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Canal de JOSÉ FERNANDES CASTRO em parceria com RÁDIO MIRA

RÁDIO apadrinhada pelo mestre *RODRIGO*

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AS LETRAS PUBLICADAS REFEREM A FONTE DE EXTRAÇÃO, OU SEJA: NEM SEMPRE SÃO MENCIONADOS OS LEGÍTIMOS CRIADORES
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ATINGIDO ESTE VALOR // QUE ME FAZ SENTIR HONRADO // CONTINUO, COM AMOR // A SER SERVIDOR DO FADO
POIS MESMO DESAGRADANDO // A TROIANOS MALDIZENTES // OS GREGOS VÃO APOIANDO // E VÃO FICANDO CONTENTES
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Ilha inventada

Carlos Baleia / João Machado
Repertório de Jorge Batista da Silva


Num mar de pura invenção / Existe a ilha inventada
Um penhasco, uma enseada / Um promontório, um vulcão
Um campo por cultivar / Um ribeiro d'água pura
Arbustos a balouçar / Raios de sol e ternura

Um homem, uma mulher / Um fruto e uma serpente
Uma tentação qualquer / E um demónio presente
Uma queda anunciada / Um paraíso perdido
Na bela ilha inventada / Por um Deus meio divertido

Ilha encantada, tapete de fantasia
Uma invenção adiada, uma dentada sadia
A maçã saboreada, uma história de ironia
Um desejo de regresso ao encanto dessa ilha;
Um repetido começo, uma fé que ainda brilha
Através do fumo espesso cercado de maresia


Ventos de forte corrente / Sem marés de cortesia
Trazem barcaças de gente / Aos portos da fantasia
E nesse mar de invenção / Nessa terra arquitectada 
Continua a construção / Da ilha nunca acabada

Oração dum fadista

Lopes Vitor / Franklim Godinho
Repertório de Vicência Lima 

Se a memória não me ilude
Há quem tenha já chamado
À Senhora da Saúde
A Padroeira do Fado

Mora numa capelinha / Cheia de encanto divino
Na Mouraria velhinha / Onde o Fado foi menino

Todos fadistas lá vão / Numa lágrima sentida
P'ra rezar uma oração / Do fado da própria vida

Virgem de Graças sem fim / Se dos fadistas és mãe
Pede a Deus, pede por mim / Que eu canto o Fado também
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Versão original

Se a memória não me ilude
Há quem tenha já chamado
À Senhora da Saúde
A Padroeira do Fado

Mora numa capelinha / Cheia de encanto divino
Na Mouraria velhinha / Onde o Fado foi menino

Muitos fadistas lá vão / Numa lágrima sentida
Soluçar em oração / O fado da própria vida

E a Virgem do seu altar / Abençoa certamente
Quem vive a vida a cantar / A vida de toda a gente

Virgem de Graças sem fim / Se dos fadistas és mãe
Pede a Deus, pede por mim / Que canto o Fado também

Quase primavera

Letra de António Cálem
Repertório de João Braga
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Nada faltou nesse dia
Havia sol, Primavera
Havia esperança no ar
E a certeza duma espera

E era tal essa certeza
Que tu surgiste por fim
Havia sol, Primavera
Tu e eu e um jardim

Parecia nada faltar
Era o mundo ali à mão
Parecia nada faltar
Faltou o teu coração

Marés perdidas

Carlos Baleia / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de Jorge Batista da Silva

Sou como um mar encrespado
Pelas ondas vindas de ti
Nesse teu vento soprado
Em fúrias como não vi

Ando nas marés perdidas
Desta tormenta que inventas
Navegando despedidas
Que sofrem quando te ausentas

Meu vaivém que é incessante
Perdeu pontos cardeais
Que agora a cada instante
Querem saber onde vais;
As ondas, já desoladas
Vão perdendo seu vigor
E voam espumas salgadas
Que choram p’lo meu amor


Neste oceano infinito
Que 'inda hoje desconheces
Não ouves sequer meu grito
E se o ouves, logo o esqueces

Quebram-se as ondas na areia
Numa solidão sem esperança
Em noites de lua cheia
Sem que em mim haja mudança

Meu Portugal

Letra de Gabriel de Oliveira e Linhares Barbosa
Publicada a 25.11.1937 na edição Nº335 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
com a indicação de pertencer ao repertório de Fernanda Amália
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


És um saquinho feito de retalhos
De flores e galhos, malva-rosa e espigas
Meu Portugal… Oh! Terra tão bonita
Saco de chita cheio de cantigas

E desde o Algarve até ao Minho verde
O Sol se perde pelos teus atalhos
Hortas, jardins, no meio um carreirinho
És um saquinho feito de retalhos

Tens um sopro de divina essência
Essa inocência das canções amigas
Canções que ensopam ócios e trabalhos
De flores e galhos, malva-rosa e espigas

Tens a meiguice das ingénuas lendas
Arca de prendas, Deusa e favorita
Banhas o corpo em águas de cristal
Meu Portugal… Oh! Terra tão bonita

Nas romarias a arraiais fugazes
Tocam rapazes, cantam raparigas
Tu és na Europa uma nação bendita
Saco de chita cheio de cantigas

Hora em que te vi

António Cálem / Pedro Rodrigues
Repertório de Carlos Barra


Entre um vago despertar
O teu olhar me dizia
Que na terra não havia
Nem o sol nem o luar

Então falei-te de mim / Que ‘inda havia coração
E prendi a tua mão / Apunhalando-me a mim

A noite ficou suspensa / Como a aguardar o seu fim
E a noite disse que não / Mas tu disseste que sim

Para quê fugir agora / Se não fugia de ti?
Fugir, era fugir da hora / Nessa noite em que te vi

Coisas da vida

Letra de António Vilar da Costa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Encontrámo-nos os dois
Eu descia e tu subias
Sorri-te e não me falaste
Mas algum tempo depois
Eu subia e tu descias
Disse-te adeus... e choraste

Certo dia, lembro bem
Tu passaste presumida / Fingindo que não me vias
Compreendi teu desdém
Porque na estrada da vida / Eu descia e tu subias

Quiseste subir de um salto
Julgaste o mundo a teus pés / Mas pasmei quando te vi
Tu que te ergueras tão alto
Desceras por tua vez / Mais baixo do que eu desci

Por isso fizeste esforços
P’ra dominares combalida / Tua dor, quando passaste
Mas ao peso dos remorsos
Vergaste a fronte vencida / Disse-te adeus… e choraste

Balada para um dia triste

Carlos Baleia / João Machado
Repertório de Jorge Batista da Silva


O dia em que a tristeza me abraçou
Foi o mesmo em que partiste
Sem dizer sequer adeus
Tu foste mas de ti tudo ficou
A lembrar-me como é triste
Ter-te só nos sonhos meus

No ar à minha volta sinto ainda o teu perfume
Da rua chega o eco dos teus passos
Mas a louca paixão que então ardia no teu lume
Deixou de derreter-se nos meus braços

Agora anda a tristeza arrependida
De ter vindo aqui morar
E do abraço que me deu
E a saudade que entrou na minha vida
Nesta balada a cantar
Fala de tudo o que é teu

São tristes os caminhos que pisaste na partida
Tão tristes como os olhos que te amam
Eu sei, longe de mim também tu andas perdida
E ouves os meus gritos que te chamam

Talvez amor

Carlos Baleia / Hugo Afonso
Repertório de Jorge Batista da Silva


Quando em mim houver fogo controlado
E a água não molhar por onde passa
Se a folha não seguir o vento irado
Ou o som da gargalhada for desgraça

Podes passar às horas que quiseres
Sorrir, telefonar, fazer sinais
No engano que eu aceito o que me deres
Na ilusão que és barco e eu sou cais

Pois vão morrendo os dias dolorosos
De novo o azul é tom de céu e mar
E não cor de teus olhos perigosos
Onde eu já mergulhei para me afogar

Agora o fogo é cinza amontoada
A água volta a ser o que foi antes
E o vento que me agita é quase nada
È simples sopro a chegar de outros quadrantes

Ver-te partir é simples recordar
É não-saudade em beijo moribundo
Sensação estranha por te deixar de amar
E um adeus que te afasta do meu mundo

O sentimento da falta que não fazes
É subtil veneno a circular
Mistério das recordações fugazes
Talvez o amor que eu nego, ao te lembrar

Quadro realista

Letra de Gabriel de Oliveira
Letra do arquivo de Francisco Mendes, com a indicação 
de pertencer ao repertório de Júlio Proença.
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Três horas da madrugada
Na Mouraria deserta
Não aparece ninguém
Somente uma desgraçada
Tendo a meia porta aberta
Ainda espera por alguém

Com as lágrimas no rosto
Essa infeliz relembrava / O triste destino seu
Minada pelo desgosto
Muito baixinho rezava / Pela mãe que lhe morreu

Nisto, ouviu-se na viela
Um assobio prolongado / Lembrando um eco distante
Tremeu todo o corpo dela
Era o sinal combinado / Do rufia, seu amante

Já não pensa na desdita
A vida pouco lhe importa / Junto do seu companheiro
Corre a cortina de chita
Guarda a velha meia porta / E retira o candeeiro

Provocante, a gingar
Presumindo ter ciúme / O rufia aproximou-se
E ao entrar no lupanar
Ouviu-se um grito, um queixume / E a meia porta fechou-se

Este quadro tão fadista
Sem nenhuma fantasia / Da minha imaginação
Tem o cunho realista
Passou-se na Mouraria / Em tempos que já lá vão

Infância breve

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Onde estás verde balão
Da minha infância mimada
E tu rosa perfumada
Do meu jardim d’ilusão

Que é feito do sol-calor / Que a minha gente afagava
E que comigo brincava / Jogando às prendas d’amor

Onde pára a Dona Lua / Dona de tantas esp’ranças
Que à noite na minha rua / Bailava nas minhas tranças

Só ficaram horas mortas / Na noite imensa tristonha
Ninguém pensa, ninguém sonha / Cerraram todas as portas

A rosa jaz desfolhada / Profanaram o jardim
Até minh’alma coitada / Chorando fugiu de mim

No cavalo de D. José

Carlos Baleia / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de Jorge Batista da Silva


Se eu tivesse um cavalo / Como tem o D. José
Haveria de levá-lo / Até ao Cais do Sodré

Em valente cavalgada / Com garbo, com altivez
Ia ver como mudada / Está Lisboa do Marquês

Não ficaria parado / A olhar p’ró rio, ausente
No meio da Praça, especado / A ver passar tanta gente

A trote, no meu formoso corcel
Punha um ar de fidalgote
Ou de toureiro em cartel;
Capote de bom corte e a rigor
Eu ficaria no lote
De cavaleiro e senhor;
Quixote, mas lusitano nascido
Eu iria pela cidade
Onde o fado tem vivido;
Pinote, não me deitaria ao chão
Pois eu cavalgo à vontade
Na sela da ilusão


Dava um salto à Madragoa / Bairro Alto, Alfama e Bica
E a galopar por Lisboa / Inda iria até Benfica

Ao cavalo eu mostraria / O muito que tem perdido
Por nunca na Mouraria / Ter sequer um fado ouvido

E cansado da jornada / Depois de tanto laré
Devolveria a montada / Ao senhor rei D. José

A minha rica filhinha

Letra de Silva Tavares
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.

A minha rica filhinha
Co’a sua saia de roda
Parece uma vassourinha
Varrendo-me a casa toda


Sou pobre por condição / Mas tenho um grande tesouro
Quue não dou por nenhum oiro / Lançado em circulação
Fiz cofre do coração / Porque outra coisa não tinha
E essa riqueza, que é minha / Tão bem, lá dentro, me coube
Que d’ali não há quem roube
A minha rica filhinha

Nunca senti tanto enleio / Como olhando a minha filha
Fala e pensa à maravilha / Apenas com palmo e meio
Já mostra certo receio / De que a não vistam à moda
E ninguém julgue que engoda / Essa migalha de gente
Toda inchada de contente
Co’a sua saia de roda

A cada passo tropeça / Por ser a saia comprida
Mas não chora e, de seguida / Levanta-se e recomeça
Não há nada que não peça / Pois tudo quer, coitadinha
Deita-se logo à noitinha / Mas, de manhã até lá
Sempre d’aqui p’ra acolá
Parece uma vassourinha

Ela só, tão pequenina / Enche-me a vida de luz
E o peso da minha cruz / Resulta coisa divina
Ladina, muito ladina / Não pára nem se acomoda
A tudo e todos apoda / Numa estranha algaravia
E assim passa o santo dia
Varrendo-me a casa toda

Destino

Letra de António Cálem
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel.


Amanhã será depois
Depois ou talvez outrora
Depende de sermos dois
Ou de haver uma demora

E então se formos dois
Já pensaste o que seremos?
Da nossa vida depois
Ou da morte que teremos?

Morte ou vida, que te importa?
Deixa vir aquele dia
Em que eu for tua ou for morta
Noite negra ou meio-dia

Para os lados da Ribeira

Carlos Baleia / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de Jorge Batista da Silva


Um manto de nevoeiro / Travou no Tejo um veleiro
Pôs gaivotas nas colinas
E, gemendo, o cacilheiro / Atravessa o rio inteiro
Cantando lentas matinas

No estuário de algodão / Já navega a solidão
Que ganha a vida no rio
E a manhã, em ascensão / Solta no cais “o calão”
Que no cacau mata o frio

Ai, mercado da Ribeira
Que, quer se queira ou não queira
Lisboa nos põe à mesa
E os cheiros que se misturam
São memórias que perduram
Dum mercado à portuguesa


Tejo, barcos, nevoeiro / Começo de um dia inteiro
Algazarra e discussão
E em regateio, o dinheiro / Num compra e vende ligeiro
Circula de mão em mão

E não se acalma o bulício / Daquela gente de ofício
Que viu a manhã chegar
E o Tejo em benefício / Do trabalho e sacrifício
Dá-lhe um fado para cantar

A pena do meu penar

Mote de José Rodrigues / Glosa de Gabriel de Oliveira
Publicada a 15.06.1945 na edição Nº 1 (II serie) do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Cavador, meu camarada
Não digas que a pena é leve
Pesa tanto com a enxada
A pena com que se escreve


Com a pena de escrever
Que julgas não ser pesada
Eu peno para viver
Cavador, meu camarada

É ela o meu ganha pão
Deve pesar ou não deve?
Bem vês que tenho razão
Não digas que a pena é leve

Tens que à força concordar
Que na minha mão cansada
A pena do meu penar
Pesa tanto com a enxada

Filosofando mais fundo
Ninguém diz, ninguém se atreve
O peso que tem no mundo
A pena com que se escreve

O nosso amor

Letra de Lopes Vitor
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


O nosso amor acabou
Por muitas voltas que dês
E da mente não te saia
Foi aragem que passou
Nuvem que o vento desfez
Onda que morreu na praia

O nosso amor, foi quimera
Amarga desilusão / Que duas vidas tortura
Não conheceu Primavera
Nunca passou de botão / Nem viu o Sol da ventura

Se jurei não dizer nada
Esse sonho, podes crer / Não exalto nem lamento
Minha palavra está dada
Por mais que possa sofrer / Não falto ao meu juramento

O nosso amor acabou
Disse-te mais de uma vez / Por muito que nos atraia
Foi aragem que passou
Nuvem que o vento desfez / Onda que morreu na praia

Sobre a cidade

Carlos Baleia / Fernando Silva
Repertório de Jorge Batista da Silva


Sou parceiro da gaivota / Dos bizarros arabescos
Em dança louca e devota / Com movimentos burlescos

Cavalgo na andorinha / Meu tropel de pensamentos
Vindos da brisa marinha / Em fugitivos tormentos

Cruzo as nuvens de Lisboa
Meu algodão de brincar
Fazendo delas, canoa
Inventada para voar
Voo num verso perdido
Que anda em busca da verdade
Com o norte no sentido
Tendo no sul a saudade


Bailo num fado que sobe / Entre telhados, carente
Sonho cantado que encobre / O silêncio que se sente

E num voar inquieto / Que toca as margens do Tejo
Abro as asas do afecto / E abraço tudo o que vejo

O fasificador

Letra de Artur Soares Pereira
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Ao tribunal, um dia, foi chamado
Um falsificador, p’ra responder
Mas certo que seria condenado
Pensou maneira de não comparecer

Procurou um Doutor muito interesseiro
E um atestado médico requer
Dizendo: se a questão for o dinheiro
Posso pagar aquilo que quiser

O Doutor, seduzido p’la ambição
O atestado médico passou
Após o receber, de o ter na mão
O outro em notas falsas lhe pagou

O Doutor, pelas notas logo viu
Que estas eram falsas e protesta
Deveras zangado, ele exigiu
Outro dinheiro dizendo: este não presta

O falsificador, sem vacilar
Sorrindo p’ró Doutor replicou
As minhas notas falsas vão pagar
O atestado falso que passou

Ao telefone

Mote de Júlio Rodrigues / Desenvolvimento de António Amargo
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


MOTE
Norte – dois, três, zero, cinco
És tu, amor? Ouve, Berta
Deixa-me a porta no trinco
Esta noite é pela certa


1ª Glosa
Norte – dois, três, zero, cinco / Estou farto de tocar
E de tocar com afinco / Faça favor de ligar

És tu, amor? Ouve, Berta / Vou p’ra o Cabeço de Bola
Manda-me bem encoberta / A minha rica pistola

Deixa-me a porta no trinco / A porta que dá p’ra escada
Palavra de honra, não brinco / A coisa vai ser falada

Esta noite é pela certa
/ Triunfa a canalha nua
Mas vai deixando entreaberta / Também a porta da rua
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2ª Glosa
Estou farto de tocar / E de tocar com afinco
Faça o favor de ligar / Norte – dois, três, zero, cinco

Agora tudo se cala / Dir-se-ia a casa deserta
Ora até que enfim! Quem fala? / És tu, amor? Ouve, Berta

Juro à face do Senhor / Que desta feita não brinco
Por amor do nosso amor / Deixa-me a porta no trinco

À uma da madrugada / Põe-te bem de ouvido alerta
Vou falar contigo à escada / Esta noite é pela certa

Sextilhas para um fado em tom menor

António Cálem / Jose Antonio Sabrosa
Repertório de António de Noronha


Quis cantar o meu passado / E só te cantei a ti
Quis seguir todo o meu fado / Mas de tudo o que segui
Foi o voltar costumado
À vida que em ti vivi

Quis conhecer mais o mundo / E reviver nele assim
Mas abriste-o tão profundo / Tão estranho, tão sem fim
Que quando cavei mais fundo
Só lá me encontrei a mim

Hoje só na minha vida / Na vida que me traçaste
Sou a sombra dolorida / Do rasto que tu deixaste
Lá no ponto de partida
Onde tu por mim cruzaste

Pobre chita

Gabriel de Oliveira / Raúl Portela / Raúl Ferrão
Repertorio de Natália dos Anjos

Madalena altiva
Beleza atractiva / Foi quase rainha
Mas lembrem-se disto
Que por Jesus Cristo / Quis ser pobrezinha

E assim Madalena
O luxo condena / E se nobilita
Se foi pecadora
A fé redentora / Vestiu-a de chita

Pobre chita, pobre chita
Vestimenta muito honrosa da mulher
Tem nobreza, na desdita
A mulher que veste chita
Pois é senhora de bem quando quer


A filha do povo
Que eu adoro e louvo / Na vida que tem
Traja simplesmente
De chita decente / Que lhe fica bem

E a pobreza honrada
É bem compensada / Na sua desdita
Chita não desdoura
Pois Nossa Senhora / Vestia de chita

Lisboa passeia em si

Carlos Baleia / Marco Oliveira
Repertório de Jorge Batista da Silva

Lisboa sente, seu coração bate forte
Num bater que anda contente
E feliz com sua sorte
Anda pelas ruas, vai até à Madragoa
Faz paragem no Chiado
Toma a “bica” com Pessoa

Depois num salto, com um sorriso nos lábios
Sobe até ao Bairro Alto
Onde os fadistas são sábios
E assim sentindo, vê com olhos de mulher
O que em si há de mais lindo
E sente nisso prazer

Vê que a moirama, ainda mexe consigo
Dá um pulo e em Alfama
Tem no Fado, um velho amigo
Passa pelo rio, vê gentes apaixonadas
E ao longe há um navio
De velas engalanadas

E retraída p’las maldades cometidas
Sente que a vida
Lhe deu horas bem sofridas
Rica mistura de alegrias e paixões
Num cantar que ora cura
Ou entristece corações

E assim sendo
Tem a bóia a que se agarra
Um sentir que vai vivendo
Num dedilhar da guitarra

Flor de rosmaninho

Letra de Gabriel de Oliveira e António Amargo
Publicada a 27.05.1930 na edição Nº197 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL e cantada 
por Leonor Fialho em 29.04.1930 num concurso realizado no Solar da Alegria.
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Nasce nos campos sozinho
Cumprindo seu triste fado
O pobre do rosmaninho
Por todos abandonado

Se não tem brasão de nobre / Tem outro brasão, porém
Entrar em casa do pobre / Porque ele é pobre também

Quando vou pelo caminho / Meu santo amor a sentir
Apanho sempre um raminho / De rosmaninho a florir

E para que o meu amor / Me tenha sempre afeição
Trago o rosmaninho em flor / Bem junto do coração.

Corações de Alfama

Letra de Clemente Pereira
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


A Lucinda cigarreira
Voz fagueira e feiticeira
Que lá n’Alfama morava
Tinha só por companhia
A magia que sentia
No fado quando cantava

Como vivia sozinha
A vizinha que ela tinha / E morava ao lado dela
Quis fazer-lhe uma partida
E em seguida, decidida / Pôs-lhe um ’scrito na janela

Sabedor, o guitarrista
Zé Fadista, teve em vista / A partida aproveitar
E pouco tempo depois
Eram dois, os rouxinóis / Naquele ninho a morar

Hoje onde essa paixão mora
Se ouve agora, noite fora / Naquele bairro afamado
Uma voz e uma guitarra
Que os agarra e os amarra / Ao sentir do mesmo fado

A civilização

Letra de António Amargo
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


O poderoso rei de uma tribo selvagem
Tendo ouvido falar em civilização
Quis ver e observar a atraente miragem
Das grandes capitais, empórios do milhão

Viu padres e pasmou da estólida ignorância
Do povo que inda crê em Deus e em seus ministros
Viu lôbregas prisões, a desumana estância
Onde se gera o crime em corações sinistros

Viu a prostituição obedecendo a leis
E o estado, sem pudor impondo-lhe tributos
E viu países onde ainda existem reis
E o povo geme e sofre e há cortesãos corruptos

Viu gente a mendigar o pão da negra sorte
Porque pede trabalho e ninguém lho quer dar
E viu com mais horror que inda há pena de morte
Em terras onde a lei condena quem matar

O poderoso rei, cansado da miragem
Voltou ao seu país numa desilusão
Dizendo: a minha gente é bárbara, é selvagem
Não quero que lá chegue a civilização

Esquiva

Mote de autor desconhecido / Glosa de Avelino Sousa
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*

Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Não pude furtar-te um beijo
Desses teus lábios, donzela
Porque tens, constantemente
Teus olhos de sentinela


Morena de olhos mortais / E lábios cor da papoila
És a mais linda moçoila / Que aparece p’los trigais
Quando, junto aos roseirais / Te exprimi o meu desejo
Subiu-te às faces o pejo / De purpurina candura
E por minha desventura
Não pude furtar-te um beijo

Ao ver as ondulações / Que fazem arfar teu seio
Eu senti o doce enleio / De ternas palpitações
E tive mil tentações / De enlaçar-te, minha bela
Mas, ágil, como a gazela / Fugiste do meu amor
Sem que eu sorvesse o licor
Desses teus lábios, donzela

Meu anjo: não pode ser/ Fazer’s-te assim tão esquiva
Pr’a que hás-de ser tão altiva / Se, por fim, vens a ceder
Eu não posso conceber / Que me julgues exigente
Pois se era um furto, inocente / E, juro, que, p’ra bom fim
Teus olhos fitos em mim
Porque tens, constantemente

Não tenhas tal azedume / Nem tamanha vigilância
Deixa aspirar a fragrância / De teus lábios o perfume
O veneno do ciúme / Em meu peito se revela
Beijar-te, minh’alma anela / Mas não gozo tais delícias
Pois me lembram dois polícias
Teus olhos de sentinela

Com saudade

Gabriel de Oliveira
Letra publicada a 31.05.1934 na edição Nº292 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
Dedicada a Júlio Proença e Hermínio Antunes
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Nascido na Mouraria
Velho bairro da Moirama
Que em tempos idos deu brado
Afrontei com valentia
Alguns fadistas de fama
Que tinham fama no fado

Com os faias mais antigos / Desde pequeno marquei 
Na minha crença bairrista
E foram esses amigos / Fadistas da velha grei
Que me fizeram fadista

Não deixei o meu ofício
Vivi sempre a trabalhar / Pela minha profissão
E canto só pelo vício
Que me ficou de cantar / Cantigas que já lá vão

Hoje o fado abandonou
Esse bairro da cidade / Onde cantando vivia
E a minha voz que o cantou
Canta agora com saudade / Saudade da Mouraria

Zé Maria

Alberto Barbosa, José Galhardo, Vasco Santana e Xavier Magalães
Música de Cruz e Sousa 
Criação de Irene Isidro na revista Loja do Povo, Teatro Avenida, 1935
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Contaram-me na escola a nossa história
As lutas, as viagens do passado
Não mais se me varreram da memória
Contaram-me, e eu fiquei maravilhado

Contaram-me as conquistas que fizeram
Os velhos portugueses no além-mar
Dizendo-me: essas terras que nos deram
São nossas, temos sempre que as guardar

Oh! minha terra, não sou ninguém
Mas se houver Guerra, quero ir também
Morrer por ti lá nessa pátria leal
Que eu nunca vi, mas que é também Portugal

Somos pequenos mas temos fé;
Vamos p’lo menos morrer de pé
O que é só teu, por esse mundo além
Ninguém te rouba
Oh! minha pátria, oh! minha mãe

Ai quantos capitães ganharam fama
Lutando p’ra aumentar este cantinho
Ai quantos homens fortes desde o Gama
E Afonso d’Albuquerque até Mouzinho

Se os bravos doutras eras que esqueceram
P’ra nós tais mundos foram conquistar
Se tantos p’ra os ganhar por lá morreram
Morramos nós, também, para os salvar

O mais lindo pregão

Carlos Conde
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Se não conhece bem a graça encantadora
Daquela rua estreita ali da Madragoa
Venha comigo ver a casinha onde mora
O mais lindo pregão das ruas de Lisboa

Repare, é mesmo ali, janela em guilhotina
Quase unida aos umbrais da porta com postigo
Lá dentro, em bambinela, a chita da cortina
A coar levemente a luz daquele abrigo

Aquela é que é a dona; as rendas muito brancas
Que lhe enfeitam a blusa azul de castorina
As chinelas dos pés, a cinta sobre as ancas
São bem o galardão maior desta varina

De riso cristalino, é sadia, engraçada
Diferente talvez das outras raparigas
Chegando a confundir na voz aveludada
Cantigas com pregões e pregões com cantigas

Repare no lilás que tomba da janela
Da casa mais humilde ali da Madragoa
Onde habita, por bem, a cachopa mais bela
E onde mora o pregão mais lindo de Lisboa

Ressureição de Rosa Maria

António Amargo
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível


Porque alguém a assassinou
Morreu a Rosa Maria
Da Rua do Capelão
Mas Cristo a ressuscitou
E ao fim do terceiro dia
Deu-lhe vida e coração

Jazia inerte e sem vida
A cantadeira encantada / Que tanto nos encantou
Não foi de morte morrida
Mas sim de morte matada / Porque alguém a assassinou

Ouviu-se em menos dum ai
Pela velha Mouraria / Este sinistro pregão
Chorai, fadistas, chorai
Morreu a Rosa Maria / Da rua do Capelão

A Rosa, deusa do Fado / Rainha das maravilhas
Um mau bocado passou
Um poeta consagrado / Matou-a em cinco sextilhas
Mas Cristo a ressuscitou

Morreu de morte serena
Às mãos de uma poesia / Que lhe serviu de caixão
Porém Jesus teve pena
E ao fim do terceiro dia / Deu-lhe vida e coração

Dentro dum barco de guerra

Gabriel de Oliveira e Linhares Barbosa
Letra publicada a 09.03.1936 na edição Nº312 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
com a indicação de pertencer ao repertório de Alberto Costa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Dentro de um barco de guerra
Um velho lobo do mar
Olhando terra estrangeira
Saudoso da sua terra
Tem vontade de chorar
Vendo arriar a bandeira

Pára a faina no convés
É momento de emoção
P’ra quem no mar se desterra
Pois vibram de lés-a-lés
Alma, Pátria e coração
Dentro de um barco de guerra

Relembra por sobre as águas
Esse velho marinheiro
O seu casal lá na serra
Que tristeza e quantas mágoas
No seu peito aventureiro
Saudoso da sua terra


E, já tarde, ao sol poente
A bandeira a tremular
Desce, mas desce altaneira
E o marinheiro valente
Tem vontade de chorar
Vendo arriar a bandeira

Desespero

Antonio Cálem / Alfredo Duarte
Repertório de João Ferreira Rosa

Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Saudade de te perder
Sem jamais ter-te encontrado
Futuro do meu viver
Sem cinza morta ou pecado

Vida negra em brancos dias
Barcos passando no mar
Silêncio de melodias
Que já não ouço cantar

O mundo é liso e vazio
Triste sem saber de quê
Cortina que se não vê
A cobrir um vago frio

Nem passado, nem saudade
Neblna da cor do chão
Lá longe morre a cidade
E perto o meu coração

Portugal

Letra de Gabriel de Oliveira
Publicada na edição nº 156 do jornal Canção do Sul em 16.06. 1936
com a indicação de pertencer ao repertório de JOAQUIM PIMENTEL
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel

Numa quadra popular
Que dá volta ao mundo inteiro
Vai dento dela, a cantar
Portugal aventureiro

Um sentimento profundo / Fez um poeta pensar
Tantas vezes cabe o mundo / Numa quadra popular

Uma cantiga de amor / Na boca dum marinheiro
Lembra um livro de valor / Que dá volta ao mundo inteiro

Às vezes numa canção / Que nos parece vulgar
A vida duma nação / Vai dento dela, a cantar

Sempre que leio as baladas / D´algum velho cancioneiro
Lá vejo em letras doiradas / Portugal aventureiro

Conversa com o fado

Daniel Gouveia / Frederico de Brito *fado britinho*
Repertório de Teresa da Câmara


Conversou meu coração
Na questão da tradição
Com o velho e castiço Fado
E falaram à vontade
Doutra idade e da verdade
Com que já fora cantado

Disse então ao nosso fado / Magoado e amargurado
Meu coração com ternura
Que é feito do sentimento / Do lamento e encantamento
Na tua forma mais pura?

E daqueles pianinhos / Gemidinhos, tremidinhos
Da guitarra a acompanhar?
E o estilar à moda antiga / Que bem liga co´a cantiga
Que dá mais gosto cantar?

Respondeu-me o Fado assim
Espero, enfim, não ter mau fim / Depois do que já passei
Haja o que houver, sigo em frente
‘inda há gente que me sente / Por isso não morrerei!

Cantar o Mouraria

Letra de Gabriel de Oliveira
Publicada no jornal Guitarra de Portugal Nº4 de 30.07.1945
Repertório de Maria Loureiro
Desconheço se esta letra foi gravada.
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P’ra cantar o Mouraria
Castiço e bem a preceito
É preciso melodia
E sentir fogo no peito


No estilo que mais convém / Ter arte, gosto e mestria
São três leis que o fado tem / P’ra cantar o Mouraria

Quem é fadista a valer / Dá-lhe as voltas a seu jeito
Para o sentir reviver / Castiço e bem a preceito

Trina e faz garganteados / Como dantes se fazia
P’ra cantar o rei dos fados / É preciso melodia

Não basta o nome de artista / E p’lo fado ter respeito
É preciso ser fadista / E sentir fogo no peito

Nunca durmo

Mote de Carlos Conde / Glosa de Francisco Radamanto
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Não sei onde te entreténs
Que só vens de madrugada
Não durmo enquanto não vens
Tu chegas, não durmo nada


Vê lá: carinhosamente / Ponho o jantarinho ao lume
E o meu jantar é ciúme / Porque à hora, estás ausente
Ó meu querido, francamente/ Muda o costume que tens
Vê que os meus mais ricos bens / São teu carinho e amor
Estou sempre em ânsias, traidor
Não sei onde te entreténs

Espero, acendo o candeeiro / Todas as noites é isto
É um vício, pelo visto / Que te ficou de solteiro
Tem juízo, cavalheiro / Pois já me sinto cansado
Trago a alma revoltada / Sem conseguir compreender
Que andarás tu a fazer
Que só vens de madrugada

Às vezes, noites de Inverno / A chuva a cair a fio
E eu toda a tremer de frio / Sem teu calor meigo e terno
A vida assim é um inferno / Não mereço parabéns
És vadio como os cães / Que passam a noite fora
Desliza o tempo, hora a hora
Não durmo enquanto não vens

Mas… metes a chave à porta / E entras, pé ante pé
Eu sinto, e por minha fé / Já nada, nada me importa
Dás-me um beijo… fica morta / Toda a raiva concentrada
Que eu sentia e, dedicada / Prendo-me bem nos teus braços
Mas, vê lá meus embaraços
Tu chegas, não durmo nada

O xaile

Letra de Artur Soares Pereira
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível


Este meu xaile velhinho
Sobre os meus ombros traçado
Tem palmilhado o caminho
Que eu já palmilhei no Fado

Não o deixo um só momento / É meu conselheiro e guia
Conto-lhe o meu sofrimento / Conto-lhe a minha alegria

Põe meu peito em alvoroço / Põe minha alma a vibrar
Sem ele, cantar não posso / Sem ele, não sei cantar

É o meu maior amigo / Na alegria ou desventura
Quando eu morrer vai comigo / Para a minha sepultura

Se eu pudesse, bem à vista / Na minha campa gravava
Aqui jaz uma fadista / E o xaile com que cantava

Foi milagre

Letra de Lopes Vítor
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credível


Uma criança estava agonizante
Sofrendo um mal sem cura, um mal ruim
O doutor, vendo a mãe tão suplicante
Foi direito à verdade e diz-lhe assim

Estudei a ciência e por saber
Que a doença é fatal, é invulgar
Eu aqui pouco mais posso fazer
Só um milagre a poderá salvar

Então a pobre mãe, numa vertigem
Correu até chegar à capelinha
Ajoelha, a chorar, e diz à Virgem
Ó Santa Mãe de Deus, minha Santinha

Se as almas infantis são mais formosas
Se para ti são rosas, são carinho
Ó Virgem, dou-te as mais bonitas rosas
Mas deixa cá ficar o meu filhinho

No mês de Maio, lá foi cumprir, por fim
O prometido à Virgem, na capela
Ficou sem rosa alguma no jardim
Mas tinha o filho vivo junto dela

Irmãos de raça

Letra de Carlos Conde
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação 
credível


Portugueses de além mar
Meus nobres irmãos de raça
Que mourejais dia-a-dia
Portugal é um altar
Cheio de encanto e de graça
De beleza e harmonia

Desde o perfume da serra
Cantarolar das fontes / Meigas, suaves, divinas
Tudo alinda a nossa terra
Onde o sol desperta os montes / E a lua beija as colinas

Se dos jardins aos trigais
De rara policromia / São tudo encantos, belezas
Lindos são os arraiais
As festas e a romaria / Das aldeias portuguesas

Raça de heróis que se expande
E sabe afrontar revezes / Mercê do génio fecundo
Assim Portugal é grande
Tão grande, que há portugueses / Em toda a parte do mundo

Volto a ti

António Cálem / Carlos da Maia
Repertório de José Vilela


Volto a ti, ó fado amigo
P´ra te cantar minha mágoa
São os olhos rasos de água
Palavras que te não digo

Morrem à flor da garganta 
Os sonhos que já não são
Há só voz no coração
E um fado que ninguém canta

E sendo já madrugada
E só luz ao meu redor
Vejo a negrura maior
Da minha noite cerrada

E quem me dera morrer
Na noite que me matou
Ou matar quem me roubou
O sol deste amanhecer

Fado da loucura

Júlio de Sousa (música e letra do refrão) / Frederico de Brito (restante poema)
Criação de Mariamélia, actriz-cantora, irmã de Júlio de Sousa, que foi autor da música 
e da letra do refrão, enquanto Frederico de Brito escreveu o resto do poema.
Mariamélia gravou-o por volta de 1928. A partir daí, tem sido cantado e gravado 
com diversas variantes e adaptações, no entanto, a letra original é a que se segue:

É loucura que eu bem sei
O ter que andar à procura
De alguém que nunca encontrei
Sorte vil que eu lamento
Até o meu céu d’anil
Se tinge a cada momento

Chorai, chorai,
Guitarras da minha terra
Que o vosso pranto encerra
As mágoas do passado
E o mundo a rir
A rir às gargalhadas
Não tem dó das desgraçadas
Que morrem cantando o fado


Neste inferno, por meu mal
Sou qual barca sem governo
À mercê do temporal
Sofri tanto que eu nem sei
Se faria um mar de pranto
Tanto pranto que chorei

Noite morta

Antonio Calém / Jaime Santos *fado alfacinha”
Repertório de Maria Valejo


Solidão e noite morta
Noite morta e solidão
Nem tu vens bater-me à porta
Bater e pedir perdão

Foi-se o brilho das estrelas
Negrura só que me invade
Quem dera que fosse delas
Toda esta minha saudade

Mas a saudade é maior
Por já não saber de quem
Nem é saudade, é só dor
Dor de mim, de mais ninguém

De mais ninguém, de mais nada
Nem um vestígio de cor
E já rompe a madrugada
E é mais negra a minha dor

Sou cigana

Frederico de Brito / Jaime Mendes
Criação de Hermínia Silva no filme Ribatejo, em 1949

Eu sei ler a sina
Quando na mão vem gravada
Mas vou mofina
Se a mão não vem, não tem nada
Eu chego a andar farta
Desse mistério profundo
Pois ninguém sabe o que, ao certo
Vem fazer cá neste mundo

Sou cigana, porquê, não atino
Sou cigana por sorte fatal
Sou cigana e pergunto ao Menino Jesus
Por meu mal, quem é, quem é?
E sabe afinal, qual é, qual é?
O nosso destino


As sinas e as cores
São como os homens que juram
Eternos amores
Que sobram sempre e não duram
E o mal é que eu penso
Que eles são todos iguais
Gostam de nós hoje, imenso
E amanhã não gostam mais

Maneiras de ver

Letra de João da Mata
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Eu vi bem que tu me viste
Mas não viste que eu te vi
E se eu te disser não crês
Na verdade, o que é mais triste
É que eu só te vejo a ti
E tu a mim não me vês

Não me vês porque ninguém
Pode ver quando não crê / Naquilo que deve crer
Mas, vistas as coisas bem 
Há coisas que a gente vê / E que era melhor não ver

Eu já vi o que desejas
Os meus tristes olhos lêem / O mentir do teu olhar
Só lamento que não vejas
Aquilo que todos vêem / Quando gostam de gostar

Mas, ai de ti, se te vejo
Na cegueira da conquista / Aos olhos d’outras mulheres
Após ver o que desejo
Eu juro p’la minha vista / Que hás-de ver o que não queres

Mas… perdoa-me por Deus
Perdoa a quem anda cega / Por este mundo sozinha
Esmolando os olhos teus
E uma esmola não se nega / A uma triste ceguinha

Santa

Letra de Carlos Conde
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


E dizem que não há santas
Nem pecados; muito embora
A graça com que me encantas
Faz-te santa e pecadora


Para traçar o perfil / Desse rosto, desse olhar
Desse corpito gentil / Desse donaire sem par
Tinha que erguer-te um altar / E pôr-te lá, entre tantas
Para em vão eu notar quantas / Se assemelhassem contigo
És a santa que eu bendigo
E dizem que não há santas

P'ra fruir do corpo teu / Essas formas lindas, belas
O meu desejo é o céu / E os meus sonhos as estrelas
Faço-te preces singelas / A dia-a-dia, hora-a-hora
Em febre devoradora / Mas a tua ideia encerra
Que não há santas na terra
Nem pecados; muito embora

Teus olhos, sendo o calvário / Das minhas aspirações
São por vezes o rosário / Onde te rezo orações
Que de estranhas seduções / Eu sinto, quando levantas
Esse olhar onde quebrantas / A febre que em mim perpassa
Faz encanto e faz desgraça
A graça com que me encantas

Embora alguém te consagre / A paixão que já venci
Eu tenho fé no milagre / De ser beijado por ti
Nunca na vida descri / Caminhei p'la vida fora
E uma santa redentora / Me surgiu, ó santa linda
Mas a tua graça infinda
Faz-te santa e pecadora

Menino perdido

Letra de António Cálem
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Mal raiava ao longe o dia
Já eu era esse menino
Que cismava e se perdia
Nas brenhas do seu caminho

Nas brenhas do seu caminho / No rasgar de cada fraga
Mal ainda era menino / Já os olhos rasos de água

Já os olhos rasos de água / Já o sonho entre o luar
Já na terra a sua mágoa / Sem braços para a abraçar

Já o sol brilhava a prumo / Ele ardia por te ver
Mas tu mudaras de rumo / Quando o dele era sofrer

Quando o dele era sofrer / Sem saber que ainda era
Cedo para conhecer / A voz dessa Primavera

A voz dessa Primavera / E sentado à beira-mar
O menino ainda espera / A voz que o há-de chamar

Tudo passa de fugida

Letra de Carlos Conde
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Tudo passa de fugida
Neste mundo onde os esforços
Vão redobrando de ação
Há quem chegue ao fim da vida
Curtindo fundos remorsos
Por não ter sido ladrão

Este é ricaço afamado
Que pretende dar nas vistas / E que mais nada o consome
Aquele, foi sempre honrado
É dos mais belos artistas / Mas anda a morrer de fome

Este é rico e não tem filhos
Que os filhos não dão prazer / A certa gente de bem
Aquele tem duros trilhos
Mas é capaz de morrer / Pelos filhinhos que tem

Esta é rica em frases ledas
Diz-se a mais casta donzela / Mas a honra, onde ela vai
Aquela, não veste sedas
Mas os garotitos dela / São todos do mesmo pai

Há quem só pense no estudo
P’ra ser culto e bem formado / Porque o estudar o consola
Para no fim disto tudo
Ser lacaio, ser criado / De quem nunca andou na escola

Contraste

Letra António Vilar da Costa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Homem velho e mulher nova
Dão-me sempre esta impressão
Do inverno a ir prá cova
Co’a primavera p’la mão


Casaram: infeliz lembrança
Vejo-os todas as manhãs
Ele já de níveas cãs
Ela de alourada trança;
O vulto alegre da esperança
A par da desilusão,
Ele a treva, ela o clarão
Da vida que se renova
Homem velho e mulher nova
Dão-me sempre esta impressão


Ela a espargir sorrindo
Alegria desprendida
Ele a querer prender a vida
Que aos poucos lhe vai fugindo;
Impressiona, mas é lindo
O quadro, a triste visão
Que a minha imaginação
Sempre ao vê-los põe à prova
Do inverno a ir prá cova
Co’a primavera p’la mão

Solidão

António Cálem / Carlos da Maia
Repertório de Maria Valejo


Morre assim como viveste
Morre de pé e sozinho
Flor que nunca deu um fruto
Mas pura como o arminho

Já que é só este o teu mundo / Canta a tua solidão
Tudo o mais é o deserto / Fora do teu coração

Não deixes que a tua voz / Seja a voz de toda a gente
As lágrimas, as tuas lágrimas / Nunca mais ninguém as sente

E se ao morrer os teus olhos / Virem lágrimas nos meus
Será esse o paraíso / Aquele que Deus te deu

Paraíso ausente

António Cálem / Francisco Viana
Repertório de João Braga


Hoje dia em que te vi
Num jardim adormecido
P’ra quê se vivi em ti
Um paraíso perdido?

Se já foste a minha vida / Nada mais és que saudade
Longe de mim e perdida / És mentira e não verdade

Dás-te ao gesto que te enlaça / Vendes-te a qualquer olhar
Ficas presa a quem te abraça / Nem ficas… és só passar

Por isso não creio em ti / Nem no sol, nem no jardim
Hoje dia em que te vi / Hoje noite dentro em mim

Ilusão

Mote de autor desconhecido / Glosa de Carlos Harrington
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*


Na mesma campa nasceram
Duas roseiras a par
Conforme o vento as movia
Iam-se as rosas beijar


Dois entes que se adoravam / Quando jovens e com vida
Naquela campa esquecida / Lembram as rosas que amavam
Essas flores que encantavam / Rapidamente cresceram
No mesmo dia morreram / Como dois peitos leais
P’ra em tudo serem iguais
Na mesma campa nasceram

Mesmo o sinistro coveiro / Que as florinhas regava
Involuntário as olhava / Com gesto mais prazenteiro
Embora rude e grosseiro / Parecia cogitar
Que quisera Deus sanar / O agro do seu sofrer
Ordenando ali nascer
Duas roseiras a par

Quando os rouxinóis cantavam / Nos altos freixos do monte
Erguiam as flores a fronte / E em êxtases escutavam
Na haste se balouçavam / Quando a lua além se erguia
Só cessando quando o dia / Clareava a solidão
Elas bailavam então
Conforme o vento as movia

Mas certa noite fatal / Noite de agrestes nortadas
As pobres foram ceifadas / Pela ânsia do temporal
Uma lufada infernal / Pareceu rasgar o ar,
E ao coveiro ouvi contar / Que ainda pranto derrama
Que, desfolhadas na lama
Iam-se as rosas beijar

Outono

António Cálem / Alvaro Duarte Simões *fado meia noite e uma guitarra*
Repertório de João Braga
Sem conhecimento da gravação.

Outono, na tarde fria
As casas vão-se fechando
E a praia fica vazia
Até quando… até quando?

Caem as primeiras chuvas
As folhas morrem no chão
Todo o mar é só espuma
Toda a terra solidão

E um sorriso na partida
Gela o nosso coração
Ai se os dias desta vida
Fossem só feitos de Verão

Até quando… até quando
E as saudades já são tais
Que o mar ao fundo cantando
Diz à praia: nunca mais

Desespero

Letra de Domingos Gonçalves da Costa
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Dize lá: porque foi que me chamaste louco
Será porque te quis como ninguém te quer?
Quem tanto prometeu dando afinal tão pouco
Pode dizer de mim aquilo que quiser

Acreditando em ti, fui louco, não o nego
Não esqueço dessa boca as juras que escutei
Mas devias chamar-me, além de louco, cego
Pois perdido de amor não vi que me enganei

Mas ai, pobre de ti que o teu viver se apouca
Perdida noutro amor por ti sonhado em vão
E que num labirinto andas perdida e louca
Esmolando, tristemente, um pouco de afeição

Porém, se a vida agreste e as dores de que padeces
Vierem recordar-te o sonho que vivi
Podes voltar mulher, que o louco que conheces
Só teve esta loucura: a de gostar de ti

Quando passas por passar

Célia Barroca / Popular *fado mouraria*
Repertório de Célia Barroca


Eu não vivo do passado
Nem duma folha dum trevo
Quatro folhas me dão sorte
Quatro palavras atrevo;
Só duas são o meu nome
Outras duas são segredo

Eu não morro de saudade / Nem do teu amor ausente
Se me vês passas ao lado / Passas como toda a gente
E eu passo na tua frente
Viro costas ao passado

Nem assomos de tristeza / Que eu não morro de saudade
Quando passas por passar / Quatro palavras atrevo
Duas são o meu segredo
Que guardo no teu lugar

Nem assomos de tristeza / Que eu não vivo do passado
Se me vês passas ao lado / Passas como toda a gente
E eu passo na tua frente
Viro costas ao passado

Jeito fadista

Letra de Jorge Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


De viver entre a canalha
Ficou-me o jeito rufia
Quando ao brilho da navalha
Um fado triste se ouvia

Por essas ruas sem fim / Mães de fome e de desgraça
O fado entrou em mim / Como o sol pela vidraça

Assim sigo a minha sina / De desejo e de procura
Enquanto a sorte destina / O meu trilho de loucura

E é por isso que se espalha / À minha volta esse jeito
De viver entre a canalha / Ficou-me o fado no peito

Amei-te tanto

Fernando Teles /Júlio César Correia
Repertório de Maria Alice 
(nome artístico de Glória Mendes Leal Carvalho)

Amei-te tanto, tanto talvez, que enfim
O meu encanto é ver-te sempre bem perto de mim
Mas certo dia, dia cruel fugiste
Na fantasia d’amor fiquei sozinha, bem triste

Se acaso um dia se vá
Essa maldita paixão
Volta terás o lugar
Dentro do meu coração
Meu, que já não é meu
Este coração desfeito
É teu e muito mais teu
Do que o que trazes no peito

Essa mulher que te levou amor
Não tem sequer na alma o sentimento da dor
Tenho a certeza que é um capricho banal
Dela a crueza feroz hás-de sentir na fatal

E quando um dia acabar
Essa maldita paixão
Volta terás o lugar
Dentro do meu coração
Meu, que já não é meu
Este coração desfeito
É teu e muito mais teu
Do que o que trazes no peito

O nosso fado

Letra de Francisco Radamanto
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Fado-nosso que estás no coração
Da lusitana gente a palpitar
Santificado sejas na paixão
Dos que põem a guitarra num altar

Venha a nós tua doce melodia
Seja feita a vontade dos fadistas
Num novo e lindo fado cada dia
A vibrar nas gargantas dos artistas

Perdoa-nos, se acaso alguma vez
Pecámos contra ti, oh! excelso fado
Dá-nos sempre perdão, porque bem vês
Que nos arrependemos do pecado

Não nos deixes cair em tentações
De te desvirtuar… enche porém
De fé em ti os nossos corações
P’ra seres eterno em Portugal… amém

Guitarra chora comigo

Letra de Lopes Vitor
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Guitarra, querida guitarra
Eu quero chorar contigo
Sinto mais suave o pranto
Quando tu choras comigo


Nos rastos de uma alegria / Tantos caminhos trilhei
Só tristezas encontrei / E sinto a vida vazia
Essas noites que eu perdia / Só a saudade as agarra
E o meu peito por amarra / Liga-se à dor de um castigo
Guitarra, querida guitarra
Eu quero chorar contigo

Não me deixes ir embora / Tu sabes o que é sofrer
Deixa que eu faça morrer / A minha dor sem demora
Chora sim, guitarra chora / As melodias de encanto
Que sempre me alegram tanto / Podes crer no que te digo
Sinto mais suave o pranto
Quando tu choras comigo

Na Vila de Salvaterra

Letra de Isidoro de Oliveira
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Na vila de Salvaterra
Conta lenda que se aferra
Ao povo de Portugal
Que o luto toldou um dia
O calor e a alegria
Duma toirada real

Conde d'Arcos, por má sorte
Viera encontrar a morte / Na vila de Salvaterra
E o brinde, que é de uso e lei
Fê-lo morrer por El-Rei / Como se morre na guerra

Sai da tribuna ao terreiro
D'El-Rei, o velho Estribeiro / Fidalgo de porte altivo
Traz na mão a espada nua
E a expressão da cara sua / É mais de morto que vivo

A praça de lés a lés / Vê o toiro rolar-lhe aos pés
Cessam gritos, cessam brados
Na vila de Salvaterra / Cortam silêncio que aterra
Sinos dobrando a finados

Quem m'a contou, não sabia
Se é verdade ou fantasia / O que a velha história encerra
Eu só sei que nunca mais
Houve toiradas reais / Na vila de Salvaterra

Vida boémia

Carlos Conde / Túlio Pereira
Repertório de Maria Ameélia Proença (?)


Não quero ser escrava de preconceitos
Quero viver senhora dos meus defeitos

Quero cantar, sorrir, amar
Guardar comigo com devoção
Tanto o castigo como o perdão
Que Deus tenha p'ra me dar

Já fui hoje aos arrabaldes
Bebi uns "baldes", falei calão
Vi rufias turbulentos
E dei dois tentos num rufião
Depois cantei à guitarra
Junto samarra de quem eu quero e me quer
E de alma em brasa cheguei a casa
Mais fadista e mais nulher


Quero a boémia das grandes ceias nas hortas
Ser irmã gemea das noites fora de portas

Ter por amigas, duas cantigas
A minha voz, uma guitarra
E junto de nós, gente da farra
Ao jeito de eras antigas

O soldado cego

Mote de Linhares Barbosa / Glosa de Avelino de Sousa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Não me queres, não me admira
Perdi os olhos na guerra
Com eles tudo perdi
Mas disse-me alguém que os vira
No chão, cheiinhos de terra
‘Inda choravam por ti

Fui p’rá guerra e, a cada passo / Por ti sentia um carinho
Maior do que já sentira
Mas, um maldito estilhaço / Cegou-me, e ao veres-me ceguinho
Não me queres, não me admira

Sem carinho, amparo ou guia / Imerso em dor e abatido
Só mágoa o meu peito encerra
Não me queres e, todavia / Sem que te houvesse esquecido
Perdi os olhos na guerra

Fiquei cego duas vezes / ego de amor e, entre escolhos
Da vista com que te vi
E, carpindo os meus revezes / Senti que, ao perder os olhos
Com eles tudo perdi

Antes Deus me desse a morte / Que à dolorosa impressão
Dum amor que era mentira
Vê lá tu, que triste sorte / Não vi meus olhos no chão
Mas, disse-me alguém que os vira

Mas tu não tens piedade / uando eu solto os meus gemidos
Sobre as escarpas da serra
E recordo com saudade / Meus pobres olhos caídos
No chão, cheiinhos de terra

Não choram os olhos teus / Vivem alegres e absortos
Noutro amor – dizem p’r’aí
Mais leais foram os meus / Que, mesmo depois de mortos
‘Inda choravam por ti

Amor e fandango

Letra de Maria Manuel Cid
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Eu vi um lenço enramado
Corando, furtar um beijo
Ao teu colete encarnado
Na Feira do Ribatejo

E vi a saia de chita / De rosinhas de toucar
Com ciúmes duma fita / Do teu calção de montar

Vi o tamanco garrido / Que tu lhe deste de prenda
A beliscar, atrevido / A tua meia de renda

Vi fandango em toda a feira / Vi orgulho e aparato
E vi bailar a poeira / Mais o cordão do sapato

Vi tanta coisa de estalo / Que ao fim da tarde, acredita
Vi sorrir o teu cavalo / Prá Ruca do Zé da Guita

Não choreis os mortos

Pedro Homem de Melo / Maria do Rosário Bettencourt
Repertório de João Braga


Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas
Deixai crescer à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos

E quando, à tarde, o sol, entre brasidos
Agonizar... guardai longe as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras
Para os que vivem mudos e vencidos

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos
Da multidão sem fim dos que são vivos
Dos tristes que não podem esquecer

E ao meditar então na paz da morte
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer

Perdoa

Letra de Domingos Gonçalves da Costa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Que grande mistério existe
Neste amor, em que pressinto
Toda a cruz do meu viver
Se não te vejo, ando triste
E assim que te vejo, sinto
Desejo de não te ver

E na estranha sedução
Que traz meu coração preso / À mais cruciante dor
Surge esta contradição
Amo muito o teu desprezo / E desprezo o teu amor

Hoje, que tudo acabou
Nas condições mais nefastas / Apenas por teu desejo
Como és livre e eu livre sou
Quanto mais de mim te afastas / Mais perto de mim te vejo

Não deixes que ande carpindo
Mais esta dor, se quiseres / Podes-me chamar cobarde
Mas sabes que estou mentindo
Vem hoje já, se puderes / Que amanhã pode ser tarde

Marcha de Lisboa

Repertório de Lucinda Gouveia
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel

Voa, Joaninha, voa, voa
Vem a Lisboa, Junho é tão quente
Que esta gente canta, canta, canta
Se tens garganta, canta co’a gente

Mas se não tens voz faz-te alfacinha
Ó Joaninha, traz o João
E entrem já na marcha que se anima
Poisando em cima do meu balão

Vem daí de braço dado
Diz sorriso à mocidade
Lado a lado está provado
Que vão dar brado
P’las ruas da cidade
Santo António te abençoa
Vai com ela, toca andar
Rompe a marcha e tudo entoa
Parabéns Lisboa, tens um lindo par


Está o povo em festa, é festa, é festa
Gostamos desta e o mais são tretas
Viva a nossa marcha, viva, viva
É voz altiva, dos lisboetas

É o hino ao chão cá da cidade
Chão de Alvalade, chão de Belém
É Lisboa nova e regressa à vida
Lisboa antiga, Lisboa mãe

O meu destino

Letra de Fernando Teles
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*

Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


Quando nasci, o destino
Marcou-me na vida um fado
Meu coração pequenino
Logo bateu apressado

Que fado seria aquele / Que o Destino me marcava
Que tendo receio dele / Minha pobre mãe chorava

E o pranto de minha mãe / Caindo sobre o meu peito
Deu-me tristeza também / Tristeza que é meu defeito

Fui crescendo, sou mulher / E o destino, o que me deu
Foi um fado que me quer / Um fado que é muito meu

Sou portanto agradecida / Ao fado que me foi dado
O fado da minha vida / Que é sempre cantar o fado

Prece mensagem

Fernando Pessoa / João Braga
Repertório de João Braga


Senhor, a noite veio e a alma é vil
Tanta foi a tormenta e a vontade
Restam-nos hoje, no silêncio hostil
O mar universal e a saudade

Mas a chama, que a vida em nós criou
Se ainda a vida ainda não é finda
O frio morto em cinzas a ocultou
A mão do vento pode erguê-la ainda

Há o sopro, a aragem, ou desgraça ou ânsia
Com que a chama do esforço se remoça
E outra vez conquistemos a distância
Do mar ou outra, mas que seja nossa

Cantigas sadias

Letra de Gabriel de Oliveira
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Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*
Letra publicada a 25.07.1938 na edição Nº 345 
do jornal Guitarra de Portugal

Cantadores e cantadeiras
Cantem cantigas sadias
Tragédias e choradeiras
Já não são p’ra os nossos dias

Rapazes e raparigas / Alegrai a nossa terra
Não cantem essas cantigas / Que só nos falam da guerra

Cantem cantigas de amor / Ao céu, à terra e ao mar
Com a graça e o sabor / Da cantiga popular

Cantem a excelsa beleza / Do nosso Algarve e do Minho
E depois tende a certeza / Que alegrais o Zé Povinho

Essas cantigas pesadas / Dramalhões e outras lérias
Não devem de ser cantadas / Só nos revelam misérias

Cantem cantigas sadias / Cantem cantigas modernas
Já não p’ra os nossos dias / As cantigas das tabernas

O fado que trago em mim

Letra de Manuel de Andrade
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


É ilusão, é verdade
Procura, sombra e saudade
O fado na minha boca
Vagabundo fui na vida
Essa existência perdida
Naquela boémia louca

Após a ébria loucura
Em que vivi à procura / Dum sonho, duma quimera
Vi murchar na minha mão
Rosas lindas em botão / Como são na Primavera

O fado que trago em mim
Fala de morte e de fim / Dum sonho que já morreu
Tudo passa a pouco e pouco
Fica o fado, o fado louco / Fado triste, fado meu

Amor e ciúme

Letra de Frederico de Brito
Desconheço se esta letra foi gravada.
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O amor de uma fadista
Que em ser fadista presume
Acaba aonde começa
Dura enquanto houver ciúme

Quem se lançar à conquista
De um amor que não conhece
Cuidado se lhe aparece
O amor de uma fadista

É fácil que lhe resista
Por instinto ou por costume
Que não se queime no lume
Onde tocou sem cautela;
Fadista não é aquela
Que em ser fadista presume

Portanto, quem tiver pressa
Veja se pode vencê-la
Pois se é vencido por ela
Acaba aonde começa

Se lhe ouvir uma promessa
Um ai profundo, um queixume
Veja se não se resume
Em passageiro despeito;
Amor de ciúmes feito
Dura enquanto houver ciúme

A grande volta

Letra de Carlos Conde
Repertório de Manuel dos Santos
Desconheço se esta letra foi gravada.
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A volta desta vida é a maior
Das voltas mais cruéis que o mundo tem
Cada etapa revela um vencedor
Que sabe pedalar como ninguém

Há quem chegue primeiro em linha reta
Como há quem vença em áspera subida
Mas pode não ganhar nem ver a meta
Quem não for cauteloso na descida

Quando a sorte acompanha o concorrente
Não há caminho mau, curva ruim
Mas se o carro de apoio passa à frente
Os ases nunca mais chegam ao fim

Um furo é mal que enerva e desconsola
O que tem a vitória por divisa
Porque além de perder a camisola
Até pode ficar sem a camisa

E os campeões, os ases consagrados
Na mira irresistível de ganhar
Até pisam aqueles desgraçados
Que chegam sempre em ultimo lugar

Desgraças

Mote de autor desconhecido / Glosa de António Amargo 
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Sentado à porta da escola
Onde a instrução espalhou
O professor pede esmola
Aos alunos que ensinou


Poucos conhecem, talvez / Naquela pobre aldeola
Quem eu vejo tanta vez / Sentado à porta da escola

É um triste de um velhinho / Que a muita idade mirrou
E vem acoitar-se ao ninho / Onde a instrução espalhou

Ensinou a aldeia a ler / Com mágoa que desconsola
E para poder viver / O professor pede esmola

E por suprema irrisão / Como o destino o cegou
Pede uma côdea de pão / Aos alunos que ensinou

Olhos tagarelas

Letra de Jorge Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Falam p’la boca que calas
Os teus olhos de veludo
Fechas a boca não falas
Olhas e dizes-me tudo

São meninas tagarelas / As que em teus olhos embalas
Não digas nada porque elas 7 Falam p’la boca que calas

Podes passar quedo e mudo / Que não conseguem porém
Os teus olhos de veludo / Passarem mudos também

Por que razão é que tu / Fechas a boca não falas
Se trazes postos a nu / Mil pensamentos que calas

Olhas e dizes-me tudo / Mas em tudo que te ouvi
Não acredito e contudo / Não tiro os olhos de ti

Alfama

Letra de Francisco Radamanto
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Não tenham medo da fama
De Alfama mal afamada
Que a fama, às vezes, difama
Gente boa, gente honrada


Ó meus senhores, venham ver / O meu bairro estranho e belo
De povo humilde e singelo / Que sabe amar e sofrer
Venham a alma aquecer / Ao calor da ingénua chama
Da franca rudez que é flama / Desta Alfama linda e pobre
E da má fama que a cobre
Não tenham medo da fama

Vejam janelas em flor / Com vasos, roupa a corar
E uma gaiola a abrigar / Um pintassilgo cantor
Vejam trabalhos e amor / Oiçam beijos e… pancada
Aqui não vem mascarada / A vida, ao sair à rua
Nem esconde a verdade nua
De Alfama mal afamada

Neste becos, nestes trilhos / Como a miudagem medra
Os homens não são de pedra / E as mulheres não temem filhos
São bem outros os cadilhos / Que a vida ruim lhes trama
Nunca lhe atirem a lama / Dum conceito deprimente
Não o merece esta gente
Que a fama, às vezes, difama

Não sabem de outra ambição / Outro ideal de grandeza
Que, p’ra os filhos, ter na mesa / Um pedacito de pão
Se há a mais uma canção / Um Fado, uma guitarrada
Um bailarico… este nada / Põe Alfama toda em festa
E é bem feliz, então, esta
Gente boa, gente honrada

A rosa brava

Letra de Domingos Gonçalves da Costa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel

O nome dela era Rosa
Era de Alfama e cantava
Do nascer ao pôr-do-sol
Pequenina, graciosa
E a sua voz recordava
O canto do rouxinol

Nas rodas do bailarico
Cantou cantigas brejeiras / Em noites de São João
Ela, mais o namorico
Com ele saltou fogueiras / E queimou o coração

Chamam-lhe hoje a Rosa Brava
Perdeu a graça singela / Que a Rosa, mimosa, tem
Por dum falso amor ser escrava
Envelheceu à janela / Esperando por quem não vem

Hoje, canta, ao embalar
Uma Rosa de toucar / Fruto de ilusão perdida
E pede a Deus que a proteja
P’ra que essa rosa não seja / Como ela, Rosa caída

Já te paguei por amor

Letra de Silva Tavares
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Já te paguei, por amor
Muito mais do que devia
Vê lá se fazes favor
De me dar a demasia


Faz agora p’lo São João / Dois anos que te encontrei
E preso por ti fiquei / De todo o meu coração
Tão preso que, desde então / Tenho andado ao teu dispor
Comes bem, vives melhor / Â conta cá do morgado
E até o quarto alugado
Já te paguei, por amor

Vesti-te de lés a lés / E hoje andas toda catita
Já botas saia de chita / E chinelinhas nos pés
Vai fazer domingo um mês / P’la Senhora da Agonia
P’ra levar-te à romaria / Empenhei-me totalmente
E já devo a muita gente
Muito mais do que devia

Ora se isto não tem jeito / Ainda menor jeito tem
Eu ter-te e não ter ninguém / Pois durmo só no meu leito
Gozar fama, sem proveito / Não há tolice maior
Vou falar ao siô prior / P’ra me tratar do serviço
E tu vai pensando nisso
Vê lá, se fazes favor…

Meu coração, rapariga / Anda, por ti, numa chaga
E amor com amor se paga / Diz uma velha cantiga
De resto, ninguém te obriga / A pagar tudo num dia
Mas fiz mais do que podia / E é justo que o reconheças
P’ra que ao menos não t’squeças
De me dar a demasia

Feliz regresso

Letra de Lopes Vitor
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Fugindo do meu peito, o coração
Correndo, ele andou p’lo mundo fora
Ferido pelo gume da traição
Ao ver que tu fugias, como outrora

Nem sabes a loucura que senti
Nas noites de vigia, sempre alerta
Esperando que voltasses para mim
Entrando pela porta sempre aberta

E quanto tu surgiste, p’ra ficar
Falando na loucura que fizeste
Fiquei silenciosa a recordar
Cantando com o beijo que me deste

Agora, já unidos para sempre
Juntemos nossas forças p’ra lutar
Vivamos este sonho eternamente
Na casa em que esperei teu regressar

Pardal fadista

Letra de Francisco Radamanto
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Pardalito vadio, irreverente
Vagabundo sem ter eira nem beira
Sabes viver a vida livremente
Nada tens mas é tua a terra inteira

Sempre sem ambições, meu pardalito
Deixa viver os outros com esplendor
Chega bem para ti esse infinito
Galardão de ser livre… é bem melhor

Não gostas da gaiola… és como eu
Preferes procurar o pão incerto
Nenhuma grade de oiro paga o céu
Da liberdade azul… – o céu aberto

Ao canário, a garganta de cristal
Ao rouxinol, a presunção de artista
Não deves invejar… tens mais, pardal
Tens alma de boémio… és um fadista

A fabricante de meias

Letra de Artur Soares Pereira
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel


És mulher mas não me enleias
Com a tua perna nua
És fabricanta de meias
E andas sem meias na rua


Passas por mim a sorrir / E eu, ao ver-te passar
Medito, fico a pensar / Sem saber o que sentir
Tens graça no teu vestir / Os homens tu não receias
Com um sorriso os rodeias / E a tua graça singela
Porém, a mim, minha bela
És mulher mas não me enleias

Dotado de encantos mil / O teu corpo escultural
Faz lembrar um roseiral / Em manhã primaveril
E o teu rosto juvenil / Dá mais graça à graça tua
Tu és mais linda que a Lua / Manda a verdade dizer
Mas muito mais, podes crer
Com a tua perna nua

Os teus ares provocadores / Fazem-te ser mais notada
E por isso és adulada / P’los teus admiradores
Com teus modos sedutores / Muitas paixões tu ateias
E os corações incendeias / A quem de ti pensa mal
Julgam-te rica... afinal
És fabricanta de meias

Não compreendo a razão / Que, sendo tu fabricanta
Vistas por forma que encanta / Com tal luxo e presunção
Se lutas pelo teu pão / Se o teu rosto também sua
A verdade é muito crua / Mas tenho que te dizer
Fazes meias p’ra viver
E andas sem meias na rua

Triste fado

Letra de Jorge Rosa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel

Alguém te viu há bocado
Trauteando um triste fado
Todo metido contigo
Quem o fado lhe apetece
É porque sofre e padece
E anda a tristeza consigo

Não adianta dizer
Que já podemos correr / P’lo mundo à nossa vontade
É falso, já percebi 
A vida não nos sorri / Nem nos dá felicidade

Nossas vidas, pobres delas
Como linhas paralelas / Seguiram a mesma estrada
Mas p’rá regra se cumprir
Não se puderam unir / Ao longo dessa jornada

Não seres meu, nem eu ser tua
Foi a lei e continua / A ser lei que nos assiste
Um rumo p’ra cada um
Tendo apenas de comum / Um fado triste, bem triste

Contradições

Mote Popular / Glosa de Linhares Barbosa
Desconheço se esta letra foi gravada.
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Dizem que as mães querem mais
Ao filho que mais mal faz
Por isso eu te quero tanto
E tantas mágoas me dás


Cai um filho no pecado / Nas ruas da perdição
Logo a mãe lhe traz perdão / Como que a um desgraçado
O seu olhar magoado / Tem clarões celestiais
Os seus braços maternais / Jamais o julgam ruim
Dos filhos que são assim
Dizem que as mães gostam mais

As mães, perante os vaivéns / Dos filhos mau, infelizes
Nunca sabem ser juízes / Sabem apenas ser mães
Eles, às vezes, os cães / É que as imaginam más
A mãe é sempre tenaz / No carinho, na concórdia
Bandeira de misericórdia
Do filho que mais mal faz

Vivem os nossos desejos / Das mesmas contradições
Tu, só me dás ralações / Eu, não te dou senão beijos
Sentes festivos lampejos / Vendo meus olhos com pranto
Fazes-me sofrer, no entanto / Perdoo, torno a perdoar
Tu só me fazes penar
Por isso eu te quero tanto

Há quem não te possa ver / Por ver que tu me maltratas
E eu, mesmo que tu me batas / Odeio quem mal te quer
Amor!... desgosto e prazer / Angústia que satisfaz
Que é calma, que é desespero
Meu bem… eu tanto te quero
E tantas mágoas me dás