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Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa, todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre
PAULO FREIRE *filósofo* 19.09.1921 / 02.05.1997
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As 5.685 letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores.
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O começo

Pedro Homem de Mello / Acácio Gomes *fado bizarro*
Repertório de Carminho

Principio a cantar para quem tenha
Fome de ouvir a música do vento
Porém, sabeis que fiz da mágoa, lenha
E que das suas brasas me sustento

Fiel, acorro à última chamada
Ninguém comigo, pode estar ausente
Trago uma farda inteira, já mudada
E que se há-de mudar eternamente

Só dura o mundo enquanto dura a trova
Rasgado o coração, pairam gemidos
Nascemos porque a dor é sempre nova
E não há sofrimentos repetidos

Poeta

Letra e música de Carminho
Repertório da autora

Quem escreve suas canções
Dizendo aquilo que sente
Faz crescer os corações
Emoções como semente

Sementes que deixam tal / Que inspiram os passarinhos
A construir os seus ninhos / À beira do vendaval
E numa confiança igual / De entre as suas devoções
O poeta em orações / Escreve os poemas e fados
Ilumina os mais cansados
Quem escreve suas canções

Dá-nos saber e coragem / E é inspirado pela sorte
De uma tal singela arte / Que só o talento tem
Escreve poemas porém / Na tentativa demente
De dizer a toda a gente / As emoções que não teve
Segue mentindo quem escreve
Dizendo aquilo que sente

Pois esta sabedoria / Torna-o assim imortal
Dá-lhe coragem igual / À do herói d’alagoria
Vive numa fantasia / O poeta nas canções
Leva a todos emoções / Dá imagens a beber
Ilumina, dá saber
Faz crescer os corações

Agora entendo a canção / Que ouvi uma vida inteira
Com a tua sementeira / Cresceu o meu coração
E nas noites ao serão / Ouvi cantar tanta gente
Desta forma comovente / Para entender que o amor
Cresce assim como a flor
Emoções como semente

Quadras soltas

Silva Tavares / Casimiro Ramos *fado pinóia*
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt

Dá-me os teus olhos profundos
E o mundo pode acabar
Que importa ao mundo se há mundos
Lá dentro do teu olhar

Quando me vejo no fundo
Dos teus olhos namorados
Sinto que os males do mundo
São pelo mundo inventados

Teus olhos indefinidos
São labirintos de cor
Onde os meus cinco sentidos
Andam perdidos de amor

Eu só gostava de ter
O poder de adivinhar
Que estão teus olhos a ver
Quando te vejo a pensar

Verbo ser e verbo amar
São duas frases de Deus
Que eu quisera desvendar
No fundo dos olhos teus 

Gola alta

Henrique Segurado / Alfredo Marceneiro *senhora do monte*
Repertório de Camané

Tu levantas mais a gola
T-shirt de casmere -
Enquanto o vento se enrola
Noutras folhas a cair

Tivesse mãos outonais / Talvez te fosse despir
Mas minhas mãos são iguais / Aos pedintes a pedir

Estendo a mão à caridade / Sonhando tocar nas tuas
Colho folhas sem idade
De jornais voando em ruas

Alquimias do Outono / Tornando o verde amarelo
Capricho de rei sem trono / Cortando relva a cutelo

São pedaços de pão duro / Migalhas indo em roldão
Eu sou um fruto maduro / Que não vais colher do chão

Viver de ouvido

Alice Sepúlveda / José Fialho Gouveia
Repertório de António Zambujo

Eu só sei viver de ouvido
Não fui nunca de estudar
O que sei foi aprendido
Pelas artes de escutar

Eu só sei viver de ouvido / Nunca fui de erudições
Mas eu sei pôr em sentido / O bater dos corações

Não me queiras no papel / De escritor mais inspirado
Mas sei pôr na tua pele / Um poema arrepiado

Eu só sei viver de ouvido / Nunca leio as instruções
Mas sei ler o teu vestido / Sei abrir os teus botões

Nenhum de nós

Marco Oliveira / Miguel Amaral
Repertório de Miguel Xavier
    
De tudo o que dissemos, faltou dizer adeus
Chorar, seguir de vez por essa longa estrada
O tempo foi passando, levou-me beijos teus
E as cartas que escrevi ficaram sem morada

Eu nunca mais te vi, tu nunca mais me viste
Nas mesmas velhas ruas onde a saudade mora
Saudade de nós dois, do amor que ainda existe
Por pena desespera, de mágoas se demora

É tudo tão diferente, bem sei que já mudaste
Em tudo o que sonhava, em tudo o que sentisse
Mas lembra-te de mim na vida que encontraste
Adeus, amor, adeus; nenhum de nós o disse

Barata tonta

Maria do Rosario Pedreira / António Zambujo
Repertório de António Zambujo

Sai de casa, vê as horas
Solta a roda do vestido
Fecha a porta de mansinho
Dos seus lábios como amoras
Espreita um sorriso atrevido
Põe o pé no mau caminho

Passa por mim diz-me adeus
E em passo bem apressado / 
Desaparece no escuro
Ai, por um beijo dos seus
Eu vendia o meu passado / E comprava o seu futuro

Olha quem chega tão tarde
Falta pouco, o sol desponta / 
Vem de sapatos na mão
Ainda tem quem a aguarde
Sou eu a barata tonta / 
Às voltas com a paixão

Passa por mim diz-me adeus
Vê as horas e boceja / 
Há-de deitar-se vestida
Ai por um sonhos dos seus
Ai que fosse eu quem a beija / 
Dava toda a minha vida

Amor e saudade

António Torre da Guia / André Teixeira
Repertório de Miguel Xavier

O amor que sentimento
Tão belo e tão fatal
Acaba na lei do tempo
Por nos fazer sempre mal

Saudade meu Deus saudade / São estas coisas sem fim
Que quanto mais são verdade / Mais caem dentro de mim

E quando o amor passou / Tão perto do meu lugar
Quase ninguém reparou / Que a saudade ia a passar

Quem teve amor e saudade / E depois tudo perdeu
Pode sentir à vontade / Que do que nada é seu

Na distância dos teus passos

Marla Amastor / Miguel Amaral
Repertório de Miguel Xavier

Porque andei de rua em rua
À mercê da tua jura
Entre as brumas da saudade
Meu amor, cada cansaço
Que dobrei no meu regaço
Dei ao vento da cidade

Nessa noite em que partiste
Nem sequer te despediste
E pisaste os sonhos meus
Na distância dos teus passos
Congelaram os abraços
Que ainda guardo como teus

Se algum dia me pensares
E a lembrança que lembrares
Te deixar em solidão
Não te apresses na demora
Porque eu espero a toda a hora
O sentir da tua mão

O tiro pela culatra

Ricardo Cruz / Maria do Rosario Pedreira
Repertório de António Zambujo

Mal a vi fui seduzido
P’lo seu corpo lança-chama
E a perna bem torneada
E meti no meu sentido
Se não a levo prá cama
Não sou homem não sou nada

Pus um ar de matador
E assim sem falinhas mansas / Convidei-a pra jantar
Quase a vi ficar sem cor
Mas quando eu perdia as esperanças / Aceitou sem hesitar

Pronto prá grande conquista
Barba feita, risco ao lado / Sapato novo e brilhante
Comprei rosas na florista
E cheguei adiantado / À porta do restaurante

Quase me caía o queixo
E até fiquei aturdido / Com o choque da surpresa
Ela ao chegar deu-me um beijo
Apresentou-me o marido / E foi andando prá mesa

Trazes mais amor à minha vida

António Laranjeira / Rogério Ferreira
Repertório de Cláudia Picado

Trazes mais amor à minha vida
Trazes outro rumo ao meu caminho
A noite quando vem, fico vencida
Mais perdida… e tu sozinho

Trazes mais calor aos meus abraços
Tão despidos de ti e do que somos
As palavras não perdem os espaços
Se nos teus braços sou o que já fomos

Trazes tanta luz e tanto pranto
Que me disperso a procurar em ti
Aquele olhar de sonho e d’espanto
Que no entanto eu nunca esqueci

Trazes mais amor à minha vida
O mundo é menos baço e menos triste
Não há cansaço e à noite adormecida
Segredas-me que ainda não partiste

Trazes mais amor à minha vida
E o desejo de um beijo que restou
Quando numa breve despedida
O meu corpo viveu porque te amou 

Canção de Brazzaville

José Eduardo Agualusa / Ricardo Cruz, Jon Luz
Repertório de António Zambujo

Pois me beijaste depois partiste
Até luz do sol me anoitece
E o azul do mar parece triste
Durante um fulgor tudo foi meu
Coração traidor bate e esquece
O céu dos dias que me pertenceu

Não sei se inveje quem ama ou se lamente
O amor é uma espécie de loucura
Em que vemos bailar o firmamento
Dai-me Senhor a paz do esquecimento

Pois se vi a luz e a perdi
Sou mais cego agora do que dantes
E o meu fado já não mora aqui
De que servem estrelas a brilhar no céu
Se não tiver na minha a tua mão
E o teu olhar não iluminar o meu

Depois, se a razão me diz; esquece
Neste peito bate um coração
Que contra a razão faz e acontece
Não existe mentira havendo fé
A lua perdida na imensidão
É quem no alto céu puxa as marés

Valsa do vai não vás

Letra e música de Samuel Úria
Repertório de António Zambujo

Se queres ser melhor mulher
Embarca para uma ilha
Se algum rapaz por lá houver
Não é deserta, a ilha

Se melhorares e eu te quiser
Não esqueças nessa ilha
Que eu não vou querer melhor mulher
Mulher, vou querer-te minha

Se queres, porém, enriquecer
Emigra lá p'ra fora
Se noutra terra o cofre encher
Foi bom tu estares lá fora

E se então alguém te pretender
Não te olvides lá fora
P'ra mim tu és rica mulher
Não tinhas de ir embora

Podes querer até te embelezar
Mas vais deixar-me tão triste
Não quero mais bela mulher
Mais bela não existe

Não voltes

Maximiano de Sousa / Renato Varela *fado varela*
Repertório de Max
                                                                                      
Não voltes porque não quero mais sofrer
Saudades e tristezas que causaste
Não voltes pois não quero reviver
Tanta falsa promessa que juraste

Não penses em voltar, porque não quero
Sentir a arfar teu peito junto ao meu
E agora só em sonhos eu venero
O nosso grande amor que já morreu

E deixa que o perfume da saudade
Me embale o castelo onde estou preso
E guarda p’ra castigo da maldade
O meu ódio profundo, o meu desprezo

Último desejo

Rildo Alexandre Barreto da Hora / Martinho da Vila / Noel Rosa
Repertório de António Zambujo

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo / Numa festa de São João
Morre hoje sem fguete
Sem retrato e sem bilhete / Sem luar, sem violão

Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo / Tenho medo de chorar
Nunca mais quero  seu beijo
Mas meu último desejo / Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga / Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora / A nossa separação

Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto / Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida / Que você pagou para mim

Braços erguidos

António Vilar da Costa / António Chainho
Repertório de Alcindo de Carvalho

Braços erguidos
Ao céu que quero alcançar
Gritos perdidos
Boca sem ter quem beijar
Olhos fechados
Abertos ao coração
Passos mal dados
No caminho da ilusão

Onde andarei
O que farei, não sei de mim
De tudo e todos ausente
Rastejo feito serpente
Num labirinto sem fim
Da felicidade
Só há saudade nos olhos meus
Minha alma não tem par
Sou gota de água no mar
Sou Padre Nosso, sem Deus

Não penses

António Laranjeira / Rogério Ferreira
Repertório de Cláudia Picado

Se pensas que algum dia me tiveste
Criaste certamente uma ilusão
Foram tais as cenas que fizeste
E não se mente assim ao coração

Se pensas que ganhaste, não entendes
Quem perde um grande amor não é feliz
Se sentes que te quero só me ofendes
Ninguém te vai querer como eu te quis

Se pensas que te espero perdes tempo
O tempo que não tens para aprender
Que ter um coração fora do tempo
E não saber ter tempo p’ra viver


Se pensas que me trazes na memória
Não sabes como dói uma ilusão
Quem confunde saudade com vitória
Não sabe como bate um coração

Não há razão maior para viver
Do que saber que o teu bate por mim
Por muito que te custe compreender
O meu amor por ti chegou ao fim 

Valsa de um pavão ciúmento

João Monge / Pedro Silva Martins, Luís Silva Martins
Repertório de António Zambujo

Eu vi como ela o trata e pensei p'ra mim
Se ele é tão bom, tem boca de pudim
Tem voz de santo e modos de pavão
Eu sei que a minha mãe nunca me fez assim
Andei na escola do principio ao fim
Uns dias ia, outros também não

Já dei por mim às vezes a falar sozinho
Troco o Benfica por algum carinho
Se ela trocar pela minha paixão
Já vi que ele usa botas de polimento
E aqueles fatos a cem por cento
Isso diz tudo acerca dum qualquer

Eu sei como ela dança com o peito colado
Ninguém diz que tem o pé apertado,
Se está nos braços desse Fred Astaire
Se alguém pennsar que morro deste desconsolo
Eu vou para os alunos da Apolo
E dou a vida por essa mulher

Perdão elo mau jeito que dei, meu rapaz
És tão perfeito, tu és quase um às
Mas eu guardei para o fim o melhor trunfo
Eu dei a ela mais do que a minha atenção
Abri a porta do meu coração
Ela escolheu, não foi nenhum triunfo;
Amigo, vais ver que um dia ainda vais ser feliz
Se tens dói-dói faz aquilo que eu fiz
Morre por ela e trata-a com drunfo

Flinstones

João Monge / Ricardo Cruz
Repertório de António Zambujo

Eu sei que cheguei tarde mas tenho uma explicacão
Não passei na matilha, não provei nem uma jola
Até colhi uma flor p’ra colher tua atencão
Eu juro que hoje não , não pus o pé na argola

Trago marcas de batom no casaco azul marinho
Hoje foi Dia da Mãe, passei lá para a beijar
Mas ela já não vê bem, beijou-me o colarinho
Ela perguntou por ti e acabei por me atrasar

Apanhei fila na ponte, viste no telejornal
Ainda te quis avisar, mas dali não tinha rede
O destino às vezes faz partidas de Carnaval
Vá lá, tem pena de mim, tenho fome e tenho sede

Eu sei que cheguei tarde, estou meio morto e com batom
Mas deixa-me explicar o que foi a essa hora morta
Não grites por favor, não faças subir o tom
Já está tudo a espreitar, vá lá, Wilma, abre a porta

Mágoa que magoa

Jorge Fernando / Francisco José Marques *fado zé negro*
Repertório de Cláudia Picado

Dizem que as horas soavam
Na velha Sé de Lisboa
Entoando p’la cidade
E as guitarras que trinavam
Dores, num fado que magoa
Quando magoa a saudade

E um vagabundo discreto
Arrastando os pés gelados / Indiferente à sua sorte
Deu-lhe a saudade por perto
Pois foi cantador de fados / Vindo das terras do Norte

Teve um amor desmedido
Por uma jovem cantadeira / Por quem cedo foi trocado
Nas dores de um homem traído
Recusou-se à vida inteira / E nunca mais cantou o fado

Dizem que as horas soavam
Na velha Sé de Lisboa / Entoando pela cidade
E uns olhos tristes choravam
Toda a mágoa que magoa / Quando magoa a saudade 

Fado vivido

Manuela de Freitas / Miguel Amaral
Repertório de Miguel Xavier

Eu sei que o amor tem arte
De fingir e de cegar
Mas mais que amor, é amar-te
Conseguindo perdoar-te
Sem nada te desculpar

Tu finges que estás à espera / Que eu escreva um fado menor
A dizer que a Primavera / Nada perdeu do que era
Por morrer o nosso amor

De que me serve inventar / Um fado que tu não sentes
Nunca o vais poder cantar / Tu mentes sempre a falar
Mas a cantar nunca mentes

Por isso é que eu acredito / Que entre os fados que vivi
O meu fado mais bonito / Mesmo que não seja escrito
Será cantado por ti

Menino

Rui Rocha / Fernando Silva
Repertório de Cláudia Picado

Dou-te a mão a cada passo 
Dás-me um beijo de menino
Mil afetos num abraço
Teu sorriso é o meu destino

É o tempo que nos guia
Com vontade de viver
São caminhos da nossa alegria
São canções que irão renascer

Serás flor crescendo ao vento
Como os versos deste fado
Alma minha meu contentamento
Meu eterno poema cantado

Minha mão estará aberta
Como está meu coração
Por seres meu, minha voz se liberta
Neste canto és tu a razão 

Pantomineiro

Letra e música de Edu Mundo
Repertório de António Zambujo

A Rosa é bonita, mas mais é a Rita, que coisa tão bela
E as flores nela como à Gabriela
Vestem  perfume que fica tão bem
Formosa é a Anita, esguia, catita, mas que caravela
Já a Daniela, seu corpo revela
Sorrisos que assumem que a quero também

Falei com Amélia, para ver a Aurélia, irmã de Florbela
Pois flor como aquela só vira Manuela
A flora ciúme de rubro carmim
Quase não quis Odete
Que através de Elisabete mandou as lágrimas dela
Ao contar-lhe na viela que não seria ela
Quem ia cuidar de mim

Já beijei Joana e a Mariana, mas foi com cautela
Pois nessa ruela, na mesma cancela
Num golpe de sorte, Marina me quer
Tal como a Firmina, Ana e Josefina querem ter a tutela
Mas sinto a cela e o meu amor gela
Reanimo o norte e fujo a correr

Sonhei com os dias de todas as Marias virem à janela
E como uma aguarela verde e amarela
Num ondulado forte de azul rosmaninho
De tanto querer tudo o que é mulher, sei que no final
De não saber qual, vivo assim o mal
De amar sozinho

Soneto inglês

Alexandre O‘Neill / Luís Figueiredo
Repertório de Miguel Xavier

Como o silêncio do punhal num peito
O silêncio do sangue a converter
Em fio breve o coração desfeito
Que nas pedras acaba de morrer

Vive em mim o teu nome, tão perfeito
Que mais ninguém o pode conhecer
É a morte que vivo e não aceito
É uma vida que espero não perder

Viver a vida e não viver a morte
Procurar noutros olhos a medida
Vencer o tempo, dominar uma sorte
Atraiçoar a morte com a vida;

Depois morrer de coração aberto
E no sangue o teu nome já liberto

Já não estar

Manuela de Freitas / José Mário Branco
Repertório de Camané

Se às vezes numa rua, num lugar
Eu penso que um dia hei-de morrer
Sei que tudo o que tenho vou deixar
Aqui onde hoje estou, deixo de estar
E tudo quanto sou deixo de ser

Medo da morte não consigo ter
Mas outros mais humanos e banais
Medos que a gente tem mesmo sem querer
Como o medo que eu tenho de morrer
Só por querer viver um pouco mais

Se consigo a meu modo estar no céu
Mesmo vivendo neste chão de inverno
Se apenas sou árvore que cresceu
No espaço e no tempo que é o meu
Para que havia eu de ser eterno

Mas como as minhas cinzas vão ficar
Debaixo de uma pedra do jardim
Meu amor, tu sabes onde me encontrar
E uma flor sobre a pedra vais deixar
De cada vez que te lembrares de mim

Café dos teus olhos

Letra e música de Tozé Brito
Repertório de Cláudia Picado c/ Tozé Brito

 O voo saiu a horas 
Há seis horas que voamos
Mas eu voo para ti
Desde que nos separamos

Vou a caminho de ti
Estou mais perto do céu
Quando olho para terra
As nuvens são o teu véu

Sem o café dos teus olhos
Já não consigo acordar
Quero encontrar os teus braços
Quando por fim aterrar

As luzes vão apagadas
Para apagar mil cansaços
Mas no silêncio do voo
Consigo ouvir os teus passos

Vou a caminho de ti
Estou mais perto de mim
Eu só sei voar contigo
Será para sempre assim 


Graças de Lisboa

António Vilar da Costa / Mário Laginha
Repertório de Miguel Xavier

De manhã começa a lida
Gente p’ra cá e p’ra lá
Cantam pardais na avenida
Vem gente da boa vida
Vai gente prá vida má

Abre o sol os bastidores / E o drama começa já
Entram no palco os atores 
Lágrimas, sangue, suores / Gente p’ra cá e p’ra lá

Os pregões bailam no espaço / E ao fim da noite perdida
Sonolenta de olhar baço
Vencida p’lo cansaço / Vem gente da boa vida

E num contraste profundo / Da sorte que Deus nos dá
Com um sorriso jucundo
A fim de dar vida ao mundo / Vai gente prá vida má

Lugar comum

João Vinhas / Acácio Gomes *fado acácio*
Repertório de Cláudia Picado

Dos erros vulgares da vida
Fica uma sombra escondida
Que ao simples fado dá luz
Tristeza, culpa, saudade
Amor cego de verdade
Que o meu destino conduz

Por pouco saber da gente
Finge a alma que não sente / A amargura de deixar
Pois se a dor em mim morrer
Talvez não venha a saber / Quanto amor se pode dar

Mesmo que eu nunca chore
O tempo que não demore / A trazer o esquecimento
Tão perigosa a paixão
Que nos condena a razão / Com tamanho sofrimento

No lento passar dos dias
Com tantas horas vazias / Quis à tristeza por fim
Mas se a outro amor pertence
A saudade que não pense / Que se afastará de mim 

Despassarado

Pedro da Silva Martins / Luís da Silva Martins
Repertório de António Zambujo

Eu sei ue sou o rei das falsas esperanças
Que meço muito mal distâncias
Mas isso é só porque eu sou desorganizado
Eu sei que nunca cumpro o que prometo
Que falo muito e depois esqueço
Mas tu sabes como eu sou, tão despassarado

Lamento
Mas só daquilo que eu não digo é que me arrependo
Quero casar contigo

Eu sei que achas isto um devaneio
Que nunca vais levar a sério
Mas também bate um coração num destrambelhado
Eu sei que tu só acreditas vendo
Pois fique 7 de Novembro
E tens aqui esta canção, anel de noivado

Devagar coração

Mário Raínho / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Cláudia Picado

Coração deixa a emoção
A paixão, a imensidão
Dessas coisas do amor
Tudo tem tempo, compasso
Vai a passo, não és de aço
Vai devagar por favor

Não me dês cabo do peito
Nesse teu jeito, imperfeito / De correr acelerado
Quero ir devagarinho
Com carinho, pelo caminho / Onde tenho o meu fado

Se terei que ser saudade

Na minha idade, ela há-de / Ser aquilo que Deus queira
Posso até mandá-la embora
Na hora em que ela implora / P’ra ficar à minha beira

Por isso que não me impeça
Essa pressa que tropeça / Quando o amor quero cantar
E a minha voz se apouca
Quase rouca, quase louca / Coração, mais devagar 

Velhinho fado menor

Maria Manuel Cid / Popular
Repertório de João Braga

Fado menor meu castigo
Meu pecado original
Que trago sempre comigo
Sem ter feito nenhum mal

Velhinho, levas a vida / A pedir por quem padece
E quem a sente perdida / Confia na tua prece

Saudade, tristeza, amor / Em cada nota dolente
São preces do cantador / A rezar por toda a gente

Nenhuma dor já sofrida / Pode igualar o tormento
De cantar a dor da vida / E morrer de sofrimento

Quando me chamas mulher

Tiago Torres da Silva / Guilherme Banza
Repertório de Cláudia Picado

Ando a ver se dás à costa
Acendo uma vela
A ver se tenho resposta
Da santinha da capela

Se a santa não desembucha
Diz-me o coração
Que talvez deva ir à bruxa
Para pedir mais uma opinião

Mas nem Pai-Nossos nem Avé-Marias
Me podem fazer esquecer
O quanto tu me arrepias
Quando me chamas mulher;
Não posso perder-te
E se as cartas de tarôt
Dizem que devo esquecer-te
Eu digo; isso é que não vou


Quando vir uma cigana
Vou estender-lhe a mão
A ver se ela não se engana
E me lê o coração

Ao ler-me a linha da vida
Diz tim-tim por tim-tim
Que não há outra saída
Tu não vais voltar para mim

Lágrima

Letra e música de Roque Ferreira
Repertório de Lenita Gentil

Lágrima por lágrima hei-de te cobrar
Todos os meus sonhos que tu carregaste
Hás-de me pagar
A flor dos meus anos, meu olhos insanos
De te esperar
Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios
Hei-de te cobrar

Cada ruga que eu trouxer no rosto
Cada verso triste que a dor me ensinar
Cada vez que no meu coração morrer uma ilusão
Hás-de me pagar
Toda a festa que adiei
Tesouros que entreguei à imensidão do mar
As noites que encarei sem Deus na cruz do teu adeus
Hei-de te cobrar

Fragilidade

Jorge Fernando / Guilherme Banza
Repertório de Cláudia Picado

Se tu te rires de mim por eu ser triste
Por ti o amor não vale esta tristeza
É porque nunca amaste ou não te viste
Nas mãos de um amor que nos rouba a defesa

Se esta fragilidade não entendes
Por me dizeres que é coisa de momento
O pensamento é fútil se pretendes
Saber do amor à luz do pensamento

Deixa-me ser triste como estou
Pois por sermos pessoas tão diferentes
Este amor tão triste a que me dou
Não podes entender porque o não sentes 

Põe o teu lenço encarnado

José Luís Gordo / Jaime Santos *fado alfacinha*
Repertório de Miguel Ramos
    
Põe o teu cravo encarnado
E a tua saia rodada
Vamos os dois para o fado
E abraçar a madrugada

Depois eu canto o Menor
O Corrido e o Mouraria
E canto para ti, meu amor
A loucura da alegria

Nas lutas das guitarras
Ficas de todas as cores
Na minha voz há cigarras
Cantando vivos amores

E a tua saia rodada
Com o sol agigantado
Ilumina a noite toda
E dá mais vida ao meu fado

Meu velho fado

Mário Rainho / Carlos Dionísio
Repertório de Helena Nunes

Não sei que lhe aconteceu
Parti à sua procura
Mas onde é que ele se meteu
Nesta noite fria e escura
No coração azedume
Em ciúmes me desolo
Com os meus olhos em lume
Lá o vi como é costume
Com uma guitarra ao colo

Meu velho fado
Só me fazes coisas destas
Tu queres fadistices, festas
Sem horário de chegar
Meu velho fado
Só me dás razões de queixas
Tu não penses que me deixas
Sozinha em casa a chorar

Cantei-lhe o fado das horas
Em que fico amargurada
Pois não quero mais demoras
Ou em casa há desgarrada
Atirou-me no corrido
Uns versos, que fez à toa
Em que disse, convencido
Que queria ficar comigo
C'uma guitarra e Lisboa

Amor, tem calma

António Rocha / Fontes Rocha
Rpertório de Cláudia Picado

Meu amor vai devagar
Que a pressa é má conselheira
Há sempre tempo pra’amar
Se a paixão é verdadeira

Meu amor não tenhas pressa / Deixa-me estar sossegada
Cautela não te aconteça / Quereres tudo e ficares sem nada

Quem tudo quer tudo perde / Por isso vê se me entendes
Tu ainda estás muito verde / Pra teres tudo o que pretendes

Não vale a pena correr / Meu amor vai devagar
Ainda acabas por perder / O que desejas ganhar

Meu amor toma cautela / Porque se o meu pai amua
Passo a ficar à janela / E tu de plantão na rua

Não te apresses amor meu / Nem um minuto sequer
O que tiver de ser teu / Há de ser quando eu quiser 

A manhã é uma andorinha

Vasco de Lima Couto / Alfredo Duarte *mocita dos caracóis*
Repertório de Amália

A manhã é uma andorinha
Que se esqueceu da viagem
E voa em meu pensamento
Trazendo a cada momento
A noite na tua imagem

O dia lá fora é o dia
Que marca os passos no chão
Mas é tão cedo este amor
Que eu fecho tudo em redor
Das praias do coração

Ponho as mãos sobre o teu corpo
E, no instante de sonhar
Se o teu amor me encaminha
A manhã é uma andorinha
Que se lembrou de ficar

Cantigas e beijinhos

Emílio Vidal / Casimiro Ramos
Repertório de Maria Portugal

Dá-me o braço, meu amor
E vamos de braço dado
Acertar o nosso passo
Ao compasso desejado

Vamos rir, vamos cantar
Na marcha da nossa rua
Conjugar o verbo amar
Tu és meu e eu sou tua

Vamos fazer um vistão… pois então
A bailar constantemente
É noite de São João… porque não
À vista de toda a gente
Mas depois, às escondidas… não digas
Que não vai saber melhor
Misturado com cantigas
Nossos beijinhos d’amor

Os balaõezinhos no ar
Até vão mudar de cor
Ouvindo repenicar
Tantos beijinhos d’amor

Mas a festa continua
Diga o mundo o que disser
Porque na marcha da rua
Cada qual faz o que quer