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Canal de J.F.Castro em parceria com a Rádio Mira

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As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: nem sempre são mencionados os legítimos criadores.

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Existem (pelo menos) 80 letras publicadas que não constam do índice. Caso encontre alguma avise-me, por favor.

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6.270 LETRAS PUBLICADAS /*/ 2.107.500 VISITAS /*/ ABRIL 2021

ATINGIDO ESTE VALOR /*/ QUE ME FAZ SENTIR HONRADO /*/ CONTINUO, COM AMOR /*/ A SER SERVIDOR DO FADO.

Pois mesmo desagradando // A "Troianos" maldizentes / Os "Gregos" vão apoiando // E vão ficando contentes

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Se não encontra a fado preferido // Envie, por favor, o seu pedido.

fadopoesia@gmail.com

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Pesquisa >

Ao correr da pele

Letra e música de Amélia Muge
Repertório de Nathalie Pires


O meu amor tem a pele tão macia
A sede nele não tem valia
O meu amor é um cravo de rosa ao peito
Aroma escravo com que me enfeito

Só mais uma coisa vos digo
Já muito em segredo
Ao brincar comigo
Pega num pião
Feito do meu coração
E gira com ele sem medo


O meu amor se está brando é uma lentura
Nada falando pela ternura
O meu amor parece de veludo
Eu faço dele o meu sobretudo

O meu amor tem a pele tão macia
O meu amor é um cravo de rosa ao peito
O meu amor se está brando é uma lentura
Parece de veludo
Eu faço dele o meu sobretudo

O olhar e a morte

António Calém / Miguel Ramos *fado alberto*
Repertório de João Braga


Há olhares que matam sem viver
Eu vi um dia alguém à luz da lua
E nesse alguém eu senti-me anoitecer
E nessa voz ainda ouvi: sou tua

Depois, veio outra noite e outra vida
Unidos num só corpo e tão distantes
Que mais parecia a sombra dolorida
Da luz do sol que então éramos dantes

Mas hoje nada resta do que fomos
Morreu a esperança vã de te sonhar
Em mim ficaram apenas os meus sonhos
E o nada que ficou em teu lugar

Fado em amor perfeito

João Barge / Pedro Moreira
Repertório de Nathalie Pires


Meu amor, amor em chamas
Feito de noite e de lume
Coração onde derramas
Toda a cor do teu perfume

Meu amor, amor amante / Amor de perdas e danos
Eterno como o instante / De nós termos vinte anos

Meu amor, amor liberto / Feito de sal e luar
Mora tão longe ou tão perto / Do que tens para me dar

Meu amor, amor perfeito / Preso na cor das cerejas
Não cabe dentro do peito / Por saber que me desejas

Meu amor, amor inteiro / Cheio de luz e de sombra
Vai num olhar derradeiro / Vem nos olhos de uma pomba

Cântico negro

José Régio
Gravado por João Loy


“Vem por aqui”
Dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros de que
Seria bom que eu os ouvisse quando me dizem:
"Vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos
Há, nos olhos meus, ironias e cansaços
E cruzo os braços, e nunca vou por ali

A minha glória é esta: criar desumanidade
Não acompanhar ninguém
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí!
Só vou por onde me levam meus próprios passos
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos
Redemoinhar aos ventos como farrapos
Arrastar os pés sangrentos, a ir por aí...

Se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós que me dareis impulsos
Ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós
E vós amais o que é fácil
Eu amo o longe e a miragem, amo os abismos
As torrentes, os desertos...

Ide! 
Tendes estradas, tendes jardins
Tendes canteiros, tendes pátria
Tendes tetos, e tendes regras, e tratados
E filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha loucura
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe
Mas eu, que nunca principio nem acabo
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções
Ninguém me peça definições
Ninguém me diga: "vem por aqui"

A minha vida é um vendaval que se soltou
É uma onda que se alevantou
É um átomo a mais que se animou
Não sei por onde vou, não sei para onde vou
Sei que não vou por aí

Amor incurável

Telmo Pires / Armando Machado *fado súplica*
Repertório de Nathalie Pires


Voltaste e eu caí na tentação
De sentir dos teus braços, o calor
Voltei a enganar meu coração
Sabendo-te incapaz de dar amor

Essa força que me atrai e me fascina
Impossível resistir ao teu olhar
É loucura esta paixão que me domina
Sentimentos que não posso controlar

E depois de fazer-nos tanto mal
Ferir-nos, uma outra e outra vez
Parece ser mas não, não é normal
Perdemos toda a nossa lucidez

Este amor é um mal que não tem cura
É doença que aumenta sem parar
Dois loucos que perdidos na loucura
Encontram mil razões para sonhar

Eu tenho tanta pena… pai

Letra e música de José Gonçalez
Repertório de José Gonçalez


Eu tenho tanta pena
Que não possas ‘star comigo
Agora que o presente se desenha
Sobre o meu passado antigo

Eu tenho tanta pena
Dessas coisas do destino
Quando a história é a resenha
Dum homem que foi menino

Mas eu tenho é a vontade / De te poder dar a mão
Dar um murro na saudade / Que me prende à solidão;
Quero abrir uma janela / E deixar o sol entrar
E pintar uma aguarela / Onde tu possas morar;
E depois dou-te umas asas
P’ra que tu possas voar

Eu tenho tanta pena
De não ‘stares aqui agora
Quando a vida me acena
Com os meus sonhos de outrora

Eu tenho tanta pena
De tudo o que já lá vai
Da tua voz amena
De poder chamar-te pai

Soledad

Cecília Meireles / Alain Oulman
Repertório de Amália


Soledad… antes que o sol se vá
Como um pássaro perdido
Também te direi adeus
Soledad, soledad
Também te direi adeus

Terra… terra morrendo de fome
Pedras secas, folhas bravas
Ai quem te pôs esse nome
Soledad, soledad
Sabia o que são palavras

Antes que o sol se vá
Como um sonho de agonia
Cairás dos olhos meus, Soledad

Indiazinha… indiazinha tão sentada
Na cinza do chão deserta
Que pensas, não pensas nada
Soledad, soledad
Que a vida é toda secreta

Como estrela… como estrela nestas cinzas
Antes que o sol se vá
Nem depois não virá Deus
Soledad, soledad
Nem depois não virá Deus

Pois só ele explicaria
A quem teu destino serve
Sem mágoa nem alegria
Um coração tão breve
Também te direi adeus, Soledad

Lisboa

Letra e música de João Paulo Esteves da Silva
Repertório de Nathalie Pires


Desespero de acabar
Já não se fala de amor
A neblina da saudade vai mudar de cor
Ficas tão perto do mar
Que o sol já perde o sabor
Cai a noite, não faz mal se ficar ou se me for

Vem, anda correr a cidade, não há pressa de partir
A estátua da liberdade deixa lá fugir
Não sinto grande vontade de dançar
Vais-te embora tu também

Não há tempo de acabar o que acaba no amor
E dói muito esta verdade
Talvez até mais que o fim da dor


Ficas tão perto do mar
Que o sol já perde o sabor
Cai a chuva nos meus ombros
É talvez melhor

Anda correr a cidade, não há pressa de partir
A estátua da liberdade deixa lá fugir
Não sinto grande contade de dançar, estar a sorrir
Vais-te embora, vou também

Não há tempo de acabar o que acaba no amor
E dói muito esta verdade
Talvez até mais que o fim da dor

A lenda do fado

António Mendes / Franklim Godinho
Repertório de Ana Maurício

Dizem que o fado nasceu
Numa noite triste e fria
Na mais humilde viela
Quando uma estrela do céu
Foi caír na Mouraria
Nos degraus da porta dela

Cota a lenda dessa era
Que esese menino sagrado / Que veio à terra por bem
Entrou dentro da Severa
Porque ela chamou-lhe fado / E o fado chamou-lhe mãe

Há quem se atreva a contar
Quando a Severa morreu / E o deixou na orfandade
O fado pôs-se a chorar
A boa mãe que perdeu / E assim nasceu a saudade

Por isso é que o fado é triste
Porque chora muitas vezes / E também nos faz chorar
É porque a tristeza existe
Na alma dos portugueses / Quando ouve o fado cantar

Gare do Oriente

Amélia Muge / Ricardo Dias
Repertório de Nathalie Pires


Num rendilhar de velas postas
Chamam por mim por todo o mundo
Têm um espelho de água ao fundo
São uma asa aberta ao voo
Do que é partir e regressar

No meio há um mercado
Onde se vendem coisas soltas
Há quem lá passe apreçando a cor
Brilhando na pedrinha
Do cheiro que tem nome de flor

Ao canto há um café aonde tu paraste
E diz o teu olhar a hora de embracar
Mas não diz quando chegaste

Já bailam as escadas, sobem os elevadores
Correm sombras e há um vai e vem
São pernas apressando amores

Que foi, o que aconteceu
Alguém procura o que perdeu
E há uma luz que se reflete e bate em cheio
Nesse olhar que é tão passageiro

P’ra lá daquele vidro, do chão assim traçado
Há um atraso, um horário atrasado
O calor diz que fique
Eu sei, chove em Munique

E aqui estou nesta Gare que se chama de Oriente
E nela vejo o teu olhar que diz
Que é daqui, dali, ele é qualquer lugar

A lenda do velho Porto

Carlos Bessa / Pedro Rodrigues
Repertório de José Barbosa

Cai um forte nevoeiro
Sobre esta linda cidade
Que deu nome a Portugal
Parece que o céu inteiro
Quer esconder a verdade
Da história medieval

Diz a lenda, que um dia
El-rei D, Pedro, à toa / Anunciou o noivado
Sem saber o que dizia
Quis que o Porto e Lisboa / Casassem no seu reinado

Grande cortejo impomente
O Rio Douro subiu / Barcos do país inteiro
É então que de repente
As portas do céu se abriu / Caíu forte nevoeiro

O Porto desapareceu
E El-rei viu-se obrigado / A anular o casamento
Lisboa se entristeceu
Por romperem seu noivado / Deu entrada num convento

O Porto ficou solteiro
Amante da liberdade / Deixá-lo ser, não faz mal
Deus lhe deu o nevoeiro
A essa linda cidade / Que deu nome a Portugal

Diário

Mário Claudio / Ricardo Dias
Repertório de Nathalie Pires


Quer fosse noite, quer dia
Era uma ãnsia, uma espera
E em cada hora batia
Um coração de pantera

O desfraldado desejo
A sede da maresia
Passavam de beijo a beijo
A chama que nos unia

Morria num sobressalto
As terras da promissão
E as águias pairavam alto
Além dos dedos da mão

Fique de nós o abraço
Ao que perdemos de vista
Não há tempo nem espaço
Não há raiz que persista

Que estranha vida

Vitor de Deus / Arménio de Melo
Repertório de Luís Caeiro


Que estranha forma tenho de viver
Sem nada à minha volta, em solidão
Um misto de te querer e te perder
Ciúmes a jorrar do coração;
Sem nada à minha volta, em solidão
Que estranha forma tenho de viver

Que estranha noite longa, em tempestade
Amor, desejos loucos, alimento
E quando caio em mim sem liberdade
Ao teu corpo e em teus braços me acorrento;
Amor, desejos loucos, alimento
Que estranha noite longa, em tempestade

Vem possuír-me, amor, em cada instante
Afaga meus cabelos, dá-me carinhos
Vem ser minha mulher e minha amante
Se o vento soprar contra, revoltado;
Conduz a minha vida p’los caminhos
Até que o meu amor fique calado

Noiva do teu olhar

João Barge / Pedro Moreira
Repertório de Nathalie Pires


Quero ser a tua casa
Quero dar-te a minha mão
Eu preciso de outra asa
Para assim me erguer do chão

Hei-de abrir-te a minha cama / E arder no teu abraço
E à noite quem nos ama / Não sabe a cor do cansaço

Hei-de acordar a teu lado / Ser noiva do teu olhar
Molhar de luz este fado / Como se fosse rezar

Nem toda a luz me cativa / Nem toda a tristeza passa
Eu sou flor em carne viva / Que o vento de leve abraça

Canção de Alcântara

Letra de José Galhardo, Lourenço Rodrigues e Carvalho Mourão
Música de Raúl Ferrão
Versão do Repertório de Lídia Ribeiro

Criação de Margarida de Almeida na revista *Fado Liró*
Teatro Variedades, 1928
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*

Ó linda Alcântara, junto à qual o velho Tejo
Reza sempre dia e noite, uma oração
Como eu ostava que coubesses só num beijo
Como cabes toda inteira, no coração

Bairro modesto de modestos pescadores
Onde o povo sabe rir e padecer
A minha mãe, a luz do sol e os meus amores
Em Alcântara tudo eu vim a conhecer

Não há bairro de Lisboa mais lindo
Do que aquele onde eu ganho 
O pão para comer
E ali vivo, ora triste, ora rindo
Ali fui criança
Ali fui mulher
Eu só queria que no dia em que a morte
O meu pobre corpo 
Viesse buscar
Eu só queria, meu Deus, ter a sorte
De ainda em Alcântara 
Poder me enterrar

Ó lindo bairro que os antigos guerrilheiros
Amarraram ao valor de Portugal
És o cantinho que os valentes marinheiros
Querem todo só p’ra si, a bem ou mal

Quando é noitinha e as cantigas fatalistas
Já começam p´las vielas a gemer
É para Alcântara que os últimos fadistas
Vão cantar o triste fado, que vai morrer

Tudo é Portugal

Artur Ribeiro / Ferrer Trindade
Repertório de Artur Ribeiro


Vem ver a terra das mil candeias
Olha esta gente tão diferente e tão feliz
Vem ver a Serra e as aldeias
Verás então porque razão se diz

Aqui é Portugal
Dono e senhor 
Da humildade e do amor
E verás que afinal
Onde quer que haja saudade
Tudo é Portugal


Vem ver quem passa, ouve as cantigas
Olha o encanto deste santo ali em paz
Vem ver a graça das raparigas
E quando alguém não souber bem, dirás

O rei dos outros sóis

Artur Ribeiro / Joaquim Campos “alexandrino
Repertório de Trio Odemira


Um sol para nós dois num céu de tom rinhoso
Sem nuvens a causar mais sombras descabidas
É rei dos outros sóis o sol dos nossos sonhos
Nasce do teu olhar e morre em nossas vidas

Um sol para nós que a nossa vida aquece
E desde que nascemos nos tornou bem diferentes
Um sol para nós dois que vela e não esquece
E andamos tu e eu da sua luz pendentes

Um sol para nós dois a dar-nos confiança
Numa vida melhor onde não há pecado
Juntou-nos e depois com raios de esperança
Formou o nosso amor, deu-nos o mesmo fado

Canção ao Porto

Artur Ribeiro / Jaime Filipe
Repertório de Artur Ribeiro


Esta canção que vou cantar ao Porto
É oração para rezar ao Porto
Tudo o que sou nasceu em ti, minha cidade
E só te dou o meu amor e esta saudade

Aqui nasci, aqui brinquei, meu Porto
E até sofri quando deixei o Porto
És a feliz inspiração da minha vida
Para quem fiz esta canção sentida

Porto velhinho das ruas antigas
E das cantigas pelo São João
Do riso alegre das raparigas
Ó minha terra só coração


Se a noite vem eu canto a sós ao Porto
O mar também canta na voz ao Porto
E ao luar o Douro então fica absorto
A escutar esta canção ao Porto

Quadras de Aleixo

António Aleixo / Júlio Proença *fado puxavante
Repertório de Trio Odemira


O homem sonha acordado 
Sonhando, a vida percorre
E desse sonho doirado 
Só acorda quando morre

Embora me queiras tanto / Quanto pode o bem-querer
Não me queres tanto quanto / Te quero sem te dizer

Não digas que me enganaste / Por ter confiado em ti
Muito mais do que levaste / Ganhei eu no que aprendei

Só quando sinceramente / Sentirmos a dor de alguém
Podemas descrever bem / A mágoa que essa alguém sente

Campo em festa

Francisco Martins / Vitor Rodrigues
Repertório de Francisco Martins *Fado Marialva*


No meu cavalo montado / Logo que a manhã rompia
Com o Rodrigo e o Ricardo / O Pietra e o Faria
Por esses campos fora / No seio do Ribatejo
Calça justa, bota e espora / Em Arruda ou em Samora
Da Chamusca ao Alentejo

Com valentia
Toiros vamos apartar
Galhardos na picardia
Garbosos a derribar
E com nobreza
Trazemos no coração
A saudade que está presa
Aos tempos que já lá vão


O Visconde já pingado / O Palhas na caturreira
O Dentinho desafivelado / Casquinha à antiga maneira

Passeios e romarias / Vilaverde, que saudade
Deu-nos grandes alegrias / Era vê-lo nas picarias
Hoje, dele, só Deus sabe

E depois do sol-posto / Trinam guitarras de fundo
Dedilhadas com bom gosto / P’lo Velez e o Edmundo

Marialavas de cartel / Que cantam o velho fado
O Rodrigo Miguel / O Xico e o Manel
O Macho e o Pegado

Meu amor

Letra e música de Telmo Pires
Repertório do autor


Se juntarmos todas as cores da cidade
O amarelo, o azul do Tejo sem idade
O cinzento desta noite e o encarnado
Vai tudo dar ao triste negro do meu fado

Vou andando pelas ruas tão queridas
Bem sabendo que tantas delas são proíbidas
O cinzento desta noite pesa tanto
E eu sem saber p’ra onde ir neste meu pranto

Meu amor se eu não estou a teu lado
Sou um qualquer tom num qualquer fado
Corro a noite inteira só p’ra estar aqui


De repente, já cansado de tanto andar
À procura do teu olhar p’ra me deitar
Nascido dum poema que está à venda
Meu coração lá vai, não há ninguém que o prenda

O sonho de João Moura

César Marinho / Vitor Rodrigues / Jaime Santos
Repertório de Manuel da Câmara *Fado Marialva*


A sonhar com as toiradas
Saltou do berço e montou
Como num conto de fadas
João Moura toureou

O sonho fez-se façanha
P’lo menino de Monforte
Venceu nas praças de Espanha
Desde o sul até ao norte

Os triunfos consagraram
Um toureiro genial
E com mestria honraram
O nome de Portugal

O Belmonte foi brilhante
O Sandokam, colossal
Majestoso o Importante
O Farrolho é imortal

E as mãos que embalaram
O seu berço tão ditoso
Foram as mãos que fadaram
Um João Moura famoso

Sou a chuva

Rodrigo Serrão / Pedro Pinhal
Repertório de Maja


Quando a chuva cai de mansinho
E ao ouvido diz, a cantar
Que a saudade de estar contigo
É uma vela sempre a brilhar

Que me leva de encontro ao sonho
Embalada p’la solidão
Sou a chiuva no seu caminho
E ele é pena na minha mão

Alma ausente, sorriso vago
Sou a chuva no seu cantar
Melodia do meu embalo
É a dele sempre a chorar
Pelos teus olhos abrigo manso
Onde acalmo o meu coração
Mas agora sem teu regaço
Só há chuva na minha mão

Quando a chuva cai de mansinho
E ao meu peito diz, a cantar
Cada encontro no caminho
É um desejo de te abraçar

Fomos sonho prometido
Um poema, uma canção
Agora só a chuva canta
É uma lágrima na minha mão

No sonho de passar além do sonho

Artur Ribeiro / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de Trio Odemira


No sonho de passar além do sonho
Transformei-me de tudo o que fui antes
Mas transformar alguém é tão medonho
Como o juntar de notas dissonantes

No sonho de passar além de tudo
Quis ver-me nos espelhos atuais
Mas vi-me tão disforme e absurdo
E a mim mesmo jurei não ver-me mais

Que cada se vista de outros fatos
Eu prefiro seguir dias após dia
Poeta por instinto, dos baratos
Poeta que não sabe como cria

Quase

Fernando Rodrigues / Raúl Ferrão *fado carriche
Repertório de Luís Manhita


Hoje minh’alma adormece
Sem dizer mais que um sofrer
Meu coração enlouquece
Sem nunca te responder

Ao acordar sempre sonha
Do teu olhar, um pouquinho
E espera um dia, quem sabe
Ouvir-te suspirar baixinho

Musa que em coração tocaste
Sem pedir licença sequer
Deixaste meu ser à tua porta
Meu Outono, fado, viver

Nem todo o oiro da terra

Artur Ribeiro / Joaquim Campos *fado vitória*
Repertório de Trio Odemira


Eu dou, em troca de ada
Estes anseios dispersos
A que o mundo chama veia
Pois acho uma coisa errada
A gente vender os versos
Que Deus nos pôs na ideia

Se Deus pôs por sua mão
O que a minha mente encerra / Me dá a rima e o tema
Não vendo, faço questão
Pois não oiro da terra / Que valha qualquer poema

Por isso dou a quem canta
Este cantar magoado / Que Deus me deu quando vim
Dou a quem quer tiver garganta
E saiba cantar o fado / E queira cantar por mim

A cor da alegria

João Veiga / José Lopes *fado lopes
Repertório de Salvador Taborda

Nunca pensei na vida
Vir um dia a encontrar
A minha vida escondida
Dentro do teu olhar

Teus olhos têm a cor / A cor da minha alegria
São o meu sonho maior / São a luz que me alumia

Eu que tanto procurei / Por esta minha vida
Afinal encontrei-a / Nos teus olhos escondida

O teu olhar é o sol / Que aquece a noite calma
São de noite o meu farol / Que ilumina a minha alma

Quando eu era pecador

Artur Ribeiro / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Trio Odemira


Eu, de joelhos roguei
A Deus, que puzesse fim
Aos pecados degradantes
Deus ouviu-me e eu mudei
Mas gostava mais de mim
Pecador como era dantes

Em cada paixão traída
No meu ir de mão em mão / Bebendo p’la noite fora
Eu perdi anos de vida
Mas sentia o coração / Coisa que não sinto agora

Agora não sei se vivo
No eterno *tanto faz* / De quem vive sem amor
Lamento não ter motivo
P’ra voltar tempos atrás / Quando era pecador

A minha noiva tristeza

Inês Filipa Rebelo do Carmo / Arménio de Melo
Repertório de Luís Caeiro

A tristeza casou comigo
Ao ver-me sofrer um dia
Por mais que lute não consigo
Transformá-la em alegria

Conheci-a num inverno / Com chuva, com vento e frio
Um vendaval do inferno / Com luta insana no rio

Bateu-me à porta a chorar / Com uma rosa na mão
Talvez para me animar / Ou vender-me uma ilusão

Mas a rosa perfumada / Que ela me trouxera à porta
Estava tão triste, a coitada / Quando o beijei estava morta

E eu mais triste do que sou / Fiquei naquele desgosto
E uma lágrima deslizou / Pela tristeza do meu rosto

E hoje vivo com a tristeza / Pois sou casado com ela
E vejo nela beleza / Que a vida triste é mais bela

Roleta do destino

Artur Ribeiro / Raúl Ferrão *fado carriche*
Repertório de Trio Odemira


Há duas coisas que a vida
Não me consegue roubar
Esta tristeza incontida
E a morte, quando chegar

Como a provocar a sorte
Que traz consigo ao nascer
O homem tem medo à morte
E tudo faz p’ra morrer

Desde o princípio do homem
Até ao homem presente
Que gerações se consomem
Para destruír a gente

No jogo da nossa vida
A vida, por mais que queira
Nunca levou de vencida
A sua velha parceira

Deus criou essa partida
Onde não impera a sorte
E por algo, deu à vida
Menos trunfos do que à morte

Aqui tão perto de ti

Letra e música de Múcio de Sá
Repertório de Liliana Martins


Perdida nas janelas da alma
Olho as cidades sem tempo
Cenários de vidas imaginadas
Distante de trabalho intenso;
Mundos no tempo imaginado, só eu sei
Perdidos à entreda do labirinto

No meio da vastidão a poesia
De um dia a mais a viver
Janelas da alma, sol do meio-dia
Riquezas de quem não tem o que fazer;
Cenários de vidas imaginadas
Frestas de luz ao amanhecer

E se o amor bate as asas e voa sobre nós
Eu vou ser feliz, hoje, amanhã e depois
E se o amor bate as asas e voa sobre nós
Eu vou ser feliz aqui tão perto de ti

Não mais de mim

Artur Ribeiro / Santos Moreira *fado moreninha*
Repertório de Trio Odemira


Quando o meu coração quiser parar
Então é tempo de ficar dormindo
Então é tempo de ficar, ficar
No jeito de não ter acontecido

É tempo de fugir, fugir enfim
Ao inferno que trago p’ra castigo
É tempo de não mais saber de mim
Ou talvez de ficar por fim, comigo

Quando o meu coração quiser findar
Com este meu morrer assim, aos poucos
Que me dê tempo só para queimar
Que a ninguém deixo os meus poemas loucos

Amor, anda ver

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório de Nuno da Câmara Pereira


Vamos acordar amanhã cedinho
Beber devagar nas fontes do ar
Como fôra vinho
Os dois, estrada fora como se num só
Sem espaço nem hora e sem demora
Qual réstea de pó

Amor anda ver o sol a nascer sobre o horizonte
Amor anda ver a água a correr debaixo da ponte
Dar-te-ei a flor da mais linda cor que por lá houver
E o sol como em sonho vestirá risonho a flor que prefere


Tu vais de certeza ficar seduzida
Com a natureza de sol à cabeça
Respirando vida
E no trono forte da árvore mais alta
Gravados em corte os nomes que à sorte
Nosso nome exalta

Tradição

Letra e música de Miguel Araújo
Repertório de Raquel Tavares


Rosa, roda a saia
O vento muda, empurra a moda
Nem que a Rosa caia
Nada nunca pára a roda

Vai Rosa cobaia, arredonda-a bem
Que essa tua saia já foi da tua mãe
Já a mãe dela girava essa saia a tempo
Contra o vento, contra o tempo
Que faz girar o mundo
Nem que em plena roda a a rosa caia

Vem Maria, canta
Aos teus amores as dores de outrora
Canta em agonia
Outra que não é de agora

Vai roda gigante, faz girar o mundo
Que a pedra que anda à roda
E contraria aquela pedra que parou
No peito de qualquer Maria
E a Rosa no seu posto ainda rodopia
E vai rodando a saia até qualquer dia

É melhor assim

António Rocha / Franklim Godinho *4as*
Repertório de Pedro Galveias


Foi bom enquanto durou
A paixão que houve em nós
Mas a paixão acabou
Hoje estamos melhor sós


Não foi amor de raíz / A força que nos juntou
Por isso, como se diz / Foi bom enquanto durou

Vivemos uma aventura / Que se tornou um algoz
Pois foi sol de pouca dura / A paixão que houve em nós

Foi triste a realidade / Que o destino nos traçou
Sonhamos felicidade / Mas a paixão acabou

Pode ficar a amizade / Pesando contras e prós
Eu acho que na verdade / Hoje estamos melhor sós

Rendas pretas

Fernando Tavares Rodrigues / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


O que sinto por ti são rendas pretas
Recordações vagas, indiscretas
De um corpo que conheci
O que sinto por ti são rendas pretas
Volúpias de cetim, sedas secretas
Que tu despias para mim

Pedaços de fantasia / Que vestias para estar nua
Restos de noite que a lua / Na tua pele descobria

O que sinto por ti são rendas pretas
Essas rendas incompletas / Que nos dedos descobri
Quando ao ver-te assim despida
Toda de negro vestida / Me dei e te possuí

Dessas nocturnas intrigas / Que me calaram de espanto
Das meias finas, das ligas / Das rendas que te ofereci;

Lembro ainda o doce encanto / Das rendas pretas em ti
Do corpo que me ofereceste / Quando entre as rendas te deste
E entre rendas me rendi
Tão tranparentes macias / As rendas que tu vestias
Hoje tão tristes, sem ti

Vai mais um dia

Pinto Jorge / Paulo de Carvalho
Repertório de Luísa Basto


Às seis o salto da cama e o puto a resmungar
São dez minutos prá mama e a bucha por arrumar
Sai tudo à rua na guita, vai tudo a andar na ganga
No barco há um que arma fita, na volta ninguém se zanga

Um jeitinho no transporte e o puto fica na ama
Só nos faltava esta sorte, o metro ainda nos trama
Um beijo dado apressado, adeus ao virar da esquina
Num fato mais que coçado, a mulher ‘inda menina

Vai mais um dia de trabalho
Em qualquer lado
Vai mais um dia de trabalho
Pelo pão
Mas qualquer dia no trabalho
Ao nosso lado
Há-de ser dia de acabar
O dia não
Sabemos que ainda um dia
Hão-de ver quem tem razão


Lá vão quinhentos pró passe das viagens que fazemos
E não há ninguém que cace as paragens que perdemos
O puto vem a tossir das friagens que apanhou
A mulher vai a dormir p’las vezes que hoje acordou

À volta é gente da volta do trabalho que fizemos
E pensar que andam à solta os males de que sofremos
Vai mais um dia passado, se é que essde dia passou
Talvez eu ande enganada, o dia não acabou

Canto das descobertas

Michel Legrand / Marilyn Bergman / Alan Bergman
Versão de Mário Martins
Repertório de José da Câmara


Hoje, os sorrisos da cidade trazem sol ao meu olhar
São as notas deste fado no meu tempo de o cantar
Há a história que se conta dum povo à beira do mar
E dum sonho muito antigo e de vozes para o cantar;
Vozes fortes de muralha, vozes molhadas de pranto
E vozes de praça forte p’ra defender nosso canto

Vozes que tinham na voz mistérios a desvendar
E do tributo que nós tão longe fomos pagar
Tantas vezes, tantas vezes a conceder-nos foral
Por fabuelas proezas das gentes de Portugal;
Vozes claras, transparentes como cristais de firmeza
Vozes gostosas do pão que come connosco à mesa

Vozes de tanta ternura e tamanha dimensão
Com a medida do mundo em dois palmos de canção
São as vozes de além Tejo, são as vozes de além dôr
No coral da Epopeia que dobrou o Bojador;
São vozes de coro grego vestido à moda do Minho
Vozes de nau viajeira que tem garganta de pinho
Tantas vezes, tantas vezes, de grandeza universal
Deste sonho desmedido dum país no plural

Restos de nada

Maria Luísa Batista / Casimiro Ramos *fado três bairros*
Repertótio de António Vasco Moraes


Ficou no calor da cama
Acesa como uma chama
A lembrança dos sentidos
Ficou o cheiro e o sabor
Daquela noite de amor
Nos nossos corpos doridos

Ficou paixão e carinho / Dentro dos lençóis de linho
Revoltos, amarrotados
E num canto de memória / Só eu guardo dessa história
Os sentimentos rasgados

Os lençóis ficaram frios / Os sentimentos vazios
Afinal o que sobrou?
O amor envelheceu / A paixão arrefeceu
Do nada nada restou

Não guardo rancor nem mágoa / Sou como a corrente d’água
Que procura o mar salgado
Porque é de sal o meu pranto / Porque é de paz o seu manto
Não lhe interessa o meu passado

Canigas

Maria Manuel Cid / Popular
Repertório de António Vasco de Moraes


Não vejo, não vejo, não vejo ninguém
Que tenha mais medo que tem o meu bem
De contar segredos, segredos contar
E tornar azedos os beijos roubados


Tu ficas airosa se pões o teu lenço
É da cor da rosa e cheira a incenso
Não vejo, não vejo, não vejo ninguém
Que tenha mais medo que tem o meu bem

Não pintes a boca da cor do carmim
A nódoa da amora é coisa ruím
Se me dás um beijo assim a marcá-los
Quem tiver desejos já pode contá-los

Não vejo, não vejo, não vejo ninguém
Que tenha mais medo que tem o meu bem

Oh minha Rosinha eu hei-de te amar
De dia ao sol, de noite ao luar
De noite ao luar, de noite ao luar
Oh minha Rosinha eu hei-de te amar

Vê lá meu bem

Letra e música de Marcelo Camelo
Repertório de Maja


Vê lá bem meu bem, sinto te informar
Que arranjei alguém p’ra me confortar
Este alguém está quando tu sais
E eu só posso crer pois sem te ter
Nestes braços tais

Vê lá bem, amor, só te quero ver
Somos no papel mas não no viver
Viajares sem mim, me deixares assim
Tive que arranjar alguém p’ra passar
Os dias ruíns

Enquanto isso, navegando eu vou sem paz
Sem ter um porto, quase morta, sem um cais
E eu nunca vou esquecer-te, amor
Mas a solidão deixa o coração neste leva e traz

Vê lá bem, além destes factos vis
Sabes que as traições são bem mais subtis
Se eu te troquei não foi por maldade
Vê lá meu bem, arranjei alguém
Chamado *saudade*

Cantar perfeito

João Dias / Armando Macado *fado licas*
Repertório de Maria Armanda


Perfeita é a palavra quando verso
E a graça de cantar é já entrega
A malha em que se tece o universo
É força que nenhuma força nega

Perfeita é a razão de ser poeta
Amar a flor nascida em qualquer chão
Andar de corpo inteiro, alma liberta
Estender a mão aberta a qualquer mão

Perfeito é o lugar aonde estás
Tecendo o linho verde duma esperança
Perfeita é qualquer voz cantando paz
Perfeito é qualquer gesto de criança

Perfeito é o perfil do seio fecundo
Da mãe ganhando o filho de seu ventre
Perfeito movimento é o do mundo
A repartir o sol por toda a gente

Fado século XXI

A vida é um milagre
Letra e música de Edgar Nogueira
Repertório de Catarina Rosa


A vida é um milagre 
Amor é fogo que arde
Diz Virgílio, diz Camões
Não fôra Cristo a verdade
Que há-de cá voltar, pois há-de
Só havia interrogações

Porque amo a vida logo
A mim própria me interrogo
O que é o homem no tempo
Vela que acende com modo
Luz que se apaga mal acordo
Tão breve como um lamento

Na vida individual
O homem é temporal
E por isso me lamento
Sou uno sem ter igual
Mesmo assim, para meu mal
Só juntos temos assento

Eu gosto imenso da vida
Não gosto é da intriga
Amo somente a verdade
Uma estrela minha amiga
Deu-me luz bem definida
Pois a vida é um milagre

Marinheiro americano

Amadeu dos Santos / Sebastião Ferreira / Fernando dos Santos
Manuel Carvalho Jnr / Frederico Valério
Repertório de Hermínia Silva

Mim ter ouvido fada e não saber
Cantada por Alfreda Marceneira
Mas não perceber nada do que era
E só ter apanhado bebedeira

Alfredo ter cantado o Bacalhau
E tudo ter na boca posto um rolha
Mas mim fazer barulho no cançau
E levar um camóne aqui no ôlha

Ó fada yes allrigth
Lady Maria Aliça
Ter cantado quatro fadas… chatiça
Ó fada yes allrigth
Mister Cascais Manuel
No guitara, Armandinha, very well
Mim gostar muito de ouvir guitarradas
E ouvir cantigas desgraciadas
Ó fada yes allrigth
Mister Alberto Costa
No corrida choradinha… mim gosta


Lembro do bom Fialha ter cantada
O cantiga no fado corridinha
Todo o gente a chorar, ficar magoada
Mas mim, beber cerveja, beber vinha

Mim chamar o criada por ter sede
E logo um fadista dar chapada
Por não ter visto escrito no parede
Sailance… que se vai cantar o fada

João Cortes

Vitor Rodrigues / Joaquim Campos *fado rosita*
Repertório de Manuel da Câmara


Aquele rosto moreno
Onde sorri o passado
Sereno sem ser pequeno
Enorme por ser forcado

Enfrentou p’rigos e mortes / Aos consagrados pertence
De seu nome João Cortes / Um ilustre Estremocence

Na festa, triunfador / Onde colheu faustos loiros
Distinto seu pundonor / Destemido a pegar toiros

Por razões de gratidão / Seu nome será lembrando
O Cortes é a lição / Do culto do bom forcado

No simbolismo imponente / Perdura ainda o valor
Do cabo nobre e valente / Que sempre honrou Montemor

Canção de amor

Fernando Tavares Rodrigues
Repertório de António Pinto Basto


Amo-te muito
Como se já te amasse assim há muito
Amo-te tanto
Como se fosse apenas por enquanto
Amo-te como quem partiu
Sabendo, ao partir, que já chegou
Amo-te como amo aquilo que te dou

Amo-te como um vinho antigo, um mosto doce
Amo-te como a Primavera que te trouxe
Quero-te como se te amasse por encanto
Só sei amar-te assim como se fosse a mim


E quero amar-te
E quero dar-me sempre a ti constantemente
A um tempo só
O futuro e o passado no presente
E a ternura, esse fogo
Que acendemos mão na mão
Seja sempre amor sem deixar de ser paixão

Deixa aquela rua

José Nunes Pereira / Augusto Pinho
Repertório de João Pedro


Porque é que te ris com tanta vaidade
Se não é feliz, quem diz a verdade

Esconde que eu vejo a tua alegria
Aquele desejo que sonhaste um dia

Deixa aquela rua onde ergui a fé
Que foi minha e tua, agora não é
Fechou-se a janela da minha paixão
Vê lá, tem cautela, não a acordes não


Tu podes passar, passar não importa
Tens de respeitar esta paixão morta

Outra hora vivida não soubeste amar
Agora esquecida, não deve acordar

Segue o teu rumo

Ricardo Reis / Sueli Costa
Repertório de Carolina


Segue o teu destino
Rega as tuas plantas, ama as tuas rosas
O resto é sombra de árvores alheias

A realidade
Sempre é mais ou menos do que nós queremos
Só nós somos sempre iguais a nós próprios

Suave é viver só
Grande e nobre é sempre viver simplesmente
Deixa a dor nas aras como ex-voto aos deuses
Vê de longe a vida, nunca a interrogues
A resposta está além dos deuses

Mas serenamente imita o Olimpo
No teu coração
Os deuses são deuses porque não se pensam
Porque não se pensam

Creio amigo

Maria Manuel Cid / António Mourão
Repertório de António Mourão
Este poema foi também gravado por Carlos Timóteo 
com música de Custódio Castelo 

A vida é destino aberto
Duma lonjura tamanha
Quem percorrer o deserto
Tem abrigo na montanha

Só fica pelo caminho
Quem o caminho temeu
Só p’ra voarmos do ninho
Nas asas que Deus nos deu

Creio amigo que o silêncio é morte
Crei0 amigo que a vontade é lei
Creio amigo que daria a sorte
E no sonho nada encontrei


Vem daí, anda comigo
Não sei bem aonde vou
Se há coisas que te não digo
É que ninguém me ensinou

Vem comigo à descoberta
A vida é porta cerrada
Minha mão estende-se aberta
Sempre que tombes na estrada

Louca paixão

Maria Estela / Alfredo Coeeeiro
Repertório de Fernanda Maria


Roubei à vida um bocado
Para viver a teu lado
Fechada nos braços teus
Num momento de loucura
Roubei a febre e ternura
Que não podiam ser meus

Tivemos iguais desejos
Trocamos beijos por beijos / Vivemos um só amor
Horas roubadas à vida
Qual ventura proíbida / Talvez por isso a melhor

Roubei mas fui condenada
Hoje expio encarcerada / Culpa que foi tua e minha
Só louca, a minha paixão
Ficou no teu coração / 
Aonde eu coube inteirinha

Não quero mais fado

Eugénio Pepe / Aníbal Nazaré
Repertório de José da Câmara

Naquela tasca afamada
Depois de ouvir fado a esmo
Sempre na mesma toada
E onde o motivo era o mesmo

Ouvi alguém que pedia
Como quem pede ao balcão
Mas com certa galhardia
E carradas de razão

Por favor, tragam-me um fado
Que não fale das esperas
Que não viva do passado
Nem à sombra das Severas
Não fale nas tascas mais rascas que havia
Nos becos de Alfama e da Mouraria
Não lembre toureiros, campinos, forcados
Se trazem só disso, não quero mais fados


Ouviu-se uma desgarrada
Coisa que é pouco fadista
Tudo a falar em bairrista
Um fado triste e mais nada

E ao recordar a cantiga
Que ao fado tudo se canta
Pedi à maneira antiga
Sem trinados na garganta

Onde Deus me possa ouvir

Letra e música de Vander Lee
Repertório de Cristina Maria


Sabe o que eu queria agora, meu bem?
Saír, chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo o desengano
Mas a vida anda louca, as pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém

Meu amor
Deixa eu chorar até me cansar
Me leve p’ra qualquer lugar
Onde Deus possa me ouvir
Minha dor
Eu não consigo compreender
Eu quero algo p’ra beber
Deixa-me aqui, pode saír


Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Entender porque se agridem
Se empurram pró abismo
Se debatem, se combatem sem saber

Fado do trapo

Pinto Jorge / João Fernando
Repertório de Luísa Basto

Já catou
Os caixotes da cidade sem achar
Os arredores da vida já buscou
Nas ruas desta idade, um só lar
Uma cama esquecida

No latão do lixo que deixámos no papel
Que deitámos à rua
Está o pão que nós já desprezamos, está o fel
Da sopa que faz sua

Não toquem naquilo que é do Chico
Ninguém quer papel ou trapo
Ai mal de quem quer ficar mais rico
Por ter um caixote e um farrapo


Quem lhe dera
Ter um caixote cheio, mais cartão
Sem entrada na Mitra, ele espera
Poder achar um meio, um portão
Que vá dando guarida

Esta terra
Que vai sendo pesada, esta hora
Já lhe custou a passar, está na guerra
Desta coisa danada, já demora
A vez de descansar

Três degraus, uma cortina

Mote de Linhares Barbosa / Glosa de Silvério Santos
Popular *fado menor*
Repertório de Eduardo Silva
Analaisando a letra vê-se que não foi gravada a estrofe 
que deveria glosar o 2° verso do mote

Três degraus, uma cortina
Uma imagem de Jesus
E a luz duma lamparina
Iluminando outra cruz


É tão pobre mas singela
Minha casa pequeina
Uma porta, uma janela
Três degraus, uma cortina

Tanta fé, carinho e esperança
Por bem pouco se ilumina
Um sorriso de criança
E a luz duma lamparina

E como a cruz do calvário
Vai a pequenina luz
Dando luz ao meu fadário
Iluminando outra cruz

Aicha Conticha

Manuel Alegre / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de João Braga


A armada deixa Arzíla sobre as naus
Brilham uma última vez as armas portuguesas
Quando os moiros chegarem, verão apenas
Uma mulher de negro pelas ruas
Não resta mais de Portugal, só esse luto
Na cidade deserta e abandonada

Os moiros lhe chamarão Aicha Conticha
Os moiros lhe chamarão Aicha Conticha
E enquanto a armada se despede lentamente
Ela só, é senhora da cidade
De negro está vestida, ela só
Ela só na cidade abandonada
E nunca mais Arzíla será perdida
E nunca mais Arzíla será tomada


Talvez um amor antigo ou um morto querido
Talvez a luz, o branco, o sul
Talvez o puro prazer de olhar
Outros amaram Arzília, mas não tanto
Que tivessem de ficar só por amor
Ela só quis Arzíla por Arzíla

As rosas não falam

Letra e música de Cartola
Repertório de Gisela João


Bate outra vez com esperanças, o meu coração
Pois já vai terminando o Verão… enfim
Volto ao jardim co’a certeza que devo chorar
Pois sei bem que não queres voltar para mim

Queixo-me às rosas
Mas que loucura, as rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubem de ti

Devias vir para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe, talvez nos meus sonhos, por fim

Louca paixão

José Patrício / Miguel Ramos*fado alberto*
Repertório de Fernando Jorge

Sentir perto de mim teu meigo olhar
É quanto a mim me basta p’ra riqueza
Meu Deus, como é que pudeste dar
Apenas a alguém, tanta beleza

Na chama desse amor fui-me embalar
No calor dos teus braços vou caír
Amor, se não me pedes p’ra ficar
Sou eu que digo: não quero partir

Ao navegar contigo em mil desejos
Em ondas de paixão por saciar
Alimentar meus lábios nos teus beijos
Nesta fome de amor por acalmar

Se na vida real eu não consigo
Teu corpo com carinho abraçar
Então quero dormir, sonhar contigo
E peço p’ra ninguém mais me acordar

Cantar da milésima segunda noite

Rodrigo Emílio / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


Eu vi o sol em plena noite
Quando ninguém podia vê-lo
Eu vi o sol da meia noite
A raiar no teu cabelo

E houve mil e uma noites
De fulgor inapagável
Da boémia, a mais profunda
Houve mil e uma noites
Mas nenhuma comprarável
À milésima segunda


Quando ninguém podia vê-las
Vi tuas mãos de Dulcineia
Não sei se foi noite de estrelas
Mas sei que foi noite de estreia

E ouvi cantar, cantar em coro
Em cada artéria, em cada vela
O sol do sangue e o fulvo touro
Que te anuncia e me inceideia

Um fado à mercê da vida

José Fernandes Castro / Carlos
Repertório de Nelson Duarte
Música do fado *Sempre que Lisboa canta*

Eu sou um tempo perdido
Nas madrugadas da vida
Sou um fado acontecido
Numa noite florida

Sou um barco sem maré
Neste mar por navegar
Sou alma cheia de fé
Que passa a vida a cantar

Quando a saudade magoa
Minh’alma entoa e
sta canção
E o soluço se apregoa
Mesmo que doa n
o coração
Quando a saudade faz lei
As outras leis s
ão tempo errado
A saudade a que me dei
Tem as leis do 
próprio fado

Eu sou o sopro fugaz
Duma brisa matinal
Sou um poema de paz
Numa guerra triunfal

Sou um livro que se lê
Sou um verso que alguém quer
E assim ando à mercê
Do que a vida me trouxer

Fado da triste feia

Luís Galhardo / Raúl Portela
Repertório de Zulmira Miranda

Da revista *Tic Tac* estreada em 1921 no Éden Teatro
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*


Eu cá sou a triste feia
À beleza sempre alheia
Quando eu era pequenina
Já minha mãe me dizia
Tu vais ter a triste sina
De ficares para tia

A feia, a feia
A feia, a triste feia
A pobre desprezada
A feia, por ser tão feia
Será sempre desgraçada


Na tristeza dos meus dias
Desconheço as alegrias
Mas conforme a sorte
Eu no fundo sou feliz
Serei feia até à morte
Já que Deus assim o quis

Fado menor

Fernando Teles / Popular *fado menor*
Repertório de Maria Alice
Letra extraída do livro *Poetas do Fado Tradicional* de
Daniel Gouveia e Francisco Mendes  

Por eu vender o meu corpo
Olham p’ra mim com desdém
As ricas também se vendem
E tudo lhes fica bem

Ninguém censure a mulher
Que p’ra dar aos filhos pão
Depois de tudo sofrer
Ponha seu corpo em leilão

Não há ninguém que suponha
Qual a cruz do meu penar
É ser mãe e ter vergonha
Dos meus filhitos beijar

À noite quando me deito

Letra e música de António Silva Reis
Repertório de Tony Reis

Sinto-me só 
Quando não 'stás a meu lado
Sinto-me só 
Quando não te canto um fado
Sinto-me só 
À noite quando me deito
E sinto dentro do peito 
A saudade de te ver
Sinto-me só 
E creio, p’ra meu castigo
Que sem ti eu não consigo
Alento para viver


Trago comigo
A mágoa que me devora
Mas que me obriga 
A pensar a toda a hora
Sei p’ra meu bem
Que contigo sou feliz
Porque o amor é também
O fruto d’uma raiz

O filho ceguinho

Amadeu do Vale / Ercília Costa
Repertório de Ercília Costa
Letra extraída do livro *Poetas do Fado Tradicional* de
Daniel Gouveia e Francisco Mendes

P’ra dar vista ao meu filhinho
Que me nascera ceguinho
Fiz uma promessa a Deus
Que os dois olhos do meu filho
Se um dia tivessem brilho
Prometi cegar os meus

Tanta e tanta devoção
Eu pus na minha oração
Que ela chegou a Jesus
E por milagre divino
Aos olhos do meu menino
Chegou finalmente a luz

Muito alegre, fui depressa
P’ra cumprir minha promessa
Caí aos pés do altar
Ergui meus olhos aos céus
E só por graça de Deus
Eu não cheguei a cegar

Três degraus, uma cortina

Linhares Barbosa / Popular *fado menor
Repertório de António Rocha
A 2ª estrofe (que não foi gravada pelo António Rocha) 
foi extraída do CD de
Manuel Cardoso de Menezes que gravou esta letra na música do Fado Lopes

Três degraus, uma cortina
Uma imagem de Jesus
E a luz duma lamparina
Iluminando outra cruz


Viela triste e sombria / Uma mulher de má sina
Um letreiro, hospedaria / Três degraus, uma cortina

Uma cama improvisada / Que só miséria traduz
Ao fundo, dependurada / Uma imagem de Jesus

Sobre uma mesa de pinho / Uma vela de estearina
Uma garrafa com vinho / E a luz duma lamparina

Sempre que a mulher se vende / E o freguês pede mais luz
A vela também se acende / Iluminando outra cruz

A voz de Portugal

Fernando Teles / Guilherme Coração *fado sem pernas*
Repertório de Maria Alice
Letra extraída do livro *Poetas Populares do Fado Tradicional* de
Daniel Gouveia e Francisco Mendes

Ter um fado igual ao meu
Ó Coimbra quem te dera
Na Mouraria nasceu
Teve por mãe a Severa

Fado lindo do Mondego / Cantado por noite fora
À alma tira o sossego / Que de tanto ouvi-lo chora

O de Lisboa é mais triste / É mais castiço, mais faia
A alma não lhe resiste / Ouvindo-o logo desmaia

Por mim ou outro cantado / Na Mouraria ou Choupal
São lindos todos os fados / São a voz de Portugal

Homem da lezíria

Maria Manuel Cid / Francisco José Marques *fado zé negro
Repertório de Teresa Tarouca

Solta da cinta grosseira
Voava a camisa branca
Que o vento suão enxuga
E o salto de prateleira
Pisa o restolho que arranca
Da terra que a sede enruga

Uma melena teimosa / Cobre-lhe a testa trigueira
Como mata de capim
E a vara fina e rugosa / Batia forte a poeira
Da sua calça de brim

Os dentes brancos de neve / Brilhavam como centelhas
Nos seus lábios sensuais
E mordiscava de leve / Uma papoila vermelha
Colhida pelos trigais

Leva na bota o esporim / Como lama de uma vala
Pinga o suor do seu rosto
Nesta lezíria sem fim / Até o silêncio fala
Nas tardes do mês de Agosto

Os belos tempo d’outrora

Fernando Teles / Popular *fado corrido serrano*
Repertório de Maria Albertina

Letra extraída do livro *Poetas do Fado Tradicional* de
Daniel Gouveia e Francisco Mendes

Os belos tempos d'outrora
São relíquias do passado
Dois impagáveis tesoiros
A guitarra mais o fado


Era na Lisboa antiga / Quinta-Feira d'Ascensão
Dia de consagração / Porque era dia de espiga
Com farnéis e sem fadiga / Assim que raiava a aurora
Toda a gente, campos fora / Procurava a sombra amena
Ai que saudades, que pena
Dos belos tempos d'outrora

As noites tradicionais / De todos os nossos santos
Eram motivos de tantos / Ranchos, bailes, festivais
Os círios e os arraiais / Rabicha, senhor roubado
Atalaia, sol doirado / Como tudo isso era lindo
Estas coisas, tempo findo
São relíquias do passado

E nas vésperas de toirada / Nos retiros, que alegria
Até a nobreza se via / Pelas mesas abancada
Cantava-se à desgarrada / Até à vinda dos toiros
Cobriram-se assim de loiros / Entre a fadistagem vária
A Severa e a Cesária
Dois impagáveis tesoiros

Fidalgos, boémios, artistas / E toureiros elegantes
Tinham por suas amantes / As cantadeiras bairristas
Nesse tempo de fadistas / E do Colete Encarnado,
Só nos resta por sagrado / Penhor bem nacional
Dois filhos de Portugal
A guitarra mais o fado

Destino

Sofia Ferreira / Pedro Marques
Repertório de Sofia Ferreira


Destino meu
Naquela noite em que o negrume te levou
Cravando um punhal
Em minha alma que se acabou

Que faço deste amor
Que a mim me rasga o coração
Que vida será vivida
Agora nesta solidão

Volta por favor
Mais uma vez, p’ra te dizer
Palavras que me fazem enlouquecer

Amor, grito de dor e tormento
Em lágrimas que se soltam pelo vento
Destino que a maré trouxe até mim
Destino que me faz morrer por ti

Rosas

Fernando Teles /Armandinho *alexandrino do estoril*
Repertório de Ercília Costa

Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*


Por sob o céu azul do nosso Portugal
Céu que não tem igual em todo o mundo inteiro
Vicejam roseirais, uns da cor do coral
Outros branco ideal esmalte verdadeiro

E assim as rosas são neste jardim florido
Padrão bem alto erguido às virtudes da raça
O branco simboliza o sentimento querido
A paz, amor sentido, enchendo as almas de graça

O vermelho, esse então é sangue abençoado
É sangue derramado em tanta e tanta vez
É Alcácer-Quibir, é Flandres, é Salado
É sangue de soldado, é sangue português

Dia de São Martinho

Isidoro de Oliveira / Manuel Maria Rodrigues
Repertório de *Fado Marialva*

É dia de São Martinho
Dia da prova do vinho
Dos safões e da samarra
E à noite, depois da ceia
À luz frouxa da candeia
Canta-se ao som da guitarra

Veste-se de festa o povo / Tudo prova o vinho novo
É dia de São Martinho
O vinho a cabeça arrasa / E à volta para casa
Já ninguém sabe o caminho

Eu falo, digo o que sinto / Não há nada como o tinto
P’ra aquecer as almas frias
É dia de São Martinho / Encha lá mais um copinho
Pois um dia não são dias

Atrás dum como outros vão / E o tosco canjirão
Não pára de servir vinho
Até alta madrugada / Há vinho e castanha assada
É dia de São Martinho

Na minha infãncia

João da Mata / Alfredo Duarte *menor-versiículo*
Repertório de Ercília Costa

Também conhecido pelo título *saudades que matam*

No jardim da minha infância tão ditosa
Semeei doces quimeras de ansiedade
Plantei ilusões e sonhos cor-de-rosa
Para colher desenganos e saudades

Saudades sinto-as cá dentro do meu peito
Ligadas ao sofrimento verdadeiro
Saudades do lar feliz que foi desfeito
P’los vendavais do destino traiçoeiro

Como é triste a minha sorte como influi
Na certeza de cruéis fatalidades
Pois que eu vivendo saudosa do que fui
Tristemente vou morrendo de saudade

Toca p’rá unha

Maria Manuel Cid / Jaime Santos *fado da bica*
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Céu dum azul infinito
Tarde linda, praça à cunha
O toiro é negro gravito
Cornetim toca p’rá unha

E salta lesto p’rá arena / O forcado valentão
E pisa a terra morena / Com altiva decisão

E, todo donaire e graça / Petulante e atrevida
Citando de praça a praça / Aguenta a investida

E o povo desvairado / Com tamanha valentia
Vendo o toiro dominado / Rompe em alta gritaria

E no brado de respeito / Como carícia dum beijo
Sente o forcado no peito / Todo o sol do Ribatejo

Nada a mim me dá cuidado

Conde Sobral / Adriano Batista *fado macau*
Repertório de Leonor Santos

Tema também referenciado com os títulos
*Perder a noite no Fado /ou/ A mim não me dá cuidado*

A mim não me dá cuidado
A hora de me deitar
Perder a noite no fado
Não é perder é ganhar

Embora seja egoísta
Ou um caso liquidado
Ser boémia ou ser fadista
A mim não me dá cuidado

Eu quero apenas viver
A vida que me agradar
E não me importa saber
A hora de me deitar

Se preocupar alguém
O meu viver agitado
Perder a noite no fado
Venha comigo, também
- - - 
- - 
-
Versão Original
Informação de Daniel Gouveia e Francisco Mendes no livro
*Poetas do Fado Tradicional*

A mim não me dá cuidado
A hora de me deitar
Perder a noite no fado
Não é perder é ganhar


Mesmo que seja egoísta / Ou um caso liquidado
Ser boémio, ou ser fadista / A mim não me dá cuidado

Eu quero apenas viver / A vida que me agradar
E não me importa saber / A hora de me deitar

Se preocupar alguém / Este viver agitado
Venha comigo, também / Perder a noite no fado

Dirá logo a quem se afoite / Como ele a criticar
Perder assim uma noite / Não é perder, é ganhar

Braços de cruz

Maria Manuel Cid / Popular *fado menor*
Repertório de António Mello Correia
Letra extraída do livro *Poetas do Fado Tradicional* de
Daniel Gouveia e Francisco Mendes

Seis lanternas apagadas
Mais duas deitando luz
Que deixam sombras traçadas
Como os braços duma cruz

Cá dentro a guitarra chora
P'la viola acompanhada
Enquanto a noite lá fora
Vai fugindo à madrugada

Saltam versos desgarrados
Do peito do cantador
Saltam versos, nascem fados
E mais promessas de amor

E quando as almas despertam
Ao romper das madrugadas
Já nem sombras se projectam
Das lanternas apagadas

Amora cantando

Maria de Lurdes Brás / Joaquim Campos *fado amora*
Repertório de Maria de Lurdes Brás


Cá neste lado do rio
Também há fado a preceito
Canta-se o fado com brio
Há fado dentro do peito

Cá na Margem Sul do Tejo / Há fadistas de valor
Cantar fado é o desejo / De quem tem ao fado amor

Brilham estrelas no céu / O sol brilha mais dourado
Navega no Rio Judeu / A esperança de um novo fado

Como discreta magia / Anda o silêncio no ar
Há mistério e alegria / Há grandeza no cantar

Cai a noite, amaina o vento / Leve brisa sopra agora
Para se ouvir sem lamento / Cantar este fado Amora

Meu amor

Manuel Paião / Eduardo Damas
Repertório de Leonor Santos
Este tema também foi gravado por Flora Silva com o título *Vai, vai de vez* 
com autorias atribuídas a: Torre da Guia / Alvaro Martins

Meu amor, não quero mais
Ouvir-te mentir assim
Sei que vais de mim p’ra ela
E que vens dela p’ra mim

Meu amor não quero mais
Eu não quero mais tortura
Vai-te embora e leva tudo
Deixa ficar a amargura

Tu gostas dela, eu sei-o bem
Já és mais dela, eu sei também;
P’ra quê mentir, não mintas não
Trago a verdade no coração;
Vai, vai de vez, leva a saudade
Não quero dó nem piedade


Viver assim é um inferno
Em que eu não quero viver
Antes quero a solidão
P’ra me ajudar a esquecer

Vai-te embora por favor
E leva tudo o que é teu
Leva pois o meu amor
Porque ele já não é meu

Perdi-me no teu olhar

Mote de Olegário Marianao / Glosa de Conde Sobral / Alfredo Duarte *fado bailarico*
Repertório de Natália dos Anjos


Os teus olhos são dos tais
Que só se encontra uma vez
Deus fez os teus, não fez mais
Por ver o perigo que fez


Perdido no teu olhar / A minha vida mudou
E nunca mais encontrou / Outro caminho a trilhar
Mas nada tenho a ganhar / Pois sei bem que tu não lês
Na minha alma, nem crês / Que, distintos dos demais
Os teus olhos são dos tais
Que só se encontra uma vez


Os olhos que Deus te deu / São para mim tal tormento
Que o meu cruel sofrimento / Foi conhecido no céu;
E a Santa Lei entendeu / Tão injusto o meu revés
Que com divina altivez / Quebrou os moldes fatais
Deus fez os teus, não fez mais
Por ver o perigo que fez

Coisas do coração

Domingos Gonçalves da Costa / Fontes Rocha
Repertório de Augusto Fernandes


O coração que em teu peito
Não palpita de afeição
É todo de gelo feito
E para amar não tem jeito
Nem chega a ser coração

Que nunca amaste ninguém
Afirmas seja a quem for
Cautela, que o dia vem
Em que hás-de gostar de alguém
E despreze o teu amor

Uma paixão 
Nasce dum simples olhar
Como a ilusão 
Nasce dum amor sem par
E nesse jeito
Surge uma falsa afeição
Que pode entrar no teu peito
Onde não há coração


A história do amor é vasta
E às vezes enganadora
Puro amor que se afasta
É muita vez quanto basta
P’rá gente morrer de amor

Não voltes pois a dizer
Que a ninguém tens afeição
Isto de amar e querer
A gente quer porque quer
São coisas do coração
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VERSÃO ORIGINAL

O coração que em teu peito / Não palpita de emoção
É todo de gelo feito
E para amar não tem jeito / Nem chega a ser coração

Que nunca amaste ninguém / Afirmas seja a quem for
Cautela, que o dia vem
Em que hás-de gostar de alguém / Que despreze o teu amor

A história do amor é vasta / E no mundo enganador
Um puro amor que se afasta
É muita vez quanto basta / P’rá gente morrer de amor

Não voltes pois a dizer / Que a ninguém tens afeição
Que nisto de amar e querer
A gente quer porque quer / São coisas do coração

Gôsto de engraçar

Clemente Pereira / Casimiro Ramos *fado fé*
Repertório de Natalindo Duarte

Tanta graça ela irradia
Que sempre, quando ela passa
Eu digo, sem ironia
Você é Graça Maria
Uma Maria, com graça

Não julgue nisto um gracejo
Porque graça em mim não há
Mas tanta graça em si vejo
Que só lhe peço o sobejo
Da graça que a outros dá

A quem vive, como eu
Com o gosto de engraçar
A graça que Deus lhe deu
Nunca deve, creio eu
A sua graça negar

Mas se um dia, lado a lado
Lá na Graça, a gente passa
Alguém dirá com agrado
Mas que par tão engraçado
Passou agora na Graça

Quanto mais me foge a vida

João Dias / João Blak *fado menor do porto*
Repertório de Lúcio Bamond

Quanto mais me foge a vida
Mais eu gosto de viver
Mal uma esperança perdida
Outra acaba de nascer

Esperamos sempre um bem / Que por bem nos aconteça
Pois o futuro de alguém / Não há ninguém que o conheça

Esperança é fogo que arde / Em fogueira tão teimosa
Que às vezes até um cardo / Tem p’ra nós valor de rosa

A vida foge-me tanto / Que às vezes nem sei dizer
Se este canto é o pranto / Que o cisne canta ao morrer

O nosso amor

Domingos Gonçalves da Costa / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Cidália Moreira


Meu amor, vou suplicar-te
Não me fales mais assim
Se de mim queres livrar-te
Deixa de pensar em mim
P’ra eu poder olvidar-te

Por muito te amar e querer / Corpo e alma te entreguei
Não me arrependo sequer / Nem não pouco te roubei
Ao amor d’outra mulher

É teu, meu amor feliz / Como o luar é da lua
Já que o destino assim quis / Ou ditosa, ou infeliz
Até à morte sou tua

Requiem por um morgado

João Dias / Popular *fado mouraria*
Repertório de João Casanova

É dono de muitas leiras
Senhor de muito povoado
Aluga braços nas feiras
Onde vai vender o gado

Monta cavalos e fêmeas / Tem filhos que não conhece
Semeia fomes e sêmeas / E come o que lhe apetece

Sobre a enorme barriga / Cadeias de oiro maciço
Prendeu um corno e uma figa / Para afastar o feitiço

Traz a mulher e a montada / Presas na mesma arreata
E na bota afiambrada / Usa acicates de prata

Dizem à boca pequena / Que assassinou um maltês
Por um braçado de lenha / Deu-lhe dois tiros ou três

Engorda porcos e cães / E guardas florestais
E outros filhos da mãe / Que lhes guardam os trigais

Missas de corpo presente / Pagou-as adiantado
Deus não fia a toda a gente / E o céu está super-lotado

Aqui ficou retratado / Um morgado d’outros tempos
Que há pouco foi enterrado / Com todos os sacramentos

Gaivotas em terra

Mascarenhas Barreto / António dos Santos
Repertório de António dos Santos


Gaivotas em terra, de asas fechadas
Marujos sem rumo num banco dum bar
Barcaças dormentes no cais ancoradas
Meninas morenas que sonham casar

Preciso é que voem e que batam as asas
Preciso é que deixem as altas janelas
Preciso é que saiam as portas das casas
Preciso é que soltem amarras e velas

Marujos sozinhos, pensando outro mundo
Meninos em casa, fiando desejo
Preciso é que cruzem seu olhar profundo
Preciso é que colem as bocas num beijo

Mãos de marinheiro não temem porcelas
Se houver outras mãos, pr’além vendaval
Rezando por ele, tecendo outras velas
Mais brancas mais belas do seu enxoval

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Na gravação de Marco Oliveira, a estrofe apresentada a seguir aparece
na 3ª posição e foi usada em vez da 4ª estrofe da versão original.

As asas são duas se acaso uma ave
Vier cortar céu, lançar-se no ar
A barca só voga se a brisa suave
Vier ternamente casá-la com o mar

Naquela noite

António Vilar da Costa / José Duarte *fado seixal*
Repertório de Joaquim Silveirinha

Na noite de São João
O Chico do Bairro Alto
Com o seu ar folião
E uma guitarra na mão
Pôs o bairro em sobressalto

Sob a janela da Rosa / À luz argêntea da lua
Cantou com voz maviosa / Uma quadrinha amorosa
E a Rosa veio p’rá rua

Traça o xaile de varina / Responde às quadras singelas
Com a sua voz argentina / Acompanhando em surdina
Ao compasso das chinelas

Já da fogueira apagada / Resta um braseiro desfeito
Mas no fim da desgarrada / Sentem, d’alma apaixonada
Uma fogueira no peito

Das janelas, com calor / Foram muito aplaudidos
Nenhum levou a melhor / Mas na luta do amor
Ficaram ambos vencidos

Hoje a Rosa, já casada / 
Lembra aquele São João
Quando o Chico à desgarrada / Na Travessa da Queimada
Lhe queimou o coração

Fado do pão

Artur Soares Pereira / Santos Moreira *fado moreninha*
Repertório de Daniel Gouveia


O Necas, um pequeno garotinho
Correndo jovial um certo dia
Foi perguntar de manso ao seu paizinho
Como nascia o pão que ele comia

O pai, sempre pronto a responder
Às perguntas do seu filhinho amado
Desta vez começou por lhe dizer
O pão não nasce feito... é fabricado

É feito de farinha, nota bem
Extraída das espigas, meu amor
Criadas com carinho por alguém
A quem a gente chama *o lavrador*

Ele, de sol a sol cuida da terra
A terra para ele é um tesoiro
Pois é ela que dá, ela é que encerra
Essas espigas lindas, cor do oiro

Só depois de maduras, são colhidas
E depois de batidas, vão então
P’ra moinhos nos quais são reduzidas
À farinha da qual se faz o pão

Que o pão custava tanto, eu não sabia
Disse por fim, o Necas ao paizinho
Mas agora já sei, e de hoje em dia
Não estragarei sequer um bocadinho

Novembro

Ana Sofia Paiva / Marco Oliveira
Repertório de Marco Oliveira


Só… no vazio entardecer
Só… demorando até perder
A vontade ainda de salvar o sol
Que já não quer ficar

Só… singular desilusão
Dor diluída na canção
P’ra esquecer que o amor tem afinal
Um sopro final… e é só

Vem… chegou novembro, o dia clareou
Tanto amor que se gastou
Vem.. que até ao fim será preciso arder
De tanto amar hei-de morrer

Só… no vazio entardecer
Só… demorando até perder
Novembro hás-de esquecer
Sei que hei-de esquecer… tão só

Carta de um soldado

José Galhardo / Raúl Ferrão
Repertório de Max

No livro *Poetas do Fado Cancão* de Daniel Gouveia e Francisco Mendes
esta letra é atribuída a Frederico de Brito

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Minha Maria, vou-te à carta responder
Ai, que alegria que tu me deste em me escrever

Sinto um engulho aqui, por ser amado
E um grande orgulho por estar longe e ser soldado

Andam-me em Guerra três amores, sabes que mais?
P’la minha terra, p’lo meu bem e p’los meus pais

Quando fores p’ra rezar
Meu amor sem ter fim
Se te der p’ra lembrar
Pede à Virgem por mim
Meu dever tem-me aqui
Qu’ria ver-te outra vez
Mas não volto p’ra ti
Porque sou português


Adeus, Maria, esta carta vou fechar
E até um dia eu te abrace e volte ao lar

Fala dos teus também, que p’lo meu lado
Eu estou bem graçasa Deus, muito obrigado

Adeus, cachopa, meu end’reço é sempre igual
Manel da Tropa, Batalhões de Portugal
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Versão Original
Carta do Soldado [carta soldado rocha]
Criação de Irene Isidro, travestida de soldado, na revista
*A Marcha de Lisboa* Estreia no Teatro Apolo, 1941


Minha Maria, vou-te à carta arresponder
Ai, que alegria que me deste em me escrever!

Sinto um orgulho aqui, por ser amado
E um grande orgulho por ‘star longe e ser soldado

Andam-me em guerra três amores, sabes que mais?
P’la minha terra, p’lo meu bem e p’los meus pais!

Quando fores a rezar
Meu amor sem ter fim
Se te der p’ra alembrar
Pede à Virgem por mim
Meu dever tem-me aqui
Qu’ria ver-te outra vez
Mas não volto p’ra ti
Porque sou português

Adeus, Maria, que esta carta vou fechar
E até um dia que eu te abrace e volte ao lar

Fala dos teus, da mãe, que, p’lo meu lado
Graças a Deus, eu fico bem, muito obrigado!

Adeus, cachopa, meu end’reço é sempre igual:
Manel da Tropa, Btalhões de Portugal

Mais um fado patriótico, ao gosto da época, por isso muito datado e por isso caído em desuso.
Hoje não seria entendido como o êxito que foi. 
No entanto, à data da sua criação, estava-se em plena II Guerra Mundial, 1939-45. 
Portugal não entrou nela, mas em 1941 ainda não se sabia como as coisas iriam acabar. 
O Japão tinha invadido Timor-Leste, pelo que a neutralidade de Portugal poderia 
terminar a qualquer momento.

A minha sina é cantar

Manuel de Andrade / Eduardo Lemos
Repertório de Irene Oliveira


A minha sina é cantar / O fado pelas vielas
E ver abrir as janelas / À noite de par em par

Ser fadista é o meu fado / Vaguear de porta em porta
Dedilhar a horas mortas / A guitarra em tom magoado

Mas que posso mais fazer
Tenho o destino marcado
Ser fadista é o meu fado
E fadista hei-de morrer
Com a guitarra a meu lado
A trinar em tom plangente
Vivo assim, vivo contente
Ser fadista é o meu fado


Às vezes penso em mudar / Em viver doutra maneira
Ao calor duma lareira / Ou no sossego do lar

Não consigo, não atino / Logo que oiço uma guitarra
Volto p'rá vida de farra / Pois é este o meu destino
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Esta estrofe não foi gravada
Informação extraída do livro *Poetas do Fado Tradicional*
De Daniel Gouveia e Francisco Mendes


Há quem diga com desdém
Que é tolice, que é loucura
Andar assim à procura
Do valor que o fado tem