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Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa, todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre
PAULO FREIRE *filósofo* 19.09.1921 / 02.05.1997
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Miriam

Manuela de Freitas / Ricardo J. Dias
Repertório de Cristina Branco

Quem te visse aprumadinha
Camisa, calça de ganga
Colarzinho de missanga

E quase sempre sozinha

Mas chegando a madrugada / Montavas a bicicleta
De t-shirt e calça preta / E grande capa doirada
Uma argola na orelha / E uma mochila vermelha

Quem havia de dizer / O que andavas a fazer

Ai Miriam, quem te visse
A passear no Chiado / Com um ar muito aprumado
De repente tão reguila / E o que era mais estranho
É que essa tua mochila / Parecia sem tamanho

lá cabia o que tiravas / De toda a parte onde andavas
Sem que ninguém te apanhasse / E sem que ninguém te visse
Qual Robin que se inspirasse / Nas aventuras de Alice

Quem havia de dizer / O que tu ias trazer

Ai Miriam, quem te visse
De dia, uma boa menina / E à noite super-heroína

As coisas que tu trazias;
Um grande queijo da serra / Um dicionário, um colchão
Um bom pedaço de terra / Um comboio, um avião

Estacionamento sem multa / Um posto de gasolina
Um bilhete pró Teatro / Umas férias
em Berlim
Uma
casa e um jardim / Um alvará e um contrato

Um bife, uma sopa quente / Uma visita a Foz Coa
Uns patins, uma meloa / O Expresso do Oriente

E até ao raiar da aurora / Como se fosse um festim
Que nunca mais tinha fim / Como se todos os dias
Tudo fosse sempre assim

E muito mais, muito mais / As coisas essenciais
P'ra se poder escolher / A vida que se quer ter

E de toda a parte vêm / Os que nunca nada têm
Fazer um grande festim / Com tudo o que tu trazias
Como se todos os dias / Tudo fosse sempre assim

Quem é que pode saber / O que vai acontecer

Ai Miriam, quem te visse
Se muitos fossem capazes / De fazer o que tu fazes