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Tenho vindo a publicar letras (de autores que já partiram) sem indicação de intérpretes ou compositores na esperança de obter informações detalhadas sobre os temas.
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As letras publicadas referem a fonte de extração, ou seja: por falta de informação nem sempre são mencionados os criadores dos temas aqui apresentados.
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Aqui dentro do fado

José Santos / Vital d' Assunção
Repertório de José Manuel Castro

Aqui dentro do fado é que te encontro
Como asa ou lamina cortante
Enquanto te construo debruçado
Ao som desta guitarra vou cantado

Aqui dentro do fado h
á a memória

Das aves que partiram ou tombaram
Ou um punhal no corpo derramado
Ou a saudade de todos que ficaram

Aqui dentro do fado ardem os dias
E as noites, com seus fantasmas de vento
A lama que trazemos do passado
A chuva que nos rói como alimento

Aqui dentro do fado h
á um rio solto

Que por dentro de mim finge que corre
No beijo que te dou estou adiado
E o meu amor por ti, meu amor, morre

Coitado do Zé Maria

Letra e música de Joaquim Pimentel
Repertório de Tony de Matos

O Zé Maria vivia 
Tranquilo na sua aldeia
Tinha o sol por companhia 
De sonhos, a alma cheia
Mas pensou vir p'ra cidade 
Quis cumprir outro destino
Uma alma de poeta 
Num coração de menino

Coitado do Zé Maria
Coitado do Zé Maria

Os conselhos dos mais velhos 
O Zé Maria não quis
Disse adeus á sua terra 
Pensando ser mais feliz
Depois na cidade grande 
Onde a maldade campeia
O Zé Maria chorou 
Saudades da sua aldeia

Ele há tanto Zé Maria 
Por essas aldeias fora
Que vive sonhando o dia 
De deixá-la e ir embora
Depois na terra distante 
Ao ver o mal que fizeram
Recordam a todo o instante 
Essa aldeia onde nasceram

Maré alta, sol profundo

Elsa Laboreiro / Amadeu Ramim *fado zeca*
Repertório de Raquel Tavares

Tu és a maré cheia no meu peito
E no meu sonho, a imensa tempestade
Tens a côr do luar quando me deito
E p'la manhã, és quente claridade

Teus lábios sabem sempre a liberdade
E há gaivotas bailando em teu olhar
Ao som da tua voz, nasce a saudade
Que embala a minha voz p'ra te cantar

P'ra te cantar os versos do meu fado
Que mais não é que amar-te cegamente
E assim vamos seguindo lado a lado
O fado, tu e eu, eternamente

Tu és a maré alta, o sol profundo
O grito amargo e doce, a paixão
És tudo o que mais quero neste mundo
Por ti morre de amor, meu coração

O alfabeto do pescador

José António Mestre - Portimão
Popular

A letra A quer dizer > Amor perfeito
A letra B quer dizer > Benvindo sejas
A letra C quer dizer > sê Caridosa
A letra D > Deus te faça bem ditosa

A letra E quer dizer > Ela diria
A letra F quer dizer > Felicidade
A letra G quer dizer > Guardar segredo
A letra H > Hoje mesmo tive medo

A letra I quer dizer > Idade pouca
A letra J quer dizer > Já fui feliz
A letra K quer dizer > Kaligrafia
A letra L > Lembra-te de mim, um dia

A letra M quer dizer > Minha menina
A letra N quer dizer > Não sou feliz
A letra O quer dizer > Olívia bela
A letra P > Para mim os olhos dela

A letra Q quer dizer > Querias-me bem
A letra R quer dizer > Ramo de flores
A letra S quer dizer > Saudade forte
A letra T > Tua, tua, até á morte

A letra U quer dizer > Uma esperança
A letra V quer dizer > Vês-me assim
A letra X quer dizer > Xorar de dôr
A letra Z > Zelai pelo nosso amor

A nossa virtude

Alfredo Guedes / Alfredo Duarte *fado cuf*
Repertório de Alfredo Guedes


Porque dizemos sempre, em voz dorida
Em voz bem alta, clara e bem concisa
Que pelo mal arriscamos a vida
Que pelo bem ficamos sem camisa

Porque é que andamos sempre a apregoar
Virtudes que só nós julgamos ter
Estamos sempre prontos a negar
Defeitos que nos possam ofender

Nós que afinal só estamos de passagem
Na vida, que morre constantemente
Será que um dia temos a coragem
De falar a nós mesmos francamente

Então sim, poderemos perdoar
Defeitos como nós e outros têm
Olhar p'ra eles, sem os odiar
P'ra que eles não nos odeiem também

O meu grito

Alfredo Guedes / Pedro Rodrigues
Repertório de Alfredo Guedes 


A boca sabe-me a sal
Tem o sabor do meu povo
Este povo aventureiro
Que aceita o bem e o mal
E anseia um mundo novo
Porque nasceu marinheiro

Sabe-me a mar, que é salgado
Sabe-me ao errar constante 
Do espírito da incerteza
Sabe-me ao sabor dum fado
Ou á revolta gritante 
Da garganta que está presa

Sabe-me ao gosto esquisito
Da boca que tem secura
Porque deseja chamar
Alguém, num enorme grito
Que lhe dê forma e ternura 
Ou forças p'ra protestar

A noite que te canto

José Fernandes Castro / Alfredo Duarte *eu lembro-me de ti*
Repertório de Lúcio Bamond


A noite que te canto, é o manto sagrado
Dos versos que te faço, em nome da paixão
Porque te amo tanto, exprimo neste fado
Os momentos que passo, em alucinação

A noite que tem consigo, a marca angustiante
Do meu amor sem lei, e sem o teu luar
Não suporto o castigo, e o fogo constante
Dum beijo que sonhei, e não cheguei a dar

A noite é o regaço, onde a alma se deita
Em busca de conforto, e de felicidade
A noite tem o espaço, e a dimensão perfeita
Do mais seguro porto, em tranquilidade

A noite traz loucura, ao sonho duma hora
Os dias são iguais, em cada solidão
A noite é a ternura, e o romper da aurora
Dos sonhos outonais, em nome da paixão

A Bia da Mouraria

António José / Nóbrega e Sousa
Repertório de Maria Armanda
Criação de Maria Armanda na revista *Meninos vamos ao Vira*
Teatro laura Alves 1978
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia no livro
Poetas Populares do Fado-Canção


Lá vai a Bia 
Que arranjou um par jeitoso 
É vendedor como ela 
Ali para o Bem Formoso 
São dois amores
Duas vidas tão singelas 
Enquanto ela vende flores
O Chico vende cautelas 

Na Mouraria 
Só falam do namorico 
A Bia namora o Chico 
As conversas são iguais 
Ai qualquer dia
Deus queira que isto não mude 
A Senhora da Saúde 
Vai ser pequena demais 

O casamento já tem a data marcada 
Embora qualquer dos noivos 
Tenha pouco mais que nada 
Vai ter a Bia, a festa que ela deseja 
Irá toda a Mouraria 
Ver o casório na igreja

Maria Armanda, na sua primeira apresentação em teatro, teve tanto êxito com 
este fado que teve de cantá-lo sete vezes, na estreia.
Não se imagina, hoje, por muito êxito que lograsse, um número ser repetido 
sete vezes na estreia de uma revista!
E não se diga que era por não haver outros meios de diversão na capital.
A televisão já tinha emissões regulares desde 1958, o Canal 2 existia 
desde 1968 e os anos 60 e 70 foram férteis em cinemas, teatros, serões 
para trabalhadores, estações de rádio, discos, floresciam os 
«conjuntos» musicais.
Ora esta revista estreou em 1978. Tanto maior o valor impactante desta 
«Bia da Mouraria» e o mérito os seus autores 
não se podendo dizer que António José fosse um dos mais notórios.
Certo é que, de 1978 para cá, este fado-canção não cessa de ser gravado 
e cantado desde as vozes mais jovens até às de maior prestígio.

Por momentos

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório de Raquel Tavares

Por momentos
Inquietou-se o meu olhar no teu
Perdida nos pensamentos onde me escondo
Por momentos
Descuidou-se o teu olhar no meu
E á mercê desses tormentos tu me vais pondo

Tu nasceste por mim e por mim esperas
No azul escuro da nossa fria solidão
Como em Roma um cristão lançado ás feras
Assim se sente no peito o meu coração

Como a gaivota que rompe a irmandade
Incapaz de voar firme com o seu bando
Assim eu ando p'las ruas da velha cidade
Sem que a cidade velha perceba onde eu ando

Então diz-me meu amor, quem mais se importa
Com este escuro azulado da solidão
És a mão que pode abrir toda a minha porta
Mas no momento esperado, retiras a mão

Rumo ao Sul

Jorge Fernando / Carlos Viana
Repertório de Jorge Fernando 

Estou na estrada de volta 
P'ra onde eu já não quero ir
No escritório esta tarde 
Foi tudo p'ra me deprimir

A buzina apressada d'um carro 
Que quer passar na portagem 
Um rosto indiferente 
Diz-me p'ra pagar

Rumo ao Sul, sem amor, devagar
O meu sonho faz-se ao mar
Sem amor, rumo ao sul
O meu céu perdeu o azul


Volto as costas 
Às luzes brilhantes da cidade-mãe
Sou a sombra impiedosa do apego 
A quem já não se tem

Sei que ao fim desta estrada 
Há uma casa que suponho ter
E a vontade indomável que teima 
Em me querer perder

Cumplicidade

Letra e música de Ivan Lins
Repertório de Carlos do Carmo

Olhos negros, olhos negros
Velando meus sonhos de homem
Quando eu adormeço cansado
Das lutas de hoje e de ontem

Olhos negros, olhos negros 
Mulher na mais bela idade
Que falam de amor no silêncio 
Da nossa cumplicidade

Olhos negros, olhos negros 
Que eu amo por entre os desmandos
Que fazem sofrer este povo 
E endurecem meu canto

Olhos negros, olhos negros 
Porque amo a todos, eu amo
Porque amo esta saudade 
Que me olha quando te chamo

Noite

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório de Raquel Tavares

Noite... 
Fosse eu um brilho teu
Que brilhando brilhasse
P'ra iluminar teu céu
Noite... 
Sou só um triste olhar
Que se perde nos olhos 
De quem me quer olhar

Leves vultos sorrateiros 
Nas esquinas, nos umbrais
Seguem-me uns olhos matreiros
Agudos como punhais

Troco um olhar pesaroso 
Cruzado entre os demais
Com olhos presos a um corpo 
Que se aquece entre jornais

Na viela ainda ecoa 
Um timbre rouco, magoado
Só á noite é que Lisboa 
Enrouquece a voz, num fado

Uma porta que se abre 
Outra fecha-se num estrondo
Uma ameaça velada 
Num olhar frio e medonho

As montras escurecidas 
Por trás das grades cerradas
As vidas prendem-se ás vidas 
Com grades insuspeitadas

Um pombo levanta e voa 
Com meus passos, assustado
Só à noite é que Lisboa 
Enrouquece a voz, num fado

Valsa

António Lobo Antunes / Miguel Ramos *fado margaridas*
Repertório de Kátia Guerreiro

Ficámos finalmente, meu amor
Na praia dos lençóis, amarrotada
O mal que venha sempre, é um mar menor
Sorriso de vazante na almofada

Se chamo som das ondas ao rumor
Dos passos dos vizinhos, pela escada
É porque á noite, acordo de terror
De me encontrar sem ti de madrugada

Qual a cor desta noite e de que medos
São feitas essas mãos que não me dás
Ó meu amor... a noite tem segredos
Que dizem coisas que não sou capaz

Vida

*No disco Memória e Fado* este tema é atribuído a CHARLES AZNAVOUR
*No disco Terra d'Água* o tema é atribuído a JORGE FERNANDO

Repertório de Jorge Fernando

Porque é longa a minha sede

Trago a alma insaciada
Uma voz sem tom nem tempo

Age oculta p'la calada

Sou a solidão do tempo

Quando o nevoeiro cerra
Sou a estranha flor ao vento

No esquecimento da terra

Num intenso gesto d'alma sou

Esta pena de me achar tão só
Tanto e tão pouco

Ai vida, ai vida

Porque é longa a minha sede

Busco a fonte desejada
Como a voz sem voz nem tempo

Que se oculta em mim calada

Sonho alucinante

José Fernandes Castro / Pedro Rodrigues
Repertório de António Jesus

Tempos marcados p'lo vento
Sonhos marcados p'la dor
Nas ruas do pensamento
Vagueia o meu desalento
Em busca do teu amor

Também vagueia o luar 
Que procura lua cheia
Neste céu por alcançar
Até vejo cintilar 
O teu olhar de sereia

Vejo nuvens sem idade 
Paradas no infinito
E o sol da felicidade
Mesmo sentindo saudade 
Está cada vez mais bonito

Ai minha paixão constante 
Ai minha loucura doce
O teu amor cintilante
É um sonho alucinante 
Quem dera, que assim não fosse

Por ti

José Luís Gordo / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Mariza

Fecho os meus olhos e canto
E canto só para ti
Dobrando a voz e o pranto
Que te canta como eu canto
É por ti e só por ti

Dou à guitarra e ao xaile 
Caminhos de Santiago
Cega-me o pó neste vale
Que o vento só por meu mal 
Acende fogos que apago

Há tanta melodia, tanta 
Que o vento traz nos sentidos
Sinfonias que me encantam
Parece às vezes que cantam 
Fados de amores proibidos

Eu trago a estrada da vida 
Guardada na minha mão
Que pensa perder-se na ida
Com medo de não ter partida 
Dentro do meu coração

Não foi nada

David Mourão Ferreira / João do Carmo Noronha *fado pechincha*
Repertório de Celeste Rodrigues

Talvez houvesse uma flor
Aberta, na tua mão
Podia ter sido amor
Mas foi apenas traição

Talvez houvesse a passagem 
Duma estrela no teu rosto
Era quase uma viagem 
Foi apenas um desgosto

É tão negro o labirinto 
Que vai dar à tua rua
Ai de mim que nem pressinto 
A cor dos olhos da lua

Tens agora a mão fechada 
No peito nenhum fulgor
Não foi nada, não foi nada 
Podia ter sido amor

Desalento

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório do autor

Por mais que eu tente 
Dar alento ao meu caminho
Por mais que eu teime 
Em este peito sossegar
Quando anoitece
Fico só e então sózinho
A solidão não pára 
De me atormentar

Fala de mim, das minhas dores
Do meu passado
Do que eu não posso apagar 
Dentro de mim
Porque as memórias 
São a história, são o fado
Por mais que eu queira
Não consigo dar-lhe fim

Pois sim
A vida não foi fácil para mim 

Eu sei que a vida me escolheu 
Ao dar-me vida
Que não prescinde 
Do que eu faço e do que eu sou
E que ao nascer 
Trouxe consigo a fé devida
P'ra me arriscar 
Neste caminho a que me dou

Mas a tristeza 
De me achar abandonado
Entre o que eu quero ser 
E aquilo que não sou
Encontra a paz 
Quando me escondo num fado
Onde a minh'alma 
Bem cedo se revelou

Escada sem corrimão

David Mourão Ferreira / Filipe Pinto *fado meia-noite*
Repertório de Camané  


É uma escada em caracol
Mas que não tem corrimão
Vai a caminho do sol
Mas nunca passa do chão

Os degraus, quanto mais altos 
Mais estragados estão
Nem sustos nem sobressaltos
Servem sequer de lição

Quem tem medo, não a sobe 
Quem tem sonhos também não
Há quem chegue a deitar fora 
O lastro do coração

Sobe-se numa corrida 
Correm-se p'rigos em vão
Adivinhaste; é a vida 
A escada sem corrimão

Velho fado

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório do autor

Quando a saudade me chama 
Eu fico triste
Quando o fado reclama a minha dor
Exponho a minha alma na voz 
Que não resiste
Em ficar triste, em ficar triste

Quando as palavras entoam 
Esta tristeza
Que o português traz do berço
Por herança
A minha alma antes livre
Fica presa
A esta tristeza, a esta tristeza

Fado... 
Porque teimas, velho fado
Nesse tom amargurado

Que entristece quem o sente
Fado... 
Quem te deu a nostalgia
E a recusa em querer o dia

P'ra cantar a tua gente
Fado... 
Não há voz que te não cante
A desdita do amante

Que p'la dor se fez fadista
Fado... 
Das noitadas, dos gemidos
Dos trinados destemidos

Entre as mãos dum guitarrista

Quando a guitarra me pede
Eu dou a voz
Quando a viola balança 
No meu compasso
Eu fecho os olhos e voo dentro de vós
Na minha voz, na minha voz

Quando a guitarra suspensa 
No meu cantar
Procura a frese devida num desafio
Há um segredo ancestral 
Que vem do mar
No meu cantar, no meu cantar

Tenho em mim a voz dum povo

Maria de Lourdes Carvalho / Carlos Gonçalves
Repertório de Gonçalo Salgueiro


Amar o amor é amar a vida
A vida mais do que vida será viver
Viver para cantar com voz dorida
A sombra que ensombra a minha vida
Que tudo quer, sem nada querer

Chamam meu nome desmedido
De lés a lés entendido
Que tenho em mim a voz dum povo
Voz com que canto e me encanto
Em cada canto do meu pranto
Uma estranha lágrima de fogo

Viva meu nome, minha voz, meu fado
P'la chama da minh'alma sempre eterno
Porque em mim a morte não caberá
No altar de Deus, lá no infinito
Comigo Camões, Pessoa e o mito
Nem canto secreto se acenderá

Barquito corcel

Letra e música de Jorge Fernando 
Repertório do autor 

Cada vez que se faz ao mar, o meu barquito 
Leva a esperança, as redes e os remos pró labor 
Cada vez que se faz ao mar todo expedito 
Acredito que o mar ao meu barquito tem amor

Cada vez que ele afastando as ondas faz distante 
Minha aldeia que dorme no sossego do luar
Mais eu sinto que há nele o jeito terno do amante
Que em segredo se encontra á luz da lua com o mar

Ai meu barquito corcel 
Pulando as ondas do mar 
Rabo de espuma e a pele curtida 
P'lo sol e o luar 

Cada vez que o vejo sobre a areia, vejo a mágoa 
Que aparece quando se tem longe o nosso amor 
Mas depois, logo a maré enche e um beijo de água 
É carícia que faz enaltecer-lhe a viva cor 

Cada vez que vê sobre o seu mar outra conquista 
Ergue a proa gritando em desafio essa traição 
E então, nos seus olhos de mar logo se avista
O ciúme romper-lhe em maré cheia o coração

Zé do bote

João Dias / Mário Moniz Pereira
Repertório de Carlos do Carmo 

Zé do bote, Zé do bote
Tu que conheces o rio
Na calma e no desvario

Como as tuas próprias mãos
Diz-me lá, ó Zé do bote

Quantas ondas tem a sorte
Quantas dores tem um pão

Quantos sustos tem a morte 

Ó Zé do bote 
No trabalho pedes meças
Desde migalho de gente 
Se o pão é duro e salgado
Não encalhes o teu bote 
No areal das promessas
Pois, Zé do bote
Quem o teu rio não sente
Não pode estar do teu lado;
Puxa as redes com cuidado
Zé do bote, Zé do bote 

Não aprendeste nos livros
A manejar as palavras
Dos que te vendem o peixe

E o sangue quente e vivo
Mas sabes do rio que lavras

Na quilha do teu arado
Teu corpo útil não deixes

Ser na lota arrematado

Fado Raquel

Letra e música de Diogo Clemente
Repertório de Raquel Tavares  

Quem me vê debruçada na janela
Não venha debruçar-se sobre mim
Mas passe tristemente junto dela
E tristemente passe junto a mim

Que juntas estão as mãos com que apertei
As rosas e os beijos pela tarde
Que deu lugar à noite a que me dei
E sem querer me arde, ainda arde

Quem passar devagar não se demore
Acaso o choro a alma me encontrar
No fundo, não é tanto o quanto chore
É mais a dor calada de chorar

Que a espera que me prende no vazio
Deserta-me da vida junto dela
E outra vida surge como um rio
Ao ver-me debruçada na janela

Avé-Maria fadista

Gabriel de Oliveira /Francisco Viana
Repertório de Amália 


Avé Maria sagrada
Cheia de graça divina
Oração tão pequenina
De uma beleza elevada

Nosso Senhor é convosco 
Bendita sois vós, Maria
Nasceu vosso filho, um dia 
Num palheiro humilde e tosco

Entre as mulheres bendita 
Bendito é o fruto, a luz
Do vosso ventre, Jesus 
Louvor e graça infinita

Santa Maria das dores 
Mãe de Deus, se for pecado
Tocar e cantar o fado 
Rogai por nós pecadores

Nenhum fadista tem sorte 
Rogai por nós Virgem Mãe
Agora, sempre e também 
Na hora da nossa morte
- - - 
Esta estrofe faz parte da versão publicada a 01.01.1935 na edição Nº 300 
do Jornal Guitarra de Portugal com o titulo "Avé-Maria do Fado 
Informação de Francisco Mendes e Daniel Gouveia
Livro *Poetas Populares do Fado-Tradicional*


Avé Maria sagrada
Cheia de graça divina
Que aprendi em pequenina
Sobre o leito ajoelhada

Noite apressada

David Mourão Ferreira / Alfredo Duarte *lembro-me de ti*
Repertório de Camané

Era uma noite apressada depois de um dia tão lento
Era uma rosa encarnada aberta nesse momento
Era uma boca fechada sob a mordaça de um lenço
Era afinal quase nada e tudo parecia imenso

Imensa a casa perdida no meio do vendaval
Imensa a linha da vida no seu desenho mortal
Imensa na despedida a certeza do final
Imensa a linha da vida no seu desenho mortal

Era uma haste inclinada sob o capricho do vento
Era minh'alma, dobrada, dentro do teu pensamento
Era uma igreja assaltada mas que cheirava a incenso
Era afinal quase nada, e tudo parecia imenso

Imensa, a luz proibida no centro da catedral
Imensa, a voz diluída além do bem e do mal
Imensa por toda a vida, na descrença total
Imensa a linha da vida na certeza do final

Sopra demais o vento

Fernando Pessoa / João Blak *fado menor do porto*
Repertório de Camané


Sopra demais o vento
Para eu poder descansar
Há no meu pensamento
Qualquer coisa que vai parar

Talvez esta coisa da alma 
Que acha real a vida
Talvez esta coisa calma 
Que me faz a alma vivida

Sopra um vento excessivo 
Tenho medo de pensar
O meu mistério eu avivo 
Se me perco a meditar

Vento que passa e esquece 
Poeira que se ergue e cai
Ai de mim se eu pudesse 
Saber o que em mim vai!

O fado chora-se bem

Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves
Repertório de Amália

Moram numa rua escura
A tristeza e a amargura
A angústia e a solidão
No mesmo quarto fechado
Também lá mora o meu fado
E mora o meu coração

Tantos passos temos dado
Nós as três de braço de dado 
Eu a tristeza e a amargura
À noite um fado chorado
Sai deste quarto fechado 
E enche esta rua tão escura

Somos vizinhos do tédio
Senhor que não tem remédio 
Na persistência que tem
Vem p'ró meu quarto fechado
Senta-se ali a meu lado 
Não deixa entrar mais ninguém

Nesta risonha morada
Não há lugar p'ra mais nada 
Não cabe lá mais ninguém
Só lá cabe mais um fado
Que neste quarto fechado 
O fado chora-se bem

Sem fé

Este tema também foi gravado com o título *Passou*
Frederico de Brito / Casimiro Ramos *fado três bairros*
Repertório de Maria da Fé

Passou, eu vi que passou
Tinha o mesmo andar gingão
Não me enganei era aquele;
Olhou, eu vi que ele olhou
Depois o meu coração
Foi como um louco atrás dele

Sorriu, eu vi que sorriu
Parou ao fim da calçada / Só p'ra me fazer ralar
Seguiu, eu vi que seguiu
Mas depois não vi mais nada / E desatei a chorar

Ninguém, eu sei que ninguém
Tem culpa destes meus ais / E que não o torno a ver
Não vem, eu sei que não vem
É qu'ele não volta mais / Mesmo que eu esteja a morrer

Não é, eu sei que não é
Não é só ele o culpado / Mas o destino era aquele
Sem fé, também já sem fé
O meu coração coitado / Foi como um louco atrás dele

Raíz portuguesa

Ana Madalena Silva / Alexandre Santos
Repertório de Gina Santos

O Fado nasceu um dia

Quando uma voz o cantou
Na velhinha Mouraria

E plangente lá ficou

Andou p'los bairros pobres 
Por salões nobres
Com todo o agrado
Foi boémio e snob 
Sofreu de amores 
P'ra ser mais fado

Quero viver a cantar 
O fado com altivez
Porque o fado é a raiz 
De todo o bom português
Sou portuguesa de raça
Sou fiel à tradição
Deixar de cantar não posso
A mais bonita canção

O Fado é só de Lisboa

Há muita gente a afirmar
Mas não conheço a pessoa

Que por essa Lisboa 
Apareceu a cantar

Cantou poemas de vida 
Através da sua voz
Fado é destino marcado 
É de qualquer lado
É de todos nós

Rapsódia

Neca Rafael / Rapsódia / Paquito / R. Gentil
Repertório de Neca Rafael

Era feio e tive tantas 
Que nem contá-las consigo
Tive tantas, sei lá quantas 
Quantas tive por castigo
Mas eu passei horas santas

Eu tive uma que julgava 
Que eu era qualquer veludo
Julgava que me enganava 
Mas eu sabia de tudo
Tanto assim que até cantava

A mim não me enganas tu
A mim não me enganas tu
A mim não me enganas tu
A panela ao lume, o arroz está cru

Tive outra que me adorava 
Mas era em tudo ruim
Essa pinchava e gritava 
Gritava agarrada a mim
E toda se esganiçava

Eu quero, eu quero, eu quero
Amanhã vou-me casar
Já passei a roupa a ferro
Já passei a roupa a ferro
Já passei o meu vestido
Amanhã vou-me casar 
E o Manel é meu marido

Todos me querem
Eu quero alguém
Quero o meu amor
Não quero mais ninguém
Todos me querem
Eu quero só um
Quero o meu amor
Não quero mais nenhum

E como outra não queria 
Não queria por meu azar
Sem saber o que fazia 
Sem saber o que pensar 
Eu pus-me a cantar um dia

Se te queres casar
Anda meu amor à fonte comigo
Que eu peço ao senhor p'ra casar contigo
E vais ver se é ou não como eu digo

Ai tantas tive e por fim 
Parece que por bruxedo
Esta se agarrou a mim 
Como uma lapa ao rochedo
E 'stá sempre a cantar assim

Daqui não saio, daqui ninguém me tira
Sou tua, sempre tua, até á morte

Zaffirade

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório do autor


Aliso a voz, a noite seduz
Pregado a ti, sou Cristo na cruz;
Mais que um rumor, ventos sazonais
Ao som das bocas que nos pedem mais
Suposta dor a chegar-me ao fim
Ouvir-te a voz a dizer-me assim

Dizem que o amor te tocou
Afunda no que eu sou
Só p'ra ver, só p'ra ver

Tira de ti todo esse véu
Afunda no que é meu
Só p'ra ver, só p'ra ver

Zaffirade

Procuro a dor quase ao fim de nós
Suado beijo a secar-me a voz
Fundo suspiro a ventar-me a face
Morrer-me em ti, se a ti te bastasse

Poetas

Florbela Espanca / Tiago Machado
Repertório de Mariza

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém
São almas de violetas
Que são poetas também

Andam perdidas na vida 
Como as estrelas no ar
Sentem o vento gemer 
Ouvem as rosas chorar

Só quem embala no peito 
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar 
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma p'ra sentir 
A dos poetas também

Voz do escuro

Jorge Fernando / Custódio Castelo
Repertório de Jorge Fernando

Eis que uma voz me encontrou e disse:
Vem que te espero, sózinha sou triste
Alegria em mim já não existe
Porque a solidão, à noite em mim persiste

Onde estás, bonita voz do escuro
Vinde, vinde, sois vós a quem procuro

Essa voz sois vós
Quando o sonho em mim sustenta
Essa voz sois vós
Triste sombra que o sol esquenta
Essa voz sois vós
Água pura em negra fonte
Essa voz sois vós
Lua rasa sobre o monte
Porque o tempo não pára 
E de mim se vai embora
Asa ferida que arde 
No meu peito, agora

Eis que um sinal minha noite abriu
Encheu de luz o meu quarto vazio
Roçou leve nos meus lábios e saiu
Sois a voz que em meu sonho surgiu

Foste só quem Deus te fez

Letra e música de Nuno Rodrigues
Repertório de Jorge Fernando

De que serve contar o tempo
Com ponteiros, sol, ou areia
Se não vais voltar, meu amor
Não sei se és das mais lindas 
A mais feia
Ou se eras entre as feias
Amais linda
Mas só tu foste meu amor

Foste só quem Deus te fez
E eras feita como ninguém
Se eu pudesse ver-te mais uma vez
A morte levar-me-ia também

Agora só te canto a saudade
De entre todas as saudades 
A mais triste
Aquela que se tem de alguém 
Que já não existe
Aquela que se tem de alguém 
Que não se tem

Memórias de um chapéu

Aldina Duarte / Armando Machado *fado cunha e silva*
Repertório de Camané

Quisera então saber toda a verdade
Dum chapéu na rua encontrado
Trazendo a esse dia uma saudade
D'algum segredo antigo e apagado

Sentado junto à porta desse encontro
Ficando sem saber a quem falar
Parado, sem saber qual era o ponto
Em que devia então eu começar


Parada na varanda, estava ela a meditar
Quem sabe se na chuva, no sol, no vento, ou mar
E eu ali parado perdi-me a delirar
Se aquela beleza era meu segredo a desvendar
Porém… apagou-se a incerteza
Eram traços de beleza 
Os seus olhos a brilhar
E vendo que outro olhar em frente havia
Só não via quem não queria 
 Da paixão ouvir falar

Um dia... 
Entre a memória e o esquecimento
Colhi aquele chapéu envelhecido
Soltei o pó antigo entregue ao vento
Lembrando aquele sorriso prometido

As abas tinham vincos mal traçados
Marcados pelas penas ressequidas
As curvas eram restos enfeitados
De um corte de paixões então vividas

No tempo das Cerejas

Maria de Lourdes Carvalho / Fontes Rocha
Repertório de Gonçalo Salgueiro

Que estranha forma usou Deus
Em dar aos sentidos meus
Um sabor inesperado
Cerejas, recordo bem
Dizias tu, minha mãe
Ser o meu tempo chegado

Parei á beira dum rio
Onde já não sinto frio 
Nem vontade de o cruzar
Foi o tempo em que a vida
Toda ela era sentida 
Sob a luz do teu olhar

Cantando, fui mais além
Eu fui eu, eu sou alguém 
Nos versos da minha vida
Trouxe fados nos sentidos
Lágrimas em sonhos perdidos 
Numa eterna despedida

P'ra mim foi sempre assim
Tudo começa no fim 
Onde quer que me vejas
Pensando partir, fiquei
Presa ao tempo em que me dei 
Recordando essas cerejas

Apenas desalento

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório de Jorge Fernando


Já fui tudo na vida 
P'ra não ser um derrotado
Fui servo, fui guitarra 
Á procura do seu fado
Esperei que o mestre tempo 
Desse luz ao meu destino
Só tive solidão desde menino

Áqueles que apregoam igualdade
Abri a mão
Sequei minha garganta 
De implorar ao coração
Alimentei minha alma 
De conselhos disfarçados
Sobrevivi dos versos inventados

A vida é luz, é cor
É som, é flor, é movimento
E eu numa palavra 
Sou apenas desalento
Se todos somos gente
A caminhar pró mesmo fim
Porque é que o sol não nasce 
Para mim

Sonata de outono

Ary dos Santos / Fernando Tordo
Repertório de Carlos do Carmo

Inverno não ainda, mas Outono
A sonata que bate no meu peito
Poeta distraído, cão sem dono
Até na própria cama em que me deito

Acordar é a forma de ter sono
O presente, o pretérito imperfeito
Mesmo eu de mim próprio me abandono
Se o rigor que me devo, não respeito

Morro de pé, mas morro devagar
A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser

Não me deixo ficar... não pode ser
Peço meças ao sol, ao céu, ao mar
Pois viver é também acontecer

A tarde já morreu nesta varanda

Diogo Clemente / Fernando Freitas *fado pena*
Repertório de Raquel Tavares

A tarde já morreu nesta varanda
As sombras que se alongam, vão morrer
Depois da tarde, surge a noite branda
Ao certo, tudo surge sem se ver

Tal como a madrugada me surgia
Surgiste como um beijo arrematado
Por alguém que chegou e que partiu
De mim p'ra mim, e em mim ficou parado

Alguém que certamente me adivinha
No ante dos dizeres que nunca digo
Que trás o mar nos braços á noitinha
E tem-me o corpo inteiro como abrigo

Por ver em cada noite uma viagem
Como água que a saudade me alivia
Eu quero estar contigo nesta margem
E fico na varanda até ser dia

Chegou a hora

Letra e música de Jorge Fernando
Repertório do autor

Chegou a hora de dizer
Chegou a hora de afirmar
Que o fado é canto 
Genuíno português
E não há nada que enganar
Chegou a hora de dizer
Chegou a hora de afirmar
Que o seu encanto
É quem o canta uma só vez
Não mais o deixa de cantar

Porque é que tantos teimam em dizer 
Dum modo descuidado
Que o fado não nasceu em Portugal
Que não é nosso, o fado
E buscam sua origem na distância
Trazido p'las marés
Mas eu sei... que o fado... 
Só é cantado em português

Por mais que eu tente o jeito de entender
Confesso que não posso
Porque é que a gente tarda em afirmar
Que o fado é só nosso
Talvez por isso o fado seja triste
Fatalista talvez
Mas eu sei... que o fado... 
Só é cantado em português