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As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: nem sempre são mencionados os legítimos criadores dos temas aqui apresentados.
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* 7.355' LETRAS <> 3.257.500 VISITAS * MAIO 2024 *

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O valor do Fado

Mote de Carlos Sobral / Glosa de autor desconhecido
Música de Guilherme Coração *fado sem pernas*
Repertório de Gabino Ferreira


Há senhores que desconhecem
O valor que o fado tem
Mas talvez quantos quisessem
Cantar o fado também


Chamou-lhe, em hora cruel 
A canção do desalento
Um senhor, cujo talento
Só irradiava fel;
Triste canção do bordel
Chamou-lhe um, dos que merecem
Que os bons fadistas lhe dessem 
Uma lição de moral;
Isto do fado, afinal
Há senhores que desconhecem

É um misto de saudade
E nostalgia que acalma
A dor que nos vai na alma
Quando a tristeza a invade;
Cheio de suavidade
Doce alívio, porém
Sendo cantando por quem
Viva a sofrer, certamente;
Então é que a gente sente
O valor que o fado tem

Dizem que espalha desgraça
Onde nasceu ninguém sabe
Mas dentro de nós não cabe
É o hino da nossa raça;
Que deixa, por onde passa
Louvores que o enaltecem
Os detratores que confessem
Seus direitos de conquista;
É feio, é mau ser fadista
Mas talvez quantos quisessem

Cantar as trovas singelas
Elevar bem alto a fama
Da reles canção de Alfama
Mas que andou nas caravelas;
É encher as páginas belas 
Que a nossa história contém
Defeitos quem os não tem
Mas quem disser mal do fado;
Que venha pró nosso lado
Cantar o fado também

Andei atrás de mim

Letra de Artur Ribeiro
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Eu andei por aí a noite inteira
De rua em rua em busca doutro bem
Andei a ver se achava quem me queira
Mas ninguém quer os restos de ninguém

Andei atrás de mim num desvario
Andei ouvindo os fados que te dei
De fado em fado num errar vadio
Nem sei bem em que mundos me busquei

Andei atrás de mim e nem sabia
Que neste errado andar dos passos meus
Eu andava somente a ver se via
Se via em qualquer lado os olhos teus

Há festa na Mouraria

*Senhora da Saúde*
Gabriel de Oliveira / Manuel Maria Rodrigues
Repertório de Manuel de Almeida

Há festa na Mouraria
É dia da procissão
Da senhora da saúde
Até a Rosa Maria
Da rua do Capelão
Parece que tem virtude

Naquele bairro fadista
Calaram-se as guitarradas
Não se toca nesse dia
Velhas tradições bairristas
Vibram no ar badaladas
Há festa na Mouraria

Colchas ricas nas janelas
Pétalas soltas no chão
Almas crentes, povo rude
Anda a fé p'las vielas
É dia da procissão
Da senhora da saúde

Após um curto rumor
Profundo silêncio pesa
Por sobre o largo da guia
Passa a Virgem no andor
Tudo se ajoelha e reza
Até a Rosa Maria

Como que petrificada
Em fervorosa oração
É tal a sua atitude
Que a rosa já desfolhada
Da rua do Capelão
Parece que tem virtude

Vês

Domingos Costa / Alice Maria
Repertório de Alice Maria


Vês… como eu tinha razão
Quando às vezes te dizia
Que da boca ao coração
Vão mundos de fantasia

Vês… como tudo acabou
Como é cruel na verdade
Castigar-se quem sonhou
Com um pouco de felicidade

Diz-me onde estão essas risonhas promessas
E juras sem par
Castelos de sonho que o vento medonho
Levou para o mar
Diz, que eu vou buscá-las
Pois quero lançá-las de novo a teus pés
P´ra que as guardes bem
Ou as dês a quem não saiba quem és


Vês…. como a minha loucura
De te amar com ansiedade
Se tornou em desventura
Tristeza, dor e saudade

Não vês…. mas vives sem esp’rança
Pois não pode, na verdade
Na vida colher bonança
Quem semeia tempestade

Fado Corrido

Letra de Artur Ribeiro
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Cantar o Fado Corrido
Não é coisa p’ra qualquer
Tem decerto mais sentido
Na boca de uma mulher

Para o cantar a preceito
Como manda a tradição
É preciso ter no peito
O fogo de uma paixão

Fado Corrido, cantado fora de portas
A horas mortas, com devoção
Era batido nas cordas duma guitarra
Tinha mais garra, mais coração


Quando penso no encanto
Duma Severa a cantar
Choro baixinho não canto
E fico triste a rezar

Para que o fado velhinho
Do tempo dos meus avós
Renasça todo inteirinho
Através da minha voz

Basta um sorriso rasgado

José Fernandes Castro / Alfredo Duarte *mocita dos caracóis*
Repertório de Silva Machado (ao vivo)

Basta um sorriso rasgado
No rosto de quem nos fala
Para decifrar um fado
Bem escrito e bem cantado
Que por amor, nos embala

Basta um aperto de mão
Dado no momento certo
P’ra sentir a emoção
Bem dentro do coração
E ter o amor mais perto

Basta uma frase vulgar
Dita com voz de verdade
P’ra poder valorizar
Cuidar e perpetuar
Uma perfeita amizade

Basta um sorriso profundo
Com brilhos de luz florida
P’ra que apenas num segundo
Todas as flores do mundo
Ponham aromas na vida

Mais que tu

Rodrigo Costa Félix / Armando Machado *fado maria rita*
Repertório de 
Rodrigo Costa Félix

Mais que tu, é o amor
Que me envolve a alma em dor
E me confunde o caminho
O meu corpo em solidão
Negras noites sem paixão
Onde vagueio sozinho

Mais que tu, é a tristeza
Maré cheia de incerteza
Que não tem rumo nem fim
Verso mais triste de um fado
Este pranto amordaçado
De não ver p’ra além de mim

Mais que tu, é a loucura
De andar à tua procura
Sem saber por onde ir
É perder-me na ilusão
De encontrar um coração
Que se dê sem mais pedir

Mais que tu, por fim, sou eu
Neste encanto que morreu
Sem aviso nem memória
Apaixonado e errante
Vou ditando a cada instante
Os versos da minha história

O cante de um rouxinol

Leonel Moura / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de Leonel Moura

Ainda não é sol raiado
Já se ouvia num silvado
O cante de um rouxinol
A anunciar novo dia
Cheio de imensa alegria
Esperava a luz do sol

No seu cante a nostalgia
De uma linda melodia
Com todo o seu esplendor
Entoa lindas canções
Que parecem orações
Ou lindos hinos de amor

Nos delírios do seu canto
Toda a magia e encanto
Como um lindo pôr do sol
Com esta voz dolorida
Eu canto as penas da vida
Como canta o rouxinol

Cavador

Glosa de Henrique Rego
Mote de Francisco Radamanto (ou) José Rodrigues?
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado

Cavador, meu camarada
Tu dizes que a pena é leve
Pesa tanto como a enxada
A pena com que se escreve


Anda cá, meu velho amigo
Vem mesmo de enxada ao ombro
Pretendo, com desassombro
Trocar impressões contigo;
Se alguém, por sistema antigo
Te informou de forma errada
Que a pena não produz nada
Nem revigora as ideias;
Dá-lhe desprezo, não creias
Cavador, meu camarada

Como a pena facilmente 
Se maneja com dois dedos
Faz-te lembrar os brinquedos
Duma criança inocente;
Até há muito imprudente 
Que a toda a hora se atreve
A dizer que não se deve;
De à pena prestar-lhe culto
E a secundar esse insulto
Tu dizes que a pena é leve

Quantas lágrimas de fel 
Em louvor de bons intuitos
Caem dos olhos de muitos
Sobre laudas de papel;
Não sejas, então, cruel 
Pensa de forma acertada
Porque a pena manejada
Em favor dos infelizes;
Não é leve, como dizes
Pesa tanto como a enxada

Penas de bons escritores 
Quando p’ró bem se inclinam
São lâmpadas que iluminam
O porvir dos produtores;
O sol, o luar, as flores
A pena tudo descreve
E por muito que se eleve; 
Quem nos campos ganha a vida
Também deve ser erguida
A pena com que se escreve

Tempo

Tiago Torres da Silva / Ivan Cardoso
Repertório de Rodrigo Costa Félix

Há palavras por dizer
Que eu pressinto mas não digo
Não tenho como esquecer
Há palavras a nascer
Sempre que falo contigo

Por cada palavra nova
Que nos teus olhos aprendo
O meu corpo é posto à prova
Porque o tempo se renova
No tempo que vou vivendo

O que dizes, o que eu disse
Foi-nos tornando mais sábios
É como se eu me cumprisse
Nesta nova meninice
Que me ofereces nos teus lábios

As palavras que me dizes
Que eu nunca tinha escutado
Fazem com te eternizes
Nas rugas e cicatrizes
Que eu trazia do passado

Canção de outono

Letra de Cecília Meireles
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível


Perdoa-me, folha seca
Não posso cuidar de ti
Vim para amar neste mundo
E até do amor me perdi

De que serviu tecer flores
Pelas areias do chão
Se havia gente dormindo
Sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la
Choro pelo que não fiz
E pela minha fraqueza
É que sou triste e infeliz

Perdoa-me, folha seca
Meus olhos sem força estão
Velando e rogando aqueles
Que não se levantarão

Tu és folha de outono
Voante pelo jardim
Deixo-te a minha saudade
A melhor parte de mim

E vou por este caminho
Certa de que tudo é vão
Que tudo é menos que o vento
Menos que as folhas do chão

P’ra lá de cada beijo

Tiago Torres Rolo / Valter Rolo
Repertório de Rodrigo Costa Félix


Não, eu não sei falar de mim a ninguém
Não, eu não sei dizer que sim a ninguém
Não, eu não sei amar assim, oh meu amor
Mas sei que o amor só é verdade
Quando o silêncio nos invade
E já não temos vontade
De o dizer seja a quem for

Não, eu não vou falar de ti a ninguém
Não, eu não conto o que sofri a ninguém
Não, eu não vou sair daqui, oh meu amor
Aqui sei que tu só és verdade
Porque o silêncio nos invade
E eu já não tenho vontade
De dizer seja o que for

Sei que p’ra lá de cada beijo
Há um mundo que eu não vejo
Acho que isso é que é amor

Fiz um fado com teu nome

Letra de Jorge Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Fiz um fado com teu nome
Que canto a todas as horas
Para matar essa fome
Feita das tuas demoras

Como o cantar me alimenta
Quando a ausência me consome
P’ra afastar essa tormenta
Fiz um fado com teu nome

Esse teu nome moldado
Com luz de sol e auroras
É todo luz esse fado
Que canto a todas as horas

Se vejo que te não vejo
Canto uma saudade enorme
Para matar o desejo
Para matar essa fome

Minha cantiga de mel
Fado d’horas e desoras
Canção p’ra adoçar o fel
Feito das tuas demoras

O que tenho para ti

Tiago Torres da Silva / Fred Martins
Repertório de Joana Amendoeira com Fred Martins


O que esperas de mim, não me peças
O que pensas de mim, não me digas
Fala-me antes do vento e do mar
A paixão é só uma brisa, vai passar

O que escondes de mim, não me interessa
O que dizes de mim, não me abala
Fala-me antes do vento e do mar
A paixão é só uma brisa, vai passar

E desta vez deixa-me ser eu mesma
Deixa-me ser o que eu quiser
E desta vez não me dês mais do que eu te der

Ah, meu amor
O que te dou a ti é a vida
O que tenho para ti
Vai nesta canção

Acaso sabes tu

Letra de Artur Ribeiro
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado

Acaso sabes tu como te quero
Como conjugo em ti o verbo amar
Que desde que te vi eu não tolero
Nem aceito ninguém no teu lugar

Acaso sabes tu que no meu sonho
Compartilhas da minha vida inteira
E que meu coração anda tristonho
Enquanto não morar à tua beira

Acaso sabes como vão sedentos
Estes meus braços desse corpo teu
Se não sabes de cor os meus intentos
É que andas mais ceguinho do que eu

Três relíquias de fado

Leonel Moura / Joaquim Campos *fado rosita*
Repertório de Leonel Moura


Três fados há neste fado
Que contam o fado antigo
Três relíquias do passado
Que trago sempre comigo

O velho fado menor
Dolente e com emoção
Dos fados é o maior
Que trago no coração

O Mouraria a preceito
Em desgarrada garrida
Mora dentro do meu peito
É parte da minha vida

O corrido bem gingado
Na boca do nosso povo
Tem mais alma é mais fado
Sendo velho é sempre novo

Três fados há neste fado
Que o fado, retratam bem
Três relíquias do passado
E do presente também

Na volta da maré

Tiago Torres da Silva / Fred Martins
Repertório de Joana Amendoeira

O que pode uma voz se não souber uma canção?
O que pode um corpo nu se não tem quem abraçar?
O que pode um coração se o amor já terminou?
O que podem os meus olhos sem os teus?
O que posso eu depois do teu adeus?

O que procuram os homens quando olham para o mar?
O que esperam as mulheres na volta da maré?
O que escondem os seus olhos que já não sabem chorar?
A quem reza quem não acredita em Deus?
O que faço eu depois do teu adeus?

Tudo passou em vão
Tudo chegou ao fim
Voltei a chorar por mim
Deixo ao coração a dor
Deixo ir a leilão o teu amor

O que faço à saudade que ela não me faça a mim?
O que faço da tristeza para não entristecer?
O que faço dos meus passos se já não tenho onde ir?
Em que lábios posso esquecer-me dos teus?
Que me resta a mim depois do teu adeus?
O que faço eu depois do teu adeus?
O que posso eu depois do teu adeus?

Redondilha

Rodrigo Costa Félix / Fontes Rocha *fado isabel*
Repertório de 
Rodrigo Costa Félix

Falta-me tempo p’ra ser
Sobra-me a doce ilusão
Resta-me pouco a fazer
Muito menos de paixão

Falta-me fé p’ra sonhar
Sobra-me pouco prazer
Resta-me um mundo p’ra dar
Muito mais p’ra conhecer

Falta-me força p’ra amar
Sobra-me tudo o que amo
Resta-me a voz p’ra cantar
E saber como me chamo

Falta tanta gente boa
Sobra-me a mala desfeita
Resta-me a cor de Lisboa
E pouco mais me aproveita

Fado bolero da capicua

Vasco Graça Moura / Ricardo Cruz
Repertório de Inês de Vasconcellos


Telefonei-te da rua
32123 urgente
Dizes que te deixe em paz
Azar o da capicua
Que se lê de trás p’rá frente;
Azar o da capicua
Que se lê de trás p’rá frente
E da frente para trás

Moras no beco da lua
101 lado nascente
Mas em casa nunca estás
Má sina a da capicua
Que se lê de trás p’rá frente;
Má sina a da capicua
Que se lê de trás p’rá frente
E da frente para trás

Será dia 11 a tua festa
Festa sem eu estar presente
33 anos farás
Há sempre uma capicua
Que se lê de trás p’rá frente;
Há sempre uma capicua
Que se lê de trás p’rá frente;
E da frente para trás

De 1001 modos flutua
A sonhar-te a minha mente
Nas horas boas e más
Ansiosa capicua
Que se lê de trás p’rá frente;
Ansiosa capicua
Que se lê de trás p’rá frente
E da frente para trás

Mas se o olhar nos desagua
E em meus olhos de repente
O par dos teus se compraz
É bonita a capicua
Que se lê de trás p’rá frente;
É bonita a capicua
Que se lê de trás p’rá frente
E da frente para trás

Eu canto melhor assim

Letra de Artur Ribeiro
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Eu canto melhor assim
Quando este meu fado é reza
Quando a minha reza é fado
E conta coisas de mim
Coisas que tenho a certeza
Nunca teria contado

Nos versos que vou cantando
Às vezes falo verdade
Assim a fingir que minto
E os meus olhos vão chorando
E vou falando à vontade
Desta saudade que sinto

Meus fados tão meus parecem
Que eu ia jurar que são
Roubados à minha dor
Eu sei que alguns acontecem
Mas fico na ilusão
De falar do nosso amor

Qualquer lugar

Tiago Torres da Silva / Fred Martins
Repertório de Joana Amendoeira

Aqui, ali, ou em qualquer lugar
Fingir, sorrir, é mais do que chorar
É ter alguém, é ter por quem perder o chão
Poder falhar e não pensar, pedir perdão

Aqui, ali, ou em qualquer lugar
Saber perder é mais do que ganhar
Perder o pé, perder a fé, perder a voz
Perdi-te a ti, mas não perdi a fé em nós

Gastei os meus sentidos
Na ânsia de encontrar
Vento a favor do nosso amor
À beira mar
Mas dou por ti aqui, ali
Qualquer lugar


Aqui, ali, ou em qualquer lugar
Não ter prazer é mais do que negar
E se eu neguei é porque sei
Que tenho em mim
A sensação que ao dizer não, tu ouves, sim

A sangue frio

Tiago Torres da Silva / Pedro Jóia
Repertório de Rodrigo Costa Félix

Perdi qualquer resquício de decência
Mendigo sem pudor o teu carinho
E porque me aborrece estar sozinho
Namoro a maldição da tua ausência

A vida, por ser curta, quer prudência
E pede que eu regresse ao meu caminho
Mas eu que sei da vida o que adivinho
Só escolho a perversão por inocência

Talvez nas horas tristes de ressaca
Haja um perdão qualquer, quase uma morte
Que me faça esquecer que o meu vazio
Se vira contra mim como uma faca;
Que em ti venho afiando, corte a corte
P’ra me matar a ti a sangue frio

Oiço as queixas que se fazem

Letra de João Ferreira Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado

Almoço em velhas tascas
Bom cozido à portuguesa
O bom bacalhau às lascas
O bom vinho, uma riqueza

Mesa corrida p’ra todos
Que vêm de trabalhar
Que trazem conversa a rodos
No gosto de conversar

Falam alto p’ra que eu oiça
E não resisto a falar
Entre o talher e a loiça
E a travessa a tardar

Oiço as queixas que me fazem
Dói-me o corpo, dói-me a alma
Penso, não têm coragem
Ou então, demais a calma

De onde vens

Flávio Gil / Valter Rolo
Repertório de Inês de Vasconcellos


De onde vens
Que eu não vejo no teu olhar
Os caminhos que ferem o teu andar
Diz-me onde foi que se perdeu essa criança
Que se acendia
No teu olhar cheio de esperança
E o teu cabelo numa trança
Tinha a cor da alegria

De onde vens, onde moras
Que eu já não sei
Onde estás nessas horas
Em que és ninguém
Diz-me onde foi que se perdeu a tua idade
Diz-me onde estás
Que eu vou ficar até ao fim
P’ra encontrar algo de mim
Por onde quer que vás

De onde vens
Quando chegas sem me avisar
E não sabes, não tentas
Não queres ficar
Diz-me onde foi que se perdeu a ilusão
Que era maior que o tempo que agora parou
Que o tempo que ao tempo roubou
O tempo deste amor

Noites de fado em Alfama

Leonel Moura / Alfredo Correeiro *marcha do correeiro*
Repertório de Leonel Moura


Noites de fado em Alfama
E as tascas mais bairristas
Com uma guitarra a trinar
P'las vielas de má fama
Entoam vozes fadistas
Que á noite lá vão cantar

Esse bairro popular
E de velha tradição
Beber e cantar o fado
Onde tudo faz lembrar
Os tempos que já lá vão
E os fadistas do passado

Bairro de fado castiço
Numa taberna velhinha
Ou numa tasca bizarra
Canta-se o fado e por isso
Esta Lisboa alfacinha
Acorda ao som da guitarra

Vasos de flores nas janelas
Um Santo António de barro
Numa varanda enfeitada
E as baiucas nas vielas
Com vinho servido em jarro
E fado até madrugada

Noites de fado em Alfama
Que nos lembram tantas vezes
Como o fado era tratado
Disse um poeta de fama
Enquanto houver portugueses
Não deixam morrer o fado

Foram noites

Letra de Manuel de Andrade
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado

Foram noites, foram dias
Doces luas, sóis radiantes
E das frases que me ouvias
Oiço ainda ecos distantes

Foram noites, foram mundos
Foram noites, noites loucas
E entre segredos profundos
Uniram-se as nossas bocas

Foram noites, foram luas
Foram dias, sol e mar
E eu trago palavras tuas
Caladas no meu olhar

Tudo te dei

José Guimarães / Marcírio Ferreira
Repertório de Valdemar Vigário


Um dia que se vai outro que vem
E eu não sei a razão porque demoras
A quem com ansiedade espera alguém
Os minutos são longos como as horas

Espero sempre o dia de amanhã
E o amanhã vem sempre e tu não vens
De mim, dentro de mim, já nada há
Pois tudo o que era meu és tu amor que tens

Tudo te dei
E nada quis receber
Hoje nem sei
O que ganhei em te querer
Passam as horas
Eu continuo a esperar
Que não sei porque demoras
E tardas tanto em voltar

Os dias vão passando lentamente
E eu nasci prá saudade e para ti
Toda a minha ventura no presente
É lembrar o passado em que vivi

Posso tentar fazer seja o que for
Que esta afeição por ti nunca mais finda
Eu queria sentir ódio em vez de amor
Mas cada vez te quero, te quero mais ainda

Cigana calé

Carlos Conde / Raúl Silva *fado valejo*
Repertório de Manuel Cardoso de Menezes


Naquele antigo café
Que ficava mesmo ao lado
Da estalagem dos Camilos
Uma cigana calé
Era a raínha do fado
E criadora de estilos

Porque era volúvel, incerta
Essa cigana fadista
Não tinha questões d’amor
Mas havia rixa aberta
Entre o Zé Contrabandista
E o João Alquilador

O primeiro era atrevido
Provocador e brigão
Mas sabia muito bem
Que o segundo era temido
Da rua do Capelão
Ao poço do Borratém

Certa noite turbulenta
Em que a cigana cantava
Ao piano do café
Uma desordem sangrenta
Na rua escura se dava
Entre o João mais o Zé

Nunca mais se ouviram motes
Ambos foram degredados
Voltaram, mas sem ralé
São aqueles dois velhotes
Que esmolam ambos sentados
Nos degraus frios da Sé

Zé vigarista

Domingos Gonçalves da Costa / Joaquim Pimentel
Repertório de Joaquim Cordeiro


O Zé Vigarista
Esperto e grande artista
Larápio dos bons
A um pobre saloio
Vendeu um comboio
Com 30 “vagons”

Quis vender a ponte
A um trouxa, defronte
Que só a não quis
Porque era pesada
E a ponte coitada
Escapou por um triz

Ó Zé vigarista
Mas que linda história
Deixaste gravada
Na nossa memória
Ó Zé vigarista
Se a morte não vem
Buscar-te em má hora
Não havia agora
Torre de Belém


Com tanta mestria
Suas mãos metia
Em tanta algibeira
Que o Zé se passava
A gente apertava
Com força, a carteira

À hora da morte
Chamou a consorte
Pediu-lhe perdão
Abraçou-se à querida
E por despedida
Roubou-lhe o cordão

Filho da escola

Carlos Conde / Alfredo Duarte *fado louco*
Repertório de Alfredo Duarte Júnior


Andei na escola do fado
Tirei o curso de artista
Sou artista diplomado
P’la grande escola fadista


Tive mestres muito bons
Um até bem consagrado
Decorei rimas e tons
Andei na escola do fado

Nos motes ao desafio
Aprendi a fazer vista
Andei no fado vadio
Tirei o curso de artista

De "fait fais" em gingão
Fiz exames, sou formado
Até no falar calão
Sou artista diplomado

Não é só no bem cantar
Que o bom nome se conquista
O que é preciso é passar
P’la grande escola fadista

Vou amar-te até ao fim

Letra e música de Fernando Girão
Repertório de Joana Amendoeira


Eu abro a minha janela
E respiro o ar da madrugada
E sinto a cidade parada, sem fulgor
No sono dos adormecidos
Assim ao estar mais sozinha
Tento inventar mais um pedaço de caminho
Só os meus anjos e eu

Viajo no meu quarto a tais distãncias
Que a mente não consegue calcular
Eu quero viajar
E ser a terra e o mar… em mim
Contigo ao meu lado eu sou o mundo
Ajuda-me que eu quero ajudar
Eu sei que vou te amar
Eu sei que vou te amar… até ao fim

Fado de aquém e além mar

Manuel Alegre / Popular *fado corrido*
Repertório de João Braga


De todo o lado e nenhum
De todo o mundo e ninguém
Somos vários e só um
Fado d’aquém e de além

Já fomos antes, da Europa
Europa por sobre o mar
Nosso fado é vento à popa
Nosso verbo, o verbo amar

O vento canta o seu cântico
Vem com recados na voz
Onde sabe a sal e Atlântico
Esse país somos nós

Amor sem mas nem talvez
Que não tem cor nem tem raça
É este amor português
Que fica por onde passa

O fado conheço eu

Letra de Jorge Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


O fado conheço eu bem
Há muito que anda a meu lado
Sei as virtudes que tem
E as faltas de que é culpado

Por ter nascido infeliz
Os infelizes entende
E porque a sorte o não quis
A má sorte compreende

Se perde as noites e passa
As noites como um vadio
É p’ra aquecer a desgraça
A quem o frio é mais frio

Faz saudades, faz chorar
Cria nas almas tormenta
Mas acaba por matar
As saudades que alimenta

Sei as virtudes que tem
E as faltas de que é culpado
Que o fado conheço eu bem
Há muito que anda a meu lado

Há pouco vi-te na rua

Letra de Artur Ribeiro
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Há pouco vi-te na rua
Ias tu com a mulher
Que no teu braço se enleia
E se isto assim continua
Eu tenho que agradecer
A quem contigo passeia

Passaram de mim tão perto
Tão perto que de certeza
Tu sentiste o meu perfume
Eu estremeci é certo
Mas foi mais pela surpresa
De já não sentir ciúme

Há pouco vi-te e confesso
Que senti nos olhos pranto
E uma raiva medonha
Trocei de mim pois mereço
E por ter-te amado tanto
Eu chorei mas de vergonha

Um congresso de gatos

Letra e música de Mário Marques
Repertório de António dos Santos

Tudo traz o progresso
Nestes tempos debulatos
Hoje houve um congresso
Um congresso de gatos;
Muitos, brancos e pretos
Muitos, quase mulatos

A razão do congresso é andarem irritados
Por causa das antenas que há agora p’los telhados
As gatas, assustadas, deixaram de aparecer
E os gatos, coitadinhos, passam a noite a sofrer

Não bastava o carapau
Custar já um dinheirão
Agora renhau, nhau, nhau
Veio inda a televisão

Ora oiçam então
O discurso fluente
Que lhe fez o presidente
Logo ao abrir a sessão

A nossa vida agora, é tristonha, mete dó
Nenhum gato ao nascer, quer nascer p’ra viver só
Se fossem proibir também os homens de amar
Teríamos que ouvir muitos homens 
Refilar, também, podem crer
Nos telhados a miar

No reino das formigas

João-Gigante Ferreira / Tino Flores
Repertório de Helena Sarmento


Na largura da planície
A formiga não duvida
Da certeza do carreiro
Não pergunta quem lhe disse;
Da certeza dessa vida
Dos perfumes um só cheiro

A compasso recrutada
Passo a passo sem saber
Para além do formigueiro
Passo a passo leva nada;
Leva tudo sem querer
Dos perfumes um só cheiro

Leva a arma apontada
Da cabeça não precisa
Basta a ordem do primeiro
Leva a morte preparada;
E na vida não precisa
Dos perfumes um só cheiro

Diz que sempre foi assim
Que não tem tempo a perder
Toma a parte por inteiro
De joelhos chega ao fim;
Perde a vida sem saber
Dos perfumes um só cheiro

Horas boas, horas más

Letra de Jorge Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Das horas boas da vida
A melhor, estou convencida
Que me pôde acontecer
Foi essa hora bendita
Em que te vi, acredita
Na minha vida aparecer

Benditas foram depois
As horas em que nós dois
Lado a lado caminhámos
Como benditas soaram
Horas boas que marcaram
Os carinhos que trocámos

Mas tudo o que é bom definha
No meu céu, já se adivinha
Da tempestade o fragor
É que em breve partirás
E um rosário d’horas más
Desfiará este amor

E quando amanhã, meu Deus
A má hora do adeus
Marcar a tua partida
Será, meu amor, será
D’entre tanta hora má
A pior da minha vida

Moirama

Frederico de Brito / M.A. Félix
Repertório de Fernanda Peres


Moirama bairro que o tempo atraiçoa
Cansado do embalar numa esperança
Má fama que se estendeu por Lisboa
Num fado que eu aprendi em criança

Que mal fará 
A minha pobre Moirama
Que é irmã gêmea de Alfama
Bairro tal como não há
Será talvez
Por já ter sido agarena
Mas arrasá-la faz pena
Eu não sei que mal fará


Agora são mais estreitas as ruas
Parece que até confrange humildade
Embora numa viela das tuas
Nascesse da nossa eterna saudade

Desencontro

Luís Vaz de Camões / Popular *fado corrido*
Repertório de Lina


Reinando amor em dois peitos
Tece tantas falsidades
Raiando amor em dois peitos
Tece tantas falsidades;
Que de conformes vontades
Faz desconformes efeitos

Igualmente vive em nós
Mas por desconcerto seu
Vos leva, se venho eu
Me leva, se vindes vós

Qual terá culpa de nós
Neste mal que todo é meu
Qual terá culpa de nós
Este mal que todo é meu;
Quando vindes, não vou eu
Quando vou, não vindes vós

Longe da pátria

António Vilar da Costa / Armandinho
Repertório de Fernanda Farinha


Se queres saber a dor pungente
Que um peito encerra
E o que é sofrer um dia ausente
Da tua terra
Sai barra fora, porque uma vez
No alto mar
E nessa hora, se és português
Tens de chorar
Saindo a barra

Uma guitarra 
No seu trinar fagueiro
E a voz de um marinheiro
Numa canção bizarra
É Portugal
Com a sua meiga voz
Sentimos a palpitar
Saudades dentro de nós


O português, triste suspira
E ninguém fala
Só no convés à voz da lira
O peito embala
Tudo emudece ao recordar
A pátria mãe
E até parece que o próprio mar
Chora também

Sou do fado cantador

Leonel Moura Casimiro Ramos *fado três bairros
Repertório de Leonel Moura


Há mais um fado no fado
Na história que eu vou contar
Desde os tempos de menino
P'ra cantar em todo o lado
Ando na vida a cantar
Deus Traçou-me este destino

Cantei fado nas tabernas
Dei novos fados ao mundo
Sem receber nenhum prémio
Cantei cantigas modernas
De sentimento profundo
No fado fui um boémio

Levei o fado ao estrangeiro
P'ra mostrar a outras gentes
Esta canção sem igual
Percorri o mundo inteiro
Cantei em sítios diferentes
A canção de Portugal.

Sou do fado cantador
Desde a tenra meninice
Tive o destino marcado
Canto o fado e sou autor
Não mentia quando disse
Que há mais um fado no fado

Contradição

Letra e música de Mário Junqueiro
Repertório de Estela Alves


A tua alma é vazia
De sentimento leal
Só está bem quando faz mal
Vê lá tu, a ironia
Tens a doçura do mel
Andas perto e ‘stás distante
O teu coração amante
Não tem sangue só tem fel

Por mais que queiras fingir
Uma afeição que não sentes
Não consegues iludir
Quanto mais juras mais mentes
Dizer que gostas de mim
É pura contradição
Pois quando afirmas que sim
Teu olhar sem fim
Está dizendo não


Se pretendes enganar
Mostrando ciúmes loucos
Acredita são bem poucos
Os beijos que te vou dar
Quero quebrar a magia
Dos carinhos que me dás
Porque vejo por detrás
Apenas hipocrisia

Manifestação

Manuel Fria / Alfredo Duarte *Marceneiro*
Repertório de Manuel Fria

Nuvens baixas, altas vozes
Juventude se debate
Na praça da Liberdade
Suas bandeiras levantam
E o riso duma criança
Lutando pela igualdade

Liberdade para os gestos
Porque os caminhos são longos
E os mares não têm fim
Unidos na mesma forma
Venceremos a batalha
Tão difícil e ruim

Somos a voz da razão
De pés assentes no chão
Que renegam injustiça
Pedindo, a quem de direito
Que haja ordem e respeito
Pão, sorrisos e justiça

Dentro da tempestade

Tiago Bettencourt / José Marques do Amaral
Repertörio de Ana Moura


Fico presa na tempestade
Onde não durmo comigo
Há restos de verdade
A que a dor tirou sentido

Caída entre os espaços
Do meu corpo destruído
Já não há restos de verdade
E a dor perdeu sentido

Deixei armas dos meus braços
Larguei roupas que vesti
Deixei ruas onde as pedras
Tatuaram os meus passos

No mar de mãos turvas
Nadavas transparente
Encontramo-nos num gesto
Inteiro e indiferente

Choramos como quem nasce
Escorrendo a saudade
Vens no sol de madrugada
Como a mão na tempestade

Aquela mesa vazia

Letra de Artur Ribeiro
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível

Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Quando canto e não te vejo
Minh’ alma fica sombria
Porque não estás presente
E tanto ali te revejo
Que a mesa fica vazia
Mesmo cheia doutra gente

E passo a sentir-me perto
Bem perto dos olhos teus
Naquela mesa a beber
Tentando saber ao certo
Se vês o que vai nos meus
Ou disso não queres saber

E como a mesa vazia
Não me sabe responder
Eu espero amargurado
Que tu venhas cá num dia
Em que eu te possa dizer
O que sinto neste fado

Preciso aprender a ser só

Paulo Sérgio Valle / Marcos Valle
Reprtório de Pedro Moutinho


Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor, eu não posso viver
Que sem nós dois, o que resta sou eu
Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só
Poder dormir, sem sentir teu calor
A ver que foi só um sonho e passou

O amor
Quando é demais ao findar leva a paz
Me entreguei, sem pensar
Que a saudade existe e se vem é tão triste

Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus
Por Deus, entende que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor

Noite bem castiça

Letra de Manuel de Andrade
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível

Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Numa tasca esfumarada
Entre mulheres, guitarrada
Foi o desfecho final
Duma noite bem castiça
Em que um grupo bem fadista
Fez uma noitada real

Tinham vindo da Azervada
Onde houvera guitarrada
Mesmo na noite anterior
Em Santa Isabel ouviram
Fadistas que se exibiram
Numa festa de primor

Depois bateram tipóias
P’rós recantos mais rambóias
Dessa Lisboa bairrista
Aí, beberam, cantaram
Discutiram, desgarraram
Numa noitada fadista

Houve até cenas canalhas
De bofetada e navalhas
Com rufias servidores
Os Andrades, os Vasconcellos
Os Maltas e mais os Bellos
São fadistas, meus senhores

Fado para dois

César de Oliveira / Rogério Bracinha / João Vasconcelos
Repertório de Tony de Matos


Deito-me à noite num xaile
Escondi-me nele, também
Andam as sombras num baile
Onde não dança ninguém

E no teu quarto fechado
Pecado sem pecador
Colhi um resto de fado
Que me parecia uma flor

Um fado p’ra dois
P’ra mim e p’ra ti, começa
No dia perdido que à noite regressa
Sabemos os dois
Que o fado depois não vai durar
Melhor é fingir
Deixá-lo partir sem o cantar
Um fado para dois
Poeira do meu caminho
Sem mim e sem ti
Que fique pr’áli sozinho


Mordem a pele dos teus braços
Meus olhos negros, sombrios
As aves sabem dos espaços
Os barcos sabem dos rios

Onde os meus olhos não moram
Sei que há estrelas a luzir
Sóis que os outros olhos devoram
Numa emoção de existir

Derrota

Pedro Homem de Mello / João Paulo Esteves da Silva
Repertório de Ricardo Ribeiro


Na face do seu rosto adolescente
Há uma flor que morre e dá perfume
E a minha voz acorda, de repente
Para abafar, talvez, esse queixume

E a minha voz inventa uma canção
À qual, desesperado, me confio
Pressinto a insónia, o pesadelo e o frio
Das pálpebras, batidas sempre em vão

A palidez inspira-me o desejo
De erguer ainda aqueles dedos lassos
Que longe, longe, muito longe vejo

Mas eis que chegam pérfidos cansaços;
Boca pisada, à míngua do meu beijo
Inerme peito, à míngua dos meus abraços

Sal e mel

Manuel Justino Ferreira / Jaime Santos *fado alfacinha*
Repertório de Margarida Guerreiro

Na praia do teu olhar
Em ondas de sal e mel
Por ti amor fiz-me ao mar
No meu barco de papel

Nas águas das sete luas
O meu barco naufragou
Procuro por notícias tuas
Porém ninguém te encontrou

Cada vez ‘stá mais distante
O navio onde embarcaste
Mas ‘stá mais perto e constante
A dor em que me deixaste

Pescador ou marinheiro
Que no teu rumo aparecem
Procuro o teu paradeiro
Respondem, não te conhecem

Ao regressar, afinal
Na maré de uma quimera
Sentado no areal
Estavas tu à minha espera

De volta pró aconchego

Dominguinhos / Nando Cordel
Repertörio de Nuno da Câmara Pereira


Estou de volta pró meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo um sorriso sincero, um abraço
Para aliviar meu cansaço
E toda esta minha vontade

Que bom, poder ‘star contigo de novo
Roçando teu corpo e beijando-te a ti
P’ra mim tu és a estrela mais linda
Teus olhos me prendem, fascinam
A paz que eu gosto de ter

É duro, ficar sem ti de vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Alegro-me na hora de regressar
Parece que vou mergulhar
Na felicidade sem fim

Meu álbum de saudades

Leonel Moura / Armando Machado *fado maria rita*
Repertório de Leonel Moura


Fui reviver o passado
Que tinha tão bem guardado
Num álbum de estimação
Álbum das minhas lembranças
Cheio de tantas esperanças
Que trago no coração

Regressei à juventude
Quando tudo nos ilude
Tudo parece risonho
E o mundo não tem escolhos
Nem desgostos nem abrolhos
E o mundo parece um sonho

O meu álbum já velhinho
Cheio de tanto carinho
De sentimento e valor
Conta os momentos da vida
Como outrora foi vivida
E as loucuras do amor

É quando a saudade chega
Que a gente mais se apega
Ao passado de ilusões
O meu álbum de saudades
Encerra tantas verdades
E tantas recordações

Nova Mariquinhas

Letra de Jorge Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


A Mariquinhas foi tola
Deixou a vida que tinha
A sorte deu-lhe por esmola
Um treze no Totobola
E julgou-se uma rainha

Deu largas ao pensamento
Deu largas ao seu dinheiro
Toda cheia de espavento
Comprou um apartamento
P’rós lados do Areeiro

Saiu da Rua da Rosa
Esqueceu-se do Bairro Alto
E da casinha famosa
Já velhinha e carunchosa
Decidida deu o salto

Agora nada em riqueza
Tem tudo o que de bom há
Vive à grande e à francesa
Boa cama, boa mesa
Trocou o tinto por chá

De fadistices agora
Nem falar, que mau seria
Pois no sítio aonde mora
A Mariquinhas d’outrora
É hoje a D. Maria

Mariquinhas, Mariquinhas
Erraste, estás convencida
Deixaste a vida que tinhas
E as saudades que adivinhas
Hão-de amortalhar-te em vida

Deixa que dê uma flor

Paulo Abreu Lima / António Neto
Repertório de Carla Pires


Deixa que dê uma flor
Antes que a noite se acabe
Deste fogo que nos arde
Enquanto dure a paixão
Nunca me digas que não
Mesmo que seja verdade

Oh! meu relógio sem tempo
Mais infinito que Deus
Enquanto dure a paixão
Nunca me digas adeus
Oh! meu relógio sem tempo
No tempo dos olhos meus

Deixa que dê uma flor
Deste beber gota a gota
Passo a passo, boca a boca
Enquanto dure a paixão
Oh! muro branco gravado
Nas memórias do meu fado

O espelho

Letra de Artur Soares Pereira
Desconheço se esta letra foi gravida
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Num caixote, um espelho já quebrado
Com um montão de lixo se encontrou
E um tanto confundido e perturbado
A sua triste história assim contou:

Eu vivia na montra de um bazar
Aonde vi entrar, em certo dia
Um jovem que me comprou p’ra me dar
À noiva, porque ela anos fazia

Durante muitos anos, hora a hora
Em mim essa senhora se mirou
E por se ver tão bela e sedutora
Dizia-me: que achas? que tal estou?

Até que certo dia lhe mostrei
As rugas e o cabelo cor de neve
Grande desilusão então lhe dei
E ela atirou-me ao chão, não se conteve

Eis como vim a ser teu companheiro
Enfim, tudo acabou, tudo morreu
Quem na vida é sincero e verdadeiro
Tem, quase sempre, um fim igual ao meu

Saramago

Letra e música de João Vasconcellos e Sá
Repertório de António Pinto Basto c/ Paula Varela Cid


Olha amor toma lá este raminho
É do monte, é do monte e cheira bem
Quem lá for e não traga um bocadinho
Ai não tem, não tem amor a ninguém

Vai crescendo o saramago
Embaraçado no trigo
Eu queria ser saramago
Para abraçar-me contigo

Mesmo assim de brincadeira
Tua sorte era infeliz
Minha mãe é mondadeira
Punha-te ao sol a raiz

Amanhas com todo o jeito
As terras do malhadio
Só este amor no meu peito
Deixas ficar em bravio

Quem no teu peito semeia
Tem que colher com certeza
Só três sementes e meia
Nem sequer paga a despesa

Já por ti não dou um passo
Atrás de ti já não vou
Antes seguir o retraço
Por onde a vara passou

Meu amor tem bom amanho
Tudo arranjado à sua escolha
Tem polvilhal no rebanho
E uma seara na folha

Tem pezunho o polvilhal
E a seara vai ruim
Minha riqueza afinal
Está mesmo em frente de mim

Telhados de Lisboa

Frederico de Brito / Mário Silva
Repertório de Hermínia Silva


São modestos os telhados
Que nasceram para chorar
Ermitões ajoelhados
De mãos postas, a rezar

Um telhado de Lisboa
Mancha rubra que ao sol brilha
Faz lembrar uma canoa
Que tombou, virando a quilha

Telhados vermelhos
Que a lua embeleza
Livros de evangelhos
Onde a chuva reza
Onde o fumo em turbilhões
Vai subindo a tal altura
Que às vezes lembra vulcões
Em miniatura


O telhado duma casa
É visto com tal carinho
Como se fosse uma asa
Estendida sobre o ninho

Os telhados são terreiros
Onde a neve vem poisar
Onde passam nevoeiros
E onde o vento anda a bailar

Sardinheiras

Linhares Barbosa / Fernando Freitas
Repertório de Amália


Um dia ele seguiu-me
Até à rua onde eu morava
Cumprimentou-me, fugiu-me
E ao outro dia lá estava

Atirei-lhe da trapeira
Da minha água furtada
Uma rubra sardinheira
Que se tornou mais corada

Depois nunca mais o vi
Nem do seu olhar a chama
Passou tempo e descobri
Que ele morava na Alfama

Uma noite sem pensar
Púz o meu xaile, o meu lenço
E fui atrás desse olhar
Que deixara o meu suspenso

Hoje moro onde ele mora
Hoje durmo onde ele dorme
E há sol por dentro e por fora
Da minha alegria enorme

Grândola povo hospitaleiro

Leonel Moura / José António Silva *fado bacalhau*
Repertório de Leonel Moura


Nasci na vila morena
Terra de gente serena
E disso tenho vaidade
Esse povo hospitaleiro
No trabalho é o primeiro
E símbolo da liberdade

Tem a praça das palmeiras
O jardim das laranjeiras
E um coreto velhinho
Nos montados e ladeiras
A sombra das azinheiras
E um cheiro a rosmaninho

Há uma ermida velhinha
E um pôr de sol à tardinha
No alto cimo da serra
E os seus jardins verdejantes
E as suas praias distantes
Orgulho da nossa terra

Há muito que te não vejo
Princesa do Alentejo
E da minha mocidade
Grândola vila morena
Teu povo é quem mais ordena
Terra da minha saudade

Canções do vento que passa

Letra de Jorge Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível

Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Canções do vento que passa
Ecos da minha desgraça
Gritos da minha tortura
Lamentos do meu destino
Que teima em fazer um hino
Da angústia que me procura

Madrugada d’horas frias
Despertar de mãos vazias
Minha alvorada indiferente
E estas loucas teimosias
De ter na voz fantasias
De cigarra inconsciente

Canto fingindo que trago
Dentro de mim o afago
De quente felicidade
Mas este vento que passa
Grita canções de desgraça
Que são a minha verdade

Para quê falarmos de amor

Tiago Correia / Pedro Rodrigues
Repertório de Tiago 
Correia

P’ra quê falarmos de amor
O amor é coisa louca
Se é amor também é dor
E dói por coisa tão pouca

O amor é um menino
Que anda a brincar com o tempo
Escreve na mão o destino
Mas foge num contratempo

Procura sempre iludir
Nos sonhos que não se alcança
Fantasias por cumprir
Que com o tempo se cansa

Por isso pouco nos vale
Falarmos do velho amor
A resposta é sempre igual
Se é amor também é dor

O fado nasceu do povo

Leonel Moura / Daniel Gouveia *fado net*
Repertório de Leonel Moura


O fado nasceu do povo
E ainda novo, naquela era
Foi viver p'ra Mouraria
Co’a fidalguia e a Severa
Depois foi pela cidade
Da sua idade não quis saber
Andou por esta Lisboa
E a Madragoa também quis ver

Foi às esperas de gado
Melena ao lado por companheira
O fado andou com a ralé
E do Sodré foi à Ribeira
Assaltou o Bairro Alto
Depois num salto foi ao Rossio
Foi morar na velha Alfama
Onde tem fama de ser vadio

Também andou pelas hortas
Em horas mortas nas desgarradas
E no Cruzeiro do Adro
Havia fado e guitarradas
Foi ao cimo do Castelo
Onde é tão belo ver as colinas
Depois ceou bacalhau

Foi ao cacau com as varinas
Foi afamado e gingão
Falou calão co’as gentes rascas
Foi chamado de castiço
Talvez por isso entrou nas tascas
Foi ao Paço da Rainha
Como convinha, por ser artista
O fado andou na ramboia
E de tipoia foi à Revista

Ainda foi ao estrangeiro
P’lo mundo inteiro de lés a lés
Andou fora nas conquistas
P’ra dar nas vistas foi nas galés
Foi ao cais p’ra ver o Tejo
Mandou-lhe um beijo cheio de altivez
Esse boémio afamado
O nosso fado é português

Morreu o tempo de farra

Letra de Manuel de Andrade
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Não chores mais cantador
O tempo que já passou
Para quê lembrar com dor
Esse sonho que acabou?

Teu cravo ao peito murchou
Tua voz enrouqueceu
O tempo que já passou
Não o chores, que morreu

As toiradas estivais
Cheias de brilho e de cor
Morreram, não voltam mais
Não chores mais cantador

Enferrujaram de tédio
As cordas dessa guitarra
P’ra morte não há remédio
Morreu o tempo de farra

O pastel de nata

Leonel Moura / José Duarte *fado seixal*
Repertório de Leonel Moura


Vai à mesa do freguês
Servido em salva de prata
Esse vaidoso burguês
É nobre, é português
O belo pastel de nata

Bem cremoso e tostadinho
O rei da pastelaria
Amigo do cafezinho
É melhor ainda quentinho
Quando nasce um novo dia

É servido com canela
Ou servido ao natural
É de aparência singela
Esta iguaria tão bela
No mundo não há igual

É famoso no estrangeiro
E tanta vaidade tem
Dos pastéis é o primeiro
E o povo do mundo inteiro
Vai aos pastéis de Belém

Com a bica ou o galão
Ou outra qualquer bebida
P’ra manter a tradição
Pastel de nata na mão
E o povo lá vai à vida

Tempos do meu tempo

António Rocha / Popular *fado menor*
Repertório de Tiago Correia


Alguns fados que vos canto
Terão pedaços de mim
Podem ser riso ou ser pranto
O meu fado é mesmo assim

Palavras minhas ou não
Histórias reais ou não tanto
Se as canto com emoção
É porque sinto o que canto

Sou mais eu, sou mais verdade
Sempre que ao fado me dou
Por sentir a realidade
Da realidade que sou

Sou a alma doutro tempo / tempo antigo
Renascido noutra alma / tempo novo
Serei hoje como sempre / tempo amigo
E cantarei para a vida / tempo povo

Saudade e eu

Letra e música de Cuca Roseta
Repertório da autora


Sabem que a saudade e eu
Conhecemo-nos um dia
Foi porque ela apareceu
A paixão, essa avaria

Primeiro abracei-me a ela
E chorámos lado a lado
Foi também nos braços dela
Que falei do meu amado

Não sei quem tem mais saudade
Se a saudade se sou eu
Saudade tem as saudades
Da metade que me deu


Foi aí que aconteceu
O que eu jamais esperava
Que a saudade amanheceu
De amores por quem eu estava

Lisboa ao nascer do sol

Letra de Artur Soares Pereira
Desconheço se esta letra foi gravida
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível

Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Eu ainda estou p’ra saber
Como fui parar um dia
Ali, ao Cais da Matinha
Foi pelo amanhecer
E pouca gente se via
Nessa zona ribeirinha

Dei por mim a admirar
Como é lindo o nosso Tejo
Visto assim, p’la madrugada
Senti ganas de cantar
Já não contive o desejo
Já não pensei em mais nada

E, quando cheguei ao fim
Senti a felicidade
De quem diz uma oração
Olhei, vi junto de mim
Um pescador já de idade
Com uma guitarra na mão

Disse-me assim: meu amigo
Ouvi-te com muito agrado
Vejo que adoras Lisboa
Vou-te pedir: vem comigo
Quero-te acompanhar num fado
Dentro da minha canoa

Descendo o Tejo lendário
Cantei até ao Bugio
Depois lá, junto ao farol
Vi o mais belo cenário
Que o meu olhar jamais viu
Lisboa, ao nascer do sol

Saudade, canta comigo

Aníbal Nazaré / Francisco Carvalhinho
Repertório de Fernanda Maria


Saudade, canta comigo
Que eu não sei cantar sozinha
E quero aprender contigo
Que és minha amiga e vizinha

Minhas mágoas não têm fim
Por ter a esp’rança já morta
Vives tão perto de mim
Podes vir bater-me à porta

Saudade por favor
Nunca te vás embora
Fala do meu amor
Que eu nem sei onde mora;
Diz-me por onde ele anda
Se outro amor o prendeu
Diz-lhe com voz doce e branda
Que volte, porque o seu amor sou eu


Saudade canta comigo
Quero chorar à vontade
E sentir bem o castigo
De uma pungente saudade

Saudade da vida louca
Em que eu tinha uma afeição
Uma cantiga na boca
E um amor no coração

Um espaço e duas laranjeiras

Nuno Moura / João Paulo Esteves da Silva
Repertório de Ricardo Ribeiro


Um espaço e duas laranjeiras
Porque estava louco
Cortei uns meses para a frente
E matei-me ontem entre as mimosas
Antes de virem regar o jardim

Andaram da terra dois braços depressa
Que me espetaram na cavalita do seu rosto

Com o tronco de fora
Dominei o míssil de horta toda
Foi a minha melhor cava de sempre

O fado e elas

Letra de Jorge Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Viola
Meu fadinho mariola 
Tenho de chamar-te à barra
Fazes-me andar à viola 
Por causa dessa guitarra

Fado
Viola, porque te amuas 
Despeitada sem razão
Eu sou amigo das duas
Por ambas tenho afeição

Guitarra
Lembrando o nosso passado 
Recordando a Mouraria
Eu, guitarra, é que a teu lado
Devo ter a primazia

Viola
Não vejo donde te vem
Desse direito a conquista
O meu passado também
Foi na Moirama fadista

Fado
Se essa tonta discussão 
Continua entre vocês
Deixo de ser fado e então
Acaba tudo de vez

Guitarra
Viola, pensa um bocado 
Que eu pensar também procuro
Sem o fado a nosso lado
Que há-de ser nosso futuro?

Viola
Aceita a minha desculpa 
Concede-me o teu perdão
Não quero, por minha culpa 
Que o fado se acabe, não

Saudade me engana

Letra e música de Fernando Araújo
Repertório de Ana Maria Dias


Eu canto por amor
Canto as memórias e a dor
Nas noites em que o céu vai mais alto
Nos teus olhos estou junto a ti

Eu canto...
Porque a vida me manda
Eu canto...
Porque a saudade me engana
Eu canto... 
Porque a vida me manda
Eu canto... 
Porque a saudade me engana

Os sonhos que sonhámos juntos
Dois mundos que o destino traçou
O Fado que a vida me canta
Tem teu nome, tua voz também

Além de nós

Letra de Artur Ribeiro
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Quando em cada madrugada
Um novo sonho desponta
Depois de ficarmos sós
Além de nós não há nada
Como é que vamos dar conta
Do que vai além de nós

Além de nós só existe
Algo que possa aumentar
Este nosso amor profundo
Quem não gosta de ser triste
O melhor é não pensar
No que vai por esse mundo

Deus juntou as nossas vidas
E as nossas cabeças loucas
Só ouvem a nossa voz
Assim do mundo perdidas
Como vão as nossas bocas
Segredar além de nós

Rapsódia do fado antigo

Carlos Conde / Direitos musicais reservados
Repertorio de Adelina Ramos


FADO CORRIDO / POPULAR
Primeira cantiga ao fado
Não me foge do sentido
Cantei-a com certo agrado
No velho Fado Corrido

FADO LOPES de JOSÉ LOPES
No Fado Lopes depois
Novos versos estudei
Então foram estes dois
Os fados que mais cantei

FADO MOURARIA / POPULAR

E sem nunca me deixar
Seduzir p’la fantasia
Senti-me bem a cantar
O fado da Mouraria

FADO DOIS TONS de ALBERTO COSTA

Todos os fados são bons
Porque então, já cantadeira
Pus-me a cantar o Dois Tons
Sem lhe dar nova maneira

FADO MEIA NOITE de FILIPE PINTO
Este passado vai perto
E quem, em lembrá-lo, se afoite
Pode reviver, decerto

O Fado da Meia-Noite


FADO FRANKLIM de FRANKLIM GODINHO
Cantando a cada momento
Fui mais longe e tanto assim
Que tive este encantamento
No velho Fado Franklim

FADO MENOR / POPULAR
Amo os fados na verdade
Todos canto com amor
Mas nenhum mata a saudade
Do nosso Fado Menor

ALEXANDRINO ANTIGO de ARMANDINHO

Recordar é viver, diz o velho ditado
Não há nada que assente em mais firme razão
Embora a profissão ilustre mais o fado
Não nos faz esquecer os tempos que lá vão

Outros tempos

Letra de Artur Soares Pereira
Desconheço se esta letra foi gravida
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Ai quem me dera viver
Aquilo que oiço cantar
Dos tempos que já lá vão
Uma tipóia a correr
Uma guitarra a trinar
Pronta a entrar na função

Nela vão vários fadistas
Fadistas dos verdadeiros
Que ao Fado dão mais beleza
São fidalgos, são artistas
São rameiras, são toureiros
Gente do povo e nobreza

Vão cantar fora de portas
Irradiando alegria
Pelas esperas de gado
Cantam no campo, nas hortas
Nos becos da Mouraria
O puro e castiço fado

Na mais sã camaradagem
Sem preconceito ou vaidade
Num “seja o que Deus quiser”
Essa antiga fadistagem
Não tinha rivalidade
Cantava só por prazer

Esses tempos de rambóia
Tão belos, tão fascinantes
Vivê-los, ó quem me dera
Eu queria andar de tipóia
Tal como em eras distantes
Andou Maria Severa

Quadras de amor errante

Aldina Duarte / José Marques do Amaral
Repertório de Aldina Duarte


Queria ser a tua estrela
E a amarra na outra margem
Levar-te à praia mais bela
E ser o fim da viagem

Nas histórias que me contas
Do alto da tua voz
As estrelas só têm pontas
E os laços nunca dão nós

Queria ser o teu caminho
E a casa quando chegasses
Tecer os lençóis de linho
Da cama em que te deitasses

Mas faltou-me um golpe d’asa
Para voar no teu céu
O nome da tua casa
Ainda ninguém o escreveu

Meu fado vadio

Leonel Moura / Túlio Pereira *fado túlio*
Repertório de Leonel Moura


Andam p’ra aí a dizer
Que o fado é canção bizarra
Que não sabe o que fazer
Se não tem uma guitarra

Eu então vou afirmar
Que o meu fado não é isso
Pois trago a alma a cantar
Um fadinho bem castiço

O fado… deve ser vadio
Ir ao desafio, com as gentes mais rascas
Por isso… deve valente
E estar bem presente em todas as tascas
O Fado… deve ser aprumado
E ser bem gingado e ter altivez
Por isso… deve ser afinado
E ser bem cantado sempre em português


Dizem que o fado é boémio
Por andar com a fidalguia
E lhe dera como prémio
Um lugar na Mouraria

Por ser assim afamado
Qualquer fadista o venera
E que a Rainha do fado
Foi a castiça Severa

Acabou

Letra de Artur Ribeiro
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Acabou quando te vi
O meu cantar d’ amargura
Pois soube que era por ti
O meu andar à procura
Desde o dia em que te vi

Acabou nesse momento
Ao ver-te naquela rua
Meu fado que era lamento
Passou a ser coisa tua
Coisa tua cem por cento

Acabou dando começo
Ao fado dos sonhos meus
E agora só me conheço
Através dos olhos teus
Quando neles apareço

Acabou quando ficámos
Presos na mesma paixão
E os nossos fados casámos
Sem dar sequer atenção
Ao espanto que causamos

Malhão de São Simão

Popular
Gravado por Amália

Onde vais toda lampeira
Morena de olhos travessos
Onde vais toda lampeira?

Ai malhão, malhão
Onde vais toda lampeira?
Tão depressa coradinha
Toda cheia de chieira?

Isto é do pó da eira
Chamaste-me moreninha
Isto é do pó da eira
Isto é do pó da eira
Hás-de me ver ao domingo
Como a rosa na roseira

Hei-de ir à missa do dia
Para o domingo que vem
Hei-de ir à missa do dia

Ai, malhão, malhão
Hei-de ir à missa do dia
Para ver o meu amor
À porta da sacristia

Esta última estrofe não faz parte da gravação

Põe-te em lugar que te eu veja
Se fores domingo à missa
Põe-te em lugar que te eu veja
Ai, malhão, malhão
Põe-te em lugar que te eu veja
Não faças andar meus olhos
Em leilão pela igreja

Malhão de Cinfães

Popular
Gravado por Amália

Ó malhão, triste malhão
Ó malhão, triste malhão
Ó malhão, triste, coitado
Eu por ti suspiro, eu por ti dou ais
Por ti eu não vou suspirar jamais

Ó malhão, triste, coitado
Por causa de ti, malhão
Ando triste, apaixonado
Eu por ti suspiro, eu por ti dou ais
Por ti eu não vou suspirar jamais


O malhão quando morreu
O malhão quando morreu
Deixou dito na escritura
Eu por ti suspiro, eu por ti dou ais
Por ti eu não vou suspirar jamais

Deixou dito na escritura
Que lhe forrasse o caixão
Com pano de pouca dura
Eu por ti suspiro, eu por ti dou ais
Por ti eu não vou suspirar jamais

O bêbado e a equilibrista

Aldir Blanc / João Bosco
Repertório de Helena Sarmento


Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbedo trajando luto, me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel

E nuvens, lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco
Louco, um bêbado com chapéu-côco
Fazia irreverências mil p’rá noite do Brasil
Meu Brasil

Que sonha com a volta do irmão do Henfíl
Com tanta gente que partiu num rabo-de-foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil

Mas sei, que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente, a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha

Pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

Ecos de amor

Leonel Moura / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de Leonel Moura


Meus olhos e os teus olhos, se olharam
Numa rara beleza de jasmim
Então os nossos lábios se tocaram
Nasceu um grande amor que não tem fim

Como ecos de amor no horizonte
Como as águas do mar em marés calmas
Os prados são calmos e verdejantes
Como o amor que alimenta as nossas almas

Como as aves que cantam p'la manhã
Como o sol que nos traz luz e cor
Meus lábios nos teus lábios de romã
Despertam oceanos de amor

O amor que nos conta este fado
Num conto de luz e de verdade
Os dois de mãos dadas, lado a lodo
Levamos este amor p’rá eternidade

O Marquês e o escudeiro

(baseado numa anedota)
Letra de Henrique Rego
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível

Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado

Em linda manhã de estio
Certo marquês, donairoso
Desejo enorme sentiu
De passear pelo rio
Que se via bonançoso

Chamando pelo escudeiro
Ordenou-lhe, sem enleio
Que desse ordens ao barqueiro
Para aprontar-lhe, ligeiro 
Seu barquito de recreio

Poucos momentos após 
O barquito alvinitente
Como uma casca de noz
Deslizava, bem veloz
Aos caprichos da corrente

O marquês, fitando o céu
Tonalizado de cores
P’rás mãos do barqueiro deu
Seu finíssimo chapéu 
Com largos ventiladores

O barqueio, sem pensar
Embora feio pareça
Tratou logo de enfiar
O chapéu do titular 
Sem cerimónia na cabeça

O fidalgo, perspicaz 
Que lhe vira o gesto seu
Disse-lhe, olhando p’ra trás
Toma cuidado, rapaz
Não me fures o chapéu

Este, um pouco amofinado 
Respondeu com altivez
Sou há três anos casado
E o meu lar é bem honrado
Senhor meu amo e Marquês

Nem novidade maior 
Podia haver, oiça bem
Pois se os tivesse, senhor
Passariam sem favor 
Pelos buracos que tem

Na esquina de ver o mar

Luís Macedo / Alain Oulman
Repertório de Amália


Foi no outeiro da Graça
Na esquina de ver o mar
Quanto é triste essa desgraça
Que finge alegria e passa
Pelas ruas a cantar

Foi no outeiro da Ajuda
Na esquina de ver o Tejo
Quem é triste não se iluda
Que essa tristeza não muda
Mesmo que mude o desejo

Foi no outeiro do céu
Ao olhar o mar e o rio
Que uma noite aconteceu
Que o sonho que era só meu
Passou por mim, mas perdi-o

Lábios que beijei

J. Cascata / Leonel Azevedo
Repertório de António Zambujo


Lábios que beijei
Mãos que eu afaguei
Numa noite de luar assim
O mar na solidão bramia
E o vento a soluçar pedia
Que fosses sincero para mim

Nada tu ouviste
E logo partiste
Para os braços de outro amor
Eu fiquei chorando
Minha mágoa cantando
Sou a estátua perenal da dor

Passo os dias soluçando com meu pinho
Carpindo a minha dor sozinho
Sem esperanças de tê-la jamais
Deus, tem compaixão deste infeliz
Por que sofrer assim?
Compadecei-vos dos meus ais

Tua imagem permanece imaculada
Em minha retina, cansada
De chorar por teu amor
Lábios que beijei
Mãos que eu afaguei
Volta, dá lenitivo à minha dor

Malhão das pulgas

António Avelar de Pinho / Tó Zé Brito
Gravado por Amália

Ai ai ai quem é que nos acode
Quem é que nos há-de acudir
As pulgas são tantas, são tantas
As pulgas já não nos deixam dormir
Já não nos deixam dormir
Já nem sequer descansar
As pulgas são tantas, são tantas as pulgas
Não se deixam apanhar;
São tantas as pulgas, as pulgas às tantas
Não se deixam agarrar


Ai malditas pulgas, malditas pulguinhas
São como as más línguas das nossas vizinhas
A rogarem pragas sempre às janelinhas
Malditas pulguinhas

Ai malditas pulgas, malditas pulguinhas
São como os rapazes de falas mansinhas
A arrastar a asa às rapariguinhas
Malditas pulguinhas

Ai malditas pulgas, malditas pulguinhas
São como o sapato cheio de pedrinhas
Que nos faz andar a suar estopinhas
Malditas pulguinhas

Ai malditas pulgas, malditas pulguinhas
São como as amigas cheias de entrelinhas
A meter o bico nas nossas vidinhas
Não são cá das minhas

Na palma da minha mão

Carlos Faria de Jesus / Armandinho *fado manganine (?) manganino*
Repertório de Pedro Lisboa


Na palma da minha mão
Uma bruxa descobriu
Que a linha do meu coração
Anda presa por um fio

Deitou as cartas na mesa
E disse que era feitiço
E depois fez-me uma reza
P’ra me tirar o enguiço

Não acredito em bruxedos
E em bruxas também não
Mas às vezes tenho medo
Que as bruxas tenham razão

Quero que a bruxa me diga
Se há um feitiço maior
Que me prenda toda a vida
Nos braços do meu amor

O camarim

Carlos Leitão / Júlio Resende
Repertório de Carlos Leitão


Se o meu corpo perdeu o direito
Se a semente foi semente sem jardim
Se o mundo foi teu, apenas por defeito
Então talvez os 'ses' fiquem p’ra mim

Digo talvez, talvez porque não sei
Se o teu perfume é o das flores ou não tem fim
Se me Julgares e me culpares porque te amei
Deixa lá, eu guardo tudo em mim

Se é assim o adeus de dois amantes
Eu fico um pouco mais no camarim
E se a minha vida ficar como era dantes
Ficas com ela porque os 'ses' não são p’ra mim

Lago

Letra e música de Luís Macedo
Repertório de Amália


Desci por não ter mais força
Às águas verdes sem fundo
Mesmo que voltem as forças
Não quero voltar ao mundo

Desci por não ter mais força
Até ao fundo das águas
Mesmo que voltem as forças
Não voltarei a ser escrava

Desci por não ter mais forças
Às águas verdes sem fim
Mesmo que voltem as forças
Não me separo de mim

Por ti

Letra de Manuel de Andrade
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado

Deixa que a noite ao cair
Num sonho faça sorrir
Teus lábios embriagados
P’ra que surjam com o dia
Visões verdes de alegria
Ante os teus olhos cerrados

Enquanto dormes, vou vendo
O meu rosário escorrendo
Em preces pelos meus dedos
E as minhas mágoas caladas
Assim passam desprezadas
Escondidas como segredos

É por ti que as ofereço
Tantas mágoas, magro preço
Da tua felicidade
Pedindo a Deus que consinta
Que teu sonho te não minta
Nem o mate a realidade

Se queres partir, meu amor
Parte amanhã por favor
Se vais ser feliz assim
Sofrendo, feliz serei
Se na minha dor te dei
Alguma coisa de mim

MF

Aldina Duarte / Popular *fado menor*
Repertório de Aldina Duarte

Na memória, uma voz triste
Não pára de me dizer
Tudo aquilo que hoje existe
Um dia há-de morrer

Eternamente, a tristeza
Prevalece desmedida
Qualquer coisa de beleza
Tem de haver p’ra’além da vida

Devagar, o esquecimento
Persuade o coração
Na corrida contra o tempo
Volta sempre a solidão

Namora comigo

Letra e música de Beatriz Pessoa
Repertório de Cristina Branco

De manhã nasceu o dia e de longe vi a chegar
O mistério de aprender um lugar onde morar

Era meigo e de olhos claros, cabelo escuro por pentear
E no meio dos seus medos só queria namorar

Mãos dadas, beijos por roubar, canções distantes
Engates lentos de embalar, rosas dançantes

Começou tudo tão cedo, sem qualquer preparação
Fui correndo nesse vento que levou a confusão

Cresci mulher, cresci menina, foi rapaz, conquistador
E na margem dessa terra foste tu o lutador

Mãos dadas, beijos por roubar, canções distantes
Engates lentos de embalar, rosas dançantes
Namora comigo no meio do tempo
Num campo de flores, de longe e de perto
Namora comigo da primeira vez
Fugimos daqui e… talvez, talvez


Seduzimos a noite na cama, fomos leito, ternura e paz
Descansou no meu colo e na lua e no seu, perdi-me nua

Deixámos ir e por aqui ficámos
Namorando no sempre do ar
Planeámos caminhos futuros
Mergulhados no escuro do mar

Meu país, terra sangrada

Letra de João Ferreira Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível
Letra transcrita do livro editado pela Academia da Guitarra e do Fado


Alcochete é companhia
Que faz esquecer e cantar
A tristeza d’agonia
Deste reino d’aquém-mar

Dom Manuel é fantasia
Senhor do mundo a brincar
O vinho é alegria
De quem se quer afogar

Na água da minha fonte
No rio que já chega ao mar
No pôr-do-sol horizonte
Da noite de te lembrar

Meu País, terra sagrada
Pela fé, por regressar
A nossa alma encantada
Que um dia se fez ao mar