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Rádio apadrinhada pelo mestre RODRIGO

Rádio apadrinhada pelo mestre RODRIGO
CANAL DE JOSÉ FERNANDES CASTRO EM PARCERIA COM A RÁDIO MIRA

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* As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: nem sempre são mencionados os legítimos criadores *

<> 6.365 LETRAS <> 2.266.500 VISITAS <> SETEMBRO 2021 <>

* ATINGIDO ESTE VALOR /*/ QUE ME FAZ SENTIR HONRADO /*/ CONTINUO, COM AMOR /*/ A SER SERVIDOR DO FADO *

* POIS MESMO DESAGRADANDO /*/ A *TROIANOS* MALDIZENTES /*/ OS "GREGOS VÃO APOIANDO /*/ E VÃO FICANDO CONTENTES *

* NÃO ENCONTRA O FADO PREFERIDO? /*/ ENVIE, POR FAVOR, O SEU PEDIDO * fadopoesia@gmail.com

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* NASCEU ASSIM... CRESCEU ASSIM... CHAMA-SE FADO // Vasco Graça Moura // Porto 03.01.1942 // Lisboa 27.04.2014 *

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Poentes feitos de nada

António Calém / José Carlos Gomes *fado magala*
Repertório de João Braga


Poentes feitos de nada
Num sol ao longe a nascer
É o que resta duma estrada
Que me custa a percorrer

Todo o mundo é um deserto
E a sede da tua imagem
Traz-me o teu corpo tão perto
Que o perco por ser miragem

E mais do que isto a loucura
De viver longe de ti
Saber que a tua lonjura
Faz-me cantar, mesmo assim

Mas numa noite perdida
Teremos a mesma sorte
Será minha a tua vida
Será tua a minha morte

Encara a vida de frente

Alexandrina Pereira / Jaime Santos *fado alvito*
Repertório de Deolinda de Jesus

Em noites de Lua cheia
Fui escrever na fina areia
Os meus sonhos de menina
Veio uma onda mais forte
Que ditou a minha sorte
Que escreveu a minha sina

As nuvens vinham chegando
E o vento assobiando / Uma estranha melodia
Dizia-me docemente:
Encara a vida de frente / E da noite faz teu dia

Abre portas e janelas
Depois vê através delas / Tudo o que a vida te deu
E deixa o tempo passar
Guarda sempre no olhar / Esse mundo que é só teu

Agarra o sol e a lua
Depois desenha na rua / O destino que escolheste
E verás que a vida é
Muito mais que amor e fé / É o que dela fizeste

A tua sina

António Calém / Popular *fado corrido*
Repertório deJoão Braga


Para quê sonhar futuros
Na sina que não leremos?
Sonhar são os quatro muros
Desta casa onde vivemos

Para quê montes distantes
Pedaços da cor do céu
Viver são estes instantes
Do meu corpo ao pé do teu

A palma da tua mão
Depois das linhas que li
Trago-a eu no coração
Desde a hora em que te vi

A sina da tua mão
Aquela que Deus te deu
Por mais que digas que não
A tua sina sou eu

Nada me fala de ti

António Calém / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Fernando Marques de Oliveira


Nada me fala de ti
Nem este fado que ouvi
Trouxe a tua mocidade
Nem o eco que eras dantes
Seres tu em mim por instantes
Ser eu em ti em saudade

Que doce era o anoitecer / E o sol ao longe a morrer
Quando teus olhos se abriam
E que doce era fechá-los / Mais doce ainda beijá-los
Quando de mim se esqueciam

Como era azul do luar / O teu corpo junto ao mar
Que em certa noite eu vi
Como o relembro hora a hora / Se não sei de ti agora
Se ninguém fala de ti

Num sonho que passa

Alexandrina Pereira / Carlos Heitor da Fonseca
Repertório de Deolinda de Jesus


Quando o amor chegou serenamente
Abri as portas do meu coração
No céu dormia uma estrela indiferente
No meu tempo de sonho e ilusão

Foi hora de crescer com a certeza
Que o amor é sede num jardim
Momento p’ra sentir toda a beleza
De um fado que em segredo diz assim

Sou gota de água 
Num jardim sem mágoa de um dia a nascer
Sou cardo sou rosa
Poesia e prosa, amor por viver
Sou o sol poente 
Na fonte nascente, ave que esvoaça
Sou breve momento ao sabor do vento
Num sonho que passa


Quando a luz ilumina o pensamento
De quem só tem amor como ideal
Deixa subir o sonho com o vento
Num regaço-aconchego maternal

Palavras que dão cor ao meu sentido
Rio de amor com margem sem ter fim
Como um segredo dito ao meu ouvido
Como a voz do coração que diz assim

Passam os dias, os anos

António Calém / Joaquim Campos *fado Rosita*
Repertório de Miguel Sanches


Passam os dias, os anos
E és tu que hás-de ficar
A viver do desengano
De só te saber sonhar

É que eles passam sem fim
E contigo permanecem
É que há mundos que esqueci
Mas contigo não se esquecem

É que tu trazes aos dias
O que aos dias me faltava
O riso, as alegrias
Que o mundo já não me dava

Mas ninguém mais, somos nós
A sulcar o mar profundo
É que o mundo somos nós
E o resto nem sei se é mundo

Tudo ou nada

António Calém / Miguel Ramos *fado freira e/ou oliveira
Repertório de João Braga


Tudo ou nada neste dia
Que é feito dessa alegria
Que outro dia me roubaste
Que é dos sonhos que sonhei
Do mundo que eu encontrei
Depois que tu me encontraste?

Diz-me o fim a que me levas
Se ainda há Primaveras / E se as há, em que país?
Diz-me o longe prometido
Diz-me tu que eu não consigo / Saber onde sou feliz

Traz o sol à minha vida
Diz-me essa tarde perdida / Perdida por te encontrar
Dá-me tudo o que quiseres
Dá-me manhã, se puderes / Ou noite p'ra te sonhar

Cantem um fado comigo

Alexandrina Pereira / Carlos Heitor Fonseca
Repertório de Deolinda de Jesus


Retardo no meu olhar
A correria da vida
E se a minh’alma vibrar
Retardo no meu olhar
A estrada já percorrida

É no silêncio das ruas
Que deixo os meus dialetos
Em noites de tantas luas
É no silêncio das ruas
Que visto a alma de afetos

Se um coração está triste / Canta-se um fado
E se em nós a mágoa existe / Canta-se um fado
Só tristeza não conforta / É bom abrirmos a porta
Deixar entrar um amigo
Porque ser feliz mereço / Com que emoção eu vos peço
Cantem um fado comigo


Vou e caminho sozinha
Escrevo no vento o meu fado
Desenho a vida que é minha
Vou e caminho sozinha
O meu poema inventado

No meu sentir tão profundo
Seguro os sonhos na mão
Na minha voz há um mundo
No meu sentir tão profundo
Dou asas ao coração

Manhã do desejado

António Calém / Popular *fado menor*
Repertório de João Braga


Morrer sim mas devagar
Palavras vivas de morte
Pátria perdida além-mar
Fado nosso ou nossa sorte

E num deserto de areia / Chamado Alcácer-Quibir
Morreu a pátria primeira / P'ra noutra Pátria florir

Ali morremos deixando / Sessenta anos de vida
Caravela recordando / A velha História perdida

E em manhã de nevoeiro / Essa manhã prometida
Viva ele de corpo inteiro / Nas manhãs da minha vida

Aos poetas

Alexandrina Pereira / Armando Augusto Freire *alexandrino*
Repertório de Deolinda de Jesus


Sou a voz dos poetas, porque eles me escolheram
Ponho na minha voz os versos que escreveram
Coloco em cada letra toda a minha emoção
Pois sinto que o poeta é alma e coração

Que seria do fado sem as palavras certas?
Que seria do mundo sem sonhos dos poetas?
Meu fado é vida inteira e traz-me a alegria
De ser a mensageira da vossa poesia

Quem canta seu mal espanta

António Calém / Alfredo Duarte *fado bailarico*
Repertório de Zé Caravela


Quem canta seu mal espanta
Mas há males dentro de nós
Que as cordas duma garganta
Não chegam para dar-lhes voz


Quem esconde uma saudade / Do olhar que a desencanta
É quem mais fala verdade / Quem canta seu mal espanta

E um sentimento profundo / Aumenta ao estarmos sós
Há outros bens neste mundo / Mas há males dentro de nós

Porque as palavras reais / Não bastam a quem as canta
E o silêncio vale mais / Que as cordas duma garganta

Por isso os bens que perdemos / Vivem só junto de nós
E as saudades que temos / Não chegam para dar-lhes voz

Tenho o mundo à minha espera

Alexandrina Pereira / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de Deolinda de Jesus


Minha vida é vida inteira
E não encontro a maneira
Mais certa de a repartir
Reparto as horas do dia
Em tristeza e alegria
Entre o chegar e partir

Tenho o mundo à minha espera
Nas mãos tenho a primavera / No olhar folhas de Outono
Abro as portas, vou sonhar
Deixo o meu corpo ficar / Num doce e terno abandono

Deixo que o vento me leve
Onde o meu coração esteve / E por lá ficou guardado
Beijando as horas do dia
Traz nas mãos a poesia / E a melodia de um fado

Na incerteza do querer
Fica a certeza de ser / Alguém que dá o que tem
Parte da vida é só minha
E assim ninguém adivinha / Se eu sou a vida de alguém

Ressurreição

António Calém / Miguel Ramos *fado alberto*
Repertório de Ondina Sotto Mayor


É estranha e bela a vida que me deste
E mais do que ela o mundo que me abriste
Depois de ter morrido, tu trouxeste
A alma a este corpo que ainda existe

Criaste um novo ser disperso ao vento
Para te escrever por fim esta poesia
Luar azul, estrela dum momento
Estrela em todo o céu que me alumia

Tenho medo que volte a madrugada
Tenho medo do sol, do claro dia
Que tudo o que és para mim não seja nada
E esta seja a última poesia

Reino perdido

António Calém / Franklim Godinho
Repertório de António de Noronha


Durmo contigo e sem ti
Nesta noite de luar
Viver só do que perdi
Nem é viver, é sonhar

Vivo sem saber que vivo
Espero sem olhar a espera
Sonhar, sim, talvez contigo
Verde, esperança ou Primavera

Mas não sei se vou além
Deste sonho que sonhei
Quem dá tudo o que não tem
Dá um mundo em que foi rei

E desse reino profundo
Só me ficou o sonhar
É que eu fui rei doutro mundo
Que existe para lá do mar

És tu

Zeca Maneca / Pedro Rodrigues *fado primavera
Repertório de Luís de Matos


O meu despertar risonho
Teve aleluia de cores
Quando vi os olhos teus
Sentiu a magia do sonho
No arco-íris de amores
Que os teus beijos dão aos meus

És tu que neste momento
Quebra a voz da solidão
Do amor que existe em mim
Corrente de sentimento
De dois corpos que se dão
Num fogo ardente sem fim

És verão que quer ficar
No meu inverno descrente
Batido p’la neve fria
És tu quem quero amar
Sendo a raíz a semente
No raiar dum novo dia

O Fado

Tino Ferreira / Casimiro Ramos *fado fé*
Repertório de Júlia Lopes


O Fado nasceu dia
Vestindo nobre samarra
Cantado p’rá fidalguia
Na famosa Mouraria
Ao som da velha guitarra

Breve correu toda Alfama
Bairro Alto e Madragoa
Nas caravelas do Gama
Combateu e ganhou fama
O fado desta Lisboa

Cantou-se nas desgarradas
Ao desafio lá nas hortas
Patuscos e guitarradas
Alegravam as toiradas
Corridas fora de portas

Deu-lhe certa bizarria
Essa mulher doutra era
Foi deusa da Mouraria
Raínha da fidalguia
Que foi Maria Severa

Tu sabes, Maria

Letra e música de Diogo Lucena e Quadros
Repertório de António Pinto Basto


Nasceste co’as rosas bravias
Do chão do teu Ribatejo
Mas sabes bem que devias
Vir ver onde acaba o Tejo
Com teu vestido de chita
Nessa lezíria dourada
Quis Deus que fosses Maria
Maria só e mais nada

Tu sabes, Maria
Que é triste o olhar
D’alguém que queria
Outros braços para abraçar
Tu sabes, Maria
Que esse sentimento
Sai do meu peito de dia
E volta à noite com o vento


Teu cabelo esvoaçando
Quando agitado p’lo vento
São acenos provocando
A todos, o pensamento;
Essa beleza estremece
As ruas da tua terra
És a rainha que volta
Depois de ganhar a guerra

Um grande amor

Fernanda de Castro / Miguel Ramos *fado margaridas*
Repertório de Teresa Silva de Carvalho


Um grande amor não cabe em nenhum verso
Como a vida não cabe num jardim
Como não cabe Deus no universo
Nem o meu coração dentro de mim

A noite é mais pequena do que o luar
E é mais vasto o perfume do que a flor
É a onda mais alta do que o mar
Não cabe em nenhum verso um grande amor

Dizer em verso aquilo que se pensa
Ideia de poeta, ideia louca
Não é bastante a frase mais extensa
Diz mais o beijo do que diz a boca

E quando sobre nós desce a tristeza
Como desce a penumbra sobre o dia
Uma lágrima triste e sem beleza
Diz mais do que a palavra nua e fria

Redondilha de amor... para fazê-la
Desse-me Deus a tinta do luar
A candeia suspensa duma estrela
E o tinteiro vastíssimo do mar

Caminho de rimas

Mário Raínho / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de Paulo Filipe

De tão longe aqui cheguei
E se estranho me encontrei
Nesta morada vazia
P’ra que palmilhei a vida
Numa busca desmedida
Entre o sonho e a poesia?

Estado de alma, solidão
Prenhe, o ventre-coração
De tudo um pouco e um nada
Quem me mandou percorrer
Alvoradas, p’ra gemer
Silêncios na madrugada?

De dentro me fui embora
E chegado aqui, agora
À torre da minha dor
Rimo as saudades que trago
Dum tempo que quis ser mago
D’alquimias do amor

Quadras soltas

Silva Tavares / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Ando triste sem razão
Detesto quem me conforta
E só sinto o coração
Quando passo à tua porta

Amar é sofrer gozando
Gozando sem perceber
Que os dias se vão passando
E se envelhece a sofrer

Da certeza prometida
Duvido, como da sorte
Porque de certo na vida
Conheço apenas a morte

Creio em ti, toda a verdade
Dos outros não vale um zero
Podes mentir á vontade
Creio em ti porque te quero

Desde o dia que te foste
Toda a ventura perdi
Antes a tua mentira
Do que a verdade sem ti

Tango quase fado

Rosa Lobato Faria / Mário Moniz Pereira
Repertório de António Pinto Basto

Passaram meses, passaram anos
Lembro-me às vezes da mocidade
E se imagino que nos amamos
São mais enganos, é mais saudade;
Mas uma noite sobre a calçada
Prendes-me ao peito sem dizer nada

Não faças caso deste riso alucinado
Não faças caso destas lágrimas à toa
O coração é que não estava preparado
Para este encontro numa rua de Lisboa


Foi de repente, foi sem aviso
Na minha frente surgiste inteira
Foi um oásis de paraíso
Banhado em riso chorei primeiro;
E sem palavras ao rés do espanto
Fui tango e fado, sorriso e pranto

Não faças caso do meu tango quase fado
Não faças caso deste amor que me desgarra
Se o corpo lembra bandeneón apaixonado
As mãos suspiram em carícias de guitarra

Último adeus

João Mário Veiga / Frederico de Brito *fado britinho*
Repertório de António Pinto Basto


Tudo acabou nesse adeus
Em que vi os olhos teus
Partirem p’ra outro lado
Sonhamos tanto, e depois
O que resta de nós dois
É um pouco do passado

Quantos fados te cantei
Quantos poemas rasguei / Por serem feitos de ti
Esqueci-me de tantos dias
Nas promessas que fazias / Outro fado descobri

Já é tarde, meu amor
O poente perde a cor / E não te vejo voltar
Com a noite vem a saudade
Mesmo longe és a verdade / Que ponho no meu cantar

Eu vi minha mãe rezando

Mote de Barreto Coutinho  / Glosa de José Mariano / Joaquim Campos *fado amora*
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Eu vi minha mãe rezando
Aos pés da Virgem Maria
Era uma santa escutando
O que outra santa dizia


No dia em que abandonei / Meu lar, fortuna buscando
Nunca mais o esquecerei / Eu vi minha mãe rezando

Eu não sei o que rezava / Eu não sei o que pedia
Sei apenas que chorava / Aos pés da Virgem Maria

A linda imagem sorria / Num sorriso meigo e brando
Aquele rosto vivia / Era uma santa escutando

E se minha mãe tornou / A ver-me e voltei um dia
Foi porque a santa escutou / O que outra santa dizia

Morena gaiata

António Rocha / Joaquim Neves 
Repertório de Artur Batalha

Mora no Bairro de Alfama
Na rua mais concorrida
Uma garota atrevida
Que põe corações em chama

Trago sempre no ouvido
Esta cantiga brejeira
Que a Tia Rosa peixeira
Lhe canta, em tom atrevido

Morena gaiata que a todos namoras
Não há quem te bata na rua onde moras
Mas se algum rapaz te apanha, pequena
Nunca mais serás gaiata morena


Ela segue e sem parrar
Sempre alegre e atrevida
Diz que ‘inda tem muita vida
Para na vida pensar

E o povo, na rua inteira
Canta com grande alarido
O mote já conhecido
Da Tia Rosa peixeira

Sou pobre e sou rico

Bruno Bobone / António Pinto Basto *fado sodré*
Repertório de António Pinto Basto


Sou pobre e sou rico, na vida do mundo
Não quero ser mais, quero só ser profundo
Não sonho de noite nem durmo de dia
Não faço acordado, nem muito nem pouco;
Não sofro nem amo como Deus sofria
Sou esperto e sou burro, eu sei que sou louco

Sonhar é um prémio, sonhar é castigo
E eu sonho contigo e sonho comigo
Não sei se acordo quando nasce o dia
Só sei que me sinto a mim, num sonho;
Eu sei que não minto, senão eu sofria
Só eu sou culpado, a culpa em mim ponho

É bom ser feliz, mesmo que por um dia
Bate o coração em nome d’alegria
Só penso calado que pode acabar
E fico parado nem me posso mexer;
E depois eu grito “eu quero acordar”
E hei-de ser feliz com o que a vida me der

No fim, lá acordo pensativo e cansado
Porque a alegria que sentia há bocado
Não se deixou ficar, não se comprometeu
Deixou-me partir, partiu-me o coração;
Mas nada existe que me faça mais eu
Que ter sido feliz um momento, uma paixão

Angústia de viver

Lima Brumon / Helena Moreira Viana (ou) Luís Alexandre
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt
Em dois trabalhos discográficos aparece uma autoria diferente

Tenho a vida a chorar-me nas mãos
Arrancada às algemas da saudade
E aceito esta angústia de viver
P’la mais pura e simples humildade

Nas asas do vento não visito já o prazer
Nem creio na cor translúcida
Da luz que cerca as flores
E é só a tua imagem
Meu amor que me embriaga
Nesta abóboda de lírios
Toda feita dum sonho que se amarga

Nas asas do vento não visito já o assombro
E o riso de criança
É o que me enfeita esta tristeza
Cantigas são promessas
Do que me desencantou
E os lírios olhos mansos
Encharcados da luz que os rejeitou

O choro da guitarra

Mário Raínho / Alfredo Duarte *fado cuf*
Repertório de Fernando Jorge


Guitarra, não derrames mais tristeza
Que ao ouvir-ter chorar, mais acentuas
Enquanto vou cantando esta incerteza
Se choras minhas mágoas ou as tuas

Se a minha voz te canta tão serena
Como louca desatas o teu pranto
E eu fico sem jeito, faz-me pena
Então quase emudeço e já não canto

Guitarra, sei que a minha dor entendes
E que tens muito mais que seis sentidos
Porque sõa doze, as cordas com que prendes
A minha alma fadista aos teus gemidos

Quem te deu à nascença essse destino?
Quem te moldou em forma coração
Se te escuto a gemer desde menino
Porque andas a chorar de mão em mão?

Com três letrinhas apenas

Mote popular / Glosa de José Mariano / Popular *fado menor*
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Com três letrinhas apenas
Se escreve a palavra mãe
Que é das palavras pequenas
A maior que o mundo tem


Amor palavra tão grande / Brilha sempre entre centenas
E afinal também se escreve / Com três letrinhas apenas

Quem amor queira escrever / Amor escreve também
E só amor pode ler / Se escreve a palavra mãe

Amor é tudo e na escrita / Em quatro letras apenas
E mãe, ternura infinita / É das palavras pequenas

Por uma graça divina / Diz tudo quem diga mãe
Palavra tão pequenina / A maior que o mundo tem

Laço de amor

Mário Raínho / Raúl Pinto
Repertório de Paulo Filipe


Os nossos corpos unidos
De preconceitos despidos
A que o amor deu um laço
No dorso da nossa cama
Ninguém apaga essa chama
Ninguém desata esse abraço

São murmúrios suspirados
Dois gritos quase abafados
Nas rosas, os nossos beijos
Assim, de mãos enleadas
Nas nossas veias coladas
Sentimos pulsar desejos

Mesmo que lá fora a lua
P’las clareiras da rua
Sua beleza derrame
Vendo o amor que fazemos
Devagar, vai-se escondendo
Porque não tem quem a ame

Amor, primeiro amor

Lima Brunmon / Luís Alexandre
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Amor primeiro amor, não consumado
Minha memória acesa agreste e doce
Passaste tão fugaz, irrealizado
Mas não tive outro amor que maior fosse

Abre-se em mim a voz duma harmonia
Sempre que queres morrer no pensamento
E vais entre a verdade e a fantasia
Amor primeiro amor, vencendo o tempo

És tão perfeito como é a ilusão
Não houve… possa queimar-te a ansiedade
Nem foi tua essa estranha condição
Do amor que se desfaz na realidade

Rua da Conceição

José Luís Gordo / Diogo Lucena e Quadros
Repertório de António Pinto Basto


Na Rua da Conceição
Onde o passado demora
Vai de botão em botão
Nas casas aonde mora
Tem lembranças do passado
Das costureiras de outrora
Até do velho Chiado
Que Lisboa ainda chora

Dedais, dedais e botões para todos os vestidos
Agulhas de corações em corações de veludo
Na Rua da Conceição, morada de retroseiros
Vai de botão em botão, em beijos casamenteiros


Na Rua da Conceição
Onde as noivas se entretinham
Em dedais de emoções
E linhas para as baínhas
A Rua da Conceição
Morada de retroseiros
Cem anos de tradição
Bailado de costureiros

Elétrico vinte e oito
Teu companheiro de sempre
Nas linhas da tua rua
Onde o passado é presente
E tu, Lisboa, bem sabes
Do tudo de antigamente
Teu coração ‘inda guarda
A Conceição de ser gente

Tudo tem valor

Lima Brummon / Vitor M.Rodrigues
Maria do Rosário Bettencourt


Nada tem mais que o valor
Que tivermos p’ra lhe dar
Uma vida, um grande amor
Todo um sonho num só olhar

Porque olhar de uns é ouro
A outros parece mal
Podemos ver um tesouro
Nas mãos e ele ser um cardo

Se uns nascem p’ra amar as coisas pequenas
Um lago, um poema, as espigas morenas
Há outros que nascem p’ra abrirem caminhos
Dirigirem povos e mudar destinos


Amo a poesia, um poeta
Quer escreva versos ou não
O lavrador ama a terra
Seja pouco ou muito pão

Cada um ama o que vê
Para além do seu olhar
E o valor está no que crê
Nos caminhos por onde andar

Retrato

Letra e música de Amadeu Diniz da Fonseca
Repertório de António Pinto Basto


Telefonei-te manhã cedo, ao acordar
E perguntei-te se tu querias ir jantar
Como disseste “tudo bem” eu lá estarei
Todo contente, nessa manhã ali fiquei

No almoço eu não esqueço, mal comi
Até nem sei se o paguei ou me esqueci
Durante a tarde trabalhei com mais vontade
Para que o tempo escondesse a ansiedade

Depois andei pelas ruas da cidade
Por uma hora, respirando o movimento
Pensei mais uma vez, quanto valia a saudade
Do teu olhar, da tua voz, de um só momento

E fui a casa p’ra escolher o melhor fato
Parecia até que eu ia tirar um retrato
Por breve instante falei comigo, ao saír;
E se ela acaba, afinal, por desistir?

E fui a casa p’ra vestir o melhor fato
Parecia até que eu ia tirar um retrato
E quando eu enfim te vi, fiquei então seguro
Que tinha no teu sorriso, o meu futuro

Noite dos meus desejos

Fernando Peres / Popular *fado menor*
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Na noite dos meus desejos
Outono de folhas mortas
Loucas saudades de beijo
Silêncio em todas as portas

Vestido de sombras feito / Das sombras que se perderam
Na solidão do meu peito / Nas mágoas que não morreram

Estendo os braços à tristeza / Sem lágrimas p’ra chorar
Por ser a triste certeza / Que eu tenho p’ra me abraçar

Andam-me os sonhos perdidos / Por saber que te perdi
E os meus cinco sentidos / Só querem chorar por ti

Vestem-se as horas de medo / Soluço de escuridão
Na esperança do meu segredo / Na voz do meu coração

Na noite dos meus desejos / A vida fica parada
Na saudade dos teus beijos / Acontece madrugada

Primeiro encontro

Tiago Torres da Silva / Silvestre Fonseca
Repertório de António Pinto Basto


Ando a morrer de desejo
Só tenho olhos p’ra ela
Sempre que a vejo
Peço-lhe um beijo, não me dá trela

Hoje senti-me bem-vindo
Ao fazer-lhe companhia
Pedi-lhe um beijo, sorrindo
Ela aceitou!... Quem diria?...
E vi que o seu olhar também sorria

Que grande ideia ter tirado a sexta-feira
Três dias só p’ra namorar
Vou apanhar-te mesmo ali na Brasileira
E logo vemos onde havemos de ir jantar;
Que grande ideia ter tirado a sexta-feira
Três dias só p’ra nós os dois
No fim da noite levo-te à Ribeira
O dia nasce, vamos p’ra casa depois


Ando a contar cada hora
Para chegar a noitinha
A alma implora
Por quem namora, se está sozinha

Jantamos às nove e meia
Faço mil planos secretos
É noite de lua cheia
Sei onde a podemos ver
Longe dos olhares indiscretos

Reservo a mesa? Ou reservas tu?
Comida indiana, vegana ou chinesa?
Sushi, marisco ou fondue?
Podem ser iscas à portuguesa?
Escolho eu? Ou escolhes tu?

Canção do velho poeta

José Régio / Maria do Rosário Bettencourtt
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt


Moço aventureiro / Que os primeiros passos
Desprendes ligeiro / Com mira aos espaços
Velho, pouco posso / Tudo mal consigo
Mas irei contigo
Mas irei contigo

Moço trovador / Que inda p’los dedos
Medes a rigor / Teus subtis segredos
Nem que nenhum verso / Já persiga… sigo
Rimarei contigo
Rimarei contigo

Moço apaixonado / Que do amor nem sonhas
Que um menino alado / Tem manhas medonhas
Do amor já sei tudo / Mesmo assim te digo
Que amarei contigo
Que amarei contigo

Moço ilusionista / Que a vida resumes
A acender na pista / Teus fingidos lumes
Nem que no engano / Possa achar abrigo
Fingirei contigo
Fingirei contigo

Nunca nada tive / Menos tenho ao fim
Nunca de si vive / Quem vem ao que vim
Parto mas cantando / Meu mundo inimigo
Mesmo que me expulses
Ficarei contigo

O cavalo lusitano

Gustavo Pinto Basto / António Pinto Basto
Repertório de António Pinto Basto


Meu cavalo, meu amigo
És um ser tão especial
Quero percorrer contigo
Os campos de Portugal

És o meu nobre cavalo
E galopas com destreza
És p’ra todos um regalo
Português por natureza

O cavalo lusitano, ruço, castanho ou lazão
É sempre o mais soberano e é montado com paixão
Lusitano é sua raça com muito garbo e beleza
Seja no campo ou na praça tem a raça portuguesa


Aproveita o nosso tempo
Com perícia desmedida
Tu galopas pelo campo
Em galopo pela vida

Galopar é o teu fado
P’ra mim é esta canção
Lusitano és adorado
Por toda esta nação

Não é fadista quem quer

Joaquim José Lima / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Fernando Maurício


Porque canto e sei sentir
Quero expandir e definir
Este meu ponto de vista
Não é fadista quem quer
Ter o prazer em aprender
Mas sim quem nasceu fadista


O fado triplicado / Se no passado deu brado
E gostaram de o ouvir
Eu digo sinceramente / No presente e a toda a gente
Porque canto e sei sentir

Sinto-o a vibrar na alma / Mas com calma e ganha a palma
E o seu valor se regista
Para o poder discutir
Quero expandir e definir / Este meu ponto de vista

Tem em mim um bom amigo / Sem p’rigo de ser antigo
No meu sentir não difere
Digo pois em todo em lado / Para o fado, está provado
Não é fadista quem quer

Qualquer pessoa se rende / Não se ofende e compreende
Que a voz nunca se conquista
Fadista não pode ser 
Ter o prazer em aprender / Mas sim quem nasceu fadista

Porque?

António Pinto Basto / Armando Machado *fado súplica*
Repertório de António Pinto Basto


Ó mãe da minha enorme desventura
Serás feita de lama ou de cristal?
Vens do seio da terra ou vens da altura
Cuidar do nosso bem, do nosso mal?

Tu trazes na boca carícia impura
Guardas no peito a folha de um punhal
Caminhas pela mão de Deus segura
Ou guia-te um espírito infernal?

Sombra, porque me encobres o caminho?
Fantasma, porque ris dessa maneira?
Luz, porque tremes quando eu vou sozinho?
E porque hei-de eu amar-te a vida inteira?

Porque chamas por mim, porque t’escondes?
Fantasma, porque ris dessa maneira?
Porque me foges, porque não respondes?
E porque hei-de eu amar-te a vida inteira?

Foste ontem, não amanhã

Maria de Lourdes de Carvalho / Carlos da Maia *quadras*
Repertório de Dina do Carmo

Põe teus olhos em meus olhos
E diz o que neles vês
Eles são luz e verdade
Tudo aquilo em que não crês

Sem te ver te desejava / De ver-te me alegrei
Agora p’ra te não ver / Dava tudo o que passei

Devolvo risos e beijos / Censuras, promessas, passado
Aceito os meus poemas / E as noites do meu fado

Ontem eras o meu sonho / Depois foste realidade
Hoje és tu o meu passado / Amanhã nem és saudade

Às vezes em sonho triste

Fernando Pessoa / Idalinho Cabecinho
Repertório de António Severino


Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz

Vive-se como se nasce / Vive-se como se nasce 
Sem o querer nem saber
Nessa ilusão de viver / O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr

O sentir e o desejar / O sentir e o desejar
São banidos dessa terra
O amor não é amor / Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar

Nem se sonha nem se vive
Nem se sonha nem se vive / É uma infância sem fim
Parece que se revive
Tão suave é viver assim / Nesse impossível jardim

Velho canto

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório de Célia Barroca


Na minha voz um canto, um velho canto
Amargo e doce cantar deste povo
De cada vez vencida
Eu canto e me espanto
Da força que este cantar tem de novo

Grito de amargura, triste fado
Amordaçado em noites de silêncios e de frios
Canção de ternura
Asa de um sonho embarcado
Em manhãs de vento e de navios


Neste canto, um velho canto
A minha voz perdida para se encontrar de novo
De cada vez vencida
Eu canto e me espanto
Da força que este cantar tem de novo

Resignado

António Rocha / Salvador Gomes
Repertório de António Rocha


Nem mais uma palavra de queixa ou de lamento
Nem mais uma alusão à dor que me consome
Não mais quem tanto esperava, não mais a voz do vento
Trazendo aos meus ouvidos o eco do teu nome

Nem mais noites de calma falando à luz da lua
Quando os longos silêncios diziam mais que nós
Não mais a minha alma arrebatada e nua
Ouvindo extasiada o som da tua voz

Masa a recordação deste sonho só meu
Há-de ficar no tempo, há-de viver em mim
Porque este coração eternamente teu
Batendo no meu peito, há-de lembrar-te assim

Nascente d’água pura aonde fui matar
Esta sede de amor, secura de carinho
Fogueira de ternura onde me fui queimar
Lágrima cristalina que hei-de chorar sozinho

Já morreu a Mariquinhas

Lopes Víctor / Popular *fado mouraria*
Repertório de Deolinda Maria

A Mariquinhas p’ros céus
Partiu sem as tamanquinhas
Deixou a guitarra a Deus
E à Moirama as tabuinhas


Caiu chuva, fortemente / Num beco da Mouraria
Donde o sol, por ironia / Também quis estar ausente
Nos lábios de tanta gente / Crente e mesmo dos ateus
Encomendaram a Deus / A alma da pecadora
E lá foi, naquela hora
A Mariquinhas p’ros céus

Fazer milagre, quis Deus / Em trazer ao funeral
Um escol fenomenal / D’alguns nobres e plebeus
O Conde, o Roque, o Mateus / O Custódia e o Ginguinhas
Choraram a Mariquinhas / Essa figura lendária
Que à procura da Cesária
Partiu sem as tamanquinhas

E a Cigarra cantadeira / Não fará mais que gorgeios
Gorgeando os seu anseios / Num fado à sua maneira
Na Rua da Amendoeira / Andam já os fariseus
A pregar, feitos judeus / Com fingido sentimento
Que ela no testamento
Deixou a guitarra a Deus

No cofre já tão falado / Ficaram as rendas finas
Muitos laços, as cortinas / Um lençol todo bordado
E tudo foi averbado / P’ra deixar a umas velhinhas
No fado velhas rainhas / Que lá viram exarado
Eu deixo o meu xaile ao fado
E à Moirama as tabuinhas

Já que sais

José Gonçalez / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de António Pinto Basto

Agora que a minha rua
Vai deixar de ser a tua
Porque te queres ir embora
Diz àquele sonho antigo
Que parta também contigo
Que saia p’la porta fora

Podes levar o que é teu
Se quiseres leva o que é meu
Isso a mim já nada interessa
Sai quando eu cá não estiver
Porque eu não te quero ver
Já que sais, parte depressa

Não deixes fotografias
Testemunhas de alegrias
Felicidades doutras luas
Eu não quero mais andar
Por aí, a encalhar
Em tantas lembranças tuas

Não me fales nunca mais
Nem me digas p’ra onde vais
Se finjo que nada importa
Tenho medo que o coração
Não resista à tentação
E te vá bater à porta

A Beatriz da Ribeira

António Vasconcelos / Eugénio Pepe
Repertório de Anabela


A Betraiz da Ribeira
Era a vendedeira com maior cartaz
Num corpo esguio, travessa
Virava a cabeça a qualquer rapaz

Mal rompia a magrugada
A sua chegada era um festival
Ela era a luz da Ribeira
Era a mais brejeira que o sol e o sal

Ó Ribeira, ó Ribeira
Levanta a voz e apregoa
No mercado da Ribeira
Estão as mulheres mais bonitas de Lisboa
Ó Ribeira, ó Ribeira
Grita alto o teu pregão
Venham todos à Ribeira
Ver as mulheres que cá estão, que belas são


Bravia e cheia de brio
O fado vadio era todo seu
Na Grande Noite do Fado
Cantou e deu brado lá no Coliseu

Deixou de ser vendadeira
Hoje é cantadeira, percorre o país
E a malta diz na Ribeira
Vai ser a primeira, que seja feliz

Sombra fugidia

António Rocha / Popular *fado menor*
Repertório de António Rocha


Vem, ó sombra fugidia 
Folha verde em meu outono
Gota cristalina e fria
Neste sede de abandono

Verde esperança sem sentido / Onda revolta de mar
Onde navego perdido / Em busca do teu olhar
Verde esperança sem sentido
Sentido de te alcançar

Vem enquanto a lua espreita / Dorme o sol em meu passado
E uma saudade se deita / No meu leito abandonado
Vem enquanto a lua espreita
O teu corpo imaginado

Traz uma nova alvorada / Ao escurecer da minha idade
Que já se sente cansada / D’esperar tua verdade
Traz uma nova alvorada
P’ra matar esta saudade

Compasso

Amadeu Diniz da Fonseca / Amadeu Diniz da Fonseca e Jorge Silva
Repertório de António Pinto Basto

Dá-me um abraço e dá-me um beijo
Segue o compasso do meu desejo
Dá-me um momento do teu segredo
Cobre o meu espaço sem dor nem medo

E vem sentir num sonho breve
Esta empatia desperta em nós
Este caminho que nos envolve
Na alegria ao estarmos sós

E dá-me as mãos e dá-me o gosto
Desse sorriso aberto e justo
O teu regaço, minha aventura
O meu cansaço, a minha cura

E deixa ouvir os sons da terra
E deixa sentir a força do mar
P’ra lá das portas e das janelas
Que não se cansam de nos guardar
E proteger, de nos unir
De nos receber e ver-nos partir
P’ra lá das fontes, p’ra lá da foz
Desse infinito que corre em nós

Por te amar perdi a Deus

Sérgio / Júlio Proença *fado puxavante*
Repertório de Ana Rosmaninho
Desconhece-se a estrofe que deveria glosar o 2° verso do mote.

Por te amar perdi a Deus
Por teu amor me perdi
Agora vejo-me só
Sem Deus, sem amor, sem ti


Sem fé navego na vida / Por culpa dos olhos teus
Hoje sinto-me perdida / Por te amar perdi a Deus

Quando os teus olhos choraram / Tive pena, senti dó
Mas mentiram e enganaram / E agora vejo-me só

E perdida nestra estrada / Que a teu lado percorri
Sigo triste e abandonada / Sem Deus, sem amor, sem ti

O tempo não passa

António Vasco Moraes / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de António Vasco Moraes


Cheguei a meio da noite
Da noite da tua vida
Procurando quem me acoite
Esta alma tão despida

Ao longo do meu caminho / Cheguei a este cansaço
Tenho agora o teu carinho / O teu colo, o teu abraço

Nele quero descansar / P’ra sempre ficar em paz
Afogar-me em teu olhar / Nunca mais olhar p’ra trás

Sentir que o tempo não passa / Não passa, já se desfez
É o meu corpo que te abraça / Que te abraça outra vez

Ti Alfredo

Francisco Nicholson / Braga Santos
Repertório de Anabela


Tio Alfredo, quando às tantas
Vou p’las vielas à toa / Oiço a tua voz nos céus
Cantas p’ra santos e santas / O teu fado de Lisboa
Encantas o próprio Deus

Lá do alto a que subiste
Na viagem sem regresso / Que nos leva à eternidade
Certamente ‘inda não viste / Tudo o que fez o progressso
Da nossa querida cidade

Sob a luz dum candeeiro
Já não se descobre o fado
No rosto de uma mulher
Tio Alfredo Marceneiro
Se visses não querias crer;
Mas chega o anoitecer
Traz a saudade que voa
Para a estrela aonde estás
Porque o fado há-de viver
Enquando existir lisboa
Alfredo descansa em paz


Na casa da Mariquinhas
Que outrora foi das mais belas / Vive hoje uma doidivanas
Deitou fora as tabuínhas / Que alindavam as janelas
E mandou pôr persianas

O ardinita, João
Ninguém ouviu nunca mais / Apregoar nas esquinas
Aquele belo pregão / Que dava vida aos jornais
Estão a acabar os ardinas

Sonho junto ao rio

António Rocha / Manuel Mendes
Repertório de António Rocha


Corria o Tejo calmo e lentamente
Um cheiro a maresia enchia o ar
E eu ali parado à tua frente
Perdido nos teus olhos verde mar

Uma brisa suave acariciava
O teu rosto sereno, encantador
Enquanto a minha voz balbuciava
Num som imperceptível, meu amor

Esvoaçavam gaivotas ondulantes
Numa dança que fazia lembrar
O bailar dos meus olhos suplicantes
Perdidos nos teus olhos verde mar

É testemunha a tarde que morria
De tudo quanto o teu olhar não viu
Na paisagem, no amor, na fantasia
Deste sonho nascido junto ao rio

O salgueiro

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório de Célia Barroca


Ai salgueiro, porque choras
Porque te pões a chorar?
Perdi um amor de mel
Num barquinho de papel
Nas areias deste rio
Eu cravei minhas raízes
Vão-se amores, vão-se mágoas
E venham horas felizes

Sentinela deste Tejo
Sou salgueiro cabisbaixo
Que um salgueiro à borda d’água
Sonha ir p’la água abaixo
Nas areias deste rio
Construí minha cabana
Veio a chuva no inverno
Pintou-me a cama de lama

Ai salgueiro, porque choras
Porque te pões a chorar?
Quem me dera ‘star contigo
Seguro nesse lugar
O salgueiro à borda d’água
Mergulha no pensamento
De ser livre como as aves
De ser livre como o vento

Resta-me a esperança

António Rocha / Alfredo Duarte *marcha do marceneiro*
Repertório de António Rocha


Mais um dia sem te ver
Menos um dia de vida
Sem te ouvir, sem te falar
Porque vieste acender
Esta chama adormecida
Que eu não queria despertar

Quanto mais foges de mim
Tanto mais perto te sinto
Menos consigo esquecer-me
Mas se apareces por fim
Vejo-me num labirinto
Onde receio perder-me

O amor que em mim despertaste
É rio que corria manso
E hoje transborda do leito
Falei-te, não me escutaste
Estendo os braços, não te alcanço
Aumenta a angústia em meu peito

Angústia que não se cansa
Desde o dia em que te vi
De me prender em seus laços
Resta-me apenas a esperança
Que não fujas mais de ti
E te entregues em meus braços

Confissão

Amadeu Diniz de Fonseca / Popular *fado moleirinha*
Repertório de António Pinto Basto


Passei a vida a correr o mundo inteiro
Dei tantas voltas que nem vão acreditar
Se alguém disser que eu minto, é o primeiro
Contando aquilo que vos quero confessar;
Vale sempre a pena lutar p’lo que se quer
Mas nada iguala o amor duma mulher

Vi tantos rios, tantos vales, tantas montanhas
Tantas planícies e cidades tão formosas
Lugares tão belos, de mil cores, vistas tamanhas
Cheias de vida, de lendas fantasioas;
Mas não me digam que há um lugar sequer
Mais deslumbrante que um sorriso de mulher

Todos os mares da terra inteira naveguei
Em mil lugares acostei e percorri
Até sereias, julgo eu que as vislumbrei
Por entre as ondas desses mares que eu já vi;
Mas de certeza que ainda está para nascer
Coisa mais bela que o olhar duma mulher

Toda a beleza do que nasce tem um fim
A vida tem tempos diferentes p’ra lembrar
Mas quero eu ter a cantar perto de mim
Na hora certa que Deus me queira levar;
Na solidão do momento, já sem a ver
A voz serena, cheia de luz, duma mulher

A vida é bela, a vida é linda
Uma graça infinda, esta benção de viver
É uma aventura e a vida ainda
É mais bem vinda com o amor duma mulher

Foste uma ilusão

António Rocha / Fontes Rocha *teu nome simplesmente*  
Repertório de António Rocha

Pensaste que eu buscava uma aventura
Um risco mais no meu rol de prazer
E viste devaneio onde a ternura
Vibrava no mais fundo do meu ser

Recordo as horas que comigo estavas
Quando só eu falava e tu ouvias
E as escassas respostas que me davas
Me faziam pensar que me entendias

Escutavas as palavras que eu dissesse
Sorrindo para mim cada momento
Por isso me confunde e entristece
A tua ausência, o teu afastamento

Ainda não consigo compreender
O que faz tomar tal atitude
Pois quem melhor pansamos conhecer
É quem mais fácilmente nos ilude

Cantando este poema para ti
Mais uma vez abri meu coração
Olha-me bem nos olhos e sorri
E diz-me que não és uma ilusão

Envelhecer

Maria Manuel Cid / Franklim Godinho *fado franklim 4as*
Repertório de Teresa Tarouca


Quando o fadista velhinho
Já não tem voz p’ra cantar
Começa a rezar baixinho
E principia a chorar

Tem pena da mocidade
Mas não lhe importa morrer
Que lhe importa de verdade
É sentir-se envelhecer

E da vida já vivida
Recordando a mocidade
Tenta viver outra vida
Toda feita de saudade

E o seu peito magoado
Já não tem voz p’ra cantar
Guarda no peito o seu fado
E prinicipia a chorar

Caixeirinha do Grandella

Carlos Baleia / Nuno Nazareth Fernandes *fado caixeirinha*
Repertório de António Pinto Basto


Certa manhã no Grandella / Vi a bela caixeirinha
E preso nos olhos dela / Quase esqueci ao que vinha
Pois beleza como aquela / Dava-lhe um ar de raínha
E a simples entretela / Que era coisa pobrezinha
Só por roçar nas mãos dela 
Era da seda, vizinha

Ai, a bela caixeirinha / Que morava na viela
Onde voltava à tardinha / Comigo sempre atrás dela
E na porta da tasquinha / Plantei-me de sentinela
Guardando a rua estreitinha / Que parecia larga e bela
Pois a beleza que tinha
Sendo enorme, era singela

E, sempre olhando p’ra ela / Vi que o seu ar de raínha
Era a imagem mais bela / Da Lisboa ribeirinha
Meus olhos não tirei dela / Jurei que seria minha
Não há poder de um Grandella / Ou duma baixa inteirinha
Que impeça a caixeira bela 
De me dar o que eu não tinha

Com a paixão alfacinha / Inspirada p’la donzela
Decerto que se adivinha / Que aquela caixeira bela
Que da baixa era raínha / Deixou de ser do Grandella
E que a casa tão velhinha / Que antes era apenas dela
É agora também minha 
E o sol inunda a viela

Na voz dos trigais

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório de Célia Barroca


Fui um sonhador
Esculpi oceanos e mastros e velas
Tracei areais 
E nos verdes pinhais talhei caravelas

Fui aventureiro 
Num mar de paixão, de luz e de sombras
Um rude marinheiro
A tanger modinhas ao sabor das ondas

Já fui trovador nos paços reias
E fui lavrador 
A escutar o mundo na voz dos trigais

Sou filho do povo e andei embarcado
Eu já fui à guerra, eu já fui soldado
Do mar e da terra me fiz namorado

Eu já fui profeta, eu já fui cantor
Eu já fui poeta, fiz trovas de amor

Já fui trovador, cantei a verdade
Eu já fui à guerra
E da guerra não trouxe nem pão, nem saudade

Quadras da minha solidão

Alda Lara / Jaime Santos *fado da bica*
Repertório de António Vasco Morais


Fica longe o sol que vi
Aquecer meu corpo outrora
Como é breve o sol daqui
E como é longa esta hora

Donde estou vejo partir 
Quem parte certo e feliz
Só eu fico e sonho ir
Rumo ao sol do meu país

Mas dor de quê? dor de quem?
Se nada tenho a sofrer
Saudade, amor, sei lá bem
É qualquer coisa a morrer

E assim no pulso dos dias
Sinto chegar outro outono
Passam as horas esguias
Levando o meu abandono

No Tejo escrevi meu nome

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório de Célia Barroca


No Tejo escrevi meu nome
Com minhas mãos de criança
Com mil desejos de afagos
Entre risos e entre esp’rança

Areias foram ternura
Salgueiros foram abraço
E as águas cor de prata
O espelho do meu cansaço

Entre estevas e papoilas
Entre verdes canaviais
Trilhei caminhos descalços
Semeei fundo meus ais

Ao Tejo pedi sustento
Com minhas mãos lavadeiras
Nas doces águas do estio
Nas de inverno traiçoeiras


Ai que saudades que eu tenho
Dos tempos de rapariga
Quando a tristeza lavava
Nos versos duma cantiga

Ao tejo dei-me inteirinha
Dei minhas mãos lavadeiras
Dei minha alma de mulher
Num corpo de mil canseiras

Rio que corres p’ra tão longe
Os meus sonhos não mos leves
Que os momentos de alegria
São tão poucos, são tão breves

Açorda d’alho

Joaquim Banza / Joaquim Marrafa
Repertório de António Pinto Basto 
Participação do Grupo de Cante da Damaia

É fácil fazer, dá pouco trabalho
É água a ferver, coentros e alho
Coentros e alho e água a ferver
Dá pouco trabalho e é fácil fazer


Alhos, coentros e sal
Também se faz com poejo
Esse manjar que nasceu
Lá dentro do nosso Alentejo;
Depois dos alhos pisados
E com a água a ferver
Corta-se o pão aos bocados
Está pronta, vamos comer

Com o panito bem duro
E um ovo para escalfar
O azeite bom e puro
Não há melhor paladar;
Açorda com bacalhau
E azeitonas pisadas
Também não é nada mau
Com umas sardinhas assadas

Lembro-me, quando era moço
Antes de ir p’ró trabalho
Comer ao pequeno almoço
Uma bela açorda d’alho;
Já meus avós me diziam
A força que a açorda dá
Todos os dias comiam
E dez filhos já estão cá

Terra queimada

Célia Barroca / Luís Martins
Repertório de Célia Barroca

Tanta terra já queimada
Tanto tojo a despontar
Tanta papoila encarnada
Tanto sonho por lavrar

Nesta terra abandonada
Tudo lembra o teu olhar


Corre o rio no seu leito
E em seu jeito, murmuro
Trovas que trago no peito

Acorda-me o rouxinól
E à noite o vento faz-me chorar

Nesta terra abandonada
Tudo lembra o teu cantar

As sandálias cor-de-rosa

Eduardo Olímpio / Paco Bandeira
Repertório de António Pinto Basto


Não calces as sandálias cor-de-rosa
Essas sandálias são o meu martírio
Com elas tu desenhas verso em prosa
E fazes da calçada um chão de lírio

Se desces para Alfama, há uma viela
Que fica enamorada e a teus pés
Teus passos, toc-toc, uma aguarela
E o Tejo muda o curso das marés

As tuas sandálias
São duas Amálias cantando a ternura
São o Marceneiro
Gingando certeiro como a vida é dura
São Cesário Verde
Que em rimas se perde e como eu invejo
Fernando Pessoa
A namorar Lisboa que namora o Tejo


Se vais ao Bairro Alto ouvir um fado
Tuas sandálias pisam a ternura
Mesmo que o verso tenha um tom magoado
O teu andar é sempre uma aventura

O cor-de-rosa das tuas sandálias
Lembra um jardim florido em movimento
Ramos de rosas, de tulipas, de dálias
Que nunca foram minhas e eu lamento


Memória de um tempo

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório de Célia Barroca


Rosa, que sonhaste?
Foi um sonho antigo!
Memória de um tempo
Que bate ao postigo

Rosa, que sonhaste
Que te fez chorar?
Sonhei-me menina na rua esquecida
E que a meio da vida me vem acordar

Deixa-me embalar na noite
Esse sonho sonho antigo
Verás que não volta
Se eu dormir contigo

Deixa-ne ficar na noite
Que bate ao postigo
Que o medo não volta
Se eu dormir contigo

A Graça

Letra e música de Amadeu Diniz da Fonseca
Repertório de António Pinto Basto


Ai que coisa sem graça
Tamanha desgraça a de não a ver
Já nem sei o que faça
Para que a Graça torne a aparecer
Ando de volta na Graça
Não sei que se passa nesta Lisboa
Não ver a Graça na Graça
Qual é a Graça? Não se perdoa!

Ó Graça aparece na Graça
Se alguém que passa não te quer bem
É gente que não tem graça
E inveja a Graça que a Graça tem


A Graça é tão engraçada
A sua graça não tem igual
Ao vê-la passar na Graça
Com sua graça tão natural
Por onde andará a Graça?
Graça escondida é minha tristeza
A Graça faz falta à Graça
Graça prendada da natureza

A Graça tão graciosa
Vai aparecer num dia qualquer
No meio da Graça, vaidosa
Abraço a Graça se ela quiser
Ó Graça por tua graça
Aparece na Graça, faço questão
Eu quero que saibas, Graça
Que te dou de graça o meu coração

Minha amada Lisboa

Marco Oliveira / Tiago Derriça
Repertório de Marco Oliveira


A minha amada Lisboa
Tem o azul do tejo no olhar
Toda a cidade se ilumina
Quando penteia o seu cabelo ao luar
Conto as estrelas no seu rosto de menina

A minha amada Lisboa
Perfuma cada rua de saudade
E nas vitrinas da avenida
O seu vestido vais espelhando a claridade
Quando ela passa nos meus dias distraída

Que será das vielas e da ponte sobre o rio
Quando encontrar outro lugar nos sonhos dela
Se ela partir sem um adeus no seu navio
Não há-de haver outra cidade como ela


A minha amada Lisboa
Quer ver nascer o sol no meu inverno
Quer ver a chuva em pleno agosto
E andar molhada no Rossio um dia eterno
Quando ela dança o meu sorriso é fogo posto

Que será das vielas que deixou no meu olhar
Quando o luar vier espreitá-la na janela
Daquela casa que deixou sem avisar
Sei que Lisboa vai sentir a falta dela

Nas águas do meu navio

Afonso Duarte / Borges de Sousa
Repertório de Célia Barroca


Nas águas vai meu navio
Leva amor que se carrega
É na graça e no feitio
O meu olhar que navega

O mar bate-se na praia
E as águas curvam-se em ondas
É o meu olhar que desmaia
Nas suas formas redondas

Uma se quebra atrás duma
Meus olhos perderam olhos
Querira Deus que a sua espuma
Não traga um feixe de escolhos

São duas ondas de mar
Que se saúdam no rosto
Sendo ambas do meu olhar
Só uma travo com gosto

Fado amargura

Ana Sofia Paiva / Marco Oliveira *fado amargura*
Repertório de Marco Oliveira


Contemplo da janela a madrugada
Os carros vão varrendo as avenidas
Perfume de miséria adocicada
Que aos poucos embriaga as nossas vidas

Contemplo esta saudade rotineira
Manchando de vergonha toda a rua
A minha própria dor à cabeceira
Do tédio a que meu corpo se habitua

E as pombas, guardiãs do cemitério
Em que a velha cidade se transforma
Com asas de mortalha e de mistério
Cinzeiro que do céu todo se entorna

Contemplo este compasso de quebranto
Entre a vida que passa e a que ficou
Contemplo esta amargura que hoje canto
Contemplo e jã não sei dizer quem sou

Um dia atrás do outro

Tiago Torres da Silva / Pilar Homem de Melo
Repertório de Célia Barroca

Não olhes p’ra mim dessa maneira
Como se eu fosse jardim e tu roseira

Manhãs luminosas estão à espera
Então porque não dás rosas… é primavera

O amor é uma andorinha, quando sente frio
Enfrenta sózinha um céu vazio

O ninho do meu peito, o beiral de um telhado
Pelas tuas mãos desfeito, pelas minhas moldado

Não esperes do meu corpo uma rotina
Um dia atrás do outro não é sina

O sol atrás da lua e das marés
É assim que eu sou tua e tu não vês

Que é feito da Mariquinhas?

Marco Oliveira e Ana Sofia Paiva / Marco Oliveira
Repertório de Marco Oliveira

Que é feito da Mariquinhas?
Há muito que ninguém a vê passar
Foi nas suas tamanquinhas
A casa já está pronta pr’alugar
Quem é que se lembrou de a pôr a andar?
Não se riam as vizinhas
Que dizem que foi desta p’ra pior
Só não sabem, coitadinhas
Quem ri por último é quem ri melhor

Vendeu o espelho e a colcha com barra
Ao preço dumas uvas miudinhas
Mas se ela deixou lá uma guitarra
Um dia há-de voltar, a Mariquinhas

Que é feito da Mariquinhas?
Ninguém sabe onde param as amigas
Correrem as capelinhas
Não há sinal daquelas raparigas
E vai um bairro inteiro p’rás urtigas
E a saga continua
Ainda vai no adro a procissão
Quem lá vai não se habitua
A falta que ela faz não tem perdão

Rifou as bambinelas mais a jarra
Os móveis e as cortinas às pintinhas
Mas se ela deixou lá uma guitarra
Um dia há-de voltar, a Mariquinhas

A rua está cada vez mais bizarra
Cutam couro e cabelo umas ginginhas
O fado que gostva de algazarra
Perdeu a Rosa, o Chico e a Mariquinhas

Lisboa já não é como a cigarra
Espantaram os boémios alfacinhas
Mas se deixaste lá uma guitarra
Adeus, até à volta, Mariquinhas

Pena *Rua Martin Vaz n°2*

Ana Sofia Paiva / Armandinho (alexandrino do estoril)
Repertório de Marco Oliveira


Lisboa é uma criança perdida ao pé do mar
Sem casa onde dormir, trapeira onde morar
Brincando alheia à dor, ao vento que assobia
Por entre o doce véu de alguma gelosia

Lisboa é uma criança de crua pele morena
No p´tio escuro e pobre da vila mais pequena
Lá vai descendo a rua, velhinha e descalçada
Vender laranja nova por pouco ou quase nada

Nocturno passarinho, cativo de orfandade
Correr da doce mágoa ao colo da cidade
Deixando duras penas a quem quiser cantar
Lisboa é uma criança perdida ao pé do mar

Lágrima tola

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório da autora


Que lágrima tola percorre este fado
Sal derramado sem cor nem sentido
Mágoa tão amarga, não sei donde vem
De um sonho de alguém que o terá perdido

Mágoa tão antiga
Que já não me ocorre
Se é viva ou se morre


Que lágrima tola percorre este fado
Sal derramado p’la vida fugida
Que sal tão salgado, ai que água tão fria
Que lágrima tola percorre este dia

Fado sem ti

Manuela de Freitas / João Black *fado menor do porto*
Repertório de Marco Oliveira


Sempre quis cantar um fado
Que não falasse de ti
E de tanto ter tentado
Finalmente consegui

Que só tu é que me inspiras / Que só de ti é que eu falo
Mentiras, tudo mentiras / Este fado vai prová-lo

Será um fado diferente / De todos que já cantei
Falarei de toda a gente / Mas de ti não falarei

Nem falo, não há razão / Disto que sinto por ti
De seres a maior paixão / De todas que eu já vivi

E como vês meu amor / Eu não cedo à tentação
Falo seja do que fôr / Falar de ti é que não

E assim fica provado / Que tentei e consegui
Cantei finalmente um fado / Sem nunca falar de ti

Meu canto de viela

Artur Ribeiro / Amadeu Ramim *fado zeca*
Repertório de Fernando Maurício


Há neste meu cantar feito viela
Qualquer coisa sequer que não entendo
Que tanto podem ser saudades dela
Como queixas de mim que vou fazendo

Há neste meu cantar das madrugadas
Um anseio de ser o que não sou
Que tanto podem ser pequenos nadas
Como versos que mais ninguém cantou

Há neste meu cantar feito amargura
Coisas que nem sequer devo lembrar
E que me fazem ir p’la noite escura
À procura de quem não devo amar

A fadista

Manuela de Freitas / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Ana Moura


Vestido negro cingido 
Cabelo negro comprido
E negro xaile bordado
Subindo à noite a avenida 
Quem passa julga-a perdida
Mulher de vício e pecado;
E vai sendo confundida
Insultada e perseguida
Pelo convite costumado

Entra no café cantante 
Seguida em tom provocante / Pelos que querem comprá-la
Uma guitarra a trinar 
Uma sombra devagar / Avança p'ró meio da sala
Ela começa a cantar 
E os que a queriam comprar / Sentam-se à mesa a olhá-la

Canto antigo e tão profundo 
Que vindo do fim do mundo / É prece perante o pregão
E todos os que a ouviam 
À luz das velas, pareciam / Devotos em oração
E os que há pouco a ofendiam 
De olhos fechados ouviam / Como a pedir-lhe perdão

Vestido negro cingido 
Cabelo negro comprido / E negro xaile traçado
Cantando p'rá aquela mesa
Ela dá-lhes a certeza / De já lhes ter perdoado
E em frente dela na mesa
Como em prece a uma deusa / Em silêncio ouve-se o fado

Rua da saudade

Ana Sofia Paiva e Marco Oliveira / Marco Oliveira
Repertório de Marco Oliveira


Aquela rua 
Junto ao largo da infãncia
Onde a vida continua 
A marcar uma distãncia
Quem nela mora 
Vê o espelho doutra idade
Quando a tarde se demora 
Nos olhos duma saudade

Na Rua da Saudade 
Não há cravos nas janelas
As portas ‘stão fechadas
Não há luz por dentro delas
Poeira do passado
Silêncio de oração
Molduras desmaiadas
Retratos de ilusão;
Na Rua da Saudade
Algo fica de quem parte
Um beijo, uma promessa
De amanhã reencontrar-te
Quem dera ver-te ainda 
À espera de voltar
À Rua da Saudade
Que foi sempre o teu lugar


Naquela rua 
Ao largo de São Martinho
Vi brinquedos de madeira
Um cavalo, um passarinho
Calçada escura 
Que Santo António abençoa
Ao relento da ternura
Coração de outra Lisboa

Na Rua da Saudade
Ninguém passa sem chorar
O tempo de mansinho
Adormece a ver passar
Tão belas são as sombras 
Dos pátios ao luar
Saudades e encantos
De quem nos quer lembrar;
Na Rua da Saudade 
Algo fica de quem parte
Um beijo, etc.etc

Fado das docas

Letra e música de Célia Barroca
Repertório da autora


Corri Lisboa, becos escadinhas 
Do Bairro Alto à Madragoa
Segui-te o rastro
Neste meu passo que apresso e troco
Procurei-te o rosto
No fundo baço de mais um copo

Mas foi nas docas
Mas foi nas docas
Que o teu olhar me encheu a noite 
De rosas rubras

Deste-me a mão
Sorriu-me o Tejo e não vi mais nada
Pediste-me um beijo
Disse que sim dum’assentada

Cumpriu-se o amor já prometido
Num beijo aceso, num beijo aceso
Num vão de escada p’la madrugada

Fado inventado

Tiago Torres da Silva / Joaquim Campos
Repertório de Célia Barroca

Inventei uma palavra
P’ra te dizer ao ouvido
De cada vez que acordava
Do teu beijo adormecido

Inventei um sentimento / P’ra trazer a eternidade
À doçura do momento / Em que se inventa a saudade

Inda inventei uma cor / Que da chama duma vela
Fizesse abrir uma flor / Mas não murchasse com ela

Depois, deixei-me dormir / Ao sentir adormecer
O que não pode fugir / De quem se inventa ao nascer

Inventei uma quimera / Que no escuro nos guiasse
E deixei-me estar à espera / Que o teu amor me inventasse

Eterna namorada

Ana Sofia Paiva / Miguel Ramos *fado margarida*
Repertório de Marco Oliveira


Lisboa, minha eterna namorada
Acordo quase sempre p’ra te ver
Tu és manhã tardia e sossegada
Dum tempo que eu não tenho p’ra perder

Mas quando eu dou por mim preso à janela
Poisado como as pombas e os pardais
Contemplo esta cidade em aguarela
Reparo que ela e eu somos iguais

O sono entristecido das cortinas
Ao vento côr-de-rosa, desmaiado
Estendendo a vida inteira p’las colinas
Na corda dum relógio já cansado

Ao longe, a voz antiga das canções
Magoa as margaridas dos quintais
Lisboa que envelhece os corações
No fundo eu e tu somos iguais

À hora da partida

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório da autora


À hora da partida, em cada voz
Um fado triste das vielas
À hora da partida
Minha alma é noite e ansiedade

No cais das descobertas, o meu navio
No meu navio flutua um sonho
Acendem-se as estrelas por meus guias

No cais das descobertas calou-se o fado
Lisboa não vive nem morre, Lisboa dorme
No coração um resto de saudade

Não cabem nesta hora despedidas
Chama por mim um mar de esquecimento
Cidade de chegadas, cidade de partidas
Não coube em ti meu sonho e meu tormento

De cada noite perdida

Marco Oliveira / João David Rosa *fado rosa*
Repertório de Marco Oliveira


Trago ruas e memórias
De cada noite perdida
São retratos das histórias
Do fado da própria vida

A vida que vai passando / Lembra mais um sonho ausente
As saudades vão ficando / No olhar de toda a gente

Quando a noite nos abraça / Nas ruas onde passamos
Há sempre alguém que lembramos / Num passado que não passa

A luz do céu da cidade / Vem beijar a nossa calma
Como o tempo traz saudade / Às ruas da nossa da nossa alma

São retratos das histórias / Do fado da própria vida
Trago ruas e memórias / De cada noite perdida

Bebido o luar

Sophia Melo Breyner / Helena Maria Viana
Repertório de Maria do Rosário Bettencourt

Bebido o luar e ébrios de horizontes
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar

Mas solitários somos e passamos
Não são nossos os frutos nem as flores
O céu e o mar apagam-se em exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos

Porquê jardins que nós não colheremos
Límpidos nas auroras a nascer
Porquê o céu e o mar se não seremos
Nunca, os deuses capazes de os viver

Sombra

Hélia Correia / João Blak *fado menor do porto*
Repertório de Carlos do Carmo

No mais profundo da gente
Onde nem a vista alcança
Uma outra vida balança
Entre o passado e o presente

No mais profundo de nós / Onde ninguém se aventura
Anda a canção à procura / Da voz que lhe dá-de dar voz

P’ra lá do muro assombrado / Onde nem luz se adivinha
Esvoaça aquela andorinha / Que vem morrer no meu fado

E dizem que a voz não vem / De particular garganta
Que não sabemos quem canta / Sempre que em nós canta alguém

Não somos mais que centelha / Que a própria sombra acendeu
Mas basta um poema e o céu / Que está tão longe e ajoelha

Conheces-me

José Fernandes Castro / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Carlos Coelho

Tu sabes bem quem eu sou 
Onde estou e onde vou
De mim sabes quase tudo
Sabes até que o meu fado
Marcado p'lo teu passado
É um grito quase mudo

Tu conheces bem a cor / 
E o valor que tem a dor
Quando a despedida vem
Conheces a realidade / Da saudade que m'invade
Pela saudade de alguém

A saudade é mais veloz / Do que a voz, sempre que nós
Sentimos a alma fria
Para matar a frieza / E a tristeza tão acesa
Canto por ti noite e dia

Cantando estou bem melhor / Tenho o vigor e o fulgor
Que só o fado contém
Amor que não esqueci / Canto por ti e p'ra ti
Porque me conheces bem

Minha alma, meu fado

José Fernandes Castro / João Blak *fado menor do porto*
Repertório de Eugénia Maria

Dei a alma toda ao fado
Fui fadista a vida inteira
Neste jeito dedicado
De honrar a minha Madeira

Nasci fadista por sina
Sou fadista por condão
Mulher que já foi menina
Outono que foi Verão

Ainda tenho vontade
De mostrar com grande empenho
Esta alma que mantenho
Que a alma não tem idade

Vivo feliz, na certeza
De ter dado por inteiro
Este jeito verdadeiro
De ser mulher portuguesa

O lençol desta paixão

Bernardo Sá Nogueira / Carlos da Maia *fado perseguição
Repertório do autor


Gosto tanto de te ouvir
De olhar tua boca a abrir
A soltares teu coração
Que qualquer dia, p’ra ver
A teus pés irei estender
O lençol desta paixão

Vou falar que a alma aqueces
Que me abrasas e entonteces / Com teu canto cristalino
Que ao escutar-te, já esquecido
Me sinto às vezes perdido / Nas malhas do meu destino

Vou gritar: quero-te agora
Que me não basta uma hora / Nem carinhos de ternura
Saberás, assim o espero
A razão por que te quero / Sem mágoas, nem amargura

Mas se efeito não fizer
Tudo o que então te disser / Por agora eu fico assim
O meu desejo é imenso
Não raciocino, não penso / Quando estás ao pé de mim

Amar de madressilva

Cália Barroca / Popular / Luís Petista
Repertório da autora


Eu trago o beijo das rosas
O cheiro das madressilvas
Nos meus olhos, brilhos mansos
Nos lábios, doces cantigas

Trago ribeiras que riem
Por entre as pedras doiradas
Trago campos de papoilas
Em serenas madrugadas

Vai p’rá torre São João, vai p’rá torre
Vai p’rá torre São João de Barra
Vai p’rá torre, vai p’rá torre
Vai p’rá torre tocar guitarra


Trago o mistério da vida
No rio do meu desejo
Trago o amor a bailar
Nos olhos com que te vejo

Vida curta anda depressa

Bernardo Sá Nogueira / Joaquim Campos *fado puxavante*
Repertório do autor


Num instante, num segundo
Vida curta anda depressa
Toda a beleza do mundo
Coração jamais apressa


Vivemos como imortai / Mas sabendo, lá no fundo
Que as horas passam, fatais / Num instante, num segundo

Nossa existência se faz / Numa flecha e atravessa
O tempo, de trás a trás / Vida curta anda depressa

Sem parar por um só dia / De meu fado a terra inundo
Devorando co’ alegria / Toda a beleza do mundo

Nun galope, num rompante / Sem que mar ou rio o impeça
Tua estrela rutilante / Coração jamais apressa

Ai o fado

Cália Barroca / Luís Petisca
Repertório da autora

Ai o fado, o que é o fado
É a lágrima teimosa
Que teima sempre e que cai
O meu fado é mais um ai
A rimar com o passado

É este cantar chorado
Como uma prece de santa
E eu sou mais uma que canta
O amor que passa ao lado
Que passa por este fado

Ai o fado, o que é o fado
É o verso e o reverso que atravesso
Nestas horas a cismar
É a saudade a bailar
É a sombra do passado
É o amor que passa ao lado
E eu sou mais uma a cantar

Procurei e encontrei

José Fernandes Castro /Alfredo Marceneiro *menor-versículo*
Repertório de Carlos Coelho


Procurei-te num poema / genial
Encontrei-te felizmente / meu amor
Tinhas a força suprema / divinal
Duma rima diferente / por compor

Rimavas com madrugada / por nascer
Rimavas com tempestade / sonhadora
Tinhas na pele perfumada / p’lo prazer
A essência da verdade / encantadora

Tinhas no corpo a vontade / renovada
Dum verso feito p’lo mar / do coração
Tinhas sol de liberdade / controlada
No teu doce respirar / por sedução

Tinhas marca de futuro / desejado
No perfil da tua imagem / singular
Em ti, tudo era puro / e sem pecado
Meu amor, minha coragem / para amar

Este castigo

Célia Barroca / Luís Petisca
Repertório da autora


Quantos céus
Quantas noites, quantos dias
Quantos sóis me alumiaram
Em pramessas de alegrias

Quantos voos 
Em primaveras de pranto
Cresceram no meu olhar
Se afundaram no meu canto

Quantas horas
Neste morrer acordada
Quanta raiva no silêncio
Da minh’alma amordaçada

Tudo morre
Só não morre este castigo
As dores do pensamento
Que arrasto sempre comigo

Poemas canhotos

Herberto Hélder / António Vitorino d’Almeida
Repertório de Carlos do Carmo


Estes poemas que chegam 
Do meio da escuridão
De que ficamos incertos 
Se têm autor ou não
Poemas às vezes perto 
Da nossa própria razão
Que nos podem fazer ver 
O dentro da nossa morte

As forças fora de nós / E a matéria da voz
Fabricada no mais fundo / De outro silêncio do mundo
Que serão eles senão / Uma imensidão de voz
Que vem da terra calada / Do lado da solidão

Estes poemas que avançam / No meio da escuridão
Até não serem mais nada / Que lápis, papel e mão
E esta tremenda atenção, este nada

Uma cegueira que apago / A luz por trás de outra mão
Tudo o que acende e me apaga / Alumiação de mais nada
Que a mão parada

Alumiação então / De que esta mão me conduz
Por descaminhos de luz / Ao centro da escuridão
Que é fácil a rima em Ão / Difícil é ver-se a luz
Rima ou não rima co’a mão

Saudade cantadeira

José Fernandes Castro / Georgino de Soua *fado georgino*
Repertório de Angela Pimenta

A saudade foi ao fado
Mais uma vez com vontade
De pôr a alma à janela
Por lá ficou, lado a lado
Com a dona felicidade
Que também lá foi com ela

Ficaram juntas ao canto
Da sala, aonde os cantores / Punham nostalgia em nós
E foi com algum espanto
Que ao ouvir falar d'amores / A saudade ganhou voz

Cheia de brio e de garra
Movida pla poesia / A saudade motivou-se
Depois, ao som da guitarra
Cantou com rara mestria / E o fado emocionou-se

Com o olhar marejado
Com a alma bem acesa / E de peito a bater forte
A saudade e o senhor fado
Deram alma portuguesa / Ao fado da nossa sorte

Bem-disposto então vá

Júlio Pomar / Paulo de Carvalho
Repertório de carlos do Carmo


Bem-disposto então vá / Pão e vinho sobre a mesa
E cozido à portuguesa? / É sexta-feira, não há

Bem-disposto então vá / No cavalo do poder
De burro, não chega lá / De mula, iremos ver

Bem-disposto então ó meu
Quem é t’acaba o resto
Das cantigas de protesto? 
Inda me passas a réu
Bem-disposto então vá 
Alevantado do chão
E o bem é da nação
Acabou-se a festa, pá

Bem-disposto então vá / Lá fora ver a mudança
Viver sempre também cansa / Descanso é que não há

Bem-disposto então vá / Que a fome não enganas
Saiam finos e bifanas / Para mais é que não há

Bem-disposto então vá / E depois para limpar
Dava jeito um Salazar / Nem por brincadeitra, pá

Pois zero de mão beijada / Te será dado de graça
No país que vai à praça / Por pó, terra, cinza e nada

Sopro madeirense

José Fernandes Castro / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de Maria José Figueira


O sopro do meu fado é um poema
Que canto à minha Ilha da Madeira
Poema que só tem força suprema
Por ser cantado assim desta maneira

Cantando com prazer e com rigor
Sentida pela alma que hoje sou
A força deste fado tem a cor
Da fé que o céu da ilha me ensinou

A minha condição de ser fadista
É culpa desta raça portuguesa
Que não se compra, apenas se conquista
Com brio e com muito mais nobreza

O sopro do meu canto é este amor
Que faz de mim um ser abençado
Bendito este jardim encantador
Bendita esta Madeira do meu fado