As *4.140* letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores !!!
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Se o motor de pesquisa não responder satisfatóriamente, aceite as minhas desculpas !!!
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Resposta fácil

Domingos Gonçalves da Costa / Popular *fado corrido*
Repertório de Joana Amendoeira


Perguntas-me o que significa
Saudade, vou-te dizer
Saudade é tudo o que fica
Depois de tudo morrer

Tu que jamais conheceste / A dor que as almas tortura
Que só conheces ventura / E por amor não sofreste;
Tu, que uma saudade agreste / Nunca te fez padecer
Nem cravou no teu viver / Um espinho que mortifica
Perguntas-me o que significa
Saudade, vou-te dizer

Saudade é um bem ruím / Que tortura o coração
É o princípio do fim / De um sonho sonhado em vão;
Saudade é doce ilusão / De um amor que não nos quer
Que a gente teima em esquecer / E a própria dor glorifica

Saudade é tudo o que fica
Depois de tudo morrer

Um fado só para ti

Maria de Lourdes Carvalho / Martinho d'Assunção
Repertório Pedro Lisboa

Fiz-te um poema tristonho
Onde o teu amor risonho
Era promessa e desejo
Moldei teu corpo dormindo
E nos teus lábios, sorrindo
A paz serena dum beijo

Podes ler neste poema
Todo o meu amor por tema / Minha alma em cada verso
Faz dele um hino de vida
Na grandeza desmedida / Do descrente universo

És o mote dum poema
Misto de amor e ternura / De alegria e de verdade
És o retrato feliz
Daquilo que em ti mais quis / E em mim deixou saudade

Adolescência ferida

António Rocha / Raúl Ferrão *fado carriche*
Repertório de António Rocha

Poema da minha vida
Sem velhice nem infância
Adolescência ferida
No mar da minha inconstãncia

Poema da minha vida / Fogo que perdeu a chama
Caminhada resumida / A sulcos feitos na lama

Sem velhice nem infância / Vão as verdades morrer
No limite da distância / Que há entre mim e o meu ser

Adolescência perdida / Em busca de mundo novo
E da paixão construída / Com gritos vindos do povo

No mar da minha inconstância / Naufraga a causa perdida
A que tu dás importância / Poema da minha vida

Levas nas mãos amarradas
Vontades amordaçadas

Desdobro a madrugada

Rui Manuel / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de Ricardo Ribeiro


Desdobro a madrugada nos meus olhos
As mãos da minha voz despem guitarras
E o fado é flor sem tempo que desfolho
Silêncio que de mim se desamarra

Passeio devagar entre as palavaras
Respiro-lhes a dor, a solidão
E sinto que um sorriso lhes bastava
P’ra darem ao silêncio um coração

Pendentes do cansaço como frutos
Há sonhos perfumados, transparentes
Enquanto trocam horam por minutos
O fado é que lhes serve de semente

É fado esta saudade onde recolho
A vida que de mim se desamarra
Desdobro a madrugada nos meus olhos
As mãos da minha voz despem guitarras

Aqui na verde varanda

José Luís Gordo / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Ricardo Ribeiro


Aqui na verde varanda
Do meu peito á tua espera
Não amarei quem me manda
Outra nova primavera

Dos verdes ramos dos campos / Ganhei esperanças de tempo
E sequei todos os prantos / E parei todos os ventos

Quantas vezes te esperava / Debulhado em lençóis de água
Só por ti amor cantava / Chorando estrelas de mágoa

E assim de verde me visto / E assim de verde te amo
Assim de verde resisto / Assim de verde te chamo

Palavras minhas *Joana*

Pedro Tamém / Filipe Raposo
Repertório de Joana Amendoeira

Palavras que disseste e já não dizes
Palavras como um sol que me queimava
Olhar louco de um vento que soprava
Em olhos que eram meus e mais felizes

Palavras que dizias sem sentido
Sem as quereres, só porque eram elas
Que traziam a calma das estrelas
Á noite que assomava ao meu ouvido

Palavras que disseste e que diziam
Segredos que eram lentas madrugadas
Promessas imperfeitas, murmuradas
Enquanto os nossos beijam permitiam

Palavras que não dizes, nem são tuas
Que morreram, que em ti já não existem
Que são minhas, só minhas, pois persistem
Na memória que arrasto pelas ruas

Água louca da ribeira

Armando Varejão / José António da Silva *fado bacalhau*
Repertório de Ricardo Ribeiro


Água louca da ribeira
Que corres em cavalgada
Porque não vais devagar?
Essa corrida é cegueira
Não vês nem olhas p’ra nada
Na pressa de ver o mar


Já corri dessa maneira
Nas asas duma ilusão / Na loucura de chegar
Fui deixando p’la ladeira
Pedaços do coração / Beijos loucos sem amar


Vida que foste vivida
A correr tão velozmente / Paraste à beira do mar
Agora vives perdida
São saudades o que sentes / Por não poderes regressar

Amor sem tréguas

António Gedeão / Mário Pacheco
Repertório de Rodrigo da Costa Félix


É necessário amar qualquer coisa ou alguém
O que interessa é gostar, não importa de quem
Não importa de quem, não importa de quê
O que interessa é amar mesmo o que não se vê

Pode ser uma mulher, uma pedra, uma flor
Uma coisa qualquer, seja lá o que for
Pode até nem ser nada que em ser se concretize
Coisa apenas pensada que a sonhar se precise

Amar por claridade sem dever a cumprir
Uma oportunidade para olhar e sorrir
Amar como um homem forte, só ele o sabe e pode-o
Amar até à morte, amar até ao ódio

Que o ódio, infelizmente
Quando o clima é de horror
É forma inteligente
De se morrer de amor

Só espero que as folhas caiam

Letra e música de Diogo Clemente
Repertório de Gonçalo Salgueiro

Só espero que as folhas caiam neste Outono
P’ra dar cor às palavras que não digo
P’las ruas que passei e as bocas que guardei comigo
Só espero que as folhas caiam neste Outono

Que os tons sejam d’amor, quentes de calma
Com aromas de ternura e de desejos
Que o mel dos lábios teus desenhe sobre os meus mil beijos
Que os tons sejam de amor quentes desejos

Porque esta noite trago do mar
Memórias de um navio
Que é noite e o meu olhar treme de frio
No céu d’amor a que me dou
Há uma gaivota que me diz
Que ter-te em mim, amor, é ser feliz

Só espero que o meu bastante não te chegue
Nem cheguem as canções pra te cantar
Por cada melodia, acorde um novo dia no olhar
E acorde o teu sorriso ao acordar

Se não souberes ainda o que te quero
Por entre alguns segredos e quimeras
Serei numa ansiedade um misto de saudades e esperas
Que o inverno sempre traz as primaveras

Banco de jardim

António Vilar da Costa / Arlindo Carvalho
Repertório de Emílio dos Santos

De bibes e laços brincamos os dois
Ao saír da escola, tu esperavas por mim
E o primeiro beijo, trocamos depois
No banco velhinho daquele jardim

Tuas loiras tranças, meus negros cabelos
Já se vão tornando pálido marfim
Num sorriso triste, lembro sempre ao vê-lo
O banco velhinho daquele jardim

Meu saudoso banco doutras mocidades
Alquebrado e velho como os meus avós
Companheiro franco das minhas saudades
És fiel espelho do que fomos nós

Já o tempo ingrato lhe mudou a cor
Só não muda o rumo da paixão em mim
Ainda nos sentamos a falar de amor
No banco velhinho daquele jardim

Mais tarde, chorando nossas mocidades
Quando a nossa história fôr chegando ao fim
Vamos concerteza desfolhar saudades
No banco velhinho daquele jardim

Glosa da saudade

Mote: Fernando Machado Soares / Glosa: Saudade dos Santos
Jaime Santos *corrido do mestre zé*
Repertório de Ricardo Ribeiro

Mandei a saudade embora
Atirei-a p’la janela
Mas fui buscá-la lá fora
Já tinha saudades dela

Essa atrevida dizia / Relegada do meu peito
Que era minha por direito / E dali não saíria
Eu que bem a conhecia / Por andar sempre com ela
Já não me revia nela / E então sem mais demora
Mandei a saudade embora
Atirei-a p’la janela

Com o ego aliviado / Desse peso, desse fogo
Decidi entrar no jogo / Doutro ego consolado
E não ouvi de bom garado / A voz da saudade, aquela
Que nos chama e interpela / Como alguém que nos namora

Mas fui buscá-la lá fora
Já tinha saudades dela

Estranha forma de ser

Gonçalo Salgueiro / José António Sabrosa
Repertório de Gonçalo Salgueiro

Eu pertenço ao forte vento
A um triste pensamento
De um Deus que me criou
De uma centelha perdida
Apagada p’la vida
Neste ser me transformou

Voltei aqui p’ra sofrer
Em estranha forma de ser / Sem saber bem o que sou
Serei misto de loucura
A razão que te procura / Quando estás onde não estou

Minh’alma te entreguei
Meu corpo te abandonei / Apenas me resta a voz
Tenho a forma da saudade
Sou memória da verdade / Sombra apagada de nós

No meu fado rogo ao vento
Que a ti leve este lamento / P’la solidão esmagado
Vou dar forma a outro ser
Quero à terra pertencer / P’ra viver sempre a teu lado

De noite sou feliz

Carlos Plácido / Renato Varela *fado varela*
Repertório de Zé Manuel Castro

De noite é quando eu ouço a solidão
A dizer-me baixinho o rumo certo
De noite é que o silêncio é meu irmão
E me transformo em ave e sou liberto

De noite é quando penso que fui eu
Quem fez a tempestade e a bonança
Transformo-me num deus e subo ao céu
E faço sorrir alguém que não tem esperança

De noite é que meus passos encontram passos
A vaguear na noite que não quis
De noite dão-me beijos e abraços
De noite é que eu sonho e sou feliz

Menina da saia verde

Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves
Repertório de Gonçalo Salgueiro

Menina da saia verde
Menina do verde olhar
Quem por amores te perde
Muito terá que chorar

Menina da saia verde / E do avental de folhos
Quem por amores se perde / Não sabe onde põe os olhos

Menina da saia verde / Que bem que lhe fica a saia
Quem por amores se perde / Deixa-me a mim de atalaia

Menina da saia verde / Eu já lha vejo encarnada
Quem por amores se perde / Troca as cores não vê nada

Somos do mar e do vinho

Letra e musica de Fernando Girão
Repertório de Ricardo Ribeiro

A nossa vida é tão chata e ficamos a pensar
Se merece mesmo a pena nós andarmos a penar

Eu escuto as palavras mas não vejo as acções
Temos muitas teorias mas não temos soluções

Depois bebemos um copo de aguardente
E a vida parece melhor
Somos da terra e do vinho, temos falta de carinho
E o futuro ainda pior

Mas se surgem os problemas enfrentamos de uma forma audaz
Nós já perdemos o medo, seja o que for tanto faz

Ah... a nossa vida
É um labirinto de paixões

Quem não fala com verdade, quem em si não acredita
Quem não joga o jogo certo só semeia a confusão

E nunca mais de mim

Mário Raínho / Alfredo Duarte *alexandrino*
Repertório de Ricardo Ribeiro

E nunca mais de mim, infinita metade
Hás-de sentir saudade, do tempo de nós dois
E nunca mais de mim, terás mais do que agora
Mandei amores embora, e em ti fiquei depois

E nunca mais de mim, noites de lua meia
Se trago a lua cheia, á noite que tu és
E nunca mais de mim, o ciúme de ver
Ondas de mar por querer, beijarem os teu pés

Oh estrela do meu peito, oh fonte de água boa
Cantar que me abençoa, oh torre de marfim
Se em ti tudo é perfeito, pelo amor que me dás
Que eu saiba onde estás, e nunca mais de mim

Fim da saudade

João Fezas Vital / Alfredo Duarte *fado cravo*
Repertório de Joana Amendoeira

Parecendo o vento mais frio
Na margem esquerda do rio
Onde a saudade é só minha
Quem me dera, quem me dera
Que chegasse a primavera
Mas que viesse sózinha

Queimando as horas do dia
Desperdiçando a alegria
Inventei outra afeição
Uma história por contar
Que adormece o meu olhar
Numa ãnsia de perdão

Se a primavera viesse
E em segredo me dissesse
Que te perdes na cidade
Voltaria por canoa
Cantar ao céu de Lisboa
O fim da minha saudade

Como chuva em agosto

Letra e música de Tó Zé Brito
Repertório de Gonçalo Salgueiro

Como chuva em Agosto
Nunca nada é para sempre
Tudo muda tudo passa
Nunca nada é permanente

Como chuva em Agosto / A vida nunca é igual
Tudo nela é passageiro / Nada é intemporal

Por isso te vou esquecer / Vou pensar em mim primeiro
Vou ser frio como o gelo / Como a chuva de Janeiro

Como chuva em Agosto / Não há dois dias iguais
Alguns marcam-nos o rosto / Outros são dias banais

Como chuva em Agosto / Nada na vida é eterno
Por vezes vamos ao céu / Outras vezes ao inferno

Naquele tempo

Letra e música de Diogo Clemente
Repertório de Gonçalo Salgeiro

Naquele tempo, amor, a esta hora
Saía para a rua devagar
Deixando-te ao silêncio, como agora
Era uma quase noite, uma noite quase aurora
E a rua amanhecia ao meu olhar
Naquele tempo, amor, a esta hora

Cansado, o meu corpo tão cansado
Deixava o teu na cama de nós dois
E a força de um adeus antecipado
Guardava uma outra noite p’ra depois
Guardava este silêncio de nós dois

E mesmo com o correr dos quatro ventos
A querer de nós o fim, de nós o adeus
Como punhais de mel e olhares atentos
Jurei ao grande mar, grande mar dos meus lamentos
Cravar-te ao corpo os beijos que são meus
No tempo de correr dos quatro ventos

Hoje passo p’las ruas como vês,
À espera de outro dia, como agora
Chegou um outro amor que o amor desfez
E deixa esta saudade noite fora
Daquele tempo, amor, a esta hora
Daquele tempo, amor, a esta hora

Bons tempos

José Galhardo / Arnaldo Martins de Brito
Repertório de Carlos Ramos

Tempos antigos, tempos passados
Tempos de artistas, tempos mornos que eu vivi
Velhos amigos, velhos pecados
Velhas fadistas que eu não vejo agora aqui

Já lá vão todas, já lá vão todos
Já lá não falta senão um que espera a vez
Foram-se as modas, foram-se os modos
Foi toda a malta do meu tempo com vocês

Chorai, chorai
Por mim, por mim
Rapaz do tempo que lá vai, eu vi no fim
Passou, passou
Morreu, morreu
E deste mundo que acabou, fiquei só eu

Vi as esperas, vi as toiradas
Pegas e tudo no bom estilo português
Vi as galeras, vi as cegadas
O velho entrudo com bisnagas e chéchés

Vi a avenida com luminárias
Toda empredada a preto e branco sem métro
Coisas da vida, extraordinárias 
O agora é nada ao pé de tudo o que findou

Sonho fadista *Ricardo Ribeiro*

Pedro Fortes Figueira / Popular *fado corrido*
Repertório de Ricardo Ribeiro


Sonhei que o fado corrido
Fugiu num barco doirado
E no mar anda perdido
Com saudades do passado


Neste mundo transcendente / Uma eterna fantasia
Na tristeza ou na alegria / Vai sonhando toda a gente
Assim eu sentidamente / Com tristeza e desagrado
Tive um sonho apaixonado / Muito embora dolorido

Sonhei que o fado corrido
Fugiu num barco doirado


E sonhando constrangido / Como sincero fadista
A minh’alma saudosista / P’la tristeza foi vencida
Só porque sonhei sentido / Por ver um sonho magoado
Que o corrido, o triste fado / Ausentou-se condoído

E no mar anda perdido
Com saudades do passado

Quis Deus que fosses Maria

Gonçalo Salgueiro / Joaquim Campos *fado tango*
Repertório de Gonçalo Salgueiro

Quis Deus que fosses Maria
Minha mãe, minha ternura
A que a vida por mim daria
Livra-me desta amargura
De nunca ter alegria

É todo teu o meu fado
É por ti que ainda canto
Apenas por ti amado
Só tu ouves meu pranto
Só por ti sou desejado

E mesmo não tendo mais nada
Que esse teu amor profundo
Ó minha mãe adorada
Mesmo deixando este mundo
Sempre serás minh’amada

Tantos caminhos

Tiago Torres da Silva / José António Sabrosa
Repertório de Ricardo Ribeiro

Existem tantos caminhos
Onde os homens vão sózinhos
Em busca de uma ilusão
Passo a passo, quem avança
Só vai andando na esperança
De enganar a solidão

Dá-se um passo e outro passo
Mas quando chega o cansaço / E a gente pensa em parar
Por castigo ou por má sina
Há uma força divina / Que nos obriga a andar

Existem tantas estradas
Onde se notam pégadas / Que o vento não apagou
São pégadas que se arrastam
Mas que no tempo se gastam / E ninguém por lá passou

Por isso sigo, seguindo
Há medida que vou indo / Sei que nesta caminhada
Não se chega a um lugar
Só nos resta caminhar / Porque só existe a estrada

A alma celta do fado

Pedro Assis Coimbra / Pedro Amendoeira
Repertório de Joana Amendoeira

Diz que seria da nossa cidade
Sem as festas, sem a tua ternura
Como poderia viver, viver sem ti
A vida toda à tua procura


Sim, sorri assim, sorri p’ra mim
Pássaro azul saído do mar
Toutinegra do meu país a sul
Nesse voo que prende o meu olhar


Quando naquele dia sonhei
Que chegavam barcos doces e beijos
Na abundância da água, provei
O melhor medronho dos teus lábios

Sorri assim, olha assim para mim
Em viagem prolongada sobre o mar
Andorinha da nossa primavera
Lua nova que apetece cantar

Entreabre as portas do destino
A alma celta do fado antigo
No litoral, no cais do violino
Vertigem da noite passada contigo

Tive uma vida, deixei-a

Gonçalo Salgueiro / Popular *fado corrido*
Repertório de Gonçalo Salgueiro


Sou filho da lua cheia
Do sol um filho bastardo
Tive uma vida, deixei-a
Por nunca ter sido amado

Sou como o mar selvagem / Que tudo mata e destrói
Por não encontrar coragem / De aceitar o que me dói

Sou do fogo a chama / Sou o vento, o tudo, o nada
Sou o abismo que brama / Tua ausência prolongada

Sou alma que flameja / Sedenta da vingança
A boca que ninguém beija / A voz que não te alcança

Sou o fumo da candeia / Que se extingue neste fado
Tive uma vida, deixei-a / Por nunca ter sido amado

Todas as horas são breves

Helder Moutinho / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Joana Amendoeira

Todas as horas são breves
Todos os dias são horas
Todo o amor que me deves
Aumenta quando demoras

Vejo as sombras do desejo / Que tenho por te encontrar
Em cada noite há um beijo / Que nunca te posso dar

Na brisa da tarde calma / Onde nasce a primavera
Nasce a dor na minha alma / P’ra viver á tua espera

Sou do monte, sou da serra / E os teus olhos são do mar
É tão longe a minha terra / Que não te posso alcançar

Quando chegares a sorrir / Não me tragas compaixão
Depois, terás de partir / Partir o meu coração

Sou moinho abandonado

Gonçalo Salgueiro / Georgino de Sousa
Repertório de Gonçalo Salgueiro

Sou moinho abandonado
Em terreno enlameado
Em paisagem tão sozinha
Meu amor foi embora
Cansou do tempo de outrora
A solidão é toda minha

As velas rasgam saudades
Trazendo cruas verdades / Que o vento canta ao passar
No coração do moinho
Ainda chora baixinho / A semente deste amar

No amargo deste pão
Ao calor da minha mão / Peço ao vento p’ra trazer
Esse amor tão desejado
P’lo mundo condenado / A semente por nascer

Pede à saudade

António Rocha / Manuel Mendes
Repertório de Gonçalo Salgueiro


Pedi tão pouco... tudo te dei... és o meu fado
Sei que fui louco... porque te amei... sem ser amado

Quando a verdade se atravessar no teu caminho
Pede à saudade p’ra te lembrar o meu carinho

Pede à saudade
Eu sei que vais ter saudade
Quando um dia a solidão te recordar o passado
E se em verdade

Precisares dum ombro amigo
Sabes que estarei contigo, basta pedires à saudade

Podes sorrir... fazer alarde... pouco me importa
Sei que hás-de vir... mais cedo ou mais tarde... bater-me à porta

Se é que preferes, que seja assim
Ri à vontade, mas se quiseres saber de mim, pede à saudade

Há mais fado que garganta

Letra e musica de Amélia Muge
Repertório de Joana Amendoeira

Há mais fado que garganta
Como há mais mar que marés
E mais amor que amar
Muitos mais passos que pés

Como há mais luz que velas
Mais energia que força
Mais fogo do que fogueira
E mais lume que lareira

É o fado um bailado a contra-luz
Inventado na figura de uma sombra
Que de espanto e de penumbra a nossa alma sutenta
Estranha luz que alimenta um sopro que nos deslumbra
Nos desfaz e nos encanta, nos revela que há mais fado
Há mais fado que garganta

Há mais fado que garganta
É do fado esse condão
E nós sabemos que sim
Sem perguntar a razão

É uma coisa que acontece
Nos envolve e nos espanta
Há fado p’ra lá do som
Do silêncio, da guitarra

Túnel de saudade

Gonçalo Salgueiro / Jaime Santos *fado sevilha*
Repertório de Gonçalo Salgueiro

No meu túnel de saudade
Que me dói ao percorrer
Vou parar ao coração
Que não encontra a razão
De tal viagem fazer

Continua tentação / De correr via tão escura
Sem saber o que esperar
Num coração a teimar / A razão desta procura

Perdido na escuridão / Num constante vai e vem
Este amor já não tem cura
É uma forma de loucura / Não ter o amor de ninguém

Volto atrás no caminho / Quero ir de novo à luz
Pois sei que não vou encontrar
A razão de arrastar / A saudade numa cruz

O teu olhar é Portugal

Letra e musica de Fernando Girão
Repertório de Joana Amendoeira

Alfama banhada pelo sol
A tua luz é divina
Á tua volta envelhece Lisboa
Mas tu, sempre menina

Por ti passam os homens / Mas tu, sempre senhora
Transformas o agora / Num passado futuro
E os teus pátios interiores
Que histórias, que amores / Nos poderiam contar

Como a Ribeira do Porto
Tem concerteza o direito / A ser parte da nossa história
Já foram tantos desgostos / Já foram tantas as cheias
Que dizem que uma sereia / Que guardava um tesouro
Fugiu das águas do Douro
Tornando-se padroeira / Da gente daquele lugar

Oiro é a cor das águas do Tejo
Como os barcos que navegam no Douro
Os teus olhos são de azeite mouro
E o teu olhar é Portugal

Cálice de perdão

Gonçalo Salgueiro / Acácio Gomes *fado acácio*
Repertório de Gonçalo Salgueiro


Minha dor é um convento
Cheio de sombras por dentro
Onde o sol não quer entrar
Sombras são feitas de ti
Silhuetas que esculpi
Sem a luz do teu olhar

As paredes frias, nuas
Escondem saudades tuas / Que o luar me vem mostrar
No templo és oração
Meu cálice de perdão / Por viver só p’ra te amar

Passam noites passam dias
Sinos dobram agonias / Que o vento geme por mim
Neste convento onde moro
Rezo, canto, grito e choro / Ninguém sabe que é por ti!

Ambiente do fado

Adelino dos Santos / Frederico de Brito
Repertório de Manuel Fernandes

Há quem fale do passado / P’ra dizer bem do presente

E jure que o pobre fado / É o pecado de muita gente

Melopeia que’inda existe / E a mesma graça contem
Mesmo assim alegra ou triste / Nunca fez mal a ninguém

Quem nunca andou na Mourama
E não viu Alfama das cigarreiras
Quem não entrou nas touradas
E nas patuscadas zaragateiras
Quem do povo andou ausente
E nunca o compreendeu
Desconhece o ambiente
Em que este fado viveu

Dizem que o fado existia / Só onde havia tristeza
Mas cantou-se á luz do dia / Numa alegria bem portuguesa

Pode estar acostumado / A chorar o nosso mal
Mas que culpa tem o fado / Do azar de cada qual

Fado da Rosa Maria

Tiago Torres da Silva / Paulo Paz
Repertório de Joana Amendoeira


Numa noite em que fez frio
Fui cantar ao desafio
Na Rua do Capelão
Para poder, antes do sol chamar o dia
Mostrar á Rosa Maria
Quem é que tem coração

Ela chegou com o xaile atado na cintura
Tudo parou para escutar o seu lamento
E foi então, que por vergonha ou por loucura
Senti não estar á altura desse momento;
Ela cantou como se faz na Mouraria
E eu guardei a minha voz dentro de mim
Porque eu não sou e nem vou ser Rosa Maria
E não sei se saberia cantar assim

Numa noite em que fez frio
Fui cantar ao desafio
Mas não cheguei a cantar
Porque á guitarra, não sei ser o que não sou
E da forma que cantou
A Rosa fez-me chorar

Mas vi depois que ela já estava de saída
Sem aceitar os parabéns de algum purista
E eu percebi que a Rosa ficara sentida
Porque ao dar-me por vencida, fui mais fadista;
Pela manhã percorri toda a Mouraria
Para lhe pedir que me perdoe eu ter falhado
Mas na verdade a minha voz emudecia
Sempre que a Rosa Maria cantava o fado

Numa noite em que fez frio
Fui cantar ao desafio
E voltei de lá sem nada
Um de vocês vá dizer á Rosa Maria
Que eu não volto á Mouraria
Para cantar á desgarrada

Amor duma só hora

Gonçalo Salgueiro / Alfredo Marceneiro *fado versículo*
Repertório de Gonçalo Salgueiro

Descalço, corro as ruas noites fora
Caminhando, caminhando sem parar
Onde estás ó meu amor d’uma só hora
Onde estás meu amor, para te abraçar

Esta dor que corre em mim cada segundo
Só pede à terra, ao céu o teu abraço
Nada sou, nada mais tenho neste mundo
Meu amor, sem teu amor, sem teu regaço

Grito ao vento pelo teu nome em solidão
Chora a noite nosso amor eternamente
Brotam lágrimas das pedras plo chão
Onde estás meu grande amor, amor ausente

Não te alcanço, não me encontro, desespero
Vou voltar à liberdade indesejada
Preso ao mundo onde apenas por ti espero
Sem amor, sem teu nome, sem ter nada

Fado novembro

Duarte / Popular *fado menor*
Repertório de Duarte


Trago em todos os meus fados
Um não sei que de saudade
Corações danificados
E dias sem ter vontade

Trago em todos os meus fados / Aquela melancolia
De quem anda sem cuidados / De fazer das noites, dia

Faço coisas que não digo / Digo coisas que não faço
Às vezes fado é castigo / Outras vezes é cansaço

Por cada fado que canto / Pago uma noite perdida
Mas se eu perdesse este canto / Perdia também a vida

Flor da beira rio

Verónica / António José
Repertório de Vasco Rafael


Maria era flor feita mulher
Maria era flor da beira rio
Não era uma flor para qualquer
E de quem ela foi, não, ninguém viu

Tanto era uma flor feita ternura
Como era uma flor de tempestade
De mãos bem apaoiadas na cintura
Mais flor e corpo e alma da cidade

Nome de barco e canoa / Gaivota de Portugal
Tudo a gente te perdoa / Pois nada te fica mal
Flor desta velha Lisboa / De chinelas e avental

Quando ela punha a canastra á cabeça
Maria tinha a Ribeira com ela
Contudo, por mais estranho que pareça
Agora já ninguém mais sabe dela

Quem saberá dizer porque partiu
E hoje quem passar, seja quem for
Repara com pesar, que a beira rio
Ficou mais triste sem a flor

Quem diz

Carlos Conde / Pedro Rodrigues
Repertório de Ilda Silva

Quem diz que o fado se aprende

Não conhece não entende
Suas doces melopeias
O fado para ser fado
Deve correr misturado
No sangue das nossas veias

Quem diz que o génio fadista / Só com palmas se conquista
Deve sofrer de ilusão
Fadista não é quem canta / É quem filtra na garganta
O que sente o coração

Quem diz que o fado não é / Uma cadência de fé
De uma toada imortal
Não conhece concerteza / A canção mais portuguesa
Das canções de Portugal

No fado, p’ra se vencer / Não basta apenas manter
O amparo de gente amiga
O que é preciso é ter garra / Abraçar uma guitarra
E cantar uma cantiga

Eu gosto daquela feia

Albino Paiva / Júlio Proença *fado puxavante
Repertório de José Coelho

É feia mas gosto dela
Tenho-lhe tanta amizade
Como se fosse a mais bela
Das jovens da sua idade

É feia sim, vejo bem / O meu olhar não se ilude
Tem raras prendas porém / Honra nobreza e virtude

Mesmo feia é a meu gosto / Gosto dela e com razão
Não tem beleza no rosto / Mas tem-a no coração

Se os homens, almas daninhas / Só quisessem mulheres belas
Ai das feias, coitadinhas / Ninguém casava com elas

Meu coração não receia / A calúnia rasteirinha
Eu gosto daquela feia / Feia sim, mas é só minha

Barco á deriva

Artur Ribeiro / Jorge Fontes
Repertório de José Manuel Castro

Eu busquei por esse mundo / Lugar para eu viver
Fui até me convencer / Que a igualdade é um mito

No meu errar vagabundo / Devo ter feito lembrar
Barco á deriva no mar / Em busca do infinito

Barco á deriva
Perdido no mar salgado
Por todos abandonado
Ao sabor da direção
Barco á deriva
Que um dia saíu do cais
E não chega nunca mais
A porto de salvação

Temos o mesmo fadário / De não saber como ir
Como tu, ando a fugir / Á furia dos vendavais

Também fico solitário / Também me sinto maldito
Pois no mundo em que habito / Eu sinto que estou a mais

Alfama *Gabino*

Henrique Perry / Joaquim Campos *fado vitória*
Repertório de Gabino Ferreira


Alfama antiga dos nobres
Morada do velho Gama
E da primeira nobreza;
Hoje és o berço dos pobres
Mas mesmo assim velha Alfama
Mostras que és bem portuguesa

Alfama, pela manhã
Parece uma cidadela / Onde a ambição não existe
Moira tornada cristã
Tua canção é mais bela / Cantada num fado triste

Alfama, Santa Luzia
Velando por ti velhinha / Pelas tuas tradições
Quer de noite ou quer de dia
Estás sempre aos pés da santinha / Em constantes orações

Velha mãe da minha mãe
No teu encanto bairrista / Alfama tu tens amarras
És a minha mãe também
Por isso é que sou fadista / Nasci ao som das guitarras

Perdidamente

Florbela Espanca / João Gil
Gravado pelo grupo Al Mouraria

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens, morder como quem beija
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do reino de áquem e de além dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja
É ter cá dentro um astro que flameja
É ter garras e asas de condor

É ter fome, é ter sede de Infinito

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim
É condensar o mundo num só grito

E é amar-te, assim, perdidamente

É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente

Lisboa que amanhece

Letra e musica de Sérgio Godinho
Gravado pelo Al Mouraria


Cansados vão os corpos para casa
Dos ritmos imitados doutra dança
A noite finge ser ainda uma criança de olhos na lua
Na sua cegueira da razão e do desejo

A noite é cega, e as sombras de Lisboa
São da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
Amou como se fosse a mais indefesa princesa
Que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
Ou apenas o que resta desta noite
O vento, enfim, parou, já mal o vejo por sobre o Tejo
E já tudo pode ser tudo aquilo que parece
Na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
Á noite é prisioneiro dos olhares
E ao Cais dos Miradoiros
Vão chegando dos bares os navegantes
Amantes das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
Que as dádivas da noite são eternas
Mal chega a madrugada tem que rapar as pernas
Para que o dia não traia
Dietriches que não foram nem Marlénes

Em sonhos, é sabido, não se morre
Aliás essa é a unica vantagem
De após o vão trabalho o povo ir de viagem
Ao sono fundo, fecundo
Em glórias e terrores e aventuras

E ai de quem acorda estremunhado
Espreitando pela fresta a ver se é dia
E as simples ansiedades ditam sentenças friamente ao ouvido
Ruído que á noite se acostuma e transfigura

O fado que vejo

Letra e musica de Riacrdo Anastácio
Repertório do grupo Al Mouraria

Passeio a realidade, algo toca o espirito
E toma liberdade na harmonia do que está escrito

Estendo a mão a receber um conto a encantar
Desenhando uma mulher que a vida vem embalar

Meu fado, és tu que eu vejo
Em cada lampejo português no meu olhar
Falar contigo, entoa
Este velho país num futuro por achar
Cantar o teu povo, o seu sentimento
Soltar um poema cá dentro e que sente
Fado, és vida da tua gente

A alma de um fadista vinda do beco da cidade
A história bairrista e uma guitarra de saudade

Tudo isto em seu refrão que se afirma e sabe de cor
Seja castiço ou de salão, seja menor ou maior

Primeiro beijo

Carlos Tê / Rui Veloso
Gravado pelo grupo Al Mouraria

Recebi o teu bilhete para ir ter ao jardim
A tua caixa de segredos queres abri-la para mim


E tu não vais fraquejar, ninguém vai saber de nada
Juro não me vou gabar, a minha boca é sagrada


De estar mesmo atrás de ti, ver-te da minha carteira
Sei de cor o teu cabelo, sei o shampoo a que cheiras


Já não cômo, já não durmo, e eu caia se te minto
Haverá gente informada se é amor isto que sinto


Quero o meu primeiro beijo
Não quero ficar impune
E dizer-te cara a cara
Muito mais é o que nos une

Que aquilo que nos separa

Promete lá outro encontro, foi tão fugaz que nem deu
Para ver como era o fogo que a tua boca prometeu


Julgava que a tua língua sabia a flor do jasmim
Sabe a chicla de mentol e eu gosto dela assim

Fado ao sabor da sorte

Letra e musica de Valentim Filipe
Reportório do grupo Al Mouraria


Fado, fado vida, fado ardente
Fado novo que se sente
Nas cordas duma emoção;
Fado, fado sina de mulher
Que seja o que Deus quiser
Na mágoa duma canção

Fado de amor e de dor, doce canto de saudade
Dois amores, vinho tinto entornado em liberdade

Fado triste, fado louco, que façam pouco, é o destino
Fado incerto de um poema rasgado num desatino

Fado antigo, fado amigo
Fado corrido ou vadio
Fado que nasce no peito como a nascente de um rio
Fado vida, fado morte
Fado de ser ou não ser
Quem anda ao sabor da sorte tem de aprender a viver

E quando é já madrugada / O fado toca o destino
Na noite embriagada / O fado é outra vez menino

Verdes anos

Pedro Tamén / Carlos Paredes
Repertório do grupo Al Mouraria


Era o amor que chegava e partia
Estarmos os dois
Era um calor que arrefecia
Sem antes nem depois

Era um segredo sem ninguém para ouvir
Eram enganos
E era o medo de amar-te a rir
Dos nossos verdes anos

Foi o tempo que secou
A flor que ainda não era
Como o Outono chegou
No lugar da Primavera

O nosso sangue corria
No vento de sermos nós
Nascia a noite e era dia
E o dia acabava em nós

Ao sabor dos sonhos

Filipa de Sousa / João Maria dos Anjos
Repertório de grupo Al Mouraria

Quem sou eu afinal
Neste mundo irreal
Fujo de mim e do mundo
Por linhas marcadas da vida
Procuro a frase sentida
Entregue ao sonho profundo

Não sei quem sou, nem que faço / Tento encontrar meu espaço
Onde vou ou deixo de ir
No refúgio dos sentidos / Em sonhos indefinidos
Perco-me no teu sorrir

Deixei que os sonhos entrassem / P’ra que eles me levassem
Ao mundo de amor e poder
Não sei sequer, quem tu és / Mas vendo o mundo a teus a teus pés
Deixo as frases por dizer

Silêncio e tanta gente

Letra e musica de Maria Guinot
Gravado pelo grupo Al Mouraria

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra, é um grito
Que nasce em qualquer lugar

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito, sou uma pedra
De um lugar onde não estou

Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar
Às vezes sou também um sim alegre ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra, é um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra, e este grito
São a história d'aquilo que eu sou

A gente cresce, cresce

Letra e musica de Carlos Paião
Gravado pelo grupo Al Mouraria

Já todos nós tivemos um amor há muito tempo
Desses que não se diz se são mesmo a sério ou de momento
Foi uma paixoneta de risada e de birrinhas
Mas tudo muito simples, como quem brinca ás casinhas

Já todos nós escrevemos cartas cheias de paixão
Mais erros que palavras, o que contava era a intenção
Já todos nós quisemos ser também apaixonados
Como no cinema os namorados

A gente cresce, cresce
E julga que é alguém
A vida sobe e desce e o amor também
A gente cresece cresce
Amando mais e mais
E como que adormece em mil amores iguais
E enquanto a gente cresce
Há tanto em que pensar
Mas tudo o que acontece só nos faz lembrar
Que a gente cresce, cresce
A vida toma côr
E nunca mais se esquece do primeiro amor

Já todos nós sorrimos com as nossas desventuras
Dessas paixões antigas, mil promessas, mil ternuras
E de olhos fechados nós então compreendemos
Que lá bem no fundo, não crescemos

Sou a cidade de ti

Silva Ferreira / Raul Ferrão *fado carriche*
Repertório de Chico Madureira


Se te perdesses, querida
Nos braços desta cidade
No meu sol terias vida
Nas minhas ruas, saudade

Se num largo sem ter sombras / Ficasses á minha espera
Cobriam-te asas de pombas / E já sabias quem era

Numa calçada que sou / Podias parar cansada
Que das árvores que dou / Terias sombra parada

Se te perdesses, amor / Nos braços desta cidade
Corrias ruas de cor / No meu amor amizade

E neste jardim que tenho / E nestas sombras que dou
Descobrias donde venho / E saberias quem sou

Lua cheia

Letra e musica de Belo Marques
Repertório de Carlos Barra

Aqueles dois velhinhos bem casados, namorados
De quem me lembro com saudade infinda
Deixaram este mundo á mesma hora e agora
Repousam lá no céu, talvez ainda

Viviam na casinha pequenina da colina
Velhinha como o canto dos riachos
Um quintaleiro fresco, uma hora, e á porta
Uma roseira com formosos cachos

E a Tia Maria, sorria, sorria, por tudo e por nada
E punha, ladina, um rir de menina na cara enrugada
Seu homem, coitado, alegre ou zangado, fingia amuar
Soltando queixumes, talvez com ciúmes do próprio luar

E quando p’la noitinha se sentavam na casinha
Ia aninhar-se entre os dois, a lua cheia
Eis que os seus lindos olhos se cruzavam e lembravam
Crianças a brincarem sobre a areia

Crianças casaram, crianças ficaram pela vida infinda
70 anos idos, morreram unidos, crianças ainda
E agora á noitina, naquela casinha que parece morta
Há formas sombrias de mãos fugidias que batem á porta

Em tudo na vida há fado

Letra e musica de António Alvarinho
Repertório do grupo Al Mouraria

Em tudo na vida há fado / Embora diga que não
Fado é destino marcado / Fado está escrito na mão

É jura d’amor, sentida / Ódios, ciúmes fatais
Com tanto fado na vida / Não há dois fados iguais

Sentir a falta de alguém... é fado
Beijar a face da mãe... é fado
Estar teso e não ter vintém... é fado
Não dever nada a ninguém... é fado
Cantar com amor p’ra vocês... é fado
Ter algo no fim do mês / é fado
Chegar a casa cansado
Deitar-se p’ro lado e a mulher a ver
E nada poder fazer... é fado
Ter na mesa um bom cozido, prato preferido
E não poder comer
O que é que se há-de dizer... é fado

Ninguém sabe donde vem / Ninguém sabe onde está
As voltas que a vida tem / As voltas que o fado dá

O fado a um é passado / A fado a dois é saudade
E p’ra mostrar que é verdade / Cantem comigo este fado

Mar, meu destino

Letra e musica de José Bandarra
Repertório do Grupo Al Mouraria

Sul, Oeste, Sudoeste
Costa, Vento, Barlavento, meu amor
O destino é o mar
Que o poeta ao cantar deu vida
A norte fica a serra
E as gentes da nossa terra amiga
Infante, Nau, Adamastor
Não houve parto sem dor

Onde há mar alguém sonha
Porque essa força tamanha
Faz a vida amanhecer
Tráz tempestade e bonança
Música, poesia e dança
Bem-me-quer... mar-me-quer

Ai como me apraz
Olhar este mar que faz
Sonhar com outros mundos
Por aí adiante
Navegar com vaga de levante
Bebê-lo todo de um trago

Música, poesia e dança
Bem-me-quer... mar-me-quer

Andorinha da Primavera

Carlos Maria Trindade / Pedro Ayres Magalhães
Repertório de Madredeus - Gravado pelo grupo Al Mouraria


Andorinha de asa negra aonde vais?
Que andas a voar tão alta
Leva-me ao céu contigo, vai
Que eu lá de cima digo adeus ao meu amor

Ó andorinha da Primavera
Ai quem me dera também voar
Que bom que era
Ó Andorinha da primavera
Também voar

Canção ao vento

Manuel Carvalho / Franklin Godinho
Repertório de Rosina Andrade

Cantei poemas ao vento
Voei nas asas do tempo
À procura da verdade;
Recuso ter que aceitar
Que a vida só tem p’ra dar
Amargura, infelicidade

Ainda existe a pureza
Nas coisas da natureza / E é tão bom ser-se amada
No olhar duma criança
Também vi acesa a esp’rança / Que anda de nós arredada

Passei a noite acordada
Nos braços da madrugada / À procura do amor
Eu não quero acreditar
Que se viva sem amar / Que a vida seja só dor

Olha o Sol que ainda existe
E em cada dia persiste / Em voltar com sua luz
Apesar de tudo a vida
Vale a pena ser vivida / Bendito seja Jesus

Amália por favor

Ennio Morricone / João Mendonça
Repertório do Grupo Al Mouraria

Amália...
Amália...
Amália...

Tens no olhar, na alma e na voz
O verdadeiro fado que há em nós
E preso ás cordas da guitarra vibra o teu coração
Sem saber a razão

Cantas o mar, a terra e o céu
Com o coração na voz que Deus te deu
Sete colinas e varinas e mil pregões pelo ar
E o povo a rezar

Há uma voz a cantar
Saudade, teu nome quiseste dar
Á mulher que foi Amália por amar

E a cantar tu dás tanto amor
Que morres p’ra matar a nossa dôr

E há sardinheiras nas janelas e procissões a passar
E o povo a rezar

Tens no olhar, na alma e na voz
Música no fado que há em nós

Menina das tranças loiras

Domingos Gonçalves da Costa / Maximiano de Sousa
Repertório de Max


Menina das tranças loiras / Como douradas auroras
Que o sol ardente ilumina
Não ria dos meus cabelos / Que outrora foram tão belos
Como os seus, linda menina

Esta cabeça que a neve / Já salpicou ao de leve
E onde os cabelos são escassos
Já fez acender desejos / Já descansou entre beijos
E em deslumbrantes abraços

Guarde o seu sorriso
Não faça alarde da sua beleza
Seu sorriso é preciso
Se um dia mais tarde chorar de tristeza
Não pense que o mundo ledo
É tudo sorrisos francos
E pense que tarde ou cedo
Há-de ter cabelos brancos

E como há pouco lhe disse / Vivi sonhos encantados
Que o amor iluminou
Já afaguei com meiguice / Muitos cabelos doirados
Que o tempo agreste orvalhou

Não ria pois, tenha calma / E Deus guarde as suas tranças
Da cor do sonho fulgente
Seu sorriso fere a alma / De quem vive de lembranças
Dum amor há muito ausente

Brinquei com as palavras

Paco Gonzalez / Raúl Pereira *fado zé grande*
Repertório de Joaquim Macedo


Brinquei com as palavras, fiz poemas
Na minha, a tua alma a sussurrar
Deixei p’ra trás metáforas de medo
E a rima foste tu, com teu olhar

Brinquei com as palavras, fiz a noite
O teu corpo junto ao meu, cor de avelã
Deixei p’ra trás o tema da saudade
E a praia foste tu, pela manhã

Brinquei com as palavras, fiz a água
Matando a tua sede de carinho
Deixei p’ra trás mistérios e florestas
E só te vi a ti no meu caminho

Brinquei com as palavras, fiz a vida
Fiz a terra, fiz o sol, fiz a flor
Fiz do teu corpo a alma apetecida
O leito onde repousa o teu amor

É este fado

Orlando Laranjeira / Jorge Fernando
Repertório de Luísa Basto

Este é o fado que nos prende e nos amarra
Neste desejo de amor e ansiedade
Este é o fado no trinar duma guitarra
E duma voz bem timbrada em versos de liberdade

É este o fado meio gingão e meio vadio
Que cantado ao desafio
Nos vem trazer a lembrança
De que este fado bem alegre e desgarrado
Há nascença foi marcado
Pela onda da esperança

E traz o vinho para a mesa da alegria
Que alimenta esta nossa fantasia
E mata a sede deste querer, desta vontade
Deste grito de saudade
Nascido da nostalgia

Este é o fado de varinas e pregões
É a tristeza da cautela não vendida
É este o fado de romaces e paixões
De poetas e canções que ficam p’ra toda a vida

Sopa á portuguesa

José Luís Gordo / Nóbrega e Sousa
Repertório de Ada de Castro

Com legumes de saudade
Faço sopa á portuguesa
Que se come na cidade
Desta terra portuguesa

Com legumes de cansaço
Cheirando a terra sadia
Sempre com sopa e bagaço
Começa o povo o seu dia

Uma sopa á portuguesa
Aquece a tristeza dum pobre sem ver
Fumegando vem p’ra mesa
E faz a riqueza de quem a comer
Uma sopa á portuguesa
Aquece a tristeza de uns olhos que a espreitam
Tem o cheiro deste povo
Tão velho e tão novo, num fio de azeite

Já tiveste tantos nomes
Minha sopa á portuguesa
Já foste a sopa dos pobres
Numa fila de tristeza

Aqueceste tantos lares
Em noites de tanta fome
É por isso que te canto
O teu cheiro e o teu nome

Nasci fadista

José Luís Gordo / José Marques
Repertório de Carminho

Ó gente, nasci fadista
Não me chamem de artista
Fado é outra condição;
Fazer do pranto alegria
Transformar a noite em dia
Ter alma no coração

Ser amante da saudade

Ter Lisboa por cidade / Gostar de Alfamas de gente
Ter nos olhos a tristeza

Dar ao fado esta riqueza / Que só esta gente sente

E do povo ter o cheiro

Ser barco sem marinheiro / Ser mais além do que artista
E dentro deste meu peito

Da minha mãe tenho o jeito / Ó gente, nasci fadista

A cidade a horas mortas

José Guimarães / Manuel dos Santos
Repertório de Fernando João

Almas vencidas na cidade a horas mortas
Vidas perdidas sem saber p’ra onde vão
Em cada rua há sempre um vulto qualquer
Um homem, uma mulher
Amantes da solidão


Do candeeiro da esquina
Densa névoa esconde a luz
Parece uma lamparina
A iluminar uma cruz;
Essa cruz de tanta vida
Que não tem luz, não tem nada
Quanta verdade escondida
Nas sombras da madrugada


Passos marcados batem nas pedras da rua
Olhos cansados vagueando ao Deus dará
As horas mortas são refúgio dos sem nada
Que encontram na madrugada
O que o dia não lhes dá

Quase feliz

José Luís Gordo / Carlos Simões Neves *fado tamanquinhas*
Repertório de Patrícia Rodrigues

Fui sol da noite em meus dias
Estrela dum céu coalhado;
Fui vento em pratas vazias
Castelos de fantasia
Nas areias do meu fado

Não me matarei por ti / Mas por ti eu morrerei
Tudo ganhei e perdi / Num amor quase feliz
Mas por fim eu me encontrei

Alevantados do chão / Andam meus olhos em ver
Porque motivo ou razão / É que rasgo o coração
Que teima em me acontecer

Rosa azul, céu infinito / Parado na madrugada
Tanto silencio num grito / Porque chego aonde não fico
E andando fico parada

Silêncio, não quero falar contigo

José Luís Gordo / Carlos Macedo
Repertório de Natalino de Jesus

Silêncio...
Não quero falar contigo
Não me turves mais as águas que tenho para chorar
Silêncio...
Não quero falar contigo
Já me basta este castigo de não me saber encontrar

Silêncio...
Não quero falar contigo
Já o rio galgou as margens gritando num outro mar
Silêncio...
Não me grites, por favor
Já me roubaste o meu tempo que tinha para te dar

Silêncio...
Não quero falar contigo
Vai-te embora do meu quarto, quero estar a sós comigo
Silêncio...
Não quero mais esta água
Quero esquecer esta mágoa, mas contigo não consigo

Esta voz *R.Ribeiro*

José Luís Gordo / José Marques do Amaral
Repertório de Ricardo Ribeiro


Esta voz que canta em mim
É um rio que se desata
Ao beijar o teu jardim
Com sete fontes de prata

Quando choro e quando canto / É com prazer e tristeza
Sou como a reva do campo / Presa ao chão da natureza

Olho a papoila que baila / Nos teus lábios rubra cor
E há uma voz que me cala / Nos teus olhos. Meu amor

Há milhões de pensamentos / Que são teus todos os dias
E há sete espadas de ventos / Golpeando as ventanias

Guitarra companheira

José Luís Gordo, Carlos Macedo / José Marques do Amaral
Repertório de Carlos Macedo


Há quanto tempo te canto
Poemas que só eu sei
Todos os dias o pranto
Deste fado, te ensinei

São carícias que te faço / Quando te encosto ao meu peito
Se choras no meu abraço / Eu choro do mesmo jeito

Faço correr os meus dedos / No teu corpo de menina
P’ra desvendar os segredos / Do fado que é minha sina

Meu coração te pertence / Minha alma se desgarra
Este amor que ninguém vence / Ó minha querida guitarra

Sete pedaços de vento

José Luís Gordo / Custódio Castelo
Repertório de Cristina Branco

Entrego ao vento os meus ais
Onde o desejo se mata
Sete desejos carnais
Que o meu desejo desata;
Meus lábios estrela da tarde
Sete crescentes de lua
Que o desejo não me guarde
Na vontade de ser tua

Quero ser, eu sou assim / Sete pedaços de vento
Sete rosas num jardim / Num jardim que eu própria invento

Sete ares de nostalgia / Sete perfumes diversos
Nos cristais da fantasia / Amante de amores dispersos

Sete gritos por gritar / Sete silêncios, viver
Sete luas por brilhar / E um céu por me acontecer

Gaivota em teu cais

Maria de Lourdes Carvalho / Carlos Macedo
Repertório de Carlos Macedo

Quem me der ser gaivota
Desse teu cais por achar
Quem me dera ser gaivota
Em teus olhos cor do mar

Do suco do teu sorriso / Meu alimento tirar
Quem me der ser gaivota / Para em teu corpo poisar

Voar rentinho tão perto / Mergulhar na tua boca
Quem me der ser gaivota / Meio perdida, meio louca

Em teus olhos cor do mar / Meio perdida, meio louca
Para em teu corpo poisar / Fiz um cais em tua boca

Adoro essa mulher

Letra e musica de Carlos Macedo
Repertório do autor


Tenho um amor que me quer
E que eu quero sem limite
Eu digo p’ra quem quiser
E quem quiser que acredite

É bem verdade o que digo
Adoro essa mulher
O que passa comigo
Não sei nem quero saber

Gostar de ti como eu gosto eu aposto ninguém gosta
As loucuras que nós temos e fazemos, eu preciso
Preciso de estar contigo, ser amante, ser amigo
Com teus beijos fico louco e pouco a pouco sem juízo

Tu dizes que me queres bem
Eu digo que bem te quero
O nosso amor tudo tem
Até tem amor sincero

Ao ciúme ninguém liga
De nada temos receio
O nosso amr não tem briga
Tem amor de prato cheio

Se eu não voltar amor

Mário Raínho / Renato Varela *fado varela*
Repertório de António Rocha

Se eu não voltar amor, para os teus braços
Aonde primaveras descobri
Decerto se perderam os meus passos
Cansados a tentar saber de ti

Se eu não voltar amor, ao teu sorriso
Sorriso aberto como um dia a despertar
Não julgues meu amor que não preciso
Da imensidão do sol do teu olhar

Se eu não voltar amor, para o teu peito
Almofada de sonho e de prazer
Chora por mim o fado mais perfeito
Que morro de saudades, podes crer

Rua da amargura

Manuel Paião / Eduardo Damas
Repertório de António Mourão

Rua da amargura
És a noite escura do meu coração, assim
Rua da amargura
Mataste a ternura que viveu em mim

Rua da amargura
Vive sem ventura, vive só de dor
Rua da saudade e da crueldade
Rua sem destino dum perdido amor

Rua da amargura
Hoje é só tristeza e recordação, p’ra mim
Desde que partiste
Hoje é rua triste, é rua sem fim

Só a saudade amor
Meu peito é somente dôr
Meus olhos choram por ti... não mais te vi
Uma saudade sem fim
Eu trago em mim tristeza e dôr
Rua da amargura, rua feia e escura, rua sem amor

O Pajém

Fernando Teles / Alfredo Duarte
Repertório de Alfredo Marceneiro

Todas as noites um pajem
Com voz linda e maviosa
Ia render homenagem
À Marquesinha formosa

Mas numa noite de agoiro / O Marquês fero e brutal
Naquela garganta de oiro / Mandou cravar um punhal

E a Marquesa delirante / De noite em seu varandim
Pobre louca alucinante / Chorando, cantava assim:

Óh minha paixão querida / Meu amor, meu pajem belo
Foge sempre, minha vida / Deste maldito castelo

Teu passo miúdinho

José de Vasconcellos e Sá / Alfredo Duarte *fado bailarico*
Repertório de António Pinto Basto


Quando há dias te encontrei
Tua figura intrigante
Sugeriu-me o arco-iris
Fez-me para um instante

O teu passo miudinho / Decidido mas brejeiro
Muito leve, cor de arminho / Cheirou-me a campo em Janeiro

Terra humida, fogosa / A pedir semeadura
Lembraste uma flor mimosa /Cheia de força e candura

Ao envolver-me esta aurora / Julguei-te a rua da vida
Afinal foste-te embora / Estou num beco sem saída

Nem uma vez consegui / O amor de uma mulher
Quando te encontrei a ti / Foste mais uma qualquer

O pierrot

Linhares Barbosa / Alfredo Duarte
Repertório de Alfredo Marceneiro


Naquele dia de entrudo, lembro bem
Um intrigante pierrot, da cor do céus
Um ramo de violetas, pequeninas
Á linda morta atirou, como um adeus

Passa triste o funeral, é duma virgem
Mas ao povo que lhe importa, aquele enterro
Que a morte lhe passa á porta, só por ele
Em dia de carnaval, e de vertigem

Abaixo a máscara, gritei, com energia
Quem és tu grossseiro que ousas, profanar
Perturbar a paz das lousas, tumulares
E o pierrot disse não sei, e não sabia

Sei apenas que a adorei, um certo dia
Num amor todo grilhetas, assassinas
Se não vim de vestes pretas, em ruínas
Visto de negro o coração, e resoluto;
Atirou sobre o caixão, como um tributo
Um ramo de violetas, pequeninas

Palavras de vento

Tiago Torres da Silva / Alzira Espindola
Repertório de Maria João Quadros


O vento que vem do mar
Traz abandono nos lábios
Talvez por vir devagar
Testemunha de naufrágios

Ele contou-me um segredo / Talvez um dia o cante
Agora não, tenho medo / Que uma onda se levante

Aquilo que o vento diz / Só poucos podem escutar
Que ele é vento por um triz / Quando sopra devagar

O vento canta baixinho / Nos anéis dos meus cabelos
Porque vem devagarinho / Testemunha de degelos

E mesmo quando ele pára / Como se não existisse
Eu sinto na minha cara / Tudo aquilo que ele disse

Não esqueças o meu lamento / Não me dispas a nudez
Eu não deixo de ser vento / Só porque tu não me vês

A menina do mirante

Henrique Rego / Alfredo Duarte
Repertório de Alfredo Marceneiro

Menina lá do mirante
Toda vestida de caça
Deite-me vista saudosa
E um adeus da sua graça

A menina é o retrato / Sem mesmo tirar nem pôr
De quem me prendeu de amor / Nas festas de São Torcato;
Tem mesmo um olhar gaiato / Expressivo, embriagante
E essa boca insinuante / Onde a alegria perdura
É romã fresca madura
Menina lá do mirante

Anda a brisa, com desvelo / Perfumada a lúcia-lima
A saltitar-lhe por cima / Dos anéis do seu cabelo;
Abençoado modelo / De mulher da minha raça
Pois toda a gente que passa / Olha os céus e diz ao vê-la
A menina é uma estrela
Toda vestida de caça

Ó meu amor vá um dia / À minha terra e verá
Que do seu mirante lá / É um voo de cotovia;
Verá como se extasia / Ante a paisagem formosa
Que se estende graciosa /Num encanto sem limite
Caso aceite o meu convite
Deite-me vista saudosa

No domingo há procissão / Com andores dos mais ricos
Bodo aos pobres, bailaricos / Fogo preso e animação;
Lá encontra um coração / Que de amor se despedaça
Portanto, a menina faça / Esse coração vibrar
Dando-lhe um simples olhar
E um adeus da sua graça

Mocita dos caracóis

Linhares Barbosa / Alfredo Duarte
Repertório de Alfredo Marceneiro


Mocita dos caracóis
Não me deixes minha querida;
Não ouves os rouxinóis
A cantarem como heróis
A história da nossa vida

Se abalares da nossa herdade / Os teus encantos destróis
Irás atrás da vaidade / Que a moda lá na cidade
Não são desses caracóis

/ Teu cabelo é lindo e loiro De caracóis verdadeiros
Na cidade esse tesoiro / É comprado a peso d’oiro
Nos grandes cabeleireiros

Dá-me a tua mocidade / Que eu dou-te a minha depois
Não queiras ir p’rá cidade / Porque eu morro de saudade
Mocita dos caracóis