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Tenho vindo a publicar letras (de autores que já partiram) sem indicação de intérpretes ou compositores na esperança de obter informações detalhadas sobre os temas.
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As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: por falta de informação nem sempre são mencionados os criadores dos temas aqui apresentados.
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Degraus da vida

Moisés Campelo / Mário Lopes 
Repertório de Francisco Martinho 

Sobre os degraus desta vida
Andavas como perdida 
Em busca duma afeição 
E eu, mulher, resolvi  
Talvez com pena de ti 
Levar-te p'la minha mão 

Depois amei-te e tão louco 
Fiz-te esquecer pouco a pouco 
As horas más que passaste 
E pelo meu braço forte 
Subiste os degraus da sorte 
Mas logo me abandonaste 

Esses degraus 
Que subiste à minha custa 
Foram a prova mais justa 
Do meu amor, podes crer 
Esses degraus
Não te queiras iludir 
Tanto servem p'ra subir 
Como servem p'ra descer 

Na vida há certos degraus 
Que são falsos, que são maus
E tu tens que os pisar 
Por isso toma cuidado 
Que já não tens a teu lado 
Meus braços p’ra te amparar 

Mas se algum dia voltares 
A caír... e me encontrares 
Não temas o meu rancor 
Volta que eu ainda sou 
O mesmo que te encontrou
E te ofereceu seu amor

História do Zé Passarinho

João Gil / João Monge
Repertório de Ala dos Namorados

Pela saída que tem

Da vadiagem alguém 
Chamou-lhe Zé Passarinho
Fala em verso e as mulheres
Ao fim de duas colheres 
Leva-as no bico p'ró ninho

Sabe os fados do Alfredo
Rima que até mete medo 
Nesta função é doutor
Tem os tiques de fadista
Mão no bolso, lenço e risca 
Baixem a luz por favor

Uma triste noite ao frio
Cantava-se ao desafio 
Para aquecer as paixões
Quando um estranho se levanta
P’ra mostrar como se canta 
Faz-se à Rosa dos Limões

O povo ficou sentido
Com aquele destemido 
Hás-de morrer engasgado
Palavra puxa palavra
Desata tudo à estalada 
Com o posto ali ao lado

Nem foi preciso a carrinha
Tudo na sua perninha 
Numa linda procissão
Das perguntas com carinho
Ficou preso o Passarinho 
Só para investigação

Nasce o dia atrás da Sé
E ninguém arreda pé 
Nem por dó, nem por esmola
O povo ficou sentado
Para ouvir cantar o fado 
Passarinho na gaiola

Minha luz

José Mariano / João Blak *menor do porto*
Repertório de Maria Teresa de Noronha

A saudade é como a luz
Que o sol já morto deixou
É presença, embora cruz
Na alma de quem ficou

Se o apagar duma chama 
Uma agonia traduz
No coração de quem ama 
A saudade é como a luz

Saudade de alguém ausente 
Ou que esqueceu ou mudou
É como a luz do poente 
Que o sol já morto deixou

É no céu ainda cor 
É o milagre da luz
É no peito ainda amor 
É presença, embora cruz

Poente é como o que finda 
Adeus é sol que baixou
A saudade é luz ainda 
Na alma de quem ficou

Cansaço

Luís Macedo / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Amália

Por trás do espelho quem está

De olhos fixados nos meus;
Alguém que passou por cá
E seguiu ao Deus dará
Deixando os olhos nos meus

Quem dorme na minha cama 
E tenta sonhar meus sonhos
Alguém morreu nesta cama 
E lá de longe me chama
Misturada nos meus sonhos

Tudo o que faço ou não faço 
Outros fizeram assim;
Daí este meu cansaço 
De sentir que quanto faço
Não é feito só por mim

Lua semi-nua

Letra e música de Paulo Bragança
Repertório de Paulo Bragança

Vai sair a lua 
Louca, semi-nua
Vai sair plebeia 
Ei-la que se anseia

Sai da réstia lua 
Nuvem de luz crua
Sai do seu andante 
Mar do teu semblante

Doida se insinua 
Frágil de tão nua
Do pranto rainha 
Morre só, sózinha

Sai da tumba, lua 
Vampiro te possua
Na treva tão fria 
Ergue-te, alumia

Caminhos sem fim

Maria Rita de Carvalho / Júlio Proença *fado proença*
Repertório de Maria Teresa de Noronha

Tantos caminhos cruzados
Estrada feitas em bocados
Vidas que Deus baralhou
O nosso amor foi mais forte
E lutando contra a morte
Deus afinal nos juntou

Juntamos ao nosso amor
Risos desgostos e dor 
Sonhamos assim viver
Do sonho à realidade
Só nos separa a saudade 
E o desejo de esquecer

Foi um minuto somente
Que perdura eternamente 
Dentro de ti e de mim
Pode a vida separar-nos
Pode a sorte abandonar-nos 
Este amor não terá fim

Estrela que se apaga

*arco-da-velha*
Jorge Fernando / Jaime Santos *fado alvito*
Repertório de Fernando Maurício

Tenho as estrelas por telha

O meu tecto um velho barco
Por paredes a maresia;
Espreita-me o arco-da-velha
Como se a velha e o arco
Me fizessem companhia

O corpo já não reclama
Os colchões de pedra dura 
A que está habituado
Mas por dentro há uma chama
Que arde viva e segura 
No meu sangue revoltado

Quando chega o vento aflito
Contra os vidros da janela 
Do quarto que não conheço
Sopro para o infinito
Apago a última estrela 
Logo depois adormeço

Morri ontem

Jorge Rosa / João Vasconcelos
Repertório de Tony de Matos

Toda a vida que eu vivesse 
Jurei que te dedicava
E toda a vida deixava 
No dia em que te perdesse

Deixei de ver-te, ceguei 
Quis falar-te e fiquei mudo
Os meus sentidos e tudo 
Que era meu, abandonei

Morri ontem, podem crer
À hora em que o sol, morria
À hora triste, em que o dia
É dia, e deixa de o ser;
Comigo nunca mais contem
Pois de mim mais nada existe
Morri quando tu partiste
Partiste ontem, morri ontem

A vida que Deus me deu 
Só foi minha até à altura
Em que por sagrada jura 
Todo o meu viver foi teu

Sem saberes o que fazias 
Presa a outro amor fugiste
Sem pensares quando partiste 
Que a minha vida partia

O fado de ser fadista

Letra e música de Artur Ribeiro
Repertório de Artur Ribeiro

Fado é destino marcado 
Fado é perdão ou castigo
A própria vida é um fado 
Que o coração traz consigo

Seja canção fatalista 
Ou prece de quem sofreu
O fado de ser fadista
É sina que Deus me deu

Fado é ternura

Fado é dor, fado é tristeza
Fado é como que uma reza
De quem sofre ou é feliz
Fado é loucura

É saudade, é incerteza
E é bem a mais portuguesa
Das canções do meu país

Fado é tudo o que acontece
Quando se ri ou se chora
Quando se lembra ou se esquece
Quando se odeia ou se adora

É ter um jeito de artista
Para moldar o fado a voz
E o fado de ser fadista 
A morar dentro de nós

Aquele adeus

João Mário Veiga / Pedro Rodrigues *fado primavera*
Repertório de Maria Leopoldina da Guia 

Tudo acabou nesse adeus
Em que vi os olhos teus
Partirem para outro lado
Sonhamos tanto e depois
O que ficou de nós dois
Foi um pouco do passado 

Quanto fados te cantei
Quantos poemas rasguei 
Por serem feitos de ti
Esqueci-me de tantos dias
Nas promessas que fazias 
Outro fado descobri 

Já é tarde, meu amor
O poente perde a cor 
E não te vejo voltar
Co'a noite vem a saudade
Mesmo longe és a verdade 
Que ponho no meu cantar

Quando voltares

Artur Ribeiro / Jorge Fontes
Repertório de Manuel de Almeida

Quando me lembro, criança
Da nossa vida passada
Eu peço a Deus que te traga
 
De novo ao nosso abraço
Para num beijo fremente
Cheio de amor e perdão
Poder matar as saudades 
Que trago no coração

Quando voltares 
De viver sem mim, cansada
Saudosa e já convencida
Do que a vida se resume
Vais encontrar 
A minha porta fechada
E a tua chave escondida
No cantinho do costume
 
Vais encontrar no jardim 
As rosas do teu agrado
E dos teus cravos vermelhos 
O nosso quarto enfeitado
E na tua travesseira
 
Vazia, ao lado da minha
Vais ver as marcas do pranto 
Que chorei pela noitinha

O vento

Maria da Graça Ferrão / José Carlos Magala *fado magala*
Repertório de Manuela Cavaco

Se o vento soubesse ler

Leria em meu pensamento
A loucura de te ver
A toda a hora e momento

Dizer-te aquilo que sinto 
Não sei se parece mal
Diz que sim, não te desminto 
O que sou eu afinal

A brisa quando ao passar 
Murmura entre a folhagem
Palavras para te adorar
Carinhos à tua imagem

Ouve esta frase sentida 
Sem amor não há viver
Amar é próprio da vida 
Ai se o vento soubesse ler

Andei à tua procura

Artur Ribeiro / Pedro Rodrigues *fado pedro rodrigues*
Repertório de Filipe Duarte

Andei à tua procura 
Perdido na noite escura
Pelas ruas da cidade
E em cada mulher que vi
Não te encontrei mas senti
Aumentar esta saudade

Fui de porta em porta a esmo
Chorei e ri de mim mesmo 
Como quem perde a razão
Aos outros não disse nada
Só às pedras da calçada 
Abri o meu coração

As ruas onde passámos
Os jardins onde andamos 
Os lugares onde te vi
Na minha mente cansada
Tudo ri à gargalhada 
Ao ver-me chorar por ti

Andei à tua procura
Voltei louco de amargura 
Daquela paixão perdida
Mas se entrares aquela porta
Do resto nada me importa 
Pois volta contigo a vida

Alvorada

Letra e música de Júlio de Sousa
Repertório de Francisco Martinho


Eu tive aspirações, estátuas partidas
As minhas ambições, mágoas esquecidas
Abri toda minh’alma deslumbrada
E sou feliz porque em meu peito
Despertou uma alvorada

Não há abraços a mais e
m nosso abraço
Começo a perceber o que é amar
Estamos presos na vida a
o mesmo laço
Que a vida já não pode separar;
Um milagre de sonho me tocou
Agora, é mais suave o chão que piso
O que me deste amor e
 o que eu te dou
Tem qualquer coisa, meu amor, dum paraíso

O que passou passou, sou outro agora
As más recordações mandei embora
Depois, veio contigo um mar de esperança
E mais calor e fui criança
No berço do nosso amor

Roseira brava

Manuel de Andrade / Pedro Rodrigues *fado primavera* 
Repertório de João Ferreira Rosa 

Andei a ver se encontrava 
Alguma roseira brava 
Florida de murchas rosas 
Qualquer coisa que lembrasse
Um resto só que ficasse
Das nossas horas ditosas 

Mas o céu enegreceu
O vento tudo varreu 
E de nós nada ficou 
Na campina nua e fria 
Nem uma roseira havia 
Nem uma rosa murchou 

Morreu triste o meu intento
Morreu levado p’lo vento 
Que as roseiras embalava
Voltei ao cair do dia
Pois no campo não havia 
Nem uma roseira brava

A prece

Miguel Torga / Pedro Rodrigues *estilizado*
Repertório de Simone (ao vivo na RTP)

Senhor deito-me na cama

Coberto de sofrimento
E a todo o comprimento;

Sou sete palmos de lama
Sete palmos de excremento
Da terra mãe que me chama

Senhor ergo-me do fim 
Desta minha condição
Onde era sim digo que não 
Onde era não digo que sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim

Senhor acaba comigo 
Antes do dia marcado
Num golpe bem acertado 
A tiro do inimigo;
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo

Tu não me digas

Letra e música de Santos Moreira
Repertório de Maria da Nazaré

Tenho a certeza que já não gosto de ti
Nem com firmeza, sofria o que já sofri
Podes passar agora pela minha porta
Podes parar que a minha crença está morta

Podes dizer 
Que já não sentes ciúme
Que já se apagou o lume 
Que aquecia o nosso amor
Podes dizer 
Que já não gostas de mim
Que o teu amor teve um fim 
E que até me tens rancor

Triste ilusão, e um dia lá partiste
Por compaixão nem sequer te despediste
Há-de passar o desgosto que me déste
Hás-de pagar todo o mal que me fizeste

Tu não me digas
Que já não sentes ciúme
Que já se apagou o lume 
Que aquecia o nosso amor
Tu não me digas
Que já não gostas de mim
Que o teu amor teve um fim 
E que até me tens rancor

Balada do sol errado

Hélder Moutinho / Armando Machado *fado súplica* 
Repertório de Miguel Ramos 
Este tema foi posteriormente gravado por Ana Sofia Varela 
com música de Fernando Alvim e com o título *Fado do sol errado*.

Adeus ó meu amor minha aventura
De olhar sereno ao vento e brusco ao mar
Adeus minha ilusão que não tem cura
Adeus amor que não te posso amar

Adeus ó rio que nasces à noitinha
E desces de mansinho as madrugadas
Quem dera que essa noite fosse minha
Adeus ó meu amor de águas paradas

Mas se algum dia a luz de um sol errado
Brilhar na tua praia adormecida
Eu voltarei ao som deste meu fado
E cantarei bom dia a toda a vida

Agora vem dormir na calmaria
Deste teu rio sem rumo e sem vontade
Talvez um dia amor, talvez um dia
Me acordes noutro rio de liberdade

Estrela divina

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório de António Pelarigo 
Este tema foi gravado por Nuno da Câmara Pereira com o título
*Minha estrela, minha vida* e com ligeiras diferenças na letra.

Um dia foste mãe, oh minha mãe
Um dia foste Deus, deste-me vida
E a flor da vida que este mundo tem
Sorriu-te, natureza agradecida;
Um dia foste mãe, oh minha mãe

Talvez por esse dia ser diferente
Havia em teus olhos duas estrelas
A iluminar meu corpo ternamente
Jurando serem minhas sentinelas;
Talvez por esse dia ser diferente

Como a virgem guiou Jesus de Belém
Guiaste tu meus passos de menino
Mostraste-me o caminho para o bem
Foste o meu farol, estrela divina;
Como a virgem guiou Jesus de Belém

Tive um barco

Manuel Andrade / Henrique Lourenço *fado cigana*
Repertório de João Braga

Tive um barco e dei-lhe um nome
Dei-lhe um nome feito ao vento
Dei-lhe um nome feito ao mar
Tive um amor e deixou-me
Ficou no meu pensamento
Mas não mais o vi voltar

O seu olhar era a bruma
O seu jeito era o do mar 
Em tardes de calmaria
E eram cristais de espuma
Os seus dentes ao cantar 
E os seus olhos se sorria

Partimos p'la barra fora
Meu amor achei-o estranho 
Mais tarde por lá ficou
Onde foi que importa agora
Tive um barco e nada tenho 
E o meu amor não voltou

Jardim do coração

Torre da Guia / Nuno de Aguiar
Repertório de Nuno de Aguiar

Tenho um jardim 
Dentro do meu coração
Uma camélia paixão

Duas rosas sem defeito
E lá no meio, pequenina e florida
A flor da minha vida

Um lindo amor perfeito

A minha vida 
Tem agora mais sentido
O meu fado é mais vivido

O tempo mais dimensão
Só porque tenho 
Quatro singelas flores
Quatro vidas quatro amores

No jardim do coração

Quando adormeço 
Entrego o meu pensamento
Ao suave encantamento

Das flores do meu jardim
E quando acordo 
Do meu sonho imaginado
Sinto o viço perfumado 

Das flores dentro de mim

Olá Lisboa

José Guimarães / José Cid
Repertório de Rosita

Lisboa, vou levar-te uma mensagem
Vou dar-te o coração em meu cantar
Do Porto levarei, como bagagem
O melhor que tiver para te dar

Lisboa, és como és e eu não invejo
O teu ar senhoril de estilo mouro
Não vão mudar-se os Rabelos p'ró Tejo
Nem vão andar Canoas no Douro

Olá Lisboa

Vou ao Cacau da Ribeira
Vou levar-te o meu bom dia
Olá Lisboa
Um fado da Sé tripeira 
Vou cantar á Mouraria
Olá Lisboa
E ao passar pelo Terreiro da Paço
Vou levar-te aquele abraço
Olá Lisboa
E se o Tejo não fosse tão 
ciumento
Falava de casamento
Olá Lisboa
Olá Lisboa, vou levar-te o meu bom dia
O Porto na Mouraria
Olá Lisboa

Lisboa, tu és Gama e és Pessoa
Tu és um cacilheiro e caravela
És marcha popular, fado que entoa
És guitarra a chorar, numa viela

Nós vamos dar as mãos, cidade amiga
E seguir lado a lado a todo o instante
Vai dar-te o coração numa cantiga
Este Porto que é berço do Infante

Vem ver o fado

José Guimarães / Rezende Dias 
Repertório de Adelina Silva

Há muita gente trocista 
Que com má fé apregoa
Que o fado p'ra ser fadista
Só o fado de Lisboa

E eu digo numa voz forte
Enquanto tiver garganta
O fado é também no norte
No Porto também se canta

Vai até à beira rio 
Verás o fado, verás o fado
Olha o velho casario 
Verás o fado, verás o fado
Vai ao Barredo sombrio 
Verás o fado, verás o fado
Mas ali na velha Sé
Verás o fado tal como é 

O fado nos acarinha 
Quando com alma é cantado
Não faz mal ser alfacinha 
Basta só que seja fado

Há quem duvide, talvez 
Mas não receio afirmar
Que onde houver um português 
O fado tem seu lugar

Adeus tentação

Jorge Rosa / José Inácio
Repertório de Lúcio Bamond


Com movimentos de cobra
Num canteiro de jardim
Ardilosa atrás de mim
Andas numa tentação

Atento à tua manobra
Passo o tempo de atalaia
Conheço as da tua laia
Percebo a tua intenção

Aquela maçã
Que certa manhã lá no paraíso
Deu volta ao juízo do bom pai Adão;
Foi bem o rastilho
De quanto cadilho um homem padece
Mas não me apetece esquecer a lição;
Por isso é escusado tentares o pecado
Que a Eva tentou
Estou bem como estou
Adeus tentação

Solteirinho e bom rapaz
Não tenham pena de mim
Sou feliz vivendo assim
Ao contrário não me arrisco

Se cassasse era capaz
De viver num céu aberto
Mas do certo p'ró incerto
Não quero correr o risco

Amor muito tarde

José Fernandes Castro / Fontes Rocha *fado isabel*
Repertório de Leonor Santos


É na tristeza das horas
E no chegar da saudade
Que sinto que te demoras
Neste amor já muito tarde

Procuro o ar que respiras 
P'ra te encontrar mais depressa
Procuro a dona da sombra 
Em que o meu amor tropeça

Corro a vida ponta a ponta 
Sempre à procura de ti
Até já perdi a conta 
Da vida que percorri

Volto ao ponto de partida 
Com o coração desfeito
E mais um pouco de vida 
Morreu, neste amor perfeito

Fica o silêncio entre nós

Carlos Baleia / Daniel Gouveia
Repertório de Teresa Tapadas

Quando tudo já foi dito 
Fica o silêncio entre nós
Acaba calado o grito 
E o amor fica sem voz

Em caminhada insegura 
Eu sigo o som dos teus passos
E o cansaço da procura 
Só me afasta dos teus braços

Silêncio, que coisa estranha
A esconder uma verdade
De que não sei a idade
Nesta solidão que invento
Silêncio, que dor tamanha
Saber que a tua maldade
Não evitou a saudade
Que sinto neste momento

Sem encontrar as palavras 
Sem desatar tantos nós
Sem saber onde te amarras 
Sem ouvir a tua voz

Por caminhos e amarguras 
A marcarem meu sofrer
Mais que sombrias, são escuras 
As horas do meu viver

É ou não é

Letra e musica de Aberto Janes
Repertório de Amália

É ou não é 
Que o trabalho dignifica 
É assim que nos explica 
O rifão que nunca falha 
É ou não é 
Que disto, toda a verdade 
É que só por dignidade 
No mundo ninguém trabalha 

É ou não é 
Que o povo nos diz que não 
Que o nariz não é feição 
Seja grande ou delicado 
No meio da cara 
Tem por força que se ver 
Mesmo a quem não o meter 
Aonde não é chamado 

Digam lá se é assim ou não é 
Ai não não é... 
Ai não não é...
Digam lá se é assim ou não é 
Ai não não é... 
Pois é 

É ou não é 
Que um velho que à rua saia 
Pensa ao ver a mini-saia
Que este mundo está perdido 
Mas se voltasse 
Agora a ser rapazote 
Acharia que o saiote 
É muitíssimo comprido 

É ou não é 
Bondosa, a humanidade 
Todos sabem que a bondade 
É que faz ganhar a céu 
Mas a verdade 
Nua, sem salamaleque 
É que tive de aprender, é que 
Ai de mim se não for eu
- - -
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Canção*

Versão não encontrada na Internet, mas com a mesma música. 
Esta versão é uma variante jocosa, do mesmo autor, ao seu anterior êxito 
com o mesmo título.

É ou não é
Que o «dar de beber à dor»
É o motivo ao dispor 
Para andar de grão na asa
Diz a mulher ao marido 
Sim senhor
A dares de beber à dor
Vens sempre aos esses p’ra casa

Responde aquele
Meio a rir e meio a sério
Para que é esse despautério 
tanta ferocidade
Fica sabendo 
Que beber e conseguir 
Fazer ésses sem cair
É já grande habilidade

Digam lá se é assim ou não é
Ai não, não é...
Ai não, não é...
Digam lá se é assim ou não é
Ai não, não é... 
Pois é

É ou não
Que faz confusão à gente
O talento de repente
Com isto da nova era
Aborreceu-se 
De que não pudessem vê-lo
E transformasse em cabelo 
Comprido... e até em pera

É ou não é
Com reforma ou sem reforma
Não tinha aparecido a forma 
Para o povo estudar mais
O Totobola
Nisso foi o mais famoso
Fez o país estudioso 
Da fronteira até Cascais

Amor poético

José Fernandes Castro / Pedro Rodrigues
Repertório de José Fernandes

Na hora de ser poeta
Tenho a força do desejo
Na essência do meu verso;
E com a alma liberta
Invento o sabor do beijo
E sou poema disperso

As palavras são meu guia
E até o ar que respiro 
É na mente o meu clarão
Assim que termina o dia
Sou então o que prefiro 
Sou tempo d'inspiração

Invento amor p'ra te dar
E se canto para ti 
Sou trovador inventado
Fito em ti, o meu olhar
E se teu rosto sorri 
Sou amor recompensado

Dou mais voz à minha voz
E dou-te versos nascidos 
Do meu amor sem idade
Canto por nós e p'ra nós
E os nossos cinco sentidos 
Fazem nossa felicidade

Na noite em que te vi

Fernando Peres / Jorge Barradas
Repertório de Tony de Matos

Na noite em que te vi, eras diferente
Tinhas uma promessa em cada olhar
Promessa de desejo
Na boca sempre um beijo
Do amor que se dá por querer amar

É já talvez igual a toda a gente
Porque tudo acabou sem despedida
Remorso sem ter voz
O que fizemos nós
Para ficares assim na minha vida

Mágoas frias... 
De promessas sem ternura
Mãos vazias... 
De andar à tua procura
Dor secreta... 
Dum sonho quase desfeito
Esperança inquieta... 
Que já morreu no meu peito

Na noite em que te vi, eras diferente
Uma lágrima branca de luar
Um sonho peregrino
Promessa dum destino
Que eu quis tentar viver p’ra mais amar

É já talvez igual a toda a gente
Saudade dum amor sem despedida
Faz-nos ficar mais sós
O que fizemos nós
Para ficares assim na minha vida

Assim que te despes

David Mourão Ferreira / Custódio Castelo
Repertório de Cristina Branco

Assim que te despes
As próprias cortinas
Ficam boquiabertas 
Sobre a luz do dia

Os teus olhos pedem
Mas a boca exige
Que te inunde as pernas
Toda a luz do dia

Até o teu sexo
Que negro cintila
Mais e mais desperta 
Para a luz do dia

E a noite percebe
Ao ver-te despida
O grande mistério 
Que há na luz do dia

Coração p’ra não esquecer

José Luís Gordo / Popular *fado menor*
Repertório de Teresa Tapadas

Aqui te canto um poema
Nas asas de minh'alma
És o fogo que me queima
És o vento que me acalma

A minha voz é um grito 
À procura de guitarra
Uma voz cheia de pranto 
Neste amor que me desgarra

O meu amor é um canto 
Que não consigo esconder
Uma voz cheia de pranto 
Por não te saber esquecer

Há no fado uma razão 
Que Portugal saber ter
Quem ama tem coração 
Coração p’ra não esquecer

Soneto da separação

Vinícius de Moraes / Custódio Castelo
Repertório de Cristina Branco

De repente, do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas, fez-se a espuma
E das mãos espalmadas, fez-se o espanto

De repente, da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel, fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se triste o que se fez amante
E de sózinho o que se fez contente

Fez-se do amigo, próximo, o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

É um beijo

Rosa Lobato Faria / Moniz Pereira
Repertório de Teresa Tapadas

Calou-se o cantar das fontes 
Lá fora amainou o vento
Ficamos sem horizontes 
Suspensos fora de tempo

Pararam á flor das águas 
Os barcos que iam no Tejo
Morreram todas as mágoas
o tempo do nosso beijo

É um beijo, é um beijo, é um beijo
E os milagres que um beijo nos faz
Porque dar de beber ao desejo
É o céu de que a alma é capaz

Aqui, silêncios roubados 
Ao sussurrar dos amantes
Além, luares encontrados 
Em outras luas distantes

Nasceram tantas certezas 
Nas nossas vidas incertas
Fechados nas bocas presas 
E as portas todas abertas

Fora de horas malmequer

Carlos Baleia / Daniel Gouveia
Repertório de Teresa Tapadas 


Malmequer de solidão 
Desfolhado fora de horas
Só sabe dizer que não 
E madrugam as auroras;
Tristes no meu coração
Porque não vens, ou demoras

Meu quarto ainda há pouco 
Ninho de amor e paixão
Sabe que o malmequer louco 
Colhido pela minha mão;
É a flor deste sufôco
Que o transforma em prisão

Apenas porque teus passos 
Noutro lado viajantes
Deram vida aos meus fracassos 
E os nossos beijos de amantes;
E a loucura dos abraços
Estão cada vez mais distantes

Malmequer impiedoso 
Que rouba luz ás auroras
Num desfolhar doloroso 
Quarto das tristes demoras;
Onde o meu corpo ansioso
Espera por ti fora de horas

Sorrindo amor

José Luís Gordo, Mário Rainho / Fontes Rocha
Repertório de Mário Rainho

Ai meu rio de sonhos aflitos
Meu ribeiro, meu espelho inventado
Meu amor de gestos mais bonitos
Coração a bater descompassado

Meu sossego de sono rasgado
Meu lençol de luar e nudez
Meu recreio, meu brinquedo brincado
No jardim onde brinco outra vez

É em ti meu amor, que amanheço
É em ti que aconteço quimera
Sorrindo amor
Bom dia amor
Bom dia meu amor em primavera

Meu poema de rima acabada
Meu sorriso feliz de criança
Meu amor, meu beijo de alvorada
Verde mar, verde flor e verde esperança

Meu olhar à janela esquecida
Meu desejo no céu da ternura
Meu amor, amor que me dás vida
Inventada na praia da loucura

Travessa com palha

José Fernandes Castro / Frederico de Brito *fado britinho* 
Repertório de Delfim Carvalho 

Uma travessa com palha
P'ra consolar a maralha 
Que anda com frio nos dentes
Uma garrafa de vinho 
Martelado, mas fresquinho 
E lá vão todos contentes 

Na taverna do Zarolho 
Tudo é servido com molho 
Feito p'la Rita Caroço
É mais molho que comida
E até a conta exibida 
Provoca molho do grosso

P'ra ver quem paga melhor
O Toninho estofador 
Põe-se a contar os tostões
Uns fogem pela janela
E quase sem dar por ela 
Só lá ficam os morcões

Que cena mais caricata
Vê-los a correr á farta
E cada vez mais depressa
Linda travessa com palha
Que por culpa da maralha 
És mais palha que travessa