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As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: nem sempre são mencionados os legítimos criadores.

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6.170 LETRAS PUBLICADAS // 1.970.000 VISITAS // OUTUBRO 2020

Atingido este valor // Que me faz sentir honrado // Continuo, com amor // A ser servidor do fado.

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Existem (pelo menos) 90 letras publicadas que nao constam do índice.

Caso encontre alguma avise-me, por favor.

Se não encontra o Fado preferido // Envie, por favor, o seu pedido.

Maria II

Antero de Quental / José Marques *fado rigosso*
Repertório de Camané


Nova luz que me rasga dentro d’alma
Dum desejo melhor me veste a vida
Outra fada celeste agora leva
Minha débil ventura adormecida

Não sei que novos horizontes vejo
Que pura e grande luz inunda a esfera
Quem, nuvens deste inverno, nesse espaço
Em flores vos mudou de primavera

Se as noites nos enviam mais segredos
Ao sacudir seus vaporosos mantos
Se desprendem do seio mais suspiros
É que dizem teu nome nos seus cantos

Nem eu sei se houve amor até este dia
Nem eu sei se dormi até esta hora
Mas quando me roçou o teu vestido
Abri o meu olhar, acordo agora

Passeias nos meus sonhos

Manuel Carvalho / Alfredo Duarte *fado pájem*
Repertório de Fernanda Moreira


Passas as noites comigo
A passear nos meus sonhos
Sozinha p’ra meu castigo
Eu passo os dias medonhos

Ai quem me dera poder / Nas horas que o dia tem
Dormir, sonhar, p’ra te ter / Presa a meus sonhos também

Tudo isto é a saudade / Do teu corpo, dos teus beijos
E creio nessa verdade / Sonhos traduzem desejos

O dia é meu inimigo / Só te tenho noite fora
De noite sonho contigo / Vem a manhã, vais-te embora

À guitarra me confesso

Fernando João / José António Sabrosa *4as*
Repertório de Fernando João


À guitarra me confesso
Sinto-me bem a seu lado
A ela tudo agradeço
Nas minhas noites de fado

O seu trinar tem magia
Que me deixa entusiasmado
O sabor da melodia
Dá mais valor ao meu fado

Em forma de coração
Tem amor e tem encanto
E diz-nos com precisão
Toda a mágoa do seu pranto

Cantarei sempre o meu fado
Pela minha vida inteira
Pois terei sempre a meu lado
A guitarra companheira

Não se demore

Diogo Clemente / Pedro Rodrigues
Repertório de Sara Correia


Bastou passares de repente
Ouvi-te a voz lá em baixo
Ri-me p’ra mim sem querer
Há um mundo inteiro entre a gente
Mas na verdade ainda acho
Que passas só p’ra me ver

Bastou cantares uma vez
Que o amor na tua boca / Parecia inteiro p’ra mim
Posso estar louca, talvez
A loucura é coisa pouca / E eu vou negar-te este fim

Bastou que alguém me dissesse
Que te ouviu um destes dias / Dizer, que o adeus se demora
Que se acaso eu me perdesse
Chegavas de mãos vazias / P’rás encheres de mim agora

Pediste só que não chore
E à falta de despedida / Trago ciúmes e invejas
Que outro amor não se demore
Que ando perdida na vida / À espera que tu me vejas

Sonhei, chorei

Rui Rocha / José da Câmara *fado zéquinha*
Repertório de José da Câmara


À saudade me entreguei
Mantendo a mesma ansiedade
Desse amor que recusei
Por ciúme surdo e cego
O meu amor se resume
A esta dor que carrego

Então sonhei que teu coração perdoava
E nosso amor se enlaçava
Não te voltava a perder
Depois chorei porque te disse que não
E ao escolher a solidão
Triste voltei a viver


A verdade, quem esconder
Fica sujeito à vontade
Do que a mentira escolher
Se a paixão se enganou
Nego esta contradição
Digo que o amor se finou

Depois sonhei que teu coração se encantava
E nosso amor perdurava
Não te voltava a perder
Então chorei, porque meu mundo ruíu
Foi teu amor que partiu
Triste voltei a viver

Tu ganhas sempre

Letra e música de Diogo Clemente
Repertório de Sara Correia


Chegaste hoje com tanto p’ra me dar
Parti, não quis saber, não eram horas
Tens sempre esta inconstãncia de chegar
Num dia de repente, noutro demoras

Eu sei que venho embora a contra-gosto
O corpo vem e a alma fica tua
O que era dia, em mim fica sol-posto
E o sol fica a doirar a tua rua

Tu ganhas sempre
Por te dares só às metades
Tu ganhas sempre
Por andares de amor sem dono
Faço-me forte, fujo e digo que estou bem
Não devo nada a ninguém
Muito menos vou ser tua
Depois sózinha, rezo p’las tuas vontades
P'ra que a rua delas todas
Sejam só a minha rua


A causa disto tudo, não sei bem
Passamos muitos anos lado a lado
Uns dias eras meu, outros d’alguém
Uns dias era tua, outras do fado

Não faço mais contas ao que há-de ser
Este bailar de sombra e luz na vida
Serenamente sei que vou viver
À espera que me chegues sem partida

Uma ilusão escondida

Henrique Abreu / Francisco José Marques *fado zé negro*
Repertório de Henrique Abreu


No decorrer desta vida
Cada um de nós traz consigo
Alguma ilusão escondida
Que cresce no pensamento
Às vezes fica perdida
Às vezes fora de tempo

O tempo que vai durar / Ninguém sabe até quando
Permanece a emoção
E tudo pode mudar / Um ideal vai passando
Não passa duma ilusão

A crença pode trazer / O desejado milagre
Que toda a gente procura
Do sonho à realidade / A ilusão poderá ser
Uma verdade segura

Então o amargo do fel / De uma causa perdida
Já deixou de ser assim
E o doce travo de mel / De uma ilusão conseguida
Transborda dentro de mim

Porquê do fado

Letra e música de Carolina Deslandes
Repertório de Sara Correia


Não me perguntes o porquê do fado
Pergunta ao fado o que é que ele viu em mim
Que me encontrou e andamos de braço dado
Desde que sou gente… foi assim

Não me perguntes porque é que eu o escolhi
Se o coração já lhe falava e eu ouvia
Era a canção das ruas onde cresci
Que embalava o canto da minha agonia

Não me perguntes o porquê do fado
Não me perguntes se estou decidida
Não é escolha, é ser, é estar marcado
Perguntas-me o porquê do fado
Perguntas-me o porquê da vida


Não me perguntes se me pesa a tristeza
Destes versos e poemas tão antigos
É uma canção que é oração, é uma reza
Que faz dos meus demónios meus amigos

Não me perguntes o porquê de querer ficar
Se o mundo inteiro começou e acaba aqui
Foi ele que me viu e foi buscar
As outras vidas que sem saber já vivi

Amar não é partir

Letra e música de Henrique Abreu
Repertório do autor

Meu amor, meu amor, que bom seria
Se me deixasses conhecer os teus anseios
Meu amor, o que eu não faria
P’ra desfazer o temor, os teus receios

Meu amor de amar a vida inteira
Numa praia, num jardim, em toda a parte
Num copo que acende a fogueira
Ou no silêncio, quando a chama já não arde

Meu amor, eu amo sem idade
Sem tempo demarcado numa imagem
Meu amor, aceita esta verdade
Esta paixao é uma prova de coragem

Meu amor, amar não é partir
É suportar o mal que o bem encerra
Por isso eu não vou fugir
Com este amor que não se cala nem sossega

Saudades da ilha

Letra e música de José Machado Neiva
Repertório de Max


Pico Ruivo, sentinela
P’ra no sol ninguém tocar
E Camacha, flor bela
Com motivos p’ra sonhar

E p’ra ter um feliz lar
Vão à Senhora do Monte
Os namorados rezar
Junto à milagrosa fonte

Madeira... Deus fez de ti um altar
Para seres vista do mar
Com ternura e com encanto
Madeira ... eu nem me quero lembrar
Que tive de te deixar
Depois de ti gostar tanto


Rabaçal de tradição
Todo cheio de lirismo
E de ti, Cabo Girão
Aveniu o teu abismo

Adeus ó Santo da Serra
E outras mais maravilhas
Vou dizer que a minha terra
É a raínha das ilhas

Por perto

Letra e música de Jorge Cruz
Repertório de Sara Correia


Mais vale abrir trincheiras, fechar fronteiras
Pôr guarda à volta do perímetro
Trocar as fechaduras, estar às escuras
Baixar os estores, apagar o lume;
Mandar para a sucata os discos do Sinatra
Do Marvin e até do Chico
Esquecer o tal vestido e o armora desse teu perfume

Pôr o telemóvel em modo de voo
Espalhar um par de armadilhas p’lo caminho
Reler os manuais de compustura e decoro
Guardar no armário as garrafas de bom vinho

Partir de férias, desaparecer / Ficar de cama, adoecer
Refugiar-se num safari pe’lo deserto
Sempre que andares por perto

Não tarda vais ligar-me / Puxar do charme
Às quatro e tal da madrugada
E por mais que isso me irrite / Vou caír no teu convite
Saír p’ra fora dos carris
Vai soar aquela rima / olar aquele clima
E em vez de querer que o tempo passe
Vou mentir-me a mim própria / Nos teus braços achar-me feliz

Quando der por mim, já estou a rir das tuas graças
E a apontar constelações no céu estrelado
A reparar em pormenores de cada coisa que faças
A dançar de coração sobressaltado

Vai-se acender o meu rastilho/ Tu vais premir o meu gatilo
Depois partir pela mnhã, ah isso é certo
Sempre que andares por perto

Um olá nunca é apenas um olá
Um momento nunca é só um momento
O melhor é não lançar beatas
Pró rescaldo do incêndio

Horas desta vida

Mote de Manuel de Andrade / Glosa de Daniel Gouveia / Popular *fado das horas*
Repertório de José da Câmara e Rodrigo

MOTE
Há horas, há tantas horas
Nas horas que a vida tem
E às vezes, em poucas horas
Vivem-se vidas também


Dá-nos voltas o destino / Reviravoltas a sorte
O velho já foi menino / Vai-se a vida, fica a morte;
Buscas sul, perdes o norte / Sobes, desces, num vai-vém
Neste contraste, porém / De sofrimento e melhoras;
Há horas, há tantas horas
Nas horas que a vida tem


Dura um segundo a paixão / É eterna uma saudade
Passa breve a mocidade / Nunca mais passa a prisão;
Há quem tenha a ambição / De num ano viver cem
Mas à pressa não convém / As pressas dão em demoras;
E às vezes, em pocas horas
Vivem-se vidas também


Por passares

Diogo Clemente / Vitorino
Repertório de Sara Correia


Ponho a mesa, arranjo as flores
Visto o meu melhor vestido
É domingo e o meu amor
Vem de lá só p’ra me ver;
Já perdi tantos amores
Que me trazem no sentido
E seja lá o que isto for
Vou chamar-lhe amor e crer


Ponho a voz no coração / A guiar tudo o que faço
Sem ligar ao que se diz / Sobre o frio das minhas dores
Entreguei-me à sua mão / P’ra cuidar do meu cansaço
E a contar em ser feliz / Ponho-a na mesa, arranjo as flores

Trago aqui dentro de mim / Aquilo que eu não digo
O silêncio que ao chegar / Calou tudo o que sonhei
Viu-te entrar no meu jardim / E eu morrer de amor contigo
Viu-te ires p’ra outro lugar / E que eu nunca mais na vida amei

Ponho a mesa, arranjo as flores / Seco as lágrimas e canto
E à janela vou ficar / Com o sol esqueço-me de ti
Acordei as minhas dores / Por te ver neste entretanto
Por passares só por passar / A lembrar-me que morri

O meu amor dá-me vida

Henrique Abreu / Franklim Godinho *6as*
Repertório de Henrique Abreu


O meu amor é um castigo
Se eu a não vejo um só dia
Faço tudo o que é preciso
Digo que a vi e não via;
E a mentir assim, consigo
Sonhar e ter alegria

O meu amor é um tormento  / Quando foge e perde a fala 
Não me sai do pensamento  / Não se importa, não se rala;
Às vezes eu perco o alento 
Mas não consigo deixá-la

O meu amor é constante / Não anda ao sabor do vento
Penso nela a cada instante / Rio e choro num momento;
Fica mais perto ou distante
O céu que eu próprio invento

O meu amor é esperança / Com seus olhos m’ilumina
Sinto-me outra vez criança / P’ra longe vá a má sina;
Tenho uma fá que não cansa
Tenha um graça divina

O meu amor dá-me vida / Dá-me o ser e o não ser
É o fim e a partida / É ganhar mesmo a perder;
O meu amor dá-me vida
Com ela vou renascer

Solidão

Paulo Abreu Lima / António Zambujo
Repertório de Sara Correia e António Zambujo


Já não sei viver sózinha
Por mais que diga que sim
Parece coisa tão pouca
Um beijo na tua boca
Mas é tanto para mim

E por mais contas que faça
O amor não se explica
Mais forte do que a razão
É dono do coração
E dele não abdica

Vem por isso, meu amor
Mesmo que seja já tarde
Porque é sempre muito cedo
P’ra te dizer em segredo
Que te quero de verdade

Já sinto os passos lá fora
E um baque fundo no peito
Será que chegas agora
Desta espera, hora a hora
Quando sózinha me deito

Esta Ribeira tripeira

Letra e música de Henrique Abreu
Repertório do autor


Ribeira do meu Porto tão lindo
Deste cais de saudade
Ribeira sem Rabelos com vinho
Porque tens outra idade

Ribeira, tua vida brejeira
Faz inveja à cidade
Ribeira, tens a mesma maneira
De viver com verdade

Esta Ribeira tripeira
Tem cheiro a peixe e a fruta
Esta Ribeira tripeira
Tem a gente que labuta
Esta Ribeira tripeira
Tem domingos de sol quente
Esta Ribeira tripeira
Tem passado e tem presente


Ribeira deste rio afamado
Deste Douro arrogante
Ribeira, tens o gosto que eu trago
A poesia distante

Ribeira, velha companheira
Que me afaga a tristeza
Ribeira do pregão e d’asneira
Quem te vê, vê franqueza

Os teus recados

Manuela de Freitas / José Marques *Fado José Marques e/ou Piscalarete*
Repertório de Sara Correia
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Este tema aparece na discografia da Sara correia como sendo o Fado Triplicado
Esta melodia, sem a rima intercalar, deixa de ser Triplicado


Tu querias me convencer
Que me bastava viver
Dos recados que mandavas
Só recados recebia
Não te falava nem via
Nem sabia onde é que andavas

As noites que não dormi / À espera, já não de ti
Mas de um recado qualquer
Pedi então que parasses / Que recados não mandasses
P’ra que eu pudesse esquecer

Para mal dos meus pecados / Tu mandavas mais recados
Indif’rente ao que eu pedia
E até hoje, sem parar / Continuas a mandar
P’ra que eu sofra o que sofria

Mas não te prendas comigo / Eu já nem sequer lhes ligo
Tantos anos já passados
E agora há um bom motivo / É que o homem com quem vivo
Acha graça aos teus recados

Ilha da Madeira

Mário Teixeira / Artur Ribeiro
Repertório de Max


Quando te deixei, Madeira
Eu trouxe como bagagem
Saudades prá vida inteira
E um beijo teu p’rá viagem

Agora moro ao abrigo
Desta Lisboa encantada
Que quando sonho contigo
Parece cantar comigo
Esta canção magoada

Minha Madeira querida
Tão pequenina e garrida
Cheia de luz e de cor
Ilha de encanto e beleza
Linda terra portuguesa
Por quem quis ser trovador

Minha Madeira velhinha
És um ninho de andorinha
Vogando no mar sem fim
No meu cantar de saudade
Eu peço a Deus que te guarde
Inteirinha para mim

Coração, tinhas razão

António Rocha / Carlos Simões Neves *fado tamanquinhas*
Repertório de António Rocha


Coração vamos contar
As nossas recordações
Vamos aqui desfiar
Um rosário de paixões
Que tivermos para dar

Lembras o primeiro amor? / Vá lá não digas que não
Foi de todos o pior  / Mas foi teu Deus e senhor
Lembras-te meu coração?

Depois, mais amores vieram / Morar na tua afeição
Não te compreenderam / E tu mal sabias quem eram
Sofreste meu coração

Desde então ao amor cego / Disseste sempre que não
Tiveste razão não nego
Findou o teu desassossego
Fizeste bem coração

E agora com desventura / Dizemos e com razão
Que embora seja loucura / O amor anda à procura
De quem não tem coração

Chegou tão tarde

Letra e música de Joana Espadinha
Repertório de Sara Correia


Meu amor chegou tão tarde / E o meu canto adormeceu
Não deram sinal os cardos / E a madeira não rangeu

Mas que casa tão bonita / Foi vestida de retratos
Mas a história que foi escrita / Não se pode descoser

Meu amor chegou tão tarde / Com pezinhos de algodão
Tinha areia no cabelo / E outra luz no coração

Nossa história foi bonita / Vou guardá-la enquanto dormes
Que o amor nem acredita / Que o deitaste fora assim

Meu amor
Devo deixar-te partir
Se já não ardes por mim
Se o coração quis assim
Devo deixar-te seguir
Vai, que preciso chorar em paz
E em cada passo que dás
Chego mais perto de mim


Fui loucura, fui coragem / Fui tristeza e fui esplendor
Tudo o que me fez amar-te / Vou guardar e sem rancor

Monto o forte na desdita / Como tantas vezes fiz
Que o amor nem acredita / Que não pode ser feliz

O amor de minha mãe

Henrique Abreu / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de Henrique Abreu


O amor de minha mãe, o amor perfeito
Cresceu dentro do berço e me embalou
Cresceu e vive agora no meu paito
O amor de minha mãe, veio e ficou

O amor de minha mãe não faz sofrer
Guarda para si mesmo a ingratidão
Finge não ter desgostos mas quer saber
De um filho, que não vence a decepção

O maor de minha mãe, amor sem fim
P’ra sempre na minh’alma residente
E se Deus a quiser levar de mim
Não vai querer levar o amor presente

Dizer não

Letra e música de Luísa Sobral
Repertório de Sara Correia


Não me olhes assim / Não me toques na mão
Qualquer gesto ou sinal 
Qualquer olhar fatal / Pode ser o meu fim

Não quero perder / Tudo aquilo que ganhei
Por um momento de prazer
Algo sem razão de ser / Algo que não evitei

Fico então no meu canto / Para nada acontecer
Se sonho contigo ou não / Ninguém terá de saber

Ah coração mal-educado
Rebelde, tresloucado
Não ouves a razão
E eu que me pensava feliz
Com o amor que sempre quis
Sofro por te dizer não

Tenho a vida das marés

Henrique Abreu / Armando Machado *fado licas*
Repertório de Henrique Abreu


Dizem que eu tenho a vida das marés
Porque nasci da morte em qualquer mar
Percorrendo o mundo de lés a lés
Lancei amarras antes de chegar

Eu destruí o mapa da viagem
Na fogueira que a dor incendiou
Mas fica sempre uma leve miragem
Da bonança que fui e já não sou

Então seguindo a rota do vento
Eu vou gastar as ondas no meu peito
E assim hei-de apagar o sofrimento
Que envolve o meu coração imperfeito

Todo o amor é feito de inconstância
Tal como as marés nunca são iguais
Mas ninguém pode viver de lembrança
De um tempo que não volta nunca mais

Antes que digas adeus

Diogo Clemente / Armando Machado *fado maria rita*
Repertório de Sara Correia


Antes que digas adeus
Vou-te dizer isto assim
Pró caso de te não ver
Os meus olhos são os teus
Não soube ver este fim
E o que for há-de doer

Antes que partas de vez
Meu amor, ouve com calma / Meu chão, meu porto de abrigo
Fugires de mim é talvez
Mais do que doer-me a alma / Levares metade contigo

Eu nunca fui de ceder
E o meu orgulho chegou / Sempre primeiro do que eu
Deu todo o amor a perder
E o que do amor me sobrou / Guardarei aqui e é só meu

Mas se for este o caminho
Foi por falta de cuidado / Não há leis na despedida
Sei que vais seguir sozinho
E eu vou sonhar-te a meu lado / Pró resto da minha vida

A nossa cidade é Lisboa

Diogo Lucena e Quadros
Repertório de José da Câmara


Lisboa tem um céu estrelado
Tem ruas de calçada preta
Tem o Rio Tejo e canta o fado
Lisboa tem alma de poeta

E dias mil vivem nos seus dias
E seu sembalnte se encanta de os viver
As belas marchas trazem agonias
Que largam tudo e veêm para as ver

Nossa cidade é tão boa // É Lisboa, é Lisboa
Abre os seus braços p’ro mar // É Lisboa, é Lisboa
Uma mulher que apregoa // É Lisboa, é Lisboa
Põe-nos a alma a cantar // É Lisboa, é Lisboa


Lisboa, para ti o sol sorri
Chego a julgar que ali ele nasceu
Cresceu com as colinas que há p’raí
E assim o namoro aconteceu

E do Castelo que já foi dos mouros
Tua boca vi beijar o Tejo
As caravelas a chegar com ouro
E os marinheiros que a coragem eu invejo

O tempo vem dar razão

Henrique Abreu / Alfredo Duarte *marceneiro*
Repertório de Henrique Abreu


Chegado a esta idade 
Contra ventos e marés
A vida ganha um sentido
Depois de tanto revés 
A vida tem mais verdade
A alma é um porto de abrigo

O tempo vem dar razão / Dá-nos sempre a conhecer
Aquilo que tem valia
Não ceder à tentação / Do mal, pelo bem querer
Seguindo a luz que nos guia

No dia que tu chegaste / Era tempo de mudança
De quem tinha a fé perdida
Era tempo de ter esperança / E com ela tu mudaste
O rumo da minha vida

O pórtico

Diogo Clemente / Mário Pacheco
Repertório de Sara Correia


Há um pórtico distante no meu canto
Uns dias noite, outros ensolarado
Uns dias riso, outros dias pranto
De dia é vida e de noite é fado

De quando em vez, um pássaro cinzento
Poisa silentemente em meu redor
Depois cala o silêncio e num lamento
Canta-me as profundezas deste amor

Foi desde que cheguei à tua vida
Foi desde que te vi e não te tenho
Há um pórtico imponente, há uma ferida
Há uma dor que trago sem tamanho

Voz de poema

Fernando João / Henrique Lourenço *fado cigana*
Repertório de Fernando João


Minha voz, voz de poema
Buscando a hora suprema
Para cantar poesia
Faz lembrar a madrugada
Cantando sonhos de nada
A qualquer hora do dia

Meu pensamento perdido
Minha noite sem sentido / Por não ser, noite d’amor
Meu grito, minha revolta
Minha tentação à solta / Em comunhão com a dor

Minha vida, meu destino
Meu vaguear peregrino / Nas ruas da sedução
Minha verdade, meu fado
Meu sonho desencantado / Pela força da paixão

Quero tocar o céu

Maria F.Travassos, J.Bettis / F.Hildenbrand
Repertório de Maria de Fátima Travassos


Quero tocar o céu e dar-te uma estrela
Viver os dias sem terem fim
E o impossível eu quero fazer
Mudar o mundo só para ti

Quero ficar bem perto de ti
E quando chove poder beijar-te
Tudo o que é lindo faz parte de ti
Num mundo-mentira só tu és verdade

E quando, quando tu me tocas 
Sinto-me heroína
E penso que só eu te posso amar
Quando tu me falas; 
Não estás mais sózinha
Eu estou junto de ti para te amar
Como a luz que te ilumina


Quero que sintas tudo o que senti
Naqueles momentos só de solidão
Estou feliz agora porque estás aqui
Parou de chorar o meu coração

Lembranças do passado

José André / Vicente da Câmara
Repertório de José da Câmara

O fado criou má fama
P’las vielas d’Alfama
Com o seu ar insolente
Ser fadista, usar samarra
Dedilhar uma guitarra
Era coisa deprimente

Agora tudo mudou
E o tempo que o transformou / Vestiu-o de gente boa
Anda vaidoso e aprumado
Por se saber namorado / Da nossa linda Lisboa

E com saudosa paixão
Amarrado à tradição / O Faia da velha escola
‘inda entra no Tacão
E bebe dois ao balcão / À saída da gaiola

Canto d’alma

Hélder Moutinho / Alfredo duarte *fado mocita dos caracóis*
Repertório de Joana Almeida


Há um canto que me acalma
Quando a noite cai lá fora
Esta voz que sai da alma
Que atravessa a noite calma
Sem saber aonde mora

Esta mágoa que magoa / Esta praia abandonada
À beira-mar de Lisboa / À beira-rio, Madragoa 
No coração naufragada

Madrugada de desejo / Lua-cheia de paixão
Foi no teu primeiro beijo / De olhos rasos sobre o Tejo
Que perdi meu coração

Há quem lhe chame tormento / Fria e terna claridade
Loucura, pranto ou lamento / Inverso de sofrimento
Só eu lhe chamo saudade

Recebam este fado

Henrique Abreu / Alfredo Duarte *fado cuf*
Repertorio de Henrique Abreu

Recebam este fado que eu vos dou
P’ra matar a saudade na garganta
Todo o fadista é o fado que sonhou
Mesmo que o não entendam quando canta

Todo o fadista sabe porque sofre
Pelas palavras que lhe vão na alma
Todo o fadista anda ao sabor da sorte
Porque tem mais coragem, menos calma

Fado não é palavra vencida
Pese embora o seu significado
Fado é luta, é o crer que se põe na vida
É contruir o futuro sem passado

Deixai cantar que vive por que canta
Deixai que a voz transporte o sentimento
Não é fadista quem perdeu a esperança
De deixar de cantar só sofrimento

Vê se voltas

Gabriel de Oliveira / Jaime Santos *fado mouraria estilizado*
Repertório de Estela Alves

Vê se voltas outra vez
Porque ainda estou lembrada
De subires a três e três
Os degraus da minha escada


Mesmo que sejas ruim / E embora nada me dês
Eu quero-te ao pé de mim / Vê se voltas outra vez

Bem sabes que te não esqueço / E que te sou dedicada
Não estranhes o que te peço / Porque ainda estou lembrada

Os degraus que antigamente / Subias com rapidez
É escusado, no presente / De subires a três e três

Eu quero é ver-te voltar / Para ficar descansada
Nem que subas devagar / Os degraus da minha escada

Senhor sapateiro

José Luís Gordo / José da Câmara / Luís Petisca
Repertório de José da Câmara


Senhor sapateiro
Leve-me pouco dinheiro para arranjar meus sapatos
Não têm alma nem sola
Já pediram tanta esmola pelas ruas do cansaço
Às vezes choro com eles sem saber para onde vamos
Senhor sapateiro leve-me pouco dinheiro

Senhor sapateiro
Arranje o esquerdo primeiro, do lado do coração
E já não tarda janeiro, vem a chuva, vem a lama
Senhor sapateiro
E depois não tenho cama, nem brasas no meu braseiro

Senhor sapateiro, bata a sola devagar
Que este meu pé direito
Não se cansa de andar à chuva um inverno inteiro
Sem saber onde ficar

Senhor sapateito não magoe os meus sapatos
São os meus dois companheiros
Nas horas de desespero
Lembram meus filhos primeiro
Como se fossem retratos

Beijo roubado

Fernando Cardoso / Júlio Proença *fado proença*
Repertório de Joana Almeida


Deste-me um beijo, fugiste
Eu fiquei sentida e triste
Gritei por ti, fiquei rouca
Eu tanho andado a pensar
Se esse modo de beijar
Não será p’ra me pôr louca

Se na verdade assim fôr
Quem sabe, ó meu amor / Talvez tu sonhes comigo
E no maio da escuridão
Um longo beijo de paixão / Dará fim ao meu castigo

Mas esse beijo apressado
Foi recusa, foi recado / Que me quiseste mandar
Não precisas mais fugir
Nem ale a pena mentir / Já nem lembro o teu beijar

A Rosa da Mouraria

António José / F.Hildenbrand
Repertório de Maria de Fátima Travassos


A Rosa da Mouraria
Na moldura da janela
Um poema feito povo
E o povo gostava dela

Não conheceu pai nem mãe
Tinha um encanto qualquer
Uma rosa diferente
Num jeito de ser mulher

E quem diria
Na viela tão estreitinha
Toda a velha Mouraria
Fez da Rosa uma raínha
Mas caprichosa
Fez-se a Rosa, quando um dia
Por amor deixou, a Rosa
Para sempre a Mouraria


Nessa janela fechada
Falta a silhueta dela
E quem lá mora não tem
Nenhuma flor à janela

E o povo que se rendia
Junto à janela vistosa
Sente que hoje, a Mouraria
Está mais pobre sem a Rosa

Mui nobre cidade

Letra e música de Henrique Abreu
Repertório do autor


O Porto é cidade velhinha vestida a cinzento
O Porto é cidade que cresce em cada momento
O Porto tem na sua história, a história do Infante
Que em barcos de estrelas se fez navegante
Em mares de tormento

O Porto tem na sua gente o amor pela verdade
O Porto faz sempre vencer sua forte vontade
De ser aquilo que quer num país inconstante
Mas o Porto quer ver menos emigrante
Com menos saudade

O Poro é sempre p’ra todos uma porta aberta
O Poto é a franqueza da alma que em todos desperta
A crença que é preciso ter na sincera amizade
A imagem mais certa da nobre cidade
Cidade do Porto

Perto do mar

M. Marão Travassos / H.Van Gelderen
Repertório de Maria de Fátima Travassos


Perto do mar eu dou asas
À minha imaginação
E sobrevoo com as garras
Com se fosse um Falcão

Perto do mar eu sou tudo
Sou mulher e sou criança
E revejo no mar salgado
O tempo da minha infãncia

Perto do mar eu sou peixe
Que nada por essa águas
E que pede que não deixem
Lançar as redes malvadas

Perto do mar, sou também
A concha que te murmura
Que ando a morrer por alguém
Que me leva à loucura

Que saudades tenho eu

José da Câmara / Miguel Ramos *fado calisto*
Repertório de José da Câmara


Ai que saudades eu tenho
Dos meus tempos de menino
Correndo Lisboa inteira
Procurando brincadeira
Sem horário nem destino

Que saudades tenho eu / Cantei o fado com gana
Uma noite das antigas / No Páteo das cantigas
Do João e Zé Pracana

Eram noites de paixão / Num compasso quase incerto
Vou ligar p’ra combinar / Xico’s bar p’ra começar
E os amigos sempre perto

Campo Pequeno à quinta-feira / Era grande animação
Xafarix era a seguir
O Cajó sempre a partir / Com a sua percursão

Era sítio obrigatório / Estava lá toda a semana
Restaurante, bar e fados / Concerteza estão lembrados
Velho Páteo de Sant’Ana

Passar p’lo Napoleão / P’ra podermos conversar
No Calvário, está-se a ver
Outra jola pr’aquecer / E o Bananas a bombar

O luar adormecia / Fim de noite, grande farra
Ía tudo p’ro Brim Bar / P’ro petisco e p’ra cantar
Mais um copo e uma guitarra

Recordar é sempre bom / Emoções que não desdenho
Lembrar a minha Lisboa / Que p’ra mim foi sempre boa
Ai que saudades eu tenho

Os meus olhos já não choram

Manuel Paião / Eduardo Damas
Repertório de Maria Valejo


Os meus olhos já não choram / Estão cansados de o fazer
Os meus olhos já não choram / Nem sequer por te não ver

Minhas lágrimas secaram / Agora já nada imploram
Se ainda sofro por ti / Os meus olhos já não choram

Meus olhos não choram
Sim… eu já nem sei chorar
Tu deste-me a vida
P’ra depois me a tirar
Chorei o passado
Chorei porque vivi
Meus olhos agora
Nem sequer choram por ti


Como é triste a minha vida / Que cruél é meu viver
Ter tantas mágoas no peito / Querer chorar e não poder

Nem sequer estão rasos d’água / Quando estou comigo a sós
Os meus olhos já não choram / Nem sequer choram por nós

Fado Joaninha “soneto da casa”

António Sardinha / José Campos e Sousa
Repertório de José da Câmara


A casa portuguesa caiadinha
De nicho à porta, lampião pendente
Alva mais alva ainda que a farinha
Como de vê-la dá virtude à gente

Seria assim a casa de Joaninha
Seria ssim, modesta e sorridente
Atrás unidos, o pomar e a vinha
E o jardinzinho com o lago à frente

Meteu-se um dia a virgem, de jornada
Jornada longa, nunca imaginada
Nem por ser feita santa desta vez

Por não chegar a tempo, é que Maria
Não deu à luz o filho que trazia
Debaixo dum telhado português

Tradições portuguesas

Henrique Abreu / Fontes Rocha *fado isabel
Repertório de Henrique Abreu


Das mais velhas tradições
Que o nosso país mantém
As varinas, o pregão
As palavras que elas têm

As castanhos no inverno / O fumo desse braseiro
Numa esquina, o fogo eterno / Sob chuva ou nevoeiro

Vende-se a fruta madura / Nas ruas mais coloridas
E a carteira mal segura / Foge das mãos distraídas

Com o vinho que fazemos / Damos mais sabor à vida
Se ao prová-lo não bebermos / Mais que a conta e medida

E o fado, doce canção / Correu mundo e ganhou fama
É a voz do coração / De quem sente e de quem ama

A forma de te querer

M. Marão Travassos / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de Maria de Fátima Travassos


Não quero que me queiras só por querer
Nem quero que me ames por amar
Apenas quero chegar a perceber
O que me dizes com o teu olhar

A forma de tu me dizeres, amor
Aquilo que nem tento adivinhar
Pois sei que me vai provocar dor
Dor que não consigo suportar

Mentiste ao dizeres naquele dia
Quero-te como nunca quis ninguém
Pensei qu toda a vida seria tua
Mentiste, porque tu não queres ninguém

Agora adeus amor e até nunca
P’ra ti não existi, não sou ninguém
Quero esquecer que algum dia fui tua
E tu, amor, que foste de mim também

Forcado de Montemor

Francisco Branco Rodrigues / José Duarte *fado seixal*
Repertório de José da Câmara


Forcado de Montemor
Amador nobre e valente
Entre todos o melhor
Quando tem um toiro em frente
Vê-se quem é pegador

Sempre que a trincheira salta / Com o seu donaire e graça
Logo entusiasma a malta
É que se vai ver na praça / Como a coragem não falta

Mas se um dia, por azar / A sorte lhe corre mal
Volta de novo a pegar
Porque é nobre o animal / Difícil de dominar

E por ter tanto valor / Da coragem que lhe vejo
É que canto em seu louvor
Sois filhos do Alentejo / Forcados de Montemor

Anda bonita a solidão

Pedro Silva Martins / Luís José Martins e Pedro Silva Martins
Repertório de Joana Almeida


Anda bonita a solidão
Olha-se ao espelho e sorri
E vai p’la rua a cantar
Belas canções escritas p’ra ti
É bom saber

A incerteza aonde vai?
Porque é que empina o nariz?
Algo terá feito ela mudar
Que já não se demora aqui
É bom saber

É bom saber
Que o tempo vai juntar-se a mim
Ficar melhor, tomar um chá
E alentar a minha dor
Curtir um som e com vagar
Sorrir por fim ao meu amor

E a saudade aonde está?
Que já não canta por aqui
Se calhar está numa de encontrar
Outro sentido para si
É bom saber

Diz que a tristeza me deixou
Que já nem pergunta por mim
Diz quem sabe, que ela se assustou
A ver este final feliz
É bom saber

Um fado à Candeia

Letra e música de Henrique Abreu
Repertório do autor


Eu esta noite vou cantar um fado
À Candeia
À Candeia
A minha voz vai ter um tom magoado
Na Candeia
Na Candeia

Eu quero que esta noite a minha alma
Trespasse a dor que eu sinto cá para fora
E faça renascer de novo a calma
Trazendo a doce esperança a cada hora

Depois eu vou escrever um fado novo
Falando de paixão e amizade
São sentimentos bons e são do povo
E vou querer cantar menos saudade

Vou encntrar mais uma voz fadista
Mais uma nova voz que o fado entoa
Quem sabe se um talento, um novo artista
Que vem de uma qualquer vulgar pessoa

E desse berço eu faço a minha história
Pois tudo o que me resta é gratidão
Não vai apagar nunca da memória
O amor que se guardou no coração

Aquele fado

António José / F.Hildenbrand
Repertório de Maria de Fátima Travassos


Minha mãe cantava um fado
E sentava-se a meu lado
Para eu adormecer
Os versos que então ouvi
Já me falavam de ti
Ainda sem te conhecer

Agora, já sou mulher
Faça eu o que fizer / O fado deu-me esta herança
Não há nada que destrua
Este jeito de ser tua / Desde que eu era criança

A gente que nos rodeia
À nossa volta semeia / Uma seara de intrigas
Mas pouco me hei-de importar
E até deixei de falar / A duas ou três amigas

Uma guitarra qualquer
Entre as mãos de quem lhe quer / Oiço ao longe e sabe bem
Sentir que o nosso pecado
Tem sabor áquele fado / Que me cantou minha mãe

Promessas

Letra e música de Pedro Campos
Repertório de José da Câmara


Promessas das luzes deste bairro que eu conheço
Das noites tão sentidas em que peço
A Deus por mim
Momentos perdidos neste tempo que passou
Tão tristes, alegres como eu sou
Fazem parte de mim

Lisboa dos bairros da tristeza que não passa
Das horas que dão vida e o sol da Graça
Da minha dor
Lisboa nasceu assim para mim
Nos braços da Mouraria
E o que ficou foi amor
Lisboa da vida do dia-a-dia
Dos becos, da poesia
O que ficou foi amor

Amante do Tejo

Nuno Manuel Faria / Pedro Pinhal
Repertório de Maja


Manhã, o acordar de um novo dia
No cais velas se agitam no adeus
O vento levanta espuma sobre o rio
A bordo nasce a ideia de um fado

Lisboa
É quem desperta o meu desejo
E eu serei sempre amante
De ti, querido Tejo


À noite recolho a vela da fragata
A lua enamora-se d’Alfama
O céu cobre de estrelas Santo Estevão
O rio serve de leito a quem o ama

Livre para ver o mundo inteiro

Henrique Abreu / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de Henrique Abreu


Para não ter que dizer a ninguém
Que o teu amor não era verdadeiro
Escondi o meu sofrimento, não sei bem
Em que cigarro ou em qual cinzeiro

Prometi a mim mesmo o esquecimento
No meu caminho abracei o dia
Condenei as palavras desse tempo
E não ficou mais que nostalgia

Livre para ver o mundo inteiro
E as coissas que ele tem para me dar
Eu sei que não vou ser o primeiro
A encontrar o amor sem procurar

Um homem nunca deve repetir
Os sonhos de triste recordação
Mas nunca deve deixar de sentir
A ternura fiél de um coração

Rapsódia dos três poetas

A.Botto, Ary dos Santos, M.Sá Carneiro / Miguel Ramos e Casimiro Ramos
Repertório de Mísia

FADO PINÓIA
Levo ao ombro as esquinas
Trago varandas no peito
E as pedras pequeninas
São a cama onde me deito

FADO LOLITA
Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas
Pelo chão em desalinho
Vinha longe a madrugada
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e de vinho

FADO ALBERTO
Um pouco mais de sol e eu era brasa
Um pouco mais de azul eu era além
Para atingir faltou-me um golpe de asa
Se ao menos eu permanecesse aquém

FADO CALISTO
Volteiam dentro de mim
Milagres, uivos, castelos
Altas torres de marfim
Forças de luz, pesadelos
Volteiam dentro de mim

FADO MOURARIA
Chamaste-me tua vida
Eu a alma quero ser
A vida acaba na morte
A alma não pode morrer

Minha voz

Gonçalo Salgueiro / Armando Machado *fado súplica*
Repertório de Sofia Ferreira


Na minha boca, o teu poema à solta
Ecoa sob um céu de tempestade
É minha voz maré de amor revolta
Em cantos que se dobram de saudade

Em minha voz és negra madrugada
Jangada que de noite te procura
Nos versos de uma vida naufragada
Teu nome é uma corrente de loucura

Ainda que ancorada na garganta
A voz que com amor te quis rimar
Dorida como o mar que se agiganta
Teu fado nunca pára de cantar

E quando um dia ao nada eu regressar
Como onda que sem praia se perdeu
Talvez possas ouvir na voz do mar
A minha voz que só por ti viveu

Chamar-te de meu amor

Joaquim de Sousa / Popular *fado menor*
Repertório de Fernando João


Quero gritar esta dor
Quero dizer que te amo
Chamar-te de meu amor
Que é como sempre te chamo

Quero sentir teus abraços / Feitos fonte de ternura
E adormecer em teus braços / Na sonolência mais pura

Quero ler felicidade / Nos teus olhos infelizes
E beber toda a verdade / Das verdades que não dizes

Ser eu, quebrar o encanto / Deste amor que me sufoca
E beber o sal do pranto / P’la taça da tua boca

Quero ser o leito frio / Da corrente dos teus beijos
O silêncio, o cais vazio / Da frota dos teus desejos

Quero sentir o sabor / Desta dor que proclamo
Chamar-te de meu amor / Que é como sempre te chamo

Olhares cruzados

Gabriel de Oliveira / Filipe Pinto “fado meia noite antigo*
Repertório de Natália dos Anjos


Cruzámos o nosso olhar
E logo nos entendemos
Conjugando o verbo amar
Ambos de amor nos perdemos


Nem sequer te conhecia / Nunca te vira passar
Quando por acaso, um dia / Cruzámos o nosso olhar

Foram apenas momentos / Desses momentos supremos
Trocaram-se os pensamentos / E logo nos entendemos

Depois disso, conversámos / E de tanto conversar
Foi assim que começámos / Conjugando o verbo amar

Agora a vida é ventura / Pois tão bem nos conhecemos
Que numa doida loucura / Ambos de amor nos perdemos

Henrique Rego


Tributo de Armando Neves 

Inspirado poeta – nome escrito 
Com doze estrelas nos anais do “Fado”
Louvá-lo-ei – depois de ter molhado
Minha pena na tinta do Infinito.

Coração d’oiro, espírito bendito,
Tanto à bondade como às musas dado.
Um simples verso seu – poema encantado,
Ou uma rima só – radioso grito!

Poeta de tão puro e bom quilate
Merece, em prémio dos seus dons dilectos,
Rosas d’oiro em olímpico açafate…

E eu que sou, em louvar, dos mais discretos,
Para exaltar o plectro deste vate
Comporia, em vez de um, quatro sonetos!



Apenas Porto

Fernando Campos de Castro / Paulo Faria de Carvalho
Repertório de Bruno Alves

Podia dar-te o nome mais bonito
O nome de Viela ou de Ribeira
Dizer apenas corpo de granito
Com rosto de rabelo e de traineira

Podia dar-te o nome de navio
Ou cais de nevoeiro junto à barra
Podia dizer pontes céu e rio
Podia até chamar-te de guitarra

Mas digo apenas Porto
Meu chão e meu lugar
Cidade que eu amo e em mim se arrasta
Chamar-te Porto antigo
Telhado à beira mar
Chamar-te Porto amigo já me basta


Podias ser gaivota de ternura
Ou cama com lençóis de neblina
Podia dizer Sé ou Rua Escura
Ou asa de Muralha Fernandina

Podia dar-te o nome do Infante
De burgo caravela ou sardinheira
Podia até chamar-te minha amante
Com cheiro a manjerico e a cidreira

Jóia sagrada

Gabriel de Oliveira / Pedro Rodrigues *fado carmencita*
Repertório de Fernando Batista


Eu sou aquela mulher
Por quem tu sofreste um dia
Por ciúme te deixou
Tudo o mais que te disser
Não passa de fantasia
Pois já sabes quem eu sou

Não te venho conquistar
De ti não pretendo nada / Já sofri, já te vingaste
Venho aqui para falar / Sobre essa jóia sagrada 
Que há dez anos me roubaste

Quero de novo afagá-la
Cingi-la bem a meu peito / Numa pressão de ternura 
Quero vê-la e acarinhá-la
Saber o que lhe tens feito / Contar-lhe a minha tortura 

Faz de mim uma rodilha
Tens razão para o fazer / Mas és pai e pensa bem
Que essa jóia é nossa filha
E Deus sabe defender / O sagrado amor de mãe

Amor desfeito

Gabriel de Oliveira / Jaime Santos *fado da bica*
Repertório de Lucília do Carmo


Se o nosso amor se desfez
Só tu fostes o culpado
Porque sofres quando vês
Outro homem a meu lado

Foste mau, foste cruel / Não me queixei a ninguém
Bebi lágrimas de fel / Suportando o teu desdém

Dizes-me que não descansas / E que me vês em teus sonhos
Ai, a dor são as lembranças / Dos teus remorsos medonhos

É Deus que te faz sofrer / Vê lá bem o teu castigo
Dormes com outra mulher / E sonhas sempre comigo

Minhas mãos já não te afagam / O meu desprezo é enorme
Cá se fazem, cá se pagam / Bem sabes que Deus não dorme

E se esta gente fosse um fado

Maja Milinkovic / Rodrigo Serrão
Repertório de Maja


E se esta gente fosse um fado
Em que só falta melodia
E o grito mudo nos seus olhos
Não fosse mais que poesia

Que em cada rosto há uma nota
Que espera ainda por nascer
E em cada história uma verdade
Que sobra sempre por dizer

A minha gente é como um fado
Feito de pranto e maresia
E traz na mala esta vontade
De amar mais que o amor, a cada dia
E canta versos à saudade
Em profunda melancolia
A minha gente é como um fado
Que amou p’ra lá da dor, mais que podia

O emigrante e a guitarra

Gabriel de Oliveira / Alberto Costa *fado dois tons*
Repertório de Manuel Dias


Assim que saiu a barra
O emigrante, coitado
Pegou na sua guitarra
E chorou cantando o fado

E lá vai pelo mar fora / Sabe Deus para que vida
Amaldiçoando a hora / Negregada da partida

Via-se outra vez menino / A mãe guiando-lhe os passos
Para afinal, o destino / Tão longe o levar nos braços

E ao lembrar desta maneira / A velhinha sua mãe
A guitarra companheira / Chorou com ele também

Esta noite chora uma guitarra

Letra e música de Maja Milinkovic *fado primeiro*
Repertório da autora


Se fosse um grande amor
Era nosso, era nosso
Se fosse uma grande paixão
Era nossa, era nossa

Duas vezes eu morri
Duas vezes parou o coração
A primeira quando te vi
E quando deixaste-me a mão

Esta noite chora uma guitarra
Só por mim, só para mim
Esta noite saudade é amarra
É mágoa que não tem fim


Com o tempo não passa nada
Ainda dói a mesma dor
Porque naquela madrugada
O tempo morreu com o amor

Dias de Feira da Ladra

Gabriel de Oliveira / Manuel Maria Rodrigues *macha do manel maria*
Repertório de Manuel de Almeida


Dias de Feira da Ladra
Santolas e vinho tinto
Guitarradas e cantigas
Desordens, noites na esquadra
Ai que saudades que eu sinto
Por essas coisas antigas

Os Faias mais afamados / Grandes improvisadores
Não faltavam nesse dia
E dos bairros afastados / Também vinham cantadores
Tudo ali se reunia

À tarde, a seita abancava
Numa taberna pequena / Mesmo em frente do jardim
Um dos fadistas cantava
Era o princípio da cena / Com provocações no fim

Na febre do desafio / Eram mais que provocantes
As cantigas que cantavam
Davam-se lutas de brio / Sustentadas nos descantes
Que às vezes tão mal findavam

Dia de Feira da Ladra
Ó fadistagem moderna / Morreu essa tradição
Desordens, noites na esquadra
Fadistices na taberna / São coisas que já lá vão

Meu par

Letra e música de João Couto
Repertório de Joana Almeida


Quando passas por mim sei que algo me diz
Que tu és o meu par
Neste mundo sem lei, em ti encontrei
O meu melhor

Mas tu não estás a meu lado
P’ra me apagar do passado
Cada erro que cometi
Passam dias, passam horas
Diz-me porque é que demoras
Se esta voz chama assim por ti

Uma canção mora dentro de mim
Mesmo não sendo tua, passa na tua rua
Todo o o dia a chamar por ti
Uma canção quer viver em nós
Mesmo que não a oiças, já não quer outra coisa
Sê meu par, não a deixes presa na minha voz

Cada noite fugaz eu perco a paz
Quando és o meu par
Nessa dança que encetamos
Nossos fados entrelaçamos

Mas não sei se sou quem tu anseias
Diz-me porque é que vagueias
Nesse vai e vem sem fim
Se este amor que dou inteiro
A um coração prisioneiro
Espera sem se cansar, por ti

Gabriel de Oliveira


Tributo de Armando Neves

Dizer que tem talento o Gabriel
É tarefa escusada, é coisa vã
É perguntar se tem doçura o mel
Se deitam sumo os bagos da romã

Há lá poeta algum que nos revele
Inspiração maior, mais digna e sã
De quanto é popular?! – Apenas ele
Porque a alma do povo é sua irmã

Fonte rara, espontânea de poesia
Da beleza do “Fado” a voz mais bela
Espírito gentil às musas dado

Quando ele nos descreve a Mouraria
Pinta, com mão de mestre, uma aguarela
Sim! Este Poeta é o Pintor do Fado

Amei-te

Gabriel de Oliveira / Alfredo Duarte *marcha do marceneiro"
Reperpório de  Laurinda Gonçalves

Amei-te cheia de esperança
Veio a dor, foi-se o desejo
Mas as saudades ficaram
Sepultadas na lembrança
Daquele primeiro beijo
Que nossas bocas trocaram

Amei-te meses seguidos
O teu amor fez-me guerra / Como não fez a ninguém
Tantos castelos erguidos
E tudo tombou por terra
Ao sopro do teu desdém

Amei-te, revendo o pranto
Dos outros que eu desprezava / Sendo traída por ti
Agora que eu gosto tanto
Daquele que eu não gostava / Finges tu gostar de mim

Amei-te, tive mau gosto
Esse desgosto contive / Mas, visto que te esqueci
Foi-se de todo o desgosto
Desse mau gosto que eu tive / Em gostar tanto de ti

Doença do fado

Gabriel de Oliveira e Linhares Barbosa / Joaquim Campos (ou) Júlio Proença *fado puxavante*
Repertório de Mário Rui

Letra transcrita no livro de A. Victor Machado, “Ídolos do Fado”
Tipografia Gonçalves, 1937, página 47, com a indicação de ser da autoria conjunta
dos poetas populares João Linhares Barbosa e Gabriel de Oliveira” e pertencer ao repertório 
de Alberto Costa e ser cantada na música do Fado Hilário.
Informação retirada do livro *Gabriel de Oliveira* editado pela Academia do Fado e da Guitarra*

Quem diz que o fado é doente
Decerto muito se ilude
Quem o Fado canta e sente
Vê-se que sente saúde

Juro por tudo, confesso
Não vos pretendo enganar
Eu só sinto que adoeço
Quando não posso cantar

Estive às portas da morte
E alguém me veio dizer
Canta o fado, faz-te forte
Cantei, não pude morrer

Tenho azar de quando em quando
Mas por estranha ironia
Se passo a noite cantando
Tenho sorte ao outro dia

Os garotos da Ribeira

Ana Madalena / Pedro Rodrigues
Repertório de Fernando João


Os garotos da Ribeira
São milhafres, são gaivotas
Andorinhas e pardais
Aves que gritam e agitam
E rasgam todas as rotas
Na vida do nosso cais

Alegrias esfarrapadas / Voando de rua em rua
Na esperança de ver o mar
Sonhando verde navio  / Nas águas do nosso rio
Com asas por alcançar

Cai a noite, eles lá vão / Em bandos pela cidade
Deixam o cais desolado
Aquelas aves meninos / Trazem no ar os destinos
A cumprir um triste fado

Quem os vê não os conhece
Já nem sabe decifrar / No rosto, a sua idade
E cada um faz e inventa
Nesta cidade cinzenta / Um pouco de felicidade

Nunca mais triste

Gonçalo Salgueiro / Miguel Ramos *fado alberto*
Repertório de Sofia Ferreira


Não há tem nem compasso nesta hora
Em teus braços tudo esqueço ao meu redor
Ao som do nosso amor, a noite chora
E o fado me acontece em tom maior

Trinadas, trago as cordas na garganta
Que ao céu bradam, num corpo de ternura
Ao som do nosso amor, a noite canta
Um fado já despido de amargura

Os fios do meu cabelo são guitarra
E ao toque dos teus dedos ganham vida
Ao do nosso amor, a note amarra
O nosso fado ao seu, amanhecida

Em nós já nada rima com procura
Somos verso que a qualquer tempo resiste
Ao som do nosso amor, a noite jura
Que o fado nunca mais nos será triste

Manifestação

Manuel Fria / Alfredo Marceneiro
Repertório Manuel Fria


Nuvens baixas, altas vozes
Juventude se debate
Na praça da Liberdade
Suas bandeiras levantam
E o riso duma criança
Lutando pela igualdade

Liberdade para os gestos
Porque os caminhos são longos
E os mares não têm fim
Unidos na mesma forma
Venceremos a batalha
Tão difícil e ruim

Somos a voz da razão
De pés assentes no chão
Que renegam injustiça
Pedindo a quem de direito
Que haja ordem e respeito
Pão, sorrisos e justiça

Carta aberta

Cátia de Oliveira / Manuel Graça Pereira
Repertório de Inês Duarte


Faz tempo que não reconheço
Tão densa se mostra a verdade
Vontade de aceitar o preço
Que nos pede a felicidade

E o som da guitarra que cura e amarra
Em mim, a tristeza, no meu ventre
E ao longe a barra escutando a guitarra
Em mim, a chamar-te feito gente

E nem posso chamar-lhe de saudade
A esta dor imensa que me invade
É ter nos dedos a vida escorrendo
E um grande sonho ardendo
Chora o homem na cidade


Faz tempo que só levemente
A alma qu’inda me resta
Se alegra e canta contente
Poemas de um país em festa

Som o som da guitarra, a fé que se agarra
Paixão ao que o peito mudo sente
Quanto mais as amarras, mais altas as guitarras
Dirão de que é feita a minha gente

No teu vidro da janela

João Ferreira Rosa / Jaime Santos
Repertório de Nuno da Câmara Pereira


No teu vidro da janela
Eu escrevi, quero-te bem
Tu p’ra mim és uma estrela
Não sonho com mais ninguém

És uma estrela dif’rente / Daquelas que há no céu
O sol nascente e o poente / Do que somos tu e eu

Temos o mesmo olhar / As mesmas mãos inquietas
Acertamos sem falar / Pensamentos como setas

Há tanto na nopssa alma / Que o teu corpo não descobriu
Há tanto, nada se acalma / De tão cheio e tão vazio

Meus lábios sangram fado

Gonçalo Salgueiro / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Sofia Ferreira


Já não vejo as madrugadas
Já não sonho o que vivi
Por entre esperanças esmagadas
Atrás de portas trancadas
Eu já nem espero por ti

Nesta morada esquecida / Só a dor comigo mora
Porque à tua despedida
Eu fechei a porta à vida / E deitei a chave fora

P’ra não ver a claridade / Fiz minha cama no chão
São meus lençóis de ansiedade
Almofadas de saudade / E a tristeza é meu colchão

Resta-me a vida tão pouca / Neste quarto abandonado
Escrava desta paixão louca
Fecho os olhos, mordo a boca / E meus lábios sangram fado

O pregão duma florista

Rui Manuel / Alfredo Marceneiro-Pedro Rodrigues-Joaquim Campos
Repertório de Natalino de Jesus


Menor-versículo
O pregão duma florista, no Rossio
Bate à porta dos ouvidos, de quem passa
Depois junta-se ao perfume, que é vadio
E passeia alegremente, pela praça

Pedro Rodrigues *quintilhas*
Quem comprar leva ternura / Sobre as pétalas garridas
E por dentro da verdura / Vão sorrisos à mistura
Com palavras atrevidas

Marcha do Marceneiro
Muitas vezes, o amor / Lança mão a uma flor
Para abrir uma coração
E por isso, a vendedeira / Pôe malícia na maneira
Como solta o seu pregão

Fado rosita
Leve orquídeas, leve rosas
Ou violetas, se prefere
E desfolhe a mais vaidosa
De entre as flores… a mulher

Não sei

Ricardo Maria Louro / Armando Machado *fado súplica*
Repertório de Mónica de Jesus

Não sei porque te espero, eu já não sei
Silêncio é pra mim noturno tempo
Não quero nada amor do que te dei
Deixa que te cante este lamento

Não sei porque te amei, eu já não sei
Maldigo aquele instante em que te vi
Não sei se te sonhei ou te inventei
Só sei que te não tive e que te quis

É tudo tão diferente ao que eu sonhei
Brutal, o teu silêncio é solidão
Não sei porque te amei, eu já não sei
Só sei que já calei meu coração

Aconchegado à minha mãe

Letra e música de José da Câmara
Repertório do autor


O sonho de um vento de amor
As mãos que protejem tão bem
Sentir que acordei p’ra melhor
Aconchegado à minha mãe

A brisa do amor que chegou
O terno sorriso de alguém
Ajuda a sentir o que sou
E ao lado tenho a minha mãe

O escuro da noite é feroz
E o medo aparece também
Mas logo sinto aquela voz
A voz da minha querida mãe

As luas vão rodopiando
O tempo chega mais além
Vivi minha vida de encanto
E ao lado esteve a minha mãe

Conta-me uma história

Nuno Guimarães / Custódio Castelo
Repertório de Mara Pedro


Conta-me uma história / Conta-me por favor
Fala-me de coisas lindas / Fala-me também de amor
Ou da lua que adormece
Nos braços de um céu maior

Tenho uma história escondida
Que tu conheces de cor;
Vive em mim quase perdida
Chama-se às vezes querida
Outras vezes de flor


Outras ouvi murmurar / Que tu eras cetim
De um reino feito a fingir / Imaginado por mim
Onde tu eras a lua
Fazendo-me historia tua

A hora agora é de perigo

Doutor Azinhal Abelho / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Manuel Fria


Bate a chuva no telhado
Passa o vento no postigo
Que importa que o mundo acabe
Se eu ando de amores contigo

Haja fome, peste, ou guerra
A hora agora é de perigo
Que importa que o mundo acabe
Se eu ando de amores contigo

Já baixou o céu à terra
Raivas rogo, pragas digo
Que importa que o mundo acabe
Se eu ando de amores contigo

Uma pedra dura dura
É dura p’ra teu castigo
Que importa que o mundo acabe
Se eu ando de amores contigo

Na nossa rua

Ricardo Maria Louro / Jaime Santos *fado sevilha*
Repertório de Mónica de Jesus


Meu amor, eu não te vi
Ao passar à nminha rua
Nessa rua onde vivi
Bem me lembro, não esqueci
Mas a vida continua

Dessa casa que foi branca / Nada resta de nós dois
Junto à porta há uma santa / Um letreiro vem depois
Que tristeza não encanta

Na varanda não há flores / Nem cortinas nas janelas
A fachada não tem cores / Nada resta, pobre dela
Da casa dos meus amores

Mas no meu peito continua / Desse tempo que abalou
A saudade nua e crua / Que da casa já passou
Mas ficou na nossa rua

Canta meu bem

Cátia de Oliveira / Manuel Graça Pereira
Repertório de Inês Duarte


Por mais que a gente diga
A tudo me calo
Não guardo rancor, pouco importa amor
Se nem o padre nos aprova
Do meu amor quem sabe?
Sei eu só onde cabe
E é nos braços teus cruzados nos meus
Que o meu amor se renova

Canta comigo
Canta lá este meu fado
Canta meu bem, canta meu bem
Sonho contigo
Sonho ver-te em todo o lado
E a mais ninguém, a mais ninguém


Passo sem dar conversa
Não ouço conselho
O meu pai não quer, mas venha quem vier
Dizer que este amor não é certo
Quem sabe do que sinto?
Deste amor tão distinto?
Herança que vai, bonança que vem
No teu peito sempre perto

Rapariga da estação

Letra e música de Duarte
Repertório do autor


Não sei se tinha chegado
Se porventuta partia
Mas tinha um lugar sentado
E reparei no que lia

Cabelos negros caídos / Longos, lisos, deprimidos
Escodem o decote ousado / Do seu cinzento vestido

Não consegui dizer nada / Preferi que fosse assim
Antes só que acompanhada / Mesmo que seja por mim

Condição de quem resiste / Abandono, solidão
Tão inspiradora e triste / Rapariga da estação

Noite da madrugada

Clemente Pereira / Jaime Santos
Repertório de Maria Valejo


Sonhei com a alvorada
Da ventura prometida
Julguei seres a madrugada
E és noite na minha vida


Se o sonho quando começa / Põe a alma iluminda
Lembrando a tua promessa / Sonhei com a alvorada

Tanta ventura supoz / Tanta crença tive erguida
Que nos sonhos via a luz / Da ventura prometida

Ao ver-te pelo caminho / Duma ternura elevada
Do desejado carinho / Julguei seres a madrugada

Julguei-te como te via / Na mih’alma adormecida
Mas ao ver-te à luz do dia / És noite na minha vida

Sinais de cinza

Vasco Graça Moura / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


No beco abandonado sem horas que distinga
Com letra que se vinga do sange atormentado
Vai inscrevendo o fado na trémula restinga
Do corpo macerado e a pena é uma seringa

Quase em andrajos, nua, no olhar parado,voga
Torpor de asas de droga na palidez da sua
Face de quem se afoga, chupou-lhe o rosto a lua
Sonâmbula flutua e nada aos deuses roga

Tão longe a juventude em cinzas deslembrada
E tão desfigurada, ajude ou desajude
Já não lhe vale de nada, mesmo que a sombra mude
Na sombra se desagrada sem que anjo algum a escude

Menina e moça assim em casa de seus pais
Criada entre alecrim e rosas no jardim
Levaram-na os sinais das luzes irreais
Agora é quase o fim, que a vida estava a mais

Tu serás

Artur Ribeiro / Pedro Rodrigues “quintilhas*
Repertório de Maria Valejo


Tu serás na minha vida
O passar dos dias meus
Nos teus braços escondida
Bem pequina e atida
Ao mexer dos lábios teus

Tu serás meu dia a dia / 
Sem um dia repetido 
Meu fugir da ventina
Neste sentir alegria / Por haver-te conhecido

Tu serás teimosamente / O meu corpo sem marés
Este meu sentir-me gente
O meu amar loucamente / Tudo aquilo que tu és

Tu serás, se Deus quiser / Meu renascer hora a hora
A minha razão de ser
Meu ficar até morrer / A teu lado, vida fora

De ti

Rosa Lobato Faria / Miguel Ramos *fado alberto*
Repertório de Luís Manhita


De ti só quero o cheiro dos lilases
E a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
E a tua voz de sombras e matizes

De ti só quero o riso que não ouço
Quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
Vampiro que já sou da tua luz

De ti só quero as rosas amarelas
Que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
Da casa abandonada dos meus dias

De ti só quero o eco do teu nome
E um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
Mendiga que já sou da tua pele

Portugal triste

Letra e música de Lima Brummon
Repertório de Teresa Tarouca


Meu país esperando na esquina do tempo
De braços abertos a todo o momento
Vou seguindo sempre calculando os passos
E se o que criei desfaço e refaço;
Meus olhos despertos abrem-se pró mundo
E eu caio em mim cada vez mais fundo

Meu país perdido na esquina do tempo
Triste Portugal tão pequeno e imenso
Pois eu te garanto país, que este povo
Traz no coração sempre um amor novo

Não quero que pensem que já me perdi
Nem quero que julguem que fujo de mim
Tenho lucidez p’ra poder viver
Eu sou vertical, não me hão-de torcer;
Sempre fui mais forte quando me quiseram
Tornar serva ou fraca e nunca me venceram

Tenho a dimensão do que quero alcançar
E nada que fiz tenho a lamentar
Pois p’ra me encontrar, ainda vos digo
Que nunca vendi meu cantar amigo

Portugal que eu canto / Deixa a boca amarga
Mas eu estou bem firme / Não estou derrotada

Toada de Goa

Vasco Graça Moura / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


Com um nó na garganta
Com o sarro de tanta noitada de Lisboa
Amanhecer em Goa, entardecer em Goa

Pode ser o resgate do coração que bate
Descompassado à toa
Amanhecer em Goa, entardecer em Goa

Pode ser uma espuma de já coisa nenhuma
Só lembrança que voa
Amanhecer em Goa, entardecer em Goa

Pode ser o inseguro fogo-fátuo no escuro
Lá no mastro da proa
Amanhecer em Goa, entardecer em Goa

Pode ser este brusco dilêncio ao lusco-fusco
Que nas almas ressoa
Amanhecer em Goa, entardecer em Goa

Entre azul e lilás
Pode ser que o fugaz tempo, que não perdoa
Amanhecer em Goa, entardecer em Goa 

Nesta dura deriva da memória cativa
Que a saudade magoa
Amanhecer em Goa, entardecer em Goa

Manhã

Castro Infante / Eduardo César
Repertório de Maria Valejo


Era a manhã que se abria nos teus braços
E a promessa que sorria nos teus beijos
Era o mar que se envolvia em teus braços
O sol que ardia em teu corpo de dessejos

E fui primavera na tua manhã
Enorme sol do teu corpo quente
Na suavidade azul do teu olhar
Afoguei-me lentamente, lentamente

Renasci no calor dos teus sentidos
Despertei totalmente em tua idade
Acordei a cidade em selvas de gritos
E madrugadas de claridade

Ai meu amor, meu amor, nesse dia
Fomos só nós em toda a verdade

Ficção e realidade

Vasco Graça Moura / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


Ela cantava o fado e de repente
Fez-se na tasca enorme zaragata
Chegara o seu amante da fragata
E não gostou de ouvi-la tão ardente

E ao ver que os olhos dela se cravavam
Nos olhos de um rufia, devagar
A cena foi de faca e alguidar
Como depois os outros relatavam

Calaram-se o guitarra e o viola
E os mais à meia-luz emudeciam
Pois só passos felinos se mediam
No lampejar riscado a ponta e mola

É quando um deles cambaleia e vence-o
A golfada fatal de sangue e vinho
Tingindo peito, mangas, colarinho
E a quebrar num soluço esse silêncio

Já não há casos destes na cidade
E eu já não sei quem estendeu a mão
Mas num golpe certeiro ao coração
Tornou-se esta ficção realidade

De madrugada em segredo

Jorge Fernando / Popular
Repertório de Nuno da Câmara Pereira


Se acaso eu não voltar cedo
Se acaso vires que eu demoro
Minha mãe, não tenhas medo
É tudo porque eu namoro
De madrugada em segredo
Descansa que eu não te acordo


Vou rondar sua janela
Eu sei que ela vem espreitar
E ao pôr os meus olhos nela
Os dela vou encontrar
E a lua junto à viela
P’ra que eu possa namorar


Se o galo cantar cedinho
Sou eu que venho a chegar
Vou cuidar-me no caminho
P‘ra ninguém de mim falar 
A ti, que me tens carinho
O meu amor vou contar

Fado do recado

Vasco Graça Moura / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


Leva a Lisboa azul quadriculada
Que a Vieira da Silva já pintou
E a última gaivota que riscou
A sua leve luz acidulada

Leva a névoa que cai pela amurada
E a corrente do tejo não lavou
Leva as pedras que o tempo afeiçoou
E a saudade na voz sobressaltada

Leva uma vela branca desfraldada
A que no mar salgado desenhou
Um rumo que dos mapas não constou
E se desfez depois sob a nortada

Leva também a vida amargurada
Que o pobe coração desgovernou
E o recado febril que não chegou
Contando da paixão desesperada

Leva o tempo que foi e não voltou
E levarás contigo tudo e nada

Toca p’ra mim

Matilde Cid / Martinho d’Assunção *fado faia*
Repertório de Matilde Cid


Ligaram-me ainda agora
P’ra jantar fora, p’ra ir ao fado
Fui lá parar por magia
No outro dia vi-te pasmado
Não poderia supor
Que um tal amor surgisse assim
Mas a verdade foi esta
Será que é desta que eu estou afim

Quando estás a meu lado
Ficas calado, tocas p’ra mim
Não é preciso falar
Quando há no ar olhares assim
Só te quero ouvir tocar
E decifrar tua mensagem
Naquele momento és meu
E eu vou ao céu numa viagem


O whisky já foi bebido
Vem o corrido e o triplicado
Quero que toques p’ra mim
E ter-te enfim aqui a meu lado
Não quero cá mais conversa
Pois não me interessa ouvir tua voz
Quero os meus olhos fechar
Imaginar o amor em nós

Fado do conhecimento

Vasco Graça Moura / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


Fiz no teu corpo à noite a travessia
De mares e céus e terras e vulcões
E em breve rodopio as estações
Detinham-se esquecidas e foi dia
Fiz no teu corpo à noite a travessia

A memória das praias e florestas
Perpassou-me na pele e entranhou-se
Como um suave afago que assim fosse
D’espuma que ficou de iras honestas
A memória das praias e florestas

E ao despertar de tanta sonolência
Formou-se devagar esta canção
Para entreter de novo o coração
Tão paciente em sua impaciência

Até que sendo noite, eu atravesso
Uma outra vez o mundo, o mar, o vento
Amar é sempre mais conhecimento 
E conhecer é tudo o que te peço

Reencontro

Matilde Cid / Ricardo Rocha *alexandrino*
Repertório de Matilde Cid


Nós eramos crianças naqueles belos dias
No tempo em que vivias inteira, a liberdade
O tempo não passava, parecia infinito
E tudo era bonito sem ódio nem maldade

Levavas-me ao jardim sem um cruzar de olhares
Voando no vaivém, por vezes lá te rias
Sentia borboletas, soltava gargalhadas
Um pouco envergonhadas, sabia que me querias

Voltei a ver-te há dias, ficaste ali sem jeito
E eu com nó no peito não soube o que senti
Tornei a ser criança ao ver aquele amor
O mesmo antigo ardor e tudo o que eu vivi

Fado da corda bamba

Vasco Graça Moura / José Campos e Sousa
Dueto de António Pinto Basto com Maria João Quadros


Se você me deixou na corda bamba
E se eu me estatelei mordendo o pó
Não sei se isto é um fado ou se é um samba
Se mantém a toada ou se descamba
Sei que se foi embora e fiquei só;
Não sei se isto é um fado ou se é um samba

Não sei se isto é um fado ou se é um samba;
Se é um fado deixaste-me no tejo
Se é samba foi no rio de janeiro
Duas medidas para um só desejo
Em fado ou samba assim no duplo ensejo
Da mesma língua a dar-lhe um só roteiro;
Duas medidas para um só desejo;


Duas medidas para um só desejo;
Antes fique eu a meio do caminho
Da nossa vida para recordá-la
Ou mais depressa ou mais devagarinho
Poderei sussurá-la num fadinho
Ou num sambinha doce murmurá-la;
Ou mais depressa ou mais devagarinho

Ou mais depressa ou mais devagarinho;
Se é fado direi “tu” mas imagina
Que se é samba prossigo com “você”
Em qualquer caso nunca desafina
Sujeito e predicado são rotina
De em fado ou samba perguntar porquê;
Em qualquer caso nunca se desafina

Chapéu escuro

Letra e música de Vitorino
Repertório de Nathalie Pires


Foste embora, fecha a porta
Deixaste o quarto vazio
Da tua voz, dos teus passos
Eu agora tão perdida
Fujo da rua onde mora
A má sorte de uma vida

Mas não tenhas a ilusão
Que o quarto vai ficar escuro
De ausência de solidão
Continados e janelas
Abrem-se de para em par
Podes voar, coração

Abrem asas os encontros
Que a vida sempre nos guarda
Ao virar da outra esquina
E não esqueças sobre a colcha
O chapéu escuro que fez sombra
À minha alma de menina

Fado da sereia

Vasco Graça Moura / José Campos e Sousa
Repertório de António Pinto Basto


Ela era cantadeira e um caso sério
Rainha sem rival no seu ofício
E já tinha levado só por vício
Três faias e um banqueiro ao cemitério

A voz, despia-a toda se cantava
No arfar do xaile preto e do decote
Tinha a força noturna de um archote
E a raiva e a revolta de uma escrava

Na boca o seu vermelho era sangrento
Nas mãos curvava as unhas como garras
Nas ancas tinha a curva das guitarras
As fúrias no cabelo eram do vento

Os olhos eram de aço se os abria
Cravando-os em incautos corações
E ao serem mais funestas as paixões
Todo o seu corpo branco estremecia

Cantava como o fogo que devasta
As almas e as cidades de repente
Chamavam-lhe “a sereia” toda a gente
E era como a maré quando ela arrasta

Morreu de um desespero de facadas
No peito, nas carótidas, na cara
Deu-lhas alguém que um dia atraiçoara
E preferiu as mãos ensanguentadas

Não vi mulher mais bela em toda a vida
E em forma de mulher, mais tempestade
Nem voz ouvi que fosse mais verdade
Nem verdade a cantar mais incontida

Baixou por sua vez ao cemitério
Rainha sem rival no seu ofício
O que era de contar agora disse-o
Fica por desvendar o seu mistério