de viver

No reino de Portugal

Beatriz Santos / Pablo Lapidusas
Repertório de Beatriz 

Neste país pequenino
Há romances sem igual
De príncipes e princesas
Até ao comum mortal

São romances tão singelos / Que a gente conhece bem
Pena é que os namorados / Não contem nada a ninguém

Quando a gente vê tais casos / Fica triste e sem sorrir
Mas ouvindo cantar o fado / Acabamos por sentir

Sentir casos tão tristes / Não acabam sempre mal
As princesas são felizes / No reino de Portugal 

Lisboa no outono

Silva Tavares /  Nóbrega e Sousa
Repertório de Tristão da Silva 

Lisboa no outono / Creiam que vale por cem
O dar o seu a seu dono / Não, não custa nada a ninguém

Os dias luminosos / Não se podem descrever
E se há estranhos duvidosos / Façam as malas, venham cá ver

Não me desmintas, mostra que ès bela
Minha Lisboa sempre menina
Mas vem de xaile e chinela
Portuguesinha e traquina
Vem co'as cachopas dos teus mercados
Sem arrebiques afrancesados
E p'ra ninguém duvidar
Como tu e só tu sabes cantar
Canta Lisboa e sorri
Que esta minha canção è para ti


As noites de bom fado / Nas adegas regionais
São qual motivo obrigado / De comer e chorar por mais

Nas ruas, as pessoas / Mostram-se alegres, com fé
E cheira a quentes e boas / 
E vai-se à prova da água pé

Na cama do abandono

José Fernandes Castro / Armando Machado *fado súplica*
Repertório de António Campos

Na cama do desejo que me queima
Exibindo a vontade natural
Revejo o teu perfil que ainda teima
Manter essa distãncia habitual

Existe uma barreira violenta
Que sem querer me tem acorrentado
E sempre que o instinto me atormenta
Eu sou, pelo amor, abandonado

Dou voltas e mais voltas em redor
Do
corpo que rejeita o amor que tenho
Cansado... adormeço sem amor
E sem saber do amor, o seu tamanho

Tristonho... acordo sem sorrir à vida
Sem ter motivos p'ra beijar o dia
Em nome da batalha já perdida

Ganharei o amor em guerra fria

O meu viver

Jorge Rosa / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de António Mourão

Não avalia ninguém
O peso da minha dor
Amar-te, calando bem
Dentro de mim, este amor

A adorar-te a vida inteira / Condenei neu coração
Agora não há maneira / De o livrar desta prisão

Não duvides do meu querer / Para tal não tens motivo
É p'ra ti o meu viver / E é do teu amor que eu vivo

Mais doido que tu, ou eu / Que vivo a tua loucura
P'ra este errar teu e meu / Não há remédio nem cura

Talvez

Letra e música de Archimedes Messina
Repertório de Tristão da Silva

Talvez você me veja, talvez
Talvez você me abrace, talvez
Há muito tempo que eu vivo a esperar
Por este momento
Há muito tempo, há muito tempo

Talvez você você me beije, talvez
Talvez você despreze o meu amor
Eu só não sei se aceitarei sua presença
Depois do que você me fez
Talvez

Quando as palavras são poucas

João Imaginário / Franklim Godinho *quadras*
Repertório de Manuel Fria

Quando as palavras são poucas
P'ra dizer, não desespero
Canto o fado em quadras soltas
Co'a liberdade que quero

Dá-me um sorriso dos teus / Se o teu sentir è sincero
Porque eu sonhei que não voltas / Co'a liberdade que quero

No meu jeito de cantar / Nem qualquer tema tolero
O meu fado è inspirado / Co'a liberdade que quero

Digo-te adeus sem ter medo / Hás-de voltar, assim espero
Com mil ideias de fado / Co'a liberdade que quero

Somos dif'rentes dos outros / O nosso amor tem seu esmero
Tem a noção das palavras / 
Co'a liberdade que quero

Além de ti

Fernando Farinha / Casimiro Ramos
Repertório de Manuel de Almeida

De criança te adorei
Fiz de ti a doce esperança
Do amor que desejei
Hoje vejo loucamente
Que quanto mais me desprezas
Mais te quero ardentemente

P'ra esquecer... já fugi ao teu olhar
Julgando assim, apagar
O fogo da minha crença
Mesmo distante... tua imagem não esqueci
Quanto mais longe de ti
Mais sinto a tua presença

Cruel sorte Deus me deu
Ter no peito um coração
E saber que não è meu
Tristes olhos recebi
Deviam ver toda a gente
E só te vêm a ti

Além de ti... nem o mar longo e profundo
Nem a grandeza do mundo
Nem do sol, o seu calor
Além de ti... só Deus, alma redentora
E este amor que sofre e chora

À espera do teu amor

Fado livre

Jerónimo Bragança / Nóbrega e Sousa
Repertório de Tony de Matos

Perdi o teu amor, há mais amor por esse mundo
Um cais é de chegar e de partir
Viver devia ser, não ter amarras, vagabundo
Chegar, sorrir, olhar e prosseguir

Perdi o teu amor, não sou capaz de guardar nada
Sei lá quantas perdi até aqui
Mas fui, fomos os dois uma loucura desvairada
Depois, não sei porquê que te perdi

Amarras entre nós
Prendem a força do amor
Sou livre como o vento sem quadrantes
Aqui, ali, além
Amar seja quem for
Mais livre, meu amor, do que era dantes


Perdi o teu amor, dexá-lo ir por aí fora
Um cais é de chegar e de partir
Amar devia ser, não ter amarras, ir embora
Voltar, sorrir, olhar e repetir

Perdi o teu amor, há mais amor em qualquer lado
Raiz que não morreu dá sempre flor
Verás teu corpo-chão por tantos beijos meus, lavrado
Voltar a renascer de cada amor

Evocando o passado

Domingos Gonçalves Costa / Francisco Carvalhinho
Repertório de Fernanda Maria

Gostava de ir contigo à noite, à Mouraria
P'ra reviver saudosa os restos do passado
Pois desde a Amendoeira, até à velha Guia
Em tempos que lá vão, reinava ali o fado

Levarei o meu xaile e tu vestes samarra
Dois símbolos de fé do fado de outra era
E ali no Capelão ao som duma guitarra
Canto como quem reza, os fados da Severa

Depois, juntos os dois, à luz da branca lua
Um rosário de penas iremos desfiar
Cantando um fado triste, ali em qualquer rua
Daquelas, onde agora, a dor anda a cantar

E antes que nasça o sol, em romagem singela
De viela em viela, em doce melodia
Iremos, braço dado, até junto à capela 
Cantar cheios de saudade o fim da Mouraria

Parti

Carlos Leitão / Popular *fado das horas*
Repertório de Carlos Leitão

Nem sempre choro por ti
Quando a agonia me pesa
Hoje fui eu que parti
Todos os pratos da mesa

Hoje fui eu que parti / Deste amor que se desfez
Nem sempe choro por ti / Deixo-te só desta vez

Ando à procura de mim / E da sorte merecida
Deixar-te é apenas o fim / E o começo de uma vida

Não te esqueças deste dia / Hoje fui eu que parti
A mesa ficou vazia / Não vou chorar mais por ti

Fado mourisco

Azinhal Abelho / Alfredo Duarte *marcha do marceneiro*
Repertório de Manuel Fria

Esta saudade morena
Foi de uma serracena
Que ma deixou, a chorar
É herança de raíz
Que eu canto no meu país
Quando estou em frente ao mar

No reino da desventura
Na jura ficas prejura / Quando eu quis tu não quiseste
Sol e vento cinza e lama
Nem os moiros da moirama / Fazem o que tu fizeste

Ó lua, rosa encarnada
Lua cheia, lua estrada / Lua que matas assim
Três feridas num corpo nú
Um lençol de pano cru / 
Minha mãe, chora por mim

Quem faz de conta

Jerónimo Bragança / Jorge Costa Pinto
Repertório de Tristão da Silva

Não é viver se não houver a flor dum sonho
Flor sem raíz, chão sem país ao sol risonho
Sonhar é força que o sangue percorre
Quem vive sem sonhos
Como que morre sem andar

Sonhar é tudo quanto resta a quem não tem de seu
Quem faz de conta, não protesta, é como eu
Sonhar é fome que consome e que faz mal
Maldito sonho em que suponho, ser teu igual

Viver não é chegar ao pé de quem responde
Viver é mais saber que mais, ir ver aonde
Viver é força do sangue dum sonho
Quem mora na vida quase não vive sem sonhar

Aquele degrau

Horácio de Carvalho / Jorge Fontes
Repertório de Manuel de Almeida

Tanta vez, a hora morta / Eu encaminhei meus passos
Para ir à tua porta / Ao encontro dos teus braços

E aquele degrau que havia / Na tua escada, à entrada
P'ra me anunciar, gemia / De cada vez que o pisava

Velho degrau carcomido
Que nunca mais pisarei
E aquele estranho ruído
Que eu nunca mais ouvirei;
Velha escada que subi
Tanta vez, de madrugada
Velho degrau que desci
Sem fé, sem amor, sem nada


O degrau que tanta vez / Eu pisei com emoção
Numa só noite desfez / Dentro em min, uma ilusão

Degrau que, tão de mansinho / Com medo de te acordar

Pisava devagarinho / Já não quero mais pisar

Volta amor

João Correia / Nel Garcia
Repertório de Fernanda Moreira

Vida tão triste esta que levo, meu Deus
Ao fingir que me não viste
Mal disseste os sonhos meus
Vida tão triste eu levo pra meu castigo
Já nada pra mim existe
Volta amor, anda comigo

Volta amor, a este leito de arminho
Vem reviver o calor
O calor do meu carinho
Volta amor, fica p’ra sempre a meu lado
Vem esquecer esta dor
D’um triste viver passado

Vem a meus braços, vem amor... oh que tristeza
Meus braços vão dar abraços
De um novo amor com certeza
Vem a meus braços, aperta-os com devoção
E vem dar fim aos cansaços
Que existem em meu coração 

Nunca vivi

Jorge Rosa / João de Vasconcelos
Repertório de Tony de Matos 

Se agora sim, tenho um motivo 
Para viver e se hoje vivo 
Só por te ter, só por viver 
Ao pé de ti
Vou procurar as horas de ontem
P'ra lhes falar, p'ra que me contem
Se no passado, s
em ti a lado 
Também vivi

Tudo emudece, tudo se cala
Tudo parece perder a fala
Se eu recordar, nada me diz, já vi
Tudo é silêncio, estou convenvido
Andei sem ti, andei perdido
Nunca vivi, nunca vivi


Se agora sim, tenho outra forma
A minha vida e o que a transforma
É a alegria de, por magia
Ter-te encontrado
Vou ver se sei porque razão
Não te encontrei na solidão
Sem cor nem luz q
ue sem querer puz 
No meu passado

Asas de gaivota

Carlos Lacerda / Raul Ferrão *fado carriche*
Repertório de Carlos Marques 

Porque tens asas de gaivota
Na sombra do teu andar
É quando partes, fico
Tão triste, quase a chorar

Porque tens mar nos teus olhos / Em marés de noite escura
É que ando neste estado / Quase em estado de loucura

Mas quando vens finalmente / Quando juntamos os corpos
E os sentidos aquecem / Porque não estamos mortos

É que eu voo à tua altura / E debaixo da tua asa
Posso contruír com sonhos / 
As pedras da nossa casa

O fado da tua ausência

Matos Maia, Zélia Pinto / Franklim Godinho *sextilhas*
Repertório de Manuel Fria 

Eu sei que sou o culpado
Tu já não estâs a meu lado
Pois não te soube prender
Eu sei que tu és feliz
Mas se o destino assim quiz
Já nada posso fazer

Prendi-me só à saudade
Da minha triste verdade / E do amor que perdi
Vivo uma vida fingida
Ao lenbrar tua partida / E ao sentir que estou sem ti

E choro ao estar sozinho
E ao lembrar o teu carinho / Como quem sente e não vê
Mas nesmo assim vou vivendo
Embora aos poucos morrendo / E vivo nem sei porquê

Vivo ao sabor das marés
Corro a praia lés a lés / Já sinto o corpo doer
Mas não, não posso parar
Eu tenho que te encontrar / 
Nada me pode prender

Cantiga de amigo

Mendinho / Alain Oulman
Repertório de Amália

Sentada na ermida de São Simeão
Cercaram-me as ondas, que grandes são
Eu atendendo o meu amigo
Eu atendendo o meu amigo

Estando na ermida, frente ao altar
Cercaram-me as ondas, grandes do mar
Eu atendendo o meu amigo
Eu atendendo o meu amigo

Não tenho barqueiro nem armador
Morrerei formosa no mar maior
Eu atendendo o meu amigo
Eu atendendo o meu amigo

Bons dias

Artur Ribeiro / Jorge Fontes
Repertório de Fernando Maurício 

O que eu guardo nos sentidos 
Do nosso amor acabado
São os dias bem vividos
Que passamos lado a lado;
Já me esqueci, na verdade
Do mal que tu me fizeste
Mas recordo com saudade
Os bons dias que me deste

Bons dias... bons dias que já passamos
Bons dias... que não fazem muitos meses
Horas em que nos amamos
E nos zangámos às vezes
Bons dias que não voltamos
A viver, por mais que rezes


Vi-te partir iludida
Tal como alguém que se presta
A dar, num dia de vida
Toda a vida que lhe resta;
E a fita com que prendias
Os cabelos, p'ra dormir
Ficou a dar-me os bons dias
Nos maus dias que hão-de vir

Boémia da noite

João Correia / Nel Garcia
Repertório de Leonor Santos 

Tu dizes a esmo / Coisas que não são
Nada de ti mesmo / Ditos sem razão
Tu dizes a esmo / Triste desabafo
Nada disso eu faço / Louco coração

Boémia da noite é o que me chamas
Mas não proclamas a louca que sou
Boémia da noite, sou o que tu és
Em vivas marés no mar para onde vou

A noite é p’ra mim / Meu eterno encanto
É rumo sem fim / Irmã do meu canto
A noite é pra mim / Poema encantado
É tudo de um fado / É a voz que te canto

Fado da rua traquina

Rodrigo de Melo / Georgino de Sousa
Repertório de Vicente da Camara

Minha rua sossegada
Onde se não passa nada
E se conhece quem passa
És como certas mulheres
Tão linda sem o saberes
Com graça sem querer ter graça

Não tens luxo e és ditosa
Não te compões e és formosa / Não és rica e vives bem
Minha rua pequenina
Onde brincaste em menina / E já brincou minha mãe

Trabalhas mas também amas
Quando o amor acende chamas / No olhar das tuas donzelas
És maneirinha e garrida
Governas a tua vida / E tens cravos nas janelas

Eu não tenho outra delícia
Que ir vivendo na carícia / De te dar minha amizade
Deixar-te era padecer
Era aprender a dizer / 
Esta palavra saudade

Fado antigo

Manuel de Almeida / Popular *fado corrido*
Repertório de Manuel de Almeida 

Meu velho fado corrido
Se foste dos mais bairristas
Porque te mostras esquecido
Na garganta dos fadistas

Explicou-me um velho amigo / Como o fado era tratado
Tinha graça o fado antigo / Da forma que era cantado

Um ramo de loiro à porta / Indicava uma taberna
À noite era uma lanterna / Com sua luz quase morta

Sobre os cascos da vinhaça / Deitada em forma bizarra
Estava sempre uma guitarra / Para servir de negaça
O canjirão da murraça / De tosco barro vidrado
Andava sempre colado / Aos copos, pelo balcão
E era assim nesta função / Como o fado era cantado

Se aparecia um tocador / Às vezes até zaranza
Pedia ao tasqueiro a banza / Para mostrar seu valor
Logo havia um cantador / Dando um tom de certo perigo
Provocava o inimigo / No cantar à desgarrada
Até às vezes, com lambada / Tinha graça o fado antigo

Pouco tempo decorrido / Cheia a taberna se via
P’ra escutar a cantoria / Ao som do fado corrido;
Todos prestavam sentido / Quando alguém cantava o fado
O tocar era arrastado / O estilo dava a garganta
Hoje pouca gente o canta / Da forma que era cantado

Escutei com atenção / Um cantador do passado
E a sua linda canção / Prendeu-me p’ra sempre, ao fado

Por muito que se disser / O fado é canção bairrista
Não é fadista quem quer / 
Mas sim quem nasceu fadista