As *4.076* letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores !!!
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... por razões desconhecidas ...
o motor de pesquisa não está a funcionar correctamente, aceite as minhas desculpas !!!
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Eu nasci a ouvir o fado

Linhares Barbosa / Popular *fado corrido*
Repertório de José Freire

Eu nasci a ouvir o fado
Ao colo de minha mãe
A ama que me criou
Cantava o fado também

Comecei de tenra idade / A puxar prá fadistice
Minha mãe como isto visse / Quis-me tirar da cidade;
Mas porém, já era tarde / Estava um faia consumado
Foi num colete encarnado / Que me cobriram de loiros;
Foi numa espera de toiros / Que eu ouvi cantar o fado

Cantaram-me belos fados / E bebeu-se do bom vinho
Gemia o triste pianinho / Nos seus sons ternos, magoados;
Estávamos todos entrados / Quando a luta se travou
Um faia que então entrou / Cantou mais esta cantiga;
Que era linda a rapariga / A ama que me criou

Que é moda ser-se fadista / Isto está mais que provado
Todos querem cantar o fado / Ficam a perder de vista;
O galo quer-se com crista / Triste de quem não a tem
Toodos cantam, mal ou bem / Até mesmo o padre santo;
Sabendo o fado um encanto / Cantava o fado também

Hora da partida

Jorge Fernando / Miguel Ramos *fado alberto*
Repertório de Jorge Nunes

À hora da partida, tu partiste
Fria, intransponível, indulgente
Se foi pouco ou se foi muito, decidiste
Entre a gente, não haver nada, entre a gente

Incrédulo pensei: mas porquê isto ?
Que desígnio esfriou o nosso amor
Eu que me vejo vivo e só me existo
Se longe de ti nunca me supôr

Que relação resiste à indiferença
Da fuga persistente a um só abraço
A bater como um pulsar na consciência
A resurmir-se na vida a um triste passo

Então diz-me quem sou, ou quem tu és
Qem que meantros fomos dois e logo após
De me sentires prostrado a teus pés
Os dois nunca mais deu p’ra sermos nós

Raminho de violetas

E. Sobredo / Mário Martins
Repertório de Sara Pinto

Era feliz no seu casamento
Embora o marido escondesse os sentimentos
Era fechado, tinha cara d’inverno
E ela se queixava de que não era terno

Mas o mistério durava há três anos
Eram cartas de um estranho
Cartas cheias de poesia
Que lhe devolviam a alegria

Quem lhe escrevia versos, ai quem seria
Quem lhe mandava flores num certo dia
Quem é que no seu aniversário
Fazia como os poetas
E lhe mandava um raminho de violetas

Por mais que pense, não adivinha
Quem será aquele que tanto a estima
Porque será que o estranho a não procura
Sorriso aberto e nas mãos a ternura

E nessa angústia sofre em silêncio
Quem pode ser este amor secreto
Sonha com ele de madrugada
Na ilusão de ser desejada

E quando à tarde, regressa o marido
Silencioso, exausto e de si esquecido
Nada lhe diz porque só ele sabe
Que ela é feliz, ignorando a verdade

Porque ele é quem lhe escreve os versos
É o seu amante, o seu amor secreto
E ela que não pode imaginar
Olha o marido e fica a sonhar

Um quê de eternidade

Tiago Torres da Silva / Raul Pereira *fado zé grande*
Repertório de Cristina Nóbrega

Talvez a solidão se torne um mito
Para aqueles que se entregam à saudade
Pois se uma tem um pouco de infinito
A outra tem um quê de eternidade

A solidão não sabe de quem gosta
Por isso é que elas andam sempre juntas
Porque uma é a pergunta sem resposta
E a outra é a resposta sem pergunta

Mas é com a saudade que me entendo
Porque ela se apaixona só por quem
Descobre em cada verso que vai lendo
Que a solidão não gosta de ninguém

Não sei porque é que vai baixando a voz
Nem sei porque é que esconde o que revela
Mas sei que se ela diz gostar de nós
Já não aceita que gostemos dela

Hoje e amanhã, ontem, agora

Carlos Maia e Linda Leonardo / Fernando Silva *fado maia
Repertório de Carlos Maia e Linda Leonardo

Esperava-te na curva do caminho
Murmurando o teu nome em pensamento
Agitou-se o meu corpo de mansinho
E mandei-te um recado pelo vento

Acreditei no amor que me trazias
E ergui as mãos ao céu por ser assim
Brinquei com as estrelas, noite e dia
E a noite trouxe a lua para mim

Aonde estás que nem te vi partir
Nem o vento me trouxe o teu adeus
No meu livro de sonhos, por abrir
Um sonho que é agora, apenas meu

Mas não te vás, amor, fica comigo
Olha que a vida te é enganadora
Eu sou e és para mim porto de abrigo
Hoje e amanhã, ontem, agora

Escadinhas da Bica

Tiago Torres da Silva / Pedro Jóia *marcha da bica*
Repertório de Cristina Nóbrega

Eu vivo num bairro pequenino
Com escadinhas que vão dar ao mar
E sobe por elas o destino
De quem vem p’ra rua p’ra cantar

Estende-se a passadeira vermelha
Para a Bica subir as escadinhas
Pôs um brinco d’oiro em cada orelha
E todas as moças são rainhas

O destino não é mau
Para um bairro de tal porte
Sobe-se um degrau, dá-se com um pau
Na tristeza e na má sorte
O destino não é mau
P’ra quem sobe esta ladeira
Salta-se um degrau e vai-se ao cacau
Que se bebe na Ribeira

Dizem que nos falta uma coroa
Que nos ombros não nos pesa um manto
Mas p’ra ser rainha de Lisboa
A Bica tem pouco e já é tanto

Lisboa é um livro de poemas
A Bica é apenas o prefácio
Fez das caravelas, diademas
E das ruas fez o seu palácio

Um fado para Fred Astaire

Tiago Torres da Silva / Alfredo Duarte *menor-versículo*
Repertório de Cristina Nóbrega

No silêncio do meu quarto / de incerteza
Não vos sei dizer se morro / ou ressuscito
Faz-se noite quando parto / com tristeza
E talvez peça socorro / mas não grito

Quem diria que os teus pés / de bailarino
Entrariam para a história / da saudade
E que meio de viés / por teu destino
Brindarias à memória / que me invade

Quase toco a tua mão / presa ao ecrã
Mas tropeço nos meus passos / sem esperança
Não existe solidão / nem amanhã
Quando danço nos teus braços / de criança

Eu é que sou a menina / mas não quero
E não vou mudar de idade / e ai de mim
Se a memória só termina / e volta a zero
Quando acabar a saudade / que é sem fim

Semente viva

Flávio Gil / Mário Pacheco
Repertório de Carolina

Semeei a sombra da tua lembrança
Que agora me assombra perdida de esperança
Semeei os sonhos que nós inventamos
Hoje são medonhos, como nós mudamos

O que aconteceu, o que se passou
Qual de nós morreu, que eu não sei quem sou
Oh semente viva da minha amargura
Como queres que viva com esta loucura

Na cama vazia onde enfim, desmaio
Sou a gota fria da chuva de maio
Sou a terra ausente da semente triste
Do teu corpo quente
Sou a tua idade
Que ainda persiste  na minha saudade

Essa chuva fria nos meus olhos baços
Chorando a agonia dos nossos cansaços
Somos dois pecados da mesma aventura
Os réus e culpados dum crime-loucura

Ai como demora o teu doce beijo
Veneno que outrora foi o meu desejo
Oh semente viva da minha tristeza
Como queres que viva com esta incerteza

O que aconteceu, o que se passou
Qual de nós morreu que eu não sei quem sou

Outro cansaço

Tiago Torres da Silva / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Cristina Nóbrega

Por trás do espelho não está
Quem fixe os olhos nos meus
Eu olho e vejo p’ra lá
Da imagem que não há
A não ser num breve adeus

Quem se deitou num caixão / Convencido que era um berço
Ao escutar que alguém diz não
Enche a voz de compaixão / E transforma o não, num verso

Tudo o que faço, não faço / Porque não lhe apanho o jeito
Dou um passo e outro passo
Quase morta de cansaço / Do que ficou por ser feito

O barquinho de papel

Tiago Torres da Silva / Pedro Jóia *marcha da bica*
Repertório de Cristina Nóbrega

Um barquinho de papel
Vai a entrar em Lisboa
Leva o anjo Gabriel... à proa
Foi feito por um menino
Que ninguém sabe quem é
O seu nome pequenino
Apagou-o a maré

Um barquinho de papel
Que qualquer Manel fabrica
Vem preso por um cordel... à Bica
Mas se a maré o arrasta
E a carrega adiante
Sabemos que o sonho basta
Para a alma de um marchante

Quando vê a Bica o barquinho fica
Parado no rio
Não quer ir em frente e ao ver essa gente
Sente-se um navio
Então a criança faz uma aliança
Com cada alfacinha
E se o vir tristonho, vai buscar um sonho
À nau onde vinha

Um barquinho de papel
Traz desenhado com luz
O coração que o Manel... seduz
E se o Tejo é padrinho
Quando o amor se anuncia
Vai à proa do barquinho
O Manel e a Maria

Poesia dos dias

António Laranjeira / Carlos da Maia *fado perseguição*
Repertório de Carolina

Tu és a luz que se acende
Tu és a paz que se estende
Ao mais profundo de mim
Meu coração é um veleiro
Onde tu és marinheiro
Numa viagem sem fim

Tens o encanto do mundo
Preenches cada segundo / O mundo é quase perfeito
E quando chegas mais cedo
Meu coração em segredo / Perde a razão no teu peito

Guardas a vida nos braços
A ternura nos abraços / Onde me quero perder
Trazes na boca o desejo
Do nosso primeiro beijo / Que não consigo esquecer

O nosso amor vem do mar
Da luz que tens no olhar / E da poesia dos dias
Tem a ternura do tempo
A força que tem o vento / Tristezas e alegrias

Por me ver assim sozinha

Tiago Torres da Silva / Filipe Pinto *fado meia noite*
Repertório de Cristina Nóbrega

O que dói na solidão
Não é o ficar sozinha
É não haver outra mão
Para se agarrar à minha

É não sentir um sorriso / Nem o barulho de passos
É não ter, quando preciso / O carinho de dois braços

O pior da solidão / Sempre que a temos por sina
É saber que o coração / Já só bate por rotina

É ver que a lua vai alta / Mas não saber do luar
É sentir a tua falta / E já nem a lamentar

Mas quando perco a razão / Por me ver sozinha assim
Descubro que a solidão / É eu estar longe de mim

Balada dos desejos impossíveis

Fernando Pinto do Amaral / António Zambujo
Repertório de Carolina

Pudesse o nosso coração
Ser mais que o lume dos sentidos
Pudesse eu dar-te a minha mão
Quando estivéssemos perdidos
E ver nos gestos proíbidos
Do corpo a única certeza
Até ficarmos confundidos
Já para além da natureza

Pudesse a noite mais escura / Abrir na lenta madrugada
Uma promessa de aventura / P'lo nosso sangue iluminada
E nessa febre desesperada / Eu visse enfim, nascer o dia
Até que o nosso próprio nada / Fosse matéria de alegria

Pudesse aquilo a que chamamos / Amor, paixão, ou só desejo
Ser mais real quando roubamos / À morte, o nosso ultimo beijo
Talvez então a luz do Tejo / Fosse outra luz reflectida
Plo teu rosto que mal vejo / E fosses tu a minha vida

Calçada à portuguesa

José Luís Tinoco / Ivan Lins e José L.Tinoco
Repertório de Carlos do Carmo

Acendem-se os olhos do dia
Um sol feito de água e janelas
Nas ruas e praças, na cal e na pedras
N cais que abrigou caravelas

Do alto das tuas muralhas
É todo o teu corpo que eu vejo
Vestido de claro, de azul e gaivotas
E os olhos no espelho do Tejo

Ai céu que encandeia os meus olhos
Ai estrelas nos olhos do dia
Ai margens que nos contam histórias
Do mar que ninguém conhecia
Ais naus de aventura
Com anjos na proa
Nos portos da minha alegria

No chão feito de preto e branco
Da calçada à portuguesa
Demoro o olhar, escrevo o teu nome
De dona do mar e princesa

Ais naus de aventura
Com anjos na proa
É assim que te vejo, Lisboa

Toda a tristeza do mundo

Tiago Torres da Silva / Francisco José Marques *fado zé negro*
Repertório de Cristina Nóbrega

Dizem que o mundo é tão grande
Que por mais que um homem ande
Não lhe pode ver o fim
O que importa, se no fundo
Tudo o que existe no mundo
Também há dentro de mim

Tenho florestas e mares
Onde as horas e os lugares / Vêm em passo miúdo
E o mundo não tem tamanho
Porque dentro de mim, tenho / A vontade de ter tudo

A dor dos outros é minha
E nunca sigo sozinha / Porque dentro do meu peito
A alma torna-se rio
Que tem água e vai vazio / Que corre mas não tem leito

Dizem que o mundo é imenso
Mas muitas vezes eu penso / Que ele é maior e mais triste
Penso assim por ser fadista
Porque do fado se avista / Toda a tristeza que existe

Marcha do Castelo

António José / Helena Moreira Viana
Repertório de Carolina

Vem ver o Castelo, aceita o convite
E vem vê-lo sem demora
Eu até tenho um palpite
Que já não te vais embora

Sobe essa escadinha, desce essa calçada
Vê todo o encanto que ele tem
Pra sua rainha, nunca mudou nada
E até está mais novo, vejam bem

Vem ao Castelo, tu que andas lá por fora
Não se perdoa que o não vejas agora
Pois na verdade todos sabe conquistar
E apesar da sua idade, mais gosta de se enfeitar
Outros castelos mais bonitos não invejo
Que o de Lisboa debruçada sobre o Tejo
Tem namorados, quantos mais não sei
E o que suspiram, coitados, só o sabe o Cristo Rei

Vem cá ao Castelo, abre bem os olhos
Pois ele talvez te prenda
Traz saia e blusa de folhos
Ou um vestido de renda

Podes ser modesta ou rica, talvez
Ao Castelo tudo fica bem
Anda sempre em festa
Vem daí que vês 
Como vai gostar de ti também

Para dentro do meu ser

Tiago Torres da Silva / Armandinho *fado alexandrino*
Repertório de Cristina Nóbrega

Quem diz não ter saudade de tudo o que perdeu
Ou não fala verdade, ou fala e não viveu
Às vezes, por orgulho, também fingi esquecer
Que o fado é um mergulho p’ra dentro do meu ser

Mas quando a voz se agarra ao saudoso lamento
Das cordas da guitarra, já nada é fingimento
Então o meu futuro dá as mãos ao passado
Trazendo o que procuro e tudo o mais é fado

O resto é o caminho que os meus pés vão pisando
Hei-de ir devagarinho, hei-de ir mas não sei quando
Então a tua vida vem deitar-se a meu lado
E eu peço-lhe guarida, pois tudo o mais é fado

Dança

Fernando Pinto do Amaral / Ricardo Cruz
Repertório de Carolina

Anda, vem dançar comigo
Vem dançar a noite inteira
Anda, escuta o que te digo
Nesta hora derradeira

Vem à chuva, ao frio, ao vento / Dançar comigo na rua
Vê como arde a fogo lento / A minha vida na tua

Vê como o luar nos diz / Coisas tão cheias de luz
Vê como acorda feliz / A estrela que nos seduz

Anda e dá-me a tua mão / Vamos ficar enfim, sós
O meu sangue é uma canção / A vibrar na tua voz

Deixa voar os teus passos / Na cidade adormecida
Já são asas os meus braços / Já é tua a minha vida

Depois não digas mais nada / Fica toda a noite assim
À espera da madrugada / Sempre mais perto de mim

A vida que há na saudade

Tiago Torres da Silva / Alfredo Duarte *fado cravo*
Repertório de Cristina Nóbrega

Quando o silêncio me diz
Que a vida está por um triz
E eu sei que fala verdade
Vou pra trás de uma guitarra
E a minha voz agarra
A vida que há na saudade

Vem um fado e outro fado
E o coração, cansado / Diz que não quer sofrer tanto
Porque já sabe de cor
O que lhe faz o Menor / De cada vez que o canto

Mas o guitarrista toca
Uma guitarra que evoca / Outra guitarra mais triste
Está guardada no meu peito
E toca um fado que é feito / Da dor mais forte que existe

Ao escutá-la no meu sangue
O meu coração exangue / Volta a bater com vontade
E é nas cordas da viola
Que a minha vida se enrola / Na vida que há na saudade

O que sobrou de um queixume

Letra e musica de Frederico de Brito
Repertório de Carlos do Carmo c/Raquel Tavares

Se não sabes o que é fado
Sem ter sombra de pecado
Sem traições, corações aos baldões e paixões de vielas
Se não fazes uma ideia
Desta triste melopeia
Que nos alegra e por via de regra chorámos com ela

Se não sabes como encanta
Quem o ouve e quem o canta
Quando se agarra a uma guitarra à luz do luar
Fado dum fado nascido
Um grito de espanto, um gemido
Vem ver Lisboa, como ela o entoa e o canta a chorar

Fado é amor
Que sobrou d’algum queixume
Que se agrarrou ao ciúme
E se embrulhou no seu manto
Fado é a dor
É o meio termo da vida
Nem esperança perdida
Nem riso, nem pranto

Se não sabes que a tristeza
Que nos prende e fica presa
Não é mais que os sinais usuais d’alguns ais sem agrado
Se não sabes que a saudade
Que nos abre e nos invade
Só aparece quando não se esquece que também é fado

Se não sabes o que é esperança
Que não pára, que não cansa
E é concerteza, tal como a firmeza, um rasto de fé
Sonho dum sonho desfeito
O gosto dum gosto pefito
Que nos embala mas que não se iguala ao que o fado é

Lágrima de prata

Mário Raínho / Carlos Dionísio
Repertório de Ana Marta

Uma lágrima de prata / Como se fosse um desgosto
Que da lua se desata / E vem poisar em meu rosto

Segue comigo pela noite / Sinal de luar marcado
E toma sempre pernoite / Na minha alma de fado

Assim eu vou
A chorar, como um Pierrot
Pela noite, a que me dou
Onde entorno meu cantar
Assim eu vou
De encontro a outros sentidos
Desprende a alma gemidos
Fados que canto a chorar

Plos recantos da cidade / Meu canto é choro também
Fala de amor e saudade / De uma dor que sabe bem

Tanto tarda o amanhecer / De fado em fado caminho
E até o sol nascer / 
O meu ser geme baixinho 

Verdes anos

José Luis Gordo / José Marques do Amaral
Repertório de Maria da Fé

Trago meu país primeiro
Por dentro da minha voz
Dou todo o meu corpo inteiro
Ao canto que não tem foz

O meu canto é sempre novo / É um rio que se alimenta
De matar a sede ao povo / No canto que
'ele próprio inventa

Ai fado, amor, meu destino / Meu namoro de criança
Minha paixão, desatino / 
Que só minha voz alcança

Ai, amor, tantos enganos / Na minha entrega total
Dei-te tantos verdes anos / 
Por amor a Portugal

Regresso àquele beijo

Mário Rainho Casimiro Ramos *janelas enfeitadas*
Repertório de Maria da Fé

Às vezes rasgo tempo e a distância
E regresso ao passado, novamente
Ao balancé dos meus sonhos d’infância
Ao meu primeiro beijo adolescente

Cantigas e namoros, dessa era
Desfolham-se em meus olhos qual bonina
Que logo, após partir a primavera
Perdesse todo o encanto de menina

Demoro mais um pouco, assim perdida
Nas ruas da saudade, a recordar
Mas há sempre uma lágrima, atrevida
Que teima em vir espreitar no meu olhar

Porque o supremo enleio, eternamente
Que deixei na memória , no passado
É esse teu amor que, sendo ausente
Deixou em minha voz nervoso fado

Vem a noite

Vasco Lima Couto / Ferrer Trindade
Repertório de Fernanda Batista

Vem a noite
Com montras que já não sonham
A passagem distraída
E onde se morre a cantar
As impromessas da vida

Vem a hora
De atormentar o silêncio
Da palavra que se reza
Às luzes da meia altura
Que iluminam a voz presa

Porque a rua, quando compra devagar
Insinua, um Deus que tarda a chegar
Um Deus morto no amor que não se entrega
Que é o porto da loucura quando é cega


Vem o sonho
Que estende um tapete frio
De sombras, à solidão
Para que a chuva dos olhos
Não teça riscos no chão

É o momento
Em que se analisa o vento
Como quem sai de uma gruta
E abre em nós o peito à espera
Do amanhã de outra luta

Lisboa e o Tejo

Mário Raínho / Fontes Rocha
Repertório de Maria Armanda

Lisboa também tem um namorado
E também tem ciúmes, como nós
Lisboa, quando sofre canta o fado
Com um soluço triste em sua voz

Lisboa é namorada delicada
Vaidosa e orgulhosa de assim ser
Lisboa fica às vezes amuada
Se o seu amor, amor não lhe oferecer

Chama-lhe marinheiro, fala dele na rua
E sente ciúme dos olhos da lua
Chama-lhe marinheiro sem rumo nem rota
Sempre atrás das asas de alguma gaivota;
Ele numa onda atira-lhe um beijo
E assim namoram, Lisboa e o Tejo

Lisboa tem arrufos com o namoro
Se o vê fazer olhinhos às estrelas
E então vai mirá-lo ao Miradouro
Que não vá o diabo tecê-las

Lisboa, quando desce uma colina
P’ra namorar com ele toda se enfeita
Lisboa veste saia de varina
Para ouvir os piropos que ele deita

Estes meus olhos

Moita Girão / João Alberto
Repertório de Mariana Silva

Dizes que eu era linda flor do teu jardim
A mais sincera, de mais encanto e perfume
Se me beijavas numa ternura sem fim
Não te lembravas que no amor há ciúme

E por tão pouco acabou-se o teu amor
Acabou, morreu a flor, a flor dos teus ideais
Foi amor louco, foi um sonho que passou
Já lá vai, já se acabou, acabou, não volta mais

Estes meus olhos, hoje não sabem chorar
São dois regatos que secaram no caminho
São pombas mansas esquecidas de voar
São andorinhas que se perderam do ninho

Estes meus olhos, cativos, sem liberdade
Presos no véu da saudade deste amor em que os perdi
Andam sem luz, perdidos da luz dos teus
Andam ceguinhos, meu Deus, ceguinhos de amor por ti

Não era a cidade fria

Fernando Campos de Castro / José Marques do Amaral
Repertório de Maria de Lourdes

Não era a cidade fria
Nem os soluços do vento
Era uma luz que acendia
Os sonhos no pensamento

Não era a voz da cidade / Que povoava os ouvido
Era uma louca ansiedade / Que nos prendia os sentidos

Não eram sombras incertas / Nem essa noite era fria
Eram as ondas libertas / Na noite que acontecia

Não era a lua gemendo / Nem o murmúrio das casas
Eram dois corpos ardendo / Mas que sonhavam ter asas 

Demos as mãos

Ary dos Santos / Martinho d’Assunção
Repertório de Maria Amélia Proença

Demos as mãos e tudo ficou diferente
A tristeza mais ausente
A amizade mais intensa
Demos as mãos e o futuro foi presente
Naquela ternura imensa
Que faz a gente ser gente

Demos as mãos e senti as tuas veias
Movediças como areias
Latejando no meu pulso
Demos as mãos e a carne ficou cativa
Naquele primeiro impulso
Que faz a gente estar viva

Demos as mãos e aconteceu a vida
Vida própria e desmedida
Vida à nossa dimensão
Demos as mãos e começou a subida
Do coração à cabeça
Da cabeça ao coração

Demos as mãos e morremos devagar
No amar e odiar
Dos amantes perseguidos
Demos as mãos e ficamos no lugar
Das rosas por despertar
No relógio dos sentidos

Quando nasce um homem

Ary dos Santos / Martinho d’Assunção *alexandrino*
Repertório de Maria da Fé

Eu não nasci aqui, o meu lugar é outro
É na terra de fogo onde as palavras ardem
É na ilha de sal onde os ventos me levam
Na estepe de silêncio onde os homens me ladram

É no falcão da noite que voa sobre as águas
No cavalo dos deuses que correm sobre o vento
No flanco da loucura, à direira do mundo
Na espora do silêncio, à direita do tempo

É no ir dos navios que demandam o rumo
Dum cabo de segredos que não podem dobrar
No galope do medo, na viagem do fumo
Nas terríveis passadas do destino a andar

Eu não nasci aqui, o meu lugar é outro
É onde for o sangue, o abismo, o espasmo, o polén
É onde eu não chegar, é onde for o grito
Em que se rasga o mundo quando nasce um homem

As pedras que tu pisas

Manuel Paião / Eduardo Damas
Repertório de Fernanda Maria

Não sei o que se passou com o meu coração
Que só sabe sentir esta grande paixão
Eu hoje só sei ver a luz do teu olhar
Só sei olhar p’ra ti, viver para te amar

Tenho ciúmes das pedras que tu pisas
Do ar que tu respiras
E até das próprias brisas
Tenho ciúmes do sol, da lua cheia
De tudo o que te toca
Da luz que te rodeia
Dos próprios sonhos que tu idealizas
Tenho ciúmes
Das pedras que tu pisas

Nã sei o que se passou desde que eu te vi
Só sei que o meu olhar, só sabe olhar p’ra ti
A minha vida é tua e o meu coração
Fugiu já do meu peito, está na tua mão