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Canal de JOSÉ FERNANDES CASTRO em parceria com RÁDIO MIRA

RÁDIO apadrinhada pelo mestre *RODRIGO*

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AS LETRAS PUBLICADAS REFEREM A FONTE DE EXTRAÇÃO, OU SEJA: NEM SEMPRE SÃO MENCIONADOS OS LEGÍTIMOS CRIADORES
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ATINGIDO ESTE VALOR // QUE ME FAZ SENTIR HONRADO // CONTINUO, COM AMOR // A SER SERVIDOR DO FADO
POIS MESMO DESAGRADANDO // A TROIANOS MALDIZENTES // OS GREGOS VÃO APOIANDO // E VÃO FICANDO CONTENTES
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Disse-te adeus à partida

António Lobo Antunes / Alberto Correia *fado solene*
*O mar acaba ao teu lado*
Repertório de Kátia Guerreiro

Disse-te adeus à partida
Digo-te adeus à chegada
Se quero tudo na vida
Já de ti não quero nada

Disse-te adeus e depois / Fiquei no mesmo lugar
O leito de nós os dois / Só tem raízes no mar

Dizer adeus é diferente / Quando to digo baixinho
No meio de tanta gente / É que me sinto sózinho


Com uma gaivota na voz / Disse-te adeus e parti
Se esta cama somos nós / Não hei-de morrer sem ti

Um dia

Guilherme Pereira da Rosa / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de Carlos do Carmo

Um dia cais em ti e tens saudade 
Um dia olhas p'ra trás e sentes pena
É breve, muito breve, a mocidade
Tão grande santo Deus e tão pequena

Um dia morre o riso descuidado
Nenhuma chama triste vive ou arde
Chaga a condenação do nosso fado
A gente quer viver e vê que é tarde

Um dia triste há-de chegar p'ra ti
Que te dará aquilo que me déste
Eu hoje tenho aquilo que perdi

Tu vais perder aquilo que tiveste

Talvez por acaso

Manuela de Freitas / Carlos Manuel Proença
Repertório de Carlos do Carmo

Tu dizes que a culpa é minha
Eu acho que a culpa é tua
E vamos ficando assim
Até que um dia à tardinha
Por acaso numa rua
Tu hás-de passar por mim

Com rancor e azedume / Sem razão e sem emenda
Talvez a gente se insulte
Ou então, contra o costume / Talvez a gente se entenda
E o acaso resulte

Por acaso, sem querer
Quem sabe se é dessa vez / Que nós fazemos as pazes
Possa o acaso fazer
O que a saudade não fez / E nós não fomos capazes

A vida dá-nos sinais
Quanto mais o tempo passa / De que o amor tem um prazo
Por isso nunca é demais
O que quer que a gente faça / Para provocar o acaso

O menino que não fui

Mário Raínho / João Maria dos Anjos
Repertório de Fernando Maurício

Nasci talhado de fado
Cresci no tempo a correr
Sem direito de sonhar
Não parei no meu passado
Fui menino sem saber
E condenado a cantar 

Tive a noite por guarida
Deram-me o fado, por pão / Por enxerga, a fria rua
Cresci á margem da vida
Ao lado da solidão / Coberto p'la luz da lua

Queria voltar a nascer
E sonhar um só momento / No meu mundo pequenino
Passou o tempo a correr
Não tive idade nem tempo / De brincar e ser menino

Amei-te

João de Freitas / Jaime Santos
Repertório de Fernando Farinha

Amei-te tanto e perdi-te 
Nem sabes quanto sofri 
Custou-me, mas esqueci-te 
E um dia destes vi-te
E tive pena de ti

Ias a passar sorrindo / Num sorrir triste que esconde
Decerto um desgosto fingindo
Se julgas que estou mentindo / Vê-te a um espelho e responde

No teu rosto maquilhado / Eu pude ler a amargura
E o teu olhar perturbado
Demonstra o que tens passado / Nessa vida sem ventura

Confesso tive saudade / Do nosso antigo viver
Mas tu querias liberdade
Foi feita a tua vontade / E agora sofre, mulher

O Chico do cachené

Linhares Barbosa / Miguel Ramos *fado helena*
Repertório de Fernando Farinha

Certa vez, foi á noitinha
O Chico do cachené
Chamou-me e disse, Farinha
Vou contar-te a vida minha
Para saberes como é

Bem criado e malfadado / Os meus pais, tinham de seu
Por eles era adorado
Instruído e educado / Cheguei a andar no liceu

Eu era menino e moço / Simples como uma donzela
Mas um dia, que alvoroço
Passei à Rua do Poço / Vi a Micas, gostei dela

Vivi com ela dez anos / Duas vezes lhe puz casa
Mas os seus olhos tiranos
Vadios como dois ciganos / Fugiram, bateram asa

Hoje não tenho um afago / Um carinho, uma afeição
Sou um esquecido mal pago
E é no vinho que eu apago / O fogo deste paixão

Depois de contar-me a vida / O Chico pôs-se de pé
Pediu mais uma bebida
E uma lágrima atrevida / Caiu-lhe no cachené

Pede-me tudo

Jorge Rosa / Georgino de Sousa *fado georgino*
Repertório de Fernando Maurício 

Pede-me a luz das estrelas 
O seu doce cintilar 
Que eu farei por conseguir; 
Escolher entre todas elas 
As que mais podem brilhar 
As que mais sabem luzir 

Pede-me o brilho da lua 
Do sol radioso e quente / O soalheiro calor 
Logo a lua será tua 
Do astro-rei, num repente / Terás também o fulgor

Pede-me o sal, as marés 
As ondas, a cor do mar / Da alva espuma, a cambraia
Pronto verás a teus pés
Oceanos desmaiar / Tal e qual como na praia

Tudo o mais que te apeteça 
Sentirás ao teu dispor / Se me pedires te darei 
Só não peças que te esqueça 
Acredita meu amor / Como fazê-lo, não sei

Raízes

Sidónio Muralha / Henrique Lourenço *fado cigana*
Repertório de Amália

Velhas pedras que pisei 
Saiam da vossa mudez 
Venham dizer o que sei; 
Venham falar português 
Sejam duras como a lei 
E puras como a nudez 

Minha lágrima salgada 
Caíu no lenço da vida / Foi lembrança naufragada 
E para sempre perdida 
Foi vaga despedaçada / Contra o cais da despedida 

Visitei tantos países 
Conheci tanto luar/ Nos olhos dos infelizes 
E porque me hei-de gastar 
Vou ao fundo das raízes / E hei-de gastar-me a cantar

Não te posso esquecer

Letra e música de: Carlos Macedo
Repertório de Carlos Macedo


Minha vida sem alento
Tinha as horas por tormento
Tinha as noites por castigo;
Andava sem rumo certo
Sonhava-te sempre perto
E não vinhas ter comigo

Do teu corpo, sem querer
Mesmo sem me apetecer / Já me roía a saudade
Pare te ver fiz-me ausente
Fui amar-te loucamente / Longe da minha cidade

Dos teus olhos a loucura
Dos teus beijos a ternura / Tenho tudo p’ra viver
Porque te quero assim
Tenho-te dentro de mim / E não te posso esquecer 

Oração noturna

Marco Oliveira / André Teixeira *fado adriana*
Repertório de Adriana Paquete


Quem fez da minha noite um canto triste
Um instante de silêncio e de ternura
Mais breve que tudo o quanto existe
E vem soltar-me a voz nesta loucura

Quem deu à minha prece este lamento
Mais puro do que a sombra do luar
E beija as minhas lágrimas no vento
Numa oração noturna por cantar

Por muito que nos doa a solidão
Alguém nasce do ventre do passado
Dum canto que nos fala ao coração
E traz na voz antiga o mesmo fado

Sou do Porto, sou do Porto

Raúl Dubini / Armando Quartoze
Repertório de Maria Armanda


Não há igual ao meu Porto sem rival
Não existe em Portugal outra terra como esta
Não há melhor que o meu Porto, sem favor
Pois ele é rei e senhor quando vai a qualquer festa

O Porto tem, como não tem mais ninguém
Vaidade de ser alguém, em quase tudo o primeiro
Está bem de ver que quem no Porto nascer
Sente vaidade em dizer: sou do Porto, sou tripeiro

Cá vai o Porto a cantar a sua trova
De boca em boca
Rua em rua, sem parar
Cidade antiga mas com alma sempre nova
Ninguém, meu Porto
É capaz de te igualar
Cá vai o Porto cada dia mais brejeiro
Sempre sorrindo
Sempre alegre e folgazão
Laborioso, mas em festas o primeiro
Meu Porto lindo 
Dono do meu coração

Brilham balões, alegram-se os corações
Andam pelo ar canções, fazem-se versos à lua
Cantar cantar, todos fafem sem parar
Quando a marcha vai passar todo o Porto vem p’rá rua

Ó meu amor, vem comigo, por favor
Vais ver que não há melhor que um cravo e um manjerico
É São João dos tripeiros, pois então
Vamos lá de mão em mão visitar o bailarico

Aguarela de Cascais

Letra e música de José Moreira
Repertório do autor

O mar beija a minha terra
Ao fundo apruma-se a serra
Aqui e ali pinhais
O sol é mais luminoso
O luar é mais formoso
E as estrelas brilham mais

Nos jardins multicolores / Flores, flores, tantas flores
Formam um quadro irreal
Maravilhosos cenário / Digno dum conto lendário
Dum país oriental

Praias de areia doirada / Boca d’Inferno e Parada
O Gincho, a Guia, o Museu
O Parque da Gandarinha / Santa Marta e a Marinha
São prendas que Deus lhe deu

Não esquecendo a singeleza / Do Chafariz da Marquesa
E da Praia da Raínha
Dos pescadores, a capela / E a linda cidadela
Tão famosa e já velhinha

Gaivotas esvoançando / Os barquitos baloiçando
Na remançosa baía
Enquanto o mar, de mansinho
Vai segredando baixinho / Qualquer coisa, à Penedia

O meu cantinho risosnho / É uma imagem de sonho
Que não se apaga jamais
Pesadelo que inibria / De perturbante magia
És bem um sonho, Cascais

O grito da terra

Domingos Silva / Acácio Gomes *fado acácio 4as*
Repertório de Maria Amélia Proença


Que os campos tenham mais área
Mais cultivo, mais acão
Só com a reforma agrária
É que todos terão pão

Deixai o trigo nascer / Nas terras bem amanhadas
Como é belo ver crescer / Lindas espigas doiradas

De flor (?) o loiro trigo / Grito que a terra espalha
Tu és o melhor amigo / De quem a terra trabalha

O pão que a gente consome / Ganho com suor do rosto
É pão que nos mata a fome
Sem o travo do mau gosto

Ruas do Porto

Cid Teles / Rezende Dias
Repertório de Natércia Maria


Rua do Sol, Miradouro / Rua de amor, de alegria
Rua do Monte Cativo / Cheia de sonhos e poesia

Rua do Poço das Patas / Da Conceição, do Campinho
Do Bonjardim, Miragaia / P’ra seguir no bom caminho

Ruas do Porto,
Ruas estreitas, velhinhas
Ruas que são ladaínhas
De amor e de tradição
Ruas do Porto
Ruas da minha saudade
Ruas da linda cidade
A que prendo o coração


Rua da Ramalda Alta / Rua Chã, Rua de Trás
Rua de Cimo de Vila / Rua Formosa e São Brás

Rua das Flores, Cedofeita / Campolindo, Reboleira
Ruas da fé e trabalho / Da boa gente tripeira

As minhas mãos abertas

José Luís Gordo / Ada de Castro
Repertório de Ada de Castro


Trago as minhas mãos abertas
Os meus dedos são dez setas
Apontam teu coração
Dizem-me as horas que sim
Tudo tem princípio e fim
Eu acredito que não

Trago as minhas mãos abertas
Duas montanhas desertas
Dois oceanos vazios
Já cansei de te alcançar
Rasguei por dentro o mar
E sequei todos os rios

Trago as minhas mãos abertas
Nas madrugadas desfeitas
Quando acordo e não te vejo
Rosas de fogo na cama
Acendem por dentro a chama
Da saudade e do desejo

Ribeira tripeira

Coelho Júnior / Rezende Dias
Repertório de Maria Rosa Rodrigues


Uma viela, uma calçada
Uma janela toda enfeitada
Barcos no rio a baloiçar
Ao desafio lá vão pescar;
Esta Ribeira vista d’além
Linda aguarele que só o Porto tem

Minha Ribeira, Ribeira
Debruçada sobre o Douro
A tua gente tripeira
E o mais belo Miradouro
Ribeira, Ribeira
Sempre nova, sempre crente
Todos os dias és feira
Todos os dias és feira
Ganha-pão da tua gente


Velhas Alminhas, nicho de fé
E tens a ponte ali ao pé
Tascas bizarras de lado a lado
Choram guitarras, canta-se o fado;
Esta Ribeira vista d’além
Linda aguarela que só o Porto tem

Boa noite solidão

Jorge Fernando / Carlos da Maia
Repertório de Fernando Maurício
Também gravado por Jorge Fernando na música do
Fado Balada de António dos Santos *parceiros das farras*

Boa-noite solidão
Vi entrar pela janela
O teu corpo de negrura;
Quero dar-me à tua mão
Como a chama duma vela
Dá a mão à noite escura

Só tu sabes, solidão
A angústia que traz a dor / Quando o amor a gente nega
Como quem perde a razão
Afogamos nosso amor / No orgulho que nos cega

Os teus dedos, solidão
Despenteiam a saudade / Que ficou no lugar dela
Espalhas saudades p'lo chão
E contra a minha vontade / Lembras-me a vida com ela

Com o coração na mão
Vou pedir-te, sem fingir / Que não me fales mais dela
Boa-noite solidão
Agora quero dormir / Porque vou sonhar com ela

Deixa-te disso

Jorge Rosa / Paulo Valentim
Repertório de Ada de Castro


Não venhas com falas mansas
Porque te cansas no teu falar
Já te conheço de cor
Acho melhor não te aceitar

Não venhas com artimanhas
Que as tuas manhas já descobri
De comer da tua carta
Já ando farta, farta de ti

Deixa-te disso, deixa lá de ser postiço
Não ganhas nada com isso
Já te pus no meu passado
Deixa-te disso, deixa-me, leva sumiço
P’ra eu quebrar o enguiço
De ter vivido a teu lado


Se voltas a procurar-me
Gritos de alarme dou sem demora
Hoje ver-te é uma agonia
Nunca o diria, mas digo agora

A vida, não me atropeles
Amargos feles eu descobri
Hoje apetecem-me doces
Delico-doces, mas não de ti

Não sou fadista de raça

T. Cavazini / Alfredo Duarte *fado bailarico*
Repertório de Teresa Tarouca

Não sou fadista de raça
Não nasci no Capelão 
Eu canto o fado que passa 
Nas asas da tradição

Nunca usei negra chinela / Nem vesti saia de lista
Nunca entrei numa viela / Mas tenho raça fadista 

Tirei suspiros ao vento / Olhei um pouco o passado
Busquei do mar o lamento / E fiz assim o meu fado 

É este fado famoso / Que em noites enluaradas
O Conde de Vimioso / Tangia nas guitarradas 

Era fidalgo de raça / E ficou na tradição
Cantando o fado que passa / Na Rua do Capelão

Maria do Porto

Coelho Júnior / Resende Dias
Repertório de Luísa Salgado


É do Porto esta Maria, Maria fresca e bonita
Sai logo mal rompe o dia
Leva no rosto a alegria, no corpo as pintas de chita

Pasa pelas fotaínhas, desce alegre a Corticeira
P’ara e reza nas Alminhas
Dá pão a duas velhihas e vai vender p’rá Ribeira

Maria do Porto de andar balançado
Sorriso rasgado
Sorriso rasgado, alegre e sadio
Maria do Porto de faces trigueiras
Que bem que tu cheiras
Que bem que tu cheiras a mar e a rio


É do Porto esta Maria, é a Maria, talvez
Em franqueza e simpatia
É Maria mais Maria, nome que é bem portugês

Esta Maria tem fé no rapaz que é todo dela
Mora p’rós lados da Sé
E à tardinha vai até à Ribeira, ter com ela

Quando os outros te batem

Quando os outros te batem beijo-te eu (título completo)
Pedro Homem de Mello / Armando Machado *fado aracélia*
Repertório de Amália


Se bem que não me ouviste e foste embora
E tudo em ti decerto me esqueceu
Como ontem, o meu grito diz-te agora
Quando os outros te batem, beijo-te eu

Se bem que às minhas maldições fugiste
Por te haver dado tudo o que era meu
Como ontem, o meu grito agora viste
Quando os outros te batem, beijo-te eu

Mas há-de vir o dia em que a saudade
Te lembre quem por ti já se perdeu
O fado quando é triste é que é verdade
Quando os outros te batem, beijo-te eu

Isto de ser poeta

Artur Ribeiro / António Parreira
Repertório de Rodrigo

Ser poeta, aos olhos meus
É olhar o universo
É ver mais longe, mais fundo
É ser mais pobre que Deus
É dar ao mundo num verso
Toda a riqueza do mundo

Ser poeta é ser capaz
De dar o que a alma encerra
Em defesa da verdade
É fazer das horas más
Versos que inundam a terra
A pregar humanidade

Ser poeta é ser tão pouco
É ser tão pouco e dizer 
Coisas de causar espanto
Quem dera passar por louco
Quem dera poeta ser 
Dos versos que apenas canto

Meu amor é marinheiro

Manuel Alegre / Alain Oulman
Repertório de Amália

A última estrofe não foi gravada

Meu amor é marinheiro 
E mora no alto mar
Seus braços são como o vento 
Ninguém os pode amarrar
Quando chega à minha beira
Todo o meu sangue é um rio
Onde o meu amor aporta
Meu coração, um navio

Meu amor disse que eu tinha
Na boca um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos e a liberdade
Meu amor é marinheiro
Quando chega à minha beira
Acende um cravo na boca
E canta desta maneira

Eu vivo lá longe, longe
Onde passam os navios
Mas um dia hei-de voltar
Às águas dos nossos rios
Hei-de passar nas cidades
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias

Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar

Assim falou meu amor
Assim falou ele um dia
Desde então eu vivo à espera
Que volte como dizia

Gotas de tristeza

Artur Ribeiro / António Parreira
Repertório de Rodrigo


Este nosso ficar de vez em quando
Assim, olhos nos olhos, d’alma presa
Os pedaços de ti que vais deixando
São gotas de alegria na tristeza

Este ser um do outro sem ter peias
Na loucura total que nos invade
O que fica de ti nas minhas veias
São gotas de presença na saudade

Este meu duvidar tendo a certeza
Que no final é sempre noite fria
São gotas de alegria na tristeza
São gotas de tristeza na alegria

Convite ao Porto

Maria da Luz Castro e Silva / Fernando Pereira
Repertório de Teresa Tapadas


Vem ver as cachapas saltar à fogueira
E na brincadeira queimar alcachofras
Vem ver namorados que muito juntinhos
Dizem segredinhos com beijos trocados

Vem ver manjericos e as ervas santas
E lá para as tantas beta com o porro
Vem ver como é a velhinha Sé
Toda iluminada no alto do Morro

Porto, Porto, Porto
Esta noite é toda tua
Vem dia p’rá rua
Vem daí folgar
Porto, Porto, Porto
Vem dái, que a própria lua
Se não vens, amua
Pois te quer ouvir cantar


Vem meu Porto amigo, vem para a folia
Vem com alegria que eu vou contigo
Eu sou a cantiga que de braço dado
Irei a teu lado como boa amiga

Meu Porto fagueiro, nesta noite bela
Eu serei aquela, sempre à tua beira
Pois no São João vibra o coração
Na chama cadente da gente tripeira

Marcha fúnebre

Pedro Homem de Melo / Joaquim Campos *alexandrino estilado em 4as+
Repertório de João Braga

Vinham dois, vinham quarenta, vinham já cem mil talvez
E uma poeira sangrenta cobre o solo português
De Este a Oeste, Norte a Sul, tais como as ondas do mar
Olhar negro, ontem azul, vinham deitar-se a afogar

Vinham mudos e sombrios com a noite na garganta
Vinham cegos como os rios, omo a sede quando espanta
Vinham sem saber onde iam, mergulhando o corpo todo
Nas próprias veias que abriam como quem se afunda em lodo

Eram eles a fronteira da pátria sem pensamento
Como escravos sem bandeira, tendo por bendeira o vento
Cidade, cidade minha, quem o havia de dizer?
Atrás de um, mais outro vinha... e vinha para morrer!

Resignado

António Rocha / Salvador Gomes *alexandrino valmor*
Repertório de António Rocha


Nem mais uma palavra de queixa ou de lamento
Nem mais uma alusão à dor que me consome

Não mais quem tanto esperava, não mais a voz do vento
Trazendo aos meus ouvidos o eco do teu nome

Nem mais noites de calma falando à luz da lua
Quando os longos silêncios diziam mais que nós
Não mais a minha alma arrebatada e nua
Ouvindo extasiada o som da tua voz

Masa a recordação deste sonho só meu
Há-de ficar no tempo, há-de viver em mim
Porque este coração eternamente teu
Batendo no meu peito, há-de lembrar-te assim

Nascente d’água pura aonde fui matar
Esta sede de amor, secura de carinho
Fogueira de ternura onde me fui queimar
Lágrima cristalina que hei-de chorar sozinho

Fado dos trevos

Vasco da Graça Moura / Florêncio de Carvalho
Repertório de Clara
Este poema também foi gravado por Maria Azóia na música 
do Fado Alexandrino Antigo de Armando Augusto Freire

A vida é feita de escolhas 
Quis escolher uma vez 
Um trevo de quatro folhas 
Mas só vi trevos de três 

Quis então cantar nas ruas 
Um fado que as três resuma 
Mais valem três do que duas
E mais duas que nenhuma 

E então cantando e somando / O que quero e o que não quero 
No meu onde, como, e quando / Tinha de partir do zero
E então cantando e somando / O que quero e o que não quero 

Acontece que entretanto
Deu-se um golpe de teatro
Encontrei-te e amei-te tanto
Que as três valeram por quatro

E assim, nas minhas escolhas
Eu tinha razão talvez
Transformando em quatro folhas 
Trevos que eram só de três

Vejo ao longe

Maria Fernanda Santos / Domingos Camarinha
Repertório de Fernanda Maria


Fecho os olhos sem dormir
E relembro sem sonhar
O que a vida me roubou
A saudade que deixou
Dentro de mim a chorar

Vejo ao longe sem te ver
Vou lembrando sem lembrar
A tua sombra a meu lado
Recordações do passado
Dentro de mim a chorar

Sinto passos sem sentir
E falando sem falar
Na hora da despedida
Sinto uma vida sem vida
Dentro de mim a chorar

Manhãs do Porto

José Guimarães / Rezende Dias
Repertório de Maria Rosa Rodrigues

Vai-se a noite com seu manto de luar
Já no céu não a brilha a lua
Radioso vem o sol para beijar
As pedras de cada rua

O Porto em manhã de sol, tem mais calor
Fala mais ao coração
É aguarela de cor
Dum estribilho de amor
Que vem de cada pregão

Passa alegre, alegre, a varina
Solta ao vento pregões matinais
Mais além já vem o ardina
Vem correndo, vendendo jornais
Na Fontinha, na Sé, na Ribeira
Há cantigas dispersas no ar
Cada bairro da cidade inteira
Nasce o dia, começa a cantar


Há perfumes nos craveiros das janelas
Que se abrem de par em par
Tocam sinos nas igrejas e capelas
Para a cidade rezar

Pela rua passa em bando a mocidade
A transbordar de alegria
O Porto linda cidade
Tem a cor e a majestade
Na graça de novo dia

Uma flor na lapela

António Vasconcelos / Eugénio Pepe
Repertório de Ada de Castro


As flores são uma lembrança delicada
Sempre apreciada se enviadas à muher
São saudação bem feminina
Quem estima não esquece

As flores são um presente delicado
Todo o namorado, ao enviar
Sabe que vai no ramo ramo
Muito mais que *eu amo* todo o verbo amar

Uma flor na lapela
Que graça que tem
Uma flor à janela 
Como fica bem
Uma flor no cabelo
O encanto que traz
Rosas, cravos, margaridas
Tanto faz

Nascer e morrer fadista

Alberto Jorge / Georgino de Sousa *fado georgino*
Repertório de Leonor Santos


Nasci e por feliz sina
Fatalidade divina
Tive um amor desvairado
Ser castiça cantadeira
E assim, desta maneira
Falar a cantar o fado

O fado, fado da gente / Que dizem, ser deprimente
Que alberga toda a desgraça
Confesso que o fado é / Minha cartilha de fé
Em cada dia que passa

O maldizente do fado / É maldizer o passado
De um xaile traçado ao peito
Bem juntinho ao coração / Rezo tanto em oração
Fica-me bem este jeito

E p’ra final do meu fado / Quando tocar a finado
Dou minha alma bizarra
A Deus todo o poderoso / Com o som harmonioso
Da viola e da guitarra

Alameda das Fontaínhas

Rodrigues Canedo / José Duarte Seixal *fado seixal*
Repertório de Rodrigo


Fontaínhas em de fonte
E fontes lembram frescor
Foi ali, que entre horizontes
Assentes em duas pontes
Fiz uma pode de amor

Fontaínhas, Fontaínhas / Onde amei a vez primeira
Agora, saudades minhas
São um bando de andorinhas / Nos beirais da Corticeira

Ó consagrada Alameda / Num chão de pedras antigas
Meus passos eram de seda
E o passado me segreda / Uns retalhos de cantigas

Fontaínhas, meu tesouro / Tu me déste imenso gosto
De ver seu cabelo ouro
Tremer às brisas do Douro / Na moldura do seu rosto

E se a dona do cabelo / Se ausentava, então eu via
Na vela de algum Rabelo
O retângulo do selo / Das cartas que me escrevia

Fontaínhas, Fontaínhas / Serra do Pilar defronte
São João, saudades minhas
Seja tudo p’las Alminhas / Pelas Alminhas da Ponte

Cada vez mais

Alexandra Solnado / Paulo de Carvalho
Repertório de Sara


Primeiro foi quase nada
Deste-me um beijo e eu corei
Estava tão sossegada
Eu que sabia tudo… já não sei

Não quero amores de um verão
E nem paixões acidentais
O teu amor é o meu chão
Cada vez mais


Depois correste a cortina
Puseste um sonho a tocar no tom
Ainda sou tão menina
Contigo já sou mulher… é bom

Então veio o aconchego
Destes abraços que são meus
Eu ando morta de medo
Que logo a seguir venha o adeus

Já vai alta a madrugada
Passou por aqui um vendaval
Ainda estou assustada
Não quero que tu faças mal

Eu nasci na Mouraria

Júlio de Sousa / Popular *fado mouraria*
Repertório de Isabel de Oliveira

Eu nasci na Mouraria
À luz doce das candeias
Minha mãe cantava o fado
Eu tenho o fado nas veias

Eu nasci na Mouraria / Na hora em que é bom sonhar
Onde o silêncio dizia / Os segredos ao luar

Eu vivi na Mouraria / Debruçada na janela
Do alto, a vida parecia / Uma outra vida mais bela

Um dia caí na rua / Outra vida conheci
Não era minha, foi tua / A vida que então vivi

Deixa lá

Alexandra Solnado / Paulo de Carvalho
Repertório de Sara


Deixaste um adeus à janela
E as coisas que tu nunca mais vais usar
Todos as carinhos agora são dela
Ficou mais longe o meu olhar

Deixaste algumas gravatas
Aquelas que nunca soubeste apertar
Memórias dos anos passados são datas
Que eu não me canso de lembrar

Deixa lá que o pior já passou
Quando quiseres voltar, cá estou
Deixa lá, não vou saír daqui
Enquanto puder espero por ti


Deixaste abertas gavetas
E a calma sentou-se na sala de estar
À espera que ainda voltes, estou eu
Que não me canso de pensar

Mas deixaste o mais importante
De todas as coisas que tinhas à mão
Levastes os livros e o pó da estante
Mas deixaste ficar o meu coração

Não gosto de mim

Artur Ribeiro / Alfredo Duarte *fado mocita dos caracóis*
Repertório de Rodrigo


Já não me lembro ao que vim
Nem para que nasci eu
Desencontrei-me de mim
E detesto ver-me assim
Num rosto que não é meu

Não gosto de mim, nem tento / Que alguém me suporte agora
Agora que o meu lamento / Vai ser escrito no vento
Eu quero deitar-me fora

Quando agora me diviso / Neste nada, que ficou?
Um nada que causa riso / 
Por ver que o mundo narciso
Se vê naquilo que sou

Não gosto nem acredito / Que me acomode de todo
Qualquer dia dou um grito / Tiro a máscara do mito
E regresso a mim de novo

Jóia sagrada

Frutuoso França / Popular *fado menor*
Repertório de Frutuoso França


Tive uma jóia sagrada
Era a minha santa mãe
Perdi-a, fiquei sem nada
Sou mais pobre que ninguém


Levo a custo, de vencida / 
Da vida, a cruz tão pesada
Porque apenas nesta vida / Tive uma jóia sagrada

Essa jóia de valor / 
Na mente conservo bem
Era uma santa, um amor / Era a minha santa mãe

Dizem que partiu p’ró céu / 
P’rá sua eterna morada
Que tudo tem e só eu / Perdi-a, fiquei sem nada

Ao partir, entre desejos / 
Beijou-me muito, porém
Hoje ao lembrar os seus beijos / Sou mais pobre que ninguém

Gosto do preto no branco

António Aleixo / Marcírio Ferreira
Repertório de Alfredo Guedes


Gosto do preto no branco
Como costumam dizer
Antes perder por ser franco
Que ganhar por não o ser

Vinho que vai p’ra vinagre / Não retocede o caminho
Só por obra de milagre / Pode de novo ser vinho

Casado que arrasta a asa / À mulher deste e daquele
Merece que tenha em casa / Outro homem no luar dele

Eu não sei porque razão / Certos homens, a meu ver
Quanto mais pequenos são / Maiores querem parecer

Tempos antigos

Letra de Gabriel de Oliveira
Publicada a 22.04.1934 na edição Nº291 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
com a indicação de pertencer ao repertório de Júlio Proença e Alberto Costa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel

Quando se usava navalha
Na Alfama e na Mouraria
Como afirmação bairrista
Servia só à canalha
Na mão falsa do rufia
Nunca nas mãos dum fadista


Na companhia de amigos
Da legião que trabalha / A labutar todo o dia
Recordo tempos antigos
Quando se usava navalha / Na Alfama e na Mouraria

Na lama da sociedade
Por causa duma mulher / Dessas de fácil conquista
Havia orgulho e vaidade
Em dar um traço a qualquer / Como afirmação bairrista


Mas essa lâmina atroz
Que um bairro inteiro abandalha / E é brasão de cobardia
Não era usada por nós
Servia só à canalha / Na mão falsa do rufia

O Faia não recuava
Encarando frente a frente / Essa ralé fatalista
E se a navalha brilhava
Era nas mãos dessa gente / Nunca nas mãos dum fadista

Taça de doce licor

Carlos Baleia / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de Jorge Batista da Silva

É uma aragem que passa
Um bafo quente que beija
Mistério que nos abraça
E que sem querer se deseja

É a força em movimento / Que dirige nossos passos
E que num breve momento / Nos põe o mundo nos braços

Um riso de olhos vendados / Onde floresce o amor
Sabor de lábios molhados / Taça de doce licor

Veloz o vento desliza / Neste beijo que vai dando
E a vida nem nos avisa / Que está o tempo passando

É corrida de segundos / A que se corre a seu lado
E os braços seguram mundos / Num minuto aprisionado

Vinda longa, vida breve / Presente igual a passado
Dia a dia onde se escreve / O que não está acabado

O amor

Letra de Francisco Radamanto
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


O amor, a paixão, tudo isso enfim
Que faz bater depressa os corações
Resume-se em princípio, meio e fim
Palavrinhas, palavras, palavrões

No princípio há só mel, e é dado ver
Que ele e ela, arrulhando, quais pombinhas
Só falam um c’o outro p’ra dizer
Minha fada… meu anjo… palavrinhas

No meio, quando acaba tanta festa
Os ditos, já banais, são de outras lavras
E desse mel antigo apenas resta:
Eu já venho… até logo… só palavras

E cada vez pior, até que ao fim
Em vez de beijos há só beliscões
E as frases que eles trocam são assim
Vai à fava… malvado… palavrões

Doido sim, mas não louco

Letra e música de Alves Coelho Filho
Repertório de Francisco José


Dizem p'raí que eu sou doido, ainda bem
Sou feliz por me julgarem assim
No entanto eu nunca fiz mal a ninguém
Quero aos outros o que quero para mim

Dizem p'raí que eu sou doido, que m’importa
Essa voz do povo é para mim quimera
Pois quem bate à minha porta
Tem o pão que o conforta
E uma amizade sincera

Sou doido por ti minha mãe
A estrela que tem mais fulgor
Sou doido por ti meu bom pai
Que és para mim o amigo maior
Sou doido por ti Portugal
A pátria onde um dia nasci
Sou doido e não louco
Porque louco, afinal
Só louco por ti


Dizem p'raí que eu sou doido, pois seja
Deixai falar quem assim tem prazer
Não viveu nem vive em mim a inveja
Nem desejo mau amigo ver sofrer

Dizem p'raí que eu sou doido, oh que ilusão
Dizem por fim, tanta coisa por aí
Mas tenho mais coração
E p’los meus maior paixão

Vou deixar o meu homem

Letra de Carlos Conde
Repertório de Maria Amélia Proença (?)
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


A zanga agora é de vez
Não, aquele homem não é
Um homem p'ra me servir
Calculem que há mais de um mês
Chega a casa, janta, lê
Deita-se e põe-se a dormir

De noite, se ele desperta
Acendo a luz a correr / E dou-lhe beijos, em suma
Mas nem com a luz aberta
Ele abre os olhos p'ra ver / Que não sou peste nenhuma

Diz que o estômago lhe doi
E doi-lhe apenas na hora / Dos meus beijos delicados
E o que mais me rala e moi
É saber que ele lá fora / Come pratos variados

Ando doida, revoltada
Isto assim não pode ser / Quando se vive em comum
Não me faltava mais nada
Ele, lá fora, a comer / E eu a ficar em jejum

Alfacinha de gema

Eduardo Damas / Manuel Paião
Reportório de Deolinda Rodrigues


Subo o Chiado à tardinha
Vejo as marchas n’avenida
Bebo o café no Rossio
E é esta a minha vida

Vou aos retiros de fado
Chorar a dor e a virtude
E levo sempre uma vela
À Senhora da Saúde

Sou Alfacinha da Gema
Sou do Largo dos Trigueiros
Ali bem junto da Baixa c
om varandas e craveiros
Sou Alfacinha da Gema
Eu amo Lisboa inteira
E creio até que ‘inda choro pela Praça da Figueira
Gosto da Rua do Ouro
Do Arco da Dona Augusta
E das Ruínas do Carmo juntinhas a Santa Justa
E como eu gosto, Meu Deus
Das janelas com craveiros
Á luz do sol da tardinha lá no Largo dos Trigueiros


Vou ao Parque ver revista
E podem ter a certeza
Que o espectáculo que eu gosto
É a Revista à Portuguesa

Amo muito a minha baixa
E sofro ao pensar que um dia
Depois da Graça e do Arco
Me levam a Mouraria

A ajuntadeira

Letra de Gabriel de Oliveira e João Linhares Barbosa
Publicada a 08.10.1936 na edição Nº319 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
com a indicação de pertencer ao repertório de Maria do Carmo Torres
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


A Helena ajuntadeira
Farta de ajuntar calçado
Juntou-se ainda solteira
Ao seu vizinho do lado

Houve festança na escada / E juntaram-se os vizinhos
Não foi preciso mais nada / P’ra juntarem os trapinhos

Passou a viver ao lado / Do Manuel serralheiro
Ia juntando calçado / Mas não juntava dinheiro

Ele fez dela uma escrava / E em noites de bebedeira
Junto com outras gastava / A féria da ajuntadeira

A sorte foi-se de todo / Até que a viram um dia
Junto a uns pobres num bodo / Na Junta de Freguesia

Se lhe perguntam por ele / 
Ela responde à pergunta
Que não 'stá junta ao Manel / Mas que a outro não se junta

Meu Porto à noite

José Guimarães / José Maria Antunes
Repertório de Ricardo Barreto


Venham ver este luar
Que nas ondas se retrata
E Rio Douro a brilhar
Parece um rio de prata

As janelas, venham ver
Quais cristais a rebrilhar
Umas a apagar
Outras a acender
São rubis a cintilar

O Porto à noite é fantasia
Luz que inebria
Tristeza, alegria, ternura e saudade
No Porto à noite a graça é tanta
E o céu se encanta 
No fado que canta a voz da cidade
O Porto à noite é uma prece
Que nos aquece 
E a velha Sé reza sempre que anoitece
Sonho feliz 
Que nos prende e dá conforto
Cai a tarde e a gente diz
Boa noite meu Porto

Um brinco dos teus

Letra de Artur Soares Pereira
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Se eu pudesse ser um dia
Maria, um brinco dos teus
Que coisas lindas diria
Aos teus ouvidos, meu Deus


Sempre alerta e vigilante / Qual sentinela em seu posto
Juro, guardava o teu rosto / Beijando-o a todo o instante
Têm brilho inebriante / Os teus olhos, dois judeus
De cristãos fazem ateus / Nem eu sei o que faria
Se eu pudesse ser um dia
Maria, um brinco dos teus


Pendurado com carinho / No teu rosto encantador
Meigas palavras de amor / Eu murmurava baixinho
Contigo faria um ninho / Abençoado p’los céus
Mais ninguém, dos lábios meus / Palavras de amor ouvia
Que coisas lindas diria
Aos teus ouvidos, meu Deus

Milagres

Letra Gabriel de Oliveira e Linhares Barbosa
Publicada a 13.03.1937 na edição Nº318 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
com a indicação de pertencer ao repertório de Fernanda Amália
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


O meu filhinho ao nascer
Encheu-me a casa de luz
E ouvi um anjo dizer
A Virgem vem-te oferecer
O seu Menino Jesus

Cantava um melro defronte / Em sinal de bom agoiro
Palrava perto uma fonte
E ao longe, no horizonte / O sol derretia oiro

O meu lar, todo alegria / Encheu-se de vizinhança
E toda a gente dizia
Que nascera nesse dia / A mais formosa criança

Peguei-lhe cheia de jeito / Contente, orgulhosa e louca
O mundo era curto e estreito
P’ra o prazer de dar o peito / Àquela pequena boca

Ao longe passou alguém / A cantar este estribilho:
Dos milagres que Deus tem
O maior foi dar à mãe / O leite para o seu filho

Madrugada

Carlos Baleia / Fernando Silva
Repertório de Jorge Batista da Silva


Nasceu a madrugada em mil desejos
E havia insensatez no meu olhar
Uma ânsia d’amor sorvendo beijos
Que o tempo cruel não me quis dar

Criei minhas manhãs de nevoeiro
Qual príncipe a viver seu sonho louco
E assim fugindo do mundo verdadeiro
Fui-me enganando em noites de sufoco

Difusa imagem de um amor vivido
Real ou irreal, na alma impresso
Com um raio de esperança sem sentido
E outros que segredam teu regresso

E então tudo à volta em luz se agita
Num sol de promessas estonteantes
Acalmando sentimentos de desdita
Augurando madrugadas triunfantes

Alma fadista

Letra de Gabriel de Oliveira
Publicada a 03.03.1932 na edição Nº 245 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Quanto é lindo o nosso Fado
Numa cadência dolente
E no tom afadistado
Da mulher d’antigamente

Quanto é lindo o nosso Fado / Na boca das cantadeiras
A recordar o passado / Das fadistas verdadeiras

Numa cadência dolente / Daquela mulher bairrista
Que sabe cantar e sente / Revive o fado fadista

E no tom afadistado / Tem mais valor a cantiga
Por ser o fado arrastado / Dessa Mouraria antiga

Da mulher d’antigamente / E da sua tradição
Vive o fado eternamente / Dentro do meu coração

Se eu fosse o fado vadio

Letra de Lopes Vitor
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Se eu fosse o fado vadio
Alugava madrugadas
Dentro de velhas tipóias
E aceitava o desafio
Em forma de desgarradas
Com severas e rambóias

Se eu fosse o fado vadio
Tirava sangue das veias / Para t’o dar com fervor
E no chão do desvario
Ficava paredes-meias / No fogo do nosso amor

Se eu fosse o fado vadio
Era guitarra, lanterna / Era xaile, era harmonia
Era a corrente de um rio
Alongado na caverna / A correr p’rá Mouraria

Se eu fosse o fado vadio
Era sonho, era alvorada / Medronho, rosa, silveira
Fazia da noite um rio
E morria, madrugada / Lá no Cacau da Ribeira

Padroeiras de Portugal

Letra de Gabriel de Oliveira
Transcrita no livro de A.Victor Machado, “Ídolos do Fado” 1937 
com a indicação de pertencer ao repertório de Natália dos Anjos 
e ser cantada na música do Fado Mortalhas de Armando Machado
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Senhora da Boa Hora
Do alto da Serra das Neves
O meu amor foi-se embora
Já lá vai p’la barra fora
Pois que em boa hora o leves

Senhora da Boa Viagem
Lá vai ele no convés
Faz parte da marinhagem
Sobe aos mastros, tem coragem
Boa viagem lhe dês

Senhora da Boa Esperança
Protege-o no alto mar
Que o mar alto só descansa
Quando tu lhe dás bonança
Dá-lhe esp’rança de voltar

Carta à Maria

Manuel Casimiro / Carlos da Maia *fado perseguição*
Repertório de Eduarda Maria
Este tema também foi gravado com o título "Carta a Manuel"

Manuel, cá recebi
A carta em que me dizias
Que entre nós tudo acabou
E foi com espanto que li
Que no mundo há mais Marias
E eu p'ra ti já nada sou

Não me ofende o teu desdém  / 
Nem me atinge o teu desprezo
Podes pois ficar em paz
Até juro, nota bem / Pela luz que tanto prezo
Que nunca mais me verás

Pode ser que outra Maria / Satisfaça teus desejos
E cumpra a tua vontade
Estou certa que nesse dia / Lembrarás meus castos beijos 
Co’a mais profunda saudade

Vou dobrar este papel / E aproveito p’ra dizer-te
Pela luz que me alumia
Que para ti, Manuel / Embora não queira ver-te
Sou sempre a mesma Maria

Flores no lodo

Letra de Gabriel de Oliveira
Publicada a 10.11.1938 na edição Nº352 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Nas ruas mal afamadas
Do bairro da Mouraria
Há raparigas honradas
Puras como a luz do dia


Dizem que o factor miséria / Faz milhões de desgraçadas
Mas há tanta mulher séria / Nas ruas mal afamadas

Há meninas elegantes / Que se perdem na orgia
Mas essas vivem distantes / Do bairro da Mouraria

Se a Mouraria descobre / A vida das malfadadas
Também nesse bairro pobre / Há raparigas honradas

E se lá houve rameiras / A gente honesta sabia
Guardar as filhas solteiras / Puras como a luz do dia

Perguntas ao vento

Carlos Baleia / Fernando Silva
Repertório de Jorge Batista da Silva


Que mistério havia em teu olhar
Que fez mudar o mundo em meu redor
Que segredos trazias no andar
Que pacto tinhas tu com o amor;
São perguntas que, louco, faço ao vento
Que não cuida de mim nem um momento

Suspenso no sorriso que me dás
Surpresa que na noite me ilumina
Eu sinto que no teu sorrir fugaz
Há todo um poder que me domina;
E me arrasta na sombra que se afasta
Numa caminhada inútil e madrasta

Meu amor, teu rosto de passagem
Qual invasor cruel e abusivo
Deixou em mim o padrão dessa viagem
Que me deu o pesar em que ora vivo;
Castigo de um amar em sofrimento
Na esperança que me dês contentamento

Os meus olhos

Letra de Gabriel de Oliveira
Do arquivo de Francisco Mendes, com a indicação de pertencer 
ao repertório de Natália dos Anjos
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Já tenho os olhos inchados
Farta de tanto chorar
Vão quatro dias passados
E o meu amor sem voltar


Não me deites ao desdém / Tira-me destes cuidados
Quatro dias chegam bem / Já tenho os olhos inchados

Não sabes compreender / O valor do meu penar
Saudosa de te não ver / 
Farta de tanto chorar

Ao menos tem caridade / Olha os meus olhos, coitados
A chorarem de saudade / Vão quatro dias passados

Deste viver sofredor / Não consigo descansar
À espera do meu amor / E o meu amor sem voltar

Estações

Letra de António Calém
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Quem me dera, quem me dera
Que fosses como os demais
Que fosses só Primavera
Primavera e nada mais

Mas és Verão em meus sentidos
És calor e és verdade
E eu visto gestos perdidos
Para te cantar à vontade

É que o Outono que eu sou
Só pôde florir agora
Desde que em mim começou
O ser só teu, hora a hora

O Inverno virá depois 
Mas deixa a neve e o frio
Que importa, se somos dois 
Contra o mundo em desafio?

Deserto de amor

Carlos Baleia / João Machado
Repertório de Jorge Batista da Silva


Ando no deserto / E a areia é um mar
Com o vento perto / E o sol a queimar

Vou na caravana / Lenta e multicor
Longe da tirana / Por quem sinto amor

Vejo uma palmeira / E a sua miragem
E desta maneira / Eu sigo a viagem

Mas neste deserto / Caminho às escuras
Sem ter trilho certo / P’rás suas loucuras

Sei como os seus lábios / E seus finos dedos
Com talentos sábios / Fabricam segredos

E lembro as orgias de palavras roucas
E as suas magias de carícias loucas

O vento suão / Sem ler alfarrábios
Sabe da paixão / Das mãos e dos lábios

E a onda d’areia / Sempre a avançar
Vem de volta e meia / Tudo recordar

Tenda multicor / De tantos segredos
Oásis de amor / Sem ter arvoredos

Ó moura encantada / De uma tal miragem
És o tudo e o nada / Da minha viagem

A Justa

Letra de Linhares Barbosa e Gabriel de Oliveira
Publicada a 11.04.1935 na edição Nº319 do Jornal Guitarra de Portugal
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel


Nos seus caprichos, a Justa
Vive à larga, tem brilhantes
Se acaso a vida lhe custa
A Justa nunca se assusta
Vive à custa dos amantes

Passou-lhe à porta a desgraça / E a Justa, sem mais demora
De S. Francisco, por graça / Pôs as armas na vidraça
E a desgraça foi-se embora

Diz-se que foi um desgosto / Que a fez gostar desta vida
Pintou o rosto indisposto / E numa noite de agosto
Por gosto se fez perdida

Como as ralações são lérias / Misérias que Deus criou
Nunca pensa em coisas sérias / E não se ajeita às misérias
Que a gente série inventou

A Justa desperta intrigas / Por se ligar aos da alta
Pertence a todas as ligas / Que casam as raparigas
Depois da primeira falta

Depois da primeira falta / A Justa, como é robusta
Já lutou no “Capitólio” / A todo o “sport” se ajusta
Mas, no “Capitólio”, a Justa
Não ganhou para o petróleo

Ilha inventada

Carlos Baleia / João Machado
Repertório de Jorge Batista da Silva


Num mar de pura invenção / Existe a ilha inventada
Um penhasco, uma enseada / Um promontório, um vulcão
Um campo por cultivar / Um ribeiro d'água pura
Arbustos a balouçar / Raios de sol e ternura

Um homem, uma mulher / Um fruto e uma serpente
Uma tentação qualquer / E um demónio presente
Uma queda anunciada / Um paraíso perdido
Na bela ilha inventada / Por um Deus meio divertido

Ilha encantada, tapete de fantasia
Uma invenção adiada, uma dentada sadia
A maçã saboreada, uma história de ironia
Um desejo de regresso ao encanto dessa ilha;
Um repetido começo, uma fé que ainda brilha
Através do fumo espesso cercado de maresia


Ventos de forte corrente / Sem marés de cortesia
Trazem barcaças de gente / Aos portos da fantasia
E nesse mar de invenção / Nessa terra arquitectada 
Continua a construção / Da ilha nunca acabada

Oração dum fadista

Lopes Vitor / Franklim Godinho
Repertório de Vicência Lima 

Se a memória não me ilude
Há quem tenha já chamado
À Senhora da Saúde
A Padroeira do Fado

Mora numa capelinha / Cheia de encanto divino
Na Mouraria velhinha / Onde o Fado foi menino

Todos fadistas lá vão / Numa lágrima sentida
P'ra rezar uma oração / Do fado da própria vida

Virgem de Graças sem fim / Se dos fadistas és mãe
Pede a Deus, pede por mim / Que eu canto o Fado também
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Versão original

Se a memória não me ilude
Há quem tenha já chamado
À Senhora da Saúde
A Padroeira do Fado

Mora numa capelinha / Cheia de encanto divino
Na Mouraria velhinha / Onde o Fado foi menino

Muitos fadistas lá vão / Numa lágrima sentida
Soluçar em oração / O fado da própria vida

E a Virgem do seu altar / Abençoa certamente
Quem vive a vida a cantar / A vida de toda a gente

Virgem de Graças sem fim / Se dos fadistas és mãe
Pede a Deus, pede por mim / Que canto o Fado também

Quase primavera

Letra de António Cálem
Repertório de João Braga
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Nada faltou nesse dia
Havia sol, Primavera
Havia esperança no ar
E a certeza duma espera

E era tal essa certeza
Que tu surgiste por fim
Havia sol, Primavera
Tu e eu e um jardim

Parecia nada faltar
Era o mundo ali à mão
Parecia nada faltar
Faltou o teu coração

Marés perdidas

Carlos Baleia / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de Jorge Batista da Silva

Sou como um mar encrespado
Pelas ondas vindas de ti
Nesse teu vento soprado
Em fúrias como não vi

Ando nas marés perdidas
Desta tormenta que inventas
Navegando despedidas
Que sofrem quando te ausentas

Meu vaivém que é incessante
Perdeu pontos cardeais
Que agora a cada instante
Querem saber onde vais;
As ondas, já desoladas
Vão perdendo seu vigor
E voam espumas salgadas
Que choram p’lo meu amor


Neste oceano infinito
Que 'inda hoje desconheces
Não ouves sequer meu grito
E se o ouves, logo o esqueces

Quebram-se as ondas na areia
Numa solidão sem esperança
Em noites de lua cheia
Sem que em mim haja mudança

Meu Portugal

Letra de Gabriel de Oliveira e Linhares Barbosa
Publicada a 25.11.1937 na edição Nº335 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
com a indicação de pertencer ao repertório de Fernanda Amália
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


És um saquinho feito de retalhos
De flores e galhos, malva-rosa e espigas
Meu Portugal… Oh! Terra tão bonita
Saco de chita cheio de cantigas

E desde o Algarve até ao Minho verde
O Sol se perde pelos teus atalhos
Hortas, jardins, no meio um carreirinho
És um saquinho feito de retalhos

Tens um sopro de divina essência
Essa inocência das canções amigas
Canções que ensopam ócios e trabalhos
De flores e galhos, malva-rosa e espigas

Tens a meiguice das ingénuas lendas
Arca de prendas, Deusa e favorita
Banhas o corpo em águas de cristal
Meu Portugal… Oh! Terra tão bonita

Nas romarias a arraiais fugazes
Tocam rapazes, cantam raparigas
Tu és na Europa uma nação bendita
Saco de chita cheio de cantigas

Hora em que te vi

António Cálem / Pedro Rodrigues
Repertório de Carlos Barra


Entre um vago despertar
O teu olhar me dizia
Que na terra não havia
Nem o sol nem o luar

Então falei-te de mim / Que ‘inda havia coração
E prendi a tua mão / Apunhalando-me a mim

A noite ficou suspensa / Como a aguardar o seu fim
E a noite disse que não / Mas tu disseste que sim

Para quê fugir agora / Se não fugia de ti?
Fugir, era fugir da hora / Nessa noite em que te vi

Coisas da vida

Letra de António Vilar da Costa
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Encontrámo-nos os dois
Eu descia e tu subias
Sorri-te e não me falaste
Mas algum tempo depois
Eu subia e tu descias
Disse-te adeus... e choraste

Certo dia, lembro bem
Tu passaste presumida / Fingindo que não me vias
Compreendi teu desdém
Porque na estrada da vida / Eu descia e tu subias

Quiseste subir de um salto
Julgaste o mundo a teus pés / Mas pasmei quando te vi
Tu que te ergueras tão alto
Desceras por tua vez / Mais baixo do que eu desci

Por isso fizeste esforços
P’ra dominares combalida / Tua dor, quando passaste
Mas ao peso dos remorsos
Vergaste a fronte vencida / Disse-te adeus… e choraste

Balada para um dia triste

Carlos Baleia / João Machado
Repertório de Jorge Batista da Silva


O dia em que a tristeza me abraçou
Foi o mesmo em que partiste
Sem dizer sequer adeus
Tu foste mas de ti tudo ficou
A lembrar-me como é triste
Ter-te só nos sonhos meus

No ar à minha volta sinto ainda o teu perfume
Da rua chega o eco dos teus passos
Mas a louca paixão que então ardia no teu lume
Deixou de derreter-se nos meus braços

Agora anda a tristeza arrependida
De ter vindo aqui morar
E do abraço que me deu
E a saudade que entrou na minha vida
Nesta balada a cantar
Fala de tudo o que é teu

São tristes os caminhos que pisaste na partida
Tão tristes como os olhos que te amam
Eu sei, longe de mim também tu andas perdida
E ouves os meus gritos que te chamam

Talvez amor

Carlos Baleia / Hugo Afonso
Repertório de Jorge Batista da Silva


Quando em mim houver fogo controlado
E a água não molhar por onde passa
Se a folha não seguir o vento irado
Ou o som da gargalhada for desgraça

Podes passar às horas que quiseres
Sorrir, telefonar, fazer sinais
No engano que eu aceito o que me deres
Na ilusão que és barco e eu sou cais

Pois vão morrendo os dias dolorosos
De novo o azul é tom de céu e mar
E não cor de teus olhos perigosos
Onde eu já mergulhei para me afogar

Agora o fogo é cinza amontoada
A água volta a ser o que foi antes
E o vento que me agita é quase nada
È simples sopro a chegar de outros quadrantes

Ver-te partir é simples recordar
É não-saudade em beijo moribundo
Sensação estranha por te deixar de amar
E um adeus que te afasta do meu mundo

O sentimento da falta que não fazes
É subtil veneno a circular
Mistério das recordações fugazes
Talvez o amor que eu nego, ao te lembrar

Quadro realista

Letra de Gabriel de Oliveira
Letra do arquivo de Francisco Mendes, com a indicação 
de pertencer ao repertório de Júlio Proença.
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Três horas da madrugada
Na Mouraria deserta
Não aparece ninguém
Somente uma desgraçada
Tendo a meia porta aberta
Ainda espera por alguém

Com as lágrimas no rosto
Essa infeliz relembrava / O triste destino seu
Minada pelo desgosto
Muito baixinho rezava / Pela mãe que lhe morreu

Nisto, ouviu-se na viela
Um assobio prolongado / Lembrando um eco distante
Tremeu todo o corpo dela
Era o sinal combinado / Do rufia, seu amante

Já não pensa na desdita
A vida pouco lhe importa / Junto do seu companheiro
Corre a cortina de chita
Guarda a velha meia porta / E retira o candeeiro

Provocante, a gingar
Presumindo ter ciúme / O rufia aproximou-se
E ao entrar no lupanar
Ouviu-se um grito, um queixume / E a meia porta fechou-se

Este quadro tão fadista
Sem nenhuma fantasia / Da minha imaginação
Tem o cunho realista
Passou-se na Mouraria / Em tempos que já lá vão

Infância breve

Letra de João Dias
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Onde estás verde balão
Da minha infância mimada
E tu rosa perfumada
Do meu jardim d’ilusão

Que é feito do sol-calor / Que a minha gente afagava
E que comigo brincava / Jogando às prendas d’amor

Onde pára a Dona Lua / Dona de tantas esp’ranças
Que à noite na minha rua / Bailava nas minhas tranças

Só ficaram horas mortas / Na noite imensa tristonha
Ninguém pensa, ninguém sonha / Cerraram todas as portas

A rosa jaz desfolhada / Profanaram o jardim
Até minh’alma coitada / Chorando fugiu de mim

No cavalo de D. José

Carlos Baleia / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de Jorge Batista da Silva


Se eu tivesse um cavalo / Como tem o D. José
Haveria de levá-lo / Até ao Cais do Sodré

Em valente cavalgada / Com garbo, com altivez
Ia ver como mudada / Está Lisboa do Marquês

Não ficaria parado / A olhar p’ró rio, ausente
No meio da Praça, especado / A ver passar tanta gente

A trote, no meu formoso corcel
Punha um ar de fidalgote
Ou de toureiro em cartel;
Capote de bom corte e a rigor
Eu ficaria no lote
De cavaleiro e senhor;
Quixote, mas lusitano nascido
Eu iria pela cidade
Onde o fado tem vivido;
Pinote, não me deitaria ao chão
Pois eu cavalgo à vontade
Na sela da ilusão


Dava um salto à Madragoa / Bairro Alto, Alfama e Bica
E a galopar por Lisboa / Inda iria até Benfica

Ao cavalo eu mostraria / O muito que tem perdido
Por nunca na Mouraria / Ter sequer um fado ouvido

E cansado da jornada / Depois de tanto laré
Devolveria a montada / Ao senhor rei D. José

A minha rica filhinha

Letra de Silva Tavares
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.

A minha rica filhinha
Co’a sua saia de roda
Parece uma vassourinha
Varrendo-me a casa toda


Sou pobre por condição / Mas tenho um grande tesouro
Quue não dou por nenhum oiro / Lançado em circulação
Fiz cofre do coração / Porque outra coisa não tinha
E essa riqueza, que é minha / Tão bem, lá dentro, me coube
Que d’ali não há quem roube
A minha rica filhinha

Nunca senti tanto enleio / Como olhando a minha filha
Fala e pensa à maravilha / Apenas com palmo e meio
Já mostra certo receio / De que a não vistam à moda
E ninguém julgue que engoda / Essa migalha de gente
Toda inchada de contente
Co’a sua saia de roda

A cada passo tropeça / Por ser a saia comprida
Mas não chora e, de seguida / Levanta-se e recomeça
Não há nada que não peça / Pois tudo quer, coitadinha
Deita-se logo à noitinha / Mas, de manhã até lá
Sempre d’aqui p’ra acolá
Parece uma vassourinha

Ela só, tão pequenina / Enche-me a vida de luz
E o peso da minha cruz / Resulta coisa divina
Ladina, muito ladina / Não pára nem se acomoda
A tudo e todos apoda / Numa estranha algaravia
E assim passa o santo dia
Varrendo-me a casa toda

Destino

Letra de António Cálem
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informaçâo credivel.


Amanhã será depois
Depois ou talvez outrora
Depende de sermos dois
Ou de haver uma demora

E então se formos dois
Já pensaste o que seremos?
Da nossa vida depois
Ou da morte que teremos?

Morte ou vida, que te importa?
Deixa vir aquele dia
Em que eu for tua ou for morta
Noite negra ou meio-dia

Para os lados da Ribeira

Carlos Baleia / Nuno Nazareth Fernandes
Repertório de Jorge Batista da Silva


Um manto de nevoeiro / Travou no Tejo um veleiro
Pôs gaivotas nas colinas
E, gemendo, o cacilheiro / Atravessa o rio inteiro
Cantando lentas matinas

No estuário de algodão / Já navega a solidão
Que ganha a vida no rio
E a manhã, em ascensão / Solta no cais “o calão”
Que no cacau mata o frio

Ai, mercado da Ribeira
Que, quer se queira ou não queira
Lisboa nos põe à mesa
E os cheiros que se misturam
São memórias que perduram
Dum mercado à portuguesa


Tejo, barcos, nevoeiro / Começo de um dia inteiro
Algazarra e discussão
E em regateio, o dinheiro / Num compra e vende ligeiro
Circula de mão em mão

E não se acalma o bulício / Daquela gente de ofício
Que viu a manhã chegar
E o Tejo em benefício / Do trabalho e sacrifício
Dá-lhe um fado para cantar

A pena do meu penar

Mote de José Rodrigues / Glosa de Gabriel de Oliveira
Publicada a 15.06.1945 na edição Nº 1 (II serie) do Jornal GUITARRA de PORTUGAL
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Cavador, meu camarada
Não digas que a pena é leve
Pesa tanto com a enxada
A pena com que se escreve


Com a pena de escrever
Que julgas não ser pesada
Eu peno para viver
Cavador, meu camarada

É ela o meu ganha pão
Deve pesar ou não deve?
Bem vês que tenho razão
Não digas que a pena é leve

Tens que à força concordar
Que na minha mão cansada
A pena do meu penar
Pesa tanto com a enxada

Filosofando mais fundo
Ninguém diz, ninguém se atreve
O peso que tem no mundo
A pena com que se escreve

O nosso amor

Letra de Lopes Vitor
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


O nosso amor acabou
Por muitas voltas que dês
E da mente não te saia
Foi aragem que passou
Nuvem que o vento desfez
Onda que morreu na praia

O nosso amor, foi quimera
Amarga desilusão / Que duas vidas tortura
Não conheceu Primavera
Nunca passou de botão / Nem viu o Sol da ventura

Se jurei não dizer nada
Esse sonho, podes crer / Não exalto nem lamento
Minha palavra está dada
Por mais que possa sofrer / Não falto ao meu juramento

O nosso amor acabou
Disse-te mais de uma vez / Por muito que nos atraia
Foi aragem que passou
Nuvem que o vento desfez / Onda que morreu na praia

Sobre a cidade

Carlos Baleia / Fernando Silva
Repertório de Jorge Batista da Silva


Sou parceiro da gaivota / Dos bizarros arabescos
Em dança louca e devota / Com movimentos burlescos

Cavalgo na andorinha / Meu tropel de pensamentos
Vindos da brisa marinha / Em fugitivos tormentos

Cruzo as nuvens de Lisboa
Meu algodão de brincar
Fazendo delas, canoa
Inventada para voar
Voo num verso perdido
Que anda em busca da verdade
Com o norte no sentido
Tendo no sul a saudade


Bailo num fado que sobe / Entre telhados, carente
Sonho cantado que encobre / O silêncio que se sente

E num voar inquieto / Que toca as margens do Tejo
Abro as asas do afecto / E abraço tudo o que vejo

O fasificador

Letra de Artur Soares Pereira
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Ao tribunal, um dia, foi chamado
Um falsificador, p’ra responder
Mas certo que seria condenado
Pensou maneira de não comparecer

Procurou um Doutor muito interesseiro
E um atestado médico requer
Dizendo: se a questão for o dinheiro
Posso pagar aquilo que quiser

O Doutor, seduzido p’la ambição
O atestado médico passou
Após o receber, de o ter na mão
O outro em notas falsas lhe pagou

O Doutor, pelas notas logo viu
Que estas eram falsas e protesta
Deveras zangado, ele exigiu
Outro dinheiro dizendo: este não presta

O falsificador, sem vacilar
Sorrindo p’ró Doutor replicou
As minhas notas falsas vão pagar
O atestado falso que passou

Ao telefone

Mote de Júlio Rodrigues / Desenvolvimento de António Amargo
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


MOTE
Norte – dois, três, zero, cinco
És tu, amor? Ouve, Berta
Deixa-me a porta no trinco
Esta noite é pela certa


1ª Glosa
Norte – dois, três, zero, cinco / Estou farto de tocar
E de tocar com afinco / Faça favor de ligar

És tu, amor? Ouve, Berta / Vou p’ra o Cabeço de Bola
Manda-me bem encoberta / A minha rica pistola

Deixa-me a porta no trinco / A porta que dá p’ra escada
Palavra de honra, não brinco / A coisa vai ser falada

Esta noite é pela certa
/ Triunfa a canalha nua
Mas vai deixando entreaberta / Também a porta da rua
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2ª Glosa
Estou farto de tocar / E de tocar com afinco
Faça o favor de ligar / Norte – dois, três, zero, cinco

Agora tudo se cala / Dir-se-ia a casa deserta
Ora até que enfim! Quem fala? / És tu, amor? Ouve, Berta

Juro à face do Senhor / Que desta feita não brinco
Por amor do nosso amor / Deixa-me a porta no trinco

À uma da madrugada / Põe-te bem de ouvido alerta
Vou falar contigo à escada / Esta noite é pela certa

Sextilhas para um fado em tom menor

António Cálem / Jose Antonio Sabrosa
Repertório de António de Noronha


Quis cantar o meu passado / E só te cantei a ti
Quis seguir todo o meu fado / Mas de tudo o que segui
Foi o voltar costumado
À vida que em ti vivi

Quis conhecer mais o mundo / E reviver nele assim
Mas abriste-o tão profundo / Tão estranho, tão sem fim
Que quando cavei mais fundo
Só lá me encontrei a mim

Hoje só na minha vida / Na vida que me traçaste
Sou a sombra dolorida / Do rasto que tu deixaste
Lá no ponto de partida
Onde tu por mim cruzaste

Pobre chita

Gabriel de Oliveira / Raúl Portela / Raúl Ferrão
Repertorio de Natália dos Anjos

Madalena altiva
Beleza atractiva / Foi quase rainha
Mas lembrem-se disto
Que por Jesus Cristo / Quis ser pobrezinha

E assim Madalena
O luxo condena / E se nobilita
Se foi pecadora
A fé redentora / Vestiu-a de chita

Pobre chita, pobre chita
Vestimenta muito honrosa da mulher
Tem nobreza na desdita
A mulher que veste chita
Pois é senhora de bem quando quer


A filha do povo
Que eu adoro e louvo / Na vida que tem
Traja simplesmente
De chita decente / Que lhe fica bem

E a pobreza honrada
É bem compensada / Na sua desdita
Chita não desdoura
Pois Nossa Senhora / Vestia de chita

Lisboa passeia em si

Carlos Baleia / Marco Oliveira
Repertório de Jorge Batista da Silva

Lisboa sente, seu coração bate forte
Num bater que anda contente
E feliz com sua sorte
Anda pelas ruas, vai até à Madragoa
Faz paragem no Chiado
Toma a “bica” com Pessoa

Depois num salto, com um sorriso nos lábios
Sobe até ao Bairro Alto
Onde os fadistas são sábios
E assim sentindo, vê com olhos de mulher
O que em si há de mais lindo
E sente nisso prazer

Vê que a moirama, ainda mexe consigo
Dá um pulo e em Alfama
Tem no Fado, um velho amigo
Passa pelo rio, vê gentes apaixonadas
E ao longe há um navio
De velas engalanadas

E retraída p’las maldades cometidas
Sente que a vida
Lhe deu horas bem sofridas
Rica mistura de alegrias e paixões
Num cantar que ora cura
Ou entristece corações

E assim sendo
Tem a bóia a que se agarra
Um sentir que vai vivendo
Num dedilhar da guitarra

Flor de rosmaninho

Letra de Gabriel de Oliveira e António Amargo
Publicada a 27.05.1930 na edição Nº197 do Jornal GUITARRA de PORTUGAL e cantada 
por Leonor Fialho em 29.04.1930 num concurso realizado no Solar da Alegria.
Desconheço se esta letra foi gravada.
Transcrevo-a na esperança de obter informação credivel.


Nasce nos campos sozinho
Cumprindo seu triste fado
O pobre do rosmaninho
Por todos abandonado

Se não tem brasão de nobre / Tem outro brasão, porém
Entrar em casa do pobre / Porque ele é pobre também

Quando vou pelo caminho / Meu santo amor a sentir
Apanho sempre um raminho / De rosmaninho a florir

E para que o meu amor / Me tenha sempre afeição
Trago o rosmaninho em flor / Bem junto do coração.